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indivíduo individual Trabalho de Conclusão de Curso de Bacharelado em Artes Plásticas | Bruno Capella


Faculdade Santa Marcelina Bruno Capella

indivĂ­duo individual

SĂŁo Paulo 2009


Faculdade Santa Marcelina Bruno Capella

indivíduo individual Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Bacharelado em Artes Plásticas – Faculdade Santa Marcelina, unidade Perdizes.

Profª Luise Weiss

São Paulo 2009


Aprovado em:

BANCA EXAMINADORA ______________________________________ Luise Weiss (Orientadora)

______________________________________ Antonio Valentim de Oliveira Lino

______________________________________ Danilo Cid


Dedico esse trabalho primeiramente aos meus pais que sempre apoiaram minha vontade de seguir uma carreira artística, tornando possível minha formação em Artes Plásticas. Dedico também aos meus amigos e pessoas próximas que de alguma forma me incentivaram a produzir e criar trabalhos realizados ao longo desses 4 anos que serão mostrados aqui, e que me deram força para concluir essa pesquisa.


agradecimentos Agradeço à Profª Luise Weiss pela atenção e dedicação durante todo o processo de orientação, ao Prof Antonio Valentim de Oliveira Lino pelo carinho e vontade em acompanhar meu processo e o desenvolvimento do trabalho, ao Danilo Cid pelo interesse e disponibilidade em participar da banca e à Lúcia Thomaz, pelo grande apoio e auxílio na finalização de todo o trabalho, além de todos os demais professores e profissionais que colaboraram com o meu desenvolvimento dentro da faculdade.


resumo

resumen Indivíduo Individual Este documento contextualiza el individualismo, centrándose en el comportamiento de las personas de la sociedad, revelando la soledad del individuo y su relación con los demás. Mostrar búsqueda de su “natural”, cómo funciona la moda en el proceso de personalización de la persona. Todo este contexto de individualismo se produce desde un punto específico en el desarrollo creativo y la producción de plástico, que se reunió en la voluntad de trabajar en modo alguno relacionados con la ciudad, su entorno y su contaminación en la producción visual urbana la búsqueda en la búsqueda de elementos, texturas y otros elementos urbanos que pudieran servir de gráficos para el trabajo. Por último, muestra cómo tiene todo el proceso creativo y artístico con diferentes modos de visualización en la parte superior de su trabajo, hacia su progreso, diversas técnicas y medios de comunicación, hasta que el pegamento y la superposición de funciones. Palabras clave: el individualismo, el mobiliario urbano, la ciudad, el collage, obras de arte


resumo Indivíduo Individual Este trabalho contextualiza o individualismo, focando no comportamento das pessoas mediante a sociedade, trazendo à tona a solidão do indivíduo e sua relação com os outros. Procura mostrar além de suas características “naturais”, de que forma a moda atua no processo de personalização do indivíduo. Todo esse contexto de individualismo se dá a partir de um momento específico no processo criativo e desenvolvimento da produção plástica, que foi reunido à vontade de se trabalhar de alguma forma relacionando a cidade, o seu ambiente e sua poluição visual urbana na produção, através de pesquisas na procura de elementos, texturas e outras características urbanas que pudessem servir de elementos gráficos para os trabalhos desenvolvidos. Por fim, demonstra de que forma se deu todo o processo criativo, com referências artísticas e modos de visão diferentes em cima do próprio trabalho, em prol da evolução do mesmo, variando técnicas e suportes, até chegar na colagem e na sobreposição de papéis. Palavras-chave: individualismo, colagem, produção artística

características

urbanas,

cidade,


Ă­ndice


00

Introdução

13

O Indivíduo

14

1.1

O comportamento social

15

1.2

O individualismo

20

1.3

A solidão

23

1.

2.

A Cidade

25

2.1

Características urbanas

26

2.2

A relação indivíduo x cidade

29

3.

A Arte

33

3.1

Processo criativo

34

3.2

O início

35

3.3

Fotografia

44

3.3.1 3.4

Referências artísticas

Reflexões

53 56

3.4.1

A volta da cor

64

3.4.2

Referências artísticas

69

3.4.3

Referências de texturas e tonalidades da cidade

72

3.5

Progresso

76

3.5.1

Caderno de Estudos

90

3.5.2

Referências artísticas

92

Conclusão

96

Bibliografia

98


12 00

introdução


13

introdução Esse trabalho pretende mostrar como uma produção artística pode ter início no momento em que crio e percebo questionamentos – seja pelo suporte utilizado, pelos materiais ou pela temática desenvolvida – em que toda a produção iniciase pelo desenho no simples ato de registrar figuras humanas e que, por um simples acaso na experiência com fotografia, fez observar todo um conceito de individualismo a ser abordado e desenvolvido nos próximos trabalhos. O aprofundamento nos assuntos que envolvem o individualismo possibilita a expansão do próprio trabalho em questões estéticas uma vez que as relações conceituais se ampliam.

Esse aprofundamento envol-

verá uma pesquisa que aborda o comportamento humano no cenário urbano da cidade e também o interesse de transformar a estética da cidade de São Paulo em conteúdo gráfico para os trabalhos que foram desenvolvidos e que serão apresentados. O trabalho introduz a escrita – às vezes maliciosa – como forma de buscar humor onde há pequenas formas de críticas e deboches sociais. Todo o processo de trabalho evolui em diferentes suportes1 e técnicas, abordando de uma forma plástica e visual, toda pesquisa realizada em cima do comportamento do homem na cidade.

1 Como linguagem visual, foi realizada uma pesquisa com papéis, recortes; traduzindo em montagem bi e tridimensionais o imaginário desenvolvido.


