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UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO PRÁTICAS DE EXPRESSÃO PORTUGUESA Ano lectivo 2006/2007 1º Semestre

NUNO RICARDO PERESTRELO CHORÃO DOS SANTOS

(Nº 19901)

RECENSÃO CRÍTICA José Rodrigues dos Santos, Filha do Capitão, Lisboa, Gradiva, 2004

(1ª edição)

José Rodrigues dos Santos, famosíssimo jornalista da RTP, reconhecido actualmente como sendo um dos melhores e mais premiados jornalistas portugueses, distinguido em Portugal e além-fronteiras com numerosos prémios de jornalismo, tem revelado nos últimos anos uma nova faceta: a de escritor. Já publicou, desde 2001, quatro ensaios e quatro romances. A Filha do Capitão, a única obra que interessa aqui, foi o segundo romance que escreveu e publicou, inspirado nos acontecimentos da Flandres decorrentes da participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial. A intriga principal acontece no início do século XX, tendo como pano de fundo principal um Portugal acabado de sair dum regime monárquico, já muito decadente e desacreditado, que havia sido deposto por um regime republicano em 1910, numa época algo conturbada, quer a nível nacional, quer a nível europeu e internacional. A Europa exercia então a sua supremacia sobre todo o mundo, no auge do seu poderio e riqueza, em parte fruto das consequências da Revolução Industrial. As disputas de interesses estavam ao rubro por toda a Europa, e tudo parecia antever um final trágico, que se deu com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Portugal não foi deixado à margem, e foi “forçado”, digamos assim, a intervir no conflito, sob pressão da Inglaterra, para defender os interesses do país e as suas colónias africanas, entretanto ameaçadas quer pelo lado inimigo, quer pelo lado dos aliados. No entanto, Portugal não estava minimamente preparado, a nível absolutamente nenhum, para se envolver num conflito daquelas dimensões. O regime republicano estava então em fase de afirmação e passava por uma enorme crise de instabilidade política; a economia do país estava demasiado frágil; a sociedade, maioritariamente contra a intervenção de Portugal na Grande Guerra, estava muito agitada por diversos motivos (sobretudo políticos), e a questão do Mapa Cor-de-Rosa, que tinha provocado muita raiva contra a nossa velha aliada (Inglaterra), que agora nos pedia que lutássemos ao seu lado na Grande Guerra, estava ainda muito presente na consciência nacional. Por todos estes motivos, a participação de Portugal na guerra acabou por se revelar um fiasco, estando desde o início seriamente condenada a isso. Muito embora possamos dizer que foi devido à participação portuguesa no conflito que o país conseguiu assegurar a posse das suas colónias, ganhando ainda algum prestígio entre as grandes potências internacionais europeias.

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Afonso Brandão e Agnès Chevalier, protagonistas de toda a intriga, são inseridos neste contexto histórico desde o início da acção. Isto muitas vezes sem o próprio leitor se dar conta dessa mesma “inserção”. Com Afonso, o autor vai-nos dando a conhecer a realidade portuguesa antes e durante a guerra, quer dentro quer fora dela. Através de Afonso e da sua família, somos levados a conhecer o país simples e tradicional, maioritariamente rural e analfabeto, que tínhamos naquele tempo. Vemos isso quer pelas próprias acções das personagens (em particular nas da família de Afonso e, mais tarde, nos soldados portugueses), quer pelo próprio relato e/ou ligação das personagens a factos históricos. Por outro lado, com Agnès, o autor coloca-nos numa outra esfera bem diferente da de Portugal. Coloca-nos em França, bem no centro da modernidade europeia, e, curiosamente, no sítio onde ocorreram os principais e mais ferozes combates da Grande Guerra, entre os quais a Batalha de La Lys, onde os portugueses foram esmagados. Com efeito, o leitor é levado até França, em anos anteriores à guerra, onde tem a possibilidade de observar a variedade cultural e a riqueza abundante daquele país, comparativamente a Portugal. A França era então, juntamente com a Inglaterra e a Alemanha, uma das grandes potências europeias. Sítios como a famosa Torre Eiffel, apresentada ao público em 1889, propositadamente devido ao advento da Exposição Universal de Paris a decorrer no mesmo ano. Mais uma vez, e à semelhança do que acontece com Afonso, os factos históricos presentes na intriga estão directamente ligados à vivência das personagens. No caso de Agnès, temos a visita da sua família, toda ela proveniente de Lille, a Paris precisamente com o propósito de visitar a Exposição Universal de Paris e a Torre Eiffel. Mais tarde, já mais pela altura do início da guerra, quando Agnès estudava Medicina em Paris, temos oportunidade de ver o clima de alegria e esperança que reinava em França quando começou a guerra. Todos pensavam que ia durar pouco, e, como resultado disso, muitos e muitos homens alistaram-se nas fileiras do exército para cumprirem o seu “dever patriótico”. O próprio marido de Agnès, Serge Marchand, fez isso, dizendo que “estaria em casa antes de chegar o Inverno”: «A guerra entrou na vida de Agnès com a força dum furacão enraivecido. […] Serge não ficou indiferente à onda de comoção que se apoderou dos franceses e nessa mesma tarde correu a um posto de recrutamento para se alistar no Exército. Chegou de noite a casa com o cabelo cortado à escovinha e os papéis para se apresentar na madrugada seguinte num quartel da Arméé, enquanto lá fora era desligada a iluminação pública e os holofotes da Torre Eiffel e dos campos de aeronáutica patrulhavam diligentemente o céu. “É o meu dever patriótico”, explicou Serge nessa noite a uma estupefacta Agnès. “Para além do mais, isto vai ser rápido e estou em casa antes de o Verão acabar.” »

