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Catherine Fisher

INCARCERON

S達o Paulo 2012


A´ guia de Cristal, Cisne Negro


1 Quem pode traçar a vastidão de Incarceron? Seus corredores e viadutos, suas brechas? Apenas o homem que conheceu a liberdade Pode definir sua prisão. Canções de Sapphique

Finn fora lançado de bruços ao chão e acorrentado às placas de pedra da passagem. Seus braços, bem estendidos, estavam atados com correntes tão pesadas que ele mal podia mover os pulsos junto ao solo. Os tornozelos, entrelaçados em um confuso amontoado de metal, prendiam-se a uma argola no calçamento. Ele não conseguia erguer o peito para respirar. Permaneceu deitado, exausto, com o frio da pedra contra o rosto. Mas os Citadinos, por fim, estavam vindo. Sentiu-os antes de escutá-los; vibrações no solo, a princípio débeis, e crescendo até fazerem tiritar seus dentes e nervos. Então, ruídos na escuridão, o ronco de vagões, o lento tinido das rodas. Esforçando-se para virar a cabeça, chacoalhou-a, tirando os cabelos sujos dos olhos, e viu como os sulcos paralelos no chão sumiam sob seu corpo. Estava acorrentado sobre os trilhos. Suor escorria de sua testa. Segurando as argolas geladas com uma das mãos enluvadas, ele conseguiu erguer o peito e inspirar fundo. O ar acre cheirava a óleo. Ainda não adiantaria gritar. Eles estavam muito longe e não o escutariam acima do alarido das rodas até que avançassem mais pelo vasto corredor. Teria que calcular o tempo com precisão. Tarde demais, e os vagões não poderiam ser parados. Então, ele seria esmagado. Desesperadamente,

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tentou evitar o outro pensamento. O de que, mesmo vendo-o e escutando-o, não se importassem. Luzes. Pequenos feixes provindos de lanternas. Concentrando-se, ele contou nove, onze, doze; e depois os contou de novo, para que os números o ajudassem a combater a náusea que o sufocava. Abrigando o rosto na manga rasgada, em busca de algum conforto, pensou em Keiro, no sorriso dele, no último tapinha debochado ao checar o cadeado e afastar-se na escuridão. Pronunciou-lhe o nome, em um sussurro amargo: – Keiro. Corredores vastos e galerias invisíveis tragaram a palavra. Havia bruma no ar metálico. Os vagões gemiam. Agora, podia ver pessoas caminhando penosamente. Elas emergiram da escuridão tão encapotadas por causa do frio que era difícil dizer se eram crianças ou mulheres velhas e encurvadas. Provavelmente crianças – os idosos, se eles mantivessem algum, estariam nos vagonetes, com a carga. Uma bandeira esfarrapada branca e preta drapejava no primeiro vagão; o desenho era o de um pássaro heráldico com um raio prateado no bico. – Parem! – ele gritou. – Olhem! Aqui embaixo! O estremecer do solo provocado pela maquinaria rangendo refletia-se em seus ossos e dentes. Cerrou os punhos conforme era atingido pelo peso e ímpeto dos vagões, pelo cheiro de suor das fileiras de homens que os empurravam, pelo clangor e agitar das mercadorias empilhadas. Ele esperou, tentando reprimir o terror; sua disposição de enfrentar a morte sendo testada a cada segundo. Ele não respirava, recusando-se a fraquejar porque ele era Finn, O Que Vê Estrelas, e podia fazer aquilo. Até que, de algum lugar, o pânico irrompeu, e ele se ergueu, gritando: – Vocês me ouviram? Parem! Parem! Eles prosseguiram. O barulho era intolerável. Agora ele berrava e chutava e se debatia, pois o impulso terrível dos vagões carregados os faria deslizar inexoravelmente, assomar sobre ele, assombreá-lo e, por fim, esmagar seus ossos e corpo em lenta e inevitável agonia.

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Nesse momento, ele se lembrou da lanterna. Era minúscula, mas estava ali. Keiro assegurara isso. Arrastando o peso da corrente, ele se contorceu e conseguiu enfiar a mão dentro do casaco; os músculos do pulso sofrendo um espasmo. Os dedos deslizaram pelo fino cano frio. As vibrações percorriam seu corpo. Ele puxou a lanterna e derrubou-a; o objeto rolou para fora do alcance. Ele praguejou, contorceu-se outra vez e pressionou-a com o queixo. A luz irradiou. Ele ofegou, aliviado, mas os vagões ainda avançavam. Com certeza, os Citadinos podiam vê-lo. Eles deviam ser capazes de vê-lo! A luz era uma estrela na imensa escuridão estrondosa do corredor, e naquele momento, ele soube que, através de todas as suas escadas e galerias e milhares de câmaras labirínticas, Incarceron percebera o perigo, e que o estrépito dos vagões era sua cruel diversão; a Prisão o observava e não iria interferir. – Eu sei que vocês podem me ver! – ele gritou. As rodas eram da altura de homens e guinchavam nos sulcos; faíscas espargiam no pavimento. Uma criança berrou, e Finn gemeu e se encolheu, sabendo que nada funcionara, sabendo que tudo estava acabado, e então o lamuriar dos freios o atingiu, o som arrepiante em seus ossos e dedos. As rodas surgiram ao alto, acima dele. Imóveis. Ele não conseguia se mexer. O terror deixara seu corpo flácido. A lanterna iluminava apenas o grosso rebite em uma saliência oleosa. Então, para além disso, uma voz exigiu saber: – Qual é o seu nome, Prisioneiro? Eles se encontravam unidos na escuridão. Conseguindo erguer a cabeça, ele viu vultos cobertos. – Finn. Meu nome é Finn. – Sua voz era um sussurro; ele engoliu em seco. – Eu não achei que vocês fossem parar... Um grunhido, e então uma voz que disse: – Parece Escória para mim. – Não! Por favor! Por favor, me tirem daqui. – Eles ficaram em silêncio, imóveis. Finn inspirou e disse com firmeza: – A Escória atacou nossa Ala. Eles mataram meu pai e me deixaram desse jeito para qualquer um

