Livro "Um Traçado Preciso da Dança" - Ana Vitoria Dança Contemporânea

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um traçado preciso da dança


© 2010 Ana Vitória Produção editorial 7Letras Projeto Gráfico e Diagramação Karin Palhano Organização Ana Vitória Revisão Deborah Prates Fotos Capa e quarta capa – Renato Mangolin Biassino Gessualdi – pp. 12, 19 e 120 Robson Drummond – pp. 20, 21, 22, 26, 27, 29, 30, 31, 32, 33, 37, 38, 40, 41, 42, 43, 54, 57, 58, 60, 61, 65, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 82, 83, 84, 85, 94, 95, 100, 106 e 116 Vera Millioti – pp. 23, 39, 55, 56, 117, 118 e 119 Renato Mangolin – pp. 86, 87, 88, 89, 90 e 91 Sérgio Vieira – pp. 98 e 99 Mauro Kury – pp. 104 e 105 Bruno Veiga – pp. 108 e 109 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

V828t Vitória, Ana Um traçado preciso de dança / Ana Vitória. – Rio de Janeiro: 7Letras, 2010. 163p.: il. color. ISBN 978-85-7577-673-5 1. Vitória, Ana. 2. Bailarinas - Brasil. 3. Dança - Brasil. 4. Coreografia - Brasil. I. Título. 10-1910.

CDD: 792.8

2010 Viveiros de Castro Editora Ltda. R. Goethe, 54 Botafogo Rio de Janeiro RJ cep 22281-020 Tel. (21) 2540-0076 editora@7letras.com.br | www.7letras.com.br

Cia Ana Vitória R. Real Grandeza 46 / casa 1 Botafogo Rio de Janeiro RJ Brasil cep 22281-030 tel (21) 2527-6564 / (21) 9968-3585 www.anavitoria.com.br


Para os meus Mestres Angel Vianna Jean Marrie Dübrul



em memória de Robson Drummond



Assim começo todos os meus projetos, arremessada dentro do labirinto que nunca sei aonde vai dar. Ana Vitória


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A música não requer a luz. No teatro ela pode ser dispensada. Na literatura também: lembro da frase de um grande crítico literário comentando que desde que ficou cego e conseguiu ler em braille se consolava, nas noites frias de inverno, podendo ler o livro debaixo das cobertas. E Homero era cego. Mas na dança... luz e movimento bailam e se expressam juntos. Assim como corpo e espírito uno são. Embora só muito recentemente isso tenha voltado a ficar claro para os filósofos que, vanguarda, conseguiram ver o óbvio. A liberação do corpo talvez não tenha encontrado maior visibilidade do que a proporcionada na dança contemporânea. Não há cinema, fotografia, ginástica, acrobacia, esporte que, embora tentando disso escapar, não acabe por confinar o corpo e seus movimentos num código de representação ou num sentido de utilidade para um propósito específico. Liberar o corpo é muito importante para libertar a mente. E a luz que tudo ilumina, permite a “divisão” dessa sensação por muitos. E entra na dança: com seus tons, cores, com suas nuances, com as sombras que produz.

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“Nasci para bailar. Por que negar?” Ana Vitória há 15 anos refina esse processo, que a Light ajuda a jogar uma luz permanente apoiando a edição deste livro-memória de um trabalho que se estende desde pequenos palcos de vilas achadas nas estradas do Nordeste até frente às grandes platéias das nossas maiores cidades. Sempre com uma grande qualidade intrínseca e permanente busca da perfeição, de proporcionar o prazer e de ensejar a descoberta. Dança impressionista. Dança revolucionária. Dança que não para na cabeça de quem assiste.

José Luiz Alquéres Presidente Associação Comercial do Rio de Janeiro

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APRESENTAÇÃO Ana é Baiana e é Vitória também... As nuvens sempre me encantaram assim como minha curiosidade em conhecer de perto Ana Vitória. Acompanhava seu trabalho e sua história de longe e cada vez me sentia mais próxima. Este encontro há tanto esperado aconteceu quando abri a Faculdade Angel Vianna em 2001. Ana Vitória passou a integrar nossa equipe de trabalho lecionando as disciplinas Técnica de Dança Contemporânea e Composição Coreográfica. Encantei-me com sua personalidade, com sua maneira criativa de ver a vida, a dança e com toda sua plenitude e singularidade. Angel Vianna — Uma biografia da Dança Contemporânea, livro produzido por Ana Vitória em 2005, nos aproximou cada vez mais. Em cada momento constatava novas e ricas contribuições teórico-práticas no trabalho pedagógico de Ana Vitória. Na composição coreográfica um novo campo de construção do ser humano; um conjunto de reflexões e suas potencialidades, atividades lúdicas e criativas fortificando, respeitando e promovendo o crescimento do indivíduo. Sua Companhia com 15 anos de existência, muito tem contribuído para o desenvolvimento e pesquisa no campo das artes, no âmbito nacional e internacional. Seus trabalhos coreográficos encantam tanto nas pesquisas do movimento, sonoridade, coreografia e são sempre uma surpresa! É fundamental, para falar de Ana Vitória, ter presente a rica contribuição, como bailarina, coreógrafa, diretora e mestra no cenário nacional.

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Ana Vitória ultrapassava os obstáculos sem tropeçá-los buscando sempre novos e novos caminhos... Ana Vitória, falar de você em palavra é mais difícil do que em movimento. Um dia eu danço Ana Vitória.

Angel Vianna

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PERUINHA Conheci “Peruinha”, uma menininha toda miudinha, de aspecto delicado, como aluna das primeiras turmas da Escola de Dança da Fundação Cultural da Bahia. Nunca soube por que lhe deram este apelido carinhoso, acho que devido seu ar de filhote de passarinho... Depois de suas idas e vindas pelo mundo afora — sempre em busca de condições que lhe proporcionassem novas descobertas, desde seu aperfeiçoamento interpretativo coreográfico, domínio técnico do movimento até e, principalmente, novas linguagens da dança — reencontro, com surpresa, uma outra mulher, não mais a frágil menininha, mas a bailarina, coreógrafa e pesquisadora dotada de uma forte densidade expressiva. O conceito de beleza ultrapassado da dança convencional foi rompido e substituído pela explosão do “gesto verdadeiro”, expressão do homem e da mulher comum das grandes cidades, que não cabe nos padrões estéticos de movimentos tecnicamente pré-estabelecidos. Busca-se uma nova gramática da dança e uma nova dramaturgia coreográfica através da construção de novos corpos dos intérpretes-autores. A forma peculiar de Ana Vitória simbolizar o mundo através de seus movimentos, códigos tão íntimos quanto escancarados, nos remete à uma sensação indizível que só a ambiguidade do gesto significativo pode alcançar, uma qualidade imanente da linguagem poética da dança que Ana tão bem sabe explorar. A bailarina Ana Vitória magnetiza os expectadores, independente da eventual narrativa coreográfica e possível dramatização temática.

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O gestual de Ana Vitória apresenta o choque entre a delicadeza sutil e o impacto agudo cortante, com o poder de imantar o espaço, atribuindo ao ambiente cênico uma qualidade sensível e eletrizante que irradia todo o entorno de seu corpo em movimento. Ana Vitória vem construindo seu trabalho de natureza efêmera, pois trata-se de “movimentos que se desmancham no ar”, com uma rigorosa precisão e vitalidade, contrabalançado pela sua ternura inteligente e desavergonhada disposição de se expor até pelo avesso. Sua coreografia não se refere a uma cartografia física, nem a uma cultura restrita, abrangendo um conceito contemporâneo, num universo muito próprio. Seu maior desafio é contaminar o elenco de intérpretes de sua companhia com este sentido perspicaz do movimento. O trabalho cênico — incluindo luz, som e estética visual de Ana — é requintado e minuciosamente detalhado, e propõe um desdobramento de seu conteúdo, num amplo leque de perspectivas subjetivas, a depender das referências de cada olhar. Esta Ana “Peruinha” agigantou-se profissionalmente, desenvolvendo simultaneamente sua competência como bailarina intérprete, como coreógrafa, como diretora de companhia e ainda como produtora cênica, pois sem o conjunto dessas capacidades, nesta nossa terra, não se realiza uma arte consistente. E agora está se infiltrando na área de registro não só corporal, mas da documentação da sua dança, uma linguagem fugaz que tem a capacidade de alcançar um nível de comunicação tão profundo e sutil que merece mais que documentos de imagens em movimento, requerendo uma reflexão crítica e sensível sobre este fenômeno. Lia Robatto

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[[ Valises

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“A maior distância entre dois pontos é o espaço da dúvida” Fabiana Dultra Britto

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Valises: as pregas da alma Uma das desgraças de nosso tempo é ter encerrado a loucura na jaula médica da doença mental. Mas a loucura continua sendo o caos de que necessitamos para acabar com o estereótipo. Esta aliança entre ambos é talvez o devenir comum a todos os devenires. Não há um devenir são, um devenir-razão. A razão classifica em modelos, regras, padrões. Aquilo que o mecanismo paranoico da razão, do Estado divide, classifica, separa, a maquinaria esquizofrênia da loucura mescla, une, conecta. O devenir louco de Vera passa e se conecta com o devenir louco de Ana Vitória Freire em “Valises”. Formam uma linha de graça feminina que é como a brisa do mar para os fornos das cidades. Uma chuva de bençãos que lava e refresca o deserto urbano. A foto de Ana é o acontecimento incorpóreo que sobrevoa a coreografia. Ana abraça a si mesma. “Desdobramento esquizofrênico” poderia sentenciar a psiquiatria clássica. Mas não é isso. A loucura de Ana e de Vera está além de qualquer classificação. É a grande saúde. Não há desdobramento porque se trata de uma outra forma: a prega. Ana não se divide em duas Anas, não há cisão da personalidade. A loucura entre Ana e Vera é o devenir louco do tempo. Esta foto é uma foto infinitiva, a forma vazia do tempo que percorre todas as temporalidades possíveis. Divide infinitamente o presente entre um passado que não termina de passar e um futuro que não termina de chegar. Nesse ponto impossível, nesse vértice abissal, a prega do tempo faz com que passado e futuro se pertençam mutuamente nesta terna atualidade, que o bom senso comum, no entanto, só poderiam entender como um tempo sucessivo.

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Estas valises que estão vivas, que vibram intensamente em seu lugar, são o signo da viagem. Heidegger nos recorda que o demente é o viajante porque está a caminho de um outro lugar. Torna-se alheio e estranho ao que é comum às maiorias que estão refugiadas, seguras em seus lares. Mas esta “outra parte” para onde ele vai, não é “outro lugar”, mas um lugar outro, o fora absoluto que impulsiona o sentido novo que está criando. Estar a caminho, seguir a trilha, é estar no entremeio permanente. Este entremeio, no qual o viajante abre um caminho, é a busca da morada que o abrigará. Ainda que nunca a alcance. Não importa. Talvez precisamente porque nunca chega a ela, o caminho que faz não vale só para ele, mas, sobretudo, para as maiorias que, no abrigo de seus lares, ainda não habitam propriamente esta terra (mesmo que creiam fazê-lo). A natureza desta alma é vagar por trilhas obscuras na mais absoluta solidão. O espírito a alenta em seu caminhar até a melancolia. Entre as duas Anas, a prega do tempo é a prega da alma. No entremeio estão a dor, a melancolia e a ternura. Estas são as linhas sobre as quais as pregas na alma se dobram. Gesto no qual a alma é conduzida à univocidade do ser. Se tudo o que é vivo é doloroso, é porque este é o índice de gozo: o ser da pulsão de vida. O abraço de Ana fala de uma ternura infinita, abriga a dor cálida no peito, Os viajantes sofrem, padecem. Mas a sua dor é o índice, o indicador do estar no entremeio, nessa parte nenhuma da viagem. Nômades espirituais que buscam na terra a morada para a alma humana. Sua viagem é uma fuga ao estereótipo, à mediocridade de vida. Mas não fogem da terra. Pelo contrário, nos recordam que ainda não sabemos habitá-la porque não conferimos à diferença seu verdadeiro lugar. Separamo-nos e brigamos por conta de divisões paranoicas. Ainda não reconhecemos a linhagem comum a todas as famílias. Ainda não encontramos o fundamento da vida em comum. Por isso, o ser do viajante continua sendo o estar a caminho. Ao abrigo das estrelas, fazendo pregas no tempo para desdobrar a vida em sua potência mais pura. Gabriel Galli um traçado preciso da dança |23


Pra começo de conversa, pense AZUL!

