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Revista laboratรณrio dos alunos do curso de Jornalismo do Centro Universitรกrio 7 de Setembro

Quem faz uma cidade melhor


Portal de Produções dos Alunos de Comunicação da UNI7

DÊ UM

UP

NO SEU TRABALHO

COM UM

CLICK

quintoandar.uni7.edu.br

O Portal QUINTO ANDAR é voltado para o corpo discente da Centro Universitário 7 de Setembro e aos membros externos, interessados nos projetos publicados. O nome faz referência ao andar dos alunos criativos da instituição, dos cursos de Comunicação Social e Design.


Caro leitor, REITOR Ednilton Soárez VICE-REITOR Ednilo Soárez PRÓ-REITOR ACADÊMICO Adelmir Jucá PRÓ-REITOR ADMINISTRATIVO Henrique Soárez COORDENADOR DO CURSO DE JORNALISMO Dilson Alexandre COORDENADORA DO CURSO DE DESIGN Nila Bandeira

p issuu.com/npjor/docs EDITOR CHEFE Miguel Macedo

PROJETO GRÁFICO Humberto de Araújo DIREÇÃO DE ARTE Diego Henrique, Humberto de Araújo & Lima Jr. ESTAGIÁRIOS DO NÚCLEO DE DESIGN EDITORIAL Gabriel Weyne, Júlia Havt & Robson Marques EDITORIAL Marcela Benevides COLABORARAM NESTA EDIÇÃO texto  Ana Cláudia Moura, Bianca Kethulen, Bruno Silva, Eli Naftali, Iara Castro, Iara Fontes, Ivina Rocha, Jonathan Silva, Khelvya Carvalho, Lisandra Sousa, Marcela Benevides, Neto Ribeiro, Paloma Negreiros e Talita Chaves. diagramação  Aristóteles Santos, Cleisla Falcão, Gabriel Weyne, Julia Havt, Lanara Pinheiro, Matheus Barbosa, Robson Marques e Wesley Galdino

Em meio ao ambiente urbano da cidade, densamente povoada, há pessoas que tentam e fazem, de algum modo, o mundo um lugar bem melhor. Gente que trabalha e quer cuidar, com sentimento de pertença, pelo que são e praticam nas urbes. São pessoas que, de alguma maneira, tentam empoderar outras tantas, para que se apropriem da cidade por meio de atitudes que estão ao seu alcance – ou não! E, para incentivar e mostrar que é possível mudar o cotidiano de Fortaleza, nos pequenos detalhes, esta edição da Matéria Prima traz para você, histórias de pessoas que, do jeito delas, se apropriam dos espaços urbanos e tentam fazer deles um lugar de convivência entre as pessoas e a cidade. Tudo de uma forma mais harmônica e que valorize a essência de ser humano. É o sair da rotina do jornalista Tarcísio Matos, que dedica um momento da sua vida para cuidar de outras vidas. O artista plástico Mário Sanders que leva seu grafite para as ruas. O amor e a perseverança de Gerson Linhares, que tenta manter viva a memória e a história de Fortaleza. São os passos edificantes de Katiana Pena, a atitude do educador popular Josenildo Nascimento, que usa o cinema para transformar espectador em narrador, e a perspectiva do arquiteto Ricardo Muratori que entende ser urgente e revolucionário ocupar os espaços públicos, mas, acima de tudo, é um ato de amor pela cidade. E para acolher tanta gentileza, um novo projeto gráfico da revista foi criado para embalar as percepções de Fortaleza. Ótima leitura!

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Revista laboratório dos alunos do curso de Jornalismo do Centro Universitário 7 de Setembro

NOSSA C APA Concepção e fotografia Humberto de Araújo Quem faz uma cidade melhor

Montagem da cidade Gabriel Weyne, Julia Havt e Robson Marques

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Para você

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Ocupar, viver e dar vida à cidade O elo entre o plástico e o prático A perseverança do amor Olheira do bairro Homem com narrativas de luta e fé De gente que Fortaleza precisa Palmas, muda realidades e encanta o mundo Passos que edificam a vida O cinema possível de realizar e educar


[CONCEPÇÃO E DESIGN Humberto de Araújo; FOTO Julia Havt]

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Amar e nĂŁo temer a Cidad 6

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[Foto: Arquivo pessoal]

O arquiteto Ricardo Muratori defende que as pessoas precisam retomar os espaços urbanos para si, e é necessário que a população ocupe estes locais e estabeleça uma relação de pertencimento com o ambiente

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Texto Marcela Benevides Diagramação Cleisla Falcão

↓ Projeto do novo Mercado dos Peixes [Arquivo pessoal]

↓ Croqui do projeto residencial Casa Lia [Arquivo pessoal]

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Criar uma relação de pertencimento com os espaços urbanos de onde se reside não é uma tarefa fácil, principalmente quando os efeitos da insegurança estão acentuados pelos muros da cidade. Nessas circunstâncias, a reação natural das pessoas é de desocupar as ruas e procurar refúgio dentro dos muros e cercas elétricas de suas casas. Para o arquiteto formado no século passado, Ricardo Muratori, é urgente e revolucionário ocupar os espaços públicos, mas, acima de tudo, é um ato de amor pela cidade. Com a fala ponderada, Muratori defende a ocupação dos espaços públicos como forma de diminuir a violência e a degradação das áreas comuns. Ele explica que a relação das intervenções arquitetônicas com a população e a cidade varia de acordo com a natureza e o nível de acesso que o projeto possui. “Se a iniciativa tem caráter público, ela tem mais chance de proporcionar uma relação com as pessoas do que um edifício comercial ou residencial”. É o caso, por exemplo, do novo Mercado dos Peixes, projeto que faz parte do processo de requalificação da avenida Beira Mar de Fortaleza, e foi inau-

gurado em março de 2016. A intervenção vencedora foi escolhida por meio do Concurso de Ideias realizado em 2009, na gestão da prefeita Luizianne Lins (PT). Os arquitetos Ricardo Muratori, Fausto Nilo e Esdras Santos assinaram o projeto vencedor. As obras de requalificação só iniciaram em 2013. Antes, o Mercado funcionava como um local de compra e venda de peixes, camarões, lagostas, dentre outros frutos do mar, e poucas pessoas tinham acesso à paisagem da Enseada do Mucuripe, que era utilizada como área de serviço dos boxes, que tinham a sua disposição em L e dificultavam a interação do público com o ambiente. Com a reforma do espaço, além da melhoria das edificações, as instalações ficaram perpendiculares ao mar e ganharam espaço de cozinha, ou seja, permite que o cliente além de realizar a compra do camarão, por exemplo, possa degustá-lo no local enquanto aprecia a paisagem praiana. Muratori destaca que a visão da enseada “é extraordinária” e ela não estava à disposição antes, a menos que alguém soubesse da existência do espaço. Para o arquiteto, a população de modo

Requalificar ou Revitalizar? Muratori explica que o termo revitalização pressupõe que o espaço estava morto, e isso raramente é verdade. O centro da cidade, por exemplo, é um espaço extremamente vital, que funciona muitas vezes em condições precárias, logo, ele não precisa ser revitalizado, não precisa de vida, ele necessita que suas estruturas sejam melhoradas para que as pessoas sintam interesse em ocupar.

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geral adotou rapidamente o espaço, o que foi uma surpresa, visto que a relação que a sociedade terá com o ambiente é uma incógnita. “Os espaços são julgados sob uma ótica pessoal, e às vezes ficamos tensos em relação a como as pessoas vão se apropriar e ler a intervenção”. Outro projeto de Muratori teve como objetivo criar uma relação não apenas com o espaço urbano de Fortaleza, mas valorizar as características regionais da cidade. “Produzir uma edificação com um compromisso regional com o clima e a ventilação, mas sem adotar uma estética caricata. Eu queria um projeto cearense que não tivesse telha de barro ou carnaúba, mas sim uma linguagem contemporânea, cosmopolita, mas cearense”, avalia Muratori. A Casa Lia se destaca dentre as outras residências do bairro por ser fora dos padrões, e as formas geométricas definidas chama a atenção até dos mais distraídos. A defensora pública Lia Felismino, 35, explica que essa era a ideia: uma casa que remetesse aos projetos de arquitetura moderna, com prevalência de formas geométricas. “Não desejava uma casa no padrão atual, tipo o Alpha-


ville ou me sentir em Miami. Queria paços públicos, o sentimento de identique o conceito regional dialogasse com dade e responsabilidade das pessoas em a arquitetura moderna da Capital”. relação ao local cresce. E isto associa-se A relação de Lia e da família com a casa à autoestima da população. “Quando é definida por ela como a “melhor pos- nos deparamos com um espaço de quasível”. “Tivemos junto com o Ricardo a lidade, passamos a ser mais exigentes preocupação de aproveitar no próprio com a postura das pessoas que frequenprojeto os elementos que favoreces- tam aquele local, e desenvolvemos um sem o conforto ambiental da casa. Daí sentimento de cobrança”. a ideia de ambientes amplos, com boa O empoderamento da população em iluminação e ventilação natural”. relação à cidade está ligado à melhoria Para Lia, Muratori entendeu “perfei- dos espaços, que começa com a requatamente” o desejo da família. “A casa lificação destes. É preciso que a gestão dialoga bem com a cidade de Fortaleza pública mantenha os locais urbanos e a sensibilidade e competência dele com boa iluminação, segurança e paviforam determinantes para isso”. Para mentação, pois dessa forma estará ao ela as sensações que o ambiente pro- alcance do cidadão ocupar o ambiente. porciona são as “melhores possíveis”. “É preciso retomar a cidade para nós, porque ela não é mais nossa, é de uma Retomar a cidade circunstância de violência que nos ameNa década de 1980 a teoria da Janela dronta”, finaliza Muratori. Quebrada resgatou a cidade de Nova Iorque da violência na qual estava A cidade é feita para quem? imersa. A hipótese supõe que a desor- Para responder a essa questão, que dedem aumenta os índices de criminali- finiu como uma pergunta que “não é dade. Por exemplo, quando se tem uma fácil de responder”, Muratori refletiu janela quebrada, a possibilidade que por alguns segundos antes de prosseoutra quebre é maior. guir com a resposta. Ele explica que Muratori acredita que à medida que existem “forças” que atuam no desenho ocorre uma disciplinação no uso dos es- da cidade, e quanto mais poderosos são

↓ O deck de contemplação possibilita uma vista agradável da Enseada do Mucuripe [Foto: Arquivo pessoal]

esses agentes, mais a cidade será a resposta da demanda dessas expressões. Tais potências não estão ligadas apenas a questões financeiras; os movimentos populares e a capacidade de mobilização, por exemplo, possuem impacto. E quanto mais desigual forem essas forças, mais a cidade será o desenho das potências hegemônicas. “Se não conseguimos equiparar o poder do dinheiro com a força popular e com o poder da reivindicação, a cidade será cada vez mais a expressão da grana. É uma batalha de áreas”, reflete o arquiteto. Ao nutrir uma perspectiva de coletividade e estimular atividades como andar de bicicleta à noite ou aos domingos, por exemplo, incentivam o processo de retomada da cidade e proporciona o equilíbrio as forças.