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que passasse. – Tentou amenizar a opressão no peito agarrando com força a corrente enferrujada. – Por favor. Estou implorando. Alguém se aproximou. O bico de uma bota parou perto de seu olho; o calçado estava sujo e remendado. – Que tipo de Escória? – Os Comitatus. O líder deles chama a si mesmo de Jormanric, o Senhor da Ala. O homem cuspiu perto da orelha de Finn. – Aquele! Ele é um assassino enlouquecido. Por que nada acontecia? Finn contorceu-se, desesperado. – Por favor! Eles podem voltar! – Eu acho que devemos passar por cima dele. Por que interferir? – Porque nós somos Citadinos, e não Escória. Para surpresa de Finn, tratava-se de uma mulher. Ele escutou o farfalhar das roupas de seda sob o rústico casaco de viagem. Ela se ajoelhou, e Finn viu a mão enluvada puxar as correntes. Seu pulso sangrava; o pó da ferrugem deixava marcas em sua pele encardida. Inquieto, o homem falou: – Mestra, escute... – Consiga um alicate, Sim. Agora. – O rosto dela estava próximo ao de Finn. – Não se preocupe, Finn. Não vou deixá-lo aqui. Penosamente, ele olhou para cima e viu uma mulher com cerca de vinte anos, de cabelos vermelhos e olhos escuros. Por um instante, sentiu-lhe o cheiro; um odor de sabão e lã macia, um aroma pungente que penetrou sua memória, inserindo-se naquele compartimento negro trancado dentro de si. Um quarto. Fogo na lareira. Um bolo em um prato de porcelana. O choque provavelmente evidenciou-se em seu rosto; por sob a sombra projetada pelo capuz na face da mulher, ela o fitou de modo pensativo. – Você ficará em segurança conosco. Finn a encarou, sem conseguir respirar. Um quarto de criança. As paredes de pedra. As tapeçarias, belas e vermelhas. Um homem se aproximou depressa e deslizou o alicate sob a corrente. – Cuidado com os olhos – ele resmungou.

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Finn enterrou a cabeça na manga, sentindo as pessoas se aglomerarem ao seu redor. Por um instante, achou que um dos ataques que temia o estava acometendo; fechou os olhos e sentiu o familiar calor atordoante percorrer seu corpo. Lutou contra a sensação, esforçando-se para engolir a saliva, agarrando as correntes enquanto os maciços cortadores as abriam. A recordação se desvanecia; o quarto e o fogo, o bolo com minúsculas esferas prateadas em uma travessa de borda dourada. Tentou retê-la, mas a lembrança se foi, e a escuridão gelada de Incarceron estava de volta, a fetidez acre e metálica de rodas oleosas. Argolas deslizaram e chacoalharam. Ele se ergueu, aliviado, respirando profundamente. A mulher pegou seu pulso e virou-o. – Isto vai precisar de um curativo. Ele ficou paralisado, incapaz de mover-se. Os dedos eram frios e limpos, e ela o tocara na pele, entre a manga rasgada e a luva, e olhava a minúscula tatuagem do pássaro com a coroa. Ela franziu o cenho. – Esta não é uma marca dos Citadinos. Parece... – O quê? – De súbito, ele ficou alerta. – O quê? Um rumor distante foi ouvido. As correntes em seus pés escorregaram. Inclinando-se sobre elas, o homem com o alicate hesitou. – Isso é estranho. Este ferrolho. Está solto... A Mestra olhou fixamente para o pássaro. – Parece o cristal. Um grito atrás deles. – Que cristal? – Finn perguntou. – Um objeto estranho. Nós o encontramos. – E o pássaro é o mesmo? Tem certeza? – Sim. – Distraída, ela se virou e olhou o ferrolho. – Você não estava realmente... Ele precisava saber.Tinha que mantê-la viva. Agarrando-a, ele a puxou para o chão. – Abaixe-se – ele sussurrou. E então, zangado, prosseguiu: – Você não entende? É tudo uma armadilha.