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Nem a melhor memória ou a mente mais imaginativa produzirá uma imagem plena de AZUL. Não importa. AZUL não é um, pleno; mas infinitas possibilidades — tal como um segredo Bachelard, só se comunica uma orientação, sem jamais poder dizê-lo objetivamente. E a “possibilidade” mais interessante será aquela que se comunica com outras, impensadas no ato de representar mas insurgentes pelo ato de contemplar. É através dessa expansão de azuis que ALEJANDRO KANTEMIROFF nos comunica a orientação do seu segredo. Seus azuis escapam para espacialidades e tonalidades imprevistas pelo foco de luz original; como um sanduíche, a luz central; ou se dilui esbranquiçando até quase só restar o AZUL da memória. Mas houve, ainda nesta sala, uma outra orientação do segredo: pra conversar com seu AZUL, Alejandro expandiu sua pintura para a dança. ANA VITÓRIA FREIRE fez seu corpo dançar azul, ao som de... “uma conversa” — como ela se refere ao Adagietto da Sinfonia n°5 de Gustav Mahler. Seus movimentos começam pulsando no canto direito da sala. As mãos sobre o ventre escapam energicamente, uma da outra, até o corpo se expandir — como na pintura — em espacialidade e tonalidade: extensões lentas, controladas dos braços e passos adquirem uma sutil sensualidade com os recolhimentos súbitos. Não há constâncias, apesar da fluidez dos movimentos; e as repetições não se repetem mas sublinham o que veio antes, trazendo novas tonalidades a cada vez. Seu corpo girando expande a movimentação em lateralidade mas alcançam profundidade pela conversa com o azul das telas ao fundo. Uma coisa remete à outra e é como um redemoinho que essas possibilidades de AZUL nos alcançam, até que a movimentação volta à pulsação inicial, agora no centro, pontuando a conversa que existiu nesta sala. O segredo desta conversa? Sua expansão em ecos, até quase só restar sua pulsação. E saímos pulsando AZUL. Se depois dessa exposição no ACBEU você ainda quiser conceituar AZUL, então consulte o Aurélio ou veja o nascer do sol sobre o mar de Salvador entre nuvens de uma noite chuvosa. umFabiana traçado preciso da dança |25 Dultra Britto


[[ CoRpo ProviSóriO

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“TENTATIVA DE DAR ESTABILIDADE AO QUE NÃO É ESTÁVEL — O CORPO, ESSE ETERNO PASSAGEIRO DEIXANDO APENAS SEUS RASTROS” Fabiana Dultra Britto

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[[ antimatéria 30 | ana vitória dança contemporânea


Dois Sonetos Vitorianos 1. Antimatéria Não dança circunscrita ao frágil gesto de cuja duração se traça a história, mas busca de uma extrema trajetória: do corpo que, de espaço tão repleto, no gesto se projeta, e faz do afeto um outro espaço — e juntos (muito embora ainda os mesmos), fonte de outras formas, se fundem neste espaço além do objeto. Não dança que se esquece — e sim, perene, aquela que perdura, porque feita do tempo além do tempo (eterna espera): não dança que se traça no presente, mas dança que ata espaço e tempo — afeita à física fugaz da antimatéria. Henrique Marques-Samyn

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[[ Cedo Estarei Pronta

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Meus temas nascem do entusiasmo pela possibilidade de manipular certos materiais e certas realidades. Origina-se, porém na capacidade que tenho de me relacionar com eles e se concretizam pela provocação que é dançar. Ana Vitória

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O encontro extraordinario da Companhia Ana Vitoria Dança contemporanea com uma cidade pre-moderna dos sertoes da Bahia e/ou A chegada do gelo em Macondo?

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Um dia eu estava na estrada que liga Cabrobó a Garanhus tentando uma carona que ninguém dava, porque os anos 70 tinham acabado antes de 1979, e uma das regras da Nova Era era “carona nem pensar”. Fiada nas exceções eu esperava e ela chegou formatada numa Marinetti ocupada por uma companhia de dança que precisava de camareira. Consegui o emprego. O trabalho era duro. As bailarinas “não têm sujo atrás da orelha bigode de groselha calcinha um pouco velha” porque bebem água de coco sem parar. E eu fui a provedora. Atravessamos cidades e cidades que Marinetti nunca supôs. Algumas célebres pela qualidade das ervas ou das uvas que produzem. Outras pela ausência de qualquer objeto criado após a Idade Moderna. Dito isso, acrescento que a viagem correu sem monotonia. O iluminador da companhia Milton Giglio bebia álcool, fumava cigarros comerciais, ações distantes do universo apolíneo das bailarinas, e comia tatus banhados de dendê protegidos pelo Ibama. Fomos obrigados à amizade. Então, numa dessas cidades de 100 casas, um armazém, um templo católico e um cinema criado para o cinematógrafo, entendi o que estava fazendo ali, providenciando água de coco para bailarinas sedentas, varrendo camarins e encolhendo um linóleo sempre maior que todos os palcos percorridos. Descobri quando vi a mesa de luz sair do trio elétrico do prefeito da cidade na mão direita do iluminador, mão e mesa quase do mesmo tamanho, e fazer a luz do espetáculo promovendo o encontro extraordinário dos habitantes/espectadores macondianos com a companhia de dança contemporânea. Descobri, também, porque estávamos sendo transportados pela Marinetti. Não sei se a cidade assistiu ou conviveu uma outra vez com alguma coisa contemporânea, mas naquele momento, quase à luz de velas, ela foi tocada pela astúcia da serpente e entendeu que havia outros universos além de Macondo. Sem vírgulas, metonímias, corruptelas, aspas ou parênteses. Só o verbo feito carne. Aninha Franco um traçado preciso da dança |35


s e m t í t ul o

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“Dançar é cultivar a inteligência do corpo no espaço” Jean Marie Dubrül

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[[ 1,

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s e G u N do...


1, Segundo... Quando a exatidão encontra sua materialidade no corpo da Dança, espaço e tempo tornam-se apenas interfaces de um pensamento. No cruzamento deste espaço e deste tempo estão os interstícios de uma fisicalidade cotidiana, explorada pela Ana Vitória Dança Contemporânea. O gesto mínimo, exato, pontiagudo rasga os limites de seu contexto para transformar-se em matéria prima de movimento. O detalhe não é mais detalhe. O percurso não se derrete no acaso. O macro se deslinda em micro. Tudo tem sua execução no milímetro cinético. Convite para se olhar Dança sob outras lentes. Desde que a bailarina e coreógrafa Ana Vitória lançou-se ao desafio de construir no corpo de outros bailarinos o que antes era sua assinatura física de Dança, pôde-se observar como sua exatidão se traduz em outros cotidianos. Tempo e espaço dilatados, pensamento em ebulição. Quem agora se lança ao desafio de entender esta Dança tem como tarefa antes perceber que o gesto, plural, pode encontrar na exatidão, no percurso afiado do movimento de cada bailarino, uma reverberação do que antes estava no corpo de Ana Vitória. Este é um modo bastante sofisticado de entender Dança. E, no caso de Ana Vitória Dança Contemporânea, sua condição primeira.

Roberto Pereira

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Os olhos, o brilho dos olhos Quando penso em Ana Vitória a primeira imagem que me vem é a dos seus olhos: o brilho dos seus olhos. Presente e evidente em cada momento que a encontro nas passagens dessa vida, me alegra perceber que toda a tenacidade, entusiasmo, coragem, determinação e sensibilidade ali se concentram e continuam a luzir, desde os tempos em que foi minha aluna na UFBA. Já naquele momento demonstrava disciplina e curiosidade, esses dois elementos primordiais para uma boa formação e que trazem imensa gratificação a um professor de dança. Lembro que Ana Vitória estava sempre lá, muito cedo, antes de a aula começar, alongando-se, preparando-se com dignidade e respeito ao seu corpo, já construindo o caminho da pesquisa com interesse. Foi uma aluna exemplar, presente, colaborativa e, sobretudo, muito curiosa. Perguntava sempre e muito, queria saber como cada movimento funcionava, qual a sua qualidade, sua mecânica, sua expressão.

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Assisti muitas vezes a sua atuação no Grupo Tran Chan, quando ainda estava em Salvador e sempre me encantava vê-la no palco: pequena que se tornava tão imensa e tão forte expressivamente. Apesar de ter absorvido muito bem o estilo desse grupo, era fácil observar que colocava sempre uma qualidade única, uma assinatura pessoal no movimento, o que veio a desenvolver excepcionalmente bem quando começou a criar sua própria obra coreográfica. Da mesma forma, não posso esquecer o impacto que senti ao assistir o belíssimo Valises, percebendo o quanto de verdade estava posto ali, em cada gesto, cada movimento, cada respiração. Além do primor coreográfico, o cuidado com a iluminação, o bom uso de elementos cênicos e ótima escolha musical fazem desse trabalho um excelente exemplo de simplicidade e êxito artístico. Até hoje lanço mão desse exemplo em minhas aulas de análise crítica da dança contemporânea. Assisti a outros trabalhos seus e vejo que, a cada um, ela vai aprimorando seu fazer; sua pesquisa de movimento se aprofunda e sua arte cresce. Intensa como dançarina, precisa e muito criativa como coreógrafa, não se acomoda apenas nesses papéis mas se multiplica como mãe, estudiosa da dança, pesquisadora e professora. Sempre múltipla. Séria em cada proposta ou direção em que se lança, ela vai trilhando seu caminho, como se possível fosse desenhar o destino. Observo-a de longe e me encanta constatar que nunca desistiu dessa luta, por vezes tão árdua e sem reconhecimento, que é o caminho da arte e da dança no Brasil. O brilho nos olhos continua. Que permaneça. Eliana Rodrigues um traçado preciso da dança |43


Orixás, Quixotes e outras Valises Culturais

O corpo na dança contemporânea de Ana Vitória Por sua capacidade simbólica de fazer refletir, a arte é fundamental em qualquer período da história das culturas, embora em alguns momentos alcance maior visibilidade, seja pela inovação ou provocação que apresenta, pelo apoio que recebe do público, por ações e políticas públicas e privadas de incentivo à criação ou ainda pela divulgação e por seu registro para a posteridade. Nos anos 1990, período de efervescência em que produtores culturais investiram trazendo grandes companhias internacionais para turnês que passavam pelo Rio de Janeiro, novos grupos surgiram ou fixaram raízes na cidade. A coreógrafa Ana Vitória Freire transferiu-se da Bahia para a cidade nesse contexto, montou a Companhia Ana Vitória Dança Contemporânea e levou para a cena um corpo de características fortes, temáticas ora urbanas ora voltadas para suas raízes culturais, ora míticas ora contemporâneas. A reunião desses aspectos mostrou seu trabalho como dono de qualidades singulares. Quinze anos depois de sua fundação, um olhar restrospectivo mostra que a artista experimentou corpos, formatos para a companhia, temas, técnicas, mas apontou para uma trajetória em que algumas marcas permanecem e se identificam em diferentes espetáculos. A precisão na execução de cada gesto e movimento aparece na primeira peça da companhia, o solo Valises, de 1996, em que já se destacavam braços em movimentos curtos, rápidos, exatos e pernas que parecem

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Quando se acompanha o trabalho de uma companhia, observa-se como coreógrafo e intérpretes entendem o mundo, como refletem valores e origens. Técnicas e tecnologias fazem parte da história da dança, seu uso reforça a expressão de visões de mundo, de culturas através da arte e, no caso da dança, através dos corpos que se movimentam e se imobilizam em cena. Partindo do aniversário de quinze anos da companhia de Ana Vitória, este curto ensaio busca pensar sobre o corpo como meio de comunicação e registro da dança. Para isso, é fundamental entender que tanto a arte quanto a corporeidade surgem no cruzamento entre os sistemas individuais e coletivos. São a um tempo frutos ou “produtos” sociais e subjetivos.

