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Maria Isabel Barreno Maria Teresa Horta Maria Velho da Costa !

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS Edição anotada Organização Ana Luísa Amaral Equipa de Investigação Ana Cristina Assis Cacilda Lopes Luís Filipe Costa Lurdes Gonçalves Maria de Lurdes Sampaio Marinela Freitas Marta Pessanha Mascarenhas


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Título: Novas Cartas Portuguesas – Edição anotada © 1998, Publicações Dom Quixote e autoras Revisão: Cristina Pereira Este livro foi composto em Rongel fonte tipográfica desenhada por Mário Feliciano Capa: Ideias com Peso Paginação: Júlio Carvalho – Artes Gráficas Impressão e acabamento: Multitipo 1.a edição: 1972 1.a edição anotada: Novembro de 2010 Depósito legal n.o 315 667/10 ISBN: 978-972-20-4011-2 Reservados todos os direitos Publicações Dom Quixote Uma editora do Grupo Leya Rua Cidade de Córdova, n.o 2 2610-038 Alfragide – Portugal www.dquixote.pt www.leya.com


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(leitura longa e descuidada)

Agradecimentos Desejamos, em primeiro lugar, agradecer às autoras de Novas Cartas Portuguesas, pela generosidade com que sempre nos acolheram, por se terem prestado a entrevistas várias e pelas informações que nos foram facultando ao longo do tempo de preparação desta edição. A Alexandra Moreira da Silva, um agradecimento especial por todas as traduções do francês para o português. Endereçamos ainda uma nota de agradecimento a Ana Paula Coutinho Mendes e Maria Luísa Malato Borralho por alguns esclarecimentos. Agradecemos igualmente às três consultoras do projecto que esteve na base desta edição: Gabriela Moita, Maria Irene Ramalho e Maria do Céu da Cunha e Rego. Finalmente, a Paulo Eduardo Carvalho, pela presença sempre amiga: o nosso obrigada e a nossa imensa saudade. Este trabalho foi elaborado no âmbito do Projecto Novas Cartas Portuguesas Três Décadas Depois (PIHM/ELT/63706/2005), sediado no Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Unidade I&D financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, integrada no Programa Operacional Ciência e Inovação 2010 (POCI 2010), do Quadro Comunitário de Apoio III (POCI 2010-SFA-18-500).

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BREVE INTRODUÇÃO

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PRÉ-PREFÁCIO XXVII (leitura breve por excesso de cuidado) PREFÁCIO (leitura longa e descuidada)

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NOVAS CARTAS PORTUGUESAS 1 Primeira Carta I 3 Segunda Carta I 4 Terceira Carta I 6 Teresa 8 Isabel 9 Fátima 11 Isabel 15 Isabel 17 Senhora 18 Primeira Carta II 20 Segunda Carta II 23 Terceira Carta II 26 Eis-nos 30 Primeira Carta III 32 A Paz 36 Segunda Carta III 38

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Mensagem de invenção de Mariana Alcoforado 40 Terceira Carta III 41 Proposta de mim ao trio 43 Brinco de Freira 44 Cantiga de Mariana Alcoforado a Sua Mãe 46 Sela e Cela 48 Bilhete de Mariana Alcoforado ao cavaleiro de Chamilly 50 Carta de Mariana Alcoforado a sua Mãe 51 Carta encontrada entre as páginas de um dos missais de Mariana Alcoforado 54 Cantiga de Mariana Alcoforado à maneira de lamento 56 A freira sangrenta 58 Primeira Carta IV 66 Segunda Carta IV 67 Lamento de Mariana Alcoforado para Dona Brites 71 Primeira Carta V 75 Terceira Carta IV 79 Carta do cavaleiro de Chamilly a D. Mariana Alcoforado, freira em Beja 84 Alba 89 ALBA 92 Conversa do cavaleiro de Chamilly com Mariana Alcoforado à maneira de saudade 94 Segunda Carta V 96 Primeira Carta VI 100 Carta de uma mulher de nome Maria Ana, da aldeia de Carvalhal, pertencente à freguesia de Oliveira de Fráguas do concelho de Albergaria-a-Velha, distrito de Aveiro, a seu marido de nome António, emigrado no Canadá há doze anos, na cidade de Kitimat, na Costa Oriental, frente às Ilhas da Rainha Carlota e perto da fronteira do Alaska 104 POEMA ESCRITO EM LÍNGUA PORTUGUESA PELO SENHOR DE CHAMILLY NO ANO DA GRAÇA DE MIL SEISCENTOS E SETENTA 107

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Intimidade 108 Poema que o cavaleiro de Chamilly enviou no dia da sua partida à freira Mariana Alcoforado 111 Monólogo para mim a partir de Mariana, seguido de uma pequena carta 112 Carta de uma mulher chamada Mariana, nascida em Beja, para uma mulher de nome Maria, ama de sua filha Ana 115 A Mãe 117 Carta de Mariana, sobrinha de Mariana Alcoforado, deixada entre as folhas do seu diário, para publicação após a sua morte, à guisa de resposta a M. Antoine de Chamilly 120 (por virtude do muito imaginar) 125 Carta parva VI 127 O PAI 129 Três meninas outras três 131 Carta de D. Joana de Vasconcelos para Mariana Alcoforado freira no Convento de Nossa Senhora da Conceição em Beja 134 GUERRA 138 Extractos do diário de D. Maria Ana, descendente directa de D. Mariana sobrinha de D. Mariana Alcoforado, e nascida por volta de 1800 139 Resposta de Mariana Alcoforado, freira em Beja, a D. Joana de Vasconcelos 144 Relatório Médico-Psiquiátrico sobre o estado mental de Mariana A. 147 Carta de D. Joana de Vasconcelos para o cavaleiro de Chamilly, na véspera da partida deste para França 150 Carta de D. Joana de Vasconcelos para Mariana Alcoforado 153 Carta de Soror Mariana Alcoforado, freira em Beja, a seu primo menor D. José Maria Pereira Alcoforado 155 Bilhete em envelope lacrado com o sinete dos Alcoforados e dirigido a sua prima Mariana por D. José Maria Pereira

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Alcoforado na madrugada em que seu corpo foi achado enforcado na maior figueira da cerca da casa de seus pais 159 Poema de D. José Maria Pereira Alcoforado, datado da madrugada de seu suicídio 160 Carta de Maio Amor e Carta Mor 161 Monólogo de uma mulher chamada Maria, com a sua patroa 163 De como pode a morte ser mais fácil do que o amor. Ou lamento de Mónica e Maria 165 O Cárcere 169 Carta de Mariana Alcoforado para seu cunhado o Conde de C. 172 O Corpo 175 Carta de um homem chamado José Maria para António, seu amigo de infância 177 DE PAREDES E FLORES 179 Carta enviada a Mariana Alcoforado, por sua ama Maria 180 Carta encontrada num envelope lacrado entre os papéis de D. Maria das Dores Alcoforado 183 Primeira Carta VII 186 Carta de uma universitária de Lisboa de nome Mariana a seu noivo (?) António em parte incerta 188 Texto sobre a solidão 191 Carta escrita por Mónica M. na manhã do seu suicídio, a D. Joana de Vasconcelos 194 Terceira Carta V 197 Extractos do diário de Ana Maria, descendente directa da sobrinha de D. Maria Ana, e nascida em 1940 198 Mónica 206 Bilhete que Mónica M. deixou a D. José Maria Pereira Alcoforado 209 Papel encontrado entre as páginas de um livro pertencente a D. José Maria Pereira Alcoforado. 210 A Filha 212

