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CAPÍTULO 1

Valentino Duarte

“Oh! Que saudades que tenho Da aurora da minha vida Da minha infância querida Que os anos não trazem mais.” (Casimiro de Abreu – Meus oito anos)

Como vou começar? Ah, sim... Chamo-me Davi Guerrato e tenho hoje vinte e oito anos. Muita coisa que mencionarei, as quais eu não presenciei, por exemplo, foram esclarecidas para mim em momentos propícios. Então, deixo claro que nada se tratará de uma invenção minha. Mal acredito que estou de volta após tanto tempo. Os mais tristes episódios nem parecem que foram reais, que estive mesmo presente... Lembrar-me de cada detalhe e estar aqui novamente me dá a sensação de estar sendo transportado a um estado pleno de euforia. É estranho. É como entrar no cenário de um livro que me marcou. Quase nada mudou. A nossa árvore está igualzinha, até os arbustos logo adiante. Parece que o tempo passou só para mim. Sinceramente, pensei que alguém já tivesse andado por essas bandas, transformando tudo em 17

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pasto para o gado, como vi em alguns trechos por onde passei no caminho. Parece que se isso tiver que acontecer, será permitido apenas depois de hoje... Claro que não participei sozinho de minhas aventuras. Isso não. Não teria graça. Mas confesso que, às vezes, me sinto até como um coadjuvante dessa história. E logo você entenderá por quê. Muitas coisas foram bastante difíceis, a ponto de ser desesperador, e sinto grande alívio por já ter passado. Contudo, tal incidente, em especial, foi capaz de trazer à tona também outras sensações como perseverança, humildade, senso de justiça, amor ao próximo. E isso, da parte dos outros, foi capaz de transformar um fato que me perturbava muito. Não só a mim, mas o principal personagem da questão que logo mencionarei. Meus melhores amigos se chamavam Nelson Beltrame e Jordan Merkel. Crescemos juntos e tínhamos a mesma idade. Valentino Duarte, como se sabe, fica no meio do nada no norte de Goiás. Mas antes, nossos pais e os mais velhos viviam em outro lugar, só que, por causa de uma discórdia entre dois grupos, nossa Vila foi forçada a nascer. Esse tal lugar era a Vila Vale Pardal, que era para se chamar Nova Esperança, porém com o fato de tais aves existirem em abundância no local, o nome mudou quase que por unanimidade. Foi formada pela junção e procriação de famílias de oito sobrenomes: Maia, Kamel, Guerrato, Merkel, Mazzochi, Duarte, Sanfins e Beltrame. No início, primos se casaram com primos intencionalmente, pensando, assim, em manterem o sangue de cada família intacto. Antes da desavença, o vilarejo possuía mais de duzentos habitantes. A chegada deles ali se deu muitos anos antes, quando um grupo de vizinhos, cansados do estilo de vida cada vez mais agitado e, principalmente, pelo desejo de igualdade e de leis 18

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que realmente fossem aplicadas a qualquer pessoa, independentemente do grau de poder, decidiram se juntar para voltar a um antigo conceito de trabalhar para sobreviver. Não teriam salário, ou patrões ou metas. Comeriam o que plantariam, não precisariam viver em função do possuir. Essa era uma realidade que parecia ser a ideal. Então se juntaram, venderam as casas, móveis, veículos, joias, ou seja, tudo o que possuíam e não tivessem mais necessidade de usar. Seguiram numa viagem quase sem rumo desde o centro mais movimentado de São Paulo até onde julgaram ser o lugar perfeito. Após a confusão liderada por Seu Euclides Sanfins, que, se ainda estiver vivo, creio que até hoje seja o líder de Valentino Duarte, oitenta e duas pessoas ficaram do lado dele. E a maioria permaneceu com Seu Ismael Maia, nove anos antes escolhido, por consenso mútuo, a substituir o falecido pai como a maior autoridade de Vale Pardal. A separação se deu por causa da decisão dele de que quem menos ajudasse nas plantações, colheitas e criações, não receberia a mesma quantidade de suprimentos dos que tinham um desempenho melhor, uma vez que a produção era dividida entre cada família. E em vista disso, os mais velhos e deficientes, que não tinham condições de trabalhar com igualdade, estariam automaticamente incluídos na nova lei. Muitos acharam justo, mas seu Euclides discordou. Subiu na mesa no galpão de reuniões, isso ouvi meu pai contar várias vezes, e falou o quanto achava aquilo absurdo, desencadeando uma longa discussão. A confusão foi a chave para trazer à tona outras discórdias. Então, Seu Ismael e Seu Euclides tornaram-se inimigos declarados. Apenas da família Maia não houve quem seguisse Seu Euclides. 19