Do corpo à mídia É o corpo — esse lugar cultural, de crenças, conceitos, preconceitos, posturas, técnicas corporais — que constrói ou desconstrói a dança. Um corpo que sendo cultural se submete a técnicas de movimentação para expressar uma determinada ideia. Em uma companhia de dança opera-se uma construção dos corpos dos intérpretes. Provoca-se uma troca, um intercâmbio entre bailarino e coreógrafo, uma dialética entre criador e intérprete. Ana Vitória, por exemplo, vive uma

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sugar energia do chão. Tais movimentos, do vocabulário da coreógrafa, seriam marcantes em seus demais trabalhos ao longo da década.

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situação dupla: é intérprete e coreógrafa. Experimenta em seu corpo o que os intérpretes de sua companhia vão executar e já criou para dançarinos de outras companhias como Grupo Tápias e Vacilou, Dançou. Assim, a criação se apresenta em três diferentes registros: no corpo da criadora, nos corpos de seus intérpretes e nos corpos de intérpretes de outras companhias, acostumados a outras interpretações. Nesse percurso de corpos que se construíram também na companhia de Ana Vitória vale ressaltar a precisão e a beleza das interpretações de bailarinos como Andréa Bergallo, Paula Águas e Cláudio Ribeiro em peças como 1, segundo,... trabalho de 2000 que estreou no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, explorando o tempo e as relações espaciais. Por esse trabalho, Bergallo recebeu indicação ao prêmio de melhor bailarina do extinto Prêmio Riodança. Fora da companhia, vale lembrar também outros corpos executando obras de Ana Vitória. Orikis, peça dançada por quatro bailarinos da companhia de Carlota Portella, a Vacilou, Dançou, estreou em 1999, no Teatro Villa-Lobos e gerou um resultado de beleza e força. Essa peça valeu a Ana Vitória o Prêmio Riodança de melhor coreógrafa. Mais um exemplo de corpo em movimento a partir do vocabulário de Ana Vitória, aconteceu em 2005, no CCBB do Rio de Janeiro, quando Flávia Tápias, do Grupo Tápias, executou o solo Ballet Mécanique, buscando mostrar precisão mecânica em uma peça que explora o plano vertical. A ampulheta projetada no alto — no fundo do palco, atrás da bailarina — marcava o tempo, lembrava simbolicamente

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Suporte da dança, o corpo é, antes disso, suporte de cultura. É biológico, psicológico, mas é social também. É, poderíamos dizer, mídia — meio de comunicação — da dança, da cultura, da arte e de muitas outras coisas mais. Tal corpo-mídia é extensão, um prolongamento da dança pensada. Entendido como um meio de comunicação, um espetáculo de dança ou representação cênica deixa transparecer, através dos movimentos realizados com técnica, representações sociais. Reúne, portanto, pensamento e uma ou várias técnicas para transformá-lo em movimento coreografado. O “corpo utópico” do dançarino é capaz de realizar saltos, piruetas, quedas e suspensões que corpos não treinados são incapazes de realizar; ou pode, mesmo dominando a técnica, construir movimentos comuns, levar para o destaque do palco uma seleção de gestos e movimentos cotidianos. Essa possibilidade — característica da arte contemporânea — leva ao questionamento sobre o que é

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um relógio — este sim, aparato mecânico, máquina. A precisão dos movimentos poderia fazer paralelo com a exatidão mecânica da máquina que conta o tempo. Emprestar coreografias para outros corpos é ato que exige generosidade. Ao mesmo tempo em que a execução por um conjunto ou por um dançarino em solo faz viver a obra coreográfica, torna real uma ideia, distancia a obra de seu criador. Torna-a obra aberta, no dizer de Umberto Eco: “a obra de arte é uma mensagem fundamentalmente ambígua, uma pluralidade de significados que convivem em um só significante”. A dança contemporânea sempre suscita, então, a possibilidade de múltiplas leituras, de leituras simbólicas.

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Valises

Antimatéria

1996

Sem Título

1998

Corpo Provisório 1997

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1999

Cedo Estarei Pronta 1998

1, Segundo... 2000


Sobre o Começo e o Fim...

2001

2008

2005

2002

ASE

Cirandas Cirandinhas

O Exercício de Dom Quixote

+ Simples 2004

Manuelagem 2006

Afinal, o que há por trás da coisa corporal?

2010

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Orixás, Quixotes e outras Valises Culturais

dança e o que constitui “simples movimento”. Também leva a pensar e a entender a dança tanto como criação de um artista coreógrafo com toda sua subjetividade quanto como tradutora de imaginários coletivos.

AV: do palco ao registro Em Àse — espetáculo de 2001, remontado em 2003, no Rio, com outra formação — a coreógrafa Ana Vitória recorre à tradição mítica iorubá dos orixás para tratar de sua própria busca de identidade, de suas raízes baianas. Para construir a peça, criadora e intérpretes fizeram um “mergulho cultural”, uma espécie de trabalho de campo, no vocabulário da antropologia. O resultado foi um espetáculo de linguagem contemporânea que recorre a elementos tradicionais de uma determinada cultura: no espaço cênico se veem elementos de inspiração no candomblé reconstruídos de modo refinado, com intenção estética, mas sem o compromisso religioso/ritualístico das cerimônias nas quais foi inspirado. A temática cultural africana no Brasil já havia sido explorada em Orikis, um trabalho mais curto, no qual o mito funcionou como ponto de partida para a construção de movimentos sob uma concepção contemporânea. Se o mito, ancestral, foi temática explorada, o urbano, contemporâneo, também pode aparecer em cena e ser problematizado. Em Valises, a mudança, a viagem, o sentir-se estrangeiro são pensamentos que podem recorrer a quem assiste ao espetáculo. Tema “universal”, antigo, mas também atual, coerente com uma época pós-moderna, globalizada, veloz. Obra aberta, deixa o espectador livre para, a partir de suas referências, construir entendimentos.

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Do encontro de técnicos, criadores, públicos, intérpretes estabelece-se uma rede de informações da qual resulta o espetáculo, assim diria o sociólogo Howard Becker. A necessidade de expressão leva a fazer uma das pontes entre arte — no caso, a dança cênica — e a comunicação. Todo espetáculo parte de uma intenção comunicativa. O artista pode não ter intenção de transmitir conteúdos, educar ou formar; pode até pretender nada comunicar. No entanto, não pode impedir que o processo de comunicação se desenrole a partir de sua atuação em cena: o público vai reagir, o próprio atuante “re-age” em resposta e o fluxo continua. Esse processo é o que Eco, em sua Obra Aberta, já qualificava como a “dialética ineliminável entre obra e abertura de suas leituras”. No momento em que expõe uma obra ao mundo, o artista deixa de ser seu dono exclusivo e todos que tiverem acesso a ela poderão construir leituras diferenciadas. Não é essa a riqueza maior que a arte pode legar? Não será isso também que faz dela um objeto de estudo tão singular? O espetáculo Sobre o Começo e o Fim, de 2002, funda-se em interessante contato de linguagens. O solo de Ana Vitória, dançado por ela mesma com seus velozes

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Na dança cênica a relação entre coreógrafo, intérpretes, cenógrafo, figurinista, iluminador e público constitui-se em relação social interdependente. Em O Exercício de Dom Quixote, espetáculo de 2005, o livro que inspirou o trabalho não é explorado de forma narrativa, de modo explícito, mas alguns elementos remetem metaforicamente, abstratamente à obra de Cervantes. A cenografia incluiu hélices metálicas na cena. São moinhos tecnológicos, poder-se-ia entender. A iluminação mostra a sombra de hélices projetadas no chão do palco — moinhos sombrios.

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Orixás, Quixotes e outras Valises Culturais

movimentos de braços, foi inspirado em obra do escritor Ítalo Calvino, explorando aspectos conceituais: leveza, rapidez e exatidão, que na transposição da coreógrafa ficam mais claros assim ordenados: exatidão, rapidez e leveza. A exatidão, podese entender, fica explícita em ângulos retos mostrados pela articulação do braço dobrado em 90° — tais ângulos tanto podem remeter à geometria grega quanto à mecânica das máquinas. Em cena, esculturas da artista plástica Iole de Freitas fazem companhia à intérprete. Se a arte contemporânea permite tais intercâmbios ou, na linguagem pós-moderna, esmaecimento de fronteiras, Sobre o Começo e o Fim é exemplo de construção cênica com elementos da dança, da literatura, das artes plásticas, obra de mil aberturas para interpretações e construções subjetivas. A dança ainda propõe uma questão interessante para aquele que cria e aquele que a executa: ela tem como suporte o próprio corpo. É nele que se realiza e se torna concreta, embora efêmera. Assim, na dança o artista é o suporte de sua própria obra, ele é, então, intérprete e obra simultaneamente. Seu corpo é corpo-obra de arte, de intenção artística e estética, treinado em técnicas que possibilitam realizar o que pretende. É também corpo-cultura, já que não se desprega de suas referências embora sempre apegue-se a novas referências culturais. É finalmente corpo-mídia porque é, ele mesmo, meio de comunicação de pensamentos, vontades, intenções, culturas, subjetividades. O corpo é o meio de comunicação do pensamento. Assim, pensar sobre uma companhia de dança que completa quinze anos de trajetória é pensar que há ali a possibilidade de construção de um corpo obra de arte, de um corpo mídia de intenções estéticas e culturais. Somente o amadurecimento

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Denise da Costa Oliveira Siqueira

Orixás, Quixotes e outras Valises Culturais

do conhecimento do corpo sobre o movimento poderia fazê-lo desprender-se do gesto cotidiano para apresentar movimentos plenos de intenção. O olhar crítico do artista é que permite que desloque um tema, um sentimento, um fato cotidiano e o transforme em obra de arte. É isso que faz da arte, da dança, uma tal manifestação muito especial da cultura: aquela que mesmo fazendo parte da cultura, tenta escapar dela ou transgredi-la.