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1. O indivíduo A man lies in his bed, in a room with no door He waits hoping for a presence, something, anything, to enter After spending half his life searching, he still felt as blank As the ceiling at which he’s staring He’s alive, but feels absolutely nothing So, is he? When he was six he believed that the moon overhead followed him By nine he had deciphered the illusion, trading magic for fact No trade-backs... So this is what it’s like to be an adult If he only knew now what he knew then... I’m open Come in I’m open Come in Lying sideways atop crumpled sheets and no covers He decides to dream... Dream up a new self... for himself (I’m Open, Eddie Vedder/ Jack Irons, 1996)


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1.1 O comportamento social A relação do homem com o mundo é totalmente diferente da relação que outras espécies mantêm com o mesmo. Pode-se afirmar que a linguagem (como relação interindividual) é o que faz essa diferença, pois é através dela que o homem passa a entender o mundo como uma realidade objetiva, que independe dele e é possível de ser conhecida. Esse processo de conhecimento o leva a ser um indivíduo que se relaciona com o mundo, e que não só mantém contatos, o que o faz estar “com o mundo” e não apenas “no mundo”. A comunicação está presente no homem desde o seu surgimento, o que permitiu ao mesmo relacionar-se com os demais indivíduos de sua espécie, dando início assim às civilizações. É fundamental ressaltar que quando falamos em comunicação não nos referimos apenas à fala, e sim a toda forma de expressão capaz de passar mensagens e criar relações com o meio em que se está inserido – como a arte. Por meio dessa vasta comunicação que o mundo proporciona ao indivíduo desde o seu nascimento, que o comportamento do ser humano vai sendo moldado. A personalidade de cada um surge em meio às influências que nos rodeiam, como a família, amigos, professores, chefes, ídolos. E é fato que essa personalidade


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precisa conviver da melhor maneira possível com as regras e leis da sociedade. Na época da pós-modernidade, são inúmeras as mudanças que ocorrem nessa sociedade: nas artes, política, ciências, relações humanas. Em um passado não muito distante, o Estado mantinha o domínio dessa sociedade, controlando a vida dos indivíduos de maneira que se mantinha a boa ordem da civilização (não estamos aqui apoiando ou criticando essa forma, apenas expondo um fato). Com isso, a sociedade caminhava assertivamente rumo ao progresso – o grande objetivo da era moderna. As tais mudanças da pós-modernidade como suas guerras, revoluções, desastres ambientais, ameaças de terror em massa, quebraram com a ordem e a visão de progresso do passado. A razão que controlava a sociedade outrora cedeu espaço às incertezas da existência e do futuro próximo. A falta de um objetivo comum, de um caminho a seguir faz com que o indivíduo dessa sociedade seja caracterizado pelo sentimento do vazio, do tédio e do niilismo – ainda que passe a maior parte do seu tempo buscando avivar as sensações de prazer e felicidade. Hoje a sociedade já não tem a força que tinha antigamente, pois não se tem um objetivo único. Já não se vêem cidades inteiras paradas com multidões reivindicando seus direitos e lutando por um motivo em comum, tão pouco a política faz ferver sua população dentro de suas promessas em

O comportamento social


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prol de um mundo melhor – que já não mobilizam a massa. O individualismo se opõe às questões políticas quando relacionadas às questões sociais, pois a sociedade não passa de um conjunto de indivíduos autônomos e auto-suficientes. Lipovetsky comenta a respeito da transição da sociedade moderna (que pensava e acreditava no futuro e na ciência, com características conquistadoras), para a então sociedade pós-moderna:

“[...] àquela em que reina a indiferença da massa, na qual domina o sentimento de repetição e estagnação, na qual a autonomia particular avança por si mesma, em que o novo é acolhido do mesmo modo que o velho, em que a inovação se torna banal, em que o futuro não é mais assimilado a um progresso inelutável.” (LIPOVETSKY, 2005, p.XVIII-XIX)

Em outras palavras, há a dissolução na confiança pela fé e pelo futuro, as pessoas querem viver o presente, “o momento atual, aqui e agora, querem se conservar jovens” e possuem a insaciável procura pela identidade e realização pessoal imediata, pela diversão e diferença. O indivíduo é estimulado a viver no imediato, o que muitas vezes o anula a obter qualquer tipo de tradição e he-


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O comportamento social

rança. Lipovetsky comenta sobre a existência de um processo de personalização do indivíduo que “corresponde ao agenciamento de uma sociedade flexível baseada na informação e no estímulo das necessidades, no sexo e na consideração dos fatores humanos”.

Toda essa subjetividade acabou por estimular a fragmentação do

ser, que diante de práticas sociais descontínuas viu uma pluralidade de identidades surgirem impossibilitando sua posição de “sujeito unificado”. Neste contexto, a moda, enquanto fenômeno social que identifica, caracteriza, cria sonhos e desperta desejos nas pessoas, a moda definida por Lipovetsky é: “A moda não é mais um enfeite estético, um acessório decorativo da vida coletiva; é sua pedra angular... a moda terminou estruturalmente seu curso histórico, chegou ao topo de seu poder, conseguiu remodelar a sociedade inteira à sua imagem: era periférica, agora é hegemônica.” (LIPOVETSKY, 1989, p.12)

Cria uma rede de relacionamentos com o indivíduo e seus fragmentos integrando tanto sua subjetividade quanto sua construção identitária, impondo modelos de beleza relacionados ao corpo humano. O papel da moda passa ser então o de demarcar papéis e lugares sociais, a fim de compor o sujeito em suas várias identidades. A moda está


