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História do Bairro da Liberdade

A Piratininga de vales e bosques Pequenos vales, manchas esparsas de bosques naturais e presença de índios hostis integravam o cenário que nos dias atuais é o Pátio do Colégio na região central de São Paulo. Do topo desse planalto, a uns 25 metros acima do Rio Tamanduateí, era possível ver a calha do Rio Tietê. E do outro lado, se avistava o Vale do Anhangabaú. O início da metrópole, que nos dias atuais possui quase 12 milhões de habitantes, começou bem modesto. Cresceu um pouco com a decisão do então Governador Geral do Brasil colonial, Mem de Sá, em 1560, quando os moradores de Santo André da Borda do Campo (hoje divididas nas cidades de Santo André e de São Bernardo do Campo) foram transferidos para longe da Serra do Mar por questões de segurança em função dos constantes ataques indígenas. Instalaram-se nos arredores da casa dos jesuítas, construída em 1554, berço do Pátio do Colégio e da futura metrópole. Essa nova área tinha uma geografia favorável que possibilitava uma visão panorâmica proporcionando bons elementos de defesa, além de já possuir um sistema de transporte (rios Tamanduateí e Tietê) e de garantir fonte de alimento agrícola e da pesca. O clima era igual ao "reino", segundo relato do Padre Baltazar Fernandes, em 1565, no livro Non ducor, duco do historiador Afonso d´Escragnolle Taunay, pág. 3, São Paulo, 1924: "É terra como essa do Reino, fria e temperada". Já o Frei Vicente do Salvador comparou o local como o da Espanha, ao concluir e definir que era muito "sadio". Os europeus encontraram dificuldades na adaptação em relação à alta temperatura 1


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da baixada santista-vicentina. Assim, o planalto paulistano era um grande alento. As enchentes, que inundavam as várzeas da região, serviam de barreira natural, uma defesa perfeita, apesar da impossibilidade de construir algo. O rio tinha peixes em abundância. Depois da inundação, os peixes eram facilmente capturados à mão, mas quando a água da inundação baixava, sobravam os peixes que não foram pegos e que não tinham força para retornar ao leito rio. Esses peixes acabavam secando ao ar livre, e por isso o rio recebeu o nome primitivo de Piratininga (peixeseco na língua dos tupis), anterior ao atual Tamanduateí. Ao instalar os primeiros blocos de taipa de pilão do futuro Pátio do Colégio, no alto da colina, em 1554, os jesuítas estavam centrados no objetivo de catequizar os índios e também de aperfeiçoar a capacitação dos noviços. Segundo o ainda jovem padre José de Anchieta, em seus relatos, a convivência dos estudantes da Companhia de Jesus com os colonos de São Vicente, no litoral paulista, prejudicava a formação religiosa e moral dos alunos. A mudança seria oportuna, pois permitiria o isolamento uma vez que o trajeto até o planalto era extremamente árduo segundo descreveu o padre: "dificultosamente... podem subir nenhum dos animais... e os homens sobem com trabalho e às vezes de gatinhas por não se despenharem".

Antônio Parreiras - “Fundação de São Paulo” obra de 1913

Com isso, fortaleceu-se o estudo dos noviços e reforçou-se a tentativa de catequizar os indígenas da área. Após seis anos, o polo criado facilitou a decisão de Mem de

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Sá, que transferiu os moradores do hoje ABC para a Vila de São Paulo de Piratininga. O objetivo era criar um núcleo mais sólido, ante as dificuldades de socialização com os indígenas, cujo povo mantinha forte sua própria cultura. O objetivo inicial era a simples construção de um colégio da Companhia de Jesus, envolvendo um grupo de índios com uma obra evangelizadora e educativa de 13 religiosos. Sob a responsabilidade do provincial da missão no Brasil, o padre Manuel da Nóbrega escolheu o local para construir o colégio sob influência de seu tino político e de sua ampla visão da realidade, o que incluía a posição geográfica. Essa percepção fez a diferença como se provou com o passar dos séculos. Marcada por um crescimento silencioso e modesto, a terra era propícia para a criação de gado e para o plantio de uva, marmelo, romã e outras árvores frutíferas de Portugal. Também havia o cultivo de rosas, cravinas, lírios brancos, entre outras flores. A estratégia do padre Manuel da Nóbrega em investir na defesa foi reforçada por outros religiosos também. A cidade em formação era cercada por muros e protegida por um grupo "militar". Os ataques indígenas eram constantes. Apesar das ações pacificadoras dos jesuítas, demorou-se muito tempo para as mesmas terem efetividade. Somente em 1596, 42 anos após a unificação de Mem de Sá, é que a cidade parou de registrar presença das tribos hostis. O isolamento, no entanto, fez com que muitos tivessem uma vida simples e rústica, longe dos costumes, técnicas ou tradições vindas da Europa. Todo esse contexto favoreceu a rotina planaltina a adquirir uma característica autárquica em suas atividades econômicas, além de manter sólido o objetivo de catequizar e formar seus religiosos. A vila de São Paulo de Piratininga, ao contrário de outros estados brasileiros, vivia da agricultura de subsistência, o que a destoava do cenário nacional. O estado da Bahia e demais áreas nordestinas eram como uma extensão de Portugal, ou seja, as fazendas e as produções de cana-de-açúcar eram domínio exclusivo lusitano e essas regiões mantinham comércio intenso com o Reino. O "isolamento" da civilização paulistana perpetuou por quase 150 anos, passando pelas atividades agrárias como a moagem de trigo para pão; manufatura de tecidos; fabricação de chapéu de feltros, além dos produtos derivados da produção de 3


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rebanhos como bovino, suíno, entre outros. Houve o período de extração de minério como ouro e ferro, na atual Fazenda Ipanema, nas imediações da atual cidade de Sorocaba. Foi graças a esse isolamento, no entanto, que uma das características mais marcantes até os dias atuais começava a se moldar ainda no século XVI: o espírito de autonomia da futura cidade. São Paulo foi por muito tempo o entreposto entre o planalto e o litoral, gerando um comércio considerado "primitivo" e baseado no escambo, devido à escassez de moeda, que perpetuou até o século XVIII. A fase do Bandeirantismo acentuou essa tendência autônoma, uma vez que o vilarejo, na época, era um incipiente núcleo demográfico e econômico chamado de "boca do sertão". Outro fator que contribuiu para realçar essa inclinação foi o caráter de tríplice função da vila: religiosa, militar e administrativa. A vila também teve papel importante ao servir de ponto de convergência e de partida dos exploradores para as regiões sul e centro-oeste do país, garantindo a expansão territorial que triplicou o domínio colonial português no Brasil.