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“OXUM PANDA, ELA RI, ELA RI DA P R Ó P R I A T RIST E ZA | E DA BOCA DO RISO SUR G E YABA-OMI, OXUM ABAÉ, OXUM ABOTE | OX U M APARA CHE GA | E ELA LUTA COM A S UA E S PADA DE E SPE LHOS | QUANDO O I N I M I G O OLHA, E LA SE MOSTRA | OXUM-IONI , OX U M ABALA | ELA SE MOST RA COM O SEU L E Q UE | OXUM- TIMI, OXUM AQUIDÃ, OXUM NIS IM | QUANDO QUER, E LA FICA VELHA, OXUM LO BA.” Aninha Franco

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A Permanência da Dança no Olhar A presença de Ana Vitória impregna de tal maneira o espaço que, mesmo após sua passagem, o lugar permanece marcado pela intensidade e precisão de sua dança. A ideia de permanência, o conceito de duração, encontram na sua obra o campo expandido de sua expressão. A leveza e a sensibilidade, o vigor e a inteligência que constroem sua trajetória ficam gravados em nossa mente, impulsionando nosso próprio processo criativo, que então elabora um diálogo dinâmico, vital, entre dança e artes plásticas. Instala uma espacialidade nova onde movimento e transparência se fundem. Rara oportunidade de troca e enriquecimento de linguagens se opera. Única, como a natureza poética de sua obra.

Iole de Freitas

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[[ Sobre o Começo e o Fim

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“É preciso ser leve como um pássaro e não como uma pluma” Paul Valéry


AS VITÓRIAS DE ANA Lembro-me como se fosse hoje da sensação que tive ao ver Ana dançando pela primeira vez. Ela, sozinha, num teatro de arena, enfrentava o duelo com o mundo, com o espaço cênico, com seu próprio corpo e tudo o que ele contém e semeia. Severa, precisa, objetiva, fazia muito com os mínimos detalhes que estavam ali, planejados, expressos no domínio da construção da arquitetura de um corpo. Um corpo que desencadeia uma engrenagem a partir de um centro nevrálgico em contenção, prestes a explodir. Desde então, nunca mais esqueci Ana. Uma outra vez, vi a moça dançando com uma escultura flutuante, criada pela artista plástica Iole de Freitas. A escultura de metal dançava ou a bailarina era uma escultura em movimento? Ou os dois? Lá estava novamente o embate, fruto da disciplina e do rigor. Lá estava ela, colhendo inspiração nas outras artes para desafiar a si mesma e a sua dança. Feminina, ela às vezes parecia uma dessas bonecas em que se pode dar corda, mas não uma simples boneca, e sim uma boneca em fúria, domada pela rédea que ela mesma governa. Outro encontro marcante com o trabalho de Ana foi em O Exercício de Dom Quixote. Ali encontrei uma espécie de síntese de sua busca, repleta da coerência que somente um longo percurso pode trazer. Ali estava a mesma pequena mulher que lutava sozinha desde a primeira vez que a vi. A artista que, faminta, se debruçava agora na literatura em busca de alimento e que retirava das páginas um fôlego inacreditável para essa jornada.

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Percebi que Ana havia encontrado em D. Quixote um símbolo coerente, uma figura que comportava em si os mesmos elementos de sua trajetória como criadora. Os sentimentos desse personagem imortal e suas metáforas escreviam uma narrativa corporal que tinha como suporte a palavra “embate”. Ela, como o Cavaleiro da Triste Figura, se oferecia ali, diante dos nossos olhos, ao duelo e tudo o que ele consigo arrasta: o cansaço, a ameaça, a força, o eterno reerguer-se, a fé. E, novamente, seu corpo, ao mesmo tempo tecia e padecia enquanto ela guerreava, mostrando que é preciso coragem para sonhar e insistir no que parece loucura. Só depois de ver esse percurso pude entender por que ela carrega a palavra “vitória” no nome: para vencer é preciso lutar e, como vitória também vem de “vida”, ela luta dançando, banhando seu corpo com o suor dos que não desistem. Vê-la dançar é uma lição, se é que poesia se ensina. A vitória é, sem dúvida, o caminho de sua persistência. E, certamente, não há palavra escrita que possa negociar com a escrita de seus movimentos, que povoam nosso imaginário para sempre depois que a vemos pela primeira vez. Bianca Ramoneda

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D A N Ç A

Q U Â N T I C A

A dança de Ana Vitória é quântica. É uma arte que parte do seu corpo diminuto provocando a existência a  responder  nessa grande dança cósmica universal. Ana Vitória está sempre desafiando e conquistando o improvável. É uma artista que não apressa o tempo. Nem o seu, nem o de seus companheiros de trabalho, muito menos o de seu fluxo criativo. Quantas vezes assisti a sua calma ao se manter no processo de criação coreográfica até muito próximo à data de estreia, o que é extremamente angustiante para quem vive escravo do tempo. Ela não o interrompe, vivencia-o com entrega e seriedade, até sentir ter atingido uma espécie de completude. Talvez por isto, seus gestos sejam tão exatos, tão precisos e intensos. Ela está inteira no momento. Vivendo cada tempo rítmico do compasso, acentuando cada figura de uma partitura, por vezes invisível, que parece seguir tão espontaneamente quanto o ato de respirar.  Pode viver uma pausa imensa, parecendo estar suspensa no ar, num slowmotion que questiona a gravidade  e ralentaria  a própria vida, como pude assistir em Sobre o Começo e o Fim. Quando dançou? Leveza?  O último ato desta sua criação coreográfica inspirada no livro de Ítalo Calvino? As Seis Propostas para o Próximo Milênio? Devo esclarecer que este foi meu primeiro trabalho como figurinista e cenógrafa, a convite da própria Ana Vitória, numa época em que a vida me pesava e minhas próprias qualidades artísticas se viam embaçadas. Ela tem essa visão generosa do outro, creditando-o e motivando a transcender limites que estão, muitas vezes, apenas dentro de uma ótica descrente de tudo, tão perpetuada e cultuada em nosso país. A aparente? Mágica? Destilada pelos poros de quem vive em sintonia é extremamente contagiosa aos que estão em sincronicidade.

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Uma oposição em si mesma... Uma partícula? Uma energia? Que transforma a trajetória (ou órbita) do espectador, nem que seja apenas durante o espetáculo. É neste ponto que retorno à sentença inicial, quando disse que a dança de Ana Vitória é quântica. Ela é Uma oposiçãoeem responsavelmente si mesma... Uma partícula? Uma energia? Que transforma a trajetória (ou órbita) do consciente espectador, nem que sejaouapenas durante o espetáculo. o quantum que vibra, melhor, dança, harmonia com oàTodo. É neste em ponto que retorno sentença inicial, quando disse que a dança de Ana Vitória é quântica. Ela é consciente e responsavelmente, o quantum que vibra, ou melhor, dança, em harmonia com o Todo. Claudia Diniz

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Dois Sonetos Vitorianos 2.

+ Simples

A vida não se faz no passo em falso, mas sim no andar que escolhe o seu caminho no mundo vasto — mundo-desalinho, que cada pé percorre em seu compasso. E a vida assim se faz. Com o pé descalço, calçado, tanto faz — mas não sozinho, que o mundo sempre esconde algum vizinho que segue à frente ou vem no nosso encalço. E a vida segue assim. Nem sempre triste, também nem sempre alegre: sempre a vida que encontra, em cada engano, uma esperança. Melhor faz seu caminho quem persiste num passo leve e claro — na medida do passo que (+ Simples) acha a dança. Henrique Marques - Samyn

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{{ O Exercicio de Quixote

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“HERÓI É AQUELE QUE LUTA PARA SER O QUE SE É” Miguel de Cervantes

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os horizontes são incontáveis... as luas projetam nas janelas as silhuetas das pás giratórias tons de cobre nobre devoram o silêncio dos movimentos... é a loucura o cavaleiro flutua nestes relevos de vento e insanidade sobre a carcaça de ossos em armaduras de besouros... Ao fim de uma conversa sobre Quixote com Ana Vitória me remetem vê-la dançando no vento sobre lâminas de ferro... oco, oxidado... Sérgio Marimba

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Pois é no dia a dia e nas horas infinitas a tecer fio a fio uma ideia que o artista constrói seu diálogo com o mundo. Ana Vitória

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i r C a s n a di d


Cirandas Cirandinhas tem ainda outros méritos. O primeiro deles é trazer à cena a música de Villa-Lobos de uma forma inovadora, sem perder de vista o que há de lúdico nela. E por visitar contemporaneamente várias das brincadeiras infantis que habitam o imaginário brasileiro, mesmo que um tanto esmaecidas nos tempos excessivamente tecnológicos de hoje. Cirandas Cirandinhas é um primeiro passo para dança carioca contribuir na formação de um público. Um desafio com a qualidade e com esmero que merecem a atenção não só das crianças, mas de todos nós. Roberto Pereira

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Afinal, o que há por trás da coisa corporal? 86 | ana vitória dança contemporânea


Ana Vitória, em seu novo trabalho “Afinal o que há por trás da coisa corporal?”, realiza uma trajetória inspirada em seu diálogo com Lygia Clark, produzindo uma dimensão estética em que forma e matéria se tornam operadores para a desconstrução do lugar comum. No desenvolvimento de seu experimento, podemos acompanhar provocações trazidas por Lygia ao pensamento contemporâneo. Conduzido a partir do ovo — idéia carregada de afecções onde o mundo do sem forma surge como objeto tomado em sua concretude iluminada — o mais recente trabalho de Ana Vitória nos convida a permitir que o reencontro, como experiencia intensiva, viabilize o transformar das formas. A disposição da cena entre espectador e artista problematiza a perspectiva. Esta proposição possibilita que o campo perceptivo aumente pela tridimensionalidade, na medida em que a obra, ao multiplicar sua potencia de deslocamento, consegue se estender no espaço entre de forma a ampliar, para o observador, a diversidade de modos de captar a partir de diferentes modos de se afetar. Ao permitir que o espectador faça parte da obra, Ana Vitória não traça um destino fechado por onde a obra deva seguir, oferecendo-nos a chance de retirar as barreiras que normalmente delimitam o início e o final de uma obra de arte. Com a questão proposta no título, a artista busca elaborar um campo vibratório onde dispersãoforma-dispersão sejam entrevistas. Entrever no sentido de experienciar o entre, o intervalo,

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colocando em suspenso o já codificado, revelando que a forma é o devir das forças. Por que o corpo? É justo na dimensão das forças, do campo intensivo, sensível, campo que antecede as formas, pré-individual, que é evocada, ao nomear seu trabalho, a idéia de Corpo sem Órgãos (CsO) inscrita no ovo. Retirar o olhar do campo já representado só se faz possível na produção de um CsO como nos dizem Deleuze e Guattari em “Como criar para si um Corpo sem Órgãos ”, campo fluido, viabilizador das deformações necessárias para a captação do novo. Passamos então, de uma oposição estática da forma e da matéria a uma zona de dimensão média, energética, molecular, que permite pensar uma matéria energética em movimento, portadora de singularidade ou hecceidade, que são formas implícitas que se combinam com processos de deformações. A arte realizada neste trabalho de Ana consiste em seguir os fluxos da matéria, consiste em ofertar à sensação a possibilidade de captar as forças invisíveis, mostrar o momento de metamorfose. Ao buscar no corpo a marca do tempo, a artista revela que a eternidade, como matéria em movimento e não como vazio transcendente, aponta para a vida como obra de arte, massa sensorial produto de experimentação, onde memória e desejo compõem as atualizações existenciais.

