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Remotos lugares Corvina O sol seguia afligindo-a, tal como o calor desgarrado que a envolvia em uma prisão insustentável. As milhas percorridas se tornavam incertas conforme bramiam seus suspiros exaustos. Corvina mudou de direção, evitando as miragens subjacentes. O cantil vazio havia se perdido a metros atrás, mal precisou procurar em seus pertences para recordar. Estava delirando. A fome a transformava em uma sádica caçadora. Desabou de joelhos, com os braços arqueados, a testa franzida, nem meio sorriso. Seu suor evaporava, cada célula de seu corpo narrava a desidratação juntamente com a febre impassível; ainda arriscaria relembrar, num futuro distante, as ações desbravadoras. A insígnia estava quente, fervia contra a pele pálida e avermelhada, sendo separada apenas por um fino pedaço de tecido roto. Corvina provava a sensação de estar em um vulcão, tanto que poderia deslizar sobre o magma caridoso. Escutava sussurros intragáveis em sua mente, vozes indiferentes, perigosas, maléficas, as quais ejetavam letras disformes altamente intoxicáveis. Os olhos se fecharam em uma contração de defesa, como quem sorri por esperar a poeira da morte. O brilho sereno de cristais arenosos afogava-a. Percebeu-se deitada, respiração pesada, ao menos o maldito sol tocava apenas o lado esquerdo de seu rosto, ou assim imaginava, pois as noções básicas haviam sido ancoradas. 11

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Foi assistindo ao seu pífio existir que despertou e livrou-se de tudo que a torturava, não era mais o animal depravado e moribundo que se encontrava no chão. Corvina vivia o pesadelo que a dilacerava. Ela se revolvia no fogo pecador das escaldantes terras primitivas onde, um dia, nasceram deuses habilitados. Seu corpo era como o de um grande pássaro, belo, de cauda longa e penas alaranjadas flamejantes. Seria capaz de morrer? Jamais! A fênix em chama distinguia-se do deserto com facilidade; gralhou ao falar, jorrando bolas pungentes de fogo. Testou as asas inexoráveis. O único vestígio remanescente de humana era o belíssimo cristal incrustado ao peito da ave, que funcionava como um gerador de forças e um condensador de reminiscências. Existiam pormenores, contudo, nada exerciam sobre seu instinto de liberdade. Corvina voou sobre os arenosos campos, voou aos defeituosos enlaces, voou até avistar as primeiras e tímidas gramíneas verdes-escuras que indicavam a destinação errada. A fênix subiu ao alto céu, explodindo raivosamente. Das fagulhas e cinzas surgiram o estranho corpo nu que chocou-se com o chão no bosque intransitivo. Lançara a vida na própria sorte. Encarava-se abruptamente escorada ao que parecia ser uma muralha pequena, mas viçosa; os dedos apalpavam a matéria friamente. O céu tinha muitas cores e formas ofuscantes. Os pés tropeçaram, e foi nestes desajeitados tropeços que os movimentos brotaram. O cabelo pegava-se à face, Corvina o afastava loucamente. Pensou instantaneamente e poderia jurar que, no passado recente, havia ali uma muralha, porém caso o fosse, estava distante, o muro tomava um espaço atroz. Respirou desfrutando 12

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o ar, poderia distinguir as reações químicas presentes, as formas misturando-se graciosamente. Nos milésimos trocados com a terra sem marrons, as mudanças surgiram. Um rosto flutuava a frente, forte, rígido, preocupado. Esboçava uma pitada de pieguice, no entanto, recordaria um soldado possivelmente passível de corrupção. Com certeza estava enlouquecendo. – Olá! Olá... Olá... Olá. Os ecos evacuaram a bravura medíocre. O rosto masculino seguiu sua infelicidade. – Quem é você? Você... Você... Você. A ideia de Corvina foi estar à beira de um penhasco onde as jogatinas rebatem. O muro diminuía, ou ela estava delirando como antes. Tremia soturnamente aumentando a intensidade, os músculos saltavam. Cerrava os olhos enxergando. Similares à face curiosa saboreando-a por meios. A brisa tocou-a. – Você está bem? Corvina sentiu-se pressionada contra o corpo do homem. As peles não se encontravam. A roupa grossa de pelos a recebia indecorosamente. Tentou falar, porém os grunhidos paravam em seus lábios, morrendo sorrateiramente. – Ela está viva? – uma voz precavida impugnava. – Shhh... Ela pode estar ouvindo. Outra vez lutou com as forças opostas. O zunido era cansado e desmiolado. – Estou escutando. Prosseguiu sem olhar, com medo de deparar-se com uma face indiferente, mas os braços os quais a carregavam nunca pertenceriam a um indiferente. Teria se desvairado em fúria e vergonha em outra época, no entanto, escapara por um triz da 13

