Issuu on Google+

Para falar de crianca.indd 1

10/14/12 4:37 PM


Para falar de crianca.indd 2

10/14/12 4:37 PM


Teologia, Bíblia e pastoral para a infância

Harold Segura Welinton Pereira Organizadores

Para falar de crianca.indd 3

10/15/12 11:38 AM


Copyright © Movimiento Juntos con la Niñez y la Juventud, 2012 Título original: Hablemos de la niñez: Niñez, Biblia-pastoral y buen trato © Editora Novos Diálogos, 2012 Equipe Editorial Clemir Fernandes | Flávio Conrado | Wagner Guimarães Capa e Diagramação Olga Loureiro Tradução Flávio Conrado Wagner Guimarães Os textos das referências bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Atualizada (Sociedade Bíblica do Brasil), salvo indicações específicas. Grafia atualizada respeitando o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Publicado no Brasil com autorização e com todos os direitos reservados. Editora Novos Diálogos Rua Conde de Bonfim, 125 Cob.2 Rio de Janeiro - RJ CEP 20.520-050 Site: www.novosdialogos.com Twitter: @NovosDialogos Facebook.com/novosdialogos

Dados Catalográficos P 221p

Para falar de criança: teologia, bíblia e pastoral para a infância / organização de Harold Segura [e] Welinton Pereira -. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2012. 196p. ; 23cm.

ISBN 978-85-64181-31-1

Vários autores. 1. Igreja ----- Trabalho com crianças. 2. Crianças----Aspectos sociais. 3. Crian- ças ----- Cuidado. 4. Crianças ----- Ensino I. Segura, Harold, org. II. Pereira, Welinton, org. III. Título.

CDD 259.22

Índice para catálogo sistemático: 1. Crianças e igrejas: 259.22 2. Crianças: Vida cristã : 248.82

Para falar de crianca.indd 4

10/14/12 4:37 PM


Sumário

Apresentação, 7 PARTE I – PERSPECTIVAS PARA A TEOLOGIA CAPÍTULO 1

“Porque as revelaste”. O empoderamento da palavra frente à violência do silenciamento, 13 Nicolás Panotto CAPÍTULO 2

Efésios 6.1-4: a casa de Deus e as marcas do amor de Cristo, 29 Francisco Mena

CAPÍTULO 3 Criança e urbanidade: as praças das cidades como espaços de bons tratos da infância, 49 Jorge Henrique Barro

PARTE II – LEITURAS BÍBLICAS CAPÍTULO 4 Uma menina: vítima e redentora no meio da violência, 75 Edesio Sánchez Cetina

CAPÍTULO 5 Resistência a políticas de morte, opção pela vida dos mais vulneráveis. Releitura de Êxodo 1-2, 83 Pinky Riva

CAPÍTULO 6 Acompanhando a infância a partir de Marcos 5.21-24, 35-43, 95 Ruth Alvarado

Para falar de crianca.indd 5

10/14/12 4:37 PM


CAPÍTULO 7 Jesus e a infância: uma leitura de Lucas 18.15-17, 103 Josías Espinoza Cárdenas

CAPÍTULO 8 Jesus e as crianças moribundas: um processo de três curas, 119 Karin H. Kepler Wondracek

PARTE III – ESTRATÉGIAS PASTORAIS CAPÍTULO 9 Promoção da vida e suas dimensões, 137 Tais Machado

CAPÍTULO 10 Situações de violência e cuidado com filhos de pais divorciados (acerca de 1Co 7.14), 155 Juan José Barreda

CAPÍTULO 11 O maltrato infantil é uma tradição familiar?, 171 Malena Manzato

CAPÍTULO 12 Que nenhuma criança se perca!, 189 Ariovaldo Ramos

AUTORES, 197

6

Para falar de crianca.indd 6

Para falar de criança

10/14/12 4:37 PM


APRESENTAÇÃO

O Movimiento Cristiano Juntos con la Niñez y la Juventud é uma rede de instituições internacionais de serviço cristão cuja vocação principal é o trabalho com a infância. Dela fazem parte, entre outras, a Compassion Internacional, Red Viva, Cristo para la Ciudad, Tearfund e Visão Mundial. A esta rede internacional somam-se redes nacionais que, dependendo de cada país, estão constituídas por igrejas, instituições teológicas, organizações de serviço e redes de trabalho pastoral. Grande parte de sua inspiração vem da Fraternidade Teológica Latino-Americana e dos últimos Congressos Latino-Americanos de Evangelização (CLADEs). O trabalho do Movimento tem como um de seus principais objetivos sensibilizar as igrejas e sua liderança para o ministério com a infância. Trata-se de mostrar a centralidade da infância na narrativa bíblica, de sustentar teologicamente este âmbito da pastoral; e também de convidar a compromissos sociais concretos em prol da infância, sobretudo a que sofre os efeitos devastadores da violência, da pobreza e da injustiça. As comunidades de fé poderiam desenvolver – deveriam desenvolver – ministérios mais efetivos em prol da infância. E o Movimento quer mobilizar recursos para contribuir com este propósito. A realização de congressos internacionais e nacionais, o desenvolvimento de campanhas de sensibilização, a publicação de investigações e a edição de livros, são algumas das formas com as quais se quer contribuir para o desenvolvimento de igrejas mais comprometidas com a proteção, a participação e o desenvolvimento integral da infância do continente. A outras publicações, soma-se agora a que temos em nossas mãos. Por vários anos sonhamos em reunir um grupo de teólogos, teólogas, biblistas, pastores e pastoras em torno de um esforço comum para tratar o tema dos bons tratos na perspectiva da proteção infantil. A ideia inicial surgiu ao conhecer os números absurdos do sofrimento da infância no contexto da América Latina e Caribe. Sobre isto, diz o escritor uruguaio Eduardo Galeano:

Para falar de crianca.indd 7

10/14/12 4:37 PM


Na América Latina, as crianças e adolescentes somam quase a metade da população total. A metade desta metade vive na miséria. Na América Latina morrem 100 crianças a cada hora, de fome ou de enfermidades curáveis, mas há cada vez mais crianças pobres nas ruas. Crianças são, na sua maioria, os pobres e os pobres são, na sua maioria, as crianças. E entre todos os reféns do sistema, elas são os que pior o experimentam. A sociedade os espreme, os vigia, os castiga, e às vezes os mata. Quase nunca os escuta e jamais os compreende. São simplesmente “ninguém”1.

