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Angelina

Uma biografia n達o autorizada

ANDRE W MORTON

S達o Paulo, 2011

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PRÓLOGO A TORRE DE MARFIM

Uma das armadilhas da infância é não ser preciso entender algo para senti-lo. Quando a razão se torna capaz de compreender o ocorrido, as feridas do coração já são profundas demais. Carlos Ruiz Zafón, romancista espanhol

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sala era austera e simples: carpete branco, cortinas brancas, paredes brancas e nenhum móvel, com exceção de um berço branco. Por mais de um ano, um bebê morou ali e foi cuidado por diversas babás de quinta categoria — a maioria atores e atrizes ou conhecidos desempregados que trabalhavam por três dólares a hora. A criança não sabia se a pessoa que a colocava na cama seria a mesma que a vestiria e a alimentaria na manhã seguinte. Havia dias em que a mãe, que morava em um apartamento três andares abaixo, não a visitava. Quando a mãe subia para tomar café, ela se sentava na sala com a babá, chorando e lamentando sua sorte. “Partia meu coração”, contou Krisann Morel, uma das babás, mais de trinta anos depois. “Ainda hoje me chateia. Eu realmente me importava com aquela criança.” A sala foi apelidada de “Torre de Marfim” e o bebê era visto como uma espécie de Rapunzel, menina do conto de fadas dos Irmãos Grimm que ficava presa em uma torre. Durante esse tempo, a mãe da criança nunca leu para ela, nunca a colocou na cama ou a levou ao parque. E, por um longo período, a mãe resistiu a sugestões de que as paredes do quarto da filha deveriam ser 7

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pintadas de cores vibrantes, para dar algum estímulo ao bebê. Com alguma relutância, ela deu-lhe alguns brinquedos. Essa criança era Angelina Jolie. Ela passou a viver na Torre de Marfim depois que seu pai, Jon Voight, abandonou sua mãe, Marcheline Bertrand. Quando Krisann disse a Marcheline que sua filha precisava de mais tempo e atenção, ela respondeu: “Angie me lembra muito do Jon, e agora eu não consigo ficar perto dela. É muito doloroso”. A primeira recordação que Angelina tem de sua infância é de deitar-se em seu berço e olhar o céu pela janela. Sem saber as circunstâncias, mais tarde, Angie veria a experiência como uma metáfora para sua vida. “Eu passei a vida toda olhando pela janela, imaginando se haveria algum lugar onde eu pudesse finalmente ser plena e feliz.”

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UM

Depois de me mudar para Beverly Hills, percebi que realmente poderia me casar com alguém famoso. Marcheline Bertrand

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uando Marcia Lynne Bertrand e sua família se mudaram para Hollywood, como ela e sua mãe sempre sonharam, os vizinhos de sua cidade natal, Riverdale, em Illinois, ficaram mais céticos do que enciumados. “Nós não podíamos acreditar que alguém que conhecíamos estava realmente se mudando para Beverly Hills”, lembra Marianne Follis Angarola, uma colega de Raleigh “Rollie” Bertrand. “Riram de Rollie, porque a ideia de que se mudaria para Beverly Hills com certeza parecia uma mentira dele!” Não só era verdade, mas a família, que deixou Riverdale em setembro de 1966, estava se mudando em grande estilo. Eles haviam comprado uma nova casa, com estilo de rancho, que tinha quatro dormitórios, em uma propriedade privada exclusiva nas colinas acima da Sunset Boulevard, que foi desenvolvida por Paul Trousdale no final dos anos 1950. Enquanto os pais se impressionaram com a extensão do chão de mármore e com as janelas imensas que davam vista para a piscina e para o centro de Los Angeles, e também com o quintal espaçoso da casa localizada na Arkell Drive, as crianças se entusiasmaram com a possibilidade de escrever aos seus amigos e contar que agora moravam 9

