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DÉBORA S. MATTANA

Anseio SAGA:  A DISPUTA DO CORACÃO

LIVRO 1 talentos da literatura brasileira

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Copyright © 2014 by Débora S. Mattana

Coordenação Editorial Letícia Teófilo Preparação Thiago Fraga Diagramação Project Nine Capa Monalisa Morato Revisão Fabrícia Romaniv

Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo nº 54, de 1995)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Mattana, Débora S. Anseio : a disputa do coração, livro 1 / Débora S. Mattana. -- 1. ed. -- Barueri, SP : Novo Século Editora, 2014. -- (Talentos da literatura brasileira) 1. Ficção brasileira I. Título. II. Série. 14-06890 CDD-869.93 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção: Literatura brasileira 869.93

2014 IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À NOVO SÉCULO EDITORA LTDA. CEA - Centro Empresarial Araguaia II Alameda Araguaia, 2190 – 11º andar Bloco A - Conjunto 1111 CEP 06455-000 - Alphaville Industrial - SP Tel. (11) 3699-7107 - Fax (11) 3699-7323 www.novoseculo.com.br atendimento@novoseculo.com.br

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Para meu gordinho amarelo. É que você está no céu dos gatos agora...

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Família, obrigado por encorajar-me a seguir meu sonho, em especial à minha irmã, Suzan, e meu pai, Milton. Sem vocês nada disto poderia ter se tornado realidade. Amo vocês. Agradeço aos meus amigos e a todos aqueles que me escutaram e apoiaram. Vocês são incríveis e sabem disso. Alexander, obrigado por ficar naquelas madrugadas sozinho enquanto eu escrevia só mais um capítulo. Você me faz feliz. Quero, sobretudo, agradecer à Editora Novo Século, por serem acolhedores e cuidar de tudo com profissionalismo. Obrigado por acreditarem no meu sonho.

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PRÓLOGO

Quinhentos anos de desejo. Meu nome é Erick, sou guerreiro dos deuses, minha existência se resumiu a combates, guerras, jogos que os deuses querem jogar; sempre foi assim e sempre será. Cada ser é criado por uma razão, toda existência tem valor desde a mais humilde pedra ao mais majestoso diamante. E viver se resume em destino, prazer, dor, redenção, doação e amor. Quem não se conforma paga o preço, quem concorda acha seu destino. Os deuses amam seus jogos. Eles criaram o universo e o mundo que vivemos, revelaram poucas vezes suas faces para nos doutrinar e dar razão à nossa existência. Presentearam-nos com vida e querem nossa obediência. Querem que os jogos nunca acabem. O ciclo sem fim, não morremos, voltamos, e voltamos, até encontrar nosso destino final, não lembramos quem fomos, por que estamos aqui, só devemos jogar. Fiz tanta fortuna quanto meus pais e os orgulhei. Descobri tesouros e aprendi a investir corretamente meus lucros. Sou rico porque lutei. Lutei contra demônios, e lutei por tantos reis que perdi a conta. Fui recompensado por meu trabalho. Fui amado por sereias, ninfas, fadas, humanos e anjos, pensei ter amado uma princesa, tive amantes que me aqueceram e suspiraram. Entretanto, sabia que um dia encontraria minha alma gêmea, aquela que me foi destinada; contudo, devia procurá-la até que esse dia chegasse. 9

