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ANTES DO RIO

Mas nada de semelhante consegue discernir-se no termo do principado de Diocleciano, o qual, pelo contrário, vem a findar num ambiente de prosperidade. O imperador só se decidiu a reto­mar as perseguições após longas hesitações que duraram vários anos (de 299 a 303). A razão que o terá levado a decidir-se por uma política de repressão permanece envolta em mistério. Ferdinand Lot, O fim do mundo antigo e o princípio da Idade Média. Lisboa: 70ª Edição, 1985 (original, 1926). Eu sou o Amor que não ousa dizer seu nome. Lord Alfred Douglas (Bosie), Dois amores

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les vieram de Narbona; uma província das Gálias, cujo território encruzilhava a Via Domítia com a Via Aquitânia, e onde nascera Sebastiano, no ano de 273 d.C. Alanis se alegrou ao rever a terra natal após tantos anos. Chegava na companhia dos filhos Marilene, Prisca, Maria Chiara e do pequeno Sebastiano. Milão os recebeu com chuva. Alanis ainda era muito jovem quando deixou Milão, abandonando seus ancestrais. Fugiu com a parte rebelde de sua tribo para longe daquela província, que fora conquistada pelos romanos não havia cinquenta anos. Partiu porque estava apaixonada por um guerreiro celta, com quem teve seus quatro filhos, mas ironicamente retornava como viúva de um renomado tribuno. Prova de que o amor não escolhe matéria: logo ela, que tinha


repulsa pelos romanos, acabou apaixonada por um. Isso aconteceu em 285, durante a primeira insurreição dos Bagaudas. O tribuno que a desposou assumiu a paternidade de suas crianças, dando-lhes identidades romanas. Porém tombou em batalha meses depois. O tribuno era amigo pessoal do general Maximiano, recém-nomeado César e depois Augusto. Este cumpriu a promessa que fez ao tribuno, de cuidar de Alanis e seus filhos. Com a separação de Roma em dois Impérios: do Ocidente e do Oriente, coube a Maximiano, como coimperador, governar a nova capital ocidental, a própria Milão, enquanto Diocleciano, o Imperador soberano, governava o Oriente na Nicomédia. A tecelã de origem céltica agora poderia se reaproximar das origens e buscar conforto no cálido seio da família, sem se preocupar com nada. Saiu fugida e agora retornava como protegida do César. O pequeno Sebastiano cresceu e se tornou um rapaz belo e forte. Aos 17 anos, raspou o cabelo e se alistou na infantaria, provando-se um valoroso hastado, integrando-se às linhas de frente. Seus feitos extraordinários e seu brio de combatente o cobririam de glória, tornando-o um notório legionário. Sebastiano foi convocado por Maximiano para manter a fronteira do Reno. O líder dos rebeldes foi vencido, e foi Sebastiano quem o apanhou. Na Hispânia, sob o comando de Maximiano, Sebastiano enfrentou piratas e, depois, na Mauritânia, refreou as investidas berberes. Durante essas campanhas, Sebastiano foi galgando cargos e em poucos anos chegou ao invejado posto de centurião. O jovem retornou para Milão em 298, junto do seu general, partindo em seguida para Roma, onde Diocleciano os esperava para um cortejo cerimonial em honra aos triunfos de Maximiano. Tamanho era o orgulho que Maximiano sentia do afilhado, que já o via como futuro tribuno, dono dos próprios méritos, brilhando sobre o cavalo no comando dos bravos legionários. Embora fosse um exímio e triunfante homem da guerra, 12