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no mesmo estado de Groucho Marx, Dean Martin e Elvis Presley. Claro que ninguém em Riverdale acreditou neles. Um boato da região conta que Debbie Bertrand enviou a seus amigos da antiga escola alguns trocados que tinha ganhado do ator Don Adams (que na época era a estrela do programa de TV Get Smart), para “provar” que ela tinha sido babá dos filhos dele. Rollie, o irmão mais novo de Marcia Lynne, rapidamente abraçou o estilo de vida hollywoodiano. Em seu aniversário de quinze anos, embora fosse jovem demais para dirigir, ganhou de seus pais uma Ferrari vermelha. Eles sabiam que o garoto ambicionava se tornar um piloto de Fórmula 1. Esse pequeno inconveniente não colocou freios nos planos do jovem não habilitado. Em seu encontro com Gina Martin, filha de Dean Martin, ele pediu para Pedro Martini, seu amigo, assumir o volante. Ele claramente gostava da vida em alta velocidade. Como seu amigo Randy Alpert, filho do músico de jazz Herb Alpert, recorda: “Raleigh era um grande garoto e um bom amigo. Nós nos divertíamos muito em ­Beverly Hills. Mulheres, carros, mulheres, câmeras, uísque, ­mulheres, strip clubs, corridas, mulheres, festas e, muitas vezes, mais mulhe­res”. Muito diferente da vida em Riverdale. À sua maneira, Marcia Lynne era muito sonhadora, até mais que isso, com relação ao resto de sua família. Como sua mãe, ela lia avidamente os tabloides, absorvendo as histórias sobre as estrelas. Era uma emoção que substituía viver no meio de tantas celebridades. No entanto, sua nova e excitante vida tinha seus custos sociais. Marcia Lynne tinha o cuidado de ocultar as origens sem glamour de sua família, falando vagamente a seus colegas da Beverly Hills High School que tinha morado em Nova York. Uma de suas colegas, Adriane Neri, lembra-se de Marcia Lynne como “calma, discreta, uma dessas pessoas artísticas à margem das coisas”. Não demorou muito para que Marcia Lynne absorvesse a máxima dominante sobre a vida em Hollywood: você pode ser quem quiser. Após graduar-se na Beverly Hills High School, em 1969, entrou para o Lee Strasberg Theatre and Film Institute e assinou contrato com a 10

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agência William Morris, para ingressar na carreira de modelo e atriz. Ela começou a assumir uma persona mais exótica, chamando a si mesma de Marcheline, que era o modo como sua avó franco-canadense, ­Marie-Louise Angelina, pronunciava seu nome. Porém, sua família ainda a chamava de Marcia. Ela começou a beber café francês instantâneo sabor baunilha e a colecionar louças francesas e outros artefatos. Só para acrescentar um frisson exótico, a família acreditava que havia um traço dos índios iroqueses na sua linhagem, que remonta às suas raízes de colonos franco-canadenses. Com seus vestidos largos, tiaras bordadas e cabelos longos, ela era uma criança-modelo para a geração hippie. Assim que deixou a adolescência para trás, algo mudou dentro dela. Mais tarde, Marcia disse a um amigo: “Depois de me mudar para Beverly Hills, percebi que eu realmente poderia me casar com alguém famoso”. Marcia Lynne nasceu em 9 de maio de 1950, filha de Lois e Rolland Bertrand. Roland tinha acabado de ser nomeado gerente do boliche de seu sogro, em Riverdale, Illinois. “Boliche era um grande negócio naquela época”, comenta o historiador local Carl Durnavich. “Todo mundo jogava boliche. Às vezes, faltavam pistas. As pessoas gostavam de jogar beisebol ou boliche.” Harvey, a cidade vizinha, era o maior centro de produção industrial do país na época; os empregos eram abundantes, o crime era inexistente e todo mundo conhecia todo mundo na pequena cidade de quatro mil habitantes. A cidade de Riverdale, onde Lois foi criada, parecia um quadro de Norman Rockwell, finalizado com cercas brancas e rosas ao ­redor da porta. Durnavich a compara com o cenário do filme ­Pleasantville – A vida em preto e branco, que conta a história de uma pequena e doce cidade idealizada, onde pensamentos e ideias incômodas e perturbadoras não existem. A vida em Riverdale era tranquila, segura e, pode-se dizer, um pouco chata. Lois June Gouwens sonhava em sair de lá, em se tornar uma estrela de cinema. O que lhe acontecia de mais emocionante era a che11

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gada semanal das glamourosas revistas sobre filmes na mercearia que ficava em frente ao bar de seus pais. Assim que as revistas eram descarregadas, ela voava até a mercearia e pegava na prateleira em frente ao balcão a última edição da Movie Mirror e da Motion Picture. Então, ela se enroscava em uma cadeira no apartamento da família, que ficava em cima do bar, e ficava vendo as fotografias de Betty Grable, Rita Hayworth, Ginger Rogers e outras estrelas hollywoodianas da época. O pai de Lois, Roy Gouwens, garantiu seu patrimônio da maneira mais difícil: trabalhando como operário na fabricação de cimento, economizou para comprar uma casa/bar que ele e sua esposa, Virginia, conhecida por todos como Jean, chamavam de Taberna Gouwens. Na comunidade, tinham a reputação de serem comerciantes justos, honestos, trabalhadores e confiáveis. Em 1941, venderam o bar à irmã de Jean e seu marido. O negócio permitiu que Roy e um sócio abrissem as dez pistas do boliche Parkview Bowling Alley no momento em que o esporte estava decolando. Filha única criada por pais amorosos, Lois tinha no quarto uma penteadeira enfeitada com um arco de lâmpadas, igual aos que ela via nas revistas, como um típico camarim de estrela de Hollywood. À noite, passava horas em frente ao espelho, enrolando e prendendo cuidadosamente seus cabelos escuros para que, na manhã seguinte, formassem uma cascata de cachos, como era moda da época. Enquanto enrolava e escovava, escovava e enrolava, Lois fazia planos e sonhava. “Um dia eu serei uma estrela de cinema”, dizia para quem quisesse ouvir, inclusive para seu primo Don Peters. Depois que terminou o ensino médio, em 1946, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, seus pais a matricularam em uma escola de modelos no centro de Chicago, dirigida por Patricia Stevens. Enquanto esperava o telefonema de um agente de Hollywood e se imaginava na capa da Vogue, Lois trabalhou como datilógrafa na loja de departamento Marshall Field, em Chicago. Até mesmo o trajeto até a cidade grande tinha um glamour artificial e um apelo cosmopolita, quando contrastado com os rostos familiares e os ritmos imutáveis da sua vila natal. Lois 12