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morte. A nudez era o último de seus problemas, representava a renascença. Adentraram uma cabana, o aroma do capim desaparecera brevemente dos ares. Posta sobre um leito, trouxeram-na mudas de roupa e debruçaram-nas sobre ela, as quais bisbilhotou, topando num semblante terno, curioso e banhado de sol. Para a sua surpresa, apesar de serem peles de animais, os tecidos eram leves e sofisticados. – Como se sente? Corvina comprimiu os lábios roxos. – Melhor, obrigada. Você salvou minha vida. Não teve certeza se ser salva era sua melhor opção. No entanto, ter o direito de vislumbrar mais uma manhã vindoura faria tudo valer a pena. A lembrança da insígnia fez o coração sobressaltar. O estranho decodificou seu pensamento. – Acalme-se, seu colar estava ao lado – ele colocou a mão no bolso, retirou o cristal com entalhes alaranjados e jogou-o para ela. – Sou Gared. – Corvina – sibilou intrinsecamente, levantando as mãos tomando o artefato. Nada ocorreu. Arquejou aliviada. O minuto se construiu passivo de abordagens. – Onde estou? – tornou a inquirir o estranho enquanto se vestiao, guardando a insígnia, ou melhor escondendo-a. – No condado de Beret. Passou o braço pela manga recortada. – Nunca ouvi falar – objetivou. Gared riu harmoniosamente. Encontrou tanta graça em tais palavras que chegou a se encostar na parede batendo palmas breves e ocas. – Com toda certeza, nem no mapa consta – dizia, controlando os risos caducos. 14

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– Ótimo, estou perdida – concluiu, tornando a assentar-se na cama macia, a qual produziu sonolência. Ele tornou a rir ciosamente. ∞∞∞ Decorrido o restante das horas, já alimentada, brevemente descansada e menos temerosa, escapuliu pela porta da frente da casinha. O sol se punha numa triste composição desarranjada. Alguns quilômetros adiante pôde observar as outras cabanas, a terra, uma mistura de hora verde hora arenosa, repercutia. Gared escondia-se nos fundos, dentro de um cercado, virado de costas. Carregava um pente que usava para alisar os sedosos pelos do cavalo. – Seu nome é Bran – murmurou, ouvindo os passos sorrateiros. – Vive só? – ela se apoiou junto ao cercado de madeira nova, translúcida, levemente úmida. Não tardou a estimar que talvez houvesse feito a pergunta errada. Que lhe importaria tal informação? Seus dias não seriam menos frios. Contudo, já o tinha dito. Já estava selado em um dos muitos instantes inadequados de nossas vidas. Estimam-se os heróis por fazerem dos vis momentos uma ternura. – Desculpe. O animal achegava-se num galope torto. Corvina acariciou o dorso, derramando elogios que o agradavam sob o constante renegar de Gared. Estava plenamente escuro quando ele se afastou. Ela o soube somente pelo toque que a direcionava pelo breu. Suas mãos foram soltas. Gared acendeu velas pela “casa”, produzindo em Corvina um exótico aconchego. A cor a fazia relembrar o fogo, o qual lhe hipnotizava. 15