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Assim como meus pais, vivo há alguns milênios. Tecnicamente tenho dezoito anos, meus pais têm esta mesma idade. Como eu sei? Há muito tempo, no meu décimo oitavo aniversário, meu coração deu a primeira batida, e então parou novamente. Foi nesse dia que soube que um dia conheceria minha futura fêmea. Lembro-me dos meus pais me explicando que minha alma gêmea teria entre dezessete e dezoito anos, nem mais, nem menos, e que eu saberia quem era ela assim que a visse. Recordo que fitei longamente minha mãe e depois meu pai. Lembro-me de ter ficado amedrontado. Eu era jovem e não conhecia a criatura com quem os deuses me casaram. Notei dentro de mim uma falta gigante, como se já sentisse saudades dela mesmo sem conhecê-la. Minha mãe, vendo minha confusão, sorriu com gentileza e me abraçou. Sabia exatamente o que eu estava passando. Foi ela quem transformou meu pai em um ser celestial. – Erick Drago, não se apavore – disse ela carinhosamente. Fitei seus raros olhos musgo, idênticos aos meus. – Ela será sua para todo o sempre, assim como você será dela. Meu pai abraçou minha mãe com adoração. Eles se admiraram e sorriram apaixonados. Fiquei confiante. Sim! Sou um adaptado celestial, e nossa raça foi feita para encontrar as almas gêmeas. Foi o que pensei naquele momento. Meu pai esclareceu que meu coração só poderia continuar batendo quando ela me aceitasse. “E então não vai parar nunca mais”, ele disse. “E baterá ao mesmo ritmo que o dela”, os dois disseram. Eles não sabiam que minha prometida ia demorar tanto, bem como que ela não me amaria. Sou o que os deuses chamam de adaptado celestial, um ser criado por eles para que pudessem compreender o que é o amor quando dois seres que se completam ficam juntos. Somos como 10

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irmãos dos anjos, porém podemos nos adaptar à forma de qualquer outro ser abençoado pelos deuses. Copiando perfeitamente qualquer ser abençoado, no entanto, preferimos a evolução, reproduzimos a nova forma, mas com a nossa própria aparência. Se me transformar em um elfo, terei algumas de suas habilidades, suas orelhas pontudas e sua elegância. Tudo isso sendo eu mesmo. Essa adaptação serve para podermos conhecer nossa futura parceira, e conhecer os costumes de seu povo. E, quando esta finalmente decidir por nosso amor, eternizamos com um beijo. O beijo transformará apenas a nossa destinada e ninguém mais em uma adaptada celestial. Nossa adaptação serve muito bem em combates e guerras, assim como nosso corpo inteiro funciona como uma máquina que não precisa de todas as peças. Poderiam arrancar meus pulmões, que imediatamente se reconstruiriam. Não preciso que meu coração bombeie meu sangue, ele opera sozinho, é um dom que foi me dado, é quase impossível matar um adaptado celestial. Assim como os anjos e outros seres, nos intitulamos imortais, imortais na alma, mas não somos Deuses, cada criatura tem sua fraqueza e a minha maior é ela própria. Quando um adaptado encontra sua prometida, tem o prazo de um ano para conquistá-la. Mas se ela já amar outro, depois que o cruel prazo termina, a obrigação é se afastar e esperar que ela reencarne; caso contrário, ela adoece com a aproximação e morre. Se conseguir a façanha que minha prometida se interesse nem que seja sutilmente por mim, ficaremos ligados. Mais que isso, estaremos aprisionados um ao outro. Seria quase impossível para ela resistir à nossa união, e por ser minha fêmea ela me pertenceria e me deveria obediência, porém não usaria dessas artimanhas nem mesmo em desespero. Entretanto, se depois dessa 11

