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Letícia Black

Contos de uma Fada A nascente das montanhas

COLEÇÃO NOVOS TALENTOS DA LITERATURA BRASILEIRA

São Pau l o 2 0 1 2

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Capítulo 1

A mudança

Trinta e seis horas antes. O que eu faria agora? Encarei a quantidade de gente, sentindo que entraria em crise de choro bem em breve. Suspirei, dei a volta no quiosque e me escondi entre a parede e um ônibus estacionado e esperei os passageiros subirem. Escorreguei um pouco pela parede e abri minha bolsa com cuidado. Eu não gostava, nem um pouco, de ficar parada ali, mas dentro da Central do Brasil era movimentado demais e tive de pagar para entrar no banheiro da última vez que eu fora. Então, contrariando meus instintos de proteção, tirei meu celular da bolsa. Para quem eu ligaria? Provavelmente minha mãe não queria me ver. Eu era um estorvo na vida daquela família, um arrependimento. Eles teriam preferido que eu tivesse morrido sozinha sei lá onde. Não me rebaixaria a ligar para ela e pedir para vir me buscar, pelo menos não tão sensível como eu estava. Não deixaria ela me ver assim. Mordi meu lábio de novo, fechei a bolsa e a coloquei no chão e me sentei em cima dela, decidida a ficar ali por um pouco mais de tempo, com a sensação de segurança totalmente errônea me dominando. Tinha alguém para quem eu podia ligar. O rosto dele dominou meus pensamentos por alguns segundos antes do sorriso brincar em meu rosto com o simples pensamento de

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que eu poderia vê-lo em alguns minutos e melhorar o meu dia. Seu rosto bonito, seu sorriso sincero, protetor e seus olhos doces seriam suficientes para eu me sentir melhor. Guilherme viria. Ele não me deixaria sozinha em momento nenhum, eu só precisava pedir. Não devia ter vergonha de pedir, não a ele. Nove, cinco, quatro... Senti a faca no meu pescoço antes de conseguir apertar o próximo número. – Passa – ouvi. Respirei fundo, quase fungando, quando levantei meus olhos para a figura imunda à minha frente. A serra da faca apertou-se mais em meu pescoço, então lhe estendi meu celular, puxando um pouco meu vestido, esticando-o para os lados, para ele não ver que eu estava sentada em minha bolsa. Por Deus, ele pegou meu celular e correu. Alguém abriu a janela do ônibus parado à minha frente e gritou, perguntando se eu estava bem. Assenti com a cabeça, sem olhar. Não queria que vissem o desespero em meus olhos. Ainda com medo de verem minhas fraquezas, estiquei minha perna e distrai-me em amarrar e desamarrar meus cadarços. Só fiquei satisfeita quando o ônibus ligou seus motores e saiu, deixando-me a vista novamente. Levantei-me, decidida. Eu deveria correr. Andei até a faixa de pedestres da Presidente Vargas, esperando impacientemente o sinal fechar para eu poder correr e atravessar a rua de uma vez só. Havia um orelhão do outro lado, tinha certeza. Eu sabia o número. Agarrei a minha bolsa e disparei pela faixa de pedestres, contra a multidão que atravessava em direção à Central. Desviei, tropecei e corri a tempo de chegar ao outro lado antes do sinal fechar. Parei, tentando localizar o orelhão dali. Pisquei, encontrando-o, ao mesmo tempo que um cara, um velho, encarou-me de cima a baixo, sorrindo estranhamente. Gemi, agarrei minha bolsa com mais força e caminhei em passos largos e rápidos até o orelhão. Não tinha fila. Todos tinham seus celulares. Eu não tinha dinheiro ou cartão telefônico. Mordendo o lábio, sentindo lágrimas de desespero querendo rolar pelos meus olhos, dis12

