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quem tem medo dos feminismos?


título Quem tem medo dos feminismos? (Vol. I)

autores A AV V

revisão Nova Delphi

design FBA.

impressão e acabamento Guide – Artes Gráficas Lda

isbn 978­‑989­‑8407­‑01­‑6

depósito legal ????????????

editora Nova Delphi (Marca Registada da Euthália Editora, Lda) Rua da Carreira 115/117 , 9000­‑042 Funchal, Portugal www.novadelphi.com


quem tem medo dos feminismos?

(vol. i)

congresso feminista 2008 – actas Coordenação: Maria José Magalhães, Manuela Tavares, Salomé Coelho, Manuela Góis e Elisa Seixas


ÍNDICE Prefácio Sessão de Abertura Elisabete Brasil, umar Elza Pais, presidente da cig Lígia Amâncio, fundação para a ciência e tecnologia Conferência de Abertura. Homenagem à Feminista Madalena Barbosa Disciplinamento ou radicalização dos feminismos no século XXI: Experiências latino­‑americanas. Sónia Alvarez Não nasci feminista… tornei­‑me feminista: Reflexões em torno do passado e do presente, com os olhos postos no futuro. Sofia Neves Homenagem à feminista Madalena Barbosa. Irene Pimentel

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Simone de beauvoir: O Centenário do seu Nascimento Simone de Beauvoir, uma existencialista feminista. Maria Antónia Fiadeiro 55 A grande aventura de ser ela. Maria Teresa Horta 61 Simone de Beauvoir – Liberdade, Fidelidade e Ciúme. Maria Antónia Palla 67 Mulheres e Media A visibilidade do Dia Internacional da Mulher na agenda mediática nacional. Carla Cerqueira Cobertura jornalística dos julgamentos de aborto de 1979: o caso do “Comércio do Porto”. Inês Machado Pereira A emergência das mulheres repórteres nas décadas de 60 e 70. Isabel Ventura

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Mulheres e Lideranças Umar Braga: Derrubando muros para construir pontes. Anabela Santos, Carla Cerqueira, Danielle Capella e Syilvie Oliveira Mulheres e lideranças partidárias. Cecília Honório

105 115

Mulheres, Pobreza e Exclusão Social Mulheres, família e crianças: Algumas indicações para as políticas. Neuza Araújo

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A pobreza no feminino: Uma ilha no centro da ilha. Assunção Bacanhim, Célia Pessegueiro, Elisa Seixas e Guida Vieira Classe, género e etnia nas desigualdades sociais. Lídia Fernandes Violência de Género e Violência nas Relações de Intimidade Feminismo, relações de poder. Aline Domício Casa abrigo: Abriga ou obriga? Alexandra Dourado, Anabela Gomes, Elsa Branco e Maria Bibas Gostar de mim, gostar de ti: prevenção da violência nas escolas. Ana Paula Canotilho, Patrícia Ribeiro e Maria José Magalhães

128 133

149 157 168

Feminismos, História das mulheres e da educação Olhares sobre uma ausência: o movimento estudantil no Estado Novo e o feminismo. Miguel Cardina Marcas do Estado Novo na educação feminina no ensino secundário. Rodrigo Azevedo O género na língua: O caso do português e do inglês. Rosa Neves Simas

197

Feminismos e Poder Político Défice de género ou défice democrático? Maria Helena Santos Feminismo e poder político. Helena Pinto

207 222

Mulheres e Ciência Maria Palmira (1912­‑2003) – Enfermeira e feminista. Maria José de Matos Mulheres na ciência e ciência sobre mulheres. Maria Johanna Schouten Género e Relações de Género: O Papel das Mulheres e dos Homens na Mudança Nuevas Masculinidades. Javier Robles Andrades Os homens e a igualdade de género: Ontem e hoje. Clarisse Canha Narrativas de homens feministas portugueses. Daniel Matias Violation of women’s human rights: measures and strategies to safeguard. Jayshree Singh

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227 238

249 252 261

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Trabalho, Sindicalismo e Empoderamento das Mulheres O trabalho no domicílio das mulheres e a (im)possível conciliação com a vida familiar. Anne Marie Delettrez Os lugares que as mulheres ocupam nos sindicatos portugueses. Vera Santana (Dis)empowerment and domestic Work: Between the public and private spheres. Lisa Tortell, Pierre Guibentif, Ramapriya Gopalakrishnan e Vanessa de la Blétière As mulheres na pesca nos Açores: Projecto de investigação e acção participada. Maria Josep Cascant i Sempere O género na imigração em Portugal. Ana Coutinho Direitos Humanos e Igualdades Feminismo e diversidade funcional: Retos de futuro. Isabel Lodeiro Vales Xingamentos: sintoma e reprodução da sociedade patriarcal. Valeska Zanello e Tatiana Gomes Mutilação genital feminina: o que sabem os profissionais de saúde? Ana Campos, Lisa Vicente, Sandra Barreto e Vera Cunha Feminismos, Movimentos Sociais e Políticas Públicas Da delegacia da mulher à Lei Maria da Penha: Lutas feministas e políticas sobre violência doméstica no Brasil. Cecília MacDowell dos Santos Feminismos e pós­‑colonialismos no limiar do século XXI. Eurídice Monteiro A transformação da cidadania íntima em Portugal: contributos dos movimentos pela igualdade de género e sexual. Ana Cristina Santos e Sascha Roseneil Feminismo de Estado em Portugal: algumas reflexões exploratórias. Rosa Monteiro Famílias, Casamentos e Trajectos Emancipatórios “It’s your fault (Only yours)!” Female adolescents’ social responsibility for preventive behaviours. Sara Magalhães, Luísa Saavedra e Maria do Céu Taveira

277 286

295 309 314

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343 355

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ii. conferência de abertura. homenagem à feminista madalena barbosa Disciplinamento ou radicalização dos feminismos no século XXI: Experiências Latino­‑americanas sónia alvarez

Não nasci feminista… tornei­‑me feminista: Reflexões em torno do passado e do presente, com os olhos postos no futuro sofia neves