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ligação ter sido feita ela negar o beijo de transformação... ambos morremos. Como disse, os deuses não querem ser desafiados. Minha destinada demorou a aparecer. Na verdade, a conheci há apenas quinhentos anos. Minha querida humana, minha Megan. Ela, que não me deseja, prefere um ser mortal assim como ela. Eles sempre se encontraram em suas reencarnações que presenciei nessas últimas décadas. Tantas vezes voltou, todas as vezes me rejeitou, prefere ele, o amante patético. E como não chamá-lo de amante quando estamos destinados a ficar juntos? O dia em que a vi pela primeira vez meu coração deu sua segunda batida, e não parou até o momento em que a perdi. Foi tão rápido, procurei-a em todos os lugares da ilha, e depois de dois dias meu peito parou de bater dolorosamente. Soube naquele instante que Megan tinha morrido jovem e cheia de vida, sem nem ao menos termos a chance de nos conhecer. Em suas outras vidas me recusou, partindo meu coração e o tornando mais uma vez algo não batente. Ela quase sempre atingiu a velhice e mesmo de longe garanti a Megan todo conforto sem que soubesse. Minha maior felicidade foi saber que em nenhuma de suas vidas Megan procriou bastardos. Minha linda e doce Megan sempre retorna com a mesma aparência e com mesmo belo nome. E, assim como ela, o mortal também volta, como uma assombração, alguém que os deuses permitiram me atormentar. Ele também vem com o mesmo nome, Raphael. Meus “irmãos” adaptados dizem que Megan é uma raridade. Quase nenhuma alma volta com a mesma aparência. Os livros que li dizem que é sua alma dando forma ao seu corpo desde o útero, mas ainda não me convenceu. Enquanto espero, procuro respostas para sua peculiar raridade e rejeição. Desde que a vi sou fiel, não quero outra. E, mesmo que demore mais quinhentos anos, um dia Megan será minha. 12

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CAPÍTULO 1

Ame-me. Ano de 1907, Inglaterra. Faz um mês que dentro do meu peito escuto e sinto a batida ritmada, um mês que vago nestes becos e ruas escuras, somente com o som do eco de meus passos e a minha inabalável esperança. O óbvio fato de meu coração ter voltado a bater literalmente por ela é com certeza a maior prova de meu amor e de nossa nova chance, porque, de algum modo, Megan me enche de vida com sua presença no mundo. Hoje foi o dia em que senti mais forte a presença dela, e aquela conhecida sensação percorreu meu corpo. Podia senti-la, ela estava chegando. Foi sua presença que acordou-me. O sussurro no vento com seu nome foi o alerta de nosso novo prazo. Meus instintos iam colocando meus pés, um na frente do outro, provavelmente dirigindo-se a ela, enquanto a vontade desesperada de tê-la ia apoderando-se de todo o meu ser. Mais uma vez senti aquele temor. Uma gigante pergunta me rondava dia e noite: ela iria me abandonar novamente? E se o fizesse, pouco importava, pois em algumas décadas teria outra chance. Caminhei a noite inteira, a chuva que começou fina logo me encharcou, fazendo com que eu sentisse vontade de me abrigar na nova ferrovia. Estou parado e rodeado por borrões ambulantes, mas só presto atenção em uma coisa. O meu instinto. E ele 13

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grita para eu ficar onde estou. Então me sento no banco à minha frente e espero. Suspirei assim que notei sua presença. Erick sentado no banco da ferrovia. E como não notá-lo, como não suspirar diante de alguém que se aproxima ou até mesmo chega à perfeição? Se ao menos me notasse. Fiquei ali, contemplando-o a distância. Admirei seus vibrantes e lindos olhos, que são tão penetrantes que olhar para eles é como sentir medo de se perder em sua intensidade, e mesmo assim ansiar por essa profundamente. Tão vivos são, que juro poder sentir o cheiro de limão e couro, musgo e terra, assim como o odor da chuva misturando-se ao cheiro da grama cortada em um dia quente de verão. Ai, ai... No verde musgo vivo daquele olhar qualquer garota poderia se perder e jamais se importar. E como quero ser esta garota! Observo com cuidado seu charmoso rosto retangular e marcante. Não quero que me pegue fitando seus detalhes sublime. Minhas mãos tremem imaginando-as passar em seus grossos cabelos bagunçados e curtos, mas não tão curto. Idealizo como seria bom desfiar aquelas ondas da cor da terra escura. São quase negros, e apesar de bagunçados, parecem recém-cortados. Fito suas sutis e grossas sobrancelhas, que no momento estão curvadas como se Erick estivesse pensando em algo doloroso. Elas são da mesma cor dos seus cabelos. Seus cheios lábios são claros e convidativos, combinando com o sorriso torto e os dentes perfeitos que ele veementemente esconde com um aspecto ansioso. E, quando sorri, as covinhas em suas bochechas são mais que irresistíveis. Sei que pareço tola, mas não resisto, amo olhar cada detalhe. O seu nariz se encaixa perfeitamente com o resto de suas feições, a barba bem-feita passa um ar sexy e um tanto despojado. Quero estar abraçada a ele. Este pensamento faz meu corpo se arrepiar. Acho que Erick deve medir um metro e oitenta e sete, ou