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No dia seguinte, juntaram o que puderam e reclamaram por sementes, duas carroças, três cavalos, duas éguas, um boi, uma vaca de leite e alguns dos animais que usavam como alimento para levarem. Tiveram autorização, mas foram muito bem fiscalizados, e não tardaram a seguir viagem. E depois de um dia de caminhada a oeste, chegaram ao local onde hoje é a pequena Vila. Muitas vezes, ouvíamos os nomes de cada um que estivera presente nesse dia, e lembro-me muito bem do número dessas pessoas, de acordo com cada família, contando crianças, jovens, adultos, idosos e inclusive bebês quase recém-nascidos, que eram: dos Guerrato, incluindo meus pais, que tinham acabado de se casar, nove pessoas; dos Beltrame, doze; dos Mazzochi, treze; dos Duarte, doze. É a família de onde saiu D. Débora, mãe de Nícolas (deste, em breve, saberá de quem se trata). Não passou dois meses e ela se uniu ao noivo, Seu Heitor Mazzochi; dos Sanfins, vinte e uma; dos Kamel, dez. D. Clarissa, mãe de Nelson, também fazia parte deles, um ano depois se casou com Seu Danton Beltrame. E dos Merkel, que estavam em menor número, vieram somente seis, incluindo Seu Estevão e D. Délia, recém-casados. Ao todo, oitenta e três pessoas. Entre elas estava um senhor de noventa e oito anos que era o mais animado do grupo e cantava e ria praticamente durante toda a viagem, ansioso pela chegada em seu novo lar. Mas dois dias depois que armaram acampamento, acabou falecendo de causas naturais. Simplesmente não acordou pela manhã. Este valente homem chamava-se Valentino Figueiredo Duarte. E em homenagem a ele, batizaram a Vila com seu nome. Passado os primeiros quinze anos, a população cresceu. Nesse período, em 1946, minha idade era doze e lá havia cento 20

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e quinze habitantes. A escola existia havia muito tempo, onde a professora Alice Duarte não abria mão do ensino do português corretíssimo, independentemente de estarmos longe do resto de todo o mundo. E ai de quem não se esforçasse a dar a devida importância. As plantações se desenvolveram muito bem. Os animais, as éguas, as cabras, as galinhas e as porcas tiveram cria e a distribuição dos mantimentos era justa entre todos. Comíamos o que plantávamos e criávamos. O que nós mesmos não tirávamos da natureza, adquiríamos duas vezes ao ano, quando um grupo, sempre selecionado em cada semestre, saía em viagem a uma cidade bem mais desenvolvida. Ela foi descoberta por pura necessidade. Alguns homens saíram para explorar a região em busca de um lugar onde pudéssemos vender mercadorias, o que era costume em Vale Pardal. Dois dias depois já estavam prestes a desistir e tentarem concorrência com os conterrâneos, aí a avistaram de longe. O que foi maravilhoso, pois o outro local era bem mais distante e teriam, obrigatoriamente, que passar pelas imediações de Vale Pardal, e nesse trajeto estava incluso o Morro do Bruxo, onde não queriam botar os pés nunca mais. Não tinham escolha, pois a região era cercada por uma encosta e existia uma única ponte que ficava justamente nesse tal morro que acreditavam fielmente ser amaldiçoado. Trataram então, com o tempo, de abrirem uma estrada que, pelo que vi, existe até hoje. Nessas saídas, lideradas sempre por Seu Euclides, o pessoal levava verduras, frutas, legumes, ovos, alguns animais pequenos e os artesanatos: chapéus, bolsas e esteiras de palha, potes, esculturas, bordados; enfim, tudo que as mulheres conseguiam fazer. Com o dinheiro compravam fósforos, querosene, cadernos e lápis para a escola, bem como 21

