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Prólogo

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o instante em que cruzou os portões do reino sagrado, ele hesitou. Era compreensível, sua missão era auda‑ ciosa demais. Contemplou a imponente escadaria que se estendia a sua frente, só a conhecia daquele ângulo que estava vendo. Nunca havia galgado aqueles degraus, poucos tinham o privilégio de transpô­‑los e ainda não havia chegado o momento de fazê­‑lo. Também não conhecia outras entradas, seguia apenas o mapa inserido recentemente em sua mente pelo arcanjo que lhe incumbira aquela missão. Se esgueirou sorrateiramente pelo vão que havia debaixo da escada, perguntando­‑se em que momento o Pai interrom‑ peria sua invasão. Tateou os degraus um a um até encontrar a pequena abertura que o levaria aonde precisava chegar. Outra vez, se indagou intrigado por que conseguiu chegar até ali. Con‑ tinuava esperando por uma interrupção que não aconteceria. Quando entrou, encontrou um amplo salão vazio que ostentava paredes enormes cobertas por imagens aleatórias que retratavam várias passagens da história celestial, desde a criação do universo aos conflitos envolvendo os celestes. Uma das pare‑ des em especial, abrigava apenas uma imagem. No momento

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em que seus olhos pousaram nela, ele soube que era ela que abrigava o que foi procurar. Tocou, maravilhado, a superfície porosa da imagem e tra‑ çou com a ponta dos dedos os contornos em relevo que deli‑ neavam a gravura que escondia a chave do universo. Ao tocar o centro da imagem, uma luz tão intensa como a sua áurea res‑ plandeceu apenas no local onde sua mão descansava, e então, o objeto atravessou a parede e pousou direto sobre a palma da sua mão. Foi então que ele se deu conta de que tinha não só o apoio do arcanjo, como também o do Pai. Sair do reino sagrado carregando consigo o poderoso arte‑ fato não constituía o êxito de sua missão, aquela era somente sua primeira etapa. E mesmo sem ter certeza, sua intuição lhe dizia que aquela tinha sido a mais simples de todas. As asas castanhas se abriram, ele fez uma mesura em silên‑ cio para o invisível e alçou voo. Impulsionado pela ambição do cumprimento do dever, o anjo cruzou as dimensões numa busca ininterrupta pelo local perfeito para guardar o único objeto de que se ouviu falar capaz de destruir todos os celestes de uma só vez, incluindo os arcan‑ jos, os seres que ajudaram o Pai na criação do universo, eles são tão poderosos que chegam a ser considerados como deuses que respondem apenas ao Deus Supremo.

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Interrupção

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s minutos que antecedem o alvorecer são suficientes para que eu receba um relatório sucinto das ativida‑ des do dia anterior dos meus soldados e passe novas diretrizes para o pequeno grupo que habita na Terra sob meu comando. Todas as manhãs, enquanto o sol desponta no horizonte resplandecendo em toda sua glória, tento silenciosamente entender o fundamento da minha missão, juntando cada peda‑ cinho do quebra­‑cabeça de anos de trabalho em um caso que, a princípio, me pareceu simples o bastante para ser acompa‑ nhado por um soldado de menor escalão, mas isso muito antes de conseguir ver com clareza a necessidade da minha impor‑ tante participação nessa história. Sempre que questionava o fato de estar seguindo os passos de uma mortal comum, eu me contradizia inconscientemente, primeiro, porque sabia que ela não era uma simples mortal, segundo, porque eu interferi em seu destino erroneamente. E sei que cabe, somente a mim, colocar as coisas de volta aos eixos. Jamais agi por impulso antes, nunca em toda minha exis‑ tência havia praticado uma única ação sem prever as consequ‑ ências que poderia acarretar, até aquele fatídico momento.

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Era apenas mais uma manhã que aparentava ser mais um dia comum. Durante a reunião com os soldados que zelavam pelo plano físico, observava, impassível, um pequeno grupo dis‑ cutir enquanto discorriam os motivos do desentendimento que causava um imenso desconforto ao resto do grupo. Disperso, me permiti divagar para qualquer ponto alheio àquela discussão sem fim, quando escutei um estrondoso som, em meio a esse ruído, um grito agudo e infantil se sobressaía, mas o que realmente me chamou a atenção foi o fato de que mesmo encoberto por toda a agitação, uma prece familiar encheu meus ouvidos. Numa fração de segundos me materializei no local exato para assistir um ônibus chocar­‑se com um veículo de passeio, lançando­‑o para o outro lado da pista. Com o impacto da pan‑ cada do automóvel no solo, uma pequena massa branca foi jogada abruptamente para fora, atravessando o para­‑brisa do carro. Eu não pensei, não havia tempo para fazê­‑lo, apenas sal‑ tei para agarrá­‑la no ar. No instante em que a toquei, eu soube quem ela era. Enquanto pousava calmamente como uma pluma, observei o pequeno e frágil corpinho desvanecendo em meus braços, seus olhos assustados me fitaram por um breve instante antes de cerrarem. Desacordada, a observei com mais cuidado. Seus cabe‑ los ruivos emaranhados cobriam parte de seu rosto angelical‑ mente calmo, sua pele possuía uma palidez acentuada devido ao grande choque que se mesclava com o carmim dos ferimen‑ tos causados pelos estilhaços. Transferi minha atenção para contemplar a imensa des‑ truição a nossa volta. Havia dois focos de fogo, o ônibus se incendiava inteiro em uma extremidade da estrada e o carro em