©Guilherme Gaensly, cerca de 1890 / Acervo Instituto Moreira Salles

Nas últimas décadas de 1700, já havia registros de produção rural reerguida e in-

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Várzea do Mercado e o Mercado Caipira em cerca de 1890


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No século XVII, destaca-se como importante mão-deobra a escravidão indígena diante da escassez de colonizadores. Entre as atribuições estavam o trabalho na lavoura; a luta em guerras e nos confrontos, além de servir de cargueiro humano para transportar as mercadorias entre o planalto e o litoral. As trilhas eram estreitas e perigosas, impossibilitando a passagem dos animais. Dessa forma, o uso da mão-deobra indígena vinha de encontro para suprir essa necessidade.

©Guilherme Gaensly, cerca de 1890 / Acervo Instituto Moreira Salles

centivada, pois o consumo dependia do que era colhido nas regiões próximas a São Paulo como a atual cidade de Atibaia ou de Mogi das Cruzes.

Rua Direita - Álbum Fotografias de São Paulo 1898

Já no final desse século e início do próximo, a escravidão trocava de etnia com a introdução dos negros vindo da exploração do ouro. Os negros eram vendidos por um valor mais alto que os índios, pois eram mais aptos. Começaram a se tornar uma mão-de-obra essencial tanto no trabalho agrícola quanto em serviços domésticos. Na vila de São Paulo, o sistema de abastecimento de água potável canalizada começava a se consolidar, apesar de rudimentar. E teve início o respaldo econômico agrícola com a consolidação de plantações de cana-de-açúcar em regiões que estavam recobertas por florestas e que possuíam terra fértil como as atuais cidades de Jundiaí e Campinas. A cultura permaneceu até a chegada do café que avassalou outros plantios. 5


©Guilherme Gaensly / Acervo do Museu Paulista da USP

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Já no século XIX, a então cidade começava finalmente a crescer vigorosamente graças a sua função política. A área central concentrava a presença das autoridades, além das principais figuras eclesiásticas da então província de São Paulo. A partir da segunda metade desse século, após 1850, a cidade deixa seu aspecto colonial para assumir sua progressão política, social, econômica, demográfica, cultural e urbana. A criação da então Academia de Direito de São Paulo (a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo São Francisco), em 1827, também contribuiu para o crescimento pujante da cidade. Enquanto isso, no cenário mundial, a escravatura é abolida de forma 6

Rua da Glória em 1860

©Militão Augusto de Azevedo

Escola de Comércio Álvares Penteado no Largo São Francisco. A escola foi fundada em 1902, mas o prédio começou a ser construído em 1908. Muitos jovens nikkeis estudaram nesta instituição, que foi pioneira nos cursos de economia e contabilidade no Brasil. Atualmente, abriga os cursos de especialização da FECAP


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©Militão Augusto de Azevedo

Rua da Glória, cerca de 1889

gradativa. O império britânico elimina a prática em 1833 e os Estados Unidos, em 1863. O Brasil segue a tendência, mas já próximo ao fim do século, em 1888, com a Lei Áurea. Nesse século houve um repentino crescimento da entrada de imigrantes europeus em São Paulo. A comunidade alemã, por exemplo, tentara se fincar na região de Santo Amaro, mas o sonho foi frustrado por inexistir uma política específica. Em 1830, havia 157 colonos alemães, que desistiram das terras paulistanas já

Panorama de São Paulo, 1870

Obra de Henrique Manzo / Acervo do Museu Paulista da USP

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©Militão Augusto de Azevedo /Acervo Instituto Moreira Salles

Pequenas transformações na cidade podem ser observadas nas duas fotos da Rua Tabatinguera, ambas de Militão de Azevedo. A primeira foto é de 1862 e a segunda é de 1887, quando a rua já conta com muitos postes de iluminação. Em 1830, foi estabelecido o uso de lampiões públicos de azeite na iluminação das ruas. A partir de 1847, foram instalados 160 lampiões a gás obtido à partir do carvão. Mais tarde, o carvão foi substituído pela hulha (tipo de carvão mineral), e a empresa inglesa São Paulo Gaz Company Ltd. obteve concessão do Império para operar a iluminação pública da cidade de São Paulo. Em 1873 já existiam 700 lampiões a gás na cidade. A iluminação à luz eletríca só chegaria em 1905, quando são instaladas as primeiras lâmpadas elétricas da cidade na rua Barão de Itapetininga, contratadas com a The São Paulo Tramway, Light and Power Company Ltda. Dois anos depois, são iluminadas as ruas do triângulo formado pelas Ruas Direita, 15 de Novembro e São Bento, com 50 lâmpadas de arco fechado.

em 1832. Junto à abolição da escravatura, no auge da Revolução Industrial, São Paulo começa a construir estradas de ferro, que antecedem o negócio próspero do café. Dessa forma, surge, em 1887, a imigração europeia italiana, que possuía experiência no manejo do campo e dentre ela havia algumas poucas famílias abastadas, que fugiam do caos do velho continente. A população que girava em torno de 31 mil habitantes, em 1872, passa os 240 mil em 1900. Sete estabelecimentos bancários surgem, o que comprova a pujança da cidade, que tinha 32 fábricas, em 1889, e passou a ter 95, em 1900. Houve um registro de crescimento de 200% em apenas 11 anos.

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©Guilherme Gaensly - Panorama de São Paulo

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O centro de São Paulo sem os prédios

O aumento vertiginoso impossibilitou a cidade de acomodar seu futuro destino e formar uma população em uma sociedade urbana consciente da vida em comum, ou seja, do senso de coletividade. Os italianos que chegavam ao país sentiam-se estrangeiros e assim se mantiveram. Tal comportamento se repetiu com os japoneses que chegaram após o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação, assinado em Paris, na França, em 5 de novembro de 1895. Os 781 primeiros nipônicos de 165 famílias pisaram em terras brasileiras em 18 de junho de 1908, com o navio Kasato Maru.

A infraestrutura de São Paulo Até os tempos do Brasil colônia, a cidade permanecia com suas limitações entre os vales do Anhangabaú e o Rio Tamanduateí. As áreas povoadas eram a Ponte Fonseca por cima do Tamanduateí (onde termina a Rua Tabatinguera nos dias de hoje); a Ponte de Miguel Carlos sobre o Anhangabaú; o Largo da Forca (a atual Praça da Liberdade) de onde partia o "Caminho do Mar" (estrada do Vergueiro) para Santos; a Estrada do Mata-Fome (que começava na atual Praça da Bandeira) e a Ponte do Açu que existia sobre o córrego de mesmo nome (onde está hoje o início da Av. São João). As casas eram de taipa de pilão, uma técnica árabe muito usada pelos portugueses 9