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De manhã Mariano; de tarde, não 214 Carta de um homem de nome António, emigrado no Canadá há doze anos na cidade de Kitimat, na Costa Oriental, frente às Ilhas da Rainha Carlota e perto da fronteira do Alaska, a sua mulher de nome Maria Ana, da aldeia do Carvalhal, pertencente à freguesia de Oliveira de Fráguas, do concelho de Albergaria-a-Velha, distrito de Aveiro 216 Carta de um soldado chamado António para uma rapariga chamada Maria a servir em Lisboa 218 Segunda Carta VIII 220 Sonnets from the Portuguese, Elizabeth Barrett Browning, 1856 223 Redacção de uma rapariga de nome Maria Adélia nascida no Carvalhal e educada num asilo religioso em Beja 225 Redacção de uma menina de Lisboa, de nome Mariana, aluna da quarta classe de um estabelecimento de ensino dirigido por religiosas 229 A Luta 231 I JOGO 236 Ditos de mulher e homem 239 MAGNIFICAT 241 Carta de uma mulher de nome Maria para sua filha Maria Ana a servir em Lisboa 244 Texto de honra ou de interrogar, escrito por uma mulher de nome Joana 247 Adultério: infidelidade conjugal 251 Dois poemas encontrados entre os papéis de Joana – escritos com sua letra 253 Poema encontrado entre os papéis de Mónica M. escrito e emendado com sua letra 255 Carta de uma mulher de nome Joana, para um homem de nome Noel, francês de nascimento 256 Carta de um escriturário, em África, para sua mulher de nome Mariana a viver em Lisboa 258

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VI e última carta de D. Mariana Alcoforado, freira em Beja, ao cavaleiro de Chamilly, escrita no dia de Natal do ano da graça de mil seiscentos e setenta e um 260 Primeira carta última e provavelmente muito comprida e sem nexo (I) 263 Balada do mal real 265 Poema encontrado entre os papéis de Mónica, assinalado por D. José Maria Pereira Alcoforado 267 Poema de uma mulher chamada Mariana, morta por suicídio em 11 de Agosto de 1971 269 Poema do amor que resolve todas as diferenças 270 Primeira carta última e provavelmente muito comprida e sem nexo (cont.) 272 Carta VIII 274 Passamento 277 D. Tareja final 281 Elizabeth Regina III 283 Segunda carta última 284 Meu Poema de Amor à Maneira de Dedicatória 290 Primeira carta última e de certeza muito comprida e sem nexo (te deum) 292 Poema de desprezo de uma mulher de nome Ana Maria 296 Poema de amor de uma mulher de nome Mariana, morta em 11 de Agosto de 1971 297 Isabel – Final – Irmã 298 Final – Fátima – De Rosas 299 Três fragmentos do diário de uma mulher de nome Mariana morta em 11 de Agosto de 1971 300 Poema encontrado no diário de uma mulher de nome Mónica 303 Terceira carta última 304 Meu texto de amor ou proposto de uma mulher, à maneira de monólogo 305

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BREVE INTRODUÇÃO1 Ana Luísa Amaral

Está decretada a gravidade desta empresa. O que farei convosco será grave, ainda que para tanto haja que rir-me. Ou, como hoje, nem tanto. Novas Cartas Portuguesas

Foi em Lisboa, em Maio de 1971, que Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa decidiram escrever um livro a seis mãos, as mesmas mãos a que depois se refeririam como as de três «aranhas astuciosas» (Barreno / Horta / Costa, 2010: 34). Cada uma das autoras havia publicado recentemente livros marcados por uma forte dimensão política, que tinham desafiado, de formas diversas, os papéis sociais e sexuais esperados das mulheres: se em Maina Mendes (1969), de Maria Velho da Costa, a protagonista, Maina, perde a fala, reinventando uma outra, nova, em Os Outros Legítimos Superiores (1970), de Maria Isabel Barreno, é denunciado o silêncio simbólico das mulheres, até pela atribuição do nome genérico «Maria» a todas as personagens femininas, e em Minha Senhora de Mim (1971), de Maria Teresa Horta, a voz poética, claramente identificada como feminina, reivindica para si o direito de falar do corpo, do desejo e da sexualidade da mulher. Nesse encontro de Maio de 1971, ficou acordado que, para a escrita em conjunto, as autoras partiriam do romance epistolar Lettres Portugaises, publicado anonimamente por Claude Barbin, em 1669, e apresentado como uma tradução, anónima também, de cinco cartas de amor endereçadas a um oficial francês por Mariana Alcoforado, jovem freira enclausurada no convento de Beja. A autoria das 1

Todas as traduções são da minha responsabilidade.

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PRÉ-PREFÁCIO (leitura breve por excesso de cuidado)

«Quando o burguês se revolta contra o rei, ou quando o colono se revolta contra o império, é apenas um chefe ou um governo que eles atacam, tudo o resto fica intacto, os seus negócios, as suas propriedades, as suas famílias, os seus lugares entre amigos e conhecidos, os seus prazeres. Se a mulher se revolta contra o homem nada fica intacto» (p. 143)

Terá sido este o pressentimento que acabou por levar as autoras das Novas Cartas Portuguesas aos bancos do tribunal? Bem o julgo. A uma sociedade que se apresentava sem saída soava como anúncio do fim essa revolta sem armas, essa explosão possível de tudo o que sempre fora tido por conveniente, por correcto, por assepticamente puro. Essa a razão escondida da cegueira cultural que nem sequer se permitiu o debate sobre o significado da obra, sobre o contexto social e literário em que se inseria, sobre o sentido profundo das suas mais contundentes afirmações. É tal a rotura introduzida pelas Novas Cartas Portuguesas que a sua primeira abordagem só pode ser feita à luz do que elas não são. Não são uma colectânea de cartas, embora se reconheça nelas o estilo tradicionalmente cultivado pelas mulheres em literatura. Não são um conjunto de poemas esparsos, embora em poesia se converta toda a realidade retratada. Não são tão-pouco um romance, embora a história vivida (ou imaginada) de Mariana Alcoforado lhes seja a trama principal. São talvez um pouco de tudo isso. E ainda mais: uma forma nova de dizer a pessoa humana e o seu modo de estar no mundo, um ensaio que não se quer filosófico, mas que toca as raízes do ser, um contributo inédito para a antropologia social, no que (à maneira de um García Márquez ou de um Oscar Lewis) recolhe de vida, de sensações, de comportamentos singulares universalizados. Porque rompem, extravasam. Daí que as Novas Cartas Portuguesas se caracterizem antes de mais pelo excesso. Excessivas as situações, excessivo afi-