Homenagem à feminista Madalena Barbosa irene pimentel


Disciplinamento ou radicalização dos feminismos no século xxi: Experiências latino­‑americanas Sonia E. Alvarez É quase um ponto de consenso hoje que os feminismos latino­‑americanos – tanto nos movimentos como na academia – passaram por processos de despolitização e disciplinamento nos anos 90. Mas quero sugerir nesses breves comentários que tem havido uma radicalização de sectores significativos dos movimentos de mulheres e feministas em anos recentes e que as formas atuais de militância ou “accionar” feminista em escala transnacional em particular, no Brasil e no resto da América Latina, pareceriam ser bastante mais desafiantes do que as relativa‑ mente bem­‑compartadas ONGs e redes voltadas para o “advocacy” de políticas públicas que prevaleceram em níveis regionais e globais nos anos 90. Os movimentos, por definição, se movem e o campo feminista latino­‑americano tem estado novamente em movimento durante os anos 2000. Quer dizer, o campo feminista está sendo outra vez reconfigurado em consequência de mudanças nas dinâmicas internas a esse campo e no campo do poder mais amplo no qual os feminismos estão inseridos. Finalmente, tirando algumas lições dessas expe­ riências movimentistas recentes, vou concluir sugerindo algumas estratégias possíveis para promovermos uma radicalização paralela nos hoje muito bem disciplinados feminismos académicos no Sul e Norte das Latin(a)­‑Américas e outras partes do mundo. Primeiro, então, algumas poucas palavras sobre o disciplinamento dos feminismos nos 90. Como é sabido, desde meados a final dos 90, sectores cada vez mais profissionalizados e focalizados dos feminismos na região latino­ ‑americana investiram enormes recursos humanos e materiais em tentati‑ vas de influenciar as arenas de política intergovernamental. E ficaram como nunca antes vinculados às redes globais de advocacy feminista. Este intrinca‑ mento ficou particularmente evidente nos processos de Cairo e Beijing e as suas “sequelas” +5 e +10. As forças interna e externa aos movimentos feministas que propulsaram a pro‑ fissionalização, ou o que eu e muitas outras temos chamado da ONGização do feminismo, já têm sido bastante documentadas (Alvarez 1999, 2009; ­Hemment 2007; Lang 1997; Murdock 2008; Silliman 1997). O que me interessa para efei‑ tos desta apresentação são, por um lado, os desdobramentos para os movimen‑ tos do pesado investimento de sectores significativos dos feminismos latino­ ‑americanos em processos internacionais estruturados de “cima para abaixo”.


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Conferência de Abertura

Isto é, do envolvimento feminista em processos estruturados pelas várias agên‑ cias da ONU, outras agências intergovernamentais, como a OEA, e agências globais financeiras, como o Banco Mundial. E por outro lado, do crescimento e maior visibilidade política de “outros feminismos” que vou chamar de “trans‑ locais,” que emergem através de um processo que poderíamos chamar de “glo‑ balização de baixo para cima.” Já para o começo dos 2000, pelo menos três desdobramentos estavam em evi‑ dência. O primeiro de certa maneira reforçou o disciplinamento dos anos 90, exigindo um aprimoramento dos saberes técnicos e uma maior ênfase nos “resul‑ tados concretos”, levando a um “re­‑disciplinamento” dos sectores que mais se profissionalizaram nos 90 e à consolidação de um núcleo de quadros transna‑ cionalizados e hiper­‑especializados de “policy advocates” (noção que não tem tradução directa, se escreve “advocaci” no Brasil) que apreenderam a navegar nas veredas labirínticas das instituições internacionais. Os outros dois desdobramentos que quero destacar representam processos de (relativa) radicalização tanto entre aquelas envolvidas com a transnaciona‑ lização de cima para baixo, como as militantes engajadas em novas formas de activismo translocal de baixo para cima. Entre as primeiras, vemos uma cres‑ cente desilusão ou desencanto com o trabalho de advocacy focado em arenas de políticas internacionais e uma tentativa de “retorno às raízes” por parte de algumas activistas e ONGs que estiveram na frente dos processos de Beijing e Cairo e pós­‑Cairo e Beijing. Uma encarnação quintessencial desse processo de desilusão e reinserção política seria o caso da Articulação Feminista Marcosur, um grupo de ONGs e redes sul americanas que tem lançado várias campanhas transnacionais muito inovadoras, como a “Campanha contra os Fundamenta‑ lismos”, com vistas a impactar a cultura e as representações e não só as políticas públicas (vide http://www.mujeresdelsur.org.uy/index_e.htm). Porquê a desilusão de feministas como as que levam em frente essa Arti­ culação? Já na segunda metade dos 1990, as várias conferências ‘+5’ que deram seguimento às cúpulas mundiais do Rio, Viena, Cairo, Copenhagen e Beijing deixaram claro – inclusive para muitas das que tinham se dedicado mais inten‑ samente a intervir nesses processos – que o empenho feminista em influenciar as esferas internacionais oficiais tinha rendido parcos resultados concretos. Mesmo que se tenha conseguido incorporar alguns dos elementos (mais digeríveis) do ideário feminista nas plataformas e acordos internacionais dos 1990, a intensifi‑ cação da globalização neoliberal, o enxugamento cada vez mais dramático dos Estados nacionais, os processos de ajuste económico e a concomitante erosão


Disciplinamento ou radic alizaç ão dos feminismos no século XXI

da cidadania e das políticas sociais, com efeito, bloquearam qualquer possibili‑ dade de mudança mais significativa nos direitos e condições de vida das mulhe‑ res (Alvarez, Faria e Nobre 2004, 534­‑535). Para as feministas engajadas nos processos de globalização de baixo para cima, os 2000 trouxeram um incremento significativo na circulação de sabe‑ res, discursos e práticas feministas em um sem número de espaços e lugares sociais, políticos e culturais em várias escalas. Isto tem promovido a expansão dos campos feministas locais e dado lugar a novas faces dos feminismos atra‑ vés de processos de tradução e apropriação dos discursos e práticas feministas pelas mais diversas categorias de mulheres – entre elas sindicalistas, trabalha‑ doras do campo, jovens, indígenas, e afro­‑descendentes. E muitos destes novos espaços feministas também experimentaram processos de articulação translo‑ cal, tecendo vínculos horizontais com contrapartes de outros locais em mui‑ tos países engajadas em lutas similares. Essas articulações translocais, e não só as construídas em espaços ‘globais’ como a ONU, são hoje, em efeito, a forma mais comum de articulação para além das fronteiras dos estados­‑nação. Muitas activistas dos movimentos de mulheres e feministas, junto com as mulheres dos movimentos sociais e partidos políticos de esquerda “mixtos”, vem construindo vínculos translocais forjados nos esforços de organização anti­‑neoliberal que se estenderam por muita da América Latina desde meados dos 1990 até o presente, como são os casos do Movimento Sem Terra e a Via Campesina, onde feminis‑ mos populares têm forte presença. Os 1990 e 2000 também presenciaram a intensificação de activismo entre os povos indígenas e afro­‑descendentes para além das fronteiras dos estados­‑nação. Processos regionais de mobilização contra o “descobrimento” das Américas (1992) e do Brasil (2000) foram particularmente significativos no fortalecimento e visibilização desses movimentos e as mulheres têm assumido notável liderança nesses processos (Caldwell 2009; Hernández Castillo 2001; Lebon 2007; Sánchez 2006). A radicalização mais recente dos feminismos, é claro, também é fruto da actual crise (e em alguns casos, quebra) do neoliberalismo na região, manifes‑ tada no que muitos têm chamado da “onda rosada” que tem inundado mais da metade dos países latino­‑americanos nos últimos tempos. Mesmo que nem sem‑ pre reconhecido pelos analistas políticos, essa onda ou “maré” de esquerda deve­ ‑se, à sua vez, ao surgimento, ou melhor, crescente visibilidade de movimentos mais militantes, mais “mal­‑comportados” em muitas partes da região desde pelo menos meados dos 90 ( Johnston e Almeida 2007; Stahler­‑Shock et al. 2008). E a liderança das mulheres nesses movimentos, novamente, é inegável – as pique‑