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tinha nascido e sido criada em Riverdale, como seus pais, avós e bisavós. Seus antepassados vieram da Holanda para a América no início do século XIX. Como um peixe grande em uma pequena lagoa, Lois era bastante conhecida, pois sua família era estabelecida e abastada. Eles eram o mais próximo de uma aristocracia em uma cidade como Riverdale, onde o trabalho duro e o decoro passavam de geração para geração. Por isso, talvez não tenha sido nenhuma surpresa quando Lois começou a sair com um genuíno herói de guerra chamado Rolland “Rollie” Bertrand. Claro que não atrapalhava o fato de ele ser bonito e ter enormes e expressivos olhos azuis, ainda que não fosse muito alto. Um dos três filhos de agricultores locais, George e Marie-Louise Angelina, descendentes dos primeiros colonos franceses em Quebec, Canadá, Rolland tinha servido com distinção durante a Segunda Guerra Mundial. Ele havia lutado com o Primeiro Exército no combate sangrento da França e da Alemanha. Em novembro de 1944, foi ferido nas duas pernas durante o avanço em Reno e levado para um hospital militar na França. Ao voltar para Riverdale, conseguiu um emprego no boliche e logo depois começou a namorar Lois. O relacionamento deles foi ajudado pelo amor mútuo ao boliche e às memórias compartilhadas da Thornton Township High School, em Harvey. Quando se casaram, na igreja católica de St. Mary, em 4 de junho de 1949, Lois tinha vinte e um anos e Rollie era quatro anos mais velho do que ela. Para a sociedade de Riverdale, não era exagero dizer que aquele foi o casamento do ano. Depois de se recuperarem dos problemas e racionamentos dos anos de guerra, nada era mais importante do que o vestido em estilo colonial de cetim da noiva ser enfeitado com rendas chantili e ter uma cauda de três metros, e de haver nada menos que sete damas de honra e sete padrinhos, juntamente com um pajem e uma daminha. O fato de o pai dela ter oferecido uma recepção para seiscentas pessoas no Clube dos Trabalhadores do Aço, nas proximidades de Harvey, e um jantar de casamento e um café da manhã no Fred’s Diner, era sinal de que o boliche tinha bons rendimentos e a família possuía bastante ambição social. Até o 13

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chá de panela de Lois contou com mais de uma centena de senhoras, e as festividades foram animadas por um recital de acordeão feito por Hank Slorek. Embora não fosse exatamente a produção que Lois tinha sonhado, certamente o evento foi manchete na imprensa local. Não muito tempo depois da lua de mel de um mês do casal por Flórida e Canadá, Lois ficou grávida. Por algum tempo, depois do nascimento de Marcia Lynne em maio do ano seguinte, eles viveram com os pais de Lois, Roy e Jean, enquanto Rollie estava aprendendo os detalhes dos negócios da família. Em pouco tempo, conseguiram comprar uma casa própria. Era uma modesta casa de madeira branca, localizada na Avenida South Edbrooke, típica de uma família de classe média baixa. Se o sonho de Lois de se tornar modelo tinha sido adiado por causa do casamento e da maternidade, no ano seguinte foi completamente esquecido quando seu pai, a força motriz por trás da fortuna dos ­Gouwens, morreu de repente com apenas quarenta e cinco anos. A partir de então, Jean tornou-se a vice-presidente dos interesses empresariais da família. Rollie administrava o boliche e Lois era uma jogadora ativa na liga das senhoras, apesar de sua segunda gravidez ter dificultado sua técnica de boliche por um tempo. Em 1952, eles tiveram sua segunda filha, Debbie. Em fevereiro de 1955, a família ficou completa com a chegada de seu único menino, Raleigh. Desde então, a família de Bertrand mudou-se da casa de madeira para uma casa de tijolos aparentes na Avenida South Wabash, no lado nobre do bairro, que ocupava dois terrenos de 12 por 27,4 metros. Mesmo em um bairro em que não havia duas casas iguais, a nova casa deles se destacava por causa do tamanho. Desde que era menina, Lois não tirava os olhos daquela mansão de cinco quartos. A nova casa ficava apenas a quatro quarteirões do boliche, deixando Lois próxima da família e, mais importante, era grande o suficiente para receber sua mãe, Jean, que foi morar com eles depois de ser diagnosticada com câncer. Lois, que é lembrada como uma filha dedicada, assumiu grande parte das tarefas de enfermagem. O negócio da família também estava se 14

