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Itaciara Poli

MIRA-OLHO

Coleção NOVOS TALENTOS DA LITERATURA BRASILEIRA

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“Tudo o que vemos ou parecemos  não passa de um sonho dentro de um sonho.”

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Estava escuro e as pequenas pantufas de gato sapateavam desorientadas por todo o quarto, de vez em quando topando uma na outra com seus focinhos macios. Sozinho no quarto, o menino Theodore passeava de lá pra cá, errante sobre o tapete de bolas verdes, impaciente e já um pouco cansado de tal bailado. Naquela noite não conseguiu pregar os olhos, divagou noite adentro, além dos passos, apenas pensando no que sua mãe lhe havia dito:“Amanhã, pela manhã, vamos ao médico. Desse jeito não podemos continuar”. Ali estava, a perambular solto, com os calcanhares frios e completamente atordoado, quase sem suportar tamanha curiosidade. Pelas frestas da janela, entrava o ar gelado do fim de outubro que fazia seus dentes baterem. Theodore teve medo, mas não se atreveu a acender a luz, e por volta das onze horas resolver tirar as pantufas e ir para a cama. Deitou-se. Nos olhos, os vincos cavados de quem forçava o sono. 11

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Não demorou muito para que sentisse algo estranho no estômago, como se tivesse comido centenas de aranhas e estas continuassem a saracotear dentro dele. Foi então ao banheiro, acendeu a luz e pelo espelho notou uma palidez moribunda que lhe fez sentir ainda mais desanimado. Depois sentiu um calor repentino, exaltado em percorrer o corpo diminuto cada vez mais suscetível às artimanhas febris de sua imaginação. Atirou a manta que lhe cobria as costas sobre a banqueta e continuou a fixar-se decidido. Inspirava certa compaixão, o pobre. De pijamas largos, o rapazinho observava-se na lâmina de vidro, tocando-se por toda parte, na tentativa de encontrar um defeito que se ajustasse à preocupação da mãe em levá-lo ao médico. Esforço inútil, nada encontrou. Observava apenas reflexos incongruentes, sem alguma compreensão. Não, não era nada. Ou talvez fosse. As ideias entravam em colapso junto com o corpinho cansado, quando Theodore resolveu chamar por Octávia, em um grito abafado que não revelou senão a desilusão incômoda do silêncio. Largou um profundo suspiro e esperou ainda alguns minutos antes de aceitar que a espera fosse mais longa. Falaria com sua mãe pela manhã e tentaria descobrir o que se passava. O menino arrastou a manta de lã até a cama e lá se enrolou, como um tatu-bola dentro da sua carapaça, abrigado de qualquer perigo, enquanto observava pelo vão da porta entreaberta, uma mulher de semblante sério a estudar alguns papéis espalhados sobre a escrivaninha. Sentiu vontade de correr para ela, enfiar-se nos lençóis, admirá-la, abraçá-la ou apenas deliciar-se com as notas de pimenta rosa e 12

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patchouli de seus cabelos. Mas aqueles eram apenas sonhos coloridos que invadiam sua insônia cinzenta, com uma intensidade tão perversa como a realidade. As inocentes fantasias, no entanto, não foram suficientes para afastar as dúvidas que intrigavam o menino. “Mas afinal, o que há de errado comigo?” Subitamente, o silêncio cedeu espaço para uma respiração afanosa, despropositada. Outra vez a desagradável sensação de mal-estar, o formigamento em ambas as mãos e, agora, também curtas e decididas marteladas em sua cabeça. Para aumentar a aflição, os mais estranhos sintomas se sucederam naquela noite, em uma perseguição diabólica que logo se via senhora da fértil mente pueril de Theodore. Imaginou-se realmente doente, mas simultaneamente tão vivo que teve vontade de gritar. Aquela foi a primeira, mas não a última vez em que ele chorava por não saber a verdade. Deixou que as lágrimas lhe caíssem dos olhos em um gemido surdo, abafadiço, até que, nas primeiras horas da madrugada, com as pálpebras pesadas, adormeceu. Às sete e meia da manhã, em vias de arder o sol, sua mãe já lhe preparava o café como todos os dias. Torradas integrais submersas em ovos mal cozidos que se espalhavam pelo prato e um café com leite quase frio. Não suportava o cheiro e muito menos o sabor daqueles ovos mas, embora desconfiasse que sua mãe também não, nunca dizia nada, submetendo-se diariamente àquela desgostosa tortura. Para Octávia, cuja ideia era de que o melhor é sempre o caminho já trilhado, a rotina não podia ser rompida, em silêncio e constante, funcionando como uma espécie 13

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de terapia, pois lhe causava a aprazível sensação de controle. Quando Theodore sentava-se na mesa da cozinha, ela já estava lá, impecável, a preparar o desjejum com movimentos comedidos, meio robóticos, para não manchar um de seus tailleurs novos com a calda de gemas fedidas. Atrás da personalidade controversa de Octávia, escondia-se a beleza clássica, de toques refinados, deliberadamente negligenciada em nome da profissão que não lhe poupava. Estava permanentemente atarefada e durante certo tempo, no início de sua carreira, não havia expediente em que não se sentisse bastante incomodada com os frequentes comentários maliciosos sobre sua vida pessoal. Talvez porque fosse ainda muito jovem e sem alguma experiência para ingressar no cobiçado cargo de advogada sênior de um dos melhores escritórios da cidade, talvez por causa de seus ares irritados e soberbos ou, simplesmente porque nada se descobria sobre seu filho. O fato é que até hoje, pouco mais de dez anos depois, ninguém sabia dizer com mínima riqueza de detalhes quem era Octávia Durkè. Tinha-se notícia de que via muito pouco o único filho – que passava a maior parte do tempo com a babá – por motivos efetivamente nobres, que fique bem claro. Incontáveis audiências, reuniões, viagens e, quando em casa, noites em frente ao computador estudando processos e redigindo petições. Nos poucos minutos da manhã, mãe e filho valseavam em uma cadência de “passo-passo-espera” e falavam em sussurros com um diálogo desinteressado, quase sempre instintivo. − Mãe, me passa o sal? 14

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− Aqui. − Tem aula de matemática hoje? − Tem... − Hum, hum. Houvera um tempo em que o menino ainda esperava algum sinal de afeto ou de cuidado, mas Octávia sempre retribuía com uma indiferença desconcertante. Naquela manhã, porém, mesmo preocupado com a ideia de ir ao médico, ele esperou pela última vez ao menos um olhar que lhe devolvesse um pouco de atenção. Queria ver a mãe mais de perto e talvez remediar estranhas suspeitas, pungentes como brotoejas de sarampo. Suspeitas que há algum tempo fizeram-no desistir de perguntar pelo pai, como se desviasse de uma lógica amarga, confusa demais para aceitar. Mal sabia que são as suspeitas que nos perseguem, são os boatos e rumores que nos massacram com sua incerteza degradante. E por ser incapaz de se opor ao tormento de certas verdades, Theodore demorou-se ao enlaçar os cadarços dos sapatos, cedendo à astúcia da imaginação enquanto criava cenários engenhosos de como seria interessante transcorrer uma manhã com a mãe, pois hoje ela não estaria com pressa. − Já estamos atrasados,Theodore! Coma logo esses ovos. Estou esperando no carro!

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