Porém, Agnès acabou por ficar viúva dentro de pouco tempo, tornando-se ela própria vítima da ilusão francesa de que a guerra iria ser um passeiozinho de verão. E a verdade é que a guerra não foi nenhum passeio. Ou se foi, foi um passeio em forma de pesadelo que durou quatro terríveis anos e que ceifou cerca de 8 milhões de vidas humanas, entre militares e civis. A vila de Lille, donde Agnès era natural, foi ocupada pela Alemanha logo no início da

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guerra, em Outubro de 1914. Lille só seria libertada no final da guerra, em Outubro de 1918. Pouco tempo depois (ainda em 1914) os alemães estavam nas proximidades de Paris, onde Agnès ainda estudava, ficando assim completamente isolada da sua família, e situada no centro do caos parisiense, sob ameaça de ocupação alemã. Entretanto, Afonso tinha estado três anos no seminário em Braga. Foram três anos de profunda reflexão sobre Deus e sobre a condição humana, que ajudaram Afonso a amadurecer. Após ser saído no último ano sem, contudo, ter sido ordenado padre (como era esperado), foi para Escola do Exército em Lisboa onde fez estudos e, após a conclusão destes, pediu transferência para um regimento em Braga, já com estatuto de oficial. Por lá ficou uns anos. Até embarcar para França em 1917, incorporado na 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP), uma força de combate entretanto formada para combater em França, ao lado dos Aliados, repartida por três divisões. A guerra era então travada ao longo de enormes filas de trincheiras, separadas entre ambos os lados pela terra de ninguém. Inicialmente, pode-se dizer que os soldados portugueses se adaptaram bem às condições do terreno, e a moral ainda era consideravelmente elevada. Quando chegou a território francês, Afonso, à semelhança dos restantes oficiais portugueses e estrangeiros, ficou hospedado em lares franceses que tinham aberto as portas aos oficiais aliados estrangeiros a combater pelo seu país. E por ironia do destino (se é que foi mesmo isso…) Afonso ficou na mesma casa em que vivia Agnès, que tinha voltado a casar, desta vez com um antigo amigo da sua família, o barão Jacques Redier, homem já avançado de idade que ajudou Agnès a sair da confusão que se tinha tornado a sua vida depois da morte de Serge, oferecendo-lhe apoio emocional e financeiro, estando agora a viver perto do sector português. Desde o primeiro momento em que os seus olhos se encontram, Afonso e Agnès sentem uma enorme atracção. Quase podemos falar num amor à primeira vista, um daqueles amores que não surge todos os dias, e que no entanto, quando surge, nos parece inevitável de acontecer. Foi o que sucedeu com Afonso e Agnès: um amor que desde o início parecia demasiado “utópico”, digamos assim, assumindo contornos dum amor muito dificultado por diversas circunstâncias, senão mesmo impossível a longo prazo. Primeiro porque Agnès era uma mulher casada, e depois porque Afonso, devido à sua condição militar, estava sujeito a ter o mesmo destino que Serge, sendo aliás a própria Agnès a reconhecer várias semelhanças entre Afonso e Serge, quer físicas, quer psicológicas. À medida que os meses foram passando, as condições do sector português foram-se deteriorando cada vez mais. Quando começaram a ficar saturados de tanta lama e porcaria nas suas trincheiras, e quando começaram a ver trincheiras de outras nações, incluindo as alemãs, os homens da linha da frente começaram a aperceber-se do sítio nojento em que estavam, ansiando por condições melhores do que aquele mar de lama que tinham. Por outro lado, os homens do CEP ficavam nas trincheiras meses a fio. Alguns chegaram a estar 6 e 7 meses seguidos na linha da frente, sem nunca serem rendidos/substituídos por outras forças, como acontecia quer

