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Jorge Lourenço

2054 R I O

OS FILHOS DA REVOLUÇÃO

COLEÇÃO NOVOS TALENTOS DA LITERATURA BRASILEIRA

4º São Paulo, 2013

Capa


Copyright © 2013 by Jorge Lourenço

Coordenação Editorial Diagramação Capa Composição de capa Preparação de Texto Revisão de Texto

Letícia Teófilo Schäffer Editorial Pedro Henrique Souza Monalisa Morato Alessandra Angelo Daniela Georgeto

Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo no 54, de 1995)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lourenço, Jorge Rio 2054 / Jorge Lourenço. -- Barueri, SP : Novo Século Editora, 2012. 1. Ficção brasileira I. Título. 12-14544

cdd-869.93 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção: Literatura brasileira 869.93

2013 IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À NOVO SÉCULO EDITORA LTDA. CEA – Centro Empresarial Araguaia II Alameda Araguaia, 2190 – 11o andar Bloco A – Conjunto 1111 CEP 06455-000 – Alphaville Industrial – SP Tel. (11) 3699-7107 – Fax (11) 2321-5099 www.novoseculo.com.br atendimento@novoseculo.com.br


Ao primeiro par de olhos que leu esta obra do inĂ­cio ao fim, o mesmo para o qual eu nĂŁo me canso de olhar.


Agradecimentos

Aos meus pais, que sempre lutaram por mim e pela minha educação. Às cobaias que me ajudaram, Orlando Camargo, Paulo Henrique, Nélio Vítor, Jefferson Almeida, Hellen Pabline, Vinícius Takaki, Ezequias Campos e Paulo Kran. À Editora Novo Século, que tem aberto as portas para vários jovens autores brasileiros.


Palavra do autor Logo que terminei de escrever Rio 2054, entreguei a amostra original para alguns amigos e resenhistas que conheci nas redes sociais. Numa conversa que tive com um dos primeiros leitores, escutei elogios à ambientação e de como a segregação dos Escombros era assustadora. Esse mesmo leitor disse que estava feliz por saber que ainda estávamos bem longe de uma realidade como aquela. Então, antes mesmo de você começar a leitura e passear pelas ruas do Rio de Janeiro em 2054, eu lhe pergunto: nós realmente estamos tão longe de um mundo distópico? Nas próximas páginas deste livro você encontrará empresas assumindo o papel do Estado e firmas de segurança fazendo incursões cruéis na parte pobre da cidade sem se importar com a vida de civis. Um território partido onde os ricos tentam se manter longe dos pobres a todo custo e contam com a ajuda de uma barreira social quase intransponível. Nos primeiros 24 anos da minha, vivi no Morro do Andaraí, Zona Norte do Rio de Janeiro. Vi policiais invadindo casas, agredindo moradores que não tinham qualquer ligação com o crime organizado e apontando fuzis para crianças. Vi gente apelar para o tráfico porque não acreditava que podia ir longe frequentando uma escola em ruínas, conciliando trabalho com estudo e sempre preocupada com o pão do dia seguinte. Hoje, um quinto da população carioca vive em favelas. Para eles, esta obra de ficção é perigosamente verdadeira.


Sumário

Prólogo................................................................................................ 13 Capítulo I. Escombros........................................................................ 20 Capítulo II. Eu sou a mudança........................................................... 34 Capítulo III. Marionetes..................................................................... 54 Capítulo IV. O Rei do Rio................................................................... 95 Capítulo V. Coração nu.....................................................................139 Capítulo VI. O primeiro adeus..........................................................161 Interlúdio. Prazer, Kazuo Mishima..................................................181 Capítulo VII. Aquele que tudo vê......................................................191 Capítulo VIII. Uma última prova de amor........................................218 Capítulo IX. Heróis inesperados.......................................................250 Capítulo X. A batalha das gangues....................................................274 Capítulo XI. Sonhos esculpidos em gelo...........................................309 Capítulo XII. A revolução................................................................... 33 Epílogo...............................................................................................372