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oito. Aparenta proteção, assim como sua pele levemente bronzeada de dourado parece poder dar calor e conforto. Ele veste uma jaqueta de couro marrom e seu jeans surrado não esconde o físico perfeito e atlético. A camisa branca com uma corrente de identificação dá a Erick um aspecto digno e enigmático. Pisquei tentando sair do transe que é olhar para ele. – Bom dia, Erick – minha empolgação era notável.

Ouvi aquela voz embargada de emoção e gentileza. Como era mesmo o nome dela? – Bom dia... Sofia – hesitante sobre este ser mesmo seu nome, resolvi sorrir para ela. A moça de olhos amendoados, cabelos castanhos presos em um coque, e vestido cinza de algodão devolve o sorriso com entusiasmo. Ela me olha provocante. Sinto um aperto que beira a piedade, se é de mim ou dela, não sei dizer. – Deseja algo, senhorita? Ela aparentou ter ficado hesitante, e sua voz mostrou que estou correto. – Não, Erick. Na verdade... Seria um prazer se... – a fala dela saiu vacilante. Olhou meus olhos e logo depois fitou seus pés. Está visivelmente envergonhada, pensei piedoso. – Quero dizer... Fiquei preocupada... Aqueles homens no bar te ameaçaram. Fiquei... Fiquei com medo por ti. Finalmente me lembrei dela daquela noite, e, sim, seu nome é Sofia. Estava bebendo sozinho, e Sofia foi sentar-se comigo. Contou-me sobre balé e teatro, e o tempo todo procurava desculpas para encostar-se em mim. Alguns homens me provocaram, visivelmente interessados nela. Isso foi uma desculpa eu para extravasar minha raiva, já que tenho o terrível mal hábito de me envolver em brigas de bar. Para o azar dos bebuns. 15

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– Agradeço a preocupação, no entanto não precisa se incomodar – disse suavemente. – Espero que não a tenham aborrecido... – ela sorriu duas fileiras de dentes perfeitos. – Não se atreveriam... – os olhos dela me fitavam com expectativa, com esperança. Como desejei ver esse mesmo olhar, mas em outro rosto. Passei a mão nos cabelos, um costume ansioso. – Disse algo errado? – indagou com tristeza. Fiz um gesto afirmando que estava tudo bem. – Se é tudo, senhorita, por favor, não me entenda mal, sua companhia é agradável, no entanto gostaria de ficar só – tentei ser gentil. Entretanto, as bochechas de Sofia ficaram rubras. Beijei suas mãos macias, e ainda, com um pouco de relutância, ela foi embora. Um cheiro delicioso de café impregnava a ferrovia, já ouvira falar da padaria dali. Levantei-me e procurei dinheiro em meus bolsos, e logo achei. Olhei para o grande relógio na parede e vi que já marcava sete e quarenta da manhã. Não percebi o tempo que fiquei vagando nem o tempo que estive sentado, o que não me soava estranho, visto que tinha deixado de apreciar insignificâncias. Paguei meu café, comprei um maço de cigarros franceses e um isqueiro. O café estava amargo e cheiroso. Café sempre dá vontade de acender um cigarro, e foi através da chama acesa nele que meus pensamentos se perderam. O trem havia parado. As pessoas desciam e abriam seus guarda-chuvas. Olhavam para o céu com irritação, embora eu não as notasse, pareciam borrões perto dela. E, apesar de sua beleza, Megan encaixava-se perfeitamente com as pessoas à sua volta. Olhei cada detalhe de Megan, em seus plenos dezessete anos, com seus perfeitos um metro e setenta. A insuperável magnitude de seus fortes cabelos negros, assim como as noites 16