E a favor destes ninguéns, que na realidade são agentes protagonistas de transformação e de mudança, as diferentes comunidades de fé – católicas, protestantes ou evangélicas – poderiam se juntar, em espírito de unidade, a fim de buscar a plenitude para suas vidas. É questão de reconhecer a realidade, de compadecer-se responsavelmente por ela, de indignar-se como cristãos e de agir consequentemente como agentes do amor de Deus. Este livro foi escrito com o propósito de provocar a tomada de consciência e, a partir dela, aguçar nosso sentido de missão cristã. Os escritores e escritoras procedem de diferentes nacionalidades da América Latina, de diferentes igrejas – incluindo a Igreja Católica – e de diferentes experiências de serviço cristão. Seus enfoques sobre o tema da infância e dos bons tratos também mudam de um capítulo a outro. Por isso que se decidiu dividir o livro em três partes. Na primeira parte se encontram três capítulos que oferecem as perspectivas teológicas. Estes são textos de caráter acadêmico que abordam a temática dos bons tratos com argumentos provenientes da teologia cristã. Na segunda parte estão as que chamamos de leituras bíblicas. São cinco capítulos que se detêm principalmente na interpretação sensata de textos bíblicos que não por serem conhecidos foram devidamente examinados a partir da perspectiva da infância, da violência e dos bons tratos. Cada um dos escritores e escritoras são biblistas que dividem seu trabalho de pesquisadores e docentes com a de acompanhantes de comunidades de fé a serviço da proteção das crianças e adolescentes. Na parte final, localizam-se quatro capítulos – para completar um total de doze – que contêm estratégias pastorais muito úteis para os compromissos diaconais com a proteção das crianças, adolescentes e jovens. 1

Galeano, Eduardo. Patas para arriba. La escuela del mundo al revés. Madrid: Siglo XXI, 1998.

8

Para falar de crianca.indd 8

Para falar de criança

10/14/12 4:37 PM


A partir de diferentes ângulos fala-se, assim, do mesmo tema. A intenção foi superar a velha tendência, evidente sobretudo em algumas igrejas, de se pensar que o ministério com a infância é um assunto que concerne exclusivamente aos gestores sociais, com suas hábeis estratégias de intervenção social. Como se tudo fosse resolvido com a pragmática dos métodos! Neste livro, recorda-se, desse modo, que a fundamentação teológica, a reflexão bíblica e a consideração pastoral têm tanto ou mais importância como animadoras dos compromissos das igrejas a favor da infância. A teologia e a Bíblia se colocam aqui ao serviço da pastoral. Este é um projeto bilíngue. Todos os capítulos serão publicados tanto em espanhol como em português. Quanta falta nos fez nos aproximarmos para o diálogo e a cooperação em favor da missão! Para a edição em português, contamos com o apoio da Editora Novos Diálogos que abriu as portas para o projeto e o acolheu como coauspiciadora. Nosso agradecimento sincero à Novos Diálogos! Os autores e autoras vêm do Brasil (quatro) e de outros países da América Latina (oito). Ao lado de sua sólida formação acadêmica, todos nos brindam com a riqueza de seu testemunho como cristãos e cristãs a serviço do Reino de Deus. A todos eles e elas nosso mais profundo agradecimento pelo tempo investido em favor deste projeto. Em nossas terras, escrever é tarefa titânica que demanda sacrifícios e renúncias. Por tudo isto, muito obrigado! Estas reflexões vêm se juntar a uma iniciativa que chamamos de Teologia da Criança, dada a conhecer por meio do livro Uma criança os guiará – Por uma Teologia da Criança (Editora Ultimato, 2010), que reuniu vários autores e autoras brasileiros no sentido de produzir subsídios para um compromisso maior com a criança e o adolescente em nossa sociedade. Jesus se indignou com seus discípulos quando viu de que maneira eles afastavam as crianças, dizendo que queriam lhe proteger. Jesus indignou-se e lhes disse: “Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o Reino de Deus” (Mc 10.14). Este livro quer contribuir para esse mesmo fim: o de permitir que as crianças se aproximem de Jesus, doador da vida plena, e de nos converter assim em melhores imitadores e imitadoras do Mestre. Harold Segura e Welinton Pereira San José, Costa Rica | São Paulo, Brasil Outubro de 2012

Para falar de crianca.indd 9

10/14/12 4:37 PM


Para falar de crianca.indd 10

10/14/12 4:37 PM


PARTE I

Para falar de crianca.indd 11

10/14/12 4:37 PM


Para falar de crianca.indd 12

10/14/12 4:37 PM


Capítulo 1

Nicolás Panotto

...porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. — Lucas 10.21 Maturidade do homem: significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar. — Friedrich Nietzsche