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Mapa da cidade de São Paulo, focalizando a área central, de 1868. As ruas Galvão Bueno e Conselheiro Furtado aindanão estão no traçado da época

e espanhóis, no qual a terra úmida é compactada entre dois pranchões de madeira removíveis. As paredes são bem espessas, o que facilita a identificação. Nos dias atuais, a técnica tem predominância em países com clima seco, como Estados Unidos e Austrália. Sustentável e ambientalmente correta, a bioconstrução consiste na compressão (apiloamento), deixando as paredes sólidas e menos impermeáveis. 10


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Praça João Mendes, em 1914

©Militão Augusto de Azevedo

Inclusive, a prática é incentivada pelo Ministério do Meio Ambiente, que disponibiliza cartilha ensinando a técnica. A Casa do Bandeirante, no bairro do Butantã, na capital paulista, é de taipa de pilão, cuja construção está aberta a visitação. Outra técnica usada era o pau a pique, com o entrelaçamento de madeira para sustentar a terra úmida colocada entre os vãos. Tanto esse procedimento quanto o de taipa de pilão foram adotados pela dificuldade no acesso a São Paulo, sem possibilidade de carregar tijolos e ausência de olaria no alto da serra ou mesmo no planalto. Em 1839, o Barão de Paranapiacaba descreveu, num depoimento, como era a região do Lavapés ao Largo de São Gonçalo: "uma ladeira de terreno avermelhado e cheio de boqueirões". Em outro registro, a Ata da Câmara Municipal da cidade, de 1847, 11


©Militão Augusto de Azevedo

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Largo da Cadeia, atual Praça João Mendes, em 1862

diz que o fiscal público constatou que os proprietários das "Casas do Pátio do Pelourinho faziam de modo imperfeito as calçadas de suas testadas", ou seja, havia um desnível tão grande com o pátio que chegava a uma altura de três palmos de diferença. Havia uma tentativa de o poder público padronizar e tornar as ruas num estado melhor. No entanto, muitos locais permaneceram estreitos e irregulares com vielas e becos herdados do período colonial: um caminho rústico e apertado entre muros. O Beco dos Aflitos é um dos exemplos que pode ser conferido ainda nos dias atuais. Começa na Rua dos Estudantes, numa rua sem saída, entre as ruas Galvão Bueno e da Glória. Hoje é conhecida como Rua dos Aflitos.

Local de punição Antes de o bairro se formar nos moldes atuais, no período colonial, a Liberdade era um local que reunia o pelourinho, um largo com forca e em decorrência disso, a igreja dos enforcados e a dos aflitos, que era um antigo cemitério público. O Largo de Pelourinho estava localizado onde é o Largo Sete de Setembro, integrada, nos dias atuais, à Praça João Mendes. Foi criado para amarrar os escravos 12


©Militão Augusto de Azevedo

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Largo da Cadeia, atual Praça João Mendes, em 1862. A igreja de Nossa Senhora dos Remédios foi demolida em 1943. No local está atualmente o Fórum João Mendes

fugitivos e servir de exemplo numa tentativa de coibir a prática. Há notícias de que a Câmara Municipal cogitou a sua construção em 1610, no entanto, não há registros históricos que comprovam tal acontecimento. Somente em 1834 é que há uma documentação atestando a existência do Pelourinho. Coerentemente, perto do Pelourinho estava o Largo da Forca, onde escravos e condenados eram enforcados. Foram inúmeros executados mesmo após a independência do Brasil. Ainda em 1870, o local era conhecido como o Morro da Forca. Após a abolição da escravatura no país, o Largo/ Morro da Forca passou a se chamar Largo da Liberdade, num antagonismo. Há muitas histórias sobre o local, mas a mais célebre é dos dois famosos condenados executados em 1821: Francisco José Chagas, o Chaguinhas, e Joaquim José Cotindiba. Ambos eram soldados do 1º Batalhão dos Caçadores. Há quem diga que Chaguinhas tinha a patente de tenente, segundo matéria do jornal O Estado de São Paulo, Seu Bairro, de 19 de outubro de 2015. Chaguinhas e Cotindiba se rebelaram 13


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Foto: Roberto Kakazu/NSP

A matriz da Casa Almeida & Irmãos, fundada em 1894, funcionava na Avenida Liberdade, no edifício onde se encontra hoje a Loja Ikesaki (foto abaixo). Anúncio da revista A Cigarra de 15 de dezembro de 1914. Na década de 1980, o prédio abrigou um restaurante e, na década de 1990, o Bingo Matikado, do ex-vice-presidente da ACAL, Makoto Miyamura.

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contra a sua majestade, o Rei de Portugal, pela falta de pagamentos de salário, denominada soldo. Essa revolta foi em 29 de junho de 1821, um ano antes da Independência do Brasil. No livro "O Senador Vergueiro" sobre a vida de Nicolau de Campos Vergueiro (17781859), responsável por substituir a mão-de-obra escrava negra pela europeia em sua fazenda em Limeira, no interior paulista, o autor Djalma Forjaz cita tanto Chaguinhas quanto Cotindiba como responsáveis por motins, roubos e mortes em Santos. Ambos foram processados, julgados e condenados conforme o sistema judiciário da época e deveriam ser executados. Como na cidade litorânea inexistia forca, os executados deveriam ser enforcados em São Paulo. No dia do enforcamento, no entanto, a população presenciou cenas impressionantes, sendo testemunhas e, por consequência, propagadoras do que viram. Os comentários foram tão intensos, que os fatos adquiriram aspectos lendários. Segundo o Padre Diogo Antonio Feijó, em 22 de maio de 1832, Chaguinhas ia ser enforcado, mas a corda se rompeu: "o desgraçado pendurado, cahio por haver-se quebrado a corda", teria relatado, conforme o livro "Liberdade", de Laís de Barros Monteiro Guimarães. Houve a tentativa de adiar a execução por falta de equipamento adequado. O caso foi para o Governo Provincial, além da solicitação de clemência ao Príncipe Regente. De nada adiantou. Ao invés de corda, foi utilizado um laço de couro. O material, no entanto, confirmou sua ineficiência para tal fim. Chaguinhas caiu da forca ainda semi-vivo e foi assassinado no chão. O acontecimento impressionou a população que acompanhou os dois enforcamentos, que bradavam por "Liberdade". Assim, Chaguinhas ao ser morto assumiu a condição de herói e mártir. Esse reconhecimento se deu com a construção, pelo povo, da Capela de Santa Cruz dos Enforcados. Atualmente, tornou-se uma igreja de mesmo nome e que fica ao lado do Largo da Liberdade. Em 31 de outubro de 1912, por uma Lei municipal, o Largo da Liberdade tinha um local reservado para a estátua do Padre Feijó, o mesmo que testemunhou as execuções de Chaguinhas. A Igreja dos Enforcados possui muitos devotos que às segundas-feiras acendem velas pelas almas do purgatório. Tal prática é tão constante que é responsável por manter, nas imediações um comércio específico de velas. 15