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quei uma dupla de noventa, ligação a cobrar, antes do número de Guilherme. Eu esperava que ele não se importasse. Chamou uma vez. Duas. E ele atendeu e então começou a tocar a música de chamada a cobrar. Corei, envergonhada. Por favor, Gui, atenda, implorei para mim mesma. – Alô – ouvi a voz dele dizer, o tom explicitando uma curiosidade ligeiramente cuidadosa. Funguei, não sei se desencadeado pelo alívio ou por vergonha de estar ligando a cobrar para alguém – coisa que eu nunca havia feito – mas comecei a chorar. – Gui... – murmurei, entre soluços. – Des... culpe. Escutei algum barulho, uma cadeira sendo arrastada, algo do gênero. Ele ainda estava trabalhando. A culpa me corrompeu. – Mi? – perguntou, com a voz ardendo em preocupação. Mais lágrimas brotaram dos meus olhos. – Michie, o que está acontecendo? Não consegui prestar atenção no que ele dizia, continuei em meu pedido de desculpas insano e descontrolado pelas lágrimas. – Desculpa, Gui, eu... Não sabia o que fazer... Para quem ligar, eu... O tom de voz dele foi muito mais firme e forte quando me interrompeu pela segunda vez: – Michelle – A voz me fez parar de falar e respirar fundo. Não sabia como ele conseguia fazer isso. – Por favor, fique calma. Onde você está? Ele viria. Guilherme viria. Eu conseguia... Parar de me esconder no orelhão para chorar. – Na Central – sibilei. Funguei, secando as lágrimas. Ficaria tudo bem agora. – Por quê... – eu podia vê-lo fechando os olhos para manter a calma. – Por que você ainda está aí a esta hora? – ia responder, mas ele não permitiu. – Esquece. Estou indo. Me espera no metrô, perto das escadas. Por favor, eu não demoro. Eu não tinha culpa de ter passado quase uma hora parada em frente aos acessos às plataformas, tentando entender como o meu cartão havia quebrado justo hoje. E contando moedas. Eu tinha um real 13

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e trinta e cinco centavos e a minha ideia era pedir carona a algum ônibus, mas perdi a coragem. – Eu... Tá – murmurei, em concordância. – Acalme-se, Michie – eu podia ouvir o sorriso em sua voz. – Vejo você em vinte minutos. E desligou. Coloquei o telefone no gancho, secando minhas lágrimas com o antebraço antes de virar para encarar desconhecidos de novo. O relógio, com estrelas piscantes, estava marcando vinte horas e quarenta e cinco minutos. Tentei concentrar-me apenas em atravessar as quatro faixas movimentadas de novo. Minha momentânea fragilidade me deixou lerda o suficiente para que eu precisasse de dois sinais para atravessar a rua. Perdi cerca de dez minutos para chegar ao ponto que Guilherme me pedira para esperar. Encolhi-me perto de uma pequena lanchonete, vigiando as escadas enquanto via pessoas indo e vindo, um fluxo interminável. Foram os dez minutos mais longos da minha vida. Via as pessoas subindo e descendo as escadas rolantes sem nenhum sinal do rosto do meu namorado, sem nenhum sinal de conforto. Os rostos estranhos faziam com que eu me encolhesse assustada. Não podia estar normal. Por três vezes, a atendente da lanchonete perguntou-me se eu queria alguma coisa. Respondia que não, e ela fazia careta. Sabia que não deveria estar ali, mas eu era incapaz de me afastar qualquer passo para longe. Comida fazia com que eu me sentisse mais segura, mesmo que não tivesse dinheiro para comer. Por ironia, meu estômago quase roncou. Coloquei a mão sobre ele e voltei a encarar a escada. Senti-me realizada ao descobrir que eu ainda sabia sorrir ao ver Guilherme olhar de um lado para o outro, descendo as escadas rolantes, procurando-me. Fiquei parada, apenas olhando-o, até ele por fim bater o olhar em mim. Suspirou, aliviado, quando o fez. – Mi – murmurou, quando chegou perto o suficiente para perceber que eu o escutaria. No segundo seguinte, seus braços envolveram 14