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mais escuras, e tão brilhantes como as próprias estrelas, ondulam e descem como uma cascata em movimento por suas costas magras. O rosto dela tirara meu fôlego. É tão delicado e anguloso. Na verdade, cada centímetro dela me deixa sem ar e ávido. As elegantes sobrancelhas negras uniformes e levemente arqueadas, os desejosos lábios em formato de botão de rosa claro e rosado, e nele ela estampa um sorriso grande e gentil. Seu impecável nariz pequeno e perfeito, o sublime tom de sua pele ligeiramente branca e delicadamente dourada. As maçãs rosadas daquele adorado rosto, e as lindas covinhas em suas bochechas, convidam, a quem está à sua volta, a sorrir com ela. No entanto, é em seus grandes olhos que me perco. São de um castanho acobreado meigo e cheio de segredos. Ficar à mercê deles é tão fácil, pois me convidam a desvendá-los. A minha bela fêmea está fascinante usando um vestido azul-claro de seda que desce até abaixo dos joelhos, evidenciando ainda mais sua forma magra e as curvas de seu belo corpo. Ofeguei com a beleza dela, controlando todos os instintos primitivos de tomá-la para mim. Cada músculo meu se contorceu, implorando aproximação. Megan abriu o guarda-chuva vermelho-sangue e bateu graciosamente com suas sapatilhas azuis no chão. Meu coração pulsou descontrolado. Finalmente chegara a hora de nos encontramos de novo. Sorri confiante, sentindo o manifestar de um gosto ruim em minha boca, e algo que queimava entre meus dedos. – Maldição! – praguejei e sacudi os dedos. O isqueiro ainda estava aceso, e senti o gosto horrendo da fumaça em minha boca. Tomei o restante do café e apaguei o cigarro. Não queria que Megan tivesse a primeira impressão 17

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ruim, já que sei perfeitamente que detesta o cheiro do fumo. Felizmente tenho o café. Levantei-me e bati minhas vestes, a fim de tirar os vestígios de chuva. Megan está caminhando por entre as pessoas. Minha sorridente prometida está olhando para todos os lados, procurando por alguém. Por um segundo feliz pensei que poderia ser a mim quem procurava. E sim, estava quase acenando quando percebi que decerto não me reconheceria. Megan abordou uma senhora e esta a ignorou. Ela olhou-a mal-humorada, depois voltou para sua procura. Então percebeu meu olhar. E para minha surpresa caminhou em minha direção com um deslumbrante sorriso confiante. E quando seu formoso olhar achou o meu, seu sorriso se desfez. Agora nos aproximávamos. Megan com curiosidade, eu com promessas silenciosas. Minha amada mordeu levemente os lábios. Aquele simples gesto deixou-me cheio de expectativas. Permanecemos a poucos palmos um do outro. A aproximação me fez tremer, fazendo-me sentir incapaz de qualquer coisa. Céus, ela está tão perto. Quis agarrá-la ali mesmo, encher meus lábios daquela doçura, enterrar meu rosto em seu pescoço, apertar seu quadril contra o meu, sentir a maciez da sua pele. Mais que tudo eu ansiava que Megan sentisse o mesmo. A mão dela tentou alcançar meu rosto, desistindo no meio do caminho. Quando o vento moveu seus cabelos, pude sentir seu aroma de incenso de mel, palha e madeira de cerejeira envelhecida. Ela parecia tentar me reconhecer. Aquilo me encheu de esperança. – Senti sua falta – segredei a ela. Imagino que não me escutou, contudo, fiquei feliz por apenas dizer. Ficamos ali, embaixo do seu guarda-chuva, analisando um ao outro. Não contei os segundos ou os minutos que se passaram, só 18