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Conferência de Abertura

teras, as trabalhadoras de fábricas recuperadas, as sem­‑tecto e as sem­‑terra, as activistas nos movimentos sócio­‑ambientais, e militantes em muitos dos recen‑ tes movimentos tem configurado o que a Graciela di Marco, seguindo Laclau, tem chamado de “El pueblo feminista” (di Marco forthcoming). Mas, minimamente, temos que reconhecer que há processos de reconfigu‑ ração do campo do poder (num sentido amplo), de menor ou maior grau, na América Latina hoje, incluindo desde Chávez na Venezuela, Morales na Bolívia, ­Correa no Equador, Ortega na Nicarágua, Lugo no Paraguai, Cristina ­K rischner na Argentina, Lacalle no Uruguai, Bachelet no Chile, Lula no Brasil, e mais recen‑ temente Funes em El Salvador (Castañeda 2008; Friedman 2007; Saint­‑Upéry 2008). Aventurar­‑me­‑ia a dizer que, nesse cenário político reconfigurado, há quatro traços que caracterizam os recentes movimentos em direcção a formas mais rebeldes de activismo feminista para além das fronteiras. Primeiro, à diferença das redes mais centralizadas, formais e ancoradas no advocacy forjadas durante os anos 90, no auge das articulações políticas em con‑ sequência das conferências da ONU, as expressões contemporâneas da militân‑ cia transnacional na América Latina se manifestam através de teias (webs) reti‑ culadas de comunicação e interacção mais flexíveis e policêntricas. Segundo, enquanto as chamadas “transnational feminist networks” (TFNs, Moghadam 2005), tramadas nos Oitentas e Noventas, principalmente procuravam influen‑ ciar as arenas de políticas nacionais e internacionais, muito do activismo femi‑ nista transnacional hoje procura construir ou fortalecer conexões e construir coalizões com outros movimentos locais, regionais e globais não­‑feministas. Ter‑ ceiro, se as TFNs dos anos 90 centraram seus esforços um tanto estreitamente na advocacy de políticas públicas, como se fosse uma ciência exata, hoje discuti‑ velmente há uma maior ênfase na intervenção cultural, na disputa discursiva, no performático e na política de representação. E por último, o quarto traço seria que, se nos anos 90 as TFNs tipicamente vinculavam as ONGs do Norte às do Sul, com as chamadas redes globais realmente controladas ou “headquarte‑ red” no “global North”, um crescente número de feministas latino­‑americanas actuando em nível translocal ou transnacional hoje busca promover vínculos Sul­‑Sul com as suas contrapartes na Ásia e na África. A radicalização de importantes sectores dos feminismos na região latino­ ‑americana hoje em dia se manifesta em pelo menos duas expressões, não “ten‑ dências” reais dos movimentos, mas na realidade muitas vezes duas caras da mesma militante, da mesma organização: 1) as feministas transnacionais desi‑ ludidas que têm feito traduções, apropriações e adaptações criativas dos “reper‑


Disciplinamento ou radic alizaç ão dos feminismos no século XXI

tórios” adquiridos no activismo global dos anos 90, a exemplo de Articulação Feminista Marcosur e a Campanha por uma Convenção Interamericana sobre os Direitos Sexuais e Reprodutivos; e, 2) as novas e velhas feministas translocais que incluem as que se dizem anticapitalistas (MST, Via Campesina, sindicalistas, Marcha Mundial de Mulheres), as anti­‑racistas (afro­‑descendentes, indígenas), jovens, e novas feministas nos novos movimentos urbanos e rurais. Essas duas agrupações/sectores/categorias de feministas confluem, mas não necessariamente convergem politicamente, em espaços como o Foro Social Mun‑ dial e os encontros feministas Latinoamericanos e do Caribe mostrando uma evidente renovação e radicalização dos movimentos na região já pelo começo dos 2000 (Alvarez et al. 2004; Alvarez, Faria e Nobre 2004). Ambas as faces dos feminismos latino­‑americano contemporâneos procuram se articular com outros movimentos, mesmo que com estratégias diferentes e às vezes divergen‑ tes. Ambas se encontram presentes também nas diversas expressões organiza‑ tivas dos feminismos. Entre as feministas transnacionais desiludidas ou desencantadas, as parti‑ cipantes da já mencionada Articulação Marcosur trazem e traduzem as apren‑ dizagens dos seus engajamentos com as arenas oficiais internacionais para as lutas feministas no contexto latino­‑americano. Um claro exemplo é a pró‑ pria metodologia de ‘campanhas’, como a que hoje lideram por uma conven‑ ção latino­‑americana sobre DDSSRR (ver Encarte, Revista Estudos Feministas, Vol. 15, no. 1, 2007). As feministas que se identificam com ‘o campo anticapitalista’ – como a já citada Marcha Mundial das Mulheres – também tem inovado nas práticas e discursos, liderando, por exemplo, um esforço inédito de construir uma “Carta Mundial das Mulheres pela Humanidade” (http://www.sof.org.br/ marcha/?pagina=cartaMundial), que circulou por centenas de grupos femi‑ nistas pelo mundo fora. Elas trazem novas questões e repertórios de acção para o campo feminista, com um enfoque articulando a violência contra as mulheres e a pobreza, organizando campanhas pelo aumento do salário mínimo, e trabalhando para desenvolver perspectivas feministas sobre a polí‑ tica macroeconómica. A radicalização se dá, então, através dessas novas modalidades mais rebeldes do feminismo contemporâneo, por um lado, ao mesmo tempo em que, por outro, como já disse, vemos também o crescente “disciplinamento” de um sector cada vez mais profissionalizado, transnacionalizado, e especializado dos movimen‑ tos feministas, a consolidação de quadros regionais de especialistas em género