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SERVIÇO

Ricardo Muratori Arquitetos .. Professor Dias da Rocha, 162, sala 08, Meireles .. Seg. a sex. 8h às 20h; sáb 10h às 14h UU ricardomuratori.com.br EE muratori@ricardomuratori.com.br tt (85) 3242 8307

↓ Casa Lia é moderna e chama atenção por ter formas geométricas destacadas [FOTO: Arquivo pessoal]

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Ocupar, viver

e dar vida

à cidade De uma ideia que nasceu ainda na universidade para as ruas e espaços públicos de Fortaleza. É assim que se vê um projeto tão inovador e ousado para esses dias em que espaço é algo pouco visto nas grandes metrópoles Texto Bruno Silva Diagramação Gabriel Weyne

← Laura utiliza seu escritório para criar intervenções que estão espalhadas na cidade [Foto : Bruno Silva]

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Duas jovens mulheres, graduadas em Ar- a cidade é delas e que é preciso que saiam quitetura e Urbanismo, estão juntas espalhando pela de casa e a conheçam mais. Se apropriem cidade, intervenções que posicionam olhares e pro- e vivam os diversos pontos que a cidade movem aos fortalezenses o pensamento de perten- oferece e saibam como deve ser e de que cimento da cidade. Parkets, Ruas compartilhadas, forma Fortaleza merece ser vivida. Praças itinerantes, Paraciclo e projetos que tragam as pessoas às ruas. O projeto foi pensado há cinco anos, O desafio após Laura Rios, 38 e Liana Feingold, 39 – que já es- As pessoas não conseguem dialogar com tavam no escritório em que eram sócias –, colocarem muros cinzas e paredões intermináveis que em prática um sonho pensado ainda na universidade. vão de uma ponta a outra de um quarteirão. Não há O projeto, que é pioneiro em Fortaleza, indica lo- interação humana e nem das pessoas com a própria cais possíveis de manter contato com a cidade. As cidade. “Chega a parecer que estamos em um sistema intervenções são feitas para dialogar com os lugares feudal onde o caos está lá fora e dentro dos condomíem que são instaladas e com as pessoas que as uti- nios estamos seguros’’, afirma Laura. O que acontece lizam. Levar pessoas para vivenciar esses lugares e na realidade, porém, é que, por outro lado não há compartilhar experiências é um dos grandes motivos socialização dessa forma. Isso vai na contramão da deste trabalho. ideia da ocupação dos espaços públicos como propõem as intervenções. Saindo da prancheta Tentar estabelecer a confiança um no outro, confiar Para as ideias saírem da imaginação de Laura e Liana no próximo, é o ponta pé inicial para uma vida inteprecisa-se de colaboração. Essa parceria vem por meio rativa. Os espaços criados pelas arquitetas visam a de empresas e pessoas que acreditam que a cidade promover a relação e o diálogo, para uma convivência merece ser ocupada e vivida pela população. As in- harmoniosa e para a prática da cidadania. Deste modo tervenções são em locais públicos para que o per- as intervenções buscam conseguir uma transformatencimento das pessoas pelos lugares seja constante. ção de vida na cidade. Estar em seus espaços, viver sua É fundamental para a realização dos projetos que a rotina, criar laços com Fortaleza e querer pertencer a população possa se unir para fazer isso. esta cidade como grupo, estabelecendo esse contato Para Laura, reafirmar o protagonismo na cidade social e humano. “A presença de pessoas muda o local acontece com a união para cuidar dos espaços e bens e a forma como elas se relacionam’’, ressalta Laura. públicos. As pessoas passam assim a ser protago- Muda a cultura, muda a forma de se viver e avança na nistas das intervenções. Elas devem entender que qualidade de vida. E, é claro, atingir a todos e todas com suas intervenções sem distinção de cor, raça, orientação sexual ou classe social.

“A “ presença de pessoas muda o local e a forma como elas se relacionam Laura Rios

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O que fica para Fortaleza?

Laura e Liana, que fizeram arquitetura na Universidade de Fortaleza (Unifor), querem deixar para a cidade a experiência das pessoas nessas intervenções. “O nosso foco é a experiência das pessoas no espaço


↗ A proposta das arquitetas é de que os parklets sejam área de diálogo onde antes existia vaga de estacionamento, como o que está instalado na Rua Agerson Tabosa, ao lado da UNI7 [FOTOS: Arquivo pessoal]

público’’, diz Laura. Algo que é contraditório para a profissão de arquiteto que, na maioria das vezes, quer deixar marcas, prédios e obras arquitetônicas. Sem desmerecer o trabalho dos colegas de profissão, mas as jovens arquitetas querem deixar algo mais simbólico que isto, querem marcar as pessoas com momentos vividos. Muita coisa ainda falta em Fortaleza quando o assunto é intervenção urbana. Os projetos da Estar Urbano não param de ser pensados e criados e o que vê não é 10% do que tem guardado, esperando o momento certo para ser posto em prática. Ruas compartilhadas, transformações de fachadas que são calçadas amigas, requalificação da orla com esculturas e livrarias nos píeres; essas são algumas das ideias que saltam aos olhos de Laura quando, eufórica, diz que na verdade o que a cidade precisa é ser explanada pelas pessoas que vivem nela. Essas pessoas trazem problemáticas e inspiram as arquitetas que põem o talento a favor da cidade.

Participe do projeto Você pode ser um voluntário e assim como Laura e Liana ajudar para que a cidade ganhe vida por meio da presença e do convívio das pessoas nos locais públicos. Batas acessar o site: https://bit.ly/2rSqQik

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O elo entre o plástico e o prático O artista que constrói a sua arte pelos lugares da capital alencariana. Um mundo cheio de personalidade e talento Texto: Bianca Kethulen Araújo Diagramador: Matheus Barbosa

Era por volta das 10 horas, uma manhã ensolarada e calma. Mário Sanders, 57, de chinelo, calça e uma camiseta com a figura do Coringa, o supervilão fictício do filme Batman, abriu a porta do seu apartamento, acompanhado de sua gata de estimação, Nico, que fez questão de mostrar o seu lado anfitriã. Alguns quadros aqui, outros desenhos ali, uma marca sua em cada parede da sala. Sentado à mesa de jantar, logo atrás estava a porta para a cozinha, com um sino dos ventos pendurado bem no alto, Mário, compartilhou como se define na sua profissão de artista plástico, ou melhor, artista prático. “Gosto da denominação de artista visual. Não me considero um pintor ou um desenhista. Trabalho com ideias, penso no caminho e desenvolvo, seja na pintura, no objeto ou no desenho.” » ← O artista prático e a estante em seu escritório [FOTO: Bianca Kethulen]

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Trabalhou como ilustrador no jornal O Povo, com publicidade e arte, porém, a base do seu trabalho sempre foi desenho, não importa se no papel ou em uma tela. Nascido em Aquiraz, a relação de Mário com Fortaleza é forte, exatamente pela questão da luz. “A luz de Fortaleza é fantástica.” Trabalhar à noite para ele? Jamais! Pois acredita que interfere nas suas obras. O seu outro afeto na capital é com a periferia, já que viveu a vida quase toda no Conjunto Prefeito José Walter e se apega muito à relação com as pessoas, da forma como se vestem, à forma como andam. Onde tudo começou

Sanders se destacou a partir do grupo Fratura Exposta, que surgiu no José Walter. Na década de 1980, o grupo foi um dos primeiros a fazer intervenção urbana em Fortaleza, em muros, em outdoors. Não colocavam, porém, apenas telas nas paredes, também faziam performances, atuavam em praças, colocavam poesias e desenhos. “Era difícil alguém sair da periferia para fazer sucesso na Aldeota com a arte.” Na época, o Street Art, arte de rua ou mais conhecido como grafite, não fazia tanto sucesso na capital como nos últimos tempos. “É um trabalho de resistência, pois é um trabalho na rua sem ganho imediato de valores.” Nos anos 80/90, em uma exposição na Arte Galeria, galeria antiga de arte contemporânea de Fortaleza, a galerista Dodora Guimarães o convidou para fazer um painel ao lado do local. Ele fez uma parte do muro junto com seis outros artistas do Fratura Ex-

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posta, cada um com seus trabalhos e características. Depois dos anos 90, o grupo acabou. Mário nunca parou para pensar e decidir: “vamos fazer um trabalho na rua”, foi algo que aconteceu naturalmente. O artista plástico acredita que as intervenções em Fortaleza vêm de qualquer trabalho que seja feito na cidade. Tem a ver com a relação das pessoas, com a paisagem, com o bom senso e com a aversão ao desprezo. “É um trabalho que traz um conforto visual e passa um bem estar, desde que seja feito pensando no local.” Quando se trata dos seus projetos, sua intenção é chocar, pois, dessa forma, faz com que as pessoas parem para pensar. O seu trabalho não é feito apenas para ouvir “Ai, que bonito”. É para olhá-lo na rua e refletir. Morar e viver na capital do Ceará, de alguma forma, vão fazer as ações se conectarem com a cidade. É onde entram os projetos, como o Espelho D’água ou o Texture do artista. “Não é apenas o desenho que estou fazendo, que faço na mesa do meu escritório, que vai falar por Fortaleza. É o meu pensamento, a minha relação por meio do meu desenho, de um quadro, de um objeto ou de um livro.” O parto

O Espelho D’água 2015 nasceu em 2014. Ao caminhar pelo Lago Jacarey, olhava as plantas, os pássaros e, assim, fez nascer um perfil no Instagram para compartilhar os retratos feitos com a câmera do celular. Imagens bem saturadas mostram o local com a luz de Fortaleza. O lago e o reflexo deram origem ao

“Trabalho “ com ideias, penso no caminho e desenvolvo Mário Sanders nome. Para o futuro do projeto, Mário Sanders pensa em realizar um grande evento, escrever um livro e fazer uma ação no local. A sua interação com o lugar tem seus 20 anos e, atualmente, continua frequentando-o, seja para tomar uma cerveja ou para caminhar. Texture veio a partir da ligação de Mário com as texturas das paredes da cidade. Assim como o Espelho D’água, as fotos das texturas são feitas com o iPhone. As fotografias registram, por exemplo, no seu prédio, onde se coloca o lixo tem uma imagem borrada, aquela imagem o artista enxerga São Francisco e os pássaros ao seu redor. Sanders fotografa, publica no Instagram e coloca o título. “Aquilo ali chama a atenção das pessoas. Alguns dizem “eita, maconha estragada”, outras comentam: “gente, é mesmo”. Com o tempo, as pessoas pediram para eu deixar de colocar os títulos, porque elas mesmas queriam descobrir” .