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relacionada ao processo de diferenciação do indivíduo, e hoje não é mais entendida como signo de classe na sociedade, se comparar com décadas passadas. Ela promove o indivíduo, visando o prazer, a comodidade e a liberdade; e se caracteriza pelo desperdício, pela criação incessante de pseudo-necessidades e pelo hiper-controle da vida privada. Gerou um mundo de aparências, fez surgir questões como o status, a atração e a estética, realçando cada vez mais a sedução, beleza e estilo. Porém, nesse mundo coexiste a valorização da estética e a ausência do conteúdo, gerando indivíduos fúteis e relações superficiais, em outras palavras, gerou uma sociedade que vive do status unicamente visual. Existe um ditado popular que pode descrever bem o peso que a moda exerce na sociedade, que julga e institui valores ao indivíduo pela aparência: “Você é o que você veste”. A pós-modernidade trouxe novas concepções que alteraram os pilares da sociedade. As diversas transformações pelas quais o indivíduo passa – e que acompanham a transformação da própria sociedade em busca de novas projeções – revelam a solidão contemporânea, em que o homem parece ter medo de si próprio, de sua força e de suas qualidades frente à supremacia da nova era tecnológica.


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1.2 O individualismo A moda está presente para caracterizar, valorizar e destacar o indivíduo, que por sua vez tem a preocupação de ser si próprio, de se promover, de ser único e claro, de ser observado e notado. “A moda tem ligação com o prazer de ver, mas também com o de ser visto, de exibir-se ao olhar do outro.” Ela abre espaço para a manifestação e a divulgação do gosto pessoal, resultando em um indivíduo solto, criador, dono de si próprio, que busca a interioridade e a autenticidade. Possibilita a diferenciação entre os seres, que por sua vez, causa a busca incansável pelo inédito; a moda é um investimento em si próprio. Não somente a moda, mas o mercado é um grande tentador e sedutor voltado à personalização do indivíduo e não mais ao coletivo, onde o valor principal da sociedade é o do indivíduo livre; sendo que hoje a liberdade é relativa. Livre de escolha, de opinião, expressão e de vontades. Cada indivíduo busca sua satisfação pessoal e também sua realização profissional. Cada um busca se personalizar da forma que lhe achar melhor, e se adere a valores que lhes interessam, não mais tendo que se submeter a algum. No mercado, é visível a quantidade exacerbada de serviços, produtos, promoções, condições de pagamento e outros excessos que procuram facilitar a vida do indivíduo, devido à neces-


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sidade de se conseguir chegar a todos na sociedade - que já não se caracterizam por poucas variedades de gosto, vontade, preferência e necessidade - procurando diversificar o máximo possível dentro das possibilidades de escolha e satisfação de cada um deles, em uma verdadeira sedução à la carte 2. O indivíduo não é somente empurrado pelos estímulos do mercado, mas como também pela busca na realização profissional, onde o indivíduo tende a trabalhar cada vez mais para poder gastar cada vez mais; valoriza a vida profissional a ponto de ser mais importante do que as relações sociais e pessoais. Tudo isso para que consiga se destacar na sociedade também por um ditado popular onde diz que “você é o que você consome” além de ser o que é pelo que você veste, que faz com que o indivíduo se torne um consumista em potencial. Onde o culto à aparência, não sendo pela ação do vestir através da moda, se dá pela valorização material, o que também faz do indivíduo um ser superficial e fútil, preferindo valores estéticos aos valores das relações entre pessoas etc. Hoje em dia, boa parte das relações interpessoais se dão pela necessidade do indivíduo de se ter prazer imediato, que resultará na desvalorização do corpo pela satisfação sexual pessoal; ao ser humano reduzido ao estado de objeto. Surgem então, os relacionamentos que são movidos ao prazer e ao sexo, sendo o ponto de comum interesse entre os indivíduos na sociedade, já sem mistérios e também sem sedução. Passando a não existir a preocupação senão consigo, o desinteresse pelo próximo toma conta dessas atuais relações em todas as sociedades. 2 Etimologia: do francês “à La” (a maneira de) + “carte” (cardápio). Expressão utilizada quando se trata da existência de opções possíveis de escolha.


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O individualismo

“O que eu ganho com isso?” Essa pergunta está presente no subconsciente da grande maioria da sociedade, onde nada é feito quando não existe algo em troca, quando não há o que ganhar como retorno; não existe mais a boa ação, as relações se dão somente por algum interesse pessoal, seja profissional ou particular, todos querem sair ganhando de alguma forma. Nenhuma pessoa disponibiliza o seu tempo, que hoje é mais curto do que nunca, para fazer algo por alguém caso não envolva um ganho próprio. Além dos fatores que a moda, o mercado e a própria sociedade proporciona para que o indivíduo seja indiferente a certas questões, há a proporção de acúmulo de estímulos e excessos de informação da qual o indivíduo passa sentir a necessidade de se focar em determinados assuntos e questões de seu interesse, pois não é possível abranger um todo e a entender de tudo, uma vez que o todo se tornou vasto demais. O indivíduo passa a entender de poucos assuntos quando aprofundados, ou continua na superficialidade generalizada pela falta de centralização e pelo excesso de estímulos e opções, que resulta na sua indiferença e vazio. “(...)indiferença por excesso e não por falta, por hiper-solicitação e não por privação. O que ainda consegue nos escandalizar? A apatia responde à pletora de informações, à sua velocidade de rotação; assim que registrado, um acontecimento é imediatamente esquecido, expulso por outros ainda mais sensacionalistas.” (LIPOVETSKY, 2005, p.22)


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1.3 A solidão

Na medida em que o indi-

víduo busca cada vez mais a sua satisfação pessoal e se preocupa cada vez mais em ter a sua vida privada, distante de ações e estímulos sociais, e sem qualquer outro modo de interferência, mais ele se fecha, buscando o crescimento interno, valorizando sua intimidade, onde consegue ser mais autêntico, mais si próprio.