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expandindo. Em 1958, Rollie abriu outra pista de boliche, na Rua South Halsted, em Chicago, onde foi realizado um torneio nacional de boliche. Por causa de suas ambições como modelo, de vez em quando, Lois fazia uma aparição na passarela em eventos locais de caridade. Durante um almoço para senhoras, no verão de 1959, ela se juntou a nove modelos em um desfile de moda em benefício dos Cavaleiros de Colombo. Os convidados foram avisados de que os chapéus eram da Beverly Hats e os penteados feitos pelo salão Ye Olde Haag. No entanto, como muitas outras mães, ela estava disposta a canalizar sua ambição frustrada para suas filhas, especialmente a mais velha, Marcia Lynne. Enquanto o pai de Marcia é lembrado como um homem afável, caloroso e generoso, que gostava de beber, sabe-se que Lois era a força motriz da família, uma empresária astuta e mãe ambiciosa. Era ela quem mandava na relação, tanto em casa como no trabalho. Seu marido, passivo e apagado, não conseguia impor respeito aos filhos, como era costume em uma época em que o pai era o chefe da família. Nem o comportamento de Lois com o marido incentivava deferência para com o patriarca. “Lois era muito agressiva e direta”, lembra seu primo Don Peters. “Ela tinha o que chamamos no mundo dos negócios de uma personalidade tipo A.” Ela provocava calafrios com o olhar e sabia guardar rancor. Era uma qualidade conhecida na família como “congelamento Bertrand”. Embora Lois estivesse determinada a ter um de seus filhos no teatro ou no cinema, só Marcia Lynne estava tão entusiasmada com a ideia quanto sua mãe. Sua irmã, Debbie, sempre quis ser enfermeira. Todo sábado de manhã, Marcia Lynn e sua mãe pegavam o bonde elétrico e iam a Chicago para atuar, cantar, ter aulas de dança e fazer compras nas lojas da moda. Depois de algum tempo, Marcia Lynne assinou contrato com agências de modelos. Quando o Teatro Drury Lane foi inaugurado no Evergreen Park, em 1958, Marcia se tornou um membro da trupe de jovens. Com seus longos cabelos escuros e olhos azuis melancólicos e grandes, Marcia Lynne era vista por muitos – não apenas por sua mãe 15

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coruja – como uma jovem naturalmente bonita. “Ela era a mais bela de St. Mary”, lembra Denise Horner-Halupka, que frequentou com ela a escola católica local. Lembrada pelos colegas como calma, modesta e bonita, mas também como inexpressiva, Marcia Lynne passou pela escola sem chamar a atenção. Depois, mudou-se para a Elizabeth Seton High School, em South Holland. Há um toque de inveja nas recordações de seus colegas. Vários se lembram com rancor de ela viver em uma casa grande do lado nobre do bairro. Simpática, mas pouco ativa, ­Marcia Lynne guardava todos seus sonhos para si mesma. No começo dos anos 1960, os Bertrand pareciam destinados a continuar como uma influente família rica cujos eventos sociais, de jantares de réveillon a passeios de lazer em lugares como o lago Paw Paw, eram dignos de reportagem na imprensa local. Eles eram particularmente lembrados por seus esforços de caridade. Em agosto de 1959, por exemplo, Rollie levou um grupo de jovens arremessadores para assistir ao jogo dos Yankees contra o Chicago White Sox, na companhia do famoso Ray Schalk. Como um amigo da família explicou, era uma espécie de dilema: os Bertrand estavam bem conscientes de que eram mais ricos do que a maioria dos vizinhos, mas não queriam parecer esnobes. Eles queriam dar uma retribuição à comunidade que lhes ajudou a ganhar sua fortuna. A morte do pai de Rollie, George, em 18 de setembro de 1962, e a da mãe de Lois, Jean, apenas cinco dias depois, abalaram a rotina da família. Talvez, a família tenha conversado à mesa de jantar sobre a possibilidade de procurarem “novos ares”. Certamente, quando Rollie viajou para Oakland, Califórnia, em 1964, para um torneio de boliche, as maravilhas da vida no oeste ganharam uma nova intensidade. Não demorou muito para que os Bertrand começassem a sonhar com a vida na Califórnia. Eles viajaram de férias para o Golden State e gostaram do que viram. Claro que não foram os únicos. Milhares de jovens que se alistaram na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Coreia tinham gostado do paraíso a oeste, enquanto estavam nos acampamentos militares. Tantos 16

