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Dalcy Angelo Fontanive

Prisioneiro da liberdade talentos da literatura brasileira

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Copyright © 2014 by Dalcy Angelo Fontanive

Coordenação Editorial Letícia Teófilo Preparação Fabrícia Romaniv Diagramação Project Nine Capa Monalisa Morato Revisão Patrícia Murari

Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo nº 54, de 1995)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Fontanive, Dalcy Angelo Prisioneiro da liberdade / Dalcy Angelo Fontanive, - - Barueri, SP : Novo Século Editora, 2014. - - (Coleção talentos da literatura brasileira) 1. Ficção brasileira I. Título. II. Série. 14 - 03134

CDD-869.93 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira 869.93

2014 IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À NOVO SÉCULO EDITORA LTDA. CEA - Centro Empresarial Araguaia II Alameda Araguaia, 2190 – 11º andar Bloco A - Conjunto 1111 CEP 06455-000 - Alphaville Industrial - SP Tel. (11) 3699-7107 - Fax (11) 3699-7323 www.novoseculo.com.br atendimento@novoseculo.com.br

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“Viver livre ou morrer.” Frase final do discurso pronunciado pelo revolucionário francês Philippe Lebas, em 20 de janeiro de 1793, véspera da execução do Rei Luiz XVI na guilhotina.

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1ÂŞ Parte

Nos ares da fazenda

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A visita

Na ampla casa de uma tranquila fazenda, próxima da cidade, vive um menino chamado Tarcisio. Ele é pobre, mas é livre e feliz. Mora com seus pais, Vincenzo e Maria, e mais nove irmãos, todos eles mais velhos. Em um certo dia de sol e muito calor, o barulho de motor e pneus de um carro roçando nas pedras fez-se ouvir na estrada. Vincenzo, atento, foi à janela da sala e viu um automóvel branco. Era um conhecido seu que chegava. O carro diminuiu a marcha, dobrou à direita, entrou no pequeno pátio e parou defronte a casa. – Bom dia, senhor Vincenzo. – Bom dia, Dom Antonio. – Que calor, hein, senhor Vincenzo. Desse jeito, as uvas vão ficar queimadas pelo sol. – Mas, a essa altura, Dom Antonio, o prejuízo vai ser pequeno. A maior parte das uvas já está esmagada e bem guardada dentro das pipas. Falta pouco para terminar a safra – disse Vincenzo, dando um indisfarçável sorriso amarelo de alegria e de desforra. – Que bom, senhor Vincenzo. Deus ajudou a vocês. Rezei muito para que o trabalho fosse bem recompensado. – Com a ajuda Dele e com nosso esforço, parece que este ano vai ser bom. Mas, vamos entrar Dom Antonio – convidou Vincenzo. 7

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– Não, obrigado, senhor Vincenzo. Estou com certa pressa. Sei que o senhor produz vinho puro, sem misturas nem aditivos. Estou precisando desse vinho para celebrar a missa. O senhor poderia me fornecer umas garrafas? – Claro, Dom Antonio. Voltando-se para a porta, Vincenzo ordenou: – Filho, traga do porão dois garrafões de vinho tinto. Vai. Lauro, irmão mais velho de Tarcisio, estava semiescondido junto à porta de entrada. Deu um salto e sumiu correndo para os fundos da casa. Num instante, o rapazote, alto e magro como um varapau, estava de volta carregando, com dificuldade, dois garrafões, um em cada mão. Colocou-os aos pés do pai e voltou ao seu posto de observação, junto à porta, a cabeça atenta do lado de fora e o resto do corpo colado na parte de dentro. Num degrau inferior da escada, um cachorro estava deitado sobre o degrau, o focinho pousado entre as patas dianteiras, olhos fechados, mas de orelhas em pé, como duas antenas atentas a toda a situação. – Como é bravo este teu filho, senhor Vincenzo. Dom Antonio caminhou na direção da porta e se aproximou de Lauro. O pequeno cachorro abriu os olhos, mas não se arredou do seu posto. Quanto mais Dom Antonio se aproximava, mais Lauro se aferrava à porta, quase enfiando as unhas na madeira, segurando-se para não fugir casa adentro, como um pequeno animal acuado. Dom Antonio falou: – Como é seu nome, menino? – Lauro – respondeu seca e timidamente o menino. – Belo menino. Quantos anos você tem? 8

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– Dez. – Você estuda? – Vou à escola. – Gosta de estudar? – Mais ou menos. – Você não gostaria de ser um homem estudado? – Para quê? – indagou Lauro. – Ora, para saber de tudo – disse Dom Antonio. – Não. Estou bem assim – respondeu Lauro, encolhendo os ombros. – Sabe, Lauro, você parece um menino muito bom e inteligente. Não gostaria de ser padre? – Não. – Por que não? – Porque não. – Ser padre é muito bom – afirmou Dom Antonio. – No seminário você vai brincar muito, mas também vai estudar. Será um sujeito que conhece tudo e vai ajudar os outros. O que você acha? Pense nisso. Dom Antonio nem acabara de falar e Lauro já se descolara da porta. De repente, ouviu-se um forte ruído de pés correndo em direção aos quartos. Em seguida, silêncio. – Bem. Preciso ir. Quanto lhe devo pelo vinho? – Nada. Fica como minha contribuição para a paróquia. – Obrigado, senhor Vincenzo. Nas missas, vou lembrar-me do senhor e da sua família. Deus o abençoe. – Tchau, Dom Antonio – respondeu Vincenzo e abaixou-se, beijando a mão do padre. Dom Antonio entrou no pequeno carro branco e recolheu com a mão direita para junto do assento a parte inferior da 9