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Serviço

Mário Sanders EE mariosanders@gmail.com tt (85) 98878 1933 II @mariosanders II @espelhodagua2015


↑ Mårio sentado em sua sala ao lado do desenho nomeado como Armador [FOTO: Bianca Kethulen]

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[FOTO: Ana Clรกudia Moura]

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amor A perseverança do

Ato de cidadania e desejo de manter viva a memória da cidade leva cearense a realizar projetos divulgando Fortaleza e integrando a comunidade, sem custo e com garantia de mais conhecimento e muita diversão Texto Ana Cláudia Moura Diagramação Robson Marques

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A expressão “conhecer como a palma da mão” é comum na região Nordeste, quando se deseja destacar que se conhece algo em profundidade. Se houvesse a expressão “conhecer como a planta do pé”, certamente ela se aplicaria a Gerson Linhares. Ninguém conhece, melhor do que ele, cada palmo de chão que abriga a história, a cultura, a arquitetura e os tantos causos da cidade de Fortaleza. Idealizador de criativos projetos voltados para a pesquisa, educação e divulgação do patrimônio cultural do Ceará, o turismólogo Gerson Linhares, 50, tem profundidade de conhecimento e uma experiência em pesquisa e educação de mais de 25 anos. Por seu intermédio, milhares de fortalezenses e de visitantes já caminharam pelas ruas de diferentes bairros, em roteiros que levam o participante a uma grande viagem pela história. »

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Um dos mais conhecidos projetos – Fortaleza a Pé – quando realizado no Centro, tem concentração para saída na Praça do Ferreira, o coração da cidade, sendo o principal roteiro o que finaliza na antiga Estação Ferroviária João Felipe. O projeto é pioneiro no Brasil, sendo motivo de alegria do turismólogo saber que ele já foi implantado em outras capitais do Brasil, havendo demanda para que ocorra em outros municípios cearenses. ”Queria muito poder implantar o Sobral a Pé, Aquiraz a Pé, Baturité a Pé, que são cidades históricas que vêm perdendo seu patrimônio pela falta de sensibilidade do poder público e da falta de investimentos nessa área”. Boa Receptividade

Não é difícil encontrar quem tenha participado das caminhadas por reiteradas vezes. Isto porque, a cada novo passeio, um fato diferente se apresenta, seja pela lembrança de um detalhe sinalizado pelo guia, seja pela utilização de múltiplos recursos. Além da exposição verbal, Gérson apresenta fotografias, algumas de época comparando com a situação atual das localidades; traz convidados ilustres e representativos, como é o caso do personagem criado por ele – o Mascote Bode Ioiô, que traz à lembrança o animal que perambulava pelas ruas da cidade e, por gaiatice, chegou a ser eleito vereador. Caminhando ou sobre as rodas do Trem da História, outro de seus projetos, por onde passa Gérson é cumprimentado alegremente. Vendedor de água, artesão, garçom, guarda municipal, professor, recepcionista, museólogo, pipoqueiro, uma infinidade de agentes o saúdam com uma familiaridade própria, só obtida por aqueles que têm uma presença viva no cotidiano urbano. O Fortaleza a Pé é um trabalho voluntário, que não conta com ajuda

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“Quem “ não conhece a história não consegue saber da importância dos espaços públicos e não os preserva

tem memória. Mas, se você repensar, nossa cidade ainda tem as suas manchas arquitetônicas, históricas e culturais. Tudo tendo como base a pesquisa. Sei da seriedade do meu trabalho. Estou deixando legado para alguém, não Maurício Lima sei quem. Mas, alguém que um dia se encante com a valorização da cultura e institucional ou financeira por parte com a educação ambiental”. dos governos (Estadual e Municipal). No projeto Trem da História, Gérson Ser amante da cultura e da história de conta com o apoio do Centro CultuFortaleza é o que move esse cidadão ral do Banco do Nordeste do Brasil – para as caminhadas todos os sábados CCBNB. Em um veículo estilizado de e domingos, de forma gratuita. trem, são percorridas ruas e avenidas Em tom de desabafo, mas sem per- do Centro Histórico da cidade, trader o ânimo, o turismólogo diz: “Muita zendo à memória fatos dos séculos 19 gente chega prá mim e diz que tiro leite e 20. A demanda pelo passeio é grande de pedra, que a cidade está toda alque- e há necessidade de prévia inscrição. O brada, destruída, que Fortaleza não público é variado. Participam adultos,


“Estou “ deixando legado para alguém, não sei quem. Mas alguém que um dia se encante com a valorização da cultura e com a educação ambiental Gerson Linhares idosos e as crianças têm evento específico – o Trenzinho da História. Para Maurício Lima, gerente do CCBNB, Gérson Linhares realiza um trabalho muito importante, no sentido de chamar a atenção sobre a memória da cidade. “Quem não conhece a história não consegue saber da importância dos espaços públicos e não os preserva. Fortaleza é uma cidade carregada de história e o trabalho desenvolvido pelo Gérson cumpre um papel essencial. Temos muito orgulho da parceria que o Centro Cultural mantém com ele”.

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SERVIÇO

Fortaleza a Pé tt (85) 3237 2687 WW (85) 9 98835 9915 EE fortalezaape@yahoo.com.br FF /Fortaleza a Pé Museu do Caju .. Rua San Diego, 332 – Parque Guadalajara – Grande Jurema - Caucaia UU https://museudocaju@yahoo.com.br tt (85) 3237 2687 WW (85) 9 98835 9915 FF /Museu do Caju

MUSEU DO CAJU Gerson Linhares defende que o cajueiro deveria, assim como é a carnaúba, ser considerado árvore símbolo do Estado do Ceará. A cajucultura tem grande importância socioeconômica para o estado, que é o maior exportador nacional de produtos derivados de caju. Em 2007, Gérson implantou o Museu do Caju do Ceará – MCC, pioneiro no país, localizado em uma chácara de 5 000 m² – um pouco menor que o estádio do Maracanã, que mede 7 140 m². Localizado em Caucaia, o projeto tem caráter socioambiental, cultural e turístico, e parcerias com comunidades de Fortaleza e de outros 20 municípios cearenses produtores de caju, realiza exposições e também comercialização de produtos à base do fruto. Há uma mobilização para a comercialização de itens fabricados por idosos dessas localidades, o que rendeu ao Museu um reconhecimento nacional por parte da Caixa Econômica Federal. [FOTO: Ana Cláudia Moura]

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↔ Rusty de Sá exala conhecimento e encanto por cada detalhe da vegetação do mangue. [FOTO: Paloma Negreiros]

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A natureza que aguça

novos sentidos Disposição para instigar a conexão com a natureza e despertar o cuidado ambiental são regras para a visita no mangue vermelho da Sabiaguaba, onde visitantes têm contato íntimo e pessoal com a vegetação Texto Paloma Negreiros Diagramação Gabriel Weyne

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Descobrir novos ambientes e vivenciar experiências palpáveis com a natureza, há algum tempo, vem deixando de fazer parte da programação de lazer da maioria dos jovens. Porém, onde as águas do Rio Cocó encontramse com o mar, Rusty de Sá alegra-se em compartilhar sua experiência e paixão pela exploração natural. Ele, que é fundador do Eco Museu Natural do Mangue (Ecomunam), chegou à Sabiaguaba com o objetivo de montar um bar e reunir-se com adoradores de motocicletas – uma de suas outras paixões. Entretanto, ao perceber que o empreendimento gerava poluição e intervenção negativa ao ambiente, decidiu que não era daquilo que gostaria de viver. Movido pela vontade de apresentar o ecossistema local às crianças da comunidade, Rusty já pratica as aulas de campo há 17 anos e tem, inclusive, universidades que possuem programas de estágio no museu. Muito mais do que levar os visitantes para um passeio pelo mangue, Rusty de Sá faz questão de que cada participante viva a experiência de conectar-se com a natureza, cuidando e preservando aquilo que está sendo conhecido. “O trabalho tem esse sentido. A gente refloresta o mangue, limpa, conscientiza quem visita a praia, e colabora também com a comunidade para ela mudar os seus conceitos sobre a preservação da área”, enfatiza ele. O trabalho no museu é feito de forma cidadã, sem apoio governamental ou de empresas privadas.

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“A “ gente fica com vontade de fazer algo pela natureza e não sabe o quê. Foi aí que percebi que minha experiência poderia ser compartilhada Rusty de Sá O espaço físico do museu apresentase em uma estrutura simples, com um acervo de animais taxidermizados que contam muito sobre a história do mangue. Durante a visita, é apresentada e explicada a importância individual de cada item presente, em um momento que enche os olhos e a curiosidade dos participantes do projeto. Mas, a parada para o conhecimento dos itens do acervo no museu é apenas uma das muitas vivências conhecidas por quem chega até lá. O Ecomunam pode ser visto muito mais como um movimento do que como uma visita pontual. Isso porque, durante toda a trilha definida, uma nova face do mangue se revela e encanta até mesmo quem nunca antes havia despertado interesse para o ecossistema em questão. Rusty tem o poder de fazer com que todos os olhares sejam lançados com interesse para onde nunca foi olhado antes e aguçar sentidos também não imediatamente percebidos pela falta de contato prévio com uma natureza desconhecida. Ele estimula que sejam retiradas as sandálias para que o solo seja sentido, sugere silêncio para que os sons característicos sejam percebidos e encoraja a todos que conheçam detalhadamente cada novidade.


↙ Rusty encanta e prende a atenção das crianças no manguezal do Rio Cocó [FOTO: Paloma Negreiros]

De geração em geração

Com similar interesse pela vegetação do mangue e levando o nome de outra paixão de seu avô, Raley Sá, de 9 anos, também participa do momento como miniguia, exalando conhecimento sobre tudo aquilo que o rodeia. O menino, ainda que muito jovem, já afirma querer seguir o mesmo caminho do avô e continuar levando as pessoas para o mesmo tipo de experiência natural. Tudo isso com um discurso muito firme: “O mangue é um berçário marinho para todos os bichos que vivem aqui nessa área. Por isso que gosto muito do mangue e desde pequeno vivo aqui querendo cuidar dele e conscientizando as outras pessoas”. Os visitantes que por aqui passam se veem encantados com cada descobrimento do mangue. Francisco Nogueira, 56 anos, se encantou pelo projeto e pela desenvoltura com a qual Rusty comanda o passeio. “É uma experiência singular, para pais e filhos conhecerem juntos. Às vezes a gente esquece a importância de estar próximo da natureza, mas ela está sempre muito perto da gente”. Ao fim da visita, percebe-se de maneira clara a satisfação do anfitrião ao observar todos encantados pelas novas paiSERVIÇO sagens, curiosos para conhecer de fato como acontece a vida Ecomuseu Natural do Mangue (Ecomunam) ali. Rusty conduz todo o projeto com muita alegria, atento . . Rua nove, Sabiaguaba. 60183-651 e cuidadoso à transmissão de cada nova informação. Sem t t 98749 5286 dúvidas, uma experiência obrigatória para quem anseia por II@ecomuseunaturaldomangue contato com a natureza.