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no lado inimigo, quer no lado dos aliados, onde a substituição de tropas se dava no máximo de dois em dois meses. Apenas os oficiais tinham direito a regimes de licenças, algumas a Portugal, donde muitos não chegavam a voltar, abandonando os seus homens no campo de batalha. Com tudo isto, a moral dos homens caiu por água abaixo e o clima de descontentamento e revolta foi progressivamente aumentando entre os homens das trincheiras. Nos homens do regimento de Braga onde estava Afonso temos o descontentamento personificado sobretudo na figura de Vicente, o Manápulas, sempre descontente e agoirento com tudo, sobretudo com o comportamento dos oficiais, e, diga-se, com muita razão. Os oficiais, estando ali a maior parte deles contra a sua própria vontade, eram, talvez, os que pior exemplo davam e os que menos razão de queixa tinham (a maior parte nem estava nas trincheiras, mas nos serviços burocráticos, bem distantes da realidade da guerra). Grande parte deles era contra o governo republicano, desejavam um novo rumo político para o país, embora a maior parte não soubesse exactamente qual, e estavam-se pouco marimbando para os homens que comandavam e para o dever que tinham para com eles: «“Temos muitos oficiais contrariados com o esforço de guerra, são pouco pontuais, não executam imediatamente as ordens que recebem, passam a vida a falar mal de tudo e estão-se nas tintas para o bem-estar dos seus homens.”» [palavras de Afonso]

Não era o caso de Afonso, que cumpria as suas funções com dedicação, e que não ignorava os seus homens, consciente da importância que a moral daqueles homens (dos escalões mais baixos) tinha no caso de enfrentaram um possível ataque. Infelizmente, como já vimos, nem todos os oficias pensavam assim. Afonso também enfrentava o medo da morte, como todos os homens presentes na linha da frente. Mas acima de tudo tinha uma enorme vontade de sobreviver a tudo aquilo para continuar a amar Agnès com todas as forças que tinha. O amor entre Afonso e Agnès, um verdadeiro amor em tempo de guerra, já havia sido consumado, e era vivido o mais intensamente possível quando havia oportunidade para isso. Após um período inicial em que os dois se encontravam às escondidas do barão Redier, acabaram por ser descobertos e Agnès passou definitivamente para o lado de Afonso, como seria de esperar. Eram frequentes as preocupações, sobretudo por parte de Agnès, sobre o destino do seu amado. Receava que lhe acontecesse o mesmo que aconteceu a Serge, que cada vez que o via fosse a última... Mas o que os portugueses não sabiam é que o Alto Comando Alemão estava a planear uma grande ofensiva no sector no Lys, sobre a posição onde se encontravam as muito vulneráveis forças portuguesas. Os alemães tinham informações seguras das inúmeras fragilidades daquela zona e da situação altamente insustentável dos portugueses. A reunião do Alto Comando, em Novembro de 1917, onde são delineadas as linhas essenciais do ataque está relatada logo no primeiro capítulo da Parte II da obra (intitulada Flandres). A ofensiva sobre as posições portuguesas, denominada Operação Georgette, estava inserida num conjunto de outras ofensivas/operações, noutros sectores, que tinham como objectivo principal porem um fim à guerra, dando a vitória à Alemanha com um único golpe, avassalador, sobre os aliados.