O grupo já estava de volta com evidente entusiasmo. Os setenta e dois tinham sido enviados como obreiros para o campo que já estava pronto para a colheita. Milagres incríveis, encontros inesperados e grande sucesso os esperavam no caminho. Foram enviados como portadores da promessa do reino, essa realidade tão esperada pelo povo que já não se encontrava nem ausente nem situada num futuro incerto. Estava ali entre eles e elas, como uma antecipação vívida, manifesta nas vidas transformadas e na aceitação amorosa do povo. Era a promessa cumprida do reino de Deus, conceito teológico medular na vida de Israel, acontecimento ansiado por gerações. Ali estava, presente entre a humanidade, encarnado na pessoa de Jesus. A alegria dos recém-chegados fazia-se sentir. A experiência havia sido mais que gratificante. Podemos imaginar o momento: todos juntos, saudando-se calorosamente, com um grande rebuliço de fundo, resultado

Para falar de crianca.indd 13

10/14/12 4:37 PM


das conversas espontâneas e entrecruzadas daqueles que se encontravam e compartilhavam apressadamente o que viveram. “Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!” (Lc 10.17), diziam com assombro e surpresa. Jesus mesmo não pôde segurar a alegria. É assim que esta passagem evidencia um acontecimento pouco comum nos Sinóticos: Jesus dirige-se diretamente ao Pai para dar graças e render louvores por ter se revelado desta maneira tão surpreendente em e através de seus seguidores. Mas antes disso, Jesus lança uma advertência, seguramente para acalmar os ânimos diante de tanta adrenalina. “Sim, vocês viveram experiências que poucos têm o privilégio de ver. Mas cuidado. O mais importante é que são salvos”. Esta breve, mas contundente resposta, vista no contexto geral da passagem, reflete um dos símbolos teológicos mais importantes do livro de Lucas. Os setenta e dois – número representativo da totalidade das nações – foram salvos. É a realidade do reino de Deus: salvação para todos os povos através da transformação, da cura, do amor e da esperança escatológica. Esta advertência assume um tom especial na oração dirigida ao Pai. Tudo o que eles tinham vivido, tudo aquilo pelo qual se alegravam e se vangloriavam, havia sido escondido dos sábios, dos conhecedores da lei e dos líderes religiosos da época. Ao contrário, “as revelaste aos pequeninos”. Esta frase, talvez, não soasse estranha aos que ali estavam (contrariamente à maioria dos comentaristas contemporâneos que simplesmente passam longe desta menção). Os pequeninos e pequeninas de Deus representavam um conceito central na teologia de Israel. As crianças eram vistas como “voz da divindade”, tanto na tradição judaica como na religiosidade da antiguidade greco-romana. Frente a tal “acontecimento teológico”, Jesus contrapõe duas lógicas em seu discurso: a dos sábios e entendidos – supostos conhecedores de toda a complexidade escriturística e histórica dos documentos religiosos – e a das crianças. Os primeiros representam a razão, inteligência, cálculo, controle, todos eles adjetivos que definem o ápice da suposta maturidade que permite falar com objetividade, determinação, inteireza e direito do próprio Deus, neste caso. Mas ao final, os eleitos para receber os mistérios divinos são as crianças. Jesus os situa como exemplo, como sujeitos teológicos, como chave de revelação. Este último também se reflete na imagem da infância como exemplo do reino de Deus, que Jesus utiliza em várias ocasiões (Mt 18.1-2, 19.13-

14

Para falar de crianca.indd 14

Para falar de criança

10/14/12 4:37 PM


14, Mc 10.15-16, Lc 18.14-17). Interpretou-se esta metáfora de diferentes maneiras: como uma atitude pessoal, um lugar social, uma característica pessoal, entre outras. Mas é precisamente o contraste explicitado nesta passagem que nos mostra uma melhor compreensão de seu significado. Usar a imagem da infância é fazer uma inversão irônica da rigidez da Lei, que não requer das crianças seu seguimento ou cumprimento. Desta perspectiva, poder-se-ia dizer que Jesus ressignifica a noção de reino como uma realidade que ultrapassa o cumprimento de um padrão religioso e, consequentemente, de uma maneira particular de ver a Deus, centrada na interpretação de homens adultos. Como conclui Judith M. Gundry-Wolf (2008), a expressão “como uma criança” significa “como alguém que é totalmente dependente da graça divina”. Os textos bíblicos não são apenas histórias que descrevem uma sucessão de fatos, tal como sustenta a cosmovisão ocidental. Ao contrário, são acontecimentos que possuem um significado simbólico bem profundo. O que significa, então, ver a Deus da perspectiva das crianças, e não da perspectiva dos que supostamente possuem a autoridade – moral, espiritual, institucional, acadêmica – para fazê-lo? Podemos concluir que estas duas lógicas presentes na passagem representam em si modos distintos de ver a Deus. E não nos referimos apenas a imagens ou discursos específicos mas, para além disso, a formas diferentes de se aproximar do divino. Em nosso artigo, refletiremos brevemente sobre a presença deste “contraste de lógicas” em nossas sociedades e igrejas hoje, mas não apenas a partir da ausência de certas ideias ou conceitos específicos mas, mais enfaticamente, sobre os silenciamentos violentos, sistêmicos e impostos sobre a infância e sua própria “lógica”. Isto não apenas para falar de Deus mas para uma autocompreensão e compreensão de seu lugar na história, já que dito “silenciamento teológico” implica também um silenciamento da própria infância. Por que? Porque na maneira como discursamos sobre Deus, também o fazemos sobre nós mesmos. A teologia – como todo tipo de discurso – não é a descrição de um objeto isolado mas de uma experiência, onde entram em jogo muitos fatores – a pessoa, o contexto, os discursos, os valores, as compreensões do divino etc. Por isso, anular a importância teológica da infância por acaso não significa também a anulação mesma de seu lugar em nossas igrejas e sociedades? Invertendo a fórmula: a abertura do discurso teológico não significará uma maneira de reivindicar o lugar

“Porque as revelaste”. O empoderamento da palavra frente à violência do silenciamento

Para falar de crianca.indd 15

15

10/14/12 4:37 PM


social deste grupo e resistir aos mecanismos de violência que silenciam e legitimam experiências de opressão e abuso?