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Com uma xícara de café na mão e o cuscuz no fogo, Ednai Araújo relembra os 31 anos em que mora no conjunto Veneza Tropical, em Fortaleza. Antes de começar a detalhar essa história, volta no tempo, quando ainda era criança e morava no município de Farias Brito, no interior do Ceará

Olheir do bairr Texto Khelvya Carvalho dIAGRAMAÇÃO Robson Marques

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Filha de pai concursado no se formou e casou com Francisco das calçada e estava pensando em corta-la, Instituto Brasileiro de Geografia e Es- Chagas. Por conta de uma alergia grave então me ofereci para cuidar. Não quetatística (IBGE), Ednai tinha alguns ao giz de lousa, principal instrumento ria deixar uma árvore morrer”. privilégios como uma boa casa, estudo dos professores na época, ficou impos- Apesar da aparência simples, Ednai e conforto, mas não entendia porque sibilitada de lecionar, e decidiu dedicar a Araújo mostra, aos 58 anos, amplo conem todos poderiam viver assim. “Sem- vida à casa, ao trabalho voluntário e aos nhecimento sobre questões ambientais, pre fui muito tímida, não conversava dois filhos que teria dois anos mais tarde. sabendo diferenciar plantas, espécies e muito com meus pais, mas não entenutilizando até termos técnicos. A reladia por que eu tinha tanto e alguns não Chegada ao Veneza ção com a natureza é antiga e afetuosa. tinham nada. Naquela época, pouco se Naquele mesmo ano foi morar no Foi convidada por outros moradores a falava sobre desigualdade social. Que- conjunto Veneza Tropical, Ednai viu fazer parte da Associação de Moradores ria ajudar, mas não sabia como”. o bairro nascer. “Quando chegamos, do Conjunto residencial Veneza Tropical. Aos 13 anos, em 1973, se mudou para as ruas eram todas de calçamento, o “Participar da associação foi uma forma Fortaleza. Ainda adolescente, começou bairro não tinha coleta de lixo e nem que encontrei de mudar algo, mesmo a procurar abrigos para oferecer traba- linha de ônibus. Não haviam muitas que fosse pequeno, como o meu bairro”. lho voluntário. De fala muito delicada, casas. Era um lugar muito simples”. Ficou na associação de 2005 a 2010 e na Ednai demonstra sensibilidade extrema Criou, ao longo dos anos, grande afei- gestão em que foi secretária, participou em questões sociais e ambientais. Em ção pelo bairro. Passou a observa-lo de da criação de projetos para trazer cursos poucas palavras sobre as instituições forma especial. Sua sensibilidade em li- formativos para o bairro e levou à presociais em que passou, a voz já embarga dar com os vizinhos e o meio ambiente feitura o problema do lixo. “Tinha uma e as lágrimas começam a cair. a fizeram cuidar da rua com mais fre- rampa onde as pessoas jogavam muito Ao entrar na faculdade de Letras, na quência, recolhendo o lixo, varrendo a lixo, do orgânico a coisas como sofá veUniversidade Federal do Ceará, passou rua e chegando até a adotar a árvore lho e pedaços de madeira. As pessoas não a criar senso crítico que mais tarde viria de um vizinho. “Meu vizinho não tinha percebiam, mas era muito prejudicial ao a servir nas reuniões do bairro. Em 1987 muito tempo para cuidar da árvore na meio ambiente e para a nossa saúde”.

Agentes de Cidadania Nesse mesmo período, em 2008, foi incentivada a participar do programa de orçamento participativo, na então gestão da prefeita Luizianne Lins. Com a entrada no projeto, passou a ter mais voz na prefeitura. O programa mudou de nome quando o atual prefeito Roberto Claudio assumiu, e se tornou programa de Agente de Cidadania. De acordo com a Prefeitura de Fortaleza, o Agente de Cidadania foi criado para incentivar moradores a terem um contato direto com a prefeitura e mais voz nas decisões relacionadas aos bairros. Para Ednai, o que um Agente de Cidadania faz é lutar pelo bairro, em prol do coletivo, valorizando e cuidando do local, para que ele seja mais do que uma moradia. Como Agente de Cidadania, a principal pauta de Ednai é cuidar da área verde do bairro. Em

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novembro de 2017, enviou à prefeitura um projeto que prevê a criação de um parque ecológico no entorno de uma foz do rio Cocó que corta o bairro, e de um ecoponto para a coleta adequada de lixo. “A criação do parque traria a fiscalização ambiental e, com isso, as pessoas iriam parar de jogar lixo nas áreas verdes. Um local como esse, cheio de vida, precisa ser cuidado. Eu quero defender esse lugar”. Ednai trabalha voluntariamente procurando melhorar o bairro em que vive. Ouve diariamente que esse trabalho é cansativo e que não vai trazer resultados imediatos. Quando perguntada sobre o que ela acha desse trabalho, responde com um sorriso no rosto: “O meu sonho é viver em uma cidade mais sustentável e unida. Para muita gente é uma utopia, mas ainda acredito que é possível”.

↔ Na página anterior Ednai Araújo em uma das ruas do Conjunto Veneza Tropical e na página seguinte, numa área de mata ciliar ameaçada do Rio Cocó [FOTOS: Khelvya Carvalho]


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[FOTO: Reprodução]

Homem com narrativas de

luta e fé Inquieto, dinâmico e possuidor de um olhar quase cirúrgico aos detalhes em sua volta, a vida dele em solo alencarino tem sido uma excursão por trilhas que instigam e inspiram quem as conhecem

Texto Eli Naftali Diagramação Gabriel Weyne

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Aproximadamente 641 km separam o Município de Caxias, no Maranhão, da Capital cearense, Fortaleza. E, há 45 anos, a mesma distância separava as causas ambientais e sociais da “Terra do Sol”, de um dos seus mais fiéis defensores: Ademir Costa. Homem multifacetado, ao longo dos seus 66 anos de vida acumula inúmeras histórias de luta e dedicação. Elas se iniciam no começo da sua jornada de fé, como seminarista nas Dioceses de Caxias e Viana, no Maranhão, passando pelo campo da filosofia, do jornalismo e, mais tarde, das causas ambientais. Ademir chegou a Fortaleza em 1974, por orientação do bispo dom Luís de Gonzaga da Cunha, que o incentivou a buscar, por meio da filosofia, uma autorreflexão sobre sua permanência como seminarista. E foi no Seminário Regional Nordeste I, atual Seminário São José, que prosseguiu sua trajetória de saber religioso e filosófico. Até hoje permanece com suas raízes fincadas na terrinha. Aqui Ademir terminou filosofia, encerrou sua trajetória como seminarista e descobriu seu amor pela comunicação vindo a se formar em jornalismo, na Universidade Federal do Ceará (UFC). 2018.1


A adaptação à nova cidade, não foi das mais fáceis. “Tudo era diferente: o linguajar, os costumes, e gostei muito do modo brincalhão dos cearenses. Muito doída a saudade dos meus, mas tinha de me virar, conseguir um lugar na cidade”. E o encontrou junto aos movimentos sociais, que lutavam por demandas ainda hoje ignoradas por grande parte de seus milhões de habitantes. Movimentos sociais

“O gosto pela luta social” veio quando ainda estava no seminário, quando empenhou esforços para conseguir uma estrada que ligava Viana à cidade de Vitória. E, em Fortaleza, não foi diferente. No bairro Maraponga onde residia, participou do Grupo Guerra e Paz, composto por moradores que, na medida em que se debruçavam para estudar as escrituras bíblicas, lutavam por melhorias no bairro. “Era um movimento de reivindicações sociais em geral, como cristãos querendo uma Maraponga melhor”. Mais tarde, ainda no bairro da zona sul, o olhar ambiental seria aprimorado

“Tudo “ era diferente, o linguajar, os costumes, mas tinha de me virar Ademir Costa quase como um preparo para uma batalha que se manifestaria tempos depois. Em decorrência do risco eminente da lagoa que leva o nome do bairro vir à morte, por conta dos “dejetos de 1 558 apartamentos projetados para suas margens e cujos esgotos, tratados” seriam despejados nela, o Instituto de Arquitetos do Brasil no Ceará (IAB-CE) procurou o Grupo Guerra e Paz para se juntar à frente que ia contra os interesses da iniciativa privada. Composta por diferentes grupos da sociedade civil, a investida gerou a formação do movimento SOS Lagoa da Maraponga que, com as lutas constantes, obteve a preservação da área e a criação do Parque Ecológico da Maraponga

A cada mudança uma nova luta

23 anos. Hoje em dia chega a ser mais que uma vida, e são exatas duas décadas e três anos empenhados em um movimento que resultou de sua saída da Maraponga para o bairro Joaquim Távora. Foi lá que se deparou com entulhos sendo despejados numa das poucas áreas verdes da região, que ficava atrás de sua moradia: Parque Rio Branco. O faro da luta social de Ademir não o permitiu ficar parado perante o descaso. Articulou-se, e deu início a uma luta que se alastrou e contagiou os moradores do entorno e assim surgia o Movimento Proparque. “De lá pra cá, conseguimos: piso adequado para as alamedas de caminhada, boa iluminação, algum cuidado da prefeitura na limpeza e manutenção, melhorias como maior circuito de caminhada, hoje com 900m, antes era metade disso, se tanto; bancos, duplicação dos brinquedos para as crianças; maior presença de pessoas caminhando, cerca de 350 cada manhã e uns 150 à tarde; mais gente motivada quanto à manutenção do parque como área pública”. ↙ Hoje o Proparque abriga 12 projetos voltados para a questão social e ecológica [FOTO: Reprodução]

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Salve o V O grito de socorro dado pela natureza, é a motivação do projeto que luta em defesa das árvores na cidade de Fortaleza, promovendo discussões políticas, educação ambiental e renovação da flora nativa Texto Iara Fontes Diagramação Julia Havt

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↔ Antonio Sérgio Castro, fundador do Movimento Pró Árvore [FOTO: Iara Fontes]

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Sentado em frente ao centenário Baobá, no Passeio Público, em Fortaleza, Antonio Sérgio Castro exibe no peito o Movimento Pró-Árvore, em frase escrita no bóton preso à sua camisa. Trabalhando há 25 anos com pesquisas sobre a flora cearense, estava à vontade no cenário verde, rodeado por algumas espécies estudadas por ele ao longo da vida. Botânico e Engenheiro Agrônomo, revelou como decidiu compartilhar o que aprendeu por meio da sua experiência, realizando um trabalho a favor de sua terra natal, ao perceber o descaso e abandono que sua cidade sofria. Foi numa conversa com uma amiga que surgiu a ideia de criar algo diferenciado na capital cearense: pessoas unindo-se em prol do verde da cidade. No dia da árvore, em 2011, nasceu o Movimento Pró-Árvore, durante uma palestra sobre as árvores de Fortaleza, no Instituto Gaia. “A defesa do ‘ser árvore’ é um trabalho amplo, que envolve uma luta constante para pouquíssimas pessoas”, afirma. Para Antonio Sérgio, em todo lugar existem pessoas que sabem fazer as coisas. Elas, no entanto, permanecem alheias ao processo. Sementes que germinaram