Cria-se

dessa

forma

um

modo de percepção de liberdade, àquela conseguida a partir do momento em que se consegue obter da melhor forma a sua privacidade. Quanto maior

for a sua liberdade, independência, ausência da relação com o meio social e a vontade de se ter seu mundo privado do mundo público, maior se torna sua solidão. Relações superficiais, ausentes de conteúdo ou por mero interesse, a falta de interesse e a não preocupação com o próximo ou com questões sociais, além de sua indiferença frente aos excessos que o sufocam, fazem com que o indivíduo passe a aprender a viver só, distanciando e minimizando as possibilidades de contato e a existência de relações mais profundas, seguido


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pelo fato de se valorizar sempre o trabalho, que é o grande gerador de relações superficiais e bloqueador de relações mais íntimas, sendo também o trabalho o motivo maior da “falta de tempo” de cada indivíduo, valorizando a idéia que quanto mais trabalhar, mais dinheiro terá. Para o indivíduo, uma coisa é clara com relação ao dinheiro: ele traz a independência e aumenta sua autonomia e liberdade. Pensava-se que com o avanço da era tecnológica, o indivíduo teria mais tempo para realizar seus desejos, a cumprir mais rapidamente suas tarefas profissionais e obter momen-

A solidão

tos voltados ao prazer e à satisfação pessoal. Porém o que aconteceu foi o contrário. Cada vez mais as pessoas se prendem e se envolvem com as funções tecnológicas, se isolando da rede social física que passa a ser substituída pela rede social virtual, o que aumenta a solidão do indivíduo seguida da necessidade cada vez maior de se envolver em redes sociais na internet; sendo essses apenas alguns dos motivos entre diversos outros da sociedade atual a sofrer de solidão, mas é talvez um dos mais visíveis e mais existentes.


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2. A cidade A rua em derredor era um ruído incomum, Longa, magra, de luto e na dor majestosa, Uma mulher passou e com a mão faustosa Erguendo, balançando o festão e o debrum; Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata. Eu bebia perdido em minha crispação No seu olhar, céu que germina o furacão, A doçura que se embala e o frenesi que mata. Um relâmpago, e após a noite! - Aérea beldade, E cujo olhar me fez renascer de repente, Só te verei um dia e já na eternidade? Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente! Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais, Tu que eu teria amado - e o sabias demais! (A uma passante, Charles Baudelaire, 1939)


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2.1 Características urbanas São Paulo é a maior cidade 3 do Brasil e uma das mais globalizadas, e como toda grande metrópole, a cidade paulistana não deixa de ter seus problemas. Seja com relação ao trânsito, desigualdade social, política, densidade populacional e outros infinitos conflitos e dificuldades que poderiam ser citados, são as questões urbanas que envolvem a sua estética que aqui nos interessam e serão abordadas. O que caracteriza a cidade? A densa massa vertical de prédios comerciais e residências que tomam conta da paisagem urbana, suas infinitas ruas e avenidas que levam e trazem cada indivíduo ao seu destino, indivíduos esses em seus respectivos carros que dominam juntos cada espaço ainda disponível, poluindo o ar da cidade e comprometendo cada dia mais a qualidade de vida. Em meio à massa vertical, grandes zonas horizontais, dominadas pela precariedade das construções que compõem as favelas que disputam lugar com o pouco de verde que resta da natureza, expondo a desigualdade social presente na cidade. Esse cenário constitui uma paisagem dominada pelo cinza do concreto, que passa a invadir e a dominar o espaço público e também o privado. Toda sinalização de trânsito em meio aos fios elétricos e telefônicos 3 Fonte: http://www.estadao.com.br/geral/not_ger264630,0.htm


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que interligam casas e prédios; a grande variedade de viadutos e pontes que passam por cima de outras pontes, que cortam a malha urbana e interferem no ambiente; a pequena fauna característica da cidade – uma diversidade de animais que se camuflam nessa imensa paisagem urbana, como ratos, cachorros, gatos, insetos, urubus e pombas (ou “ratos de asas”, como são vistas) – uma série de componentes que se misturam e dão vida ao caos monocromático que mal reparamos em nosso cotidiano. Uma grande variedade de elementos compõe a estética da cidade, em excesso espalhados por todo lado, que acabam por dificultar a percepção espacial do ambiente, gerando assim uma poluição visual. Esses elementos e características visuais da cidade que compõem não somente a poluição visual urbana de São Paulo, bem como seu cenário e paisagem, aqui serão vistos e tratados de uma forma diferente, em que o trabalho se desenvolve conforme o olhar e a observação sob a cidade forem evoluindo. Em termos informacionais, poluição visual urbana é um significado determinado pela impossibilidade que o usuário encontra para apropriar-se do espaço urbano e usá-lo. Poluição é o significado de um ruído entre ambiente urbano e usuário; poluição se opõe, portanto, a significado e a ambiente urbano planejado enquanto sistema de comunicação. (apud LUCRECIA; MENDES, 2006, p.79)


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Características Urbanas

“Poluição visual é, pois, conseqüência e resultado de desconformidades (...) e também o efeito de deterioração dos espaços da cidade pelo acúmulo exagerado de anúncios publicitários em determinados locais, porém o conceito mais abrangente é aquele que diz que há poluição visual quando o campo visual do cidadão se encontra de tal maneira que a sua percepção dos espaços da cidade é impedida ou dificultada.” (apud MINAMI e GUIMARÃES JÚNIOR; MENDES, 2006, p.79)

Ao observar a cidade, é possível captar primeiramente as diferentes tonalidades e planos, e observando constantemente, o olhar vai registrando as variadas texturas, elementos e materiais que constituem a estética urbana. Aqui, podemos excluir da observação e do registro de poluição visual urbana as campanhas publicitárias, letreiros, placas, luminosos, sinais comerciais etc. que Lucrecia classifica como poluição aditiva.4

4 Poluição aditiva – Quando há redundância de informações sobre um mesmo repertório, como em locais em que os sinais gráficos publicitários são abundantes e predominantes.