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minha cintura, e escondi meu rosto em seu peito, voltando a chorar. – Mi, o que aconteceu? Apertei-me mais contra o seu abraço e ele levou a mão à minha cabeça, fazendo cafuné. Fingi não perceber quando pegou uma mecha do meu cabelo, provavelmente notando os cachos, largando em seguida. Aguardou, pacientemente, eu me acalmar para poder falar. – Eu estava andando com dinheiro contado de novo – confessei, tirando o rosto de seu peito para encará-lo. O vi revirar os olhos, antes de sorrir lindamente e secar minhas lágrimas. – Já disse para parar de fazer isso – comentou, colocando meus cabelos atrás da orelha. Os lábios dele encostaram-se aos meus por um segundo, rápido demais, mas eu já me sentia melhor. – Você ficou sem dinheiro para voltar para casa, foi só isso? Mordi o lábio, negando com a cabeça. De novo demorei um pouco, e ele aguardou calmamente por um tempo, até que levantou meu rosto com a mão para eu o encarar, e eu cedi aos seus olhos cor de mel. – Me roubaram – sussurrei. – O celular. Quando eu ia te ligar. Ele arqueou a sobrancelha, fazendo a cicatriz que ele tinha nela criar uma forma esquisita que eu adorava. – Machucaram você? – perguntou. Neguei rapidamente, vendo que ele estava ficando tenso. Ele fechou os olhos. – Michelle, eu sei que não foi só isso. Mordi o lábio, olhando para baixo, mesmo com suas mãos segurando firmemente meu rosto. Balancei a cabeça, desvencilhando-me delas e escondendo meu rosto em seu peito. Ele suspirou. – Eu sabia – falou. – Você não é de ceder por pouco – abraçou-me, voltando a acariciar minha cabeça. – Sabe que estou aqui para o que precisar, não é? Concordei com a cabeça, afastando-me dele e secando meus olhos molhados com o antebraço. Ele sorriu e beijou-me de leve mais uma vez. – Vem, vamos sair daqui – sussurrou, dando um passo para trás e pegando minha mão. – Está com fome? 15

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Eu não queria ver gente, e tinha certeza de que Gui sabia disso, mas não era muito fácil encontrar um lugar vazio para comer, independentemente se era fim de semana ou não. Então, meio contrariado, sugeriu um shopping próximo a casa dele. Tive de negar veementemente com a cabeça para ele desistir da ideia. Suspirando, acabou tomando outro caminho. Levamos cerca de meia hora para conseguir sair do centro, enquanto ele batucava no volante e balançava a cabeça, resmungando algo sobre eu não querer ir ao shopping. Ignorei-o, encarando a janela. Nada interessante para olhar, mas não queria que ele visse que algumas lágrimas continuavam a se rebelar e escorrer pelo meu rosto. Sequei com raiva uma lágrima teimosa. Fingi não sentir a mão dele sobre a minha perna, mas acabei me rendendo e olhando para ele. Como o trânsito estava de fato parado, Gui pôde encarar-me e sorrir para mim, acariciando meu rosto levemente, antes de precisar andar mais alguns metros. – Não vai me contar o que houve? – perguntou. Fiquei impassível. – Tudo bem, acho que você quer comer primeiro, certo? Mordi o lábio, rindo. Ele não se rendia ao meu silêncio. Nunca. Eu sempre perdia. Eu o vi sorrir de lado ao ver meu sorriso, acendendo a luz acima de nós, percebendo que havia um carro de polícia parado a alguns metros à nossa frente. Ele ficou um pouco concentrado até passarmos por eles. E o trânsito melhorou. – A gente... pode... – engoli em seco, minha voz falhou por falta de uso e pelo choro frequente. – Comer no carro? Gui olhou para mim, de rabo de olho. Eu sabia que ele queria me contradizer, mas não o fez. – Claro – murmurou. Só então percebeu que a luz ainda estava acesa e levantou a mão para apagá-la, mas parou por um segundo, com o olhar preso na estrada à frente. Ao menos era isso que eu achava. – Michie? – me chamou. Olhei-o, meio a contragosto. Eu devia estar com o nariz vermelho, um dos motivos pelo qual eu queria comer no carro. – O que houve com seu pescoço? Instintivamente, levei a mão até ele, tateando um pequeno corte, nada muito ostensivo. A faca. 16