As recentes espécies plantadas no Parque Rio Branco e na Praça José Bonifácio, no Centro da cidade, são resultado do envolvimento de pessoas que não apenas veneram o verde, mas que enxergam nessa cor a esperança de um lugar melhor para os fortalezenses. Além desses locais, as avenidas Dom Manoel e Rocha Soares, o Parque do

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“Onde “ tem árvores existem pessoas mais saudáveis, física e emocionalmente Antonio Sérgio Castro Cocó, entre outros parques da cidade, tiveram suas paisagens modificadas à medida que Antônio Sérgio e outros colaboradores colocaram as mãos na terra para plantar um lugar mais bonito e saudável para todos. A professora universitária aposentada, Ângela Araújo, foi atraída pelo projeto ao receber, por Whatsapp, uma mensagem que falava sobre o Movimento Pró-Árvore ainda em 2011. Hoje, ela é uma das representantes, extra-oficialmente, do COMAM – Conselho Municipal de Meio Ambiente do Parque Cocó, já que o movimento não é uma Organização da Sociedade Civil. Ângela semeia, em seu sítio, algumas espécies de sementes coletadas e identificadas durante a Ida ao Mato, uma das atividades constantes realizadas pelo Pró-Árvore. Ela faz o acompanhamento das mudas e quando estão no porte de serem plantadas, escolhe com Antônio Sérgio locais específicos para plantá-las. O último local escolhido foi o Parque Rio Branco, que possui uma vegetação exótica. “Essa é uma atividade sobre a qual gosto muito. É um resgate, uma revalorização ativa que dá ênfase à melhoria dos espaços urbanos, renovando a flora nativa”, explica. Segundo Ângela, a liderança do Antônio Sérgio é de suma importância, pelo conhecimento que tem sobre a botânica regional, o que fundamenta as ações propostas pelo Movimento Pró-árvore.

Ações frustradas

Algumas propostas, no entanto, encontram obstáculos, lamenta o fundador do movimento. De forma enfática, ele mostra documentos que comprovam as ações políticas realizadas em audiências públicas na defesa de parques, criação de áreas verdes, propostas para educação ambiental, denúncias, questionamentos do que se tem feito em prol do verde em Fortaleza pelas autoridades estabelecidas. De acordo com Antônio Sérgio, o maior desafio do trabalho é a rejeição dos gestores que limita a atuação do movimento ao tentar participar do processo de fiscalização do estado de maneira gratuita, simplesmente por não fazer parte do sistema. “Um pode até querer fazer, mas os pares não querem”, analisa. “A arborização da cidade deveria ser prioridade, e não é. Onde tem árvores existem pessoas mais saudáveis, física e emocionalmente, além da função ecológica e estética, há uma valorização da cidade”, declara. Enquanto caminha pelo Passeio Público, ele vai falando os nomes científicos das árvores que estão sem placas de identificação ou indicam espécies diferentes. Apesar da consciência do trabalho que beneficia a cidade, não se sente feliz pelo abandono e descaso com o visual de Fortaleza. Em seu peito bate a certeza de que é possível mudar essa realidade e o desejo de virar tudo ao contrário é o que faz prosseguir movimentando-se em prol das árvores, do verde, da cidade.


↗ Fruto da massaranduba (Manilkara rufula), na região serrana do Ceará [FOTO: Divulgação] ↓ Plantio de algumas árvores na Praça José Bonifácio no ano de 2015 em Fortaleza [FOTO: Divulgação] ↓ Integrantes do Movimento plantam mudas no Parque Rio Branco, em Fortaleza [FOTO: Divulgação]

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SERVIÇO

Movimento Pró Árvore .. Rua Leonardo Mota, 293/201 B, Meireles .. Seg. a sex.; 8h as 12h e 13h30 as 17h UU http://proarvore.blogspot.com.br/ EE movimentoproarvore@gmail.com tt (85) 99909 4444 WW (85) 99909 4444 FF /MovimentoProArvore

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De gente que Fortaleza precisa Em uma cidade, todo mundo tem rotina; muitos afazeres e responsabilidades na vida. Mas, nem todos têm disposição para, no fim de semana, dar atenção às outras vidas TEXTO Ivina Rocha DIAGRAMAÇÃO Julia Havt

Ruas, avenidas, prédios e casas. Estruturas concretas formam o que chamamos de cidade. Fortaleza foi e é construída assim. Mas, antes de tudo, Fortaleza é feita de gente. Gente que acorda cedo para ganhar seu pão. Gente que tem dois empregos para viver melhor. Gente de toda personalidade e caráter possível de se imaginar. Gente que faz bem ao outro e, assim, se sente bem, também. Pessoas que constroem a cidade, dia após dia, por serem exatamente o que são: diferentes. E aqui, é de gente que vamos falar. Um tipo de gente, para ser mais específico.

↗ Pausa para foto no pequeno jardim em frente ao CPC, antes das visitas [FOTO: Ivina Rocha]

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Matos, um cearense multifacetado: jornalista, compositor, humorista e escritor. Ele trabalha todo dia, tem uma casa, uma família. É gente como muita gente, mas não cabe dentro de uma rotina. E, entre tantos afazeres, tem um que, quanto mais o tempo passa, mais Tarcísio Matos se apaixona: ser voluntário na Associação Peter Pan, todo fim de semana. É lá que, há 14 anos, Tarcísio assiste a cenas sensíveis do cotidiano vivido por outra gente. É lá onde ele despeja doses generosas de humor e extrai sorrisos – outrora pensados impossíveis – dos rostos que ali são acolhidos. A Associação Peter Pan é chamada de lar por muitos O dom da gentileza que passaram e passam por ela, e Tarcísio Nas próximas linhas você lerá a história Matos é chamado de “pai” por alguns que de um homem que tem sua vida pautada ali permanecem por um tempo. Mas, por por gentilezas cotidianas. E dentre to- que “pai”? Continue a leitura e você endas, uma tem parada fixa, toda semana. tenderá como a gente que constrói FortaEsse homem se chama José Tarcísio Vale leza precisa de gente como Tarcísio Matos. »


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↔ Tarcísio Matos com a alma sorrindo, pronto para mais um sábado de visita aos pequeninos [FOTO: Ivina Rocha]

Onde se deve estar

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Um ano par. 2004. Foi o ano em que Tarcísio Matos se descobriu na profissão mais humana existente, cujo salário – ou recompensa é ter o coração regado com bons sentimentos: a de ser voluntário. O Centro Pediátrico do Câncer (CPC) da Associação ainda não existia, mas as ações de transformação da história do câncer infanto-juvenil no Estado, sim. Os pequenos pacientes que tinham algum tipo de câncer ficavam no Hospital Albert Sabin, no bloco C, que hoje, tem ao lado o Centro Pediátrico ‘de pé’, funcionando todo dia. Era um dia como todos os outros naquele ano, que tinham suas particularidades, mas nenhuma alternância que os diferenciassem tanto. Quando, em uma prosa com um amigo – que já era voluntário no hospital, a levar animadas e lúdicas cantigas à criançada –, Tarcísio, já se sentindo interessado, foi convidado a acompanhá-lo em uma visita. “Esse dia brevemente chegou e, poucos minutos foram precisos para meu coração se alegrar e logo me alertar: ‘você está exatamente onde deveria estar e deve ficar’. E eu, claro, obedeci ao alerta”, revelou o escritor – difícil intitulá-lo com uma função só. 2018.1

Como em toda profissão em que se passa bastante tempo, os ‘cargos’ de Tarcísio em seu voluntariado foram aumentando. Do programa Sala de Espera à visita aos pequeninos em seus quartos, ao programa Raio de Sol. Ele conhece boa parte das crianças que entram e saem dali. Mães, pais, profissionais. Em todos esses anos, até hoje, ele leva – munido de todo seu intelecto – palavras afagadoras, sorrisos reconfortantes e histórias reais e inspiradoras àqueles que estão, diariamente, na Associação. Com música, leitura, brincadeira ou com um simples ‘bom dia’, Tarcísio ajuda no despertar de almas ali já desfalecidas. Doação de bondade

O ‘ser voluntário’ de Tarcísio Matos


“Poucos “ minutos foram precisos para meu coração se alegrar e me alertar Tarcísio Matos não cabe em algumas visitas, que de- uma parte. Nos mais de quatro mil caracteres deste texto pois de feitas ficam na memória e é só; não cabem todas as gentilezas que na nossa grande cidade como em uma lista de afazeres em que Fortaleza, por onde passa, ele deixa. No ônibus ou a pé, numa se vai ticando o que foi concluído. Não. conversa de negócios ou na contação de uma história bem Quando seu horário de visita encerra e humorada. A gentileza de Tarcísio Matos não está apenas Tarcísio ultrapassa os muros da Asso- em seus atos; está na forma como ele pronuncia qualquer ciação Peter Pan, tomando rumo para palavra. É gentileza mais sentida do que vista. casa, em sua mente ficam armazenadas E Fortaleza, tão povoada, certamente se alegra por ter as histórias vividas e compartilhadas gente dessa laia. Que fica inquieta até conseguir ajudar o daquelas poucas horas de visita. Cada outro. Que se alegra com a felicidade do outro. Que se doa necessidade que ele enxerga – da ma- a outras gentes, esperando, sim, algo em troca: um lídimo terial à sentimental – lhe causam in- sorriso. Será que existe um segredo para ser esse tipo de quietudes até que ele consiga apontar gente? “A gentileza está na forma de olhar, na forma de falar, uma solução. no parar de reclamar. Está na gratidão que devemos todos Mas, como Tarcísio pode sanar as sentir pelo que temos, diariamente, e pelo que não temos, necessidades alheias assim? Digamos também. O segredo? Bem… não tem. A gentileza está para que ele tem lá as suas manobras. Com a alma sorrindo, ele quem gentil buscar ser”, poetizou o cearense multifacetado. rala duro. Se a necessidade é material, busca uma rede de doadores e trabalha para conseguí-la. Tarcísio chega para o amigo que tem uma ótica, por exemplo, e lança a proposta de assessorar a sua loja. Mas ele não recebe o dinheiro pelo Você tem interesse em ajudar? trabalho. O que ele pede, não é para ele. O acordo é para que um exame oftalmológico seja feito na criança que precisa e os Uma doação inusitada, mas que faz toda diferença quando óculos produzidos, e a pessoa carente possa enxergar melhor. na Associação falta: lápis de cores e jogos de tabuleiro e É que, em um mundo, ou melhor, em uma cidade tão capitacartas. As crianças ficam internadas por tempos, muitas lista, em que todo trabalho é feito por dinheiro, para Tarcísio, vezes extensos e, por isso, pintar figuras e brincar com os o que importa é fazer o bem – sem cachê ou crédito algum – a jogos são formas de ajuda para animá-las. Jogo da memóoutras vidas. Ele faz mesmo o que for preciso e vai além do ria, Uno, dominó, quebra-cabeça e outros são opções. Láseu alcance, para que uma criança internada na Associação, pis de cores sempre são muito bem-vindos, também. Doe! sem muitas condições, tenha livros para estudar, ou roupas melhores para vestir. Ele se deixa de lado só para consolar o SERVIÇO pequeno – ainda sem esperanças de dias mais saudáveis. Ele Associação Peter Pan .. Rua Alberto Montezuma, 350, Fortaleza-CE busca dar o melhor de si às pessoas que, mesmo fragilizadas, Uhttp://app.org.br/ U também fazem nossa cidade.