Vozes afônicas e surdez crônica? Partamos de uma ideia central: silenciar a infância teologicamente implica escapar de uma visão de Deus, de igreja, da vida, da fé, da espiritualidade, às quais se contrapõem certos discursos, mandatos e práticas comuns dentro de nossas construções religiosas, e que parte, precisamente, de uma cosmovisão adultocêntrica. Em outro texto, defini esta “lógica adulto-cêntrica” da seguinte maneira: “Representa-se a vida do adulto, entre outras coisas, com a maturidade, a frieza nas decisões, a superação das instabilidades, a semeadura da razão, a efetividade dos resultados. E é na rigidez destes estereótipos onde muitas vezes perdemos a surpresa da espontaneidade, o frescor do contato dos corpos e a riqueza de caminhos que abrem nossa liberdade intrínseca. Em outros termos, nos esquecemos da condição lúdica que caracteriza a vida social e humana” (Panotto, no prelo).

Esta tensão lógica à qual nos referimos é o reflexo de fatores sistêmicos presentes em nossa sociedade. O silenciamento da infância – e com isto não nos referimos apenas a uma ação de coerção mas também à ausência de imaginários, lógicas, discursos e práticas que os façam presentes em voz e corpo – é sintomatizado na falta de outros tipos de lógicas alternativas às adulto-cêntricas. A emergência de uma lógica alternativa implicaria o questionamento do que é considerado seguro, natural, estabelecido e supostamente benéfico para a ordem social, entendida a partir das imagens da objetividade da razão, do progresso da história e do ordenamento das diferenças de gênero e de idade (neste sentido, a evolução do “quase adulto” para a “maturidade adulta”). É aqui onde entram em jogo os mecanismos de violência, que têm um duplo propósito. Por um lado, legitimar a preponderância de uma ideia e uma lógica (no caso, o adultocentrismo); e por outro, calar qualquer voz alternativa que possa chegar a questioná-las. A partir do que foi exposto, podemos dizer que todas estas ações partem de um ideário estabelecido que tenta se guardar de todo ataque possí-

16

Para falar de crianca.indd 16

Para falar de criança

10/14/12 4:37 PM


vel. No caso das igrejas cristãs – e tal como mencionamos –, resguardam-se sob mantos teológicos e eclesiológicos que permitem a legitimação destas percepções inquestionáveis. É assim que se exercem diferentes tipos de silenciamento, tanto no campo discursivo quanto no institucional.

Deus, o grande patriarca Já sabemos que existem diferentes imagens de Deus. Mas de onde elas vêm? Deus decide se revelar através da história. E é nela onde adquire seus nomes, que descrevem experiências, encontros e características, mas que são apenas nominações parciais, já que o divino é sempre o “totalmente Outro” (Karl Barth). Nenhum discurso pode descrevê-lo de maneira definitiva. Portanto, ninguém pode se assenhorar do conhecimento total de Deus. Jürgen Moltmann (1977: 59) adverte que o “fracasso original do religioso [se reflete na] divinização do coração humano, das sacralizações de certos lugares na natureza e de certas datas no tempo...”2. Esta dinâmica se torna ainda mais perigosa quando não reconhecemos tal instância histórica e contingente da teologia. Por um lado, tendemos a absolutizar nossos olhares particulares e com isso impô-los como verdades absolutas a todos e todas, como descrição da única Verdade existente. Por outro, e é o ponto mais lamentável, utilizamos o nome de Deus para legitimar práticas de opressão e violência. Daí que, como diz Martín Gelabert (1990: 142), “Hoje, talvez a questão não seja tanto: Deus, sim; Deus, não; mas: Qual Deus? Diante de qual Deus nos movemos? Que deus nos seduz?”. A imagem de Deus na tradição cristã – como em boa parte das principais religiões do mundo – tem estado atravessada por uma visão masculina e adulta. A ênfase em tal universo simbólico implica não apenas uma visão restrita do divino mas também a legitimação de uma ordem social, na qual o homem é o pater familias, assim como Deus é “Pai”. Isto leva à legitimação da ordem social através de sua terceirização teológica3. Esperanza Bautista diz o seguinte a respeito deste “jogo hermenêutico”:

2 3

Ver também Bonhoeffer (1999: 50-56). Defino esta ideia em Panotto (2011).

“Porque as revelaste”. O empoderamento da palavra frente à violência do silenciamento

Para falar de crianca.indd 17

17

10/14/12 4:37 PM


... esta linguagem masculina parece esquecer que o crente não fala apenas sobre Deus, mas também e sobretudo fala com Deus. Quando falamos sobre alguém, estamos designando um sujeito ou realidade concreta à qual nos referimos e à qual atribuímos algumas qualidades. Isto significa que objetivamos um “tu” partindo de algumas experiências sensíveis que são iguais para todos, porque, no fundo delas, se encontra esse “tu” que é primariamente nosso interlocutor (1993: 111).

Em resumo, partindo da proposta de Bautista, o silenciamento da infância parte da objetivação desse “tu” masculino da imagem divina. E não de qualquer imagem, mas a de um homem, adulto, que requer uma ordem, emite juízos determinantes, que tudo controla, que é cabeça de uma hierarquia (familiar, eclesial e pública). Esta masculinização do divino foi denunciada por muitos/as teólogos/as, que veem nisto um marco discursivo e ideológico que não faz mais que subordinar o papel das mulheres e das crianças a uma posição de inferioridade em relação ao homem. Esta visão teológica silencia toda voz dissidente. Um tipo alternativo de discurso ou lógica, tal como seria a da infância, não apenas questionaria esta visão teológica como seria uma maneira de compreender o sócio-econômico (onde existem tarefas determinadas para homens, mulheres e crianças, segundo seu lugar dentro do sistema de produção), a família (onde o homem é “cabeça”, e a mulher e filhos submetidos a ele) e o eclesial (onde os cargos de liderança pertencem aos homens, enquanto as mulheres se calam e as crianças desenham no salão anexo) (Millar-McLemore, 2001).