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longa batina. Aprumou-se todo para dirigir. Depois, ligou o motor, deu marcha à ré, embicou o carro na direção da estrada e sumiu envolto na poeira. Sua presença, no entanto, continuou forte na casa de Vincenzo. Quando o chefe da família entrou em casa, foi em direção aos quartos, no fundo. – Lauro, onde você está? – gritou Vincenzo, já no quarto de Lauro. Silêncio. Dois pés descalços e sujos sobravam debaixo da cama. – Lauro, sai debaixo desta cama – ordenou o pai. Lauro se arrastou para fora do esconderijo e com as mãos unidas junto ao abdômen, cabeça baixa, olhos fixos no chão, mais parecendo um réu, apenas conseguiu falar: – Eu não quero ser padre. – Está bem, filho. Mas não precisava fazer o que fez. Pareceu um selvagem, que nunca viu gente – repreendeu o pai. À noite, a família se reuniu para jantar. O pai na cabeceira da mesa, a mãe, Maria, ao lado, que não parava em seu lugar de tanto levar e trazer coisas, e os dez filhos. Uma longa mesa de madeira, com bancos do mesmo material de cada lado, estava posta: uma enorme polenta, uma grande forma redonda de queijo, um bojudo pão e uma travessa cheia de ovos mexidos. Tudo produzido na fazenda. Vincenzo comia calado. Maria não falava. Lauro estava mudo. O silêncio era total. Todos percebiam que não convinha falar. O silêncio e a expressão de preocupação do pai recomendavam silêncio. Ele não pedia, mas todos entendiam. 10

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Ouvia-se apenas o tilintar dos garfos e facas batendo entre si ou nos pratos. Os olhos de todos estavam voltados para baixo, centrados no fundo do prato de cada um deles. Terminado o jantar, o pai se levantou. Incontinenti, como uma revoada de pombos, todos saíram correndo para seus quartos ou para os degraus de pedra da porta de saída. Vincenzo foi deitar-se. Dormiu e sonhou que estava com sua carroça, carregada de uvas, atolada num lamaçal. Toda a sua família, inclusive Maria e as crianças pequenas, tentavam tirá-la do atoleiro. Não conseguiam. Vincenzo levantou os olhos e, ao lado, avistou Lauro, sentado tranquilo numa pedra. “Lauro, o que está fazendo aí sentado? Vem aqui ajudar”, gritou o pai. “Estou rezando, pai. Eu ajudo rezando”, retrucou Lauro. Vincenzo acordou todo suado e tenso. Foi um pesadelo e tanto! Ficou pensando no quanto investira no filho, para que este o ajudasse no trabalho da fazenda. E agora Dom Antonio queria levá-lo. Sim, é bom ter um filho padre, mas e o trabalho daqui, como fica? Lauro também se deitou e sonhou. Via-se caminhando contrariado para dentro do inferno, vestido com roupas de padre quando este reza a missa. Acordou sobressaltado e não conseguiu mais dormir. Pela manhã, o pai, por coincidência, abriu a porta do seu quarto no mesmo instante de Lauro. De repente, viram-se frente a frente, postados em silêncio cada um na porta do seu quarto. Quando o pai deu um passo para o corredor, Lauro também caminhou na mesma direção. Com o olhar fixo no pai, Lauro falou: – Esta noite sonhei que estava indo para o inferno vestido com a roupa que o padre usa quando reza a missa. Foi horrível e não consegui mais dormir. 11

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– E eu – disse Vincenzo – sonhei que todos nós empurrávamos a carroça para fora de um atoleiro. Menos você, que estava sentado em cima de uma pedra, dizendo que só me podia ajudar com rezas... – Que droga de sonhos, filho. Desde quando rezar empurra carroça? – questionou Vincenzo. – E desde quando padre vai para inferno? – disse Lauro Ambos, em sintonia, deram uma leve risada. Nenhum deles sabia interpretar sonhos, é claro. Mas ambos intuíram perfeitamente que alguma mensagem os mesmos continham. Pela primeira vez, o pai passou o braço ao redor do pescoço do filho, apertou-o junto ao seu lado esquerdo e disse: – Filho, alguma coisa não está bem. Temos que tomar cuidado para não fazer besteira nesta vida. Vincenzo girou o corpo do filho em direção à cozinha e disse: – Agora chega de sonhar. Vamos tomar café, que eu estou com fome. Então, abraçados, com passadas cadenciadas e uniformes, como dois soldados marchando sobre as tábuas do corredor, ambos dirigiram-se para mesa do café já posta pela mãe, que olhou, com discreta surpresa, a intimidade entre pai e filho nunca vista dantes.

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Prisioneiro da Liberdade  

Há quem se atreva a dizer que a imposição dos pais permaneceu em tempos remotos. No entanto, a trajetória de Tarcisio em Prisioneiro da Libe...

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