Maximiano era bronco. Sebastiano, porém, teve educação helênica: era tão instruído no verbo quanto nas armas. E isso era mais um motivo que fazia Maximiano desejar em segredo que Sebastiano fosse seu filho, pois a erudição que ele não possuía era uma das belas características que o general muitíssimo admirava no amigo e soberano: o Augusto Imperador Diocleciano. Diocleciano e Maximiano possuíam um forte vínculo de amizade, ambos eram talhados como reencarnações divinas, cabendo a Diocleciano o papel de Júpiter e a Maximiano o de Hércules, e era sabido que Hércules jamais traiu Júpiter. A origem de Diocleciano era incomum: um camponês vindo da Dalmácia que encerrou a crise que o Império passou nas últimas décadas. Ele era aclamado como o restaurador da glória de Roma. Extremamente culto, amante das artes, da beleza e da poesia, Diocleciano era mais helênico do que romano, motivo pelo qual preferiu se estabelecer na Nicomédia, que, a seu mando, foi totalmente reformada para se transformar na nova e ostentosa capital, empatando com a Antioquia como a cidade mais bela do Oriente depois de Alexandria, plena de obras de arte e maravilhas arquitetônicas. Lá, Diocleciano era chamado pelo epíteto honorífico de Sebastos, “venerável”, uma forma que os gregos criaram para helenizar o título imperial romano de Augustos. Os anos de seu governo foram os mais prósperos que o Império apreciou desde Sétimo Severo. As reformas de Diocleciano não se resumiram à Nicomédia: ele criou uma tetrarquia, dividindo o império em quatro, deixando a terça e quarta partes para serem governadas por Constâncio e Galério; aos poucos, dissolveu o poder da guarda pretoriana, corrupta e traiçoeira, substituindo os itálicos pelos compatriotas fiéis das legiões da Ilíria, e rebatizando-os como jovianos, advindo

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de Júpiter, assim como Maximiano o imitou, rebatizando sua guarda pessoal de herculianos. Diocleciano também foi responsável por restaurar uma moeda forte, colocando em circulação o verdadeiro denário de prata; multiplicou o número de províncias; e reduziu a cidade de Roma a um santuário onde se realizavam as grandes celebrações. Como essa que acabavam de preparar para o triunfo de Maximiano. Durante o festejo, Sebastiano finalmente foi apresentado a Diocleciano, que já tinha ouvido falar de sua fibra, porém ficou impressionadíssimo com sua beleza. O Imperador soberano se quedou, por segundos inteiros, paralisado e boquiaberto. Não enxergou nele um mero centurião; via o próprio Aquiles, em carne e glória, ressurreto diante de si. — Marcus Aurelius Valerius Maximianus Herculius Augustus, este é o nosso valoroso campeão de quem tanto ouço falar? — O próprio, meu Augusto César. — Mas ele é tão jovem e belo... — Sebastiano me orgulha. É fiel, destemido, e também é instruído na erudição. Como meu soberano amigo. — Sebastiano, não? Ora, sou aqui o único Dominus Sebastos — asseverou Diocleciano, alisando sua toga púrpura. — Ave, Sebastos. — Conte-me, jovem herói — retomou o Imperador —, de onde vem esse nome glorioso que tão bem lhe veste? — Augusto Imperador, este nome veio de meu pai romano, tribuno que se chamava Sebastiano, pois nasceu na Sebasteia. — Uma bela cidade, a propósito, como tudo que há no Oriente, sem querer me desfazer do Ocidente. — Certamente que não, meu Sebastos — disse Sebastiano agora em grego.

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Jovem, belo, heroico e, além de tudo, culto; Sebastiano era de longe um ideal grego. Sebastos e Sebastiano se afastavam agora, encantados um com o outro, para um lugar mais reservado, onde a conversa se estendeu assim, apaixonada e apaixonante como o som da lira. No final daquele dia, estava tudo decidido, o Imperador acabou promovendo Sebastiano à honra de compor sua guarda pessoal e o levou consigo para o Oriente. A Nicomédia de Diocleciano se desvendou pungente diante dos olhos maravilhados de Sebastiano, que já tinha visto muitos lugares, mas nenhum com esse cheiro de coisa nova. A escola da Nicomédia, promovendo as artes e as letras na restauração do mundo romano, chamou especialmente a atenção do jovem; e cada templo, pórtico, e um sem-número de edificações civis e militares, e também fontes ou termas das mais famosas, cada monumento novo, tinha ares faustosos e divinos. A nova capital respirava prosperidade e não ficava em nada atrás de Roma. O deslumbramento de Sebastiano encantava seu anfitrião. O Augusto passou a pagar um gordo soldo ao novo joviano, e a enchê-lo de mimos e privilégios, mas nada ficou assim muito escandaloso. A sombra orgástica de Heliogábalo ainda repercutia. Em público, porém, Sebastiano acompanhava o Imperador, paramentado com a ilustre armadura joviana, e mantendo toda a deferência que o protocolo exigia. Agora, nos aposentos particulares de Diocleciano, o próprio soberano solicitava que se vestisse de maneira mais despojada. Para ambos, cada dia parecia melhor que a véspera. Horas corriam em conversas profundas a respeito de tudo. Leituras de poemas, obras clássicas e ricos textos dos antigos pensadores aconteciam a contento. Desfrutavam do melhor vinho da Macedônia enquanto liam um para o outro. Depois, como professor e aluno, discorriam incansavelmente sobre o tema da leitura. Sebastiano se deslumbrava com a rica filosofia do mais 15