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xi. género e relações de género: o papel das mulheres e dos homens na mudança Nuevas masculinidades javier robles andrades

Os homens e a igualdade de género: Ontem e hoje clarisse canha

Narrativas de homens feministas portugueses daniel matias

Violation of women’s human rights: measures and strategies to safeguard jayshree singh


Nuevas masculinidades Javier Robles Andrades Vuestra compañera Clarisse Canha me invita a participar en este Congreso Femi‑ nista para que haga una reflexión breve sobre la nueva masculinidad. Para mi supone una situación muy embarazosa y complicada, porque a esta altura de mi vida no tengo claro ni que yo sea un modelo alternativo de masculinidad (lo que si tengo claro es que estoy renunciando a ser un “macho”), ni que exista un modelo claro y único frente al existente tradicional. Para muchos hombres de occidente es fácil apoyar la igualdad en un plano formal, pero resulta más comprometido cuestionarse a uno mismo y ser consecuente en la vida privada y personal. La nueva masculinidad (aunque es más correcto decir las nuevas masculini‑ dades, puesto que se está construyendo distintas respuestas) es un fenómeno reciente, que tiene que ver con la respuesta que hombres occidentales han dado a los desafíos planteados por el feminismo y el movimiento de las mujeres, espe‑ cialmente desde la década de los setenta. Seidler (1991), uno de los pioneros en el movimiento de hombres británico, explicaba que «Siendo hombres, hemos respondido al movimiento de las muje‑ res de formas muy diferentes. Algunos lo ignoraron, pensando que desaparece‑ ría. Otros consideraron que era una peligrosa distracción del tema central de las políticas de clases. Otros estaban simplemente entusiasmados por el movi‑ miento de mujeres, pero todos nosotros, de una manera u otra, estábamos ater‑ rados y confundidos por éste, tan pronto como trastocó la realidad cotidiana de nuestras relaciones personales». Han sido generalmente las mujeres, no sólo como movimiento social y polí‑ tico, sino como parejas, amigas, compañeras o familiares, las que nos han enfren‑ tado con quiénes somos y cómo nos comportamos, ya que en realidad parece que hemos cambiado bien poco. Parece que no somos capaces de ver cómo esta‑ mos implicados en el sexismo (entendido como macroestructura de poder) si no es por la fuerza con la que ellas nos han confrontado con nuestros privile‑ gios. Por ello, el feminismo nos ha abierto un nuevo campo en positivo para redescubrirnos. Para los hombres, responder positivamente a las demandas de las mujeres no es fácil, ya que como hombres estamos acostumbrados a dar soluciones mediante la acción, en lo público y con la razón. Y resulta que hemos ido al feminismo y nos hemos encontrado que ellas nos reenvían al ámbito de lo personal y nos


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género e relações de género

piden que no hagamos nada en sus organizaciones, sino que nos replanteemos nuestra forma de situarnos en lo personal y nos responsabilicemos de nuestras emociones y nuestros problemas de comunicación. En el comienzo de estas construcciones de las nuevas masculinidades nos estamos sintiendo terriblemente desorientados, con pocos modelos. Estamos deseando saber cómo debemos ser hombres y no “machos”, cuando ni siquiera apenas sabemos quiénes somos ni quiénes deseamos ser. Así, muchos hombres “progresistas” que se dicen feministas, consideran los grupos de hombres por la igualdad como una actividad privada e intrascendente, un pasatiempo de sensiblones egocéntricos. Una vez más, se vuelve a la distinción entre la política seria, la pública, por un lado; y lo emocional y personal como el ámbito degra‑ dado, desvirtuando lo que ha sido una máxima de los movimientos sociales: lo personal es político. Las formas de masculinidades que hemos aprendido nos han llevado a tener el mínimo contacto posible con nuestra intimidad y a tener grandes dificulta‑ des para establecer relaciones íntimas igualitarias con otros hombres y mujeres. Por ello, Connell (1995) desarrolla conceptos como “dividendo patriarcal”, que viene a significar el conjunto de ventajas que acumuladamente benefician a los hombres en comparación con las mujeres, en virtud de sus salarios más altos y mejores perspectivas de promoción; y la “masculinidad hegemónica” que es la forma de masculinidad, dominante y culturalmente autorizada y autorizante, en un orden social determinado (sociedad patriarcal). Sin embargo, otras formas de masculinidad se generan al mismo tiempo. Por ejemplo, el producto y proceso de la cultura de los homosexuales genera una masculinidad subordinada que puede coexistir con la hegemónica para un grupo de hombres minoritario, y que, como tal, es una masculinidad mar‑ ginada. Otro ejemplo, lo podríamos denominar una “masculinidad cómplice” propia de los hombres que aceptan y se benefician la versión aunque no necesa‑ riamente defiendan, el “dividendo patriarcal”. El sexismo como macroestructura de poder es reconstruido, desafiado, adap‑ tado, negociado y/o reafirmado en la vida cotidiana. Así, la violencia de género aparece allí donde el poder se encuentra cuestionado, como es la actual ola de asesinatos de mujeres por parte de sus parejas y exparejas en el marco de la acción de cierta ideología sexista dominante que está declinando en una situa‑ ción en que las mujeres han dejado de interiorizar y de someterse a su tradicio‑ nal situación de subordinación dentro de la pareja y la familia.