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– Porque me ajudou? O homem retirou o grosso casaco, pondo-o sobre uma cadeira em fase de produção. Usava uma leve camisa azulada de mangas longas. Aparentava uma beleza pacífica e ignorada, embora fizesse seus sentidos despertarem em frenesi. – Você faria o mesmo. – Como pode saber? – ela escorou-se na parede direita ao lado da cômoda onde havia uma vela. – Se assim não fosse, não faria essa pergunta. Corvina sorriu meticulosamente. Os segundos estavam descompassados pelas formalidades. Um raio cortou o céu, próximo, perigoso, arrogante. A insígnia em seu pescoço ardeu. Ela arrancou-a, jogando o cristal no chão. Gared trancou a porta num baque. As paredes estremeceram, foi no calor que nasceram as ameaças. Três dias de fogo seguirão. Siga o rumo do templo natural. Colocaremos o elmo sobre você, abrindo seus sonhos. Uma surda explosão emergiu. Os presentes taparam os ouvidos enternecidos pelo tênue e imprevisível eco. As velas se apagaram. Corvina deu graças. Quais ideias serpenteariam a mente de Gared? – Não fique aí parada, pegue logo algo para acendermos a luz! A ordem surpreendeu-a. Escancarando a porta, jogou-se na noite, temerosa que um raio a atingisse; embora, no fundo soubesse estar segura. Qual seria o significado de dias de fogo? Onde seria o templo natural? Que elmo coexistia em si? As perguntas banhavam-na no mar inexato. Sons chacoalharam a aragem. Demorou a perceber seu nome em brados. – Caso não demorasse tanto, eu poderia esclarecer suas dúvidas – Gared ciciou sereno ante a destruição. 16

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Corvina franziu a sobrancelhas, mas, se pudesse, franziria o mundo. Gared a perturbava no inconsciente. Sem ligar para o fogo, entre tropeços, chutes e caídas, se viu à porta, em frente a ela o sofá, então vieram as explicações. As respostas para as subjetivas questões vinham de seus pensamentos. Os dias de fogo, em verdade, representavam um sol sem ameaças. O templo bem poderia encontrar-se em qualquer lugar, porquanto o elmo avisava da proteção divina. Isso provavelmente impediria que os deuses fizessem brincadeiras para prejudicá-la. Ganhou, de graça, comentários sobre o artefato, permutações e tais. – Quem é você? Ele não sorriu, nem tateou, sequer ousou respirar baixo. Então disse, calmo, expressões equivocas. – Prometi responder às suas dúvidas do passado, não do presente ou futuro. Sobre a cabeça de Gared, levantou-se um campo minado onde havia de ser fácil explicar. Sentia pudor, um pudor mórbido, torrencial. O antes cavaleiro recebera de herança genética tal sentimento. As botas abafaram o caminho, as pernas o levariam onde quisesse. Escutou os relinchos de Bran e sorriu. De costas, foi à porta. Corvina parada, imóvel, com aparência de cera recém-moldada que até um vento desfaria. As memórias ameaçavam tomá-la, e a confusão atual permitia o desejo de possessão. A brisa permeável e o aroma das flores campestres polinizadas descansavam-na. Deveria ter-se passado quase quinze luas, e logo mais chegaria o tempo e Corvina não queria partir. Fazia calor, um calor controlado, gostoso, risonho. Saía pelos estrados, o capim curto pinicava, tentando rasgar-lhe a 17

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pele, sem sucesso, sem considerações. Todavia a recordação submergia, transmutando-se em fogo; por fim, Corvina queimava junto. Despertou em brados esquivos, próximo ao cume da manhã. Estivera sonhando; todavia, sequer se recordava de ter deitado. Preciso seguir em frente. Habituada as lendas sobre o artefato, não via nele um inimigo. Era seu exato eixo. Todos que falharam o viam com estes traços. Com finos e longos dedos apertou a relíquia, em meia-fé e meio-tom poderoso ordenou Viva. Mal sabia instigar os erros. Subiu ao teto, os lumes pelo indivíduo, de repente, o frio, ideias súbitas, reconheceu a sensação, caiu na forma humana. O baque surdo, a cabeça latejando, os lábios contra os dentes. – Não adianta, está fraca para a transformação. Esquece que antes de ser sua, a insígnia pertenceu aos deuses e impuros. Ela deseja corromper, envenenar, sugar a energia. A jovem mulher ao chão poupou a resposta. Quis berrar que se tivesse dito as obviedades antes, teria poupado-a da dor. Corvina abaixou as pálpebras ansiando, sem pensar, abandonar o fluir como as correntezas de um rio se desfazendo em calmaria. – Vou buscar uma bebida – anunciou Gared. Corvina escutava sua respiração. O copo de couro endurecido suava, sugando parte do líquido. Com o auxílio, se sentou, as costas apoiadas à parede. Os dedos tremiam ao se arredondarem em volta do copo. Levou à boca. O líquido desceu fervoroso e aqueceu-a distintamente. – Se prometer me levar, lhe conto quem sou. – Gared sorriu, meio de escárnio, meio de pompa, anexando um sarcasmo em um instante incomum. 18