velho, longe de sofismas, enquanto Diocleciano se impressionava com as reflexões do pupilo e com seu domínio da retórica. A fascinação e o amor que nutriam um pelo outro eram recíprocos e evoluíam a cada nascer de sol. O jovem militar podia ser quase sempre encontrado no quarto de Diocleciano. Dividiam os mesmos pensamentos e, depois de poucas semanas, passaram a dividir os mesmos lençóis. Amaram-se como nunca amaram outra coisa na vida e, assim como o império romano, desfrutavam do apogeu. Mas nem tudo era um mar de rosas, ainda havia um Império a ser regido, e que necessitava das sábias e estratégicas resoluções do soberano para continuar brilhante. Os vínculos territoriais nunca estiveram tão estreitos, as rebeliões da Europa e África foram refreadas, e a Pérsia recuou. Não parecia haver nenhuma ameaça externa grave. No entanto, um assunto interno volta e meia tirava o sono do Imperador. Uma seita impopular; uma seita relativamente nova e em moderada expansão que causava desconforto à maioria da população: os cristãos. A tolerância romana com as religiões estrangeiras era um fato bastante conhecido, porém, de tempos em tempos, as perseguições aos cristãos eram retomadas por algum Imperador injuriado, que comandava massacres para controlar o constante crescimento da seita nos momentos mais críticos do Império, a fim de conter a opinião pública. Os povos politeístas não suportavam conviver com os cristãos. Para a maioria comum, os cristãos não passavam de abominação, e todos os desastres, invasões bárbaras e catástrofes naturais eram culpa dos cristãos; eram castigos que os deuses infligiam aos homens pela ofensa de adorarem um homem que sofrera uma morte violenta. Os cristãos eram inimigos dos deuses, cujas iras desencadeavam os males; eram vistos como traidores de Roma e maus cidadãos. 16


— Se o senhor me ordenar, despacho eu mesmo essa seita e todos os seus seguidores para os confins de Plutão. — Refreie-se, meu Aquiles. Sei que é capaz, pois é guerreiro invicto. Mas não podemos. Defendemos uma república que presa o pensamento e a liberdade ao culto. — Sim, mas querem que respeitemos o culto deles, sendo que eles mesmos não respeitam a divindade alheia. Além do mais, são intrometidos e desrespeitam a ordem pública. — E eu não sei? Muitos parecem usar essa superstição para não pagar impostos. Eles me dão muita dor de cabeça. Como manter a grandeza de Roma com esses sonegadores? Os cidadãos romanos esperam uma atitude urgente. Entretanto, os cristãos são como pragas: quanto mais se mata, mais aparecem. O massacre não é a atitude mais sábia. — O senhor já consultou o oráculo? — Tenho pensado nisso, mas temo a resposta. Não pretendo repetir os erros de Décio e Valério. Bem sei dos efeitos que os mártires proporcionam a eles. Essa raça se alimenta disso. O culto dessa gente se baseia no autossacrifício. É heroico para eles morrerem por seu deus único. Diocleciano não dará mártires para os cristãos se fortalecerem. Meu desejo é manter a trégua. Quero completar meus vinte anos em paz e depois me aposentar. — Aposentar? Mas como Roma seguirá sem o senhor? Para mim, meu Sebastos é o maior Imperador que Roma jamais teve. — Fico grato que pense assim. Esforcei-me muito para isso. Mas já estou velho e dei minha contribuição mais que valorosa a Roma. Depois da Vicennália, passarei essa dignidade a outro. Se um bom soldado se aposenta depois de vinte anos de serviços prestados, por que o Imperador não pode ter esse direito? Por amor a Diocleciano, e por Roma, daquele dia em diante, Sebastiano passou a usar o seu tempo livre para espionar os cris17