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PREFÁCIO (leitura longa e descuidada)

«[…] a revolta da mulher é a que leva à convulsão em todos os estratos sociais; nada fica de pé, nem relações de classe, nem de grupo, nem individuais, toda a repressão terá de ser desenraizada […] Tudo terá de ser novo […] E o problema da mulher, no meio disto, não é o de perder ou ganhar, é o da sua identidade.» (p. 198)

Em poucas palavras fica dita a obra, desvendando o seu sentido, definida a sua procura. Fica claro que neste livro se trata da condição das mulheres. Daquilo que às mulheres é consentido ou negado. Do cerco ideológico que as retém prisioneiras. Da contradição de terem de passar pela igualdade para alcançarem a diferença e descobrirem a sua identidade. O que não fica dito – é importante acentuar – é a universalidade da obra. As Novas Cartas Portuguesas estão hoje traduzidas em 10 línguas, são objecto de teses de doutoramento, são levadas à cena em versões adaptadas por grupos de teatro em Nova Iorque e Paris. Elas inauguram um novo tempo na corrente literária do neofeminismo contemporâneo. A partir do nó evolutivo das Novas Cartas Portuguesas – a freira de Beja Mariana Alcoforado e o seu romance de amor, em pleno séc. XVII – surgem as mulheres deste século, em muitas e diversas situações e culturas. E é legítimo perguntar: porquê um tal eco? Que coisa nova foi dita? Que forma tão universalmente comum foi utilizada? Pela primeira vez na história do movimento feminista e da sua expressão literária a cumplicidade entre as mulheres foi ao mesmo tempo sujeito e objecto de toda a trama de um livro. Aí reside a sua espantosa originalidade. É certo que Simone de Beauvoir apontara para a cumplicidade das mulheres como uma teoria interpretativa da realidade. Mas nunca o severo rigor estilístico que a caracteriza lhe permitiu diluir-se numa escrita comum. Do mesmo modo, quando o novo surto feminista contemporâneo se exprimiu em literatura, foram sempre singulares, identificáveis, que falaram de cumplicidade.

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NOVAS CARTAS PORTUGUESAS (ou de como Maina Mendes pôs ambas as mãos sobre o corpo e deu um pontapé no cu dos outros legítimos superiores)


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Primeira Carta I

Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício. Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é paixão comum de exercícios diferentes, ou exercício comum de paixões diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia, se vingança. Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício o seu sentido. Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos? 1/3/71

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Terceira Carta I

Considerai, irmãs minhas, cá hoje e ensoalhada a febra por este brando sol se repartindo e bem rendido, turista o dar e o brotar para esta novidade literária que há-de vender-se, eu vos asseguro, ó seis patinhas sonsas de nós três caminheiras, considerai cá hoje e abri-vos – nós para nós e eles. Considerai a cláusula proposta, a desclausura, a exposição de meninas na roda, paridas a esconsas da matriz de três. Moças só meio meninas bem largadas da casa de seus pais e arrematados já seus dotes em leilão de país. Nem vai ser isto, pois não é? Que vai ser de nós e Mariana depois desta partida, choro de ausência, de alguma falta, falha de Mariana ou quem – ou dela querer sabê-la? Só que Beja ou Lisboa, de cal ou de calçada – há sempre uma clausura pronta a quem levanta a grimpa contra os usos: freira não copula mulher parida e laureada escreve mas não pula (e muito menos se o fizer a três) com a Literatura, LITERATURA, não se faz rodinhas – porém, ledores, haveis comprado Mariana e nós, tendo ela montado o cavaleiro e bem

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Brinco de Freira

mariana ama (o) mal maria sabe a mar contra a maré de mariana quem amaina o sal? a salto tresmariam malhas e emigram (dela) amando mariana queda e mal marias maridadas cada qual isolla bella (isolda?) e teresa da mão leda e fátima da ácida azinheira lêem escritos (vaga casa) escrevem marejados e por ou contra mariana (asinha como estando com (o) vento sua cal mareiam. qual moireja o mal de beja (paz de jus) e sua o sal real a lei das se(i)smarias léu de povo-rei?

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o caldo marinando Ă  vela desveladas rainhas ramos vigis (por ora) perorando mariana no horto dado marias mouras ilhas (telas) neste sopro de (com) vento airado dado. 24/3/71

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Bilhete de Mariana Alcoforado ao cavaleiro de Chamilly

Senhor Desculpai se vos escrevo sabendo – a razão e o coração mo dizem – quanto alívio sentis em vos afastardes de mim. Já mar não vos sou nem mesmo mar-iana... nem meu ardor te lembra de fêmea este alentejo aceso ao qual me comparavas o corpo onde passeavas teus dedos em extenuadas tardes... Porquê meu amor o silêncio a que me votas (de voto estou eu já presa: mordaça posta), silêncio que devoro de angústia. Se de ti não me alimento, que me aguarda? Desculpai o desvario, desculpai-me a ânsia, não era essa a função deste bilhete, nem foi ele ditado por amor, mas antes imposto pela urgência de pedir que me venhais ver por coisa tão urgente e grave que mais não posso esperar, pois cada dia passado de maior susto me tomo, sem saber como resolver uma situação que não só a mim cabe resolver. Espero-vos, então, esta noite. Podeis vir tranquilo que não vos aborrecerei com lágrimas ou abraços. Evitarei, juro, as súplicas, a ironia, a memória, meu amor. Como sempre, esperai junto às grades, Dona Brites vos conduzirá até meu quarto, onde aguardarei calma, esperançada que me possais salvar ainda, ou para sempre me condenardes à ira da minha família. 27/3/71

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Carta de Mariana Alcoforado a sua Mãe

Senhora Minha Mãe Não vos podendo ver mais nesse martírio inventado de desgosto e dúvida por mim, vos escrevo logo após vossa partida (hoje precipitada a senti e em desprendimento me foi clara: pois pensais acaso que não?) a dar desta vossa filha conhecimento e das causas que me trazem neste cruel e profundo abatimento ou medo. Talvez de amor vos fale ou de morte; de clausura (aquela a que desde menina me votastes, tão bem paramentada, em sossego posta), de hábito: aquele que visto e aquele adquirido de mim e através de mim também de outrem, mesmo agora criada tanta distância. Tendo o mar entre nós penso inevitável ser esquecida, eu o esqueça, me esqueça. Deixais de vez vosso susto que já nada mais me pode acontecer neste mundo senão o viver sozinha a imaginar-me, lamentando-me de sorte tão adversa (de braços de homem passei aos meus e talvez por minha única culpa, que mulher não o soube aprisionar, ou repelir a tempo), enganando-me em cartas que tanto mais entendo de meu engenho que de paixão, construídas todas elas em língua não materna (assim vos recuso, de vós me liberto um pouco – ó vingança, ó riso...) tão doce e amarga tornada, desde que da boca dele a ouvi em proveito de meu uso. Sabei Senhora Mãe: nada do que é vosso me importa, nem pensamentos, nem costumes. Costumes que apesar de tudo e todavia,