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2.2 A relação indivíduo x cidade

Se nos questionarmos a respeito da vida urbana, podemos

dizer que a vida urbana do indivíduo se dá por simplificação do meio em que se encontra. Por simplificação entende-se o olhar seletivo, em que o indivíduo anula dentro do seu campo de visão as informações que não lhes são necessárias dentro do excesso que encontramos na cidade, da mesma forma como simplifica os demais excessos de estímulos a que é submetido de outras formas e que contribuem para a geração da indiferença do ser já comentada. Não somente a simplificação pelo que lhe interessa, mas a indiferença se dá também aos excessos por não conseguir agregar valor e sentido algum à maioria deles.

Existe uma característica do pós-modernismo na cidade com

relação ao indivíduo, que devido ao ritmo de vida ser tão acelerado a ponto de fazer com que seja ausente a possibilidade de lembrança do passado bem como imaginar o futuro, nos faz viver sempre no presente de forma intensa a ponto de impossibilitar a existência de referências fixas, dando lugar a referências sem-


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A relação indivíduo x cidade

pre passageiras, situando o indivíduo em constante mudança e adaptação conforme sua experiência de vida no meio social e privado.

As pessoas que moram no interior são pessoas bairristas, que

conhecem e convivem com seus vizinhos, onde todos conhecem todos. Aqui na cidade é tudo bem diferente. A vida vertical da cidade dentro de apartamentos distancia o indivíduo do espaço público e os condomínios com área privada fazem com que cada morador conviva somente dentro deles; o contato entre tais moradores que mal conhecem seus vizinhos parece nunca ir além de uma conversa de elevador. O fato é que ninguém nota a cidade, a menos que lhe seja necessário, ou pior, que a cidade esteja em seu caminho.


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Todas essas observações relativas à vida urbana e social, à solidão e ao individualismo tornam-se desafios para um projeto visual. Como transformar tudo isso em imagens? Vale ressaltar novamente que a pesquisa apresentada surge em um momento específico na produção artística, a partir do momento em que é feita uma reflexão em cima do que foi feito através da fotografia, criando relações com a cidade e assim, notando a forma de viver nela.

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00


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3. A Arte Nós não nos damos conta de como a arte nos trespassa de todo o lado. Anotar isso aos que vaticinam a morte da arte. Isto ao nível mais corriqueiro. Dispor os móveis numa sala é fazer arte. Ou olhar uma paisagem, pôr uma flor na lapela, ou num vaso. Escolher uma gravata, uns sapatos. Provar um fato. Pentear-se. Fazer a barba ou apará-la quando comprida. Todas as coisas de cerimónia têm que ver com a arte. E o corte das unhas. Todo o jogo. Toda a verdade que releva da emoção. Às vezes mesmo a escolha do papel higiénico. Mas mesmo a desordem. Bergson, creio, dizia que se tudo fosse desordenado, nós acabaríamos por ler aí uma ordem. E não é o que fazemos ao inventarmos as constelações? Admitir a morte da arte é admitir a morte do homem, que impõe essa arte a tudo o que vê. Mas tenho de ir à casa de banho. A ver se invento arte mesmo aí. (Mas quando disse casa de banho e não retrete, já a inventei.) (A Arte Está em Todo o Lado, Vergílio Ferreira em ‘Conta-Corrente 3)


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3.1 Processo criativo A produção visual teve seu início com desenhos de observação da figura humana e foi evoluindo à medida em que paralelamente a cidade de São Paulo e todo seu conteúdo estético foram sendo estudados, além de toda a pesquisa relacionada ao comportamento humano na cidade já apresentada aqui. As referências de elementos, tonalidades e texturas retiradas da cidade serviram como intervenções nos trabalhos, criando assim um mundo particular da figura humana retratada em cada peça, em que o excesso toma conta do vazio presente no indivíduo. O suporte, ao longo de todo o processo criativo foi variando e se adequando conforme as mudanças conceituais que foram surgindo, trabalhando além do desenho também com a fotografia, ilustração digital e a colagem. A produção artística contemporânea hoje é muito ampla e diversificada, motivo pelo qual se torna viável e positivo o investimento em diferentes suportes, materiais e técnicas, explorando os materiais que melhor possam responder a esses desafios e reflexões. As etapas do processo de trabalho foram divididas em quatro partes: O início, Fotografia, Reflexões e Progresso.


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3.2 O início

De todas as técnicas, foi pelo desenho que se iniciou o desen-

volvimento do estilo que deu origem ao trabalho atual. Primeiramente, por meio de exercícios de desenhos de observação, sem muito foco no que retratar e trabalhando em cima de objetos e ambientes como também pessoas, muitas vezes escolhidos ao acaso e utilizando poucos materiais para desenhar em suportes simples como papel sulfite e couchê, tendo um traço sempre fino e sem variações, usando geralmente uma lapiseira e caneta bic.