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Formas de ser gentil

Vira e mexe, Tarcísio está por toda parte, doando um pouco de si aos outros e aperfeiçoando a bondade que carrega dentro de si mesmo. E toda essa narrativa sobre ele é só

EE app@app.org.br tt (85) 4008 4109 FF/Associação Peter Pan I@associacaopeterpan I

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Palmas, muda realidades e encanta o mundo Criada por moradores, e pela atitude de Joaquim Melo, a instituição comunitária promove o fortalecimento e apropriação de um dos bairros mais pobres de Fortaleza texto: Neto Ribeiro Diagramação: Julia Havt

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Com a remodelação da beira mar, promovida pela prefeitura de Fortaleza na década de 1970, as comunidades pesqueiras e moradores da região da zona costeira foram deslocados de suas casas para a periferia da cidade. Em um local historicamente carente de recursos e políticas públicas, sem qualquer infraestrutura de moradia, eles deram início ao movimento de reivindicações e de lutas para erguer o Conjunto Palmeira. Deixando para trás a brisa do mar e suas residências de alvenaria, os moradores passaram a conviver com o odor dos lixões e casas de taipa com teto improvisado com lonas. A situação não era nada favorável, beirava o desumano. Era agravada pela falta de perspectiva de mudança, uma vez que a principal fonte de renda dos moradores era a atividade pesqueira. A junção de vozes e atitudes, contudo, fizeram a diferença. » 2018.1


[FOTO: Divulgação/ Banco Palmas]

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O Banco Palmas possui mais de 25 mil usuários em todo Brasil e, com a criação do aplicativo ‘E-dinheiro’, permitiu que transações financeiras fossem feitas por meio do celular

Eles fundaram uma associação de moradores, em 1981, e realizaram um mutirão, conquistando na marra serviços básicos para população local, como água encanada, saneamento básico e eletricidade. As melhorias no bairro, entretanto, trouxeram uma nova problemática: o custo de vida local ficou muito caro e, como os recursos financeiros eram escassos, as pessoas estavam migrando para outras comunidades da capital cearense onde a moradia era mais barata.

da população, característica presente desde a época em que moravam na orla do município. Em apenas sete anos, o consumo local saiu dos sete por cento e saltou para 93%. A conquista, entretanto, foi veio mediante trabalho de conscientização e incentivo da apropriação dos benefícios do bairro junto aos moradores. “Tudo tinha um nome característico para criar uma identidade. As pessoas querem se sentir incluídas. Se não criar essa cultura do local, com um mês tudo é desfeito”, garante Joaquim. O dinheiro Comunidade pioneira que retorna para o Palmas, proveniente das taxas, é A solução para estancar o êxodo foi a criação de um devolvido à comunidade por meio de investimentos banco comunitário, em 1998. A ideia era que ele pu- feitos dentro do próprio bairro, seja no financiamento desse gerar receita para produção e consumo dentro e capacitação de mão de obra ou na manutenção de do bairro. “Fomos de porta em porta saber o que eles praças públicas. estavam comprando, e vimos que eram produtos Os constantes mutirões da população do Conjunto básicos. Com a criação de um banco, começamos Palmeira transformaram o bairro. As pessoas estão emprestando pequenos créditos por meio do Palma mais organizadas e se sentem capazes de resolverem Card e as pessoas passaram a produzir e consumir seus próprios problemas, sem depender unicamente dentro do bairro”, explicou o criador do banco, Joa- do poder público. quim Melo. Nascia assim o primeiro banco popular do Brasil: o Banco Palmas. A comunidade conseguiu Barreiras e oportunidades não apenas transformar o que era uma favela, em A ideia, embora exitosa, não se espalhou pela Capital, um bairro com mais estrutura, mas criou sua própria mas mudou perspectivas e ganhou novos horizontes, moeda, a Palma. com ‘sucursais’ no Rio de Janeiro e Minas Gerais. No início, o limite de crédito do cartão era de ape- Joaquim acredita que o Palmas não é mais conhecido nas R$ 20,00 mensais e cada morador que usasse e aderido em Fortaleza pelo fato da instituição ter o benefício pagaria seu débito no fim do mês. Pos- sido gerada na periferia. “Se tivéssemos nascido em teriormente, o cartão foi substituído pela “Palma”, um grande centro, como a Aldeota, teríamos mais moeda exclusiva da instituição, que só era aceita no respaldo”, lamentou. Palmeira. Tudo foi construído com base nas obras de Mesmo que esteja hospedado no interior da cidade, Leonardo Boff sobre a ‘Teologia da Libertação’ e do a instituição busca ajudar Fortaleza no combate ao economista brasileiro Paul Singer, falecido em abril crime organizado. Com intervenções sociais, propideste ano. A implantação fomentou o crescimento do ciando a geração de empregos e ações em escolas dos comércio local e fez ressurgir o espírito empreendedor arredores do Palmeira, a instituição tenta mostrar

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↑ Joaquim Melo, fundador e coordenador geral do Banco Palmas [FOTO: Arquivo pessoal]

que “pequenas ações podem resolver problemas de forma solidária. Em seus dez anos de problemas sociais graves”. existência, o Banco Palmas criou três mil postos de Joaquim pondera que é preciso criar trabalho e emprestou mais de R$ 13 milhões para oportunidades para que as pessoas não microempreendedores e quatro milhões de reais para escolham o caminho do crime e, com o consumo local, contando, atualmente, com seis mil o Banco Palmas, ele garante que pode usuários ativos em Fortaleza e 25 mil em todo o país. contribuir com esse aspecto. Reconhece, Com todas as dificuldades enfrentadas durante sua porém, que não conseguirá fazer isso história, Joaquim crê que o maior desafio do Palmas sozinho. “Posso gerar milhares de em- é ser reconhecido como instituição financeira por pregos na periferia. É uma forma de órgãos e empresas, especialmente as de investir e empreender. Nosso povo Fortaleza. “(o Banco) é bom para o emSERVIÇO tem extrema capacidade criativa, mas presário, já que tem taxas baixas. É bom Banco Palmas faltam oportunidades e nós estamos para o poder público, tendo em vista .. Rua Valparaíso, 620, Conjunto Palmeiras, Fortaleza fazendo intervenções para gerar essas que reinvestimos na sociedade. Mas, as . . Seg à sex; 7h30min às 18h oportunidades”, disse. pessoas ainda têm medo de aderir ao t t (85) 3459 4848 A experiência do Banco Palmas vem Palmas e recorrem aos grandes bancos, fazendo a diferença no Palmeira e en- mas elas precisam ver o retorno social FF/BancoPalmas II@bancopalmas sinando ao mundo, como solucionar disso”, finaliza o fundador.

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Passos que edificam

a vida

Situado em umas das 12 áreas de maior vulnerabilidade em Fortaleza, o Instituto Katiana Pena dá aulas que vão além de coreografias: ensina sobre cidadania e bem-estar Texto Iara Castro Diagramação Julia Havt

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↑ Pena usa a dança para ensinar não só passos, mas também cidadania [FOTO: Igor de Melo]

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Surgida em 2000 a.C., a dança iniciou-se como rituais religiosos de agradecimento ou prece aos deus do sol e da chuva. Foi somente no século XVI, porém, que surgiram os primeiros registros do que consideramos dança hoje. Com esses dados é difícil saber quem de fato criou a dança, quem deu os primeiros passos ritmados a algum som, mas uma coisa é clara: quem quer que tenha sido o criador da arte não imaginaria o quão edificante e transformador seria na vida de tantas pessoas. Em uma cidade cada vez mais tomada pela violência, Katiana Pena é uma das cearenses que procura dar a crianças e jovens das periferias de Fortaleza uma mudança de vida positiva utilizando a dança. Ela é uma das milhares de pessoas pelo mundo que teve sua vida transformada pela dança. E, graças ao que essa arte lhe ensinou e lhe deu, hoje ela transforma a vida de mais de 550 crianças e jovens das periferias de Fortaleza por meio do Instituto que carrega seu nome. Com muito orgulho de sua trajetória e do trabalho feito no Instituto, Pena fala sobre sua história e de como se encontrou com a arte das ruas de seu bairro. “Com 5 anos, dentro da minha realidade vendendo verdura, encontrei o Circo-Escola no Grande Bom Jardim e ele me abriu portas para minha verdadeira essência. Vivi dentro de um projeto social por 17 anos, na Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes (EDISCA), e fico feliz de hoje poder continuar esse trabalho tão bonito e que só tem a acrescentar na periferia”.

Criado em 2015, o Instituto, localizado no coração do Bom Jardim, tem aulas de balé e dança contemporânea e também auxílio educativo. O local, porém, recebe de portas abertas crianças e jovens de todos os bairros e comunidade vizinhas como Jurema, Conjunto Ceará, Granja Portugal, e, atravessando os muros de Fortaleza, chega a acolher pessoas do município de Caucaia. Estando o Grande Bom Jardim entre os 12 locais de maior vulnerabilidade de Fortaleza, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto, que visa mudar positivamente a vida de seus participantes, também se preocupa com a cidadania e o aprendizado das crianças e jovens da cidade. “Temos uma preocupação em como posso usar a dança para abranger a essas crianças uma formação de cidadania. Que elas saiam com um bom olhar em relação ao que podem fazer da vida delas.” O local forma cidadãos não só para os palcos, mas também para uma vida melhor, como é o caso da estudante Juliana Cruz. A dança para quem nunca desiste

nas janelas assistindo as aulas de balé. Na época tinha 14 anos e estava prestes a estar em escola de tempo integral e não conseguiria conciliar o tempo.” A jovem, determinada, nunca desistiu e anos depois teve a oportunidade de colocar o corpo em movimento graças ao Instituto. “Os anos passaram e meu amor pela dança continuou, mas foi com 22 anos que vi a condição de me tornar bailarina, aluna e ter na minha vida não só momentos de técnicas de alongamento e exercícios, mas também um momento me conectar com a mente.” Juliana exala consigo um orgulho não só de nunca ter abandonado o sonho de dançar, mas também por fazer parte do Instituto e colher os frutos não só de seus sonhos, mas também de Katiana. “Tenho professores capacitados, experientes e que ensina valores que são importantes para a formação não só como bailarino, mas também como cidadão. Me sinto privilegiada porque tenho a oportunidade de estar nesse ambiente transformador, que une diferentes gostos, tipos e estilos”.