“Isto é assunto de adultos” A imposição desta visão adulta e masculina do divino traz como resultado o silenciamento das crianças como sujeitos ativos na elaboração teológica. Já sabemos que os discursos representam modos de construir e compreender a realidade. Assim, os tipos de linguagem e os modos de criação significante determinarão a maneira de abordarmos o que nos cerca. Mais ainda, tal construção também define nosso lugar em tal espaço.

18

Para falar de crianca.indd 18

Para falar de criança

10/14/12 4:37 PM


Neste sentido, as formas vigentes de construir teologia têm relação direta com a legitimação de uma lógica particular, ou seja, o adulto-centrismo imperante. Já sabemos que, geralmente, associa-se a teologia a uma tarefa centrada na razão mais do que a outros elementos de nossa corporalidade, a uma função apologética e explicativa mais que experiencial, e a um propósito institucional e acadêmico mais que participativo e comunitário. Em outras palavras, o exercício da teologia serve – não apenas em seu discurso mas também em sua epistemologia – à manutenção de um lugar de poder, no qual quem é dono dos recursos discursivos é dono da verdade que define a realidade e o controle do divino sobre ela. Integrar as crianças no fazer teológico significa um questionamento da lógica adulta que mantém a ordem e a estabilidade institucional dos poderes sociais e religiosos. Significa dar voz a um dos setores mais marginalizados de nossa sociedade, o que denuncia e desarma uma prática de poder e domínio por parte dos adultos, especificamente dos homens. Implica, também, ressignificar as formas com as quais construímos nossas percepções da realidade para dar-lhe sentido. Em outros termos, dar lugar à infância é aceitar o jogo como caminho para construir a vida, as ideias, as percepções e os lugares. E se há algo que caracteriza o jogo é a centralidade da diversão, o lugar do estético e os movimentos espontâneos. Os exercícios lúdicos questionam as regras estabelecidas. Dispõem o corpo como espaço central do movimento, em contraposição à estratégia da razão. Por meio destes deslocamentos corroem-se os fundamentos que sustentam o domínio e o poder dos discursos que tentam fechar a compreensão do divino. Como resume Edesio Sánchez: Em seus jogos, as crianças inventam palavras, mudam a sintaxe, faz o discurso social dos adultos em pedaços. Nisto se parecem com os poetas (...) se concentram mais nos sentimentos do que na razão, apelam mais ao lúdico que ao produtivo, funcionam como palavra profética pois subvertem o mundo por demais “conhecido” e fácil de predizer. No jogo e na poesia criam-se novas linguagens, e a metáfora ocupa um lugar privilegiado (2007: 78).

“Porque as revelaste”. O empoderamento da palavra frente à violência do silenciamento

Para falar de crianca.indd 19

19

10/14/12 4:37 PM


Uma eclesiologia do jardim de infância O silenciamento discursivo e teológico da infância se situa em uma estrutura institucional que o favorece. Por isto, atividades, formas, organizações e hierarquias representativas de uma comunidade eclesial têm relação direta com estas dinâmicas. Mais ainda, as formas institucionais não são apenas o resultado dos tipos de discursos que desenvolvemos anteriormente mas são em si mesmos mecanismos para criar percepções, moldar ideias e sustentar estigmas. As crianças possuem um lugar marginal em nossas igrejas. O fato de que existam atividades orientadas para elas não implica que possuem um reconhecimento apropriado dentro da estrutura geral da igreja. Ditas atividades representam, antes, espaços de jardim de infância para mantê-los distraídos enquanto os adultos e as adultas se ocupam das coisas mais importantes e sérias. Parece que se quer mantê-los escondidos, sem visibilidade, reclusos cuja presença colocaria em perigo o estabelecido. Novamente, estes modelos eclesiológicos reforçam uma série de demarcações que legitimam dinâmicas de poder e lógicas de significação da realidade social, e promovem uma perspectiva englobante da infância, com todas as suas consequências: marginalização infantil, promoção da violência, abuso sexual etc. Neste sentido, Harold Segura chama a atenção para as mudanças nas dinâmicas pedagógicas das igrejas em relação à infância, especialmente nas Escolas Dominicais. Hoje acontece frequentemente que, quando se pensa nos mais pequenos, privilegiam-se as ações evangelizadoras (em seu sentido proselitista) sobre as diaconais; presta-se mais atenção ao ensino doutrinal (em seu sentido dogmático) que à formação integral; defendem-se seus valores religiosos (em seu sentido moralista) mas se descuidam seus direitos humanos básicos; acentua-se a instrução para seu comportamento eclesial (em seu sentido confessional), mas se desvirtua a formação para sua participação social (2006: 22).

Desta maneira, as igrejas reforçam os mecanismos sociais de violência e segregação em função da carência de um trabalho integral com a infância, que permita um desenvolvimento que empodere e ressignifique seu lugar

20

Para falar de crianca.indd 20

Para falar de criança

10/14/12 4:37 PM


no mundo. Estas dinâmicas institucionais (neste caso, educativas) colaboram para o aprofundamento e a estigmatização – ou seja, influenciam no desenvolvimento pessoal à médio e longo prazos – da estratificação naturalizada que coloca os adultos acima das crianças, os homens acima das mulheres e o institucional sobre o possivelmente novo e transformador. O que aconteceria se as crianças tivessem um lugar de protagonismo nas liturgias e nas pregações? Como influenciariam os diferentes tipos de ensino que não sejam apenas exposição de histórias bíblicas e transmissão dogmática? Por que não se criam instâncias onde as próprias crianças possam narrar suas histórias, reconhecidas como exercícios teológicos centrais para a vida da igreja? O que devemos mudar como adultos em nossa maneira de compreender Deus, a fé, a espiritualidade e a igreja para não continuar legitimando teologicamente estas (des)ordens sociais que subjugam a violência e a estigmatização infantil?