Fig.1. Sem Título, 2006. Desenho s/ papel 12,5 x 25cm


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O início

Fig.2. Sem Título, 2006. Desenho s/ papel 24 x 21,5cm

Fig.3. Série Sem Título, 2006. Desenho s/ papel

Conforme a evolução de idéias e da percepção do processo de

trabalho, outros suportes foram experimentados, variando desde notas fiscais e folhetos informativos até embalagens desmontadas (Fig.1) e envelopes usados sem qualquer relação entre o desenho e o suporte (Fig. 2). O material para desenhar foi diversificado, com canetas hidrográficas com ponta de diversas espessuras, marca texto, caneta nanquim etc. Devido ao trabalho paralelo na área de


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design, os desenhos foram obtendo características gráficas visíveis, com estudos de composição do desenho no papel além do traço e também das cores escolhidas em cada um deles. Seguiu-se então, por um tempo, a preocupação entre traço, cor e composição dos desenhos feitos, buscando um estilo de trabalho que pudesse ser levado adiante. Na série Sem Título (Fig.3), é possível notar que o traço criado tem características de construção de desenho que, partindo da observação, não há a verdadeira necessidade de existir se não com o propósito de serem feitas e se parecerem com um desenho de criação, como em um layout de story board ou um rascunho, e as cores ajudam não apenas a realçar os planos, a perspectiva e o volume como também para focar e até de criar uma importância maior a um objeto retratado e a composição através de um recorte da observação do todo. Por um período, a produção foi voltada à experimentação de suportes e de materiais pensando na evolução e nas variações possíveis, e então, eis que surgiu a necessidade de se desenhar mais as pessoas, sem estarem estáticas ou posando. Pela vontade de se desenhar algo que está em constante movimento, forçando certa velocidade e agilidade no registro, buscando assim um traço mais solto e contínuo, uma qualidade diferente da que se teve até então. Logo após a necessidade de se preencher o espaço em branco que restava nos desenhos, os primeiros trabalhos foram surgindo com um estilo que valeria a pena seguir.


40 Um deles, The Sztutman (Fig.5), partiu de uma observação feita em um espaço curto de tempo, seguida da criação de intervenções com cor, formas aleatórias e também com registros de observação de objetos ou elementos que pudessem situar de alguma forma, o ambiente onde se encontrava o indivíduo inicialmente retratado. No caso desse trabalho, as interferências criadas retratam o ambiente da faculdade, com mesas escolares e ventiladores. Derivando da mesma idéia e do mesmo processo de intervenção, foi criado o desenho Jonas (Fig.6), que consiste no traço rápido e contínuo, havendo certo afastamento do ato de retratar o real com suas devidas proporções, definindo um estilo mais solto de se trabalhar, intervindo de uma maneira com um mínimo de conhecimento do uso das cores e com um lado experimental e amplamente livre no uso das formas, focando pelo menos em criar uma harmonia no trabalho e trazendo também um elemento característico da pessoa retratada ou do ambiente em que convive que no caso de Jonas, é o guarda-chuva, que quase sempre está carregando algum. Cria-se assim, não exatamente uma sátira e nem tão pouco apenas uma observação, mas um certo humor na medida em que se passa a incluir elementos relacionados a quem foi retratado no trabalho. Existe também uma força notável na valorização das formas e cores utilizadas, como por exemplo, em sua camiseta que dispõe das cores reais, mas o listrado foi reproduzido em um sentido e proporção diferente do real, ocupando somente o espaço que diz respeito à camiseta, não respeitando limites como a mancha amarela que apenas segura a composição e coexiste com as demais cores e texturas com certa harmonia. Mesmo sendo um desenho de um chaveiro de macaco, Tina (Fig.7) passa a ser mais um personagem retratado como mais uma das experiências realizadas, utilizando dessa vez também, a técnica da colagem no trabalho. Após Tina, houve a percepção do que era observado – o real – e o que ficava no registro; o que virava desenho com a vontade de desenhar com traços mais realistas.

O início

Fig.4. (pág 38) Sem Título, 2007. Desenho s/ papel 29,5 x 21cm

Fig.5. (pág anterior) The Sztutman, 2007. Desenho s/ papel 29,5 x 21cm

Fig.6. Jonas, 2007.

Desenho s/ papel 29,5 x 21cm


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O início

Fig.7. Tina, 2007.

Sendo assim, foi em cima da observação de uma fotografia que Najla foi criada. Nota-se que um traço fino e único é que delineia o rosto, o que demonstra que houve um tempo maior para se desenhar sem grandes variações significantes no traço que possam indicar certa velocidade na elaboração. É também no desenho em que foi explorada a questão do lúdico e do imaginário de uma forma mais visível a partir do momento em que se cria um cenário e que se incluem algumas figuras imaginárias, trazendo inclusive a técnica da colagem da experiência com a Tina, aqui na colagem da embalagem do chocolate Bis, que deixa implícito a existência de uma pessoalidade e amizade entre o observador e a pessoa da fotografia, o que agrega também aqui o humor.

Desenho s/ papel 29,5 x 21cm

Fig.8. Najla, 2007.

Desenho s/ papel 29,5 x 21cm


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3.2 Fotografia No mesmo período em que os desenhos vinham sendo desenvolvidos, veio o contato com a fotografia preto e branco, onde foi utilizado o estúdio da faculdade com todo o aparato de iluminação para criar testes de luz e sombra e saber basicamente como manusear todos os demais equipamentos. Najla foi o último desenho concluído, e neste mesmo trabalho que surgia a questão de observar pessoas e desenhar de uma forma mais próxima ao real que fosse possível, e a fotografia possibilitaria registrar o real tal como ele é. Uma nova experiência é iniciada usando a fotografia como base, onde em algumas fotos tiradas, utilizo meu corpo para criar posições que inicialmente eram aleatórias. O fato de estar com a cabeça coberta pela blusa foi um acaso momentâneo no estúdio, por querer criar algo diferente do que os demais estavam praticando e, que no fim, acabou por dar vida a um ser estranho e ao mesmo tempo engraçado para algumas pessoas, se tratando de uma fotografia diferente, com uma atmosfera surrealista. As poses que antes eram aleatórias passaram a ser mais pensadas e elaboradas, e após a revelação das fotorafias ,surgiu a possibilidade de criar intervenções, com formas e cores seguindo

Fig.9. Sem Título, 2008.