Hélia Borges

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O ET F

TE I M I L

T O AFE T O D E FE S A

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RIMI A P R TI D E VO P –

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OBRA RE EU

S P I R E


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acasossignificativosacasossignificativosacasossignificativosacasossignificativosacasossignificativosacasossignificativos acasossignificativosacasossignificativosacasosCASOS SIGNIFICATIVOS significativos acasossignificativosacasossignificaacasossignificativosacativosacasossignificativos ossignificativosacasosignificativosacasossigni-

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Brava Ana.

“... laconismo do gesto, um fazer mais lacônico, sem redondos, severo.” João Cabral de Mello Neto (de Escultura Dogon)


Lembro da primeira vez que assisti a um espetáculo de Ana Vitória. Foi nos anos 90, quando a dança contemporânea começava a ter um peso e múltiplas caras na cidade do Rio de Janeiro. O trabalho da Ana já era definitivamente marcante, com traços que o tempo só aprimorou. Sempre que assisto Ana Vitória dançar vejo como seu corpo é múltiplo, por ser vigoroso e delicado, obediente e indomável. A dança da Ana tem várias camadas, que ela vai elaborando a partir de um tripé em que valores como precisão, velocidade e domínio me parecem essenciais em sua pesquisa de movimento. Atingido esse tripé é que se estrutura sua poética. Não importa o campo temático, lá está ele. É desse lugar que ela se lança na cena, como bailarina/coreógrafa, intérprete/criadora, performer/ ‘instaladora de situações criativas’. Ana Vitória gosta de passear por vários mundos. Busca universos diversos para ‘transcriar’ com sua dança. E o faz de uma forma que me lembra João Cabral de Melo Neto, ‘sem redondos’. A dança de Ana não tem arestas, nem sobras. É feita de decisão e firmeza. Ela vai sempre direto ao ponto, e é uma brava na defesa do que acredita. Desta forma distingue-se, e desenvolve uma trajetória com metas claras. Artista de várias maneiras, Ana tem seus próprios projetos e também divide projetos de outros. Como convidada ela então muda-se com mala e cuia para a ‘viagem-corpo alheia’. E lá fica ela, com seu tripé, pesquisando e elaborando novas dinâmicas e estruturas físicas e psíquicas. Da mesma forma ela se comporta como educadora, buscando na sala de aula seu rigor. Nos últimos tempos, Ana lançou-se a mais um desafio com o registro, através de publicações, de suas ideias e da ideia de uma dança contemporânea. Também esse caminho é pontuado por sua vontade imperiosa, inteligência crítica, e qualidade de acabamento. Ana Vitória sabe o que quer. E ela quer saber. Ao criar a partir de tantas propostas ela sai pelo mundo procurando o saber e transformando-o no seu corpo, que cria, em si, desejo e intenção de movimento. Bravo, Ana!

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Bia Radunsky


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[[ ORIKIS Companhia Vacilou Dançou Coreografia | Ana Vitória Estreia | Teatro Carlos Gomes | Rio de Janeiro | 1999

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[[ Il Faut Continuer Cie Laffuste-Mèric Coreografia | Ana Vitória Intérprete | Edith Meric Estreia | Centre Culturel Altigone, Saint Orens | Abbaye de Flaran - França| 2001

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[[ TRÂNSITO Balé Guaíra Coreografia | Ana Vitória Estreia | Teatro Guaíra | Curitiba | 2002

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[[ Silencio Direção Geral | Ana Vitória Intérprete | Soraya Bastos Estreia | Espaço Sesc Copacabana | Rio de Janeiro | 2003

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[[ 1, Segundo... Coreografia e Direção | Ana Vitória Intérprete| Andréa Bergallo Estreia | Lugar à Dança | Portugal | 2004

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[[ BALLET MECANIQUE Grupo Tápias Coreografia | Ana Vitória Intérprete | Flávia Tápias Estreia | Centro Cultural Banco do Brasil | Rio de Janeiro | 2005

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[[ A Palavra é o Corpo Direção Geral | Ana Vitória Intérprete | Juliana Terra Estreia | Centro Cultural Banco do Brasil | Rio de Janeiro | 2006

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[[ LA MARIÉE Coreografia e Direção | Ana Vitória Intérprete | Ana Botafogo Estreia | Espaço SESC | Rio de Janeiro | 2008

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[[ Plural Grupo Tápias Região Nordeste | Coreografia Ana Vitória Estreia| Espaço Sesc Rio de Janeiro| 2008

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[[ Tempos Líquidos Ballet da Cidade de Niterói Coreografia e Direção| Ana Vitória Estreia| Teatro Municipal da Cidade de Niterói | 2008

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Acredito irrestritamente na história pessoal e na memória como ferramentas e fonte inesgotáveis para projetos autorais. Ana Vitória

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FicHa TécNica DiReção ArtíStica e CoReoGraFias

TrILHas sOnoraS

Ana Vitória

Almeidinha Ana Vitória Claúdio Dauelsberg Heitor Villa-Lobos Lígia Veiga Lui Coimbra Marcelo Rodolfo Márcio Tinoco Mônica Millet

bAilariNOs Ana Vitória Andréa Bergallo Alexandre Bado Bia Gaspar Claúdio Ribeiro Edson Farias Mariana Lobatto Márcio Cunha Patrícia Riess Paula Águas Renata Costa Soraya Bastos Samuel Frare

iluMinaDorEs Gerad Laffuste Milton Gigllio Renato Machado Zé Geraldo

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CeNáriOs / inStalaçÕEs Adriana Varela Analu Prestes Ana Vitória Beli Araújo Iole de Freitas José Dias Moacyr Gramacho Ney Madeira Sérgio Marimba


CenOtécniCO

AssiSTentE de iluMinAçãO

Alex Lopes Alex Sandro da Silva Carlos Reis Darci Cesar Jayro Botelho Reinaldo Duarte

Aladim Mauro Vilanova Márcio Braga Ricobom Giba

FiguRiNOs

Ana Vitória Andréa Bergallo Aline Alonso Marcos Martins Mariana Lobatto Patrícia Riess

Ana Paula Moniz Ana Vitória Angele Fróes Biza Vianna Claudia Diniz Luciana Cardoso Maysa Braga Márcia Ganen Ney Madeira

aSSisTeNtes dE CoreOgrAfiA Andréa Bergallo Mariana Lobatto Ana Andréa Aline Alonso Marcos Martins Jean Marie Dübrul

ENsaiAdorEs

foToS Alice Bravo Bruno Veiga Biassino Gesualdi Karol Andrade Letícia Vinhas Mauro Kury Renato Mongolin Robson Drummond Sérgio Vieira Vera Millioti William Santos

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ProfessOrES de téCniCA

VídEO-daNça

Ana Vitória Andréa Bergallo Jean Marie Dübrul Marcelo Aquino Marcos Martins Paulo Marques Priscilla Teixeira Silvio Dufrayer Suzana Saldanha

Adriana Varella Lola Lustosa Lucas Rodrigues Paula Barreto - IBM DançaAtiva Renato Vilarouca e Rico Vilarouca Rodrigo Godim Rodrigo Raposo Sofia Karam

dRamartUrgia LíRica pRoduToreS Erlon Souza Fátima Wachovitz Neco FX Sara Calaza Verônica Prates

deSign gráFIcO Ana Couto Design Ana Carolina Terra Karin Palhano Verônica Prates

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Ana Vitória Aninha Franco Marcelo Aquino Suzana Saldanha

teXToS Angel Vianna | Bailarina, Coreógrafa, Diretora da Escola e Faculdade Angel Vianna Aninha Franco | Escritora Beatriz Radunsky | Superintendente de Desenvolvimento em Exercício do Sesc Rio Bianca Ramoneda | Atriz e Jornalista Claudia Diniz | Poeta


Denise Oliveira da Costa | Jornalista e Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UERJ Eliana Rodrigues | Professora do Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas, UFBA e Pós Doutora, Universidade de Paris 8 Fabiana Dultra Britto | Professora e Crítica de dança, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Dança da UFBA Gabriel Galli | Psicólogo Hélia Borges | Psicanalista, Doutora IMS/ UERJ, Professora da Graduação e Pós- Graduação da Faculdade Angel Vianna Henrique Marques- Samyn | Poeta e Filósofo Iole de Freitas | Artista Plástica José Luiz Alqueres | Presidente Associação Comercial do Rio de Janeiro Roberto Pereira | Pesquisador, Crítico e Doutor em Dança Lia Robato | Diretora e Coreógrafa Sérgio Marimba | Artista Plástico

rEaliZação Iroco Produções Artísticas LTDA. www.anavitoria.com.br

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Agradecimentos e Parcerias LIGHT Associação Cultural “O Mundo de Lygia Clark”, Museu Villa-Lobos, Marcelo Rodolfo, Centro Cultural Correios/RJ, Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, Funarte/RJ, Secretária de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Caixa Cultural/RJ, BB Seguros — Auto/RJ, Centro Cultural Banco do Brasil/RJ/ SP/DF, Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, Sesc RJ, SP, Sesc Nacional, Sesi/SP, Petrobrás, Minc — Ministério da Cultura, Teatro Maison de France, Cahiers de la Danse, Itaú Cultural/ SP, Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Oi Futuro, Teatro XVIII/BA, Leny Niemeyer, Aninha Franco, Ballet da Cidade de Niterói/RJ, Suzana Braga, Ballet Guaíra/PR, Tex Estúdio de Dança, Centro Universitário da Lagoa — Univercidade, Faculdade Angel Vianna, Universidade Gama Filho, Amin Murad, Gisele Tápias, Grupo Tran-Chan — UFBA, Casa de Saúde Dr. Eiras — Paracambi, GEAL — UFF, Enfermarias da Casa do Sol — no IMAS Nise da Silveira, Café de La Danse, Cássia Charisson, Edvalda Bomfim, Geraldo Junior, Ana Francisca Ponzio, Priscila Teixeira, Vera Terra, Gerard Lafustte, Tatiana Castro, Ligia Veiga, Vanja Schiller, Daniela Visco.

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Só a partir desses 15 primeiros anos de criação é que pude vislumbrar o elo contínuo e visivelmente articulado do meu processo de pesquisa na dança. A partir desse repertório, posso finalmente escolher continuar nesse caminho ou mudá-lo totalmente. Ana Vitória

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English Version por Vanja Schiller

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“This is the way I start all my projects. Thrown into a maze I never know where it will end.”

Ana Vitória

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Letter fom Light Music does not claim any light. In the theatre it can be spared. Also in Literature: I remember the words of a great literary critic who, after becoming blind and learning Braille, found comfort in reading his books under his bed covers in the cold winter nights. Homer was blind. However, in Dance... light and movement express themselves together. The body as well as the spirit are all in one. However, only very recently has this become clear to vanguard philosophers, who have succeeded in realising the obvious. The liberation of the body may not have found greater visibility than the one provided by contemporary dance. There is no cinema, photography, gymnastics, acrobatics, sports that, while trying to escape from it, does not end up confining the body and its movements to a representation code or in a sense of utility for a specific purpose. The liberation of the body is very important for the liberation of the mind. And the light that illuminates everything, allows for the ‘sharing” of this sensation among others. And joins the dance: with its hues, colours, with its nuances, with the shades it produces. “I was born to dance. Why ever deny it?” Ana Vitoria has been refining this process for 15 years, with the help of Light, which is helping throw a permanent light on it, by giving support to the edition of this memory-book of a work that extends itself from stages in the small towns found on the northeastern roads to large audiences of our major cities.