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haviam deixado a região que o feriado anual da cidade de Harvey também era comemorado em várias cidades da Califórnia. Vários membros da família de Jean se mudaram para o Arizona. Com a temperatura abaixo de trinta graus do lado de fora, dentro dos bares e tabernas de Harvey e Riverdale, as conversas frequentemente eram sobre como a vida poderia ser diferente na Califórnia, um lugar fabuloso de sol sem fim, com surfistas, loiras e pêssegos maduros caindo na estrada. Mais do que isso, o Golden State era um lugar para recomeçar, reinventar a vida e viver um sonho. Para a grande maioria, isso permaneceu apenas um sonho. A morte da mãe de Lois deu aos Bertrand a oportunidade de viver esse sonho. Em seu testamento, Jean Gouwens deixou todas as suas propriedades, pistas de boliches e outros empreendimentos comerciais para sua única filha. Primeiro, a família discutiu vagamente, mas depois deu maior ênfase à possibilidade de vender tudo e se mudar para oeste. A opinião de Marcia Lynne foi fundamental na decisão. Na escola, ela não contava sobre seu sonho de ser modelo, provavelmente preocupada em evitar que seus colegas rissem dela. No seio da família, a ideia de que Marcia Lynne queria seguir uma carreira de modelo e atriz era bem-aceita, para grande satisfação de sua mãe. Depois de terminar o ensino médio, ela disse que queria estudar no Teatro-Escola de Artes (hoje Escola de Teatro, Cinema e Televisão) na UCLA, que fica na Sunset Boulevard, em Hollywood. Era uma visão sedutora; Lois podia ver seu próprio sonho de sucesso no showbiz sendo realizado por sua filha. A oportunidade bateu à porta quando um consórcio fez uma oferta substancial para comprar o boliche da família. Embora Rollie e Lois planejassem se aposentar, uma oferta ajudou a cristalizar essa importante decisão (e aumentar as finanças): Rollie conseguiu um emprego de gerente no hotel Century Plaza, em Los Angeles. Assim, os Bertrand decidiram se mudar para Hollywood. Um primo de Lois, Chuck Kasha, recorda: “Eles queriam sair do negócio. Eles trabalharam duro e queriam viver o sonho americano”. 17

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Quando Jon Voight sonhava, sonhava alto. Com apenas três anos de idade, ele já se imaginava como um grande pintor. Isso fazia com que seus pais, Elmer e Barbara, sonhassem alto também. Na véspera da entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial, em 1917, Elmer, um garoto de oito anos louco por esportes, reuniu toda a sua coragem juvenil e andou decidido até um clube de golfe em Yonkers, ao norte de Nova York, para pedir um emprego como carregador de tacos. Aconteceu de ele estar no lugar certo, na hora certa. Em Yonkers ficava o local do primeiro campo de golfe nos Estados Unidos (em 1888, o imigrante escocês John Reid fundou lá o Saint Andrews Golf Club) e, em 1913, a comunidade judaica local se uniu para abrir seu próprio campo, chamado de Sunningdale em homenagem ao histórico campo de Londres. Elmer, o filho de um mineiro eslovaco, não apenas conseguiu o emprego de carregador, também se tornou o queridinho dos membros do clube, que lhe ensinaram a falar corretamente, a usar os talheres de forma adequada e os mistérios de um grande jogo de golfe. Elmer, universalmente conhecido como Whitey (branquinho), floresceu e, de acordo com Jon Voight, teria se tornado “um dos grandes” se não fosse por uma lesão que tinha nas costas. Ele acabou como profissional do clube. Era um homem garboso e animado, sempre pronto para contar uma história engraçada ou uma piada. A mulher com quem se casou em 1936, Barbara Kamp, era filha de um imigrante alemão, também apreciador de golfe, que sabia aproveitar a vida. Ela fundou a sociedade You’re a Nut Like Me1, dedicada a superar o estresse diário com humor e imaginação. “Ela era a pessoa mais amorosa e divertida que já conheci na minha vida”, recordou Susan Krak, uma amiga de longa data. Por ter tido três filhos em apenas cinco anos — Barry, em 1937, Jon em 29 de dezembro de 1938 e, finalmente, James em 1942 —, Barbara seguia uma rotina diária severa, criando sua turbulenta ninhada com um toque de disciplina prussiana. Todo domingo ela levava os três meninos à igreja católica local e, às vezes, era como pastorear gatos. O irmão 1. Algo como “Você é tão doido quanto eu”. (N. T.)