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tecidos, botões e linhas para as prendadas mães fazerem nossas roupas. E tudo mais que necessitávamos. Era também onde os pais registravam os filhos, mantendo o costume que tinham em Vale Pardal, mesmo que isso significasse aguardar meses para se conseguir uma Certidão de Nascimento. As residências não eram construídas aleatoriamente. Ainda devem ser feitas com madeira apenas, algumas também com barro. Mas a maioria, na minha época, era só com madeira mesmo. Tudo era bem calculado. Muitas vezes, cheguei a acompanhar a execução do projeto de uma casa. Mais interessante ainda era botar a ideia em prática, ver o mutirão levantando as paredes num terreno vazio. Provavelmente, as construções continuam cercando como um quadrado o cruzeiro que fica exatamente bem no centro da Vila. Era uma formação, feita com dois troncos pregados e amarrados, firme sobre uma base redonda de pedras e barro de cerca de um metro de altura, para um e meio de largura. Ali, os que acreditavam ser necessário, acendiam velas para os mortos em determinada época. Eu não via, e ainda não vejo, razão para isso, apesar de minha mãe já ter feito algumas vezes. Acreditávamos em Deus. Mas sabíamos apenas o que a professora nos ensinava, ou seja, que Ele criou tudo o que existe, que não gostava que fizéssemos coisas ruins e que não adiantava fazer nada escondido, porque Ele conseguia ver todos os homens em qualquer lugar do mundo. Dedicávamos muito respeito a Ele, e isso ajudava a nos policiar quanto aos nossos atos. Tínhamos, inclusive, algumas leis que, no início, não eram usadas, devido ao fato de ninguém ousar promover a discórdia e o mal no meio de um lugar que julgavam ser um paraíso, até certo período. E, mais tarde, pude notar que conservar essa paz, na verdade, era uma exagerada obsessão. 22

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Pois bem. O centro de Valentino Duarte era bem espaçoso. Creio que tinha uns vinte e cinco metros em cada direção. Havia duas filas incompletas de casas em três dos quatro lados, porque, ao norte, só existia o galpão de reuniões e o de suprimentos, onde guardávamos tudo que consumíamos. Algumas árvores foram mantidas, o que não tiraria o formato reto que buscavam manter na aparência da Vila. Não sei se permanece, mas a escola era do lado oeste, bem em frente à casa que a professora Alice passou a morar quando se casou com Rodolfo Sanfins. A propósito, a própria ajudou a colocá-la em pé, visando à realização de um sonho e pelo amor que sentia em ensinar. Era jovem. Quando eu tinha doze anos, ela deveria ter vinte e cinco. Do mesmo lado, mais afastado das residências, havia os currais, chiqueiros, galinheiros, estrebarias, o celeiro e uma cabana onde eram guardadas as carroças. O cemitério ficava no alto de um monte a alguns metros a leste. Em 1946, existiam poucas sepulturas, cinco ao todo. A de Seu Valentino obviamente foi a primeira. Eu gostava das festas de Natal, Ano Novo, casamentos e das colheitas. Nas mais especiais, os homens saíam para caçar, e isso era o que mais me empolgava, em especial quando retornavam com algum bicho enorme. Meus amigos e eu íamos assistir a limpeza. A diferença entre os animais da Vila e esses era que os nossos eram abatidos lá mesmo, os selvagens sempre vinham mortos. Mas o procedimento para deixar a carne em condições de consumo era igual. Os veados, como os caprinos, eram amarrados por um dos pés num galho de qualquer árvore apropriada. E os porcos do mato, assim como os domésticos, eram escaldados para a raspagem do pelo numa pedra de formato bem achatado e quadrado que ficava bem lá pelas bandas do lado sul. 23