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É com muito orgulho que Juliana Cruz abre a boca para falar sobre o InstiSERVIÇO tuto, onde ela é uma das beneficiadas. Instituto Katiana Pena “Quando entro por aquelas portas, me .. Rua Mirtes Cordeiro, 3147-A, Bom Jardim desligo do mundo. É incrível!”. . . Seg. a sex.; 8h as 11h e 14h as 22h Conhecendo Katiana desde 2009, E E institutokatianapena@gmail.com Juliana lembra que sempre gostou de assistir as aulas de Pena. “Conheci a tt (85) 3063 9778 Katiana enquanto era aluna do Centro FF /companhiade.dkatianapena Cultural Bom Jardim. Fazia aula de co- II@institutokp Y Katiana Pena ral, mas sempre passava um tempinho YInstituto

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↔ Josenildo Nascimento (sentado ao centro) e parte da equipe de alunos do curso Experimentações Cinematográficas. Ao todo, são 18 inscritos [FOTO: Jonathan Silva]

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O cinema possível de realizar e educar Apaixonado pela sétima arte, Josenildo Nascimento usa a educação popular em audiovisual para despertar a criação de novas narrativas populares pela cidade TEXTO: Jonathan Silva diagramação: Aristóteles Santos

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O cinema, desde sua fundação, tem o manejo fácil de cativar o público e o retirar de sua realidade para inserir aonde o filme quiser. Nas mãos do educador popular Josenildo Nascimento, 40, essas mesmas possibilidades podem ser usadas para transformar o espectador em narrador de sua própria história. Fundador do coletivo cultural Bom Jardim Produções, ele sempre movimentou seu sonho de botar na rua suas produções. Agora, sua inspiração é dirigir a formação de outros entusiastas como ele. Desde 2015 Josenildo e sua mulher, Gislândia Barros, 27, promovem cursos gratuitos de cinema e vídeo em bairros da periferia de Fortaleza. Quem geralmente se inscreve são jovens, ainda descobrindo os elementos básicos da produção cinematográfica. Atualmente ele ministra as aulas de Experimentações Cinematográficas no Centro Cultural do Bom Jardim (CCBJ). Tratando-se de um bairro que desde os anos 80 “emprenha” outros bairros e comunidades na Regional V, este parece ser o cenário ideal para as práticas de Josenildo e seus discípulos. As instruções do educador sempre começam pelos conceitos teóricos de direção: roteiro, iluminação, manipulação de câmera e áudio. Só que em sala eles passaram pouco tempo. Já no começo dos encontros elaboram sobre o que querem filmar, o que vão contar e aonde vão filmar. É nesse momento que a proposta da arte-educação, por meio do cinema, toma um viés mais comunitário e cooperativo.

← Para Josenildo Nascimento, “se você tem uma câmera, já tem um filme” [FOTO: Jonathan Silva]

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“Cara, “ vejo que há muita gente aqui com grande potencial Josenildo Nascimento

← Pôster para exibição pública, no CCBJ, do filme Marcas [FOTO: Divulgação/Bom Jardim Produções]

Um dia no set de filmagens ção, fotografia, câmera, contrarregra, Utilizando-se de uma casa abandonada iluminação, áudio e até maquiagem. e até de uma escola pública como loca- É dia de filmagem na escola de ensino ção, o grupo começou em abril deste técnico Osires Pontes, no Parque São ano a filmagem do Marcas, um curta Vicente. Antes de todos começarem as metragem sobre abuso sexual. A con- filmagens, Josenildo repassa as “lições” cepção da obra surgiu de Gislândia, do dia. Checa texto, vê figurino dos atoaluna do curso e diretora do filme. Além res, chama atenção para ângulos que dela, são 16 jovens organizados na atua- aproveitem a luminosidade natural e,

como não faz o tipo de diretor de cinema intratável e mal-humorado, suscita várias piadas em grupo. Às vezes tem de ser freado por Gislândia, como forma de frear também o grupo inteiro. Mas, ele também sabe falar sério. “Cara, vejo que há muita gente aqui com grande potencial. Uns que aparecem e dizem: ‘o cinema mudou a minha vida, »

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Filmografia Bom Jardim Produções O Inferno é aqui (2010)

Uma clínica afastada da cidade recebe pacientes com doenças inexplicáveis para a medicina. Com a chegada de uma estranha paciente, os funcionários do hospital têm que lidar com eventos sobrenaturais. (goo.gl/mdekQn) Apenas Detalhes (2012)

Um jovem casal enfrenta uma crise em seu casamento. Victor pede divórcio a Elisabeth, que aceita com uma condição muito esquisita.(goo.gl/qTf4ik)

Jéssica (2013)

Jéssica é uma adolescente que vive navegando no Facebook, mas não sabe que um inimigo virtual pode está prestes a lhe fazer mal. (goo.gl/ZCfs63)

Botija (2015)

Marlene recebe um caixão de dinheiro de uma alma penada que está enterrada na despensa de sua casa. Seu pais contam com a ajuda de um compadre para saber se Marlene está ou não mentindo. (goo.gl/UwdPMQ)

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hoje percebo muitas outras coisas’. Há alguns que querem continuar com a gente e outros que querem seguir com outros caminhos”. A respeito desses “outros caminhos”, Josenildo cita o caso de um jovem que quer utilizar dos ensinamentos do curso para divulgar a imagem do bairro onde vive em vídeos populares. “As pessoas daqui querem mostrar outra imagem do bairro, diferente do que a mídia mostra”, justifica. Os alunos parecem seguir da mesma forma. Os irmãos Brena Kelly, 22, e Tiago Harryson, 17, entraram juntos no curso como ator e operadora de áudio, respectivamente. Ela pensa em seguir carreira no audiovisual. Ele considera que o mais importante é a divulgação da verdadeira identidade do Bom Jardim e redondezas. Claudiane Ferreira, 22, conhecida como “Dinda”, é irmã de Josenildo e também aluna do curso. Começou atuando nos primórdios do coletivo; agora ela assume a câmera do filme. Sobre o irmão, diz que ele é bem focado, mas que também sabe entreter os alunos. Segundo Joaquim Araújo, gerente de formação do CCBJ, essa rotina dentro do bairro em forma de cinema “tem uma função de despertar nos meninos, as técnicas e as tecnologias do audiovisual, sabendo que a periferia pode produzir essa fluidez, como também falar da sua história e produzir suas próprias histórias”. Independente ou não de ser feito no Bom Jardim, Joaquim defende que o que é produzido no bairro tem reflexos do que pode ser feito em outras comunidades ou locais. “Antigamente acreditava-se que havia a cidade e periferia, mas não, a periferia


“Não “ penso no quanto gastei. Olho para trás e vejo o quanto conquistei Josenildo Nascimento

↔ O educador encena com a atriz Rayane Gomes uma cena de abuso do filme Marcas [F oto: Jonathan Silva]

faz parte da cidade. Ela dialoga também com a cidade, faz o motor rodar”. O bom jardim das produções

Embora não utilize o termo para definir o que faz, o que Josenildo parece fazer é uma celebração do cinema possível. “Se você tem uma câmera, já tem um filme”, dispara em tom de semelhança com a afirmação do cineasta, sobre o cinema ser resultado de uma câmera e uma ideia. Desde cedo aprendeu a se expressar nas artes, manipulando os recursos mais improváveis que tivesse à mão. Até 2003, ele já havia participado de bandas de rock, teatro popular, grupos de igreja, quadrinhos artesanais e uma série de empregos na indústria. Atualmente é educador popular pela Prefeitura Municipal de Fortaleza desde 2005. Utilizando de histórias em quadrinhos (HQs), passou a conscientizar comuni-

a ambição de ver um movimento de artistas atuantes nas comunidades próximas. Pela iniciativa de oferecer formações em Organizações da Sociedade Civil (OSCs), escolas e centros culturais, os dois receberam o Prêmio Fortaleza dades de Fortaleza sobre questões de Criativa de 2016. saúde pública. Em 2010 publicou, junto Como exigência, o dinheiro foi recom a Secretaria Municipal de Saúde, vertido em ações de desenvolvimento A luta de Dona Chica na luta contra a tu- em Fortaleza. Para o Bom Jardim Proberculose, uma HQ que informava ao duções, isso significou mais oficinas público infantil a prevenção da doença. e mais possibilidades de expansão. O Foi no mesmo ano que deu início às cinema educador movimentado por Joproduções como cineasta indepen- senildo é mais um degrau para sua prindente. O primeiro filme, O inferno é cipal ambição: uma escola de cinema e aqui, foi feito apenas com 100 reais, vídeo na periferia. Ao ser perguntado muitas improvisações e uma grande sobre o quanto já investiu no seu sonho, ajuda dos amigos. Quase no mesmo nem faz questão de se preocupar: “Não modus operandi surgiram filmes como penso no quanto gastei. Olho para trás Apenas detalhes (2012), Jéssica (2013) e vejo o quanto conquistei”. e seu filme de maior orgulho, Botija (2015), um filme de época baseado SERVIÇO em um causo de infância da mãe do Bom Jardim Produções tt (85) 98652 4154/ 99413 2044 cineasta educador. A partir deste último filme é que Jo- UU https://goo.gl/SsQ2io senildo e Gislândia (sua parceira de ci- EE josenildosemearte@yahoo.com.br nema e teatro) dividem juntos o sonho FF /bomjardimproducoes Y Nascimento de serem reconhecidos pelo cinema e YJosenildo

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Teatro de bonecos para um bem social Bonequeiros e mamulengueiros levam há anos, risos, conhecimento ecológico, arte popular nordestina para crianças dentro e fora das escolas junto com críticas construtivas para adultos sobre a educação texto: Lisandra Sousa diagramação: Robson Marques

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Havia uma menina de cabelos pretos e vestido azul olhando diretamente para dona Graça, mas, ao mesmo tempo, para os personagens até então parados no quarto. Todos aqueles já tiveram vida nos braços de artistas, fizeram críticas, tomaram risos e gritos de felicidade. Em um espaço pequeno, porém aconchegante dentro de um bairro de Fortaleza, Graça Freitas, 60, fica à frente do grupo de teatro de bonecos Formosura, que fundou junto com outros colegas em 1985. Com parcerias junto à comunidade, ela e sua equipe levam vários espetáculos na Serrinha, onde fica a sede. Com olhos brilhantes, fala com muito orgulho sobre as peças que estão guardadas no espaço do grupo. Bonecos que estiveram presentes em peças teatrais. Máscaras criadas em oficinas com nariz grande como de uma bruxa dos contos de fadas; capacetes de papelão, feito por crianças para a Paixão de Cristo. O trabalho na produção, a alegria de saber que levou interesse no aprendizado para outros, mantendo viva a cultura popular por meio da arte.