Nuevas Masculinidades

La ideología heterosexista dominante es una de las ideologías más arraiga‑ das en nuestras identidades y soporte mental. Sin embargo, los discursos hege‑ mónicos pueden ser desmontados, y la contingente relación entre la masculini‑ dad, los hombres y el poder pueden desenmascararse. En ello estamos grupos de hombres por la igualdad, aún dispersos y escasos en la geografía de España. Estamos aprendiendo que sin igualdad perdemos todas las personas, hombres y mujeres. Mayo de 2008 javier robles andrades – Participación en el curso celebrado en Hinojosa del Duque, sobre Análisis Socioeconómico de Género (ASEG). Impartición de los módulos de Igual‑ dad de Género, en las Escuelas Taller y en los Talleres de Empleos para personas mayo‑ res de 25 años, en la Serranía de Ronda. Elaboración de un material didáctico en torno al “Autoaprendizaje de Género y Metodología de Género”. Edición del puzzle de la igualdad y desigualdad de género. Construcción de unos indicadores de género para la aplicación de la Iniciativa Comunitaria Leader+, que se han llevado conjuntamente a los diseñados por la C.A.P. Recopilación de un material para las Asociaciones de Mujeres de la Serranía de Ronda “Así aprendemos ha organizar nuestra Asociación”. Realización del Diagnóstico del I Plan de Igualdad entre Mujeres y Hombres en Educación de los Institutos “Valle del Genal” de Algatocín, y “Andrés Pérez Serrano” de Cortes de la Frontera. Organizador de las Jornadas de Participación Políticas de las Mujeres de la Serranía de Ronda, así como sócio del Movimiento Feminista de Mujeres Rurales. Actualmente, estay haciendo el II Curso ­Virtual de Intervención con Hombres desde la Perspectiva de Género; y en los presupues‑ tos participativos en clave de género en el municipio de Benalauría.

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Os homens e a igualdade de género: Ontem e hoje Clarisse Canha A partir da observação e a análise de algumas realidades e experiências pretende­ ‑se colocar reflexões sobre a condição e situação dos homens em comparação com a condição e situação das mulheres. Pretende­‑se lançar questões de debate sobre o papel dos homens, no campo do activismo feminista. Procuraremos centrar­‑nos nas seguintes temáticas: 1.  A Violência de Género. Os Homens e a intervenção na área da violência doméstica sobre as mulheres. 2.  Masculinidades e mudança pessoal. No espaço público e no espaço privado. 3.  A conciliação da vida profissional, familiar e pessoal, para os homens e para as mulheres. Os Homens e a Paternidade.

O papel dos homens na construção do mundo novo da igualdade de género Algumas perguntas e questões sobre os Homens e a Igualdade de Género: Será que podemos chamar secundário o papel dos homens na construção da igualdade de género? Será que as mulheres têm mais vantagens na mudança, do que os homens? Será que a motivação para o movimento feminista é maior nas mulheres do que nos homens e porquê? Esta revolução, a do Mundo da Igualdade de Género, fica completa sem os homens aderirem a ela? Será necessário acrescentar ao Movimento Feminista, um movimento dos homens para a igualdade? Como a AHIGE (Associação de Homens para a Igualdade de Género)? Ou será que este movimento, dos homens, deverá integrar o Movimento Feminista? Ou simplesmente ser feminista no masculino? – As mulheres têm tido um papel principal no Movimento feminista, nas dife‑ rentes correntes feministas (feminismos) e etapas ao longo da história. Mas os homens são parte integrante da história e deste movimento. – Os homens também beneficiam com as alterações preconizadas pelo movi‑ mento e teoria e prática feministas. Mas a discriminação de género, faz com que sejam as mulheres as mais atingidas e prejudicadas com as desigualdades. Elas estão em desvantagem nas condições de vida e na situação e posição na sociedade.


Os Homens e a Igualdade de Género

Comparativamente os homens vivem uma situação e condições de vantagem relativamente às mulheres. – A consciência das mulheres sobre os direitos e oportunidades negadas, empurra­‑as para a acção e intervenção feministas. A consciência de género, por parte dos homens pode também contribuir para a sua adesão ao movimento e causas feminista. Na nossa opinião, hoje, faz sentido aprofundar e afirmar os feminismos e incluir os homens nas batalhas feministas. Podemos também definir áreas de acção prioritárias da inclusão dos homens. Por exemplo, a valorização do espaço doméstico ou privado. A Paternidade/Maternidade, sem por isso limi‑ tar ou ligar as masculinidades ao espaço privado, pois, a mudança no espaço público é também essencial (nas instituições, na política, nos meios de comu‑ nicação social, etc.). Por outro lado, a existência de organizações de mulheres, pode consti‑ tuir uma medida de acção positiva e produzir um efeito de valorização das mulheres. Esta é uma ilação a tirar de experiências organizacionais existen‑ tes, movimentos e organizações de mulheres. O mesmo poderá acontecer com os homens na perspectiva da sua inclusão na construção da igualdade de género, como por exemplo a AHIGE. Também nos parece que uma interven‑ ção feminista multifacetada, integradora da perspectiva de género em dife‑ rentes áreas, pode ajudar a alertar os homens para as diferenças de género e as desigualdades. Vejamos alguns aspectos situados em duas épocas distintas, em Portugal. Uma é a decorrida há 40 anos atrás, a outra é a que decorre hoje em dia. –  Da primeira época, há 40 anos atrás, lembramos experiências vividas na JOC (Juventude Operária Católica) e JOCF (Juventude Operária Católica Femi‑ nina) no espaço territorial da Madeira. – Da segunda época, nos tempos que hoje decorrem, colocamos questões, a partir de experiências vividas na intervenção de uma associação de mulheres – a UMAR no espaço territorial dos Açores. Há 40 anos atrás a vivência dos rapazes e das raparigas estava profundamente condicionada e espartilhada, e havia poucos de convivência. Organizações como a JOC e JOCF, organizadas para as raparigas e para os rapazes separadamente, constituíam espaços de convívio, aprendizagem, reflexão e integração na socie‑ dade envolvente.