tãos. Era a velha tática de guerra: conhecer o inimigo, identificar suas fraquezas, e então destruí-lo. Sebastiano passou a seguir Nicostrato: um suposto cristão que trabalhava no palácio imperial. Ao confirmar suas suspeitas, o joviano montou tocaia perto da casa de Nicostrato, onde descobriu que ali ele recebia um sacerdote e cristãos para celebrar a missa nos dias do sol. Eles entravam, saíam, e nenhuma novidade. Pensava já Sebastiano em se fazer de convertido para chegar mais perto, ao passo que naquele momento viu algo que o tirou de si. Um busto de Diocleciano, que o reverenciava como divindade, com as inscrições: Diocleciano Júpiter Capitolino foi ultrajado por um cristão. Este disse que ali não podia haver um deus porque Deus não urina. E sem perceberem, o homem já estava no chão, atingido pelo joviano furioso. Os cristãos que acompanhavam o agredido insurgiram em seu socorro, mas rapidamente Sebastiano os levou ao chão. Sebastiano, ainda insatisfeito, resolveu castigar ainda mais o cristão profanador de seu amado Augusto. Enquanto surrava, alguém lhe chamou a atenção. Pousou nos olhos de Sebastiano o triste semblante de Cassandro, que assistia à brutalidade com a piedade dirigida ao agressor e não ao agredido. Um jovem muito belo também, cujos olhos assim inocentes e cheios de fragilidade lhe transmitiam uma pureza ímpar, que contrastava com a selvageria que Sebastiano havia se habituado. O guarda joviano viu que o pobre rapaz sofria, e então parou de bater. Sebastiano sentiu-se mal. Queria consolar Cassandro, mas, em vez disso, ergueu o infrator e deu voz de prisão. Cassandro resolveu se manifestar. — Senhor, perdoe-o. Não o prenda. Eu suplico. A voz delicada e os olhos mimosos do garoto pareciam ter poderes mágicos, tamanho o efeito de benevolência que causou naquele que, como soldado, tinha se acostumado a negar piedade. 18


Porém, o retrato das lágrimas de Cassandro o marcou para sempre. — Este homem ofendeu a glória de Sebastos. Será preso e julgado. — Se este homem for preso, seus filhos ficarão sem o que comer. — Pouco me importa, temos leis em Roma. A lei é dura mas é a lei. Este porco sujou o nome do Imperador ao colocá-lo em sua boca imunda. — Então fique comigo. — O quê? — Leve-me no lugar dele. Eu assumo a dívida dele com Roma. — Não posso prendê-lo no lugar dele. — Então me leve com você para servi-lo em honra ao Imperador. Serei seu escravo de agora em diante. A ideia interessou Sebastiano, que já tinha dado boa sova no transgressor e agora estava interessado na figura apaixonante do jovem Cassandro, embora já pensasse em testar com rigor os limites de seu sacrifício pelo outro. — Está feito. Eu o aceito no lugar desse animal. O garoto caiu de joelhos agradecido. Os cristãos amedrontados assistiam calados e viram o rapaz ser levado para nunca mais retornar. — Posso passar em minha antiga morada e pegar uma trouxa de roupas? — Não, você abdicou da liberdade e não tem direito a mais nada. Você agora me pertence e eu vou vesti-lo. Venha logo, e não me dê uma de Plauto. Naquela noite, não foi ao quarto do Imperador. Sebastiano só trazia uma imagem ao pensamento: os olhos tristes e inocentes de Cassandro. Diocleciano e Galério se reuniram no inverno de 302 para tratar de muitos assuntos, entre os quais a Vicennália, que se tra19