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– Nada – sussurrei. Gui fez uma curva mais fechada e estacionou na fila do drive-thru. Eu o vi puxando o freio de mão e olhar para mim, apoiando o braço distraidamente no volante. – Michie – disse, a voz séria fazendo os pelos da minha nuca se arrepiarem. – Não posso te ajudar se você não falar nada. Concordei com a cabeça, olhando para baixo. Eu havia ligado, então sabia que agora devia algo a ele. E devia contar-lhe o que estava acontecendo. Ele suspirou, rendendo-se. Uma de suas mãos deslizou pelo meu braço, acariciando-me docemente. A outra foi ao meu queixo, adorável, fazendo com que mantivéssemos contato visual. Gui sempre me obrigava a manter contato visual com ele porque sabia que eu só cedia assim. O que eu podia fazer? Ele tinha os olhos amendoados mais lindos que eu já vira! – Sei que você odeia isso, que odeia se sentir assim – disse. – Mas sou eu, Mi. O Gui. Não sou qualquer pessoa, certo? – esperou que eu concordasse, mordendo o lábio, com lágrimas nos olhos. – Quero te ajudar, você sabe. Mas eu preciso que você facilite para mim. O carro da frente foi atendido, e Gui voltou ao volante reclamando da “péssima hora”. Fez o pedido, pagou e pegou, antes de voltar a estacionar para me encarar. Estávamos parados no estacionamento do fast-food mais perto que ele achou. Sabia que Gui estava querendo chegar ali o mais rápido possível para poder me por contra a parede, mas o trânsito o havia atrapalhado. Entregou meu lanche em silêncio, claramente observando cada detalhe do que eu fazia, enquanto eu abria e começava a comer minhas batatas. Sabia que ele olhava para o meu pescoço de tempos em tempos. Comemos parcialmente em silêncio e eu sabia que Gui estava esperando uma reação minha, esperando o meu tempo. Suspirei. – Foi no roubo – murmurei. – Ele tinha... Uma faca. Soltei um grunhido, segurando o choro. Guilherme largou de qualquer jeito a comida em cima do painel, soltando meu cinto e o 17

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dele para que pudesse me abraçar. Quando percebi, estava meio que sentada no colo dele, minha comida abandonada no banco onde eu estava sentada, seus braços envolvendo-me e acalmando-me. O nariz dele encostou-se ao meu, acariciando-o levemente. Seus olhos estavam fechados, e ele parecia tão... maravilhoso assim. A mão dele acariciava meus cabelos, na altura da nuca e a outra estava mantendo-me em seu colo, mas mais acariciando minha coxa. Eu o beijei primeiro. Não foi um beijo rápido, a posição pedia algo um pouco mais compenetrado, mais compatível com o número de anos que nós estávamos juntos. Houve um pouco mais de resistência da parte dele, preocupado demais em como eu estava, mas acabou desistindo e pegando o controle do beijo para si até que, por fim, ficássemos um pouco sem ar o suficiente para apenas encostar nossas testas. Ele continuou a mordiscar meu lábio inferior, fazendo arrepios subirem pela minha espinha. Nós dois estávamos de olhos entreabertos, passando o nariz um no outro com carinho, quando Gui escorregou a mão da minha nuca ao meu rosto, acariciando-o levemente. Os olhos dele abriram-se mais que os meus, e eu abaixei o olhar. – Me conta – disse praticamente implorando. Eu não estava preparada para esse tom de voz, e ele me desconcertou. Encolhi-me, escondendo meu rosto em seu pescoço, meu nariz estrategicamente posicionado sobre a pinta que ele tinha no pescoço, abaixo da orelha, que eu tanto adorava. Continuou a acariciar-me, passando as mãos pelas minhas costas, paciente. – Hoje de manhã – comecei, e percebi que ele suspirara, aliviado – discuti com a... – doía pensar em minha mãe, sabendo que ela não era, mas eu não sabia como dizer isso de outra forma. – ...minha mãe – sussurrei, mordendo os lábios para conter o gemido que viria a seguir. Infelizmente, fui incapaz de conter as lágrimas. – Foi muito... Ruim? – questionou. Ele devia estar me achando patética. Infantil. – Não acho que ela queira me ver mais – murmurei, agora querendo contar tudo para que ele entendesse que o problema não era 18