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género e relações de género

Estas organizações, proporcionavam um envolvimento, um aprofundamento e tomada de consciência das realidades sociais e económicas. Era comum, aos dois grupos, a análise das discriminações de classe, a pobreza, a falta de condi‑ ções de trabalho, salários baixos. Na habitação por exemplo, os bairros de lata, as casas superlotadas. As famílias numerosas. A questão do planeamento fami‑ liar e os métodos anticonceptivos, (proibidos pela igreja)… As discriminações que afectam (afectavam) as mulheres apareciam em des‑ taque na JOCF e eram motivo de discussão (debate) entre os dois grupos JOC e JOCF. Nesta altura, por volta de 1966, iniciava­‑se uma tendência para a arti­ culação, a partilha entre os dois grupos organizacionais. Através das Reuniões de Casos, na JOC e na JOCF a atenção das jovens e dos jovens centrava­‑se em casos concretos vividos pelas pessoas que os/as rodeavam o que à partida era um alerta para as realidades e maior sensibilidade para o que acontecia à volta. O método de discussão Ver, Julgar e Agir, permitia, a partir da des‑ crição do caso concreto em análise, debater as causas e ir mais longe no aprofunda‑ mento o que era muitas vezes decisivo na tomada de consciência social, nomeada‑ mente sobre as discriminações de género. Finalmente o terceiro momento – Agir proporcionava uma reflexão sobre o que fazer, em termos individuais (pessoais), colectivos e sociais. Neste contexto organizacional observaram­‑se casos, situações e condições objectivas relativas à realidade dos homens e das mulheres, jovens e não só. Esta experiência, naquela época, nos anos 60, foi marcante no cresci‑ mento da consciência social das jovens, na JOCF e dos jovens na JOC. De ontem, há quarenta anos, falamos a partir de memórias de vivências. De hoje, falamos a partir da observação e experiência vividas nos últimos anos, com maior ênfase nos anos mais recentes, na intervenção feminista do activismo enquadrado num colectivo de âmbito nacional no qual se tem vindo a desen‑ volver acções no espaço territorial dos Açores. Pode­‑se assim fazer uma compa‑ ração entre estas duas épocas em contextos semelhantes no respeitante ao país (europeu e região ­‑ insular). Desde há quatro décadas deram­‑se, em Portugal, mudanças profundas, mar‑ cadas por acontecimentos como a Revolução de 25 de Abril de 1974. Também é de referir a realidade global do mundo, que embora sempre tenha existido, assume hoje contornos diferentes para as populações. Pretende­‑se enquadrar esta reflexão no contexto do movimento feminista cuja importância tem sido decisiva nas mudanças operadas no mundo.


Os Homens e a Igualdade de Género

Também temos de ter em conta que em quatro décadas, nascem, crescem, amadurecem, mulheres e homens o que significa também evolução, e mudan‑ ças incontornáveis. Passamos agora a focar os temas, com a intenção de reflectir o papel dos homens e a construção da igualdade de género, e particularmente a mudança dos homens, no espaço e público e do privado: – O primeiro tema é A violência de género no espaço doméstico, o segundo tema As masculinidades e a mudança pessoal, no espaço público e no espaço privado e o ter‑ ceiro tema A conciliação da vida familiar, pessoal e profissional, onde se inclui Os homens e a paternidade. Uma característica do feminismo na nossa época e país tem a ver com a ­existência de trabalhos desenvolvidos a nível académico e a nível do activismo – o que este Congresso procura retratar. Esta comunicação foi preparada a partir das reflexões, problemas e desafios lançados e vividos na minha experiência pessoal particularmente no activismo feminista dos últimos anos, num percurso de vida multifacetado onde se têm cruzado diferentes áreas como o activismo político, sindical e feminista.

Tema 1 – A Violência de Género. Os Homens e a intervenção na área da ­violência doméstica sobre as mulheres Na área da violência doméstica sobre as mulheres, a situação de contradição de género agudiza­‑se. A condescendência não tem lugar. Os homens são os agressores. Mas, os homens têm uma estrutura social que lhes justifica ser agressores? Gostaria partilhar convosco que este tema, o da violência doméstica sobre as mulheres, me despertou desde muito cedo na minha vida, pois, ainda criança presenciei situações de agressão masculina em contexto de proximidade familiar, e o sentimento de empatia levou­‑me de imediato para o lado da vítima (de rosto feminino). Mais tarde esta adesão amadureceu e confirmou­‑se. Em paralelo foi­ ‑se desenvolvendo o entendimento acerca do agressor. Hoje confirmo a opinião de que os homens enquanto género e agressores têm de mudar radicalmente. Os homens têm de mudar e até lá, enquanto não mudam, a sociedade não pode conciliar (condescender) com os agressores, não pode conciliar com a ­v iolência doméstica. Grandes alterações aconteceram, tanto na consciência social como no con‑ texto legal. Nestas mudanças e desde o início do movimento de combate à Vio‑

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lência de Género, o Feminismo tem e teve um papel decisivo, em conjunto com o trabalho desenvolvido por diferentes tipos de organizações da sociedade civil e do campo institucional. Por outro lado, a intervenção feminista na área da violência doméstica sobre as mulheres, confronta os colectivos, confronta o pessoal técnico, com proble‑ mas de diferente ordem, um dos quais é o papel do homem agressor no processo. Confrontamos com casos, situações em que o processo não é simples, e entendí‑ vel da mesma forma para quem observa, acompanha, ou/e por quem vive o papel real. Há situações em que a vítima decide romper. Há situações em que a vítima oscila na esperança de que algo vai mudar, pois o agressor é o seu companheiro, o seu namorado, e, talvez também o pai das suas crianças… mas a experiência diz a quem trabalha nesta área que essa esperança não confere, normalmente com a realidade que se segue, pois, o agressor, na maioria das vezes, o que faz é repetir a “façanha”, mesmo depois de mostrar arrependimento… A legislação, hoje, em Portugal, classifica a violência entre cônjuges como crime público. Podemos ainda lembrar diferentes notas sobre o que terá mudado, neste campo, nas últimas décadas… Outra questão é a necessidade de os homens assumirem um papel activo na rejeição das atitudes e conceitos dominantes dos agressores. É urgente a mudança por parte dos homens! Observa­‑se ainda hoje que em muitas situações, conversas, comentários, é mais comum os homens assumirem uma postura de conciliação, de deixa passar, nas conversas entre amigos sobre casos ou relatos de agressão machista. A visão masculina ou machista tem influência nas realidades. É também retra‑ tada por vezes na comunicação social, espelhando uma consciência de descul‑ pabilização do agressor, quando, por exemplo, as notícias classificam os crimes como “crime passional”… Em resumo a mudança impõe­‑se na realidade actual. Impõe­‑se a mudança a partir das raízes da masculinidade patriarcal.

Tema 2 – Masculinidades e mudança pessoal. No espaço público e no espaço privado Os movimentos feministas, os feminismos na teoria e na prática, ao longo da His‑ tória, nos diferentes continentes, países e localidades, têm exercido uma influên‑ cia decisiva na mudança social e aponta­‑se hoje para a ideia revigorante de que Um outro Mundo é possível. As mulheres, são, têm sido, protagonistas deste movi‑ mento. Cada vez mais o feminismo alarga abrangência e diversidade de acção, cruza com outros movimentos sociais e causas do desenvolvimento humano.