tava das celebrações dos vinte anos de Diocleciano no poder; também conversaram a respeito do futuro de Roma, já que o soberano avisou que abdicaria do cargo depois das comemorações e que havia feito Maximiano jurar o mesmo. Aproveitando-se do ensejo, Galério, que pretendia disputar o lugar de Diocleciano após a sua saída, não queria dar o pontapé inicial na nova e tão esperada perseguição aos cristãos, assunto muito cobrado do Imperador e que ele, prudentemente, sempre deixava fora de pauta. Diocleciano protelou quanto pôde, até que Galério astuciosamente apelou para a vaidade do Júpiter Capitolino. — Como poderá, o senhor, ser totalmente aclamado na Vicennália, sem ter dado aos cidadãos romanos o que eles mais esperam de seu Augusto Imperador? O povo almeja uma atitude corajosa para controlar a praga cristã que se alastra. Tenho a mais absoluta convicção de que se o senhor expedir um edito contra os cristãos, nunca mais será esquecido. — Galério, deixe-me consultar o oráculo de Apolo, está bem? Aí lhe darei uma resposta definitiva. No sopé do monte Parnaso, nas encostas das montanhas da Fócida, marchou o Imperador de Roma, e, junto ao desmonte das ladeiras, ele ouviu a voz excelsa e estremecedora da última das doze grandes sibilas do mundo antigo reverberar de cima abaixo no abismo: “Se Roma perseguir a seita do deus único, única Roma se tornará, e as tribos de vários deuses se curvarão sob o seu templo”. Diocleciano interpretou que a profecia do oráculo era favorável ao Império Romano, caso a perseguição acontecesse. Os dias de trégua estavam contados. Sebastiano nunca contou ao Imperador que havia investigado os cristãos, porque de repente não queria revelar que acabava de obter um escravo cristão. Não queria nem mostrar Cassandro, 20


num misto de se admitir traidor ou, por zelo, de ser traído. Simplesmente não mostrou e pronto, sem ponderar sobre o tema. E quando soube, então, que as perseguições em breve teriam início, aí foi que segredou mesmo o escravo. Escravo por quem Sebastiano foi se afeiçoando e amando. Assim como foi com Diocleciano, agora era com Cassandro. Só que, dessa vez, Sebastiano era o erastes, e, Cassandro, o eromenos. Um escravo grego como Cassandro, belo, adolescente, de boa educação e bem treinado nas artes do amor, era mesmo um achado. Delegaram boas horas de entretenimento. Com a eminência de um edito contra os cristãos e com os preparativos da Vicennália, Sebastiano foi menos requisitado por Diocleciano, e assim teve mais tempo para amar seu amado. E no dia 24 de fevereiro do ano 303, o Imperador Diocleciano expediu o primeiro edito, ordenando que todas as igrejas fossem demolidas ou tomadas em todo o Império, que se queimassem as escrituras cristãs e confiscassem seus bens. A meta de Diocleciano era desestruturar e pediu que não houvesse derramamento de sangue. Ao contrário de Galério, que exigiu que fossem queimados vivos todos os que não sacrificassem aos deuses romanos. A crueldade se generalizou. Sebastiano redobrou seus esforços para manter sigilo sobre a natureza de Cassandro, para não se tornar vítima da humilhação e violência do preconceito. Preconceito que todo cristão já sofria, mas que com o edito ficou bem mais permissível. Aconselhou Cassandro a continuar a enrustir, agora com maior cuidado, sua inclinação religiosa. Cassandro tinha para si que, como guarda imperial, Sebastiano poderia se tornar um salvador de seus irmãos de fé. O inimaginável aconteceu quando um incêndio criminoso consumiu uma boa parte do palácio de Diocleciano, mexendo com seu brio e despertando sua fúria. Ao mesmo tempo, começava a sentir algum distanciamento da parte de Sebastiano, mas 21


os acontecimentos não o deixavam se aprofundar no assunto. Sebastiano ficou alarmado e prometeu ao seu Imperador a cabeça dos culpados. Um segundo edito pedia a prisão de todos os bispos e sacerdotes, causando superlotação carcerária. Ainda assim, o edito foi cumprido e os criminosos comuns foram soltos para dar espaço aos cristãos. Cassandro sugeriu a Sebastiano que ajudasse clandestinamente os prisioneiros. Este negou veementemente, agora mais preocupado em achar os criminosos incendiários. Suas investigações tiveram de ser interrompidas, pois toda a comitiva viajou com Diocleciano a Roma para dar início à Vicennália. A série de festejos e inaugurações duraria um ano, de novembro de 303 a novembro de 304, quando se completariam vinte anos de Diocleciano à frente de Roma. Os festejos e as cerimônias se iniciaram, e a maioria dos cidadãos parecia contente. Diocleciano teve seu momento de júbilo. No entanto, Cassandro convenceu Sebastiano que ao menos o levasse ao cárcere para visitar os cristãos prisioneiros. Ao chegar, Cassandro levou palavras de esperança e apresentou Sebastiano como um amigo. Vendo, pelos seus trajes, que Sebastiano era um guarda pessoal do Imperador, uma mulher chamada Zoe se atirou aos seus pés, clamando que os ajudasse. Todos quedaram estupefatos, porque a mulher era tida como muda e creditaram esse milagre a Sebastiano, coisa que muito o perturbou. Não tardou para que a ex-muda Zoe fosse pega rezando no túmulo dos apóstolos. Ela fugiu. Durante um ato público, Zoe conseguiu passar pelos guardas e gritar afrontas contra o Imperador. Sebastiano se pôs a sua frente, já com o gládio em punho. Então ela lhe apontou: “Foi ele, ele é o soldado de Cristo que curou minha mudez”. “Antes continuasse muda”, Sebastiano pensou. Todos estranharam aquilo, mas, para variar, Galério se adiantou e pediu que fosse erguida uma pira imediatamente, 22