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a admirava, como que tentando mostrar o quão foi difícil esperar tanto tempo por ela e por aquele momento. E para minha maior surpresa Megan devolvia-me o olhar com a mesma intensidade. Ouvimos a chuva cair, o chamado do trem e os ruídos distantes que deviam ser vozes. Pelos deuses, aquele momento valia a espera! – Saiam do caminho – disse um homem de chapéu de coco e terno cinza, chocando-se contra o corpo dela. Seu corpo bateu contra o meu, estremeci com o toque, sentindo uma onda de eletricidade entre nós. Meu desejo ferveu mais forte. Eu a quero, pensei possessivo. Segurei-a firme contra meu peito, ela se encaixou perfeitamente. Desejei bater no homem que a empurrou, tanto quanto quis abraçá-la. Procurei pelo senhor. Ele estava caído no chão e me olhava com uma surpresa descarada. Já eu não fiquei surpreso de vê-lo caído, meus instintos protetores se aguçavam perto dela. Ela mexeu-se inquieta em meus braços, tentando educadamente soltar-se. Poderia fingir não notar e tê-la por mais alguns instantes, mas respirei seu inebriante aroma e a soltei delicadamente. Não quero assustá-la, pensei severo para meu corpo que reagia em protesto. – Você está bem? – ela questionou. Olhei para o homem que se levantava com dificuldade. Coloquei-me na frente dela de maneira protetora, talvez possessiva, e com certa fúria falei com ele. – Ei! Você! Desculpe-se com a senhorita. O homem limpou as vestes e nos deu as costas. Megan olhava feio para o homem mal-educado. Quis rir de como a expressão de raiva ficava graciosa em seu rosto corado. Almejava beijá-la. O pensamento me assustou, não a beijaria sem contar o que era, não forçaria Megan virar um ser celestial. Tentei acalmá-la. 19

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– Sinto muito, porém devo ressaltar que o resto de nós é amigável – Megan ainda estava corada de raiva, mas sorriu para mim. – É o sorriso mais lindo que já presenciei – ela corou ainda mais, mas agora devido ao elogio. – A propósito, meu nome é Drago, Erick Drago. Pode me chamar de Erick. Peguei em sua mão e a beijei. Então senti seu sutil desejo, e meus olhos dilataram de prazer, mas este leve anseio foi tão rápido que nossa ligação não pode se firmar. Ela teve um leve, quase imperceptível, interesse por mim. Mais um pouco conseguiria a ligação. Vamos, pensei sem fôlego, estamos quase lá. Meus olhos estavam injetados de desejo e posse enquanto a fitava. Ela fixou os olhos acobreados em mim. – Notei que estava à procura de alguém – falei me aproximando mais. – Como posso ajudá-la? Ela piscou três vezes e pareceu espantar algo com a cabeça. Sorriu com gentileza como se tentasse dizer “Não me ache louca”. – Uau! Digo. Não sei por onde começar... – a voz dela era macia, delicada. Ela meio que sorria e tirava do rosto um cabelo desajeitado. – Obrigado por ter me segurado, foi muita gentileza sua. Estava à procura dos tios dele, ou um táxi, por acaso saberia onde... O pânico e o medo me fizeram recuar ligeiramente dela. – DELE? – falei desesperado. Tive de me conter para não chacoalhá-la. Tentei me controlar, passando as mãos por meus cabelos. – Por favor, não... Não me diga que... – Q... Querida. Querida, oh, o meu Deus, você está bem? – Raphael falava com dificuldade. Era como se tivesse corrido até ali, com um peso. – Vi quando aquele sujeito mal-educado esbarrou em você. Tem muita gente nesta ferrovia, e com essas malas... Fico grato por tê-la segurado, cavalheiro... 20

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Anseio: a disputa do coração  

Prestes a definir seus caminhos, Megan escolhe em qual faculdade irá estudar; contudo, o chamado inesperado de sua mãe, que vive em outra ci...

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