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tão pequeno, que eu não estava triste por bobagem. – Ela... Ela disse que... Eu sou... Adotada. Ela... Falou que... Se arrependeu. Cada pausa entoada com um soluço. Patético. Ele abraçou-me com mais força, disfarçando o choque muito bem. Suas mãos friccionavam minhas costas, como se isso fosse arrancar a dor de mim. Eu queria que pudesse. – Você devia ter me ligado mais cedo – soprou, a voz clara, mostrando que finalmente havia entendido. Que agora fazia sentindo eu estar tão mal. – Eu não queria... Ele me interrompeu. – Me perturbar com bobagens? – perguntou. Meu silêncio respondeu a ele. – Você não é bobagem, Mi, você sabe. Gui passou os dois braços pela minha cintura segurando-me com firmeza, beijou meu ombro, única área que ele conseguia beijar. – Desculpe – murmurei, sentindo-me mais idiota que antes. Ele riu, beijando meu ombro de novo. – Você não precisa me pedir desculpas, Michie – sibilou. – Mas às vezes você tem de se lembrar que sou seu namorado, sabia? Você sempre quer ser forte e independente e esquece-se de que às vezes precisa de um abraço. Funguei. Com um pouco de esforço ele conseguiu beijar meu pescoço. – Gosto de abraços – eu disse, parecendo criança. Pude sentir o sorriso dele. – Dos meus? – perguntou. – É. Riu baixinho, os braços em volta de mim, apertando-se cada vez mais. Ficamos assim por um bom tempo, e os nossos lanches estavam se esfriando sem que nos importássemos. Suspirei, com meu coração doendo de pesar. – Ela não quer mais me ver – disse baixinho. Gui suspirou, soltando uma mão da outra. Uma delas se firmou em minha cintura e a outra acariciou meu braço, tentando me acalmar. – Isso é bobagem, Michie – pronunciou. – Aposto que ela só disse isso no calor da discussão. Deve estar desesperada para te ver agora. 19

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A voz dele falhou. Gui não acreditava nisso, eu tampouco. Nossas memórias estavam bem refrescadas, ainda, de todas as vezes que meus pais me repreendiam sem motivo algum, apenas por eu não ser boa o suficiente para eles. Ou por eles estarem irritados com suas tarefas. Ou qualquer outra coisa. Meus olhos encheram-se de lágrimas e me encolhi. Quase como um imã, os braços dele apertaram-me com mais força. – Eu não quero. Não quero ir para casa – murmurei. – Por favor – engoli em seco, jogando-me para trás para olhá-lo, decidida. – Por favor, posso ficar com você por uns dias? Eu... Dou um jeito depois. Eu só... Não quero vê-la. Gui concordou com a cabeça, sem nem pestanejar. – Você pode ficar o tempo que quiser lá em casa, Mi. Sem problemas – falou. – Mas você tem de falar com ela. Conversar – segurou meu rosto ao ver que eu iria desviar os olhos. – Não quero te ver triste assim. Mantive o olhar, corajosamente. – Hoje não – implorei. – Hoje não – concordou. Dedilhou minhas costas por mais um bom tempo, em silêncio, esperando que eu me acalmasse, que me sentisse melhor. Até que eu senti os dedos dele tamborilarem em minha coxa, levemente ansiosos. – Você vai voltar a comer? – quis saber. Concordei, sem vontade. Eu sabia que ele queria voltar a comer. Com cuidado, voltei ao meu lugar, e ele me ajudou a colocar o lanche em meu colo, antes de voltar a devorar o seu. Não comi muito, minha fome havia passado. Antes que Gui pudesse terminar o dele, eu havia adormecido. Ainda senti seus lábios sobre os meus antes do carro começar a vibrar com o motor. Quando dei por mim, estava sendo levantada. Simplesmente detestava quando Guilherme me carregava por aí, sobretudo quando isso acontecia na frente dos outros, e ele estava prestes a me carregar pelo prédio inteiro. – Não – resmunguei, sem abrir os olhos.