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With a great intrinsic quality and a permanent search for perfection for the pleasure and for discovery. Impressionist Dance. Revolutionary Dance Dance that does not fade in the head of the one who watches it.

José Luiz Alquéres

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Presentation Ana is Baiana and also Vitória... It was sheer curiosity that made me want to meet her. I followed her work and her history from a distance and each time I felt increasingly auspicious. This long-awaited encounter took place when I founded Angel Vianna College in 2001. Ana Vitoria joined our work team as a professor of Contemporary Dance and Choreography Composition. I was enchanted by her personality, by her creative way of facing life, dance in its plenitude and singularity. Angel Viana — A Contemporary Dance biography, a book written by Ana Vitória in 2005, brought us together each time more and more. At each moment, new and rich theoretical contributions were evidenced. I do my practice in the educational work of Ana Vitória. In choreography a new construction field of the human being; a collection of reflections and their potentials, ludic and creative activities fortifying, respecting and promoting the growth of the individual. Her company, in its 15 years of existence, has greatly contributed for the development and research in the field of arts,in both the national and international sphere. We are enchanted by her choreographic works not only in the field of research of movement, but also sonority and choreography. Besides, it is always a big surprise! When one discusses Ana Vitória, it is essential to bear in mind her rich contribution as a dancer, choreographer, director and professor, in the national scenario.

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Ana Vitória transcends obstacles without tripping over them, always seeking new obstacles and new pathways... Ana Vitória, it is more difficult to put you into words than in action. One day I shall dance Ana Vitória.

Angel Vianna

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“Peruinha” I first met “Peruinha”, a tiny little girl of delicate features, when she was still a pupil of the first classes at the Dance School of the Cultural Foundation of Bahia. I never really knew why she was given such a loving nickname. I think that it was because of an air of a baby cheeper she had about her. After her many comings and goings around the world, incessantly searching for new environments that would provide her with new discoveries, in the realm of her choreographic interpretative perfectioning, technical mastery of movement, mainly new dance languages — do I rediscover, much to my surprise, another woman, rather than the fragile little girl of before, but the dancer, choreographer and researcher endowed with greatly dense expressive capacity. The surpassed concept of beauty in conventional dance was broken and replaced by the explosion of “the true gesture”, expressed by the common man and woman from the big cities, which does not fit the aesthetic patterns of technically pre-established movements. One is in search of a new grammar of dance and a choreographic dramaturgy through the construction of new bodies of authors — interpreters. Ana Vitoria’s peculiar way of symbolizing the world through her movements whose codes both intimate as well as disclosed, take us to undescribable sensations that can only be achieved by the ambiguity of a meaningful gesture, an intrinsic quality of the poetic language of the dance that Ana can so thoroughly explore. Ana Vitoria magnetizes the audience, independent from the coreographic narrative and possible thematic drama.

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The gestural interpretation of Ana Vitória’s dance presents a clash between subtle tenderness and slashing sharp impact, with the power to magnetize the space, assigning a sensitive thrilling quality to the scenic environment that irradiates throughout her body in movement. Ana Vitoria has been constructing her work of ephemeral nature, because it is composed of “movements that dissolve in the air”, with rigorous precision and vitality counterbalanced by her intelligent tenderness and shameless disposition to expose herself even from inside out. Her choreography does not refer to a physical mapping, nor to restricted culture, covering a contemporary concept in its own very special universe. Her greatest talent: instilling her cast of performers with a keen sense of movement. Her scenic work, including lighting, sound and visual aesthetics is exquisite and minutely detailed, proposing an unfolding of its content into a broad range of subjective perspectives, depending on the references of each regard. This very Ana “Peruinha” grew bigger professionally, developing her competence as an interpreter dancer, as a choreographer, as a company director, also as a scenic producer, because without the compound of these capacities, one cannot accomplish consistent art in our country. Nowadays, she is present in the area of register, not only corporal but also of documentation of her dance, a fugacious language that is capable of attaining such a deep and subtle level of communication that deserves well beyond documents of images in movement, demanding a critical and sensitive reflection on this phenomenon.

Lia Robatto

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Valises: the folds of the soul One of the greatest tragedies of our times is to have locked madness in the medical jail of mental disease. However, madness continues to be the chaos we need to end up with the stereotype. These alliances between both is perhaps the transformation in common with all transformations. There is no such thing as one sane transformation, a rational transformation. Reasoning is classified in models, rules, patterns. What paranoid mechanism of reason, of the State, divides, classifies, separates the schizophrenic machinery of madness, unites, merges, connects. Vera’s crazy transformation comes and connects itself with Ana Vitória’s crazy transformation in Valises. They form a line of feminine grace, which is like the sea breeze for the city ovens. A rainfall of blessings that washes and refreshes the urban desert. Ana’s photo is an incorporeal event that overflies the choreography. Ana hugs herself. “Schizophrenic development” the classic psychiatrist might affirm. But that’s not so. Ana’s and Vera’s madness is beyond any classification. It is the very health. There is no evolvement because it is about a different format: a fold. Ana is not divided in two Anas. There is no rupture of personality. The madness between Ana and Vera is the crazy transformation of time. This photo is infinitive,the empty shape of time that travels all possible temporalities. It infinitely divides the present between a past that never stops passing and a future that never stops arriving. At this impossible point, in this abyssal vertex, the folds of time make the past and the future belong to each other at that tender moment when common sense, however, can only understand it as time in succession.Those valises that are alive, that vibrate intensely in their place, are the sign of the journey.

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Heidegger reminds us that the insane is the traveller because he is on the way to some other place. He becomes an alien and a stranger to what is normal to the majority that seeks shelter and safety in their homes. But this “other part” to where he goes, is not the “other place”, but another place, the absolute absence that boosts the new sense that he is creating. To be on the way, to follow the trail is to be in the permanent insertion. This very insertion, in which the traveller opens the way, is the search of the dwelling that will provide him shelter. Even if he might never attain it. It does not matter. Maybe, precisely because he will never reach it. The path he follows is not worthy for him alone, but overall for the majority who, in the shelter of their homes, still have not inhabited this land ( even If they believe they have). The nature of his soul is to wander through obscure trails in the most absolute solitude.The spirit encourages him in his walk to melancholy. Between the two Anas, the fold of time is the pleat of the soul. In the insertion is pain, melancholy and tenderness. These are the lines over which the pleats of the soul fold themselves. A gesture to which the soul is conducted to the univocity of the being. If everything alive is painful, it is because this is the index of pleasure: the meaning of the drive of life. Ana’s embrace talks about infinite tenderness. It houses a warm pain in the chest. Travellers suffer,in pain. But their pain is the index, the indicator of being in the insertion, in this part of no journey. Spiritual nomads who search on the earth, the dwelling for the human soul. Their journey is a escape from the stereotype, to the mediocrity of life. But they do not run away from the Earth.To the very contrary, they remind us that we still do not know how to inhabit it because we do not grant to the difference its own place. We separate, we fight on account of paranoid divisions. We still do not recognize the lineage in common with all families. We still have not found the grounds of life in common. For that reason, the traveller keeps on going his way, under the stars, making pleats of time to unfold life in its purest intensity.

Gabriel Galli um traçado preciso da dança |133


“My themes spring from the enthusiasm for the ability to manipulate certain materials and certain realities. They originate from the capacity I have to relate with them, which then materialize into the challenge of Dancing.”

Ana Vitoria

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To start with, think BLUE! Not even the best or even the most imaginative mind will be able to produce a full blue Image. Never mind. BLUE is not one, full, but of infinite possibilities — just like a Bachelard secret, only one direction is communicated, without ever stating it objectively, and the most interesting “possibility” will be the one that communicates itself with others, unthought of in the act of representing but insurgent by the act of contemplating. It is through this expansion of blues that ALEJANDRO KANTEMIROFF reveals guidelines of his secret. His blues escape to spatialities and shades, unforeseen by the original spotlight; like a sandwich, the central light; or rather it dilutes and fades away until there Is nothing left but the BLUE of memory. However, there was, still in this room, another guideline for the secret: to talk to his BLUE, Alejandro expanded his painting to dance. ANA VITORIA FREIRE made her body dance blue, at the sound of “a conversation” — as she refers to Gustav Mahler’s n°5 Adagietto Symphony. Her movements start pulsating in the right corner of the room. The hands over the belly let go of each other vigourously, until the body expands — like in a painting — In spatiality and hue: controlled slow extensions from the arms and steps acquire subtle sensuality with sudden withdrawal within herself. There is no constancy despite the fluidity of the movements; the repetitions do not repeat themselves; instead, they highlight what had come before, bringing new hues at each time. As her body spins, it expands the movement in laterality but it gains depth from the dialogue with the blue of the canvasses at the bottom. One thing leads to the other and these Blue possibilities reach us like a whirl, until the movement returns to Its initial vibration, now, in the centre, emphasizing the conversation that has existed in this room.

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The secret of this conversation? Its expansion in echos, until only the pulsation is left. Then we leave, pulsating BLUE. If after this exhibition in ACBEU you insist on conceptualizing BLUE, then check the Aurélio Or watch the sun rise over the sea of Salvador among the clouds of a rainy night.

Fabiana Dultra Britto

“It is in daily and endless hours of weaving an idea thread by thread that the artist constructs his dialogue with the world.”

Ana Vitória

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Two Victorian Sonnets 1. Antimatter It does not dance confined to the fragile gesture during which the story is written, but seeks from within an unlimited stream: from the body that, of such saturated space, projects itself in a gesture, and makes of affinity another space — and together (even though very much still the same), source of other forms, they merge within this space beyond the material. Not a dance that one forgets — but enduring, something perennial, for it is made of time beyond time (eternal waiting): not a dance that is delineated in the present, but a dance that binds space and time — accustomed to the transitory physics of antimatter.

Henrique Marques —Samyn

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The extraordinary encounter of Ana Vitoria’s contemporary Dance Company with a pre-modern town from Bahia wilderness and /or the arrival of ice in Macondo. One day I was on the road that that links Cabrobó to Garanhuns trying to hitchhike. My efforts were useless because the ‘70 had been over long before 1979 and one of the golden rules of the New Era was: “don’t even think of hitch hiking”. Relying on exceptions, I waited for a chance that eventually materialized in a “Marinetti” occupied by a dance company which was in need of a chamber maid. I eventually got the job. It was tough. The dancers “don’t have any dirt behind the ears, gooseberry moustaches or shabby panties” because they drink coconut water without stopping. And I was their provider. We crossed countless towns that the Marinetti could never think of. Some were well known for the quality of the herbs or grapes that they produce. Others were famous for the absence of any object created after Modern Age. Having said that, I would like to add that the journey went on smoothly. Milton Giglio, the company’s lighting technician would drink alcohol, smoke commercial cigarettes and eat armadillos, bathed in Dendê oil, protected by Ibama!. We were connected by ties of friendship. Then, in one of those cities of a hundred houses, a grocery, a catholic temple, and a cinema created for the cinematographer, did I understand what I was doing there, providing the thirsty dancers with coconut water, sweeping dressing rooms and shrinking the linoleum, always larger than the traversed stages. I realised it when I saw the lightbox come out from the city mayor’s band on a float. The technician could hold it in his right hand. His hand and the lightbox were almost the same size, doing

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the lighting of the spectacle, promoting an extraordinary encounter of Macondian inhabitants/ spectators with the contemporary dance company. I also discovered why we were being transported by the Marinetti. I do not know if the town ever saw or witnessed a contemporary act again, but at that very moment, almost by candlelight, it was touched by the cunning of the serpent and understood that there were other universes besides Macondo without commas, metonymy, corruption, quotation marks or parenthesis. The word of God became flesh among us.