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Legislação sesmarial Até o final do século XVI, a vila de São Paulo tinha um ambiente hostil, de clima de guerra, devido aos confrontos constantes entre colonizadores e índios. O pavor dominava os moradores ao verem suas casas incendiadas frequentemente pelos nativos. Esse cenário, somado a dificuldade de acesso ao planalto com sua geografia íngreme, deixou a região pouco habitada e sem atrativos para desbravadores. Como uma forma de incentivar a colonização, o governo iniciou um processo de concessão de terras, inspirado na Lei das Sesmarias de Dom Fernando, de 1375, uma política de mais de quase 200 anos em Portugal. No país lusitano, o rei cedia terrenos baldios para que as pessoas produzissem. A cessão era decorrente ao cenário agrário português em que havia uma crescente falta de cereais em detrimento a criação de gado que aumentava gradativamente, assim como o número de pessoas ociosas, de vadios perambulando pelas ruas e de pedintes. Com a Lei das Sesmarias, as terras incultas, sem produções, eram distribuídas para a população com o intuito de produção e de povoamento também. Nesse período, a Europa sofria com a peste negra medieval, que devastou o continente e, em 1351, cerca de 25 milhões de pessoas morreram num período de quatro anos. Seria o equivalente a um terço de toda população europeia. A falta de comida, de mão de obra na lavoura, de gado para ajudar no plantio (e consequentemente o seu aumento); do encarecimento dos salários dos trabalhadores rurais e a oscilação abismal de valores para o arrendamento de terras eram situações comuns nesse período. Diante desse conjunto de elementos, a monarquia portuguesa resolveu criar a Lei das Sesmarias, que vem do latim "sexta parte", ou seja, que as terras têm 1/6 do valor estipulado. A concessão dessas terras garantiram a produção de alimento e também geração de impostos. Por outro lado, se a pessoa deixasse de produzir, o rei retomava a propriedade, depois de ter aplicado altas multas e desterrado a pessoa. Esse sistema permitia evitar a escassez de alimentos e repovoar as áreas. O que surgiu para combater uma determinada situação, no entanto, perpetuou-se por séculos e foi a base do sistema agrícola português, sendo implementada até em novas terras conquistadas como o Brasil, que tinha um cenário igual ao período medieval: áreas vastas sem uso, baldios e inexplorados.

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Em todo o território brasileiro, em especial a região nordeste, foi aplicado o sistema sesmarial com a concessão de 16 mil cartas, ou seja, 16 mil pessoas foram beneficiadas. O modelo brasileiro, no entanto, era diferente do aplicado por séculos em Portugal, uma vez que havia sido criado para subsistência. Como no Brasil, a população era pequena, a produção seguia para a Europa, formando o comércio agrícola transcontinental. Em São Paulo, o processo é denominado concessões de datas de terras, segundo as atas da Câmara Municipal de São Paulo. O direito de usufruir foi destinado aos primeiros moradores da vila de São Paulo, mas a prática permaneceu até mesmo no século XIX diante da dificuldade em criar uma cidade. Os sesmeiros foram ocupando uma área grande de terra, chegando a desrespeitar os limites e se apossando de território alheio. Com o tempo, começaram a surgir colonos que trabalhavam com o cultivo, mas sem vínculos com o Reino português. Eram pessoas que alugavam ou compravam as sesmas, o que não era permitido, uma vez que era concessão. Os problemas começaram a se agravar, chegando ao ponto da monarquia precisar reconhecer o posseiro, uma vez que havia muitas irregularidades e desordem nas doações. Em 1795, foi elaborado um Alvará, um regimento específico, que reconhecia o posseiro e regulamentava o sistema de sesmarias para que o Reino mantivesse controle sobre as terras devolutas. O esforço, no entanto, foi em vão. O conflito entre o Reino, os grandes donos de terras e colonos estava instaurado. Em 1822, o sistema sesmarial é encerrado e os posseiros ganham importância social nesse confronto ocorrido no ano da independência do Brasil. Dois anos depois, a Carta de 1824 garante o direito à propriedade.

Área sesmarial no bairro No "Caminho do Carro", antes conhecida como "Caminho de Virapoeira", que liga a rua Vergueiro até o bairro de Santo Amaro, estavam vários pontos de referência de áreas de concessões de terra como: Largo da Forca, Casa da Pólvora, Chácara do Quebra-Bunda, Matadouro e Telégrafo. Na atual Avenida da Liberdade (antiga Rua Cônego Leão), que já era principal eixo naquela época, havia várias concessões. A Casa da Pólvora era um problema na região, pois ninguém queria construir nos arredores com receio de uma possível explosão. Os sesmeiros vizinhos chegaram a 17


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pedir na Câmara Municipal a transferência do estabelecimento para outro local, mas sem sucesso. A Casa da Pólvora ficou pronta em 1813. Foram 59 anos depois de ter recebido o alvará de construção e, na época, sua localização era considerada distante, apesar de estar a menos de um quilômetro da hoje Praça João Mendes. Há registros de o bairro ter tido sesmeiros em 1609, segundo o livro "Liberdade Histórias dos bairros de São Paulo", de Laís de Barros Monteiro Guimarães. A publicação, de 1979, integra a coletânea de bairros paulistanos da Secretaria Municipal da Cultura, da prefeitura de São Paulo. Cada pessoa tinha o direito de usufruir, em média, de um data de 20 braças de terra. Data e braças são medidas agrárias antigas do Império e equivalem a cada uma, respectivamente, a 17,6 x 44m, e 2,20m. Essas medidas eram usadas em São Paulo. Em outros locais, os números são diferentes. Assim, na região havia roças e chácaras pequenas do centro ao Caminho do Carro. Grande parte das terras do centro eram "chão devolutos" nos arredores da Vila São Paulo. Entre os nomes encontrados nas atas estão Gaspar Colaço, cujas terras são localizadas com base no nome das pessoas que vivem lá: "nas cabeceiras dadas a Gonçalo Fernandes na banda direita do caminho indo para Birapoera, partindo com Brás Mendes". Outro exemplo é de Pascoal Delgado e Manoel Costa que têm 20 braças em quadra "no arrabalde desta vila, indo pelo caminho que vai para Ibirapuera, saindo desta vila em uma travessa que está demarcada pelo outão de João de Oliveira, para os lados do ribeirão do Anhangabaú". Ainda era uma vila, o que permitia referência como detalhe da construção.