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continuo a aceitar, de lei e cobardia, aceitando este estado onde de acordo com meu pai me pusestes por homem não ter nascido e entrave fazer a meu irmão e minha irmã, de dote, podendo ela assim arranjar marido que a receba apesar de feia, não vos custando eu mais que parto e raivas acesas ao me saberdes por amada e possuída de corpo contra vossas ordens, mando, vontades; apesar mesmo de vossas ameaças. Mas tranquilizai que abandonada me encontro e isso, sei, vos dá alegria, a verdade foi, enraivecida não me terdes perdoado usufruir da vida o que da vida jamais usufruístes. Agora, inquieta encontro vossa atenção por minha saúde e desgosto por minha apatia... nada mais me restando senão aceitar essas atenções, fingindo não ver nelas a secreta alegria de me encontrardes repelida, logo vós vingada de minha ousadia em recusar o que generosamente meus pais me haviam dado ao me mandarem para este convento... castigo sofro por me ter entregue: amante de homem por prazer; entrega nomeada de amor e de amor me haja perdido – diz Dona Brites. Embora... de prazer me dei e conquistei, desafiando de aparência o mundo e a mim mesma nesse desafio de coragem, inconsciência ou grande tentação de fuga, a única que desde sempre se me deparou. Minha trégua, paz. Limite de mim própria, Senhora Mãe. Que mulher vós nunca fostes nem eu jamais o serei... Pouco vos escondo e em nada vós me entendeis. Com esta carta sei apenas conseguir reacender raivas, orgulhos e sentidos de posse sobre mim. Bem me podeis executar, quem me defende? A lei? A que dá aos pais todos os direitos de mordaça, aos machos primazia e à mulher somente o infinitamente menos nada, com dádivas de tudo? Olhai que não me iludo, Senhora, este convento será meu túmulo, guardião feroz em morte como jamais o foi em meses de fala e agasalho. Que isso lhe é alheio. Me alheio. Permiti-me apenas alheada ficar, só isso peço: deixai-me fiar os dias que me restam com seus fios tecidos hora a hora, em fuso de memória. Assim me encontrastes e quisestes saber os motivos com a certeza deles, primeiro

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falando-me com azedume, depois com certa brandura, tentando tirar por astúcia aquilo que de mim afinal não consigo esconder. Prefiro o azedume, Senhora Minha Mãe, que a ele estou mais habituada partindo de vossa mercê. Que mal vos fiz nascendo? É como se a vossas entranhas tivesse sido obrigada e me gerásseis de culpa, quem sabe... e bem contrariada, por certo. Gostaria que dissésseis a meu irmão, muito lhe agradecer o não me tornar a chamar ao parlatório; assim me pouparia a penosa resolução de me negar a vê-lo, ou, com total precisão: a ouvi-lo. Os seus assomos de cólera deixam-me num estado de nervos deplorável, não queira ele tornar sua irmã mais desgraçada. Soubesse ser por amizade que ele o faria... porém apenas é seu nome que defende, invocando princípios de honra que ora me convencem, ora me aterrorizam. Comunicai-lhe que o cavaleiro de Chamilly jamais voltará ao nosso país e como de lhe escrever larguei para sempre, não preciso mesmo de meu irmão licença para o fazer, como até aqui; assim ando eu ao mando e ao uso de todos... Beijo-vos a mão, Senhora Minha Mãe, como prova de grande consideração Vossa filha dedicada Mariana

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Carta de uma universitária de Lisboa de nome Mariana a seu noivo (?) António em parte incerta

Quantos milhares de anos somam estes três meses? E no entanto, quando zarpaste, eu não estava (e alguma vez estarei?) segura de nada. É assim a ausência a mãe da falta, deste vazio fundo em que me vadio por aí com tudo e com todos? Ou é antes no contraste de ti com isto, o que resta, o silêncio do resto, estas noitadas por aí à balda, as cadeiras serem cadeiritas, a contestação da malta uma merda que se vende em discos e cartazes, mas o que é que eu ando a fazer no meio desta gaita toda, eu que nem sequer tenho de que desertar e antes pelo contrário, enfio, enfileiro, e entregar-me, uma ova. Até que fundo fomos? Lemos umas coisitas, andámos a pé a ter pena de tudo, divertimo-nos como putos que somos, deste-me o orgasmo e essa coisa toda, e queres saber o que me lembra, só o que me lembra? A última noite, os dois últimos dias, eu com a cabeça por lavar e a querer lá saber, tu com a cara escalavrada a dizer «porra, tem que ser», e a malta a olhar-se como se visse, só então visse de ver e não sabia dizer nada que não fosse dos livros, de algum livro, da merda dos livros, e com a nossa primeira hora de carne e osso à vela, porque tudo o mais até aí era como os mais, tudo contestado como deve ser, o teu pai a «dialogar» contigo o Marcuse a minha mãe a pagar-me as botas, as mini e, quão discreta e civilizadamente, a pílula. A minha mãe, pois. Acabou-se-me a mãe, o artigo definido com que a malta os/ /as define/designa, pois que eles são para uso comum O pai e

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A mãe, como o eram no século passado nos colégios de padres e freiras da malta de famílias conhecidas (umas das outras, os podres e as massas, alianças), o artigo definido a defini-los como parte do magma original onde a gente se cristalizava (cristaliza) a este ou a esta, filho/a de e isso bastava (basta). Mas eu não entendo nada, nem a que dizer não, porque hoje até o não lhes cai em caixa. E olho-os e aos manos (porque irmãos é coisa que se esconde) e me parece que o que tenho a ver com eles, com seus ritos e preceitos até de inteligência, tudo está esboroado, face a quê, a quê? À tua ausência, tu que eras um tipo porreiro, mas que mais?, ou ao buraco desta coisa da tua decisão de desertar, provavelmente só porque apanhaste porrada na Cantina naquela sexta-feira e disseste à malta que ias, provavelmente por causa de quem afinal és, e no meio desta casa, cousas, de comédia, só se pode saber quem se é safando-se – tu para fora da terra e eu para dentro da tua falta. Esboroo-me, fendem-se-me as lides do ciclo formação – informação – divertimento com nível de encontro a isto, esta pata no pescoço de te saber viciado como eu nos mesmos vícios e porém, talvez por um simples erro acaso na agulha dos níveis e excesso de dotes que «eles» pudessem praticar, tu deixaste isto, deixando-me. E, ay eu coytada, me vejo, nesta que algures em Paris, acaso na Joie de Lire, te há-de dar em mão alguém a férias sujas/chiques, me vejo a retomar o pranto herdado das galeguinhas-durienses e, porque com estudos, a achar que também «não é para mim este país» (lembras-te da malta a consumir o Alexandre O’Neil?). O Listopad encenou o «Fim» do António Patrício (1909) na Casa da Comédia. Fui ver com a malta. Aquilo começou a entrar-me pelos olhos e a bater-me na cabeça e depois, toda aquela traparia e o texto, que de bem composto passou a magicamente justo a isto, tenebrosamente aqui, entraram-me na barriga e cá ficaram – «só nos restou o avesso, só nos resta o avesso». Há malta que não entende a escolha, diz que aquilo não tem nada a ver com a hora que corre – os estrangeiros indefinidos a entrarem pela barra adentro, o povo de Lisboa

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Novas Cartas Portuguesas

NOTAS INTERTEXTUAIS E OUTRAS (pp. 1-307)

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NOTA Todas as citações de Cartas Portuguesas são retiradas da edição bilingue publicada em 1969 e, depois, reeditada em 2004, pela Assírio & Alvim, com tradução de Eugénio de Andrade. Abreviaturas usadas: CP

Cartas Portuguesas, de Mariana Alcoforado. Ed. bilingue. Trad. Eugénio de Andrade. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004 [1969].