Desenho s/ fotografia 21 x 16cm


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Fig.10. Sem Título, 2008.

Desenho s/ fotografia 21 x 16cm

o pensamento inicial nos desenhos sobre papel, uma vez que, devido à configuração da luz e da câmera, o fundo das fotografias ficou branco, sem qualquer vestígio do estúdio de fundo, criando a possibilidade de se criar livremente em cima delas. Existiu sempre uma vontade pessoal em querer criar um trabalho de intervenção na cidade de São Paulo, por meio da arte urbana. Em paralelo a este pensamento, com o trabalho realizado com as fotos e após uma reflexão, notei que nestes ensaios fotográficos havia a possibilidade de criar uma linha de raciocínio que faria com que o trabalho não fosse necessariamente para as ruas, mas que surgisse um conceito que envolvia a cidade de alguma forma. Pensando assim, uma das defesas normalmente ditas por grafiteiros e artistas urbanos, é alegar que a cidade é cinza e que os seus trabalhos, boa parte deles bem coloridos, é uma forma de mudar esse visual cinza que a cidade de São Paulo e outras grandes cidades carregam. Logo, pode-se dizer que o indivíduo tem uma vida cinza. Cinza pelo excesso de poluição do ar, de prédios e falta de árvores e de construções de cimento. É a atitude de viver na “selva de pedra” e aceitá-la tal como é. Levando em consideração essa nossa “vida cinza” e as intervenções já feitas desde os desenhos sobre papel e agora em cima das fotografias, o trabalho passou a ter um grande valor e sentido, a partir do momento em que outras reflexões vieram surgindo em cima do comportamento das pessoas na cidade, com sua vida


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Fotografia

Fig.11. Sem Título, 2008. Fotografia pb 16 x 21cm

cinza e seu individualismo, o que dialoga com a fotografia em preto e branco com o excesso de cor das intervenções criadas, trazendo as características e um dos propósitos do graffiti, e é onde marca o ponto inicial em que o individualismo na cidade passa a ser estudado. As fotografias foram reveladas em papel fotográfico brilhante, e as canetas utilizadas nas intervenções têm características diferentes, deixando algumas áreas cobertas pela tinta e com uma superfície fosca e outras continuam com brilho, o que cria diferenças na superfície quando manipuladas pelo observador, criando assim destaques em certas áreas da fotografia. A estética de cada intervenção segue a mesma do último trabalho ainda feito sobre papel, (Najla) que contém elementos imaginários e fantasiosos. Digamos que, em meio ao caos urbano, e ao excesso de informação e a constante correria da vida, cada indivíduo procura ter a sua fuga


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Fig.12. A little part of my life, 2008. Desenho s/ fotografia 16 x 21cm

para um mundo “paralelo”, a criar outra realidade para conseguir se desligar da realidade que nos sufoca constantemente. Assim, em cada trabalho sobre fotografia, procuro distorcer todo o excesso visual que temos diariamente, em apoio a essa fuga e necessidade de se criar outra realidade, outro momento, em representar um mundo particular das pessoas.

A little part of my world e Sem título (Fig.13) foram as primei-

ras fotos a serem realizadas e finalizadas. Tanto que é possível compará-las a Najla e perceber elementos re-utilizados na obra, por estar no ritmo de criar e procurar novos caminhos e meios para explorar as possibilidades do trabalho, puxando traços, estilos e elementos já utilizados e característicos da produção inicial. O humor, abordado anteriormente nos desenhos sobre papel, aparece novamente em uma das fotografias.


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Fig.13. Sem Título, 2008.

Desenho s/ fotografia 21 x 16cm

Fig.14. Sem Título, 2008. Fotografia pb 16 x 21cm

Not the red Ball! (Fig.15) é o trabalho que traz humor pela própria estética, com textura de fundo e um fio que enrola o “personagem”, como também pela relação das formas geométricas básicas dentro de um balão de diálogo com o próprio título. A respeito do processo, observando cada fotografia finalizada, é fácil notar o traço deixado pelas canetas, devido à aderência pictórica de cada um deles e possivelmente da química com o papel revelado. Porém, não houve importância nessas marcações uma vez que surgiram como nova experiência em cima do que vinha sendo criado, fato que esclarece o motivo de se manter o mesmo material usado nos desenhos iniciais. Pois, fazendo um leve levantamento de outros materiais e formas para se chegar ao mesmo resultado, poderia ter optado por intervir com ecoline ou até mesmo escanear cada fotografia, criar as intervenções digitalmente e imprimir novamente em papel fotográfico. Mas trabalhar com o ecoline seria mais difícil e perderia as características que


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Fotografia

Fig.15. Not the red ball!, 2008. Desenho s/ fotografia 16 x 21cm

as canetas possibilitam, e criar intervenções digitais por um lado poderia ser positivo e agregar valores, mas isso acabaria sendo um trabalho em que não valeria a pena estar fotografando em estúdio e se dando o trabalho de revelar tudo em laboratório para depois escanear e criar pelo computador algo que será novamente impresso em papel fotográfico, uma vez que hoje em dia com câmera digital e programas de edição é possível editar de maneiras infinitas a imagem que quiser. O esforço de tirar a foto e de revelar, como de intervir manualmente agregam valores e características diferentes ao trabalho. A experiência foi totalmente positiva para o processo criativo e desenvolvimento, havendo uma grande evolução de um conceito até então escondido no subconsciente, criando a relação da cidade e da vida cotidiana ao excesso de informação, e o início da observação pelo comportamento humano além da exploração de outro suporte que funcionou muito bem.