Nove grandes chácaras O crescimento desordenado e o fracasso do sistema sesmarial fez com que mesmo na Liberdade houvesse chácaras com grande área. Muitas, inclusive, conseguiram ultrapassar os séculos, chegando intacta ao XX. Com o boom populacional, no entanto, muitos proprietários se viram obrigados a abrir suas chácaras para a construção de ruas, alamedas e até loteamento, mas sem planejamento urbanístico. Ainda em 1860, o jornal "Correio Paulistano" anunciava: "Vende-se uma chácara com boa casa de sobrado, construída toda de novo com pilares de tijolos, sitiada na Rua de Tabatinguera..." A Chácara de Tabatinguera era de propriedade do filho do governador da capitania de São Paulo, Bernardo José de Lorena, responsável pelo Novo Padrão de Coloniza18


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ção na gestão entre 1788 e 1797. O dono, Francisco de Assis Lorena, possuía, à frente, a fonte Santa Luzia. Com o desmantelamento, surgiram as ruas: Conselho Furtado, Conde de Sarzedas e Santa Luzia. Segundo a autora Laís, no livro Liberdade, uma gravura de 1862 mostra como era a propriedade: uma casa simples, telhado de largo beiral, alpendre lateral e no centro árvores frondosas. A região integrava o Distrito Sul da Sé com plantação de chá e bosques de jabuticabeiras. O nome do Viaduto do Chá foi em decorrência dessa cultura. A Quinta de Francisco Machado era outra grande propriedade onde, nos dias atuais, está instalada a Damásio Educacional, na Rua da Glória. Era tão ampla que do desmembramento dela surgiu a Rua da Fábrica, que hoje é Sinimbu, paralela a Rua Mituto Mizumoto e que termina nas ruas Glicério e dos Lavapés. A Quinta era espólio do coronel João Radmaker, mas em 1824, passou a pertencer à Santa Casa de Misericórdia, que construiu um asilo de mendicidade. Após essa mudança, o local foi considerado como "um velho pardieiro colonial, feio, acachapado, de taiba e reboco interior", mas a propriedade passou por uma transformação e surpreendeu como uma crisálida de luxo. O imóvel passou a ser o Colégio São José. A Chácara Streib era uma propriedade próxima, naquela época, à fonte do Moringuinho, no Caminho do Carro (atual Avenida Liberdade e Rua Vergueiro), entre os largos da Forca e da Pólvora. Ao ser desmantelada, a área deu lugar a vários terrenos de propriedade do Barão Nicolino Barra, que, em 1890, tinha um palacete na Rua da Liberdade. A propriedade que levava o nome do comerciante mineiro Caetano Ferreira Balthar era bem extensa: ficava entre as ruas Américo de Campos e Barão de Iguape até a altura do número 106 da Rua da Glória, onde estava sua sede que mais tarde viraria o Grupo Escolar da Liberdade, inexistente nos dias atuais. Caetano, morto em 1870, tinha como ofício a loja de tecido no térreo do prédio da Rua do Rosário, que depois virou Imperatriz e hoje é 15 de Novembro. Considerado um dos primeiros empresários da cidade, ele possuía imóveis em outras localidades como na Rua Santa Rosa, próxima à rua do Gasômetro. A Chácara do Sertório estava localizada entre duas estradas que iam para Santo Amaro (Caminho do Carro), cuja propriedade ficava a oeste do Córrego Anhangabaú e foi adquirida por João Sertório em 1831. O filho dele, de mesmo nome, vendeu a propriedade para Alexandrina de Moraes, responsável em transformar o local numa 19


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No local onde funcionou o matadouro municipal, foi construído o tendal (depósito de carne) municipal. O lugar tinha o nome de Largo São Paulo. Foto de autoria desconhecida, cerca de 1904. Nesse local, foi inaugurado em 1914, o Teatro São Paulo, uma grande casa de espetáculos, posteriormente transformado em cinema. Em 1969, foi demolido para a construção da Radial Leste-Oeste. O Largo São Paulo desapareceu e deu lugar para a Praça Almeida Júnior, entre as ruas Glória e Conselheiro Furtado. Abaixo, foto publicada no jornal “O Estado de São Paulo” de 29/1/1914, por ocasião da inauguração do teatro.

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bela chácara de repouso ao lado da rua que viria a se chamar Santo Amaro, nas imediações da atual Avenida Brigadeiro Luís Antônio, na Bela Vista. A Chácara Sertório teve uma parte vendida por Alexandrina a Frederico Bayerlin, cuja frente situava-se na Rua Vergueiro, no Caminho do Carro. Em 1886, com a morte de Alexandrina, a propriedade ficou para seus três filhos: José Vieira de Moraes, Francisco José Bastos e Emídia Augusta de Moraes Pedroso. A Chácara do Sertório abrangia os atuais bairros da Liberdade, Paraíso e Bela Vista, cuja área acabou sendo dividida em construções menores, mas ligando as então ruas da Liberdade e de Santo Amaro. Dessa propriedade surgiram as ruas Paraíso, Arthur Prado, Pedroso, Maestro Cardim, Martiniano de Carvalho etc. José Antônio Moreira, em 1823, havia adquirido uma propriedade que ficava na estrada de São Paulo a Santo Amaro, o Caminho do Carro, e batizou com seu nome ficando Chácara Moreira. O proprietário trabalhava com couro e suas terras faziam divisas com a Chácara do Sertório, ao norte, e com a Estrada ou Caminho do Carro, ao sul. Em 1877, após a morte de Moreira, a propriedade foi desmembrada e inserida nas terras de Olympia Guimarães Catta Preta, na Chácara Bela Vista, que ao sul fazia divisa com o, na época, Largo da Guanabara, que deixou de existir na inauguração da avenida 23 de maio, e estava localizado onde hoje é o Viaduto Santa Generosa, no metrô Paraíso. A Chácara Barão de Limeira tinha início na Avenida Brigadeiro Luís Antônio até a Praça João Mendes e era gerida pela herdeira dos barões de Limeira, a dona Paulina de Souza Queiroz. Após 1934, com a morte dela, que residia no local, a propriedade foi doada ao Estado, que na contrapartida iria construir uma escola para excepcionais. O acordo não se concretizou e numa forma de homenageá-la, o poder público ergueu o Viaduto Dona Paulina, que liga a avenida aberta por seus familiares (Brigadeiro Luís Antônio) à Praça João Mendes. Um nome inusitado fazia parte dessa propriedade conhecida como a Chácara do Quebra-Bundas. Segundo o jornalista Levino Ponciano, em "Bairros Paulistanos de A a Z", a Chácara do Quebra-Bundas pertencia ao Sítio Tapanhoim e era destinada a um tipo diferente de serviço: mediante pagamento de taxa pelos senhores de escravos, ali era feito o espancamento dos escravos ditos "vadios". Essa é a origem do nome da chácara, que fica nas imediações do local onde está instalado o Tênis Clube Paulista, próximo às ruas Apeninos e Pires da Mota. Os escravos apanhavam tanto que ficavam descadeirados. 21