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Por um instante, ela o encarou, e Finn viu a surpresa estampada naqueles olhos transformar-se em horror. Ela se soltou de suas mãos; com um movimento, estava em pé, gritando: – Corram! Todos vocês! Corram! Mas as grades no solo estavam se abrindo ruidosamente; braços surgiram, corpos foram alçados, armas estrondearam ao se chocarem com o chão de pedra. Finn se moveu. Empurrou o homem com o alicate, chutou o falso ferrolho e se livrou das correntes. Keiro gritava com ele. Um cutelo passou por sua cabeça; ele se atirou no chão, rolou e olhou para cima. Fumaça enegrecia o local. Os Citadinos berravam, correndo para buscar abrigo junto aos enormes pilares, mas a Escória já estava nos vagões, atirando indiscriminadamente. Os clarões vermelhos das desajeitadas espingardas de pederneira tornavam pungente o corredor. Ele não conseguia vê-la. Ela poderia estar morta, poderia estar correndo. Alguém o empurrou e enfiou uma arma em sua mão. Ele achou que se tratava de Lis, mas como a Escória toda usava elmos escuros, não soube ao certo. Nesse instante, avistou a mulher. Ela estava empurrando as crianças para baixo do primeiro vagão; um garotinho soluçava, e ela o agarrou e lançou-o adiante. Havia gás escapando das pequenas esferas que caíam e rachavam como ovos, fazendo os olhos de Finn lacrimejarem. Ele pegou seu elmo e colocou-o, e os enchimentos molhados sobre o nariz e a boca melhoraram sua respiração. Através da tela que cobria seus olhos, o corredor era vermelho e os vultos, claros. Ela tinha uma arma e estava atirando. – Finn! Era Keiro, mas Finn ignorou o grito. Correu até o primeiro vagão, sob o qual se lançou, e agarrou o braço da Mestra; quando ela se virou, ele afastou a arma para o lado. Ela gritou, raivosa, atacando seu rosto com as luvas revestidas de cravos, as saliências pontudas arranhando seu elmo. Conforme a arrastava para fora, as crianças o chutavam e lutavam com ele. Uma cascata de víveres era lançada ao redor deles e deslizada com eficiência pelas canaletas sob as grades.

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Um alarme soou. Incarceron se agitava. Painéis lisos deslizaram lateralmente nas paredes; com um estalido, holofotes de luz brilhante incidiram do teto invisível, percorrendo o solo distante, tentando apanhar a Escória enquanto eles dispersavam, como ratos, suas rígidas e enormes sombras. – Saiam daqui! – Keiro gritou. Finn empurrou a mulher para a frente. Perto deles, um vulto que corria foi atingido pela luz e evaporou em silêncio, aterrorizado. As crianças choravam. A mulher se virou, ofegante com o choque, olhando para o que restara de seu povo. Finn a arrastou para a canaleta. Através da máscara, seus olhares se encontraram. – Desça por aqui – ele disse, arfante. – Ou você vai morrer. Por um momento, ele quase achou que ela não obedeceria. Então a Mestra cuspiu nele, livrou-se de suas mãos e pulou para dentro da canaleta. Uma faísca de fogo branco chamuscou sobre as pedras; instantaneamente, Finn pulou atrás dela. A canaleta era feita de seda branca resistente. Ele escorregou e logo se viu do outro lado, sobre uma pilha de peles roubadas e componentes de metal. Já puxada para o lado, com uma arma na cabeça, a Mestra observava com desprezo. Finn se ergueu dolorosamente. Por todo lado, a Escória deslizava pelo túnel, atravancado com a pilhagem, alguns manquejando, outros mal conscientes. Por último, pousando agilmente em pé, surgiu Keiro. As grades se fecharam com um estrondo. As canaletas caíram. Vultos indistintos ofegavam, tossiam e arrancavam as máscaras. Keiro removeu a dele lentamente, revelando o belo rosto coberto de poeira. Finn virou-se para ele, furioso. – O que aconteceu? Eu entrei em pânico lá fora! Por que vocês demoraram tanto? Keiro sorriu.

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– Acalme-se. Aklo não conseguia fazer o gás funcionar.Você os manteve falando de forma satisfatória. – Olhou para a mulher. – Por que se preocupar com ela? Finn deu de ombros, ainda nervoso. – Ela é uma refém. Keiro ergueu a sobrancelha. – Muito transtorno. – Fez um gesto de cabeça para o homem que segurava a arma, e o gatilho foi pressionado. O rosto da Mestra estava branco. – Então eu não ganho nada a mais por arriscar minha vida lá em cima. – A voz de Finn estava firme. Ele não se moveu, e Keiro examinou-o. Por um instante, eles se encararam. Por fim, seu irmão por juramento disse friamente: – Se ela é o que você quer. – Ela é o que eu quero. Keiro relanceou o olhar para a mulher e deu de ombros. – Gosto não se discute. – Um outro gesto de cabeça fez a arma ser baixada. Ele deu um tapa no ombro de Finn, fazendo uma nuvem de poeira erguer-se de suas roupas. – Muito bem, irmão – ele disse.

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