A guarita vazia no cais do porto só atiçava a curiosidade de Félix, que coçava a barba ruça e trincava os dentes amarelados de tanta ansiedade. Segundo um dos seus informantes, alguém acabara de atacar o grupo de mercenários que dominava aquela região do Rio de Janeiro. A chuva torrencial dificultava a visibilidade, mas estava claro que havia algo de errado. Os galpões eram sempre guardados a sete chaves pelos soldados, mas não havia qualquer sinal de vida. – Isso é loucura, cara – argumentou Matias, um negro franzino de cabelo raspado. – Com essa chuva, eles devem estar lá dentro. A gente vai estar fodido se alguém ver. Não quero mexer com isso. Com a arma ainda no coldre, Félix atravessou a rua escura e caminhou lentamente até a guarita. Sua intenção era parecer o mais inofensivo possível e não despertar a ira dos mercenários, conhecidos pela fama de pavio curto. Bateu algumas vezes no vidro reflexivo da janela, mas não obteve resposta. Abriu a porta, deu de cara com um corpo no chão e fez um sinal para que Matias se aproximasse. – Cortaram a garganta dele, olha. – Félix apontou para o ferimento do soldado e, logo depois, conferiu a submetralhadora ao lado do corpo. – Pente cheio. Alguém entrou aqui escondido. – E se ainda estiverem lá dentro?

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Prólogo

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– Cara, me passaram a informação do ataque no fim da tarde, logo que o temporal começou. Já é quase meia-noite. O que quer que tenha acontecido aí, já acabou. Matias pegou a arma do soldado para si e os dois correram para a entrada de um dos galpões, protegidos da chuva por uma marquise. O temporal e as barulhentas telhas de alumínio os obrigavam a quase gritar um com o outro para que se fizessem ouvir. – Félix, não tem nada pra gente aqui. Se havia algo de bom, os caras que atacaram levaram tudo. Não quero morrer de bobeira. – Matias tremia com a submetralhadora na mão. Perdera o emprego de segurança numa multinacional há alguns meses e, desde então, passou a viver no submundo com Félix, um velho faz-tudo do crime organizado. Para sobreviver, os dois cometiam pequenos assaltos e faziam serviços para as facções do tráfico de drogas. – Matias, quanto tempo você acha que a gente vai durar brincando de bandido-mendigo por aqui? Mais cedo ou mais tarde vão acabar matando a gente. Se for para morrer, prefiro fazer isso atrás de coisa grande, e não cobrando dívida de viciado. Mesmo sem concordar, Matias seguiu Félix enquanto ele corria por entre o maquinário enferrujado por anos de desuso no cais do porto. Algumas quadras à frente, estava o Galpão 12, a base de operações dos mercenários. A cobiça dos dois tinha fundamento. Dois anos antes, aqueles soldados sem pátria tomaram conta do lugar e acabaram com todos os mendigos e maltrapilhos que moravam ali. Desde então, fizeram fama no Rio de Janeiro trabalhando para as multinacionais que mandavam na cidade. Eram temidos no entorno do porto, logo abaixo do começo da antiga Ponte Rio-Niterói, agora um gigantesco monstro de concreto partido ao meio. Precisaram apenas seguir o rastro de soldados mortos para achar o que procuravam. Não encontraram em nenhum dos corpos qualquer ferimento à bala e os sinais de conflito eram escassos. Apenas a arma de um ou outro havia efetuado algum disparo.


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– Isso é coisa das gangues, Matias. Eles não usam arma de fogo. – Félix já não fazia qualquer esforço para não ser visto, certo de que todos estavam mortos. – Uma gangue inteira invade os galpões e um grupo de soldados treinados nem percebe? Porra, tá maluco? Encharcados, diminuíram o passo quando perceberam as luzes ainda acesas do galpão e o corpo de um soldado partido ao meio bem na entrada. Ali, os sinais de conflito eram claros. As armas estavam longe dos seus donos, algumas destruídas. Os holofotes do portão apontavam para um lugar, agora vazio, onde os invasores deveriam estar. Apesar do silêncio, os restos da carnificina deixavam uma eletricidade pesada pairando no ar, como se o instante em que todas aquelas mortes aconteceram ainda estivesse vivo. De dentro do prédio, onde dezenas de contêineres de aço se enfileiravam lado a lado até o teto, não ouviam qualquer som. Pegaram de um dos corpos um par de centenários rifles M203 e entraram no galpão. Até onde Félix lembrava, os depósitos fediam a urina e álcool nos tempos em que os mendigos e sem-teto dominavam o cais. Agora, tudo estava impecavelmente limpo, exceto pelos cadáveres. – Matias, me ajuda a conferir se tem alguma coisa que ainda vale a pena roubar aqui. Se tiver, eu fico de guarda e você traz a van. O companheiro assentiu e os dois fizeram uma varredura cuidadosa pelo galpão. Nas fileiras de contêineres, predominava a cor vermelha da China Export e marcas que pouco queriam dizer para eles – Volvo, Halliburton, Hanjin. Eram apenas heranças de um tempo em que a cidade ainda era uma só com o mundo. Para surpresa dos dois, o material contido neles estava intacto. Chegaram a encontrar um cadáver num deles, mas todo o espólio dos mercenários estava lá: dezenas de armas, malas cheias de dinheiro, explosivos, drogas, roupas, veículos e aparelhos eletrônicos. Félix já não escondia mais a empolgação com a descoberta.