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Quando o animal já estava sem o couro, abriam a barriga e puxavam as vísceras. Tudo caía numa bacia posta no chão. Entregavam-na para as mulheres, que lavavam as tripas para fazerem linguiça e também pegavam os órgãos para darem o trato necessário. Eu só esperava que fervessem o fígado. Meus amigos e eu sempre ganhávamos um pedaço, o qual nós comíamos apenas com uma pitada de sal. Depois saíamos, pois o que nos interessava mesmo era ver Seu Euclides com uma faca afiadíssima separando cada tipo de carne do corpo do animal. Era incrível! Os couros, Seu Bernardo Kamel usava para fazer os sapatos de cano alto para todo mundo por encomenda. Passar o dia todo com eles era um caso de necessidade para evitar acidentes com escorpiões, aranhas ou cobras. Ali, longe de tudo, esse tipo enfermidade era quase sempre uma certeza de óbito. Assavam as carnes em estacas fincadas no chão, ao lado de covas cheias de brasas. Ficavam ali lentamente chegando ao ponto horas e horas. Ainda consigo sentir o gosto na minha boca. Apesar de não ter caça no cardápio, a não ser em uma, sinto mais falta das festas da colheita. Talvez seja porque era sempre um sinal de fartura. Matavam um boi, um bode e várias galinhas. Além de usarem as frutas, legumes e verduras que colhíamos no preparo dos outros pratos. Se eu fechar os olhos, posso ver a mesa farta, os tocadores, a grande fogueira... Todo mundo sorrindo e conversando. Nelson sempre se servindo de pedaços de torta e os levando para mim e Jordan. O primeiro evento desses que me vem à memória foi aquele no qual meus sentidos se deram conta do quanto Yola Mazzochi era esplendorosa... A saia girando, os cabelos que grudavam em seu rosto suado e que ela tirava com os lindos dedinhos... Ela tinha dez anos e eu, onze. O problema aconteceu porque não fui o único a me encantar. Mas de Yola falo depois. 24

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Eu me achava o mais feio dos três. Branquela com esses cabelos crespos muito pretos, um tipo que eu não duvidava que só atraísse elogios da própria mãe. Nelson era bem mais charmoso. Um tanto mais moreno, robusto, olhos cor de mel, e os cabelos eram mais claros e ondulados. As meninas sorriam quando o viam. Muitas delas, inclusive as mais velhas e até senhoras casadas, diziam que ele tinha um nariz perfeito. Eu queria ter os olhos como os de Jordan, e não essas duas bolas nem marrons nem pretas. Os dele tinham um tom de azul, tão azul, que, às vezes, pareciam estar acesos. Os cabelos também eram pretos, só que mais lisos que os de Nelson. Era muito bem afeiçoado, aliás, a fama da boa aparência da família Merkel vinha desde Vale Pardal. Mas é uma pena que beleza não serve como certificado de boa índole. Pelo menos para ele não serviu... Nós três tínhamos muito em comum. Além da idade, pois Nelson nasceu em abril, Jordan em junho e eu em agosto, éramos filhos únicos, morávamos na mesma fila de casas do lado leste. Gostávamos de praticamente as mesmas coisas, e até uma determinada época, inclusive da mesma menina. Enfim... Eu não sentia que pudesse me dar tão bem com mais ninguém além deles. E tinha a sensação de que extrairia a minha felicidade unicamente dali, vivendo daquele modo, sem que nada de mau pudesse nos acontecer naquele lugar tão maravilhoso e que ninguém tiraria aquela satisfação do meu coração. O fato é que muitas coisas podem mudar sem que antes, em momento algum, possamos sequer imaginar. Como meus pais me ensinaram, nunca se sabe o que vai acontecer no minuto seguinte. Caso contrário, em algumas situações, eu agiria de maneira diferente e do que não tirei proveito, certamente teria usufruído mais. Mas o que posso fazer? Essa é a vida, isso é estar vivo... 25

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O TRIO  

O desejo do homem pela paz é algo naturalmente espontâneo; e o perdão talvez seja o ponto mais rápido para se alcançar isso. Mas até que pon...

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