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A Chácara do Quebra-Bundas era como uma extensão do Pelourinho do bairro da Liberdade. Sua área era onde é hoje o bairro da Aclimação, onde antes havia um jardim com animais que deveriam se adaptar ao clima, ou seja, aclimatação. E boa parte da propriedade teve que ser desmantelada para a criação da Estrada Vergueiro, em 1834. O último proprietário foi José de Oliveira Veloso, que após sua morte, o Estado levou a Chácara ao leilão. A Chácara da Glória estava mais localizada na margem esquerda do caminho que ia para o sul, ou seja, na época, "na estrada que seguia para os arredores do Ipiranga" depois do Córrego do Cambuci. Em 1825, foi inaugurado o Seminário de Nossa Senhora da Glória, voltado para meninas órfãs de militares mortos e sem recursos. Cerca de 30 jovens estudaram na Chácara e três delas viraram professoras em Santa Ifigênia, Jundiaí e Pirapora. Em 1853, o seminário foi transferido para um local que funcionava como hospital militar e depois quartel do 7º Batalhão de Caçadores do Acu. Permaneceu até 1861 e voltou para a Chácara da Glória, que já se encontrava em ruínas. Devido à precariedade, o Seminário voltou para o prédio onde estava o hospital. Houve uma tentativa de manter o Seminário, mas a iniciativa foi infrutífera em menos de um ano. A Chácara da Glória passou por penhora pública e virou propriedade da Fazenda Nacional. Em 1870, foi realizada a demarcação da propriedade, que mais tarde foi vendida para Matheus de Abreu Pereira, que era o quarto bispo da província. Com a morte dele, a propriedade seria doada à igreja. O bispo, no entanto, possuía dívidas com a Fazenda Nacional, assim, a propriedade foi penhorada e incorporada aos bens nacionais. O Ministério da Agricultura criou um núcleo colonial em 1877. Três anos depois, a pasta pleiteou a propriedade para ela. As terras foram demarcadas e parte delas foram cedidas ao Ministério da Agricultura e outras foram destinadas à Presidência da Província.

Avenidas e ruas da Liberdade É notório que atribuir nomes e números em avenidas, ruas e casas ajudam e muito a localização. Nova York e Tóquio usam somente números para suas ruas e casas, no caso deste último, para bairro, quarteirão e casa. São Paulo dos dias de hoje têm nomes nas ruas e números. Esse cenário era bem diferente na época da colonização 22


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até o final do século XIX. Para encontrar a casa de alguém era preciso saber onde ficavam os principais pontos da cidade. Segundo o Diário Oficial de SP, de 1991, que cita o livro "Vida e Morte do Bandeirante", de Alcântara Machado, a referência inexistia: "nos processos mais remotos não se mencionava a situação exata dos imóveis". Havia poucos moradores e todos se conheciam, descartando a necessidade de um sistema de identificação que conhecemos nos dias de hoje. Eram comuns descrições genéricas como: "junto à casa da Fundição"; "defronte do pelourinho" ou "junto aos muros dos frades de São Francisco". Com o tempo, as referências foram ficando um pouco mais específicas como: "a rua defronte de João Paes"; "a rua em que mora Marcellino Camargo" e outras até inusitadas que usavam ainda uma pessoa morta para sinalizar a casa ("travessa que vai para as casas do defunto dom Simão"). O caso da atual Rua Direita é um exemplo da evolução dessa referência. Através de uma ata da autoridade governamental, em que o foco era um buraco, foi possível descobrir que havia um caminho entre duas igrejas: a da Misericórdia (atual Edifício Ouro da Rua Álvares Penteado, segundo o sociólogo José de Souza Martins, no jornal O Estado de São Paulo, de 29/ 03/2010) até a Santo Antônio (ainda na Praça do Patriarca). Esse caminho era chamado de "rua direita da Misericórdia para Santo Antônio", virando "rua direita da Misericórdia" e por fim adquirindo o nome atual. E por muitos anos se perpetuou esse tipo denominação para as ruas. O Poder Público começou a trabalhar a questão em 1809, quando a Câmara Municipal que possuía vereadores (legislativo e executivo) receberam um ofício do Ouvidor. Este último era a ponte entre o rei (ouvidos do rei), além de assumir o papel de juiz. Assim, o documento do ouvidor era: "Para a mais pronta expedição do lançamento da Décima que pretendo fazer nos prédios urbanos desta cidade, logo que me recolha da correição das villas do Norte, ordeno a Vossas Senhorias que sem perda de tempo passem a mandar escrever em cada princípio de rua na quina, ou canto de casa, que ficar mais commodo o nome da mesma rua, e consecutivamente em cada propriedade de casa os números por letras de algarismos desde um até ficarem numeradas todas as propriedades de cassa da respectiva rua, começando novamente pelo mesmo número um na seguinte rua, tudo como na primeira, de maneira que em toda a cidade não fique rua, ou beco sem nome, assim como propriedade alguma de casa sem número 23


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no alto da porta, que der principal servidão á mesma casa, pela maneira que fica insinuada. Deus Guarde a Vossas Senhorias. Villa de Cunha em correição a - agosto de 1809 - o Ouvidor da Comarca Miguel Antonio de Azevedo Veiga - Senhores juiz presidente e officiaes da Câmara da cidade de São Paulo." Assinado pelo ouvidor Miguel Antonio de Azevedo Veiga, a determinação era imediata. Era preciso identificar todas as ruas em placas, além de numerar todas as casas. Os vereadores tentaram fazer uma espécie de "concorrência pública" para fornecedor, mas o único que apareceu apresentou um valor considerado exorbitante pelos vereadores. O pedido era de 96 mil réis. Diante de tal situação, foi decidido que o trabalho seria feito por pequenos empreiteiros. A urgência era tão grande que a proposta foi aceita pelo ouvidor: "á vista de todo o ponderado approvo que Vas. Sas. mandem fazer a mesma obra quanto antes, ou por jornaes, ou de empreitada, tudo com a maior economia, e zelo, como espero". A pressa tinha uma justificativa: com o mapeamento seria possível realizar a cobrança de impostos, uma vez que a corte portuguesa havia chegado ao Brasil um ano antes. D. João VI e toda a família real escapavam da invasão napoleônica em Portugal. Até o início do século XX, as ruas tinham nomes e surgiam sem o conhecimento do Poder Público. Com o crescimento vertiginoso da cidade, o descontrole atrapalhava a própria administração da cidade, que estava repleta de ruas clandestinas ou "conhecidas pelo nome tal". O ápice do caos foi na década de 1970, em que foi criado um procedimento sistemático de nomes e ruas com critérios. Segundo o site da prefeitura de São Paulo, sobre a criação do projeto Banco de Nomes (de ruas), o resgate histórico dá um panorama da problemática: No dia 06 de junho de 1975 (administração do prefeito Olavo Setúbal), era baixada a Ordem Interna nº 1.630 no âmbito do Departamento de Rendas Imobiliárias, constituindo um grupo de trabalho para "disciplinar os procedimentos que levam à concessão de nomes aos logradouros públicos do Município de São Paulo - como meio de sanar as irregularidades e os problemas existentes e para evitar o aparecimento de novas situações incorretas". Esse grupo era formado por técnicos especializados que detectou: "na atual realidade, o ponto crítico do sistema consiste na falta de um critério único que presida aos 24