NCP

Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. Pref. de Maria de Lourdes Pintasilgo. Edição anotada. Org. Ana Luísa Amaral. Lisboa: Dom Quixote, 2010 [1972].


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Epígrafe: «(ou de como Maina Mendes pôs ambas as mãos sobre o corpo e deu um pontapé no cu dos outros legítimos superiores)»(p. 1) 1. Referência aos livros Maina Mendes (1969), de Maria Velho da Costa, Ambas as Mãos sobre o Corpo (1970), de Maria Teresa Horta, e Outros Legítimos Superiores (1970), de Maria Isabel Barreno. Primeira Carta I (p. 3) 2. A dimensão de diálogo com Cartas Portuguesas estabelece-se, desde logo, neste primeiro parágrafo a vários níveis. Para além de um idêntico recurso ao género epistolar, note-se a sintaxe com certo pendor anacrónico (evidenciado, por exemplo, no uso de inversões) e a presença de motivos, como o da paixão, o da vingança, o da nostalgia, o do convento, ou o da irmandade, que se irão tornar recorrentes ao longo da obra. Escrevem as autoras: «E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão.» Embora a palavra «pretexto» não esteja presente nas Cartas Portuguesas, a ideia subjacente da escrita enquanto exercício da paixão está implícita, por exemplo, na Carta Quarta: «Escrevo mais para mim do que para ti; não procuro senão alívio» (CP 41). De igual modo, a tensão entre vingança e nostalgia perpassa por NCP. A frase «nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia» pode ser vista como expressão-mote para os textos que se seguem. 3. «Soror Mariana das cinco cartas» (p. 3) Referência explícita a Soror Mariana Alcoforado (1640-1723) e às cinco cartas que constituem Cartas Portuguesas (1669). 4. «Só de vinganças, faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário.» (p. 3)

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A referência ao mês de Outubro remete para o dia 5 de Outubro de 1910, data da proclamação da República Portuguesa, que derrubaria o regime monárquico parlamentar até então vigente. Esta referência temporal pode ainda aludir ao dia 25 de Outubro de 1917, data da Revolução Soviética, liderada por Lenine, líder do Partido Bolchevique, e que pôs fim à monarquia absolutista do czar Nicolau II. Por sua vez, a referência ao mês de Maio pode remeter para dois marcos históricos: o Maio de 68, revolta estudantil com fortíssimas repercussões sociais em França, e, posteriormente, em toda a Europa Ocidental, e o 1.° de Maio, Dia do Trabalhador, que teve a sua génese em 1886, em Chicago, e cuja celebração era proibida durante o regime fascista português. Em qualquer dos casos, a mensagem parece ser clara: fazer da literatura um acto revolucionário e afirmar Novas Cartas Portuguesas como um gesto de radical novidade e rebelião. Segunda Carta I (pp. 4-5) 5. «Eis o ódio, outro principal elemento do amor» (p. 4) Embora não seja uma citação directa, esta frase evoca o epigrama 85, de Catulo (84 a.C.-54 a. C.), que, de forma concisa, exprime a coexistência paradoxal do amor e do ódio: «Odeio e amo. Como tal possa ser, talvez perguntes. / Não sei. Sinto que acontece e aí reside a minha cruz.» [«Odi et amo. quare id faciam, fortasse requiris. / nescio, sed fieri sentio et excrucior.»] (Catulo 2005: 72-73). Veja-se ainda o passo da Carta Quarta de Cartas Portuguesas: «Ai!, que seria de mim sem tanto ódio e tanto amor a encher-me o coração?» (CP 37). Em confronto estão, de novo, o amor e o ódio, dois sentimentos opostos que coexistem tanto na vida como na escrita, já que em Novas Cartas Portuguesas o exercício de escrita surge também como prazer e sofrimento, em simultâneo. 6. «Sei que te perdi e me afundo, me perco também dentro da minha total ausência de poder em que me queiras» (p. 5) Diálogo implícito com a Carta Quarta de Cartas Portuguesas, através da apropriação de vocábulos e segmentos frásicos que ali ocorrem, veiculando deste modo uma ideia semelhante quanto à vulnerabilidade do sujeito feminino. Veja-se o exemplo «Bem sei que te amo perdidamente; no entanto, não lamento a violência dos impulsos do meu coração; habituei-me à sua tirania, e já não poderia viver sem este prazer que vou descobrindo» (CP 37). Terceira Carta I (pp. 6-7) 7. «Considerai, irmãs minhas, (…) esta novidade literária que há-de vender-se, eu vos asseguro» (p. 6) Alusão parodística à interpelação com que abre a Carta Primeira de Cartas Portuguesas: «Considera, meu amor» (CP 16). Note-se ainda que este passo reflecte a consciência das autoras quanto ao impacto que NCP viria a ter no mercado literário português da época.

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8. «exposição de meninas na roda (…) com a Literatura, / LITERATURA, não se faz / rodinhas (…) a escrita, roda de saias-folhas» (pp. 6-7) No seu sentido literal, a roda remete para a instituição «a roda dos expostos», comum no século XVII. Partindo do sentido negativo de orfandade associado à roda, as autoras investem ainda o vocábulo de um sentido lúdico, que alude ao «jogo da roda», um jogo tradicional infantil, geralmente praticado por meninas. Neste contexto, a roda sugere uma atitude provocadora de exposição e de autonomia, ao mesmo tempo que aponta para a capacidade de agência das mulheres. 9. «Moças só meio meninas bem largadas da casa de seus pais» (p. 6) Adulteração paródica da primeira frase de Menina e Moça (1554), de Bernardim Ribeiro – «Menina e moça me levaram de casa de minha mãi para muito longe» –, elaborando sobre o problema da mãe ausente que o referido texto tematiza (Ribeiro 2002: 53). Bernardim Ribeiro foi um autor dos finais do século XV, início do século XVI. Não existem dados precisos quanto à sua biografia, embora, graças a uma alusão presente numa das suas éclogas, se suponha que tenha nascido na vila alentejana do Torrão. O facto de ser um dos colaboradores do Cancioneiro Geral (1516), de Garcia de Resende, parece indicar com alguma certeza que Bernardim Ribeiro frequentou a corte, fazendo parte do grupo de poetas palacianos. Para além disso, Sá de Miranda menciona-o como amigo e companheiro de letras, apontando-o como o introdutor do bucolismo em Portugal, a par do próprio Sá de Miranda. Bernardim Ribeiro faz a ponte entre a tradição medieval e as obras de carácter quinhentista. A sua principal obra é a novela pastoril Menina e Moça (também publicada com o título Saudades), que acabou por ter uma importância fulcral para as gerações vindouras, tornando-se um tópico da literatura portuguesa. 10. «Só que Beja ou Lisboa, de cal ou de calçada» (p. 6) A referência a estes locais não é arbitrária. Beja remete para a localização do Real Mosteiro da Nossa Senhora da Conceição, o convento onde Soror Mariana foi enclausurada, sendo esta referência reforçada pela palavra «cal», que sugere a típica arquitectura alentejana. Lisboa e as suas calçadas, por oposição, remetem para o contexto espacial de produção da obra. 11. «montado o cavaleiro e bem» (p. 6) O texto alude, pela primeira vez, ao cavaleiro de Chamilly, supostamente o grande amor de Soror Mariana Alcoforado e o destinatário de Cartas Portuguesas. Sobre a identidade do cavaleiro de Chamilly, ver nota 61. Teresa (p. 8); Isabel (pp. 9-10; 15-16; 17); Fátima (pp. 11-14) 12. Os títulos destes poemas correspondem aos nomes das autoras, respectivamente Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria de Fátima Velho da Costa.