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– Isso tem cara das Luzes – observou Matias, despido de qualquer preocupação. – Eles devem ter batido de frente com alguma multinacional, aí mandaram apagar todo mundo. Para os caras das Luzes, isso aqui não é merda nenhuma. É lixo. Mataram os mercenários e deixaram tudo pra trás. – Tudo pra gente! Após a varredura, voltaram à entrada. Félix coçava a grossa barba ruça quando percebeu um rosto conhecido entre os corpos. Aproximou-se e logo reconheceu Índio, um moreno calejado que liderava o bando de mercenários. Vestia uma roupa camuflada e tinha ao seu lado um cinto com balas, todas intactas. A arma, um fuzil negro de alto calibre, estava longe, caída entre alguns caixotes. “Eu sabia que um dia a sorte ia sorrir pra mim, e não pra esses filhos da puta”, pensou Félix, deixando escapar um sorriso em seus dentes podres. Seu corpo magro e frágil lhe aparentava muito mais idade do que realmente tinha. O crack, as noites sem sono debaixo de viadutos, os tiros que colecionava pelo corpo, tudo ajudava a lhe dar uma aparência bem pior. Colocou a mão no bolso e estendeu para Matias a chave da van que tinham deixado do lado de fora. Chegou a considerar matá-lo para ficar com tudo, mas havia o suficiente ali para conseguir muito dinheiro e ainda manter um exército particular. Além do mais, seria complicado sair com todo aquele material sozinho. – A gente vai ter que fazer umas dez viagens – brincou Matias, sorrindo ao pegar as chaves do carro. Quando correu para fora do galpão, um estrondo calou os dois. Uma figura nebulosa caíra do teto do prédio, rachando o concreto do chão. Enrolada numa grossa manta cinza, a criatura se levantou normalmente, como se a queda de quase trinta metros não tivesse lhe afetado. Ergueu-se lentamente, revelando quase dois metros e meio de altura.


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– Que porra é essa? – berrou Matias, apontando contra a criatura um rifle que acabara de pegar. O medo impedia a dupla de atirar primeiro e perguntar depois. A túnica improvisada de trapos velhos, que mais parecia roubada de algum morador de rua, balançou com o vento que a tempestade trazia. Fora isso, a criatura não se movia ou emitia qualquer som. – Quem é... Antes de Matias terminar a pergunta, uma lâmina retrátil deslizou pelo braço direito do homem, que percorreu a distância entre os dois com um impulso sobre-humano e saltou sobre sua vítima. Ele segurou o cano do rifle de Matias com uma mão e, com a lâmina da outra, transpassou-lhe o corpo. Félix disparou a primeira rajada de tiros e, por mais nervoso que estivesse, sabia que tinha acertado todos. Escutou apenas o som metálico das balas ricocheteando na criatura, que se levantou e virou para ele. O único reflexo que Félix teve foi o de ativar o lança-granadas acoplado no rifle. O tiro acertou o homem em cheio, lançando-o a alguns metros de distância. A explosão também derrubou Félix, que observou incrédulo seu algoz se levantar. Não titubeou e correu por entre os contêineres, certo de ter avistado uma saída quando fez a varredura com Matias. Desesperado, teve vontade de chorar quando percebeu que a porta estava trancada. Decidiu procurar um esconderijo e avistou um contêiner fechado que tinha um rasgo na couraça metálica grande o suficiente para que ele se espremesse. Certificou-se de que o monstro não estava por perto, pulou dentro e estranhou o chão acolchoado com cheiro de mofo. A fresta de luz que entrava pelo rasgo revelava um pequeno quarto improvisado com alguns móveis toscos e algo coberto por um cobertor. Um silêncio mortal caíra sobre o galpão e Félix começou a controlar a própria respiração para evitar ser ouvido pelo assassino. Sem fazer barulho, puxou o grosso cobertor de lã e viu