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Alguns homens têm acompanhado e integrado esta caminhada dos movi‑ mentos feministas. Falar de masculinidades e de mudança pessoal é uma questão de grande pertinência e actualidade. É uma questão que a meu ver se coloca também na intervenção feminista. Ao longo do meu percurso de vida tenho observado que os homens e as mulheres genericamente têm de forma geral um olhar e forma de agir dis‑ tintos. Recordo por exemplo algo observado há anos atrás, nessa altura, num grupo de jovens: Num momento de conversa de grupo, onde estavam rapazes e raparigas (JOC e JOCF) surgiu o tema da liberdade, de podermos sair, passear, etc.. Um dos rapazes diz com convicção algo assim: “às vezes o homem não pode dar toda a liberdade (à mulher), pois se dá, se o faz, ela depois não sabe usar essa liber‑ dade”. Fiquei revoltada. Estávamos a falar de ser livre e ele, a falar de dar liber‑ dade. O homem dar liberdade!... Hoje, é menos comum este tipo de situações ou atitudes e provavelmente com diferente impacto. Hoje, sabemos que a situação, as condições de vida, assim como a consciência social dominante, se encontram num patamar diferente de há 40 anos. A evolução e alteração da situação dominante em termos de menta‑ lidades, condições de vida, situação ou posição, dos dois géneros, coloca a meu ver a urgência da implicação dos homens e da sua mudança pessoal, na perspec‑ tiva do novo mundo em construção. Por um lado, as mulheres adquiriram novas “competências” e estatutos, entraram em novos contextos, no espaço público, no trabalho remunerado – emprego, profissões, cargos, etc. Obtiveram­‑se novas condições nas áreas das vivências e direitos sexuais e reprodutivos. Tudo isto sig‑ nifica e significou já em si, uma mudança no contexto colectivo e pessoal... Mas o foco da mudança, o âmago da alteração parece estar mais centrada no lado feminino dos géneros. As mulheres avançam. E os homens? Que aspectos novos do lado masculino? E como encara o movimento feminista as novas masculini‑ dades que emergem, e de que fala a comunicação do Javier Robles? A nova visão do mundo, o espaço público e o privado, como espaços de mulhe‑ res e de homens, pressupõe mudanças de atitudes e comportamentos também por parte dos homens o que exige e requer um trabalho de intervenção, de edu‑ cação, ao qual também não pode ficar alheio o movimento feminista, hoje. Tem sido nesta perspectiva de transformação dos homens, que surgiram e se desen‑ volvem algumas organizações como é o caso da AHIGE ­‑ Associação dos Homens para a Igualdade de Género – em Espanha.

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Tema 3 –Conciliação da vida profissional, familiar e pessoal, dos Homens e das Mulheres. Os Homens e a Paternidade. Em Março de 2006, na Ilha Terceira, no Congresso Regional da UMAR nos Açores, "Das Problemáticas e Desafios à construção de uma nova imagem da Mulher", O Javier Robles num momento de debate, perante uma questão colo‑ cada por um homem presente que perguntava: “Como é que os homens podem ajudar a construir a igualdade de género?”, incluiu palavras, atitude e movimen‑ tação: ele levantou­‑se da mesa, colocou um avental em si, desceu para o espaço do público da sala e disse: podes contribuir, colocando o avental e indo para a cozinha”. Esta cena serve para ilustrar algumas ideias e reflexões. O Javier, hoje aqui neste Congresso Feminista em 2008, partilha connosco ideias e experiên‑ cias sobre “Novas masculinidades”, o que muito nos apraz. Observando pela memória as realidades nos tempos de 40 anos atrás, pode‑ mos identificar alguns aspectos concretos nas condições de vida e situação, dife‑ rentes dos homens e das mulheres. Na grande maioria os homens tinham a sua profissão, trabalho remunerado. As mulheres, na maioria eram “domésticas” sem profissão, trabalhavam em casa – actividade não remunerada. Em alguns casos, como as bordadeiras de casa, trabalhavam ao domicílio “roubando” algum tempo às lidas da casa. Desde sempre a conciliação é uma questão pendente e hoje está colocada a questão da partilha das tarefas e responsabilidades no espaço privado e o reco‑ nhecimento de um tempo de lazer, um tempo para a vida pessoal como um direito das mulheres e dos homens. Parece­‑nos ser no espaço da vida privada onde a “entrada” dos homens se coloca com mais urgência na construção do mundo novo da equidade de género. Considerando que esta equidade passa pelo equilibro entre os dois géneros, na distribuição dos tempos: actividade profissional, tarefas de cuidados na família e tempo de lazer e vida pessoal. Os homens e a paternidade é uma questão que nos propomos colocar à refle‑ xão através da ideia da lei da paternidade, direito ao gozo do tempo de paterni‑ dade do homem trabalhador. Porque não promover legislação que reconheça o direito à licença de pater‑ nidade? Esta figura existente em países como a Espanha, provoca certamente polémica mas é uma questão a ser colocada na agenda política. Nas respostas obtidas a um questionário dirigido a alguns homens, solici‑ tando colaboração para a preparação desta Comunicação sobre “Os Homens e a Igualdade de Género. Ontem e Hoje”, a maioria concorda e, alguns ­levantam