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Corvina sequer necessitou da resposta a qual tremulou ao ar da casa, o sol nascendo no triunfo triste. Os dias de fogo começavam agora! ∞∞∞ Era perto do meio-dia, debaixo da sombra d’uma única árvore descansavam os animais e os donos. Estendido sobre a relva, um pano protegia os alimentos. Corvina espatifava o pão entre os dedos para mastigar as migalhas, seus olhos lilases cuidavam de Gared, acompanhando-o. O subir e descer de seu peito a desgastava, concentrar-se era mais árduo que anteriormente. O homem bebericou o cantil, mastigando uma fruta. – Então ele é seu pai? – disse Corvina, empregando cuidadosamente a falsa ênfase. A descoberta tomava conta, o choque, a razão, buscou facilitar os suspiros não oferecidos. – Sim. Compreende? Não. Refletiu sorvendo o resto do vinho. Houve uma ventania severa naquela noite. Havia escapado da aula e permanecia no topo da fortaleza quando se sucedeu o inesperado. O céu – Gared pausou tentando assustá-la – em meio a escuridão, um piscar de nuvens adquiriram um tom amarelado, logo após branco. A impressão era de ter-se acendido uma vela por trás das nuvens. O batuque irregular do sino fez tremer o castelo de Édaba, soube que algo acontecia. No decorrer dos instantes seguintes todos surgiram – Gared interrompeu a narrativa rindo, triste. – Os olhares inquisidores de Telmar acusariam-me sem tardar, soube do despertar por instinto. Sendo o último dos Cissacles, arrio a ambiguidades, escoltado, fui exilado. 19

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– Soube pelos céus? – Corvina inquiriu, recheando de praticidade seu eco. – Não peço que creia em mim, nunca esteve lá contemplando o céu. Ela concordou, arredia, encerrando o assunto. Gesticulou, alegando uma paz surda, e foi carregada por sua imaginação. Gared absorvia os reflexos. – Desculpe – Corvina articulou de modo inaudível. Ele acenou. – Conte-me sobre os Cissacles. A jovem mulher começou a guardar os alimentos, limpando os vestígios de sua presença. A pouca umidade deixava-a com vertigem. Ele escorou-se no tronco. – Há três tipos de magia, ou melhor, pessoas com energia para domar. A primeira classe pertence aos deuses, a segunda aos guardiões da floresta e a terceira aos homens. Todavia, o poder dos homens foi considerado impuro aos olhos alheios, pois basicamente ia contra a natureza. Um dia, um desses humanos impuros nasceu e foi mandado à floresta. Lá, perdeu-se e teria se tornado um selvagem caso uma criança elfa não o tivesse encontrado. Durante anos, sob as sombras das folhas brincaram. Na madrugada de solstício, quando ambos cresceram, viram-se apaixonados. Da união proibida veio ao mundo um único homem, cujo sangue por direito possuía a perfeição, entretanto, a carne permanecia fraca. – Acredita nisso? Corvina lutava para crer na fábula contada. Quantas crianças deviam ter sido colocadas à cama e levadas ao sono por um conto similar. – Sou o último descendente. 20

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Vocábulos posteriores, jorrados, criaram um círculo de areia que se elevou ao redor, prendendo-os. Corvina, acidentalmente, derrubou os pertences, extasiada. O coração palpitava arredio. Os grãos lentamente cederam, imitando representações artísticas. Gared sorria triunfante. – Impossível, é preciso recitar em tom alto, você ainda é humano – sussurrou desajustadamente. – Corvina, sou um Cissacle – repetiu calmamente. – É melhor ter fé em fábulas. Caso não tenha percebido, está vivendo uma. A mulher estralou os ossos. O rosto montou juntamente com sobrancelhas arqueadas um sutil ar de revelação. – O que disse? As cortesias iam sendo despidas. Ela, dispersa demais para perceber tal ação, evitara tirar as últimas peças, as quais julgava indispensáveis. Ele mudou de assunto instantaneamente. – É hora! – exclamou Gared. – A insígnia não a teria chamado. Para cada raça ordenou os deuses um desígnio, os humanos portam o início do ciclo, os cavaleiros o segundo ciclo, ou o cavaleiro de dragão não é humano ou – imprimiu um alto tom na nota grave – andou furtando objetos por aí. – As alterações impetuosas aturdiam-na. Apertou os braços no próprio corpo, prendendo-se. Teve ódio, admiração e rebeldia pós-crise. Gared ou era sensato ou um completo tolo. A tensão a atordoava. Quis sorrir, mas poupou, por julgá-lo imoral na situação. Passou a língua nos lábios, umedecendo-os. Baques sublimes. Gared não ficava incomodado e escusava plausíveis adjetivos. Mate-o também. Entoava uma voz em sua mente, uma voz que perpetraria até que os soberanos se ajoelhassem sobre um tapete pobre e funesto. 21