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Ouvi-o rir, mas eu não tinha força de vontade suficiente para me afastar dele, para subir até o apartamento sozinha, então suspirei e encostei minha cabeça no ombro dele. Guilherme suspirou também, ajeitando-me em meus braços, jogando-me um pouco para o alto, ao entrar no elevador. – Ei, quer ajuda, Gui? Guilherme parou de andar, e achei que ele tivesse entrado no elevador. Passei meus braços pelo pescoço dele e encolhi-me em seu abraço. Já que eu estava sendo carregada, que fosse direito. – Não, tudo bem, Chico – sussurrou. – Mas eu queria te pedir um favor. Senti o elevador fechar a porta, mas Gui nem ao menos demonstrou encostar-se aos limites dele. – Pode falar. – É a Michie – sussurrou. Entendi que ele estava falando baixo para não me acordar. Eu estava acordada, apenas sonolenta. – Acho que ela... Não vai conseguir levantar da cama amanhã. Você pode descolar um atestado para ela? Se puder... Para mim também. Ouvi... Chico? Estalar a língua. – Qual o problema? – perguntou. Guilherme não respondeu. Não falaria nada sobre aquilo na minha frente, por mais adormecida que eu estivesse. Alguns segundos depois, Chico pareceu perceber o mesmo. – Tudo bem, passe em meu apê mais tarde para gente conversar. Ouvi um murmúrio de concordância de Gui enquanto ele me arrumava em seus braços. – Gui, me deixa andar – falei baixinho. Ele riu do meu pedido tolo, depositando um beijo em minha testa. – Descanse, Mi – sussurrou. – Já estamos chegando. Em um movimento brusco, ouvi a campainha. – Mas o quê? – Essa era a minha sogrinha que me odiava. Apertei-me no abraço de Guilherme, tentando me esconder, dormir ou algo do gênero para não ter de falar com ela. – Agora não – disse, tentando não falar muito alto. – Ela vai precisar passar uns dias aqui, mas depois a gente conversa sobre isso. 21

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Ele enfrentou a mãe dele. Foi a única coisa que eu consegui pensar, antes de sentir a superfície macia. A cama de Gui! Embaixo de mim e o perfume dele muito mais forte. – Adoro – falei em tom gutural, agarrando seu travesseiro. – Sei que você ama meu travesseiro mais do que eu – riu. Quero dizer, não o vi rindo, mas ouvi o riso em sua voz. Encolhi-me na cama, dando espaço para ele deitar na de solteiro. A mãe dele não ia gostar nem um pouco, mas nada que nunca tivéssemos feito antes. Ao perceber que havia passado tempo demais sem que a cama afundasse, entreabri um olho. – Gui? – perguntei. Ele estava de costas para mim, então virou-se e eu o vi segurando o celular. – Vem? Sorriu docemente e sentou-se na cama, acariciando meu braço. Fechei meus olhos de novo. – Vou só ligar para cancelar seu celular, tudo bem? – disse. Concordei com a cabeça. Eu adorava a praticidade dele. Mas eu dormi antes de vê-lo colocá-la em prática.

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CONTOS DE UMA FADA-A NASCENTE DAS MONTANHAS  

UM JULGAMENTO AGUARDA POR MICHELLE. SEU CRIME? NASCER. Michelle está prestes a ter sua vida virada de cabeça para baixo. Ela passa de uma si...

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