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objecções. As razões vão desde a ideia de que elas são mais competentes, até considerar que o que é obrigatório, não resulta. No entanto ninguém contes‑ taria que o direito da mulher trabalhadora à licença de maternidade, seja um direito de gozo obrigatório! Coloca­‑se então uma questão: se o Mundo Novo se constrói com a equidade de género, num processo participado e inclusivo dos dois géneros, se o pai é profis‑ sional, porque não encarar como lógico, como necessário, o direito a um tempo para ele acompanhar o crescimento da criança nos primeiros meses de vida? Por outro lado este novo contexto apontado pela conciliação e partilha de tarefas pelos dois géneros, assume também um outro aspecto de mudança que se impõe na situação actual. A licença de paternidade, para além da perspectiva de partilha na função de “cuidadora e cuidador” arrasta consigo um outro impacto, no mundo profissio‑ nal, especialmente na carreira das mulheres. Vejamos a resistência das entida‑ des patronais e os conceitos de que as mulheres pela função da maternidade não são tão produtivas como os homens. Mas analisando este problema de outra maneira, ou seja num contexto em que o tempo dedicado ao crescimento das crianças e cuidados familiares é repartido pelos dois géneros, essa realidade e argumentos alteram­‑se. Se é verdade que a gestação e o parto requerem os tempos devidos de licença laboral (maternidade) e significa ausência da actividade profissional, já o mesmo não tem de acontecer com o progressivo (continuado) acompanhamento das crianças ao longo da vida o qual pode (deve) ser repartido. O mesmo pode acon‑ tecer no tempo de paternidade nos primeiros meses de vida da criança. Após ter nascido, a criança vai necessitar de cuidados e acompanhamento e esses cuida‑ dos podem vir da mãe e podem vir do pai. Porque não? Claro que a questão da licença de paternidade e de maternidade não pode ser encarada apenas no ângulo da rentabilidade profissional, mas este é um aspecto colateral que tem afectado a entrada e a progressão das mulheres na sua carreira profissional, por isso também não pode ser esquecido. A questão da licença de paternidade tem outras implicações para além da contabilidade do tempo na carreira profissional, e precisa ser reflectida de forma articulada, mas aqui neste tema da conciliação, a paternidade entra também na questão comportamental, ou seja tem a ver também com a/s masculinidade/s, ligado à função de ser pai, de ser cuidador. A vivência no agregado familiar pressupõe o cuidar das crianças, o cuidar de uma pessoa doente com limitações temporá‑ rias ou não, por razões de doença e ou de idade.

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Para concluir quero referir a importância dos contributos obtidos através das respostas de alguns homens que aceitaram colaborar na preparação deste tra‑ balho respondendo a um questionário dirigido a homens sobre as questões da igualdade de género. Foram 12 a responder ­‑ a eles agradeço. E termino referindo os dois pilares em que se baseiam (AHIGE): «Primeiro a procura de uma nova forma de ser homem: através de novos mode‑ los de masculinidade, positivos, respeitosos, igualitários e mais livres. Segundo a luta contra todo o tipo de discriminação em função do sexo». clarisse canha fernandes nasceu no Funchal, Madeira, Portugal, a 03 Janeiro de 1947. É casada e tem 3 filhas. Feminista com actividade na área do associativo e inter‑ venção Feminista e da Igualdade de Género, Clarisse actualmente é Dirigente Nacional da UMAR, União de Mulheres, Alternativa e Resposta, e Presidente da UMAR­‑Açores, Associação para a Igualdade e Direitos das Mulheres. Tem participado em movimentos e causas das mulheres, tais como: o Movimento pela Despenalização do Aborto em Portu‑ gal nomeadamente no referendo em 1998 e mais recentemente em 2007 foi Mandatária Regional do Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim. Militante do Movimento Operário Católico durante cerca de dez anos, na JOCF (Juven‑ tude Operária Católica Feminina) onde ingressou aos 16 anos. Participou em diversos Encontros Nacionais da JOCF, em Iniciativas locais de carácter lúdico e formativo. Exer‑ ceu cargos de direcção, em estruturas locais, de Freguesia e de âmbito Distrital. Activista sindical a partir de 1974, desde os 26 anos. Exerceu cargos de direcção de âmbito local e regional, nomeadamente no Sindicato dos Trabalhadores da Função Pública, Sul e Açores e União de Sindicatos de São Miguel e Santa Maria. Participou em eventos sin‑ dicais na área das Mulheres, integrou Departamentos em áreas como a Formação. Participou na Colectânea A Mulher nos Açores e nas Comunidades, de Rosa Simas, 2003, com o artigo O movimento para combater a violência. Co­‑autora com Maria José Raposo do Livro Inclusão, Percursos para a Igualdade. Narrativa de uma Experiência Formativa com Mulhe‑ res das Comunidades Piscatórias.


Narrativas de homens feministas portugueses Daniel Matias Será possível os homens serem feministas? Embora tenham constituído uma pequena minoria, até ao século XX alguns dos defensores mais importantes da emancipação das mulheres foram homens. Homens como John Stuart Mill e o Marquis de Condorcet serão os exemplos mais conhecidos de homens que, em temporalidades e contextos diferentes, desafiaram um sistema em prol do que hoje consideramos a igualdade de género. Existem outros exemplos, como Poulain de la Barre (filósofo cartesiano do século XVII), Barthélemy Prosper Enfantin e Charles Fourier. Ao considerarmos o feminismo como um movimento para erradicar o sexismo, a opressão e exploração sexista , compreendemos que os homens se podem enquadrar neste projecto feminista ao utilizarem os recursos provindos do feminismo para realizar intervenções subversivas aos níveis da reprodução da masculinidade considerada como normativa. Homens feministas serão assim homens, investigadores ou não, que procuram reflectir sobre a sua actividade (militante, intelectual ou social) numa perspectiva crítica do androcentrismo, próxima do pensamento feminista; homens que, pela sua actividade, revelam a dominação masculina e participam na sua erradicação de forma efectiva ; em suma, os homens feministas são assim homens que apoiam as mulheres na luta pela igualdade e liberdade. Sendo os homens, enquanto grupo, privilegiados, tal não implica que os interesses dos homens na justiça social sejam únicos e monolíticos; a localiza‑ ção social não pré­‑determina necessariamente os interesses das pessoas, sendo estes formulados de acordo com os discursos disponíveis no contexto em que se  Offen, K. (2000). European feminisms: 1700­‑1950. California, USA: Stanford University Press.   hooks, b. (1984). Feminist theory: From margin to center. Cambridge: South End Press.   hooks, b. (1984). Feminist theory: From margin to center. Cambridge: South End Press.   Thomas, C. (2001). Reenfleshing the bright boys; or, how male bodies matter to feminist theory. In J. K. Gardiner (org.), Masculinity studies and feminist theory: New directions. New York: Columbia University Press, pp. 60­‑89   Welzer­‑Lang, D. (2008). Proféministes et queers. In D. Welzer­‑Lang (org.), Les Hommes et le Masculin. Paris: Éditions Payot, pp. 99­‑136   Kimmel, M. S., & Mosmiller, T. E. (1992). Against the tide: Pro­‑feminist men in the United States 1776­‑ 1990. Boston: Beacon Press.   Kimmel, M. S. (2003). Toward a pedagogy of the oppressor. In M. S. Kimmel, & A. L. Ferber (orgs.), Privilege. Cambridge: Westview Press, pp. 1­‑10.


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Este livro foi composto em caracteres New Baskerville e impresso na Guide – Artes Gráficas, em papel Coral Book Ivory 80 gr. no mês de Maio de 2010.



Quem Tem Medo dos Feminismos, Volume 1