Aninha Franco

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1, Segundo... When accuracy is materialized in dance, time and space become mere interfaces of a thought. Criss-crossing this space and this time are the interstice of day by day bodily actions, which is seen and explored by Ana Vitória Dança Contemporânea. Precise, sharp, minimal gesture breaks the boundaries of its context to become raw material of movement. Details are no longer details. No sequence of movements are made in vain. Macro is revealed into micro. Every movement has its performance in a kinetic precision. It’s an invitation to watch dance through other lenses. Since Ana Vitória, dancer and coreographer, has thrown herself into the challenge of building in other dancers’ bodies what was at first her own bodily signature in dance, one could notice how accuracy translates into different day by day actions. Once time and expressions are boosted, thoughts start to boil. Those who throw themselves into the challenge of understanding this way of dancing have the task to notice how the gesture finds its way into accuracy and sharpness in each of the dancers’ movements, a reverberation of what could formerly be seen in Ana Vitória’s body. This is a very sophisticated way of understanding dance, and in Ana Vitória’s Contemporary Dance case, it is its foremost condition.

Roberto Pereira

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The brightness of her eyes Whenever I think about Ana Vitoria the first image that comes to my mind is that of her eyes: the brightness of her eyes. Present and evident whenever I meet her in the walks of this life, I am pleased to realise that all the tenacity, enthusiam, courage, determination and sensitivity, are concentrated in her and have kept on shining ever since she was one of my students at UFBA. On that occasion she would demonstrate discipline and curiosity, two key elements for a good education, which bring great satisfaction to a dance professor. I remember that Ana Vitoria would always arrive early, long before class, stretching out, preparing herself with dignity and respect to her body, already paving the path of research with interest. She was always a model student, present, cooperative and above all quite curious. She was always asking questions and wanted to learn how each movement worked, its quality, its mechanics, its expression. I often used to watch her performance in Tran Chan Group, while she was still in Salvador. I was always delighted to see her on stage, so small, yet so immense, so strong, yet so expressive. Despite having absorbed the style of that group so well, it was easy to observe that she always imprinted unique quality, her personal signature in the movement, what was exceptionally well developed when she started creating her own choreographic work. Similarly, I will never forget the impact I felt when I watched the magnificent Valises, as I realized how much truth was put in there, through each gesture, each movement, each breathing. Besides, the choreographic perfection, the careful use of lighting, the good use of adornments and the excellent musical choice turned that work into an excellent example of simplicity and artistic success. To this day, I still make use of this example in my classes of critical analysis of contemporary dance.

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I have seen other works of hers and I realise that she has eventually perfected her work. Her research of movement deepens, her art blossoms. Intense as a dancer; precise and creative as a choreographer, Ana does not simply conform to those roles but she multiplies herself as a mother, dance scholar, researcher and professor. She has always been multiple. Serious in each proposal or direction she launches herself, she goes paving her path as if it were possible to design destiny. I observe her from a distance and I am thrilled to note that she has never given up her struggle, at times so hard and unrecognized like the path of art in Brazil. The brightness of her eyes keeps on. Hopefully it will remain so.

Eliana Rodrigues

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Orishas, Quixotes and other cultural Valises:the body in the contemporary dance of Ana Vitoria Due to its symbolic capacity to generate reflection, Art is crucial in any period of the history of Cultures, though at a given moment it has reached greater visibility, either by the innovation or the excitement that stirs the public support, the public or private motivational actions to foster creativity or even its divulgation and its register for posterity. In the 90’s, an effervescent period in which the cultural producers invested in bringing great international companies to Rio de Janeiro, new groups emerged or set roots in the city. The choreographer Ana Vitoria Freire left Bahia to live in Rio, set up the Ana Vitoria Contemporary Dance Company and took to the stage a body of strong characteristics, either thematic, urban, or turned to her cultural, mythical or contemporary roots. The reunion of these aspects showed work of unique quality. Fifteen years after its foundation, a retrospective look shows that the artist has not only experimented bodies, formats for the company, themes, techniques, but it pointed out to a pathway where some marks are maintained and have points of identification in the different spectacles. The precision in the execution of each gesture and movement appears in the first play of the Company, the solo Valises, 1996, where sudden, quick, precise movements of arms and legs seem to suck energy from the soil. Such movements, from the choreographer’s vocabulary, are to be remarkable in her other works throughout the decade. When one follows the work of a Company, one observes how choreographers and interpreters understand the world, how they reflect values and origins. Techniques and technologies are part of the history of dance. Its use reinforces the expression of world visions, of culture through Art

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and, when it comes to dance, through the bodies that move and become immobilized on the scene. Starting from Ana Vitoria’s fifteen-year anniversary of her Company, this short essay attempts to think about the body as a means of communication and dance register. For such, it is of crucial importance to understand that both Art and corporeity emerge from the interlacement between individual and collective systems. They are at once social and subjective fruits or “products”.

From the body to the media It is the body — this cultural lieu, of beliefs, concepts, prejudice, postures, body techniques — that constructs and deconstructs dance. On being cultural, the body submits itself to techniques of movement to express a certain idea. At a dance company, the construction of the body of interpreters takes place. There is a change, an interchange between the dancer and the choreographer, the dialetics between creator and interpreter. Ana Vitoria, for example, lives a double situation: she is both interpreter and choreographer. She experiments in her body what the interpreters of her company are going to perform. She has also created dance pieces for other companies like Grupo Tápias e Vacilou, Dançou. Thus, creation presents itself in three different registers: in the creator’s body, in her interpreters’ body and in the interpreters’ bodies of other companies, who are used to other interpretations. In this pathway of bodies which paves Ana Vitoria’s company, it is worth mentioning the precision and beauty of the interpretations of dancers like Andréa Bergallo, Paula Águas e Cláudio Ribeiro in pieces like 1, Segundo, a 2000 performance that made its debut at the Carlos Gomes Theatre, in Rio de Janeiro, exploring time and spatial relations. Bergallo was awarded a nomination for the Best dancer from former Riodança award. Outside the Company it is worth mentioning other bodies executing Ana Vitoria’s pieces. Orikis,

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the piece executed by four dancers from the Carlota Portella Company, Vacilou, Dançou, made its debut in 1999, at the Villa-Lobos Theatre, which generated an effect of beauty and strength. This piece gave Ana Vitoria the Riodança award as Best coreographer. Another example of the body in motion — according to Ana Vitoria’s artistic vocabulary — happened in 2005, at CCBB from Rio de Janeiro, when Flávia Tápias, from the Tápias group, executed the solo Ballet Mécanique, seeking to show mechanical precision in a piece that explores the vertical plan. A sandglass, cast at the back of the stage, behind the dancer, set the pace of time, which symbolically reminds one of a clock, this very mechanical device, the machine. A precision of movements could draw a precise parallel with the machine’s mechanical accuracy that counts the time, the sandglass. The act of lending choreographies to other bodies demands generosity. While the execution of a coreography by a group or by a dancer in solo brings life to the coreographic work or rather, it makes the idea real, it distances the work from its creator. It turns it into an “ open work”, according to Umberto Eco’s words: “the work of art is an ultimately ambiguous message, a plurality of meanings that live together in one significant being”. The contemporary dance always evokes, then, the possibility of multiple, symbolic readings. The dance support, the body, is above all, the culture support. It is biological, psychological but it is also social. Indeed, one could say, media — means of communication — of dance, of culture, of art and several other things. Such body — media is an extension, an elongation of the dance, as language. Understood as a means of communication, a dance spectacle or a scenic representation unveils social representations through technically performed movements. Therefore, it puts together one or several techniques to transform thought into choreographed movement. The dancer’s “utopic body” is capable of performing jumps, pirouettes, falls, suspensions that untrained bodies can not; or rather they can, even through the command of their technique,

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the construction of common movements, take to the stage a selection of gestures and mundane movements This possibility — characteristic of contemporary art — questions what dance is and what constitutes “simple movement”. It also makes one think and understand dance not only as the creation of a coreographer artist with all his subjectivity but also as the interpreter of the collective imaginary.

Ana Vitoria: from the stage to the register In Àse a 2001 spectacle, reassembled in Rio de Janeiro, 2003, the coreographer Ana Vitoria, — resorts to the mythical tradition of yorubas and orishas to deal with her own search for indentity, her Baiano roots. To construct the piece, creators and interpreters performed a “cultural plunge”, a kind of fieldwork, according to the vocabulary of anthropology. The outcome was a spectacle of contemporary language, which uses traditional elements of a particular culture: in the scenic area one can observe elements of inspiration from Candomblé, finely reconstructed, with aesthetic intent but without the religious/ritualistic commitment of the ceremonies that it inspired. The cultural African in Brazil had been explored before in Orikis, a shorter piece, in which the myth served as a starting point for the construction of movements within a contemporary framework. If the myth — ancestral — was an explored theme, the urban contemporary, can just as well appear on the scene and become problematized. In Valises, the move, the journey, the feeling abroad are thoughts that can recur to the ones who watch the spectacle. The theme,“universal”, old, but also modern, coherent with a post-modern, globalized, fast era. Open work, leaves the spectator free for building their understanding from their references. In the scenic dance the relationship between the choreographer, interpreters, cenographers,

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costume designers, lighting technicians and the public form an interdependent social relationship. In The Exercise of Don Quixote, a 2005 spectacle, the book that inspired the piece is not explored in narrative form, in an explicit fashion, but some elements conduct, metaphorically and abstractly to the work of Cervantes. The cenography display metallic propellers on the stage. They could be seen as technological mills. The lights project the shadow of the propellers on the stage floor — like somber mills. From the reunion of technicians, creators, interpreters and the public, there is a network of information resulting in the spetacle, as the sociologist Howard Becker would state. The need for expression leads one to make one of the bridges between art and communication, via scenic dance. Every spectacle springs from a communicative intention. The artist may not have the intention to transmit contents, to educate or to form: he may even not want to communicate anything at all. However, he can not prevent the process of communication evolving from his acting in scene: the public will react, the actor himself “re-acts” in response and the flux continues. This is the process that Eco, in his Obra Aberta, qualified it as “ineliminable dialetics between the work and the opening of its readings”. When the artist exposes a work of art to the world, he ceases to be his sole owner and all the ones who have access to it will be able to build different views. Isn’t it the greatest wealth that Art can bequeath to the human being? Additionally, isn’t it what makes of it such a singular object of study? The spectacle Sobre o Começo e o Fim, 2002, is based on interesting language contact. Ana Vitoria’s solo, danced by Ana herself with swift arm movements, was inspired by the work of the writer, Ítalo Calvino, exploring conceptual aspects: lightness, speed and accuracy, which, in the choreographer’s transposition, become clearer and ordered as follows: accuracy, speed and lightness. Accuracy, becomes explicit in the straight angle shown by the articulation of an arm bent at 90° — such angles can either refer us to the Greek geometry or to the mechanics

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of machines On the scene, sculptures of the plastic artist Iole de Freitas keep company to the interpreter. If contemporary art allows for such interchanges or rather, in the post-modern language, the fading of borders, Sobre o começo e o fim is an example of scenic construction with elements of dance, literature, plastic arts, work of a thousand openings for interpretations and subjective constructions. The dance also proposes an interesting question for the one who creates and the one who executes it: its own body is its own support. However ephemeral, it is there where it materializes and becomes concrete. Therefore, in the process of dance the artist is the support of his own work, he is then the interpreter and the work simultaneously. His body is body — work of art, of artistic and aesthetic intention, trained in techniques that make it possible to accomplish his intent. He is also body — culture, as he does not detach himself from his references although he always clings to new cultural references. Lastly, it is body — media because he himself is a means of communication of thoughts, willpower, intentions, cultures and subjectivity. The body is the medium of thought. Thus, to think about a dance company that completes fifteen years of experience makes one think that there exists the possibility of construction of a body — work of art, of a body — media of cultural and aesthetic intentions. Only the maturity of body knowledge over movement could make it loosen itself from the daily gesture to present movements full of intent. It is the critical eye of the artist that allows for the shift of a theme, a feeling, an everyday fact and transform it into work of art it. This is what transforms art and dance into a very special manifestation of culture: the one that despite taking part in the culture, it tries to escape from it or even break it.