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Acaba por ser maravilhosa a forma como o autor nos insere dentro de todos os acontecimentos e sentimentos vividos nas trincheiras portuguesas. O autor descreve tudo como um historiador, de uma forma quase totalmente imparcial, assumindo uma posição não-interferente no decorrer da narrativa. Temos por isso um narrador não-participante que se limita a informar, a descrever os cenários, as personagens e as suas interacções, um pouco à moda de Eça de Queirós; permitindo ao leitor fazer a sua própria divagação sobre a história, menos orientado pela opinião do narrador. Mais uma vez o narrador recorre a personagens, neste caso a um “punhado” de soldados que vivem diariamente com a realidade das trincheiras, e que todos os dias têm de enfrentar a morte. É o caso de Matias, de Vicente (atrás referido), Abel e Daniel. Todos eles praças, o estatuto mais baixo, e por isso mesmo, eram carne para canhão. A maior parte dos praças eram homens do campo, que não sabiam ler nem escrever, estando isso visível, por exemplo, no tipo de linguagem oral que usavam, comparativamente à usada pelos oficiais, com mais estudos. Isto é aliás uma das estratégias do autor: o uso de diferentes tipos de linguagem conforme o tipo de instrução da personagem. Além disso, os praças estavam completamente subordinados aos seus superiores hierárquicos, que, como já vimos, estavam-se nas tintas para homens que comandavam. É o caso do capitão Resende, que arranjou uma licença para ir até Portugal e não voltou mais; ou o caso do tenente Pinto, que fugiu/”cavou” do campo de batalha quando as forças portuguesas foram atacadas, abandonando os seus camaradas. Todos estes factores foram então contribuindo para um progressivo descalabro da situação portuguesa na Flandres. A situação foi piorando cada vez mais. O ataque alemão já estava a ser preparado, e o lado português apercebeu-se, de facto, de um enorme movimento de tropas e mantimentos no lado inimigo. Era evidente que estava a passar-se alguma coisa suspeita do outro lado, mas os portugueses preferiram ignorar a situação e pensar que o problema não ia para eles, mas para os ingleses. E a verdade é que o plano do Alto Comando Alemão estava a ser posto em prática mesmo à frente do CEP. Um dia, todo o movimento registado nas trincheiras alemãs cessou subitamente. Afonso foi avisado por um amigo inglês, o tenente Cook, de que estava iminente um grande ataque alemão sobre as posições portuguesas. Corria o dia 9 de Abril de 1918. Era um dia ansiado pela maior parte dos homens desde que souberam que nesse dia, seriam substituídos por novas tropas e iriam “de férias” uns tempos. Mas não houve nenhuma substituição. Houve sim um verdadeiro desastre, uma “tempestade” (como se chama a terceira e ultima parte do livro, onde a catástrofe é relatada). Quando ninguém esperava, os alemães atacaram com toda a força as linhas portuguesas, fazendo milhares e milhares de baixas, entre mortos, feridos e prisioneiros. Vários dos homens atrás referidos, como Abel e Vicente foram mortos durante a batalha. Afonso foi feito prisioneiro, para desespero de Agnès que pensou que fora morto. Como resultado do desastre de La Lys, o CEP foi dizimado, e desintegrou-se, passando a ficar disperso e comandando por várias divisões do exército inglês até ao final da guerra.

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Agnès acaba por morrer, vítima da gripe espanhola, que por aquela altura matava tanta gente como a guerra, senão mais. No entanto, deixou um fruto, e símbolo, do seu amor com Afonso: uma criança com o mesmo nome da mãe do pai, Matilde. Afonso acaba por só saber da existência da filha dez anos depois de ter saído da guerra, sabendo (de maneira pouco precisa e incompleta) que Agnès tinha morrido, tendo casado com Carolina (antiga namorada) e tido dela dois filhos. Toda a narrativa está longe de ter um final feliz, perfeito. Mas também não se pode dizer que tem um final infeliz, uma vez que o amor entre Afonso e Agnès acaba por nunca morrer completamente com a morte de Agnès, sobretudo depois de Afonso descobrir que tinha uma filha francesa à espera. Essa filha acaba por ser, no fundo, uma “continuação” do “espírito amoroso” que conduziu ao seu nascimento. Verificamos pois que a ideia do destino está presente em toda a obra. Quer no próprio amor de Afonso e Agnès, impossível desde o início, embora com os seus frutos, quer naquilo que acontecia nas trincheiras, que já há muito deixava antever um final trágico para um muito mal preparado CEP. Considerado por muitos como uma homenagem aos antepassados do próprio José Rodrigues dos Santos, presentes na Primeira Guerra Mundial, A Filha do Capitão, como romance histórico que é, protagoniza sem dúvida um grande louvor a todos os portugueses que combateram e sofreram naquele horroroso campo de morte e carnificina, naquele talho humano. É sem dúvida uma belíssima história sobre a natureza humana, sobre a guerra, sobre a fé e sobre Deus, sobre o amor em todas as suas formas. Uma obra sublime, imprescindível a qualquer apreciador de um bom romance.

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P.E.P. )) FILHA DO CAPITÃO -recensão crítica- [16,5]  

José Rodrigues dos Santos, Filha do Capitão, Lisboa, Gradiva, 2004 (1ª edição) Ano lectivo 2006/2007 1º Semestre CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO P P...

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