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Brinco de Freira (pp. 44-45) 54. «isolla bella (isolda?) e / teresa da mão leda e / fátima da ácida azinheira» (p. 44) Jogo de conotações literárias e religiosas com os nomes das três autoras do texto. Isabel é aproximada à bela Isolda, da lenda medieval de Tristão e Isolda. Note-se que, segundo essa lenda, terá havido duas Isoldas, uma delas conhecida como «Isolda das Mãos Brancas», o que, por sua vez, dialoga com a referência ao segundo nome, Teresa, aqui apresentada como «teresa da mão leda». A expressão «mão leda» pode ainda evocar o verso «E tomando-me a mão leda, e risonha,» (v. 9), do soneto de António Ferreira (1528-1569), «Co alma nos Céus pronta, o esprito inteiro» (Ferreira, A. 1939: 71). Finalmente, «fátima da ácida azinheira» remete para a aparição da Virgem Maria, em Fátima, numa azinheira. Sobre Tristão e Isolda, ver nota 87. 55. «qual moireja o mal de Beja» (p. 44) Nova referência toponímica a Beja, local onde estava situado o convento de Mariana Alcoforado. 56. «a lei das se(i)smarias» (p. 44) Continuando o jogo fónico presente desde o início do texto, há neste verso, que tem variadas possibilidades interpretativas, uma remissão para a lei das sesmarias (promulgada durante o reinado de D. Fernando, em 1375), que instituía o princípio de expropriação da propriedade caso a terra não fosse aproveitada. Sela e Cela (pp. 48-49) 57. «per juris causa nostra» (p. 49) Expressão que pode ser traduzida por «pelo direito da nossa causa». Bilhete de Mariana Alcoforado ao cavaleiro de Chamilly (pp. 50) 58. «Como sempre, esperai junto às grades, Dona Brites vos conduzirá até meu quarto» (p. 50) Dona Brites surge já nas Cartas Portuguesas (Cartas Quatro e Cinco) como cúmplice e confidente de Mariana. Poderá ser uma referência a Ana Brites de Freire, madre abadessa do convento de Beja. Curiosamente, Dona Brites era também o diminutivo de D. Beatriz, nome da fundadora desse mesmo convento, no século XV. A coincidência de nomes, passível de gerar ambiguidade entre estas duas figuras, poderá ter sido motivo de interesse para as autoras. Carta de Mariana Alcoforado a sua Mãe (pp. 51-53) 59. «Talvez de amor vos fale ou de morte; de clausura (aquela a que desde menina me votastes, (…) em sossego posta)» (p. 51) Relação de intertextualidade com o conhecido passo do episódio de Inês de Castro, de Os Lusíadas (1572), «Estavas, linda Inês, posta em sossego» (Canto III, est.

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120, v. 1). O tópico amor / morte é também recorrente nas Cartas Portuguesas. Sobre Inês de Castro, ver nota 160. 60. «em cartas que tanto mais entendo de meu engenho que de paixão, construídas todas elas em língua não materna» (p. 51) Em Cartas Portuguesas, as questões da indeterminação autoral e da origem geográfica remetem para as instâncias de produção da obra, como é o caso do género do/a autor/a e a questão da sua nacionalidade. As cartas, escritas em francês, foram publicadas pela primeira vez, em 1669, por Claude Barbin. A edição tinha por título Lettres Portugaises Traduites en Français, surgindo sem indicação de autor ou tradutor. No entanto, no mesmo ano, uma outra edição publicada em Colónia, intitulada Lettres d’Amour d’une Religieuse Écrites au Chevalier de C. Officier François en Portugal, apresentava Guilleragues (Gabriel Joseph de Lavergne, conde de Guilleragues) como o tradutor das missivas. Em 1810, Jean-François Boissonade, um intelectual francês, descobre uma nota na sua própria cópia da obra que identifica «Mariane Alcaforada [sic], religieuse à Beja» como a autora das cartas (Boissonade 1863: II. 489). Contudo, o facto de o privilège (autorização para a obra poder ser publicada) original ter sido concedido ao autor Guilleragues, sem referir que a obra seria uma tradução, levou, em 1926, um estudioso americano, F. C. Green, a formular a tese de que o autor das cartas seria o próprio Guilleragues e não Mariana Alcoforado (cf. Green 1926: 162). Desde então inúmeras teses têm vindo a digladiar-se, defendendo a autoria ora de Mariana, ora de Guilleragues, ou mesmo de outros autores, tendo a obra sido reivindicada, alternadamente, como pertencendo ao património literário francês e ao português, diferendo que está longe de estar resolvido, visto não existirem provas definitivas quanto à origem das cartas. Se, para os antimarianistas, a obra reflecte o espírito vivido nos salões franceses do séc. XVII, o que revela a artificialidade da obra, para os marianistas, esta está repleta de «lusismos» tanto a nível formal como ideológico. Para além disso, os antimarianistas defendem que Mariana Alcoforado não teria a capacidade literária e a profundidade auto-analítica transmitidas nas Cartas, preferindo ignorar-se o facto de Mariana ter sido uma aristocrata letrada, que terá cumprido, durante vários anos, as funções de escrivã no convento e de ter sido incumbida da educação de sua irmã Peregrina, que se tornou, ela própria, mais tarde, escrivã e abadessa do mesmo convento (cf. os marianistas Cordeiro 1891; Bordeaux 1934; Fonseca, A. 1966; entre outros; e os antimarianistas Green 1926; Rodrigues 1935; Deloffre / Rougeot 1962; Correia da Costa 1963; entre outros). As autoras de Novas Cartas Portuguesas adoptam a tese de que não só foi Mariana a escrever as cartas, como o fez directamente em francês, tese recentemente defendida por Katherine Vaz, no seu romance Mariana (Vaz 2002: 131, 234), e Miriam Cyr, na sua obra teórica Letters of a Portuguese Nun (Cyr 2006). Durante o Estado Novo, a figura de Mariana foi elevada ao estatuto de símbolo da mulher portu-