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↔ Graça em Festival de Teatro com o espetáculo As aventuras da bruxa Catifunda [Foto: Sammuel Sampaio]

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Chamando a atenção de Fortaleza com reflexões dentro de espetáculos como Heróis do Papelão, ela mostra a realidade dos catadores. A arte não é apenas um meio de diversão, mas algo para ser pensado e compartilhado. Ela é crítica, compreensão, ânimo, faces, história e mudanças.

“Temos “ oficinas para crianças na comunidade para montarem o espetáculo Graça Freitas

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“O que nós queremos de fato é criar uma escola de mamulengo que seja possível a participação das crianças da comunidade”, diz Graça Freitas. Com um projeto quase pronto para ser posto em prática Graça fala sobre a criação de uma escola de mamulengo junto à Prefeitura de Fortaleza. Com uma ação cultural de ocupar as crianças em criações de histórias, confecção de bonecos com material reciclável e moldando-as para que tenham em mente que podem se divertir fazendo marionetes com garrafa pet ou jornal, o grupo passa um ensinamento de ecologia e prazer cultural. Levar aos pequenos a tradição do nordeste brasileiro que não é pobre de criatividade, somente rico de bon-


“Essa “ é uma ação sócio cultural de ocupar as crianças fazendo arte Graça Freitas dade. Com interesse na linguagem de bonecos, ela mostra a tradição de um povo que já sofreu muito no passado e hoje vive sua experiência no palco. A violência cresce em Fortaleza, mas não desistem de levar a arte no aprendizado, aqueles que aprendem a gostar de bonecos feitos artesanalmente, e viram verdadeiros bonequeiros e mamulengueiros. No espetáculo Fiapo é discutido o modelo de educação do país. Essa produção foi feita exclusivamente para os adultos refletirem. É uma crítica sobre o ensino de qualidade da própria Secretaria de Educação do Estado que convidou o grupo para fazer e que questionasse o ensino passado nas escolas. A peça foi apresentada nas macrorregiões do Estado do Ceará para diretores de escolas, professores, secretários de Cultura e Educação.

do Grupo Formosura, a peça descreve sobre o cheiro de óleo das máquinas, do cansaço e suor. Graça fala que algumas mulheres chegam ao suicídio devido aos problemas adquiridos pelo serviço. Explica também que muitas vezes os maridos abusavam do cheiro de suas esposas. Devido aos problemas era necessário mostrar que o trabalho feito por elas era importante para o Sindicato da Castanha, que trabalha com produção da castanha de caju. Projeto de Cultura Carcerária

Castanheiras e suas dificuldades

Para que presidiários possam se expressar e seguir um caminho novo dentro da arte de bonecos, a Secretaria de Cultura do Estado junto com o Grupo Formosura farão um projeto para o segundo semestre de 2018. Nele, presidiários confeccionarão os fantoches, farão produção, roteiros e por meio da visão dentro da cadeia serão passadas as histórias deles mesmos.

O Grupo Formosura de Teatro fez parcerias com o Sindicato da Castanha que fica em Fortaleza e a pedido deles fizeram uma peça de teatro que retratasse a vida de mulheres castanheiras. A partir de um conhecimento detalhado da vida destas trabalhadoras, foi feito uma peça que relatasse tudo, desde do convívio com a família, ao trabalho de limpeza da castanha nas fábricas. Escrito por Michele Linhares, uma das parceiras

Grupo Formosura de Teatro .. Rua Um, 96, Serrinha. .. Seg. a sex.; 8h as 12h e 13h30 as 17h UU https://bit.ly/2rUCMA5 EE producaogrupoformosura@gmail.com WW (85) 9 8509 3608 FF /Grupo Formosura de Teatro II @formosura_de_teatro YGrupo Y Formosura de Teatro

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↗ Apresentações de teatro com pessoas e bonecos levando ensino literário [FOTO: Sammuel Sampaio] ← Encenação da peça Os Miseráveis feita pelo grupo de teatro Formosura [Foto: Sammuel Sampaio]

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[FOTO: Arquivo pessoal.]

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Sonho e

realidade por meio da

música Há 18 anos, o músico Arley França é responsável pelo desenvolvimento profissional e humano de crianças e adolescentes por meio da música em Pindoretama, cidade da Região Metropolitana de Fortaleza Texto Talita Chaves Diagramação Robson Marques

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Às vezes, o sonho de um é capaz de inspirar sonhos de outros, criando laços com a cidade por meio das pessoas. Ouvir música faz bem ao corpo, mas ouvir uma música produzida pela própria pessoa, enriquece a alma. O pertencimento de Arley França em relação à cidade de Pindoretama, nestes 18 anos de escola de música e orquestra de sopro, é fruto de seu sonho, ainda quando menino, de construir uma carreira no cenário musical sinfônico e, por meio disso, conseguir mudar a realidade de outras pessoas, repassando para elas todo conhecimento musical obtido ao longo dos anos. A ideia ganhou força em uma apresentação no interior do estado. Um dia, como músico da Banda de Música do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará, foi tocar na pacata Pindoretama, distante 51 km de Fortaleza, em 1999. França se deparou com cenas de crianças ociosas, sem perspectivas e carentes de atividades culturais, trabalhando nos plantios e engenhos de cana de açúcar da região. Diante daquele cenário, pensou: “Se esta cidade tivesse uma escola musical onde as crianças pudessem aprender a tocar instrumentos musicais, essa realidade seria totalmente diferente”. E, partir daí, os laços musicais começaram a se perpetuar. Com orgulho, Arley diz que seus alunos não seriam apenas capazes de mudar a realidade da cidade, mas de torná-la conhecida no cenário local e reconhecida no Brasil e fora dele. E foi com essa determinação e confiança que, em 1999, a escola formou sua primeira turma, reunindo cerca de 40 alunos, para lecionar aulas teóricas e práticas instrumentais de forma gratuita. Não se tratava apenas da primeira orquestra de sopro da cidade, mas de crianças e adolescentes que estavam sendo preparados para ser cidadãos melhores, capazes de traçar novos caminhos, seguindo as trilhas do desenvolvimento profissional e humano, para mudar não apenas sua própria história, mas de sua família. Ele relembra, com detalhes, as 2018.1

reações do público na primeira apresentação. Os olhares atentos em cada movimento que os alunos faziam em seus instrumentos, os ouvidos atentos em cada harmonia, ritmo e melodia, e, por fim, os sorrisos largos e aplausos de reconhecimento. Em 2002, a orquestra de sopro foi convidada a fazer a primeira viagem


↔ Arley França e a Orquestra de Sopros de Pindoretama. [FOTO: Arquivo pessoal.]

internacional para a Alemanha. Desta vez, carregando não apenas o nome daquela pequena cidade, mas, do Brasil. “Viver ao lado desses jovens essa primeira experiência em outro país foi gratificante. Adquirir mais instrumentos para ampliação do nosso projeto, só aumentou a certeza de que estávamos no rumo certo”, afirma Arley. Ao re-

tornar para Pindoretama o número de vagas foi ampliado, aumentando as oportunidades de capacitação para mais crianças e adolescentes. O que antes era apenas uma escola de música, tornou-se uma exímia instituição, sendo reconhecida como Ponto de Cultura, em 2009, pelo Ministério da Cultura. “Conseguimos ampliar nossas áreas de ensino, acrescentando aula de informática musical, partituras, instrumentos de corda, trabalhando também disciplina comportamental, responsa- »

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↓ Maestro Adriano Araújo regendo a Orquestra de Sopros de Pindoretama. [FOTO: Arquivo Pessoal.]

bilidades no cumprimento de horários e a exigência de bom desenvolvimento escolar”, reconheceu. Com grande agradecimento, o designer José Lima, 25, afirma que sentiu o impacto que esse projeto de música proporcionou. “A cidade sentiu a importância dessa escola de música. Hoje temos mais acesso à cultura para nossas crianças e jovens, sem falar que os jovens que passam pela escola, têm comportamento diferenciado, são mais centralizados, estudiosos e disciplinados”. Manter uma escola de música não é fácil. Posicionando melhor sua postura,

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o músico explica as problemáticas en- dando a esses projetos mais visibilidade contradas nesse percurso. “Além de re- e atenção”. cursos financeiros para pagar a equipe é necessário recurso para manutenção Satisfação de trabalho bem feito do prédio onde funciona a escola de Depois de uma rápida pausa, o olhar música, e, claro, não há a certeza de de contentamento confirmava as palaque ano seguinte virá com novos re- vras pronunciadas a seguir. “Podemos cursos para levar adiante esse projeto”. dizer que existem mais de 2 mil jovens Se por um lado a escola é reconhecida e adolescentes que adquiriram toda em território nacional e internacional, sua formação musical nessa orquespor outro existe essa carência de mais tra. Muitos deles atuam como músicos recursos. “Se pudesse mudar algo hoje, profissionais ou repassam adiante todo seria a forma como as instituições, in- conhecimento adquirido ao longo de clusive as públicas que apoiam projetos sua formação. Outros já alcançaram como o nosso, veem a nossa realidade, palcos estrangeiros”. Adriano Araújo


fez parte da primeira turma formada de línguas diferentes, culturas diferenpela escola, tendo seu primeiro con- tes foi muito mágico para uma criança tato instrumental musical por meio do pobre que nunca imaginava chegar tão projeto. “Todo meu desenvolvimento longe por meio de um instrumento musical e crescimento pessoal foi gra- musical”. Seu retorno ao Brasil não ças à escola. Aqui foi onde pude apren- poderia ter sido diferente. Decidido a der muitos dos valores que tenho hoje. dividir seus conhecimentos com outras Além da música, aprendi a ser um ser crianças, Adriano profissionalizou-se, humano melhor”. tornando-se mais tarde professor e Adriano teve sua primeira experiên- maestro da orquestra. cia em viagem internacional por inter- Ciente de suas palavras e confiante em médio da orquestra, conquistando a sua declaração, Arley França ressalta oportunidade de conhecer outras cul- que, “mesmo que, todos não tenham turas. “O primeiro contato com um voo conseguido alcançar carreiras profisde avião, primeiro contato com pessoas sionais, sei que tornaram-se ótimos

cidadãos de bem, pessoas que sabem viver em comunidade, capazes de desenvolver um bom trabalho em equipe, pessoas generosas com o próximo”.

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Ponto de Cultura Amigos da Arte .. Rua Francisco das Chagas Pinheiro, 2211 Pindoretama .. Seg a sex. 8h as 11h e 14h as 18h30. UU https://goo.gl/MF7EMv tt (85) 3275 2976 EE aamarte@ig.com.br FF /Orquestra-de-Sopros-de-Pindoretama II @orquestradesoprosdepindoretama

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Portal de Produções dos Alunos de Comunicação da UNI7

quintoandar.uni7.edu.br

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