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outra. Não havia mais nenhum sobrevivente, exceto a pequena garota que acolhia em meus braços. Junto a uma legião de bombeiros e policiais que surgiram de todos os lados para assistir às vítimas, estavam os paramé‑ dicos. Assim que eles chegaram, pousei o pequeno corpo no asfalto, a encontraram estendida no acostamento. Quando a tocaram, sentiram o calor febril que sua pele ainda guardava do meu toque. Desde então não pude mais deixá­‑la. Foi como se meu ato tivesse nos conectado. Eu a acompanhei na ambulância. Depois enchi a sala de cirurgia com a calmaria imposta pela minha presença. Observei os estilhaços serem removidos cuidadosamente e as cicatrizes fechadas pelas mãos fabulosas de um perfeccionista cirurgião plástico.

* Uma mão enrugada tocava suavemente a superfície enfai‑ xada que envolvia a criança, fazendo seus olhos se abrirem. Pela primeira vez prestei atenção em seu olhar castanho­‑dourado. Enigmático, abrigava uma inocência inequivocamente sagaz. – Minha querida, como está se sentindo? – A voz soava cansada, notavelmente embargada pelo choro incessante. – Vovó, onde estão papai e mamãe? – indagou num murmú‑ rio. A doçura em sua voz me comoveu. A senhora de fisionomia cansada lançou seu olhar para o outro lado, pousei minha mão em seu ombro para absorver toda inquietude de sua alma ferida. – Oh, Danna, meu amor – ela hesitou por um breve ins‑ tante, mas sabia que precisava dizer a verdade. – Eles não estão

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mais entre nós – confessou com a voz vacilante. – Eles não sobreviveram, querida – acrescentou em voz baixa. A pequena se contorceu de dor, num ímpeto a envolvi em uma atmosfera que mesclava calmaria e esperança com um toque que imitava a sensação acalentadora de um abraço. Lágrimas rolaram formando duas manchas na faixa que cobria seu rosto. Creio que foi ali, vendo o desamparo em seus olhos que me envolvi de uma forma irrevogável. Ela era filha única, agora órfã, e a companhia familiar da sua avó materna, com quem viveria, seria tudo que teria dali em diante. Embora sentisse a dor dilacerante da perda, a avó sabia que era ela quem devia manter­‑se firme para amparar a pequena e frágil Danna. Foi então que resolvi ficar um pouco mais para ajudar a dedicada senhora a encontrar forças para cuidar de sua única neta. No ano que se seguiria a partir dali, ambas chorariam escondidas e sofreriam em silêncio na tentativa de resguarda‑ rem uma a outra. Passei a agir como uma sentinela naquela casa, sempre preocupado em aliviar o pesar da minha protegida.

* Era fascinante como a jovem agia, tudo nela era espontâ‑ neo, nada nunca seria premeditado. Numa certa manhã, ela parou em frente ao espelho para analisar a cicatriz que mais parecia um traço, uma linha grossa num tom azulado sobre a pálpebra direita. Era um resquício de asfalto, uma marca permanente de um momento que ela ten‑ tava esquecer. Ela pegou um lápis de maquiagem preto e come‑ çou a delinear seus olhos, marcando­‑os com um traço forte que

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deixava seu olhar mais expressivo e que, de alguma forma, ocul‑ tava o ar inocente que lhe era natural. De uma certa forma, essa era sua intenção, ocultar seus sentimentos e suas fraque‑ zas. E aquela atitude contribuiria para a transformação da frágil garota sem que ela mesma se desse conta. Uma coisa eu tinha que admitir, zelar por ela não seria monó‑ tono. Danna era extremamente criativa, terrivelmente levada e às vezes docemente cruel. Cada dia de sua vida era uma aventura sem roteiro. Poderia definir como diversão os momentos que a obser‑ vava sair das enrascadas em que ela naturalmente se colocava. Desde pequena, ela descobriu um talento nato para a sin‑ ceridade que muitas vezes a levava à situações extremamente constrangedoras, mesmo com as pessoas mais próximas. Três anos havia se passado desde o acidente, ela vinha pro‑ curando, desde então, levar uma vida normal como os adoles‑ centes de sua idade tentavam fazer. Ela não era linda, para mim nenhum humano era, mas ela se encaixava nos padrões mortais de beleza. Seus cabelos rui‑ vos continuavam longos e emolduravam o rosto miúdo e deli‑ cado, expressivamente marcado pela maquiagem excessiva que ela aplicava aos olhos, que em grande parte já era definitiva. Os olhos amendoados eram grandes e contornados por cílios espes‑ sos que deixavam seu olhar mais marcante. Seu corpo era miúdo, seus contornos protuberantes eram suaves e definidos pela natação, o único esporte que prati‑ cava. Quando caía na água, sua mente se transportava para um vazio reconfortante sem lembranças e, quando não se lem‑ brava, não sofria. Possuía um estilo único, maquiagem pesada no rosto e ves‑ timentas discretas. O visual indefinido conferia exatamente a inquietude de sua alma angustiada.

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Danna  

Quando um poderoso e misterioso artefato é retirado do reino sagrado e escondido por um corajoso anjo emuma das milhares de dimensões existe...