De jogos que se fazem escutar Mencionamos apenas alguns exemplos de como se exerce um silenciamento da infância dentro de nossas igrejas: em nossas concepções de Deus, em nossos exercícios teológicos e nas formas de organização eclesial. A partir daqui, queremos ressaltar dois elementos importantes. Em primeiro lugar, devemos considerar que na medida em que evitemos pensar Deus da perspectiva da infância seguiremos legitimando os estigmas que servem à situação de opressão e abuso em que vivem milhões de crianças. Invertendo esta afirmação, na medida em que incluamos teologicamente a infância em nossos discursos, imaginários e práticas, ofereceremos um espaço de empoderamento e transformação sócio-cultural. A teo-logia é um ato de apalavramento. E o que nominamos nela, o fazemos a partir dos recursos que nosso contexto coloca à nossa disposição. Em outras palavras, ao discursar sobre Deus também discursamos sobre nós mesmos, nossos lugares, nossos desejos, nossos limites. Por tudo isto, considerar a infância no apalavramento de Deus é uma forma de apalavrar sobre as próprias crianças, com o objetivo de lhes dar um espaço de sentido, de localizá-las em um lugar central na criação de percepções, de revogar o estigma que legitima os atos de violência que as afeta. Aqui, o lugar eman-

“Porque as revelaste”. O empoderamento da palavra frente à violência do silenciamento

Para falar de crianca.indd 21

21

10/14/12 4:37 PM


cipatório e social que possui a teologia enquanto exercício que nos permite ver “além”, através do encontro com o divino, para evidenciar nossas circunstâncias e lhes dar um sentido novo e transformador. Em segundo lugar, e em conexão com o ponto anterior, mudar estas circunstâncias requer não apenas lidar com as consequências que sofrem nossas crianças mas ir à raiz do problema: o adulto-centrismo patriarcal que sustenta os atos de abuso, as hierarquizações institucionais, as estratificações sócio-econômicas e os discursos absolutos. A infância é a representação da noção de processo, de abertura para aquilo que ainda está em devir, do poder do espontâneo. Incorporar esse frescor em nossas teologias e formas institucionais nos dará a possibilidade de nos abrirmos aos processos necessários de questionamento de discursos e práticas que promovem a violência – simbólica, física, discursiva, sexual, social, econômica, religiosa – contra as crianças. Deus se revelou a elas e nelas. O que devemos fazer para que estas vozes, já presentes mas silenciadas por nossas surdez crônica, sejam escutadas? O que devemos mudar em nossas próprias percepções absolutizadas como adultos para nos abrirmos à surpresa dos gestos de nossas crianças?

Aprender a jogar Uma visão racional, adulto-cêntrica e dogmática do teológico leva a uma visão fechada, moralista e pouco dinâmica de Deus. E com isto não nos referimos unicamente à teologia acadêmica dos profissionais. Falamos da teologia que construímos na igreja, através das pregações, das liturgias, dos espaços educativos, presentes na cotidianidade de cada crente. Assim, como já mencionamos, esta visão do divino também implica uma compreensão determinada da história e suas complexidades. Da perspectiva particular com a qual estamos trabalhando neste artigo, esta visão do teológico é intrinsecamente violenta já que, em seu determinismo, corrói a liberdade humana e legitima um ordenamento social que subalterniza os grupos mais vulneráveis, principalmente a infância. Frente à (i)lógica do racional impõe-se o processo do jogo. Como já dissemos, isto não tem a ver apenas com uma prática específica da infância mas com uma forma diferente de ver o mundo e a realidade. A isto se

22

Para falar de crianca.indd 22

Para falar de criança

10/14/12 4:37 PM


referia Jesus quando disse aos que enviou sobre “ser como crianças”. Os jogos divertem, abrem a imaginação, promovem o movimento do corpo, permitem sonhar e, com isso, abrir à novidade transformadora da história tais como os milagres, os encontros e as surpresas da jornada dos setenta e dois enviados. Desta maneira, Deus se apresenta de uma maneira fresca e, também, sua revelação: diante de uma visão linear da história, ela se transforma em um campo desconhecido de múltiplas possibilidades; diante da rigidez da razão, promove os movimentos infinitos de todo o corpo; diante do dogmatismo e do moralismo, promove a liberdade impressa nos processos constantes da vida. Rubem Alves o descreve desta maneira: No jogo, o homem encontra significado, e portanto, diversão, precisamente no fato de suspender as regras do jogo da realidade, que lhe convertem em um ser sério e em constante tensão. A realidade nos deixa doentes. Produz úlceras e depressões nervosas. O jogo, entretanto, cria uma ordem por meio da imaginação e, portanto, produto da liberdade (1976: 112).