porque o Imperador não podia ser ofendido daquela maneira. Diocleciano não queria mártires, mas nada pode fazer, Galério estava de acordo com o protocolo. Zoe gritava e esperneava, clamava ajuda a Sebastiano, que a ignorou. Cassandro se aproximou de Sebastiano e suplicou que fizesse alguma coisa, mas ele nada fez. Então ambos assistiram Zoe evaporar nas chamas. Levado pela emoção, Cassandro reagiu. Confessou diante do Imperador que havia sido o responsável pelo incêndio no palácio imperial. Diocleciano se manteve impassível, apenas olhou para Sebastiano. Este abraçou Cassandro e o varou com o gládio. Cassandro tombou sobre os joelhos, e, com um só golpe, Sebastiano o decapitou. Ergueu a cabeça de Cassandro, mostrando-a ao Imperador, e disse: — Ave, Augusto! Aqui está minha promessa cumprida. Entretanto, Sebastiano nem percebeu, mas suas lágrimas invadiram seu rosto com rebeldia, denunciando-o. Agora sim, o Imperador reagiu, seu rosto se avermelhando um pouco. E só. Manteve a postura régia. Galério se meteu outra vez, com um pérfido e funesto balbucio: “Traidor”. Os olhos verdes e outrora benevolentes de Diocleciano se fecharam pesados. Uma única e pequenina lágrima rolou solitária para o lado, uma galáxia inteira se comprimiu em seu peito. Num átimo, entendeu o real significado do vaticínio da sibila e teve uma brevíssima visão do futuro do Império, em ruínas. O gládio que Sebastiano varou em Cassandro, Diocleciano agora o sentia varar no próprio peito. Seus olhos se abriram e mostraram uma lucidez, agora, sim, divina. Seu dia havia acabado na mais completa derrota. No entanto, ainda havia o protocolo. Por fim, falou Diocleciano: — Jovianos, levem-no daqui. Dispam-no da glória de sua armadura romana e deem a ele uma morte desonrosa e sofrida. O forte Maximiano chorava por Sebastiano, mas por dentro. Por fora só se via a rocha do velho combatente. 23


Sebastiano estava nu quando foi levado. A vergonha era pública. E foram os militares que o levaram, os mesmos que conheciam sua fama heroica e o admiravam. Foi amarrado com os braços sobre a cabeça em uma árvore ressequida à beira da ribanceira. Nenhum guarda queria cumprir aquele fadário, tampouco obrigar um companheiro, ou mesmo um subalterno, a fazê-lo. Preferiram chamar um arqueiro. O arqueiro cumpriu a ordem à risca. Mirou em tudo, menos na morte rápida. Sete setas o atingiram, uma a uma. Braço esquerdo, axila direita. A flecha destinada ao seu pênis espetou-lhe a coxa; duas foram parar no ventre. Viu-se uma no pescoço, outra cravada no peito. Num momento, cessaram-se os gemidos. O arqueiro parou de asseteá-lo e se retirou. O sangue escorreu na terra, amolecendo a raiz da velha árvore, que se soltou e rolou com ele pelo barranco, atingindo o rio. E no exato local que ficava o tronco seco, onde o sangue de Sebastiano ainda borbulhava vivo, brotou, na mesma hora, uma profusa roseira. Roseira de rosas brancas. E o rio? O rio segue em frente.

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O Mistério Do Rio Das Rosas Brancas  

A construção de uma hidroelétrica é gatilho para um professor revisitar o rio que lhe trouxe uma paixão por meio do mistério e a levou pela...

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