Denise da Costa Oliveira Siqueira

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The permanence of dance through the look The presence of Ana Victoria pervades the space so remarkably that even after her passage, the atmosphere is marked by the intensity and precision of her dance. The idea of permanence, the concept of duration encounters, in her work, the expanded field of her artistic expression. The lightness and sensibility, the vigour and intelligence with which she paves her path are forever recorded in our minds, thus boosting our own creative process which then, elaborates a vital and dynamic dialogue between dance and plastic arts. It installs a new spatiality where movement and transparence merge. A rare opportunity for the presentation of language enrichment and exchange. Unique, like the poetic nature of her work.

Iole de Freitas

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Ana’s Victories I will never forget the sensation I had when I saw Ana dancing for the first time. All alone in the arena theater, she faced her duel with the world, with the scenic space, with her own body and everything it contained and sowed. Severe, precise, objective, she would do the best with minute available details, plan and express in the domain of the construction of bodily architecture. A body that triggers a gear from a hub in contention, about to explode. I have never forgotten Ana ever since. On another occasion, I saw that girl dancing like a floating sculpture created by the artist Iole de Freitas. Was it the metal sculpture that was dancing or was the dancer a sculpture in movement? Or was it both? The clash, fruit of discipline and rigour was present. There she was, gathering inspiration from other sources of art to confront herself through her dance. Feminine, at times she would look like one of those dolls that can be wound up. However, she is not a simple doll, rather a doll in a fury, tamed by the very rein that she herself sways. Another remarkable encounter with Ana’s work was “The Exercise of Don Quixote”. There, I was able to find a sort of synthesis of her search, full of the coherence that only a long journey can bring. There she was, the same little woman, who had been struggling alone from the very first time I saw her. The hungry artist would lean over the pages of Literature in search of the nourishment and breath from where she would withdraw her incredible breath for such a journey. I realised that Ana had found in D. Quixote a coherent symbol, a figure that contained in itself the same elements of her trajectory as a creator. The emotions of this immortal character and his metaphors depicted a corporal narrative that had the support of the word “ brunt”. She, as the Knight of the Sad Countenance, exposed herself, before our eyes, to the duel and all it

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drags along: tiredness, threat, strength, the eternal re-rising, the faith. Then again, her body would both weave and suffer while she would fight, showing that it takes courage to dream and insist on what sounds madness. Only after observing this path, could I understand why she carries “ Vitória” in her name: to win, one must fight and as “victory” also comes from “life”, she fights while dancing, bathing her body in the sweat of those who never give up. Watching her dance is a lesson, although one wonders whether poetry can actually be taught. Victory is, doubtlessly, the pathway of her persistence. Certainly, there is no written word that can keep up with the penmanship of her movements which will inhabit our imaginary forever once we have seen her for the first time.

Bianca Ramoneda

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Quantic dance Ana Vitoria’s dance in quantic. It is Art that springs from her delicate body, eliciting from existence, a response in this great universal cosmic dance. Ana Vitoria is always challenging and conquering the improbable. She is an artist who does not hasten the time. Neither hers, nor her partners, let alone her creative flux. Countless times I have observed her serenity in the process of choreographic creation to the very moment of her debut, what is very anguishing for those who live like time slaves. She interrupts it, she experiences it with surrender and serenity until she achieves some sort of plenitude. Perhaps, this explains the precision of her gestures, so accurate and intense.She is complete at the moment. Living each and every rhythmic beat of the time, enhancing each note in a score, sometimes invisible, as spontaneous as the act of breathing. She can experience an immense pause as if she were suspended in the air, a slow motion that transcends gravity and would slowdown her own life, as I could observe in “About the beginning and the end”, when she performed “Lightness”, the last act of that choreographic creation inspired by Ítalo Calvino’s “The six proposals for the next millenium”. I must explain that that was my first job as a costume designer and cenographer, commissioned by Ana Vitoria herself, at a time when life was heavy, my artistic qualities were blurred. She has this generous view of the other, crediting it and motivating it to transcend the limits, which are, many times within the skeptical perspective so sadly often cultivated and perpetuated in our country. The apparent “magic”distilled through the pores of someone who lives in tune with the ones who are in syncronicity. An opposition within hersel... A particle? energy? which transforms the trajectory (or orbit), not even if it is only during the spectacle. It is at that point that I return to my previous statement when I say that Ana Vitoria’s dance is quantic. She is consciously and responsibly the quantum which vibrates, or rather, dances in harmony with All.

Claudia Diniz 152 | ana vitória dança contemporânea


“I believe wholeheartedly in the personal history and in the memory as tools and inexhaustible sources for the author’s projects.”

Ana Vitória

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2. The Greatest Simplicity A life is not made by tentative steps but by a firm stride along chosen paths in this immense macrocosm — a messy world that each one travels at their own pace. A life progresses thus. Perhaps barefooted, Perhaps shod, it makes no difference — but not alone, for in this world there is always a fellow traveller somewhere up ahead or following behind. So life goes on. Not always sad, not always happy: always finding, in each false step, some hope. The ones who have the best journey are those who persist with a light but firm step — at a pace that (most simply) finds its own rhythm.

Henrique Marques — Samyn

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QUIXOTE The horizons are countless... the moons project on the window the silhouettes of spinning spades shades of noble copper devour the silence of movements... it is the madness the knight floats over these reliefs of wind and insanity over the carcass of bones in armours of beetles... At the end of a conversation about Quixote with Ana Vitoria I see her dancing in the wind over iron blades...hollow, rusty...

Marimba

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Ballet for the Little People “Cirandas Cirandinhas has also other merits: the first of them being the music of Vila-Lobos brought to the stage in a innovative style, without losing grips with its ludic quality. Secondly, in a contemporary fashion, to visit a variety of childhood games that inhabit our Brazilian fantasy, however faded they might be in our excessively technological times.” “Cirandas Cirandinhas is the first step for the contribution of the carioca dance towards the building of formation of public opinion for the contemporary dance. A challenge with quality and perfection that not only deserves the attention of children but of all of us as well.”

Roberto Pereira

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“Afinal o que há por trás da coisa corporal?” In her new performance “Afinal o que há por trás da coisa corporal?”(After all, what’s behind the corporeal thing?) Ana Vitoria performs a trajectory inspired by her dialogue with Lygia Clark, producing the aesthetic dimension in which form and matter become operators for the deconstruction of commonplace. Throughout the development of her experiment, we can witness the provocations brought by Lygia, concerning the contemporary thought. Starting from the egg — the idea is loaded with feelings where the shapeless world springs as an object in its illuminated concreteness —, Ana Vitoria’s most recent work invites us to enable the transformation of shapes through an intensive experience. The scene display between the spectator and the artist problematizes the perspective. This proposition enables the perceptive field to increase its tridimentionality. As it multiplies its displacement power, it succeeds in extending itself in space so as to magnify for the observer, the diversity of ways of capturing the different ways of affecting it. On allowing the viewer to participate in the work, Ana Vitoria does not lay out a closed pathway through which the work should travel, offering us a chance of removing the barriers that normally define the beginning and the end of a work of art. According to the question posed in the title, the artist seeks to produce a vibratory field where dispersion-form — dispersion can be perceived. Perception in the sense of experiencing the between, the interval, putting on hold what has already been encoded, revealing that the power is transformed into form. Why the body? It is Just the dimension of forces, of the intensive sensitive field which precedes the form, pre-individual, which is invoked, as she denominates

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her work, the idea of a Body without Organs (BwO) inscribed in the egg. Taking the eye off the field which has already been represented is only made possible with the production of a BwO, according to Deleuze and Guattari in “How to create for oneself a Body without Organs”, a necessary fluid field, a facilitator of the necessary deformations for the captation of the unknown. We then went from a static oposition of form and matter to a zone of molecular, energetic, medium dimension, which allows for the thought of an energetic matter in movement, bearing singularity or “haecceitas”, which are implicit forms blending the deformation processes. The art held in this work of Ana’s, consists in following the flows of the matter, in offering the senses the possibility of capturing invisible forces, the metamorphosis. As Ana seeks in the body the mark of time, she reveals that eternity, like matter in movement, not like a transcending emptiness, points to life as a work of art, sensory mass, result of experimentation where memory and desire form the existential updates of new perspectives.

Hélia Borges

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Brave Ana “...laconism of gesture, more laconic workmanship, without evasions, severe.” João Cabral de Mello Neto (de Escultura Dogon)

In the nineties, when contemporary dance had just barely only started to have a weight and multiple faces in Rio, I saw, for the first time, Ana Vitoria’s performance. The work was already definitely remarkable with traces that had been only perfected by time. Whenever I watch her dancing, I notice how multiple her body is, for its vigorous yet delicate, obedient yet indomitable quality. Ana Vitoria’s dance has multiple layers developed from a tripod in which precision, speed and mastery appear as essential elements in the research of movement. Her poetic structure dominates this tripod. No matter the theme, it is always present! Hence, she launches herself onto the scene, as a dancer/choreographer, interpreter/ author, performer/ installer of creative situations. Ana Vitória likes wandering through various worlds. She seeks to transcre ate her diverse universes with her dance. She does so without loss. Ana’s dance has no redundancy. It is made from decision and firmness. It goes straight to the point and bravely stands up for what she truly believes in. This way, she shows an outstanding trajectory towards her clear goals. Artist in many ways, Ana not only has her own projects but she also shares others. As a guest on other artists’ trips, she moves bag and baggage into the body of others. And there she remains, with her tripod, researching and elaborating new dynamics and physical and psychic structures.

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Similarly, she behaves like an educator searching for her own accuracy in the classroom. In the recent years, Ana has launched herself into a new challenge; the publication of her ideas and the idea of a contemporary dance. This way is also paved by her strong willpower, critical intelligence and completion quality. Ana Vitória not only knows what she wants but she also wants to know. On creating from so many proposals, she goes about the world searching for the knowledge, transforming it in her body, which creates in itself the desire and intention of movement. Bravo, Ana!

Bia Radunsky

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Only after the first 15 years of creation could I glimpse at the clearly articulated and continuous link of my dance research process. From this repertoire, I can finally choose to continue on this path or even to completely change it.

Ana Vitória

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