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mais novo de Jon, James, lembra: “Nós geralmente éramos os últimos a chegar. Tínhamos de sentar junto ao altar”. Ainda bem. Jon recorda: “Quando criança, eu sempre estava prestes a aprontar”. Quando não estava sonhando em se tornar um grande artista, ele passava os dias a subir nas árvores mais altas que conseguia encontrar. O mundo da imaginação começava mesmo na hora de dormir, quando Elmer chegava em casa. Por um tempo, convenceu seus filhos de que era um agente disfarçado do FBI, em vez de um profissional de golfe. Eles se sentavam em seus beliches, a cortina subia e começava a apresentação teatral de seu pai. Elmer contava infinitas histórias que inventava na hora. “Meu pai era um maravilhoso contador de histórias”, lembra Jon ­Voight. “Eram experiências mágicas. Ainda tenho vívidas lembranças da época, e acho que essas experiências tiveram em mim uma influên­ cia duradoura. Ele nos contava histórias sobre barcos e sobre o Rio ­Mississippi. Eu acho que é por isso que eu me tornei um ator, para ser como meu pai. Era emocionante ouvi-lo contando suas histórias.” A imaginação do pai e a audácia da mãe abriram um mundo de possibilidades para os filhos. James recorda: “Meu pai acordava a mim e a meus irmãos de manhã e dizia: ‘Meninos, o mundo é sua ostra’. Mamãe e papai estavam nos encorajando a superar obstáculos”. Aos seis anos, Jon já tinha superado um obstáculo ao trocar a ideia de ser pintor profissional pela de seguir uma carreira no cinema. Mais tarde, ele também flertou com a ideia de se tornar um comediante profissional. Seja qual fosse o futuro reservado para Jon e seus irmãos, na casa dos Voight havia uma paixão dominante: o golfe. Os três levavam jeito para o esporte, mas Jon e James eram excelentes. Na verdade, o nome artístico de James, Chip Taylor, surgiu durante um dos vários domingos que passou acertando os buracos dos gramados. Em uma ocasião, Jon e Gene Borek, assistente profissional do Sunningdale, jogaram em um torneio nacional para carregadores, em Columbus, Ohio. Não foi uma aventura de sucesso. “Quando chegamos em casa, no trem 19

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da Grand Central”, lembra Gene, que conseguiu uma fama fugaz como profissional do clube por ter marcado 65 em Oakmont, “tínhamos só 11 centavos. Eu tinha 10 centavos”. Embora nunca tivesse se tornado profissional, Jon atribui ao pai o ensinamento sobre o equilíbrio e a graça que um bom golfista precisa, um ponto que Elmer nunca se cansava de ressaltar com seus alunos. “O problema com as jogadoras medianas é que elas são muito preguiçosas, e o problema com os jogadores medianos é que eles são muito tensos”, era seu mantra. Além do amor pelo golfe, Elmer e Barbara também adoravam cinema e teatro. Elmer encontrava inspiração para alguns de seus contos de dormir nos filmes que via no cinema local. Jon não foi o único que foi inspirado pelo amor de seus pais às artes: James se lembra vividamente dos “calafrios” (no sentido positivo) que teve quando jovem. No final de 1940, quando tinha sete anos, seus pais o levaram para ver o musical irlandês My Wild Rose, sobre a vida do tenor irlandês Chauncey Olcott. Ele tinha relutado tanto em ir, que seus pais o levaram apenas porque não tinham conseguido encontrar uma babá. Hoje, ele agradece por terem feito isso. “Eu briguei com eles o caminho todo”, recorda. “Eu estava sentado no teatro, a música começou e meu corpo ficou quase como se estivesse pegando fogo. No final do espetáculo, eu não queria falar com meus pais. Eu só queria continuar com aquela sensação maravilhosa.” Essa sensação foi a inspiração que o levou a uma carreira de grande sucesso como letrista. Quanto a Jon, os “calafrios” mudaram do desenho e da pintura para as produções de sua escola de teatro. Embora subisse ao palco — sua mãe, professora em tempo parcial, foi sua primeira diretora quando estava no sétimo ano —, na época, ele não imaginava ingressar na ­profissão. Como seus irmãos, Jon estudava na escola Archbishop Stepinac High School, em White Plains, Nova York, e entre uma aula e outra era um cenógrafo inteligente e talentoso. “Estávamos em um lugar seguro para criar e experimentar”, lembra ele. Foi um antigo professor da escola de drama, o reverendo Bernard McMahon, agora aposentado, que 20

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convenceu Voight a passar da cenografia para o papel cômico principal de Conde Pepi Le Loup, no musical anual da escola, Song of Norway, uma opereta sobre a vida do compositor Edvard Grieg. No ano seguinte, Voight fez o papel de valete Lutz, em The Student Prince. O anuário de 1956 traz elogios: “Munido de um sotaque alemão e bigodes, Jon superou seu maravilhoso triunfo do ano passado com uma interpretação magistral do papel cômico principal da peça”. A outra protagonista era Barbara Locke, uma aluna da escola Good Counsel Academy High School (escola só para garotas), de White Plains. “Ah, ele era talentoso e carismático”, lembra Locke, que ainda recebe telefonemas de surpresa de seu parceiro daquela peça. “Ele era encantador e sempre estava muito bonito. As garotas eram loucas por ele.” Por sua vez, ele era louco pelo palco e sempre se debruçava sobre as críticas teatrais do inglês Kenneth Tynan em relação às peças feitas na West End. Ele tinha especial fascínio pelo trabalho do ator Laurence Olivier. “Eu lia e relia essas críticas, muito antes de tomar a decisão de ser ator, e ficava fascinado com a capacidade do Olivier de fazer com que grandes papéis tradicionais se tornassem vivos para o público moderno. Era intrigante o jeito como ele representava o começo, o meio e o clímax final.” No entanto, mesmo quando Jon foi para a faculdade, ainda não estava certo sobre se seguiria a carreira de ator. Em 1957, após seu primeiro ano na Universidade Católica, em Washington, D.C., ele trocou o curso de arte dramática pelo de arte, enquanto continuava a fazer cenografia. Voight, que jogava basquete universitário, projetou o símbolo que adornava o centro da quadra de basquete. Essa parte do piso está agora em exposição no Centro Universitário Pryzbyla. Centrado, ascético e pensativo, ele cultivava pensamentos de se tornar padre, mas tal ambição logo evaporou. “Eu não poderia ter feito essa escolha”, explica com franqueza. “Eu gostava demais de garotas.” Durante seus quatro anos na universidade, Voight, loiro, olhos azuis e com quase um me­tro e noventa, era suficientemente popular com ambos os sexos e foi eleito presidente do corpo discente. 21