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procedimentos que levam à denominação oficial dos logradouros, além da carência necessária de uma estrutura que assegure a observância de cautelas mínimas em seu ´batismo´ oficial, em condições de atender a um Município do porte de São Paulo." Assim, surgiu o Sistema de Banco de Nomes que foi finalizado em 1977 e era composto por 25 mil sugestões de nomes, suas explicações, além dos históricos e referências. O Banco trabalha com uma gama vasta de temas: América do Sul, Artes Plásticas, Astronomia, Biografias, Botânica, Cinema, Folclore, Geografia Universal, História da Arquitetura, História do Brasil, História da Ciência, História da Dança, História da Igreja, História da Música, História do Paraná, História do Teatro, História Universal, Lingüística, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, Literatura Universal, Mineralogia, Mitologia, Música, Música Popular Brasileira, Nobiliarquia, Química, Sociologia, Topônimos e Zoologia. As ruas do bairro da Liberdade estão dentro desse projeto. Algumas carregam fatos históricos em seus nomes, outras são uma referência ao proprietário da chácara ou autoridade, entre outras justificativas. Seguem alguns exemplos das principais vias do bairro e suas curiosidades.

AVENIDA LIBERDADE A principal via do bairro teve cinco nomes conhecidos, que variavam como um organismo vivo. A primeira era a Rua da Pólvora, pois levava para a Casa da Pólvora, construída em 1754, onde fica o atual Largo da Pólvora. Quando a Forca foi construída, em torno de 1775, para executar, a rua começou a ser chamada como Rua da Forca. Depois passou a se chamar como Rua de Cima e, em 1810, passou a ser Rua do Cônego Leão, pois o próprio Cônego Leão José de Sene morava lá. Em 28/11/1865, por proposta do vereador Malaquias Rogério de Salles, a via recebeu o nome definitivo: Rua da Liberdade. Ela ganhou o status de avenida somente em 1952. A origem do nome possui a versão do Chaguinhas, citada anteriormente, mas há outra versão oficial. Liberdade era o nome de um chafariz no Largo de São Francisco, que em 1831, em comemoração a abdicação de D.Pedro I, o vereador Cândido Gonçalves Gomide havia sugerido a troca de nomes do antigo "Largo do Curso Jurídico" (atual Largo de São Francisco) para "Praça da Liberdade". A Câmara Municipal foi contrária e apenas denominou o chafariz. A confusão come25


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ça em 29/10/1858, com o edital: "A Câmara Municipal faz saber aos seus habitantes que em sessão do dia 28 do corrente, deliberou chamar-se Praça da Liberdade, o largo da Forca onde se acha colocado o Chafariz da Liberdade". Como o chafariz do Largo São Francisco poderia estar no Largo da Forca, questionam os historiadores. Poderia haver outro chafariz ou aquele do Largo São Francisco poderia sido transportado para o Largo da Forca, prática comum naquela época. De qualquer forma, o nome foi oficializado pela Lei nº 4.211 de 14 de março de 1952.

PRAÇA DA LIBERDADE O nome da praça está interligado com a história da via de mesmo nome. Na planta de 1822, ela é denominada como o Campo da Forca e, em 1916, como Largo da Liberdade. No Ato 3.324, de 2 de setembro de 1930, chama-se Largo Affonso de Freitas. A última oficialização foi pelo Ato 139, de 11 de abril de 1931.

PRAÇA CARLOS GOMES Referência na história da comunidade nikkei, o local é onde está o Cine Joia, que começou a exibir filmes japoneses em 1958. A pequena praça foi cenário de quarteirão cheio de residências e ficava entre as ruas da Cadeia (atual Dr. Rodrigo Silva) e de Santa Cruz (antiga Rua do Rego), que perdeu suas características com as desapropriações. Isso deu lugar à praça atual, pois tinham sobrado poucas casas. A origem do nome veio pela antiga Rua de Santa Cruz que virou Rua Carlos Gomes, segundo mapa de 1895. A praça herdou o nome da via, devido a importância histórica do músico e autor da consagrada ópera "O Guarani".

LARGO DA PÓLVORA Resquício do período colonial, em especial ao bandeirantismo, onde havia uma Casa da Pólvora que abrigava barris do produto inflamável, desde 27/07/1754. Construída e instalada pelo Senado da Câmara, o local era famoso, apesar da vizinhança a querer longe. Em 1832, o presidente da província tentou remover o estabelecimento de local, mas o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar não permitiu. Em 1872, ela finalmente foi deslocada para o bairro da Glória. Na comemoração dos 70 anos da imigração japonesa no Brasil, em 1988, o prefeito Olavo Setúbal "reinaugurou" a praça do Largo da Pólvora em homenagem a comunidade nikkei. O Largo ganhou uma estátua de Shuhei Uetsuka, o pai dos imigrantes japoneses, que foi doada pelo governador da província japonesa de Kumamoto. O local havia sido remodelado com recursos da então Associação dos Lojistas da Liberdade (Acal) e o serviço de jardinagem feito pelo poder público municipal. Denominação tradicional em São Paulo. Lembra a "Casa da Pólvora" que existiu 26


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nesse local, construída e instalada pelo Senado da Câmara em 1785. Em 1822, chamava-se "Campo da Polvora".

RUA DOUTOR RODRIGO SILVA O local tinha dois nomes, nos finais do século XVIII: Rua do Meio e Rua Detraz da Cadeia. Depois passou a ser apenas "Rua da Cadeia". Virou Rua da Assembleia, por ter um prédio da Câmara Municipal ocupado pela Assembleia Provincial. A Lei nº 416, de 28/08/1899 altera o nome para a atual Rua Doutor Rodrigo Silva. Rodrigo Silva (1833-1889) era filho do Barão de Tietê. Paulistano, Rodrigo se formou pela Faculdade de Direito de São Paulo, seguiu carreira política como deputado, senador e ainda foi ministro dos Negócios Estrangeiros e da Agricultura, Comércio e Obras Públicas em 10 de março de 1888, o penúltimo da monarquia. Foi um dos signatários da Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil. Escrevia para os jornais "Diário de São Paulo", "Correio Paulistano" e "A Lei", dentre outros, e reuniu numerosas comendas, como a da "Legião de Honra da França".

RUA CONSELHEIRO FURTADO O local foi batizado com esse nome em homenagem ao catedrático e depois delegado de polícia, Francisco Maria de Souza Furtado de Mendonça (1812-1890). A oficialização foi pelo Ato 972, de 24/08/1916. O conselheiro Furtado era natural de Angola e tinha vindo ao Brasil ainda criança. Foi estudante de letras clássicas e seguiu vida acadêmica. Em 1856 foi catedrático de Direito Administrativo e escreveu livros na área.