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guesa, abnegada e sofredora; porém, as autoras de Novas Cartas Portuguesas apropriam-se desse mito, re-citando-o e subvertendo o significado que lhe tinha sido atribuído: «[as autoras] procuraram transformar o mito a partir de dentro, ao combinarem uma afirmação do seu potencial de libertação com uma subversão das suas implicações repressivas, na sua exploração e questionamento ímpares do duplo vínculo de género e nacionalidade que estruturou historicamente a identidade da freira portuguesa no país (real) da sua origem (ficcional)» (Klobucka 2006: 148-149). A nível internacional, porém, prevalece a tese de uma autoria francesa à qual não terá sido alheia o peso da tradição literária francesa, bem como uma confirmação implícita da autoria masculina da obra, sob a pressão da autoridade inexorável de quem dita o cânone. A atribuição de um autor masculino à obra é, por conseguinte, o resultado de uma leitura masculina e não decorre de uma prova concreta de autoria. Carta encontrada entre as páginas de um dos missais de Mariana Alcoforado (pp. 54-55) 61. «Noel» (p. 55) Referência ao primeiro nome do destinatário das cartas de Soror Mariana, identificado como sendo Noël Bouton, conde de Chamilly (1636-1715). Este militar francês terá estado em Portugal entre 1663 e 1668, como oficial do exército de Luís XIV, enviado em auxílio do rei D. Afonso VI, o Vitorioso, durante a Guerra da Restauração (1640-1668). Em 1701, tornou-se governador de Aunis, Saintonge e Poitou, e, em 1703, foi nomeado Marechal de França. Recebeu ainda o título de conde de Saint-Léger e foi governador de Friburgo e de Estrasburgo. Embora a primeira edição de Lettres Portugaises, em 1669, não identificasse nem o remetente nem o destinatário das missivas, no mesmo ano surge uma outra edição, intitulada Lettres d’Amour d’une Religieuse Écrites au Chevalier de C. Officier Français en Portugal, lançadas por Pierre du Marteau, com a indicação, no prefácio, de que o «Cavaleiro de C.» mencionado nas Cartas era «Monsieur Le Chevalier de Chamilly» (apud Green 1926: 159). Esta afirmação seria reforçada, em 1810, por Jean-François Boissonade, que escreveria no Journal de l’Empire ter encontrado na sua edição de Lettres Portugaises a indicação de que o conde de Chamilly seria o então conde de Saint-Leger (Boissonade 1863: 489). Esta tese seria, mais tarde, contestada por Eugène Beauvois, em La Jeunesse du Maréchal de Chamilly (1885), para quem a associação entre as duas figuras parecia ser uma impossibilidade histórica. A controvérsia em torno da identidade do cavaleiro esteve ainda ligada ao facto de alguns autores, na época, considerarem as cartas uma obra ficcional e, portanto, desprovida de qualquer correspondência biográfica. Sobre esta questão, ver ainda nota 139. Jogando com a instabilidade identitária do remetente das cartas de Mariana Alcoforado, o cavaleiro surge, por vezes, em NCP, com a designação de Antoine de Chamilly (pp. 88 e 120). Sobre esta questão, ver nota 109.

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Carta de uma universitária de Lisboa de nome Mariana a seu noivo (?) António em parte incerta (pp. 188-190) 195. «Marcuse» (p. 188) Referência a Herbert Marcuse (1898-1979), reputado filósofo e sociólogo da Escola de Frankfurt, nascido na Alemanha, e naturalizado norte-americano. O nome de Marcuse, no contexto da frase e da carta em que ocorre, poderá ser entendido como uma alusão quer aos mecanismos repressivos das liberdades individuais na sociedade moderna, quer a formas de contestação revolucionária, quer ainda ao questionamento da natureza das «necessidades» do ser humano neste tipo de sociedade, e da relação entre «necessidades» e convenções sociais. Estas questões são centrais no pensamento crítico de Marcuse. 196. «a minha mãe a pagar-me as botas, as minis e, quão discreta e civilizadamente, a pílula.» (p. 188) Embora a comercialização da pílula anticoncepcional pelo laboratório Searle tenha sido aprovada, pela primeira vez, em 1960, nos Estados Unidos, pela FDA (Food and Drug Administration), este contraceptivo oral só chegaria a Portugal em 1962, através da empresa farmacêutica Schering Lusitana, com a designação de Anovlar. Portugal foi um dos primeiros países europeus a comercializar a pílula, juntamente com a Alemanha, a Inglaterra e a Holanda, mas a revolução sexual geralmente associada ao aparecimento na década de sessenta deste contraceptivo hormonal foi mais contida no nosso país. De facto, embora este método de controlo da natalidade fosse mais eficaz do que os anteriores, permitindo às mulheres regular os seus ciclos de fertilidade e prevenir a gravidez – e, consequentemente, controlar a sua sexualidade –, em Portugal, a pílula começou por ser prescrita apenas para fins terapêuticos e a sua utilização foi desde logo veementemente condenada pela Igreja Católica, o que fez com que poucas mulheres a utilizassem inicialmente, ou se o fizessem, procurassem adquiri-la com a maior discrição. 197. «ou ao buraco desta coisa da tua decisão de desertar» (p. 189) Segundo dados do Estado-Maior do Exército divulgados em 1988, cerca de 200 000 jovens faltaram à chamada para a tropa entre 1961 e 1974, tendo o número de deserções aumentado no período compreendido entre 1970 e 1972 (Resenha 1988: 258). Durante os treze anos em que durou a guerra, foi-se acentuando um claro afastamento «entre os interesses do Estado Novo e as aspirações juvenis», sobretudo no caso dos jovens obrigados a cumprir serviço militar no continente africano, durante pelo menos três anos, «em condições de risco físico e psicológico acentuado» (Cardina 2009: 14). Apesar de o regime procurar manter a opinião pública desinformada e controlada relativamente à situação real vivida pelos militares mobilizados (ocultando os números efectivos de baixas, feridos de guerra ou deserções), o clima de dúvida