Seguindo os movimentos da música Fazer teologia como um jogo implica mudar as regras da sua produção. Em outros termos, romper com a função legitimadora do teológico com respeito às diversas estigmatizações sociais e práticas de violência, significa a transformação na direção de um exercício que inclua diversas maneiras de construir discursos e, portanto, a inclusão de outros grupos sociais, culturais e etários. Como dissemos anteriormente, apalavrar Deus significa apalavrarmos nós mesmos. Assim, ressignificar o exercício teológico em seu formato adulto-cêntrico significa abrir um espaço de dignificação da infância, de construção de seu lugar social, de desmascaramento de suas problemáticas e estigmas. Para os primeiros cristãos e cristãs a teologia estava longe de ser um acúmulo de dogmas ou o exercício especulativo de um punhado de escolhidos. Estas mutações foram acontecendo posteriormente, como decorrência do estilo apologético que foi adquirindo seu exercício, e na medida em que a igreja foi entrando pouco a pouco em certas con-

“Porque as revelaste”. O empoderamento da palavra frente à violência do silenciamento

Para falar de crianca.indd 23

23

10/14/12 4:37 PM


figurações sócio-culturais que transformaram sua constituição de uma comunidade de diáspora em uma hierarquia territorial. Antes que tudo isto acontecesse, os discursos teológicos não pretendiam ser dogmas pré-establecidos mas explicações pontuais de experiências específicas. Daí que, em seus primórdios, a teologia estava composta de uma pluralidade de discursos, com um estilo experiencial e impressa na dinâmica de uma comunidade. Existia também uma estética teológica bem marcada através de certos símbolos artísticos que atuavam como evidências metafóricas do atuar divino, assim como práticas rituais comunitárias que expressavam por si mesmas um forte conteúdo teológico. Em outras palavras, o estético, o visual, o gráfico, o corporal, o plural, eram elementos característicos da teologia cristã em seu início. Poderíamos dizer, então, que a teologia das primeiras comunidades possuía uma forte marca doxológica, ou seja, um marco de significação que apelava a um espaço de imaginação composto por toda a comunidade. Jürgen Moltmann a descreve assim: No primeiro aspecto, a teologia cristã é, em efeito, a teoria de uma praxis que transforma a miséria: teoria da pregação da comunidade, dos serviços litúrgicos e das ajudas. No segundo, ao contrário, a teologia cristã é, ao mesmo tempo, alegria transbordante de Deus e jogo livre de pensamentos, palavras, imagens e cantos com a graça de Deus. Sob o primeiro aspecto é uma teoria de uma práxis; sob o segundo, pura teoria, isto é, contemplação que transforma o contemplante em contemplado. Doxologia, portanto (1981: 138)4.

Por tudo isto, assumir o lúdico da teologia significa abrir um espaço de inclusão dignificante de diversos atores e atrizes, em especial a infância. É evidenciar que por trás da rigidez do exercício racional e dos dogmatismos moralistas se promove uma imagem violenta de Deus, que privilegia um sujeito e a submissão de outros. A inscrição desta dinâmica de opres4 Evangelista Vilanova diz a respeito: “A linguagem do símbolo com sua precisão teológica, recupera assim uma carga dinâmica de inovação e de doxologia: como expressão de fé, não tem como finalidade revelar-nos uma significação conceitual, mas fazer-nos experimentar o caminho ao Pai” (1977: 47).

24

Para falar de crianca.indd 24

Para falar de criança

10/14/12 4:37 PM


são serve como um marco que legitima formas de abuso e poder – tanto na igreja como na sociedade em geral – , e põe uma venda nos olhos que impede de ver as consequências atrozes que possuem estes mecanismos em relação aos grupos mais vulneráveis.

Comecemos em casa… Alinhavamos, ainda que de forma muito sumária, uma série de elementos que não podem estar desconectados se queremos trabalhar como igreja nas raízes da exclusão da infância, entendendo tal situação de uma maneira ampla e como uma realidade de violência e abuso patente de diversas maneiras. Começamos afirmando que uma das maneiras de legitimar a violência contra a infância é, principalmente, seu silenciamento. E isto não apenas de forma direta ou coercitiva, mas através da construção de um imaginário social que posiciona no centro o adulto e seu “logocentrismo” racional, estruturado e calculador. Tal imaginário adulto-cêntrico silencia a presença de outras lógicas, especialmente a da infância, abrindo a porta para a legitimação de práticas violentas e de abuso de todo tipo contra os mais pequenos. O adulto, ápice da maturidade e do controle, não pode ser questionado em sua posição de poder. Depois tentamos mostrar como esta lógica adulto-cêntrica encontra seu correlato teológico, e suas consequências, nos discursos e práticas eclesiais relacionados à infância. A imagem de Deus como adulto, homem, severo, juiz, dogmático, não faz mais do que reforçar os imaginários em torno das ordens sociais e etárias de nossa sociedade. Tal compreensão teológica não se relaciona apenas com o conteúdo da definição do divino, mas com as formas de construí-lo. Neste sentido, continua-se reforçando tal visão ao colocar o adulto maduro, racional e sistemático como o único sujeito teológico. Por tudo isto, se a igreja cristã deseja se comprometer com os problemas que afetam milhões de crianças, isto não se alcançará através de atividades eclesiais centradas neste grupo ou com projetos que repercutem sobre as evidentes consequências. Requer-se ir ainda mais fundo: transformar nossas imagens de Deus e o fazer teológico como o caminho para questionar os imaginários sócio-culturais que facilitam tais ações e condutas. Subverter a construção teológica desta perspectiva implica visibilizar a

“Porque as revelaste”. O empoderamento da palavra frente à violência do silenciamento

Para falar de crianca.indd 25

25

10/14/12 4:37 PM


própria infância como grupo discriminado, pôr sobre a mesa suas problemáticas e promover ações concretas na busca da solução. Como afirmam White, Willmer e Bunge: A teologia das crianças funciona como corretivo para esta marginalização ou invisibilidade das crianças no pensamento mais generalizado. A teologia das crianças sustenta que nós cristãos devemos seguir a Cristo e colocar as crianças em nossa elaboração teológica, porque isto é inerente à nossa fidelidade e nos une aos seguidores de Jesus (2011: 23).