RUA GALVÃO BUENO Antes se chamava Rua dos Estudantes. Adquiriu o nome de Rua Galvão Bueno pelo Ato 972, de 24/08/1916, o mesmo da Conselheiro Furtado. Carlos Mariano Galvão Bueno (1834-1883) era paulistano e estudou na Faculdade de Direito. Em 1867, foi nomeado interinamente professor de filosofia e retórica do antigo curso anexo e, em 1874, foi catedrático de filosofia. Em 1877, publicou um tratado de filosofia, que ficou popular na academia. Galvão Bueno morreu afogado no rio Tamanduateí enquanto pescava.

BECO DOS AFLITOS O local abrigava um cemitério para a população marginalizada como pobres, negros, indigentes e condenados. Funcionou de 1775 até 1858, quando foi inaugurado o cemitério da Consolação. Hoje, o beco começa na Rua dos Estudantes e termina 27


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na Capela Nossa Senhora dos Aflitos. Após o local ter sido vendido em leilão, o único espaço que ficou para a igreja foi a capela, conhecida como o "Cemitério dos Enforcados". A capela que dá o nome ao beco.

RUA DA GLÓRIA Lá havia a Chácara Nossa Senhora da Glória, onde, em 1825, foi criada o Seminário das Educandas de Nossa Senhora da Glória, pelo presidente da Província Lucas Antônio Monteiro de Barros.

RUA DOS ESTUDANTES Recebeu esse nome devido ao grande número de estudantes que viviam no local, onde havia antigas e conhecidas repúblicas de estudantes.

RUA AMÉRICO DE CAMPOS A via foi aberta para unir as atuais Rua Galvão Bueno com a Avenida Liberdade. Recebeu o nome de Américo Brasilio de Campos (1835-1899), que nasceu em Bragança. Formado na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1860, ele foi promotor público em Itú até 1863. Dois anos depois, assumiu a redação do "Correio Paulistano". Depois, fundou com o desenhista Angelo Agostini, a célebre folha ilustrada Cabrião. Foi um dos fundadores da Loja Maçônica América, centro nas lutas pela abolição e República. Em 1875, com Rangel Pestana e José Maria Lisboa, fundou o jornal "A Província de São Paulo", hoje "O Estado de São Paulo", e finalmente, em 1884, o "Diário Popular", com José Maria Lisboa. Como secretário da "Comissão Permanente do Congresso Republicano" reformulou as "Bases para a Constituição do Estado de São Paulo". Crítico de arte e defensor da instrução popular, fundou a "Sociedade Propaganda de Instrução Popular" responsável pelo Liceu de Artes e Ofício. Em 1890 foi nomeado Cônsul do Brasil em Nápoles.

RUA TABATINGUERA Uma verdadeira encosta de barranco ainda pior nos tempos coloniais. Em 1822, chegou a se chamar Rua Detrás da Boa Morte.

RUA CONDE DE SARZEDAS Considerada uma das mais antigas ruas do bairro e que nasceu na Chácara de Dona Ana Maria de Almeida Lorena Machado, em 1890. A entrada da chácara ficava na Rua Tabatinguera entre a Travessa da Glória e rio Tamanduateí. O primeiro nivelamento da rua foi em 1883 (Lei nº 78, de 09/12). Depois em 1894 pela Lei nº 114, de 6/10, quando teve suas primeiras sarjetas. O calçamento completo ocorreu 28


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na década de 1910, pela Lei nº 1319, de 19/5. O local já pertenceu a Francisco de Assis Lorena, filho de Bernardo José de Lorena, ou Conde de Sarzedas. O conde ganhou o título em 1805 por ter sido conselheiro de capa e espada do Conselho Ultramarino, além de outras atuações políticas nacionais e internacionais. Ele foi encontrado morto, por conta das revoluções liberais, na prisão em que estava. Como governador de São Paulo, foi responsável pelo calçamento de vias públicas, além de construir o chafariz da Misericórdia e a primeira ponte do Anhangabaú. Foi na Rua Conde de Sarzedas que se instalaram os primeiros imigrantes japoneses em São Paulo.

RUA PEDROSO A via ganhou o nome de um chefe político de prestígio no bairro da Liberdade, o coronel Francisco Antônio Pedroso. A rua foi oficializada pelo Ato 972, de 24/08/ 1916.

AVENIDA BRIGADEIRO LUIZ ANTÔNIO Já carregou nomes como Rua de Santo Amaro e do Caguassú e ficava dentro da Chácara do Barão de Limeira. Teve o nome oficializado pela Lei nº 894, de 20/04/ 1906. Depois foi confirmado pela Lei nº 1.081, de 13/04/1908. O brigadeiro Luiz Antônio de Souza Queiroz (1746-1819) era de Amarante, Portugal, e iniciou a vida militar no Brasil, na Companhia de Cavalaria de Itu. O brigadeiro tinha tino comercial e chegou a negociar as mercadorias que seriam levadas a Lisboa e também a ser um dos primeiros investidores da Real Fábrica de Ferro do Ipanema, em Sorocaba. O militar foi um grande filantropo, doando dinheiro à Santa Casa de São Paulo, Quartel da Legião de Voluntários Reais, ao Hospital Militar, Jardim Botânico, entre outros.

RUA SÃO JOAQUIM A via leva esse nome em homenagem ao Conde de São Joaquim que morava na rua. Joaquim Lopes Lebre, de Agui, Portugal, chegou adolescente no Brasil. Comerciante e capitalista, o português havia fundado a "Casa Lebre & Irmão", que virou tradicional na Rua Direita. Foi um dos fundadores da "Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência de São Paulo", em 1859, hoje conhecido como o Hospital Beneficência Portuguesa, e um dos edificadores do antigo Hospital São Joaquim.

RUA TAMANDARÉ A via começou a ser urbanizada no final do século XX e ganhou o nome em homenagem ao gaúcho Almirante Joaquim Marques Lisboa, que participou das campanhas 29


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de Independência do Brasil, em especial na Bahia e no Paraguai. Foi militar de destaque, sendo conselheiro de guerra, ao lado do Imperador D. Pedro II. Recebeu uma série de condecorações de reconhecimento como o título de Marquês de Tamandaré. O local começou a receber sarjetas pela Lei nº 48, de 20/07/1893. E foi ligada à Rua Conselheiro Furtado após a Lei nº 562, de 06/02/1902.

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História do Bairro da Liberdade - cap 1 2018 prova  

Livro da ACAL - capítulo 1 - História do bairro antes da chegada dos japoneses

História do Bairro da Liberdade - cap 1 2018 prova  

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