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quanto à justificação da Guerra Colonial começa a aumentar, ao mesmo tempo que se acentua, sobretudo nos meios estudantis portugueses e entre a juventude operária, a contestação pública à política colonialista do Estado Novo. De uma forma primeiro surda, mas progressivamente mais audaz, as associações de estudantes das universidades organizam protestos contra a guerra, distribuem panfletos e insurgem-se contra a retórica imperialista do regime, fazendo mesmo a apologia da deserção, ou da fuga antes da mobilização, como medidas contestatárias e de resistência ao regime. Independentemente da sua motivação – política, económica ou pessoal –, a deserção representava igualmente um risco para os refractários, condenando-os inevitavelmente ao exílio, à prisão, ou, muitas vezes, à clandestinidade. Sobre a deserção e a contestação à Guerra Colonial, ver ainda as notas 186 e 187. 198. «E, ay eu coytada, (…) me vejo a retomar o pranto herdado das galeguinhas-durienses» (p. 189) Alusão paródica à tradição lírica galego-portuguesa e, em particular, às convenções literárias das cantigas de amigo, um género trovadoresco que, a partir do século XIII, ganha algum ascendente relativamente às cantigas de amor. Embora nas cantigas de amigo as relações feudo-vassálicas não sejam explicitamente exploradas, há como que uma inversão da lógica do serviço cortês, na medida em que é um enunciador feminino que se dirige a um destinatário masculino, estando a «coita» de amor agora do lado da mulher e já não do homem. No entanto, embora nesta variante da canção de mulher o «eu» lírico seja feminino, o autor – o trovador – é, na realidade, um homem. Por isso, a máscara feminina não articula senão sentimentos moldados à luz das expectativas masculinas, restringindo as atitudes da mulher, com escassa ou nula capacidade de acção, à expressão de «determinação, contentamento, ansiedade e resignação perante as acções desenvolvidas pelo amigo», que controla, assim, o jogo amoroso através da sua ausência ou presença, aproximação ou afastamento (Miranda 1994: 16-17). No caso da composição trovadoresca evocada em NCP, é a ausência do amigo a razão do «pranto» feminino: Ay eu coitada, como vivo en gran cuidado por meu amigo, que ei alongado! Muito me tarda o meu amigo na Guarda! Ay eu, coitada, como vivo en gran desejo por meu amigo, que tarda e não vejo! Muito me tarda o meu amigo na Guarda! (Vasconcelos 1970: 17-18)

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De autoria controversa, esta célebre cantiga de amigo encontra-se coligida no Cancioneiro da Biblioteca Nacional (outrora conhecido como Cancioneiro de Colocci-Brancuti, compilado em Itália, no primeiro quartel de 1500, por ordem do coleccionador italiano quinhentista Ângelo Colocci e, mais tarde, adquirido por Paolo Brancuti). O paralelo situacional entre esta composição e a carta de Mariana é desde logo evidente, pois, tal como a amiga anseia pelo amigo que tarda em regressar da Guarda, também Mariana espera por seu noivo, António, escondido em parte incerta, retomando assim o «pranto herdado das galeguinhas-durienses» (p. 189). Note-se ainda que o recurso ao epíteto paródico «galeguinhas-durienses» poderá evocar não só o papel passivo da mulher nos cantares de amigo desenvolvidos na zona galego-portuguesa (que corresponde à actual região entre o Entre-Douro-e-Minho e a Galiza), mas também o próprio papel da mulher portuguesa durante a Guerra Colonial, condenada a chorar a ausência dos homens e a esperar ansiosamente o seu regresso. 199. «Joie de Lire» (p. 189) Referência a uma livraria situada no Quartier Latin, em Paris, famosa nos anos sessenta, onde era possível encontrar as publicações revolucionárias, proibidas nos países onde vigoravam ditaduras. 200. «“não é para mim este país”» (p. 189) Verso do poema «O País Relativo», de Alexandre O’Neill, incluído na obra Feira Cabisbaixa, de 1965: (…) País onde qualquer palerma diz, a afastar do busílis o nariz: – Não, não é para mim este país! Mas quem é que bàquestica sem lavar o sovaco que lhe dá o ar? (…) (O’Neill 2002: 226)

Sobre Alexandre O’Neill, ver nota 29. 201. «O Listopad encenou o “Fim” do António Patrício (1909) na Casa da Comédia.» (p. 189) Referência a Jorge Listopad (1921-), escritor, crítico, realizador, encenador e professor de origem checa, radicado em Portugal desde os anos cinquenta. Listopad contribuiu para a renovação do teatro português com o seu trabalho de encena-

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dor em grupos ligados ao teatro experimental, como, por exemplo, a Casa da Comédia, uma companhia teatral lisboeta fundada por Fernando Amado na década de quarenta e, depois de duas décadas de inactividade, reactivada em 1962, dedicando-se à dramaturgia moderna. Em 1969, estreia a primeira peça dirigida por Listopad na Casa da Comédia, A Dança da Morte (1900), de August Strindberg, seguindo-se-lhe, dois anos depois, O Fim (1909), de António Patrício, um texto nunca antes levado à cena mas que o encenador checo redescobre e coloca em cartaz em 1971. A peça estreou a 17 de Abril de 1971 e manteve-se em cena até 23 de Maio do mesmo ano, gozando de grande sucesso junto do público e da crítica. António Patrício (1878-1930) foi um dramaturgo e diplomata portuense, autor de peças de cariz histórico como Pedro, o Cru (1918), Dinis e Isabel (1919) e D. João e a Máscara (1924). Quanto a O Fim (1909), trata-se de uma «história dramática em dois quadros», publicada um ano antes da queda do regime monárquico em Portugal e da Implantação da República. A acção decorre num paço velho, entre a véspera e o dia de aniversário da Rainha-avó (a personagem Rainha Velha), que vive demente, num palácio arruinado, alheia ao fim eminente da soberania do país às mãos das potências estrangeiras que invadem o país. Mais do que o fim da monarquia, a peça reflecte a situação agónica de um país ou de uma civilização, permitindo, por isso, repensar a própria conjuntura política que marca os últimos anos do regime ditatorial. Em NCP, esta reflexão está presente no final da carta, nos vários paralelos estabelecidos entre a acção da peça e a situação política do país em 1971. Sobre esta questão, ver nota 202. 202. «“só nos restou o avesso, só nos resta o avesso”». (…) os estrangeiros indefinidos a entrarem pela barra adentro, o povo de Lisboa a pegar em armas ridículas e a deixar-se massacrar «pela raça», e a rainha, ah a rainha, (…) a dizer com um grande sossego “tenho fome”.» (p. 189-191) Referência a frases e cenas da peça O Fim (1909), de António Patrício, encenada por Jorge Listopad, na Casa da Comédia, e em cartaz em Abril e Maio de 1971. Através da voz autoral de Mariana, que escreve uma carta a seu noivo, António, desertor no período da Guerra Colonial, estabelecem-se vários paralelos entre a encenação de Listopad, a que a jovem universitária assistiu, e a situação política do país na década de setenta: «toda aquela traparia e o texto, que de bem composto passou a magicamente justo a isto» (p. 189). Começando por aludir a uma das falas da Rainha Velha evocadas na expressão «só nos restou o avesso» (p. 189) – «O Duque, pobre Duque, está como eu… / Foi o avesso de nós o que sobreviveu…» (Patrício 1909: 30) – Mariana considera a escolha de Listopad uma prefiguração justa da decadência de um regime moribundo, ainda que alguns não tenham entendido a actualidade da peça, não encontrando no espectáculo «nada a ver com a hora que corre» (p. 189). Mas, de facto, se, na peça de Patrício, Lisboa é invadida por «estrangeiros indefinidos» que vêm pôr fim à monarquia, apesar da oposição

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