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Depois de se formar em 1960, seu coração falou mais alto e ele voltou para Nova York para tentar a sorte como ator, e não como artista plástico. Com o bastão político prestes a ser passado de Eisenhower para Kennedy, a cena do teatro no centro de Manhattan refletia o clima de rápida transformação cultural. Os jovens atores se viam como artistas e idealistas, agentes da mudança. A ideia de correr atrás da fama e do sucesso era tratada com desdém pela nova geração de atores dramáticos, entre eles Al Pacino, Dustin Hoffman, Gene H ­ ackman e Jon Voight. O herói deles era Marlon Brando, que, após atuar na peça de Tennessee Williams, Um Bonde Chamado Desejo (A ­Streetcar ­Named Desire), em Nova York, embarcou em um avião para filmar em Hollywood e, logo depois, declarou que voltaria ao seu primeiro amor, o teatro, no instante em que a filmagem fosse concluída. Esses jovens principiantes eram idealistas, mas também eram tão competitivos como qualquer corretor de Wall Street. Hoffman comentou tempos depois: “Atores são como as mulheres. As mulheres se olham de uma maneira que os homens não fazem. Eles olham os seios, elas olham as pernas... porque estão concorrendo umas com as outras. Os atores se olham da mesma maneira”. Voight se matriculou no curso do lendário professor de teatro S ­ anford Meisner, que ensinava a arte de representar no curso Neighborhood Play. Junto com outros contemporâneos, incluindo James Caan e ­Robert Duvall, ele absorveu o ensinamento de Meisner de que “atuar é a habilidade de viver verdadeiramente em circunstâncias imaginárias”. A estreia de Voight (fora da Broadway) na peça O Oysters, há muito esquecida, no clube noturno Village Gate, localizado na Rua Bleecker, em Greenwich Village, não foi muito impressionante. Segundo um dos críticos — Voight só se lembra de que ele era de Vermont —, ele não conseguia “andar e falar”. No entanto, perseverou. Voight e seu colega James Bateman, que conheceu na Universidade Católica, desenvolveram uma comédia com dois personagens caipiras e ingênuos, chamados Harold e Henry Gibson, o último em homenagem ao dramaturgo inglês Henrik Ibsen. Bateman encenou Henry Gibson usando seu nome 22

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artístico. Mais tarde, encontrou a fama como poeta no programa de TV Rowan & Martin’s Laugh-In. Em seu segundo projeto, em 1961, Voight voltou a fazer um musical, gênero em que ele tinha se destacado durante o ensino médio. Ele foi ­substituto temporário do ator galês Brian Davies no papel de Rolf ­Gruber, um nazista que introduziu a música Sixteen Going on Seventeen na grande produção original de Rodgers e Hammerstein, encenada na Broadway, A Noviça Rebelde (The Sound of Music). Apesar de ter participado da peça por pouco tempo, Voight impressionou a atriz Lauri Peters, que interpretava Liesl, a filha mais velha de Von Trapp. Com apenas dezesseis anos, quando Richard Rodgers a escalou para o papel, em 1959, ela conheceu Voight. Lauri já era uma veterana dos palcos e tinha sido indicada para concorrer ao prestigiado Tony Award por sua interpretação. Eles começaram a namorar. ­Enquanto Voight lutava para encontrar trabalho, sua namorada tentava encontrar papéis no cinema, ao mesmo tempo em que se apresentava na ­Broadway. A atriz, loira e atraente, estrelou junto com o galã adolescente e estrela de American Bandstand, Fabian, e o veterano de Hollywood, James Stewart, a comédia familiar Mr. Hobbs Takes a ­Vacation. Apesar de ser inevitável que ela estivesse romanticamente atraída por Fabian, Voight foi quem ganhou seu coração. Lauri Peters tinha apenas entre dezenove e vinte anos quando se casou com Jon Voight, em 1962. Naquele ano, ela estrelou ao lado de cantor Cliff Richard o clássico britânico Summer Holiday, lançado no ano seguinte enquanto o marido ganhava seu primeiro papel na TV, uma pequena participação em Gunsmoke. Quando a cortina de A Noviça Rebelde se fechou definitivamente, em junho de 1963, Peters assumiu o papel de Louisette na peça A Murderer Among Us, dirigida por Sam Wanamaker, que foi encerrada logo após a noite de estreia, em março de 1964. Depois de outras pequenas participações em Naked City e The ­Defenders, Voight conseguiu seu primeiro papel no cinema em ­Fearless Frank, representando o personagem-título, uma mescla de caipira es23