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3.3.1 Referências artísticas* As referências artísticas para os trabalhos desenvolvidos com a fotografia preto e branco são maioria de origem digital. Há uma enorme variedade de trabalhos de cunho digital que misturam fotografia com intervenções artísticas, sejam elas desenvolvidas no próprio computador ou feitas à mão e em seguida transportadas para ele através do scaner. São trabalhos que usam a figura humana como “peça principal” em meio às interferências visuais. Vale destacar a ref.10, pois é o único trabalho que contém texturas e marcas de todo um processo manual desenvolvido na criação, agregando assim um valor diferente aos demais trabalhos que serão apresentados a seguir. A mesma característica era buscada nas intervenções feitas em cima de cada fotografia preto e branco, trazendo características do traço manual, do material e da aderência pictórica que cada marcador proporcionou na superfície do papel fotográfico revelado. São referências artísticas retiradas da pesquisa por trabalhos semelhantes aos criados, apresentando características visuais de trabalhos semelhantes porém realizados somente no computador para mostrar o motivo da escolha por realizar trabalhos manuais em cima das fotografias realizadas em laboratório.

* Obs.: Nota-se que os trabalhos apresentados como referências artísticas não dispõe de dados e nem especificação técnica pois são referências retiradas da internet sem as devidas informações disponíveis.


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Fotografia

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3.4 Reflexões Tendo desdobrado com as fotografias um conceito no qual trabalhar e investir, que envolve a estética da cidade e questões urbanas com relação ao indivíduo, a abordagem pode seguir um caminho diferente do que as fotografias haviam criado. Tratar do humano sem cor, remetendo à falta de vida e a introdução dele em um mundo menos caótico (por ser carregado esteticamente, porém com exercícios de composição - uma bagunça organizada) e particular, em uma realidade paralela e distante, gerou o questionamento de não somente repensar a prioridade entre o indivíduo retratado e o resto ao seu redor, como também voltar ao suporte papel e explorar mais detalhadamente toda a massa gráfica usada antes como intervenção e agora como parte do trabalho. Para isso, foram feitas pesquisas pela cidade e através da internet, para registrar as texturas e tonalidades que existem na cidade e introduzi-las nos novos desenhos, como a textura da calçada que trazem o formato do Estado de São Paulo, texturas de ruas e paredes (ver página 72 de referências). Além disso, alguns elementos conversam com a cidade por outros meios, como por exemplo, os elementos de nuvem e água introduzidos nestes trabalhos, que remetem à “Terra da garoa” como São Paulo era chamado.

Fig.16. Sem Título, 2008. Desenho s/ papel 28 x 21cm


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Reflexões

Fig.17. (pág anterior) Sonhos do cotidiano cinza, 2008. Desenho s/ papel 28 x 43cm

Fig.18. Sem Título, 2008. Desenho s/ papel 28 x 21cm

E hoje a cidade vive de enchentes quando chove, entre tantos outros problemas de planejamento e urbanização. Desta forma, foi possível realçar a idéia da criação de um mundo imaginário com o intuito de transformar o que é poluição visual urbana em conteúdo gráfico e cenário para cada trabalho, a partir do momento em que se inserem elementos e texturas que remetem ao real, fazendo com que se crie a relação entre os desenhos e o ambiente urbano. O foco do trabalho Sonhos do cotidiano cinza (Fig.17) e Sem título (Fig.18) ainda é o de criar tal mundo imaginário, devido ao excesso de formas orgânicas e texturas variadas, sem relações diretas com ele-


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mentos reais da cidade ou algo do gênero. São os primeiros da nova linha de raciocínio, trabalhando somente com o conceito do sujeito individual e um cenário desprovido do real. O desenho Sem Título (Fig.18) procura retratar por um meio surrealista, o comportamento e status de solidão do humano, sem intervenções, se preocupando unicamente com o modo de vida das pessoas na sociedade, onde cada um faz por si, e somente faz pelo próximo quando existe o ganho próprio, caso contrário é perda de tempo, ou seja, só tratamos de problemas que nos atingem diretamente, só cuidamos do que é de interesse próprio, e a questão da natureza também é introduzida. Alguns outros trabalhos foram elaborados dessa maneira. Sem interferência, são limpos e delicados, mas ao mesmo tempo são fortes por representarem críticas às ações individualistas. Como o trabalho da artista Dea Lellis (obras na página 71), que aparenta ser inocente e delicado, mas que são cheios de sarcasmos, com questionamento sobre os excessos do consumismo e suas derivações. Consumo este, voltado ao lado da moda, onde segundo Dea Lellis, há o culto à roupa e existe uma valorização material exagerada pelas pessoas. Característica que mais tarde será abordada quando a preocupação com o vestir do “personagem” que vem evoluindo desde as fotografias surgir.


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Reflexões

Fig.19. (pág anterior) Sem Título, 2009. Desenho s/ papel 28 x 43cm

3.4.1 A volta da cor

A cor é altamente influenciável, seja intencional ou acidentalmen-

te, e carrega consigo diversos valores e significados, que tendem a se diferenciar de acordo com a experiência particular de cada pessoa, da mesma maneira que a cor pode ser também coletiva, a partir do momento em que adere ao mesmo significado em diferentes culturas e religiões.

E a cor retorna aos trabalhos e carrega dessa vez a convivência

com uma massa maior de elementos e interferências visuais, forçando a referência do excesso da cidade no cotidiano, uma vez que trabalhar com tons de cinza