Esta ressignificação teológica implica como resultado uma transformação da própria igreja. Ela necessita recobrar a noção de comunidade no pleno sentido do termo, onde a inclusão deixe de ser uma ação de simples pragmática proselitista, para passar a ser uma prática de ressignificação das relações sociais. Como diz Leonardo Boff, necessitamos de uma theología cordis: “A opção pela teologia como inteligência da fé supõe a concepção (legítima por si só) da Igreja como unidade dos fiéis (comunitas fidelium). A outra opção da teologia como theología cordis pressupõe uma visão da Igreja como comunidade dos que amam (1991: 36). Deus decidiu mostrar-se aos que são como crianças. Rejeitou a arrogância dos sábios e o moralismo dos religiosos. Optou mostrar-se através de um dos grupos mais vulneráveis que existe, mostrando dessa maneira que a lógica, o cálculo, o cumprimento irrestrito da regra e o pedantismo dos adultos não correspondem à sua revelação. Insistimos: a violência e o abuso que sofre a infância tem a ver com a instalação destes imaginários que colocam os adultos como donos das vidas dos que estão abaixo (as crianças, as mulheres, os pobres e todo grupo discriminado). A violência serve para calar o novo que questiona os lugares de segurança. Lamentavelmente, nossas crianças são os bodes expiatórios mais recorrentes na promoção destas lógicas. Assim, uma teologia que se abra à lógica da infância permitirá visibilizar este grupo específico, desconstruir os estigmas que o limitam e atender a suas problemáticas concretas, como também transformará a violência intrínseca da lógica adulto-cêntrica, que não só afeta a vida dos grupos mais vulneráveis, mas a dos próprios adultos, encerrados numa maneira estreita de ver sua história.

26

Para falar de crianca.indd 26

Para falar de criança

10/14/12 4:37 PM


Portanto, cabe-nos perguntar: qual é o lugar das crianças em nossas liturgias? Como criar instâncias de participação comunitária que não incluam apenas a liderança? Podem-se promover espaços para que elas tomem decisões sobre a vida da igreja? Como elaborar um marco pedagógico (na escola dominical, nos estudos bíblicos e de discipulado) menos behavioristas e mais construtivistas ou processuais, que evoquem a participação das crianças em suas próprias linguagem e percepções, e com sistemas mais lúdicos e menos expositivos? (Berryman, 2005). Que lugar tem o narrativo, o experiencial e o simbólico em nossas liturgias e pregações? Como abrir instâncias para que a voz das crianças seja escutada e elas expressem seus sentimentos, opiniões e perspectivas, seja em temas teológicos ou eclesiais e sociais? Podem-se empreender projetos de incidência social onde as crianças trabalhem juntamente com adultos e adultas nas mesmas tarefas? Estes são apenas alguns exemplos do que poderia requerer pequenas mudanças estruturais, mas cujo significado simbólico, discursivo e social seria sumamente significativo, fazendo da igreja um espaço genuíno de inclusão e de ressignificação teológica da voz de nossas crianças.

Referências biBliográficas ALVES, Rubem. Hijos del mañana. Salamanca: Sígueme, 1976. BAUTISTA, Esperanza. Dios. In: Navarro, Mercedes (coord.). 10 mujeres escriben teología. Navarra: Verbo Divino, 1993. BERRYMAN, W. Playful orthodoxy: reconnecting religion and creativity by education. In: Child theology movement. Report of the Houston Consultation on Child Theology, London, 2005. BOFF, Leonardo. ¿Magisterio o profecía? La misión eclesial del teólogo. México: Palabra Ediciones, 1991. BONHOEFFER, Dietrich. El precio de la gracia. Salamanca: Sígueme, 1999. GELABERT, Martín. Valoración cristiana de la experiencia. Salamanca: Sígueme, 1990. GUNDRY-WOLF, Judith M. Los más pequeños y más grandes: los niños en el Nuevo Testamento. In: Bunge, Marcia (ed.). Los niños en el pensamiento cristiano. Buenos Aires: Ediciones Kairós, 2008.

“Porque as revelaste”. O empoderamento da palavra frente à violência do silenciamento

Para falar de crianca.indd 27

27

10/14/12 4:37 PM


MILLAR-MCLEMORE, Bonnie J. ‘Let the children come’ revisited: Contemporary feminist theologians on children. In: Bunge, Marcia (ed.). The child in Christian thought. Grand Rapids: Eerdmans, 2001. MOLTMANN, Jürgen. Un nuevo estilo de vida. Salamanca: Sígueme, 1981. ______. El Dios crucificado. Sígueme: Salamanca, 1977. PANOTTO, Nicolás. Hacia una hermenéutica teológica desde la niñez. Experiencias en el Cono Sur. No prelo. ______. Alteridad, paradoja y utopía: la deconstrucción del poder desde la imaginación teológica. In: Segura, Harold (ed.). ¿El poder del amor o el amor al poder? Buenos Aires: Ediciones Kairós, 2011. SÁNCHEZ, Edesio. Para un mundo mejor… El niño es el mejor protagonista. In VVAA. Seamos como niños. Pensar teológicamente desde la niñez latinoamericana. Buenos Aires: Ediciones Kairós, 2007. SEGURA, Harold. ‘Un niño los pastoreará’. Niñez, teología y misión. El Paso: Editorial Mundo Hispano, 2006. VILANOVA, Evangelista. La fe en tiempo de incertidumbre. In VVAA. De la fe a la teología. Barcelona: Herder, 1977. WHITE, K., WILMER, H. e BUNGE, M. Los niños como clave teológica. Buenos Aires: Ediciones Kairós, 2011.

28

Para falar de crianca.indd 28

Para falar de criança

10/14/12 4:37 PM


Para Falar de Criança - Harold Segura e Welinton Pereira (orgs.)