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– Se tem conhecimento de que sou uma assassina, por que continua aqui? Gared apertava uma faca contra a pedra lisa, amolando-a. – Nunca a julguei – assegurou. – Apenas confirmava teorias! – anuiu com descrença, sem retirar os atentos contemplares da faca. – Interessante – Corvina sibilou numa vala sobre quem era e quem votaria em ser. – Não seguiremos. O sol logo se porá timidamente. – Ergueu a arma jogando-a no ar e pegando-a com outra mão numa manobra engraçada. – Enquanto isso podia me contar como obteve a graça da insígnia. Corvina titubeou o avaliando sobre meios, satirizando-o, moldando-o até estar certa das formas forenses e dispostas. Por um quarto de indiferença contaria. – Quer uma boa história? Provoque um trovador. Não sou, aliás nem disponho de realidade convincente, família pobre, dificuldades. Nessas situações, as mães tendem a procurar bons casamentos para as filhas... – É claro que isso não aconteceu – interrompeu Gared com mesquinhez. Corvina estalou os dedos. – Fugi antes, não é das melhores, ramo bastante masculino, porém, hoje, aqui – apontou ao nada, como se evitasse um diálogo privado –, creio que os fatos se sucederam corretamente. Ele trocou a perna de apoio, fustigou, ergueu a lâmina antigamente cega quase vívida e limpa, um flash dançou. Corvina amealhou, incômoda, ansiando morrer o prateado. – Entrar na “caça” é complicado, os trabalhos devem ser discretos. Partir é o começo da estrada. Perpetrava três Ilkás trabalhando. Era uma tarde desengonçada naquela Shrerp (terça), 22

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consenti em desempenhar uma pesquisa. Trajei-me apropriadamente e desci à taverna apinhada de parasitas dos mais diversos, consegui uma boa negociação. Aquilatavam-me uma das melhores – uma nuança de orgulho – , tudo mudou deliberadamente ao ouvir de viajantes, entre um copo e outro, que lendas se tornavam reais e os artefatos amaldiçoados não só existiam, como Volker despertara e oferecia além do mundo em troca de uma. – Você se interessou, obviamente – ponderou Gared a vontade para cortar a narração. Agia tão apaticamente que a negligenciava. – Por acaso em meu lugar não se interessaria? Que mais era eu, se não um verme atrás de riquezas? – um riso amargo transparecia os anos mal vividos, tão sofridos e permeáveis. A rebeldia e a desorientação tomavam as rédeas da mulher, tripudiando os acanhamentos. – Não pensei, respirei, imaginei ou, pesquisei, por Yanes (Semanas) nada que não fossem os cristais. – As informações eram difíceis de conseguir. Mistérios, segredos e ausência de fatos rondavam a história. Almejei primeiramente a terra, entretanto, não tardei a descobrir a fuga do portador. Lá foi fácil soltar as línguas, muito no interior a região, sequer houve suspeitas. – O que a fez desistir da terra? – Gared remexia nos padrões intransigentes, inclinados a deslizes. Corvina ignorou-o. – Sabia-se que o elemento um havia sido capturado há tempos; supunha-se que seu portador tenha sido dominado, as expectativas não caíam para meu lado. Fui chamada para uma missão, por isso insisto em falar que o destino estava a favor. Um dos clientes ambicionava a insígnia. Tolo e velho demais para ir sozinho na caça, e um potencial idiota para contratar alguém. 23

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– Determinadas empreitadas sempre se devem fazer desamparado – murmurou Gared, desenterrando uma lembrança dolorosa. – Exato, auferi o pagamento adiantado a fim de cobrir despesas e calar pessoas, marchei sóis e luas atrás dela. – A mulher tocou o item rústico obsessivamente. – Cheguei próximo de ceder, quando munida de pistas meticulosas a localizei, nem a cobiçava mais – ela riu. – Claro isso antes de tê-la tocado. – Você pode renunciar, poucos conseguem, é verdade, mas o inesgotável fica em nossas expectativas vorazes, conhece tal regra – disse em clara censura desgarrada. – Não seria capaz, você não a explorou, acredite no que lhe apetecer, contudo nunca esteve no meu lugar – rebateu Corvina, guardando a peça, andando alguns passos, estremeceu acalmando-se. Sofria pesadelos pelas mortes causadas. Não havia banhos nos límpidos rios que a suavizassem. Entre culpas, surtos e conformismo, prosseguia para destruir aquilo que a desintegrava. Gared calou-se ao desfrutar de sua frase adaptada numa imitação helenística. Os impulsos aflorados lhe vertiginavam por baixo da pele. Ninguém conhecia o submundo melhor que ele. Alguma coisa daria errado. Irrompeu-se no céu baixo do Noroeste as figuras de quatro bárbaros cavalgando, carregando machados, ou ao menos era o que a visão enternecida de Corvina distinguia. De longe, as imagens tremiam contra o sol. Gared parou, não teriam tempo para remediar. Amarrou os animais inquietos que escoiceavam os ares. O homem assumiu o lado esquerdo. Uma brisa súbita assoviava alto, apertavam-se mãos nos ouvidos sensíveis antes destes explodirem. Ia dar uma ordem, porém recuou, pois os sevos chegavam às raízes. 24

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Revestidos por cotas de malhas e couro marrom mediano, empregavam pesadas luvas, botas de lã incomuns e machados artesanais construídos sem boas ferramentas, a julgar o estado. Um arco e estilingue reforçavam as proporções amplamente mortais. – Karana ota amissirúp (Vamos ver quanto ouro conseguimos). – O sádico cuspia os sons exóticos, seus erres e esses saiam forçados, parecendo sofrer um ataque e não o contrário. Os companheiros riram, apontando lanças nas respectivas direções. Eles foram cercados, repudiando escapatórias. Os cavalos também diferentes, altos mais da metade do natural, faces largas, olhos puxados nos cantos, cílios pungentes, músculos definidos e enormes coxas. Os senhores fortes, pesados, com selas de metal pouco explorado deste lado de Arrarock. Corvina e Gared trocaram demoradas sessões de olhares digestivos. A incompreensão acirrava a tensão correndo adrenalina. – Sou Gared, o último descendente da sagrada linha. Apresentem-se ou sofrerão. O segundo bárbaro, contando-se da esquerda à direita, no cavalo castanho-sangue, roncou, zoomórfico, a lança contraposta ao rosto de Corvina. O aço frio roçando as maçãs perfeitas ardiam. Coração disparado, pressão pelas veias, apertos. Gared prosseguia calmo, como magnífico embaixador da ordem. Ela gostaria de ter tido tempo de responder à questão inquirida. Um bárbaro pulou ao chão, três dedos mais altos que Gared. – Suizw arev (Reviste-os) – ordenou o líder. Fosse o que fosse que havia sido dito, fez o estranho aproximar-se. Corvina, enraivecida, inflava a fúria por dentro. Dominado, sem impedir, lutar, semelhantes a cães imundos de sarjeta, onde tinham parado as drogas dos poderes de Gared? 25

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As mãos calejadas e deploráveis encostaram-se à cintura, a pele aborreceu-se, o Cissacle perdia a paciência. Aconteceu rápido, todos caíram instantaneamente. O peso das selas os impedia de levantar. Três caídos, um em pé. Não se moveu. Este desgarrado dos demais teria a barganha somente para ele. Os dedos apertavam-se próximos ao tórax de Corvina. Ela deslizou, habilidosamente, o pé direito e projetou-se acima, atingindo-o em cheio no rosto. Surpreso, ele ergueu o machado para matá-la. Gared lançou-o contra a árvore. A arma caiu, o choque do crânio ao tronco esparramou sangue e náuseas. Morria o primeiro. Corvina sentiria remorso tardiamente, porém ia-se a ocasião de morrer por honra, fora defendida por quem pretendia punir. Correram aos tropeços ao animal do morto, ergueram-no. Montados, cavalgando num trote senil, ouviram as vozes se elevarem fáceis de identificação. Estavam vindo atrás deles. – Tem um plano? – Corvina exprimiu com rapidez, olhando para trás, assistindo aos pontos negros movimentarem-se. – Não exatamente – ponderou Gared, impondo controle no desvairado animal. Os víveres e preparativos ficaram no passado; contudo, perderam a importância. Era necessário viver para depois os usar. O galope duro, os doze cascos. Corvina engoliu a bílis que vinha próximo aos lábios disfarçadamente. Houve luz, intensidade. De repente, ficou clara a ideia na cabeça. Apertou-se contra Gared, deixando os cabelos encobrirem o restante. Os homens berravam posicionando os estilingues. Por serem mais leves, conseguiam manter certa distância com proeza. – Consinta aproximação – cochichou na orelha de Gared. Ele girou o rosto, pondo-se de modo a encará-la duramente. 26

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– Enlouqueceu? – bramiu desconfortavelmente, inclinando-se para conhecer a resposta. Corvina estampou nos olhos e lábios um jeito convincente de quem sabe o que faz. Deixou a mão esgueirar-se pela cintura. Antes de protestos, retirou a espada afiada da bainha e a empunhou bravamente. Suspirou absorta na insana e possivelmente suicida ideia. – Me dê cobertura, prossiga reto – ordenou claramente, contando até um três quartos, seus pés passaram a subir pelo animal. Pelos dois lados as pernas erguiam-se, entre escorregões e o vento, recortando-a, advertia açoitar aos inimigos. Conseguiu permanecer em pé sobre o dorso do cavalo. A panturrilha encostava as rígidas costas de Gared. Afrouxando as rédeas, permitiu que a velocidade diminuisse. O eco exilava as feições ásperas visíveis, claros contornos discutíveis. – Tome cuidado – Gared anuiu quando por milésimos havia chances de recuar. Ela era feita de fibra. O chefe achegou-se primeiro. A arma carregada teria cortado suas pernas se, magicamente, esta não pulasse. A espada passava distante das áreas vulneráveis iguais ao rosto, pescoço e falhas na “muralha”. O cavalo junto ao inimigo programava uma agressão. Surpreendida, Corvina emprestou impulso, e lançando-se no ar para o outro senhor. O animal aturdido empinou, ela passou a espada pelo pescoço. A inundação celeste de caos. Semicerrou as pálpebras, saltando para o chão. Restam dois. Gared adentrava sua sintonia, contornando uma curva fechada voltava ao seu local. O garanhão que a fizera saltar fugira, os outros chegavam a decímetros. Gared retirou a faca do bolso, arremessando-a, segundos de vácuo até atraves27

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sar o rosto do outro. Todo o universo conspirava num suposto segundo. O braço forte tomou-a pelo cós, trazendo-a para cima. Desviou do remoto perigo, o bárbaro jogou pedras e serrilhas; abaixaram, graças ao tempo. Uma mexa do cabelo de Corvina desfalecia. – Agora! – avisou Gared jogando seu garanhão sobre o do bárbaro, o qual tentou tomar a espada. O tempo negou ser singelo e, antes de atrever-se a respirar novamente, Corvina saltara à frente, desferindo o golpe fatal. Empurrou o morto imundo, assumindo o controle. Sem discursos, fervilhando, tornaram a avançar até onde as breves tardes os quisessem carregar. Gared jamais assistira representação deste porte. Ela era muito mais do que uma simples mercenária ou ladra; com empenho desvendaria a realidade. Lado a lado, com permanentes universos, divagando em especulações, o doce sabor da sobrevivência apoderava-os. A insígnia guardada envenenava-a. Restava meia hora a brincar e a noite deleitar. Gared parou bruscamente. – Precisaremos de madeira seca e carne. Corvina absorveu os detalhes contínuos de mudanças. Entre uma respiração sinfônica e outra desmontou. O cavalo esfregava o rosto na relva esverdeada; aliás, bastante contente pela mudança de proprietário. Ela riu afagando-o. Vou chamar-lhe de Vingança. Neste ínterim, deu-se conta do odor fétido. O líquido grudento. Tornou sobre Vingança. – Preciso de água corrente. Gared concordou, improvisando a fogueira. – Vou atrás de carne, cuide da água. Quando encontrar, envie um Rhein. Corvina assentiu, desaparecendo sob um elo de fulgidas brancuras. 28

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SOHUEM – TRILOGIA DA MEIA-NOITE II