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túpido com ídolo de matinê adolescente que vai para a cidade ­grande, é assassinado e ressuscitado como uma espécie de herói de quadrinhos. Ele foi mais bem-sucedido no teatro e recebeu sua primeira grande oportunidade em um aclamado revival off-Broadway da peça A View From the Bridge, de Arthur Miller, em 1965, trabalhando ao lado de Robert Duvall. Ele também conheceu Dustin Hoffman, que era diretor assistente e diretor de palco. Voight e Hoffman eram jovens, idealistas e apaixonados pelo seu ofício. Tinham grande estima pela pureza artística e, por isso, não foram facilmente seduzidos por Hollywood. Portanto, era Voight que chamava a atenção, e dinheiro. Em 1966, depois do sucesso off-Broadway, ele foi convidado para ir a San Diego, onde foi a estrela do Festival Nacional de Shakespeare (National Shakespeare Festival), no Old Globe. No intervalo entre os ensaios e a apresentação, apaixonou-se pelo romance Perdidos na noite (Midnight Cowboy), de James Leo Herlihy, sobre a improvável amizade entre um marginal de Nova York, Ratso Rizzo, e um ingênuo lavador de pratos do Texas que chega à Big Apple para ganhar a vida servindo mulheres sedentas por sexo. A “estranha” história de amor, publicada em 1965, rapidamente atingiu o status de cult. Jon colocou o livro de lado e continuou seu progresso no teatro off-Broadway e, em março de 1967, ganhou o Theatre World Award por sua performance ao lado da atriz grega Irene Papas na peça That Summer – The Fall, de Frank D. Gilroy. Mas ele não era o único jovem da família Voight que estava ficando famoso: seu irmão mais velho, Barry, estava a caminho de se tornar um vulcanólogo mundialmente conhecido e seu irmão mais novo, Chip, tinha escrito a música Wild Ting, ­gravada pelo The Troggs, que se tornou o hino do verão de 1966. Jon Voight recorda: “Fui uma das primeiras pessoas para quem ele tocou a canção, e lembro-me de cair no chão, rindo e dizendo: ‘Vai ser sucesso! Vai ser sucesso! As pessoas não serão capazes de tirá-la da cabeça!’. É uma música divertida”. Seu casamento de cinco anos, porém, não era motivo de riso. Um ator ambicioso, alto, esguio, com lindos olhos azuis e um sorriso cons24

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tante, atraía as mulheres como um raio. “Meu Deus, as mulheres adoravam ele. Elas vinham aos bastidores”, lembra Dustin Hoffman. “Elas queriam casar e cuidar dele. Ele era como um ídolo adolescente da off-Broadway.” Não foi nenhuma surpresa quando Peters e Voight resolveram se divorciar em 1967. Distância, juventude, imaturidade e tentações do sucesso tiveram um papel importante nessa decisão. Mais tarde, Voight comentou esse período de sua vida: “Você não era ninguém e de repente todo mundo quer um pedaço seu; claro que você acaba ficando com o ego um pouco inflado. Eu sempre quis fazer as coisas certas, responsáveis e trabalho de caridade, mas, em termos de atenção pessoal que recebo das mulheres, bem... o sucesso é o maior afrodisíaco de todos”. Ainda assim, naquele mesmo ano, ele se viu ofuscado por seu amigo e rival Dustin Hoffman, que foi lançado ao estrelato por seu desempenho em A primeira noite de um homem (The Graduate). Por outro lado, embora Voight estivesse ganhando nos palcos o respeito da crítica, tinha feito pouco na tela grande. “Jon era uma estrela em ascensão no cinema, mas depois de A primeira noite de um homem, Dustin passou a ser a estrela”, recorda o fotógrafo Michael Childers. “Eles eram muito competitivos, mas não eram mal-intencionados. Todos tentavam fazer seu melhor.” Quando Voight soube que o lendário diretor John Schlesinger havia concordado em filmar Perdidos na noite, o romance que tinha lido no verão anterior, ficou desesperado por um papel, especialmente quando soube que Dustin Hoffman tinha conseguido o papel de Ratso ­Rizzo. Na época, ele e Hoffman estavam trabalhando juntos na estreia americana da peça The Dwarfs, de Harold Pinter, na Companhia de Teatro de Boston. “Nos anos 1960, eu achava que os filmes não eram de nada na minha área”, lamenta Voight hoje. “Nós não tínhamos ninguém equivalente a um Kurosawa, Bergman ou Fellini. Schlesinger era o certo para mim.” Infelizmente, Voight não era o certo para o diretor inglês. Depois de testar vários atores para o papel de Joe Buck, ele se decidiu por Michael 25

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