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que se tratava de uma adolescente. A moça branca de cabelos escuros o fitava com um olhar desconfiado, mas não reagiu à sua aproximação. Com medo, o bandido aproximou o indicador do lábio para pedir silêncio. Quando percebeu que ela estava seminua, vestindo apenas trapos, sequer teve tempo de reagir. A criatura arrancou a porta do contêiner com um puxão violento e Félix caiu sentado ao lado da adolescente. Apavorado, deixou a arma escorregar e escondeu o rosto entre as mãos, preparando-se para o pior. Mas ele não veio. A criatura apenas o observou sem esboçar reação. Aproveitou o vacilo e tateou o chão em busca do rifle perdido, mas foi freado por uma dor excruciante. Olhou para baixo e viu que o braço da adolescente lhe atravessara o torso. Tentou gritar, mas a certeza da morte serviu apenas para emudecê-lo. Deixou a arma cair e já perdia as forças quando sentiu a menina jogar seu corpo contra o chão do contêiner. Ela se desvencilhou do moribundo e avançou na direção da criatura para atacá-la, mas as mãos metálicas do monstro foram mais rápidas do que as dela, segurando-a pelos pulsos. Foi arrancada do contêiner como um animal indefeso e, exausta, sentiu que os poderes recém-descobertos lhe falhavam. – Eu estava procurando por você, Lúcia – disse o assassino, com uma voz abafada. Desconfiada, a menina não baixou a guarda mesmo depois de ele tê-la colocado em segurança no chão. Acuada, estranhava que alguém se lembrasse de um nome que ela mesma já começava a esquecer. – Como você me conhece? – Tecnicamente falando, eu sei tudo o que é necessário saber. E não se preocupe. Eu não vim aqui para machucá-la. Lúcia percebeu um filete de sangue gotejando pela mão da criatura, que andava com certa dificuldade. Estava certa de que aquilo não era humano.


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– Quem te mandou? Ele ignorou a pergunta e foi até a entrada do galpão, onde a chuva escoava o sangue dos soldados mortos direto para o mar revolto. Lúcia voltou até o contêiner e pegou o cobertor de lã para proteger o corpo do frio antes de segui-lo. Ondas arrebentavam com violência no limite do cais sob a vigia dos antigos guindastes, gigantes sentinelas de metal enferrujadas por décadas de abandono. – Você matou todos eles sozinha. Não foi? – perguntou a criatura. Dessa vez, foi ela quem ficou em silêncio e apertou ainda mais o cobertor contra o corpo. Apesar de estarem protegidos por uma marquise, o vento ainda lhes presenteava com algumas gotas de chuva avulsas. – O que você fez é compreensível após todos esses anos de abusos. Uma lágrima solitária deslizou pelo rosto inexpressivo da garota e logo se misturou à chuva. Não havia tristeza ou arrependimento. Chorava de ódio, sentimento que guardara com tanto cuidado nos últimos anos apenas para deixá-lo explodir de uma vez só. Retalhara homens com as próprias mãos como se fossem lâminas, lançara seus corpos longe com o simples poder do pensamento. Ceifou a vida de cada um da mesma maneira que ceifaram sua honra por tantas e tantas vezes. – Quando você aprendeu a usar seus poderes, Lúcia? – A sensação que eu tenho é de que eu sempre soube. Mas só peguei o jeito há pouco tempo – confessou, sentindo-se estranhamente à vontade. Ela fechou os olhos, a memória ainda infestada pelas mortes dos soldados. Só queria morrer e levar alguns deles consigo. Não imaginava que conseguiria acabar com todos. – Como eu faço essas coisas? O que eu sou? – A verdadeira pergunta, Lúcia, não é o que você é, mas o que você pode ser para esse mundo. – E o que eu posso ser? – A retribuição.

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Rio de Janeiro, 2054. Três décadas após uma guerra civil que começou com a disputa pelos royalties do petróleo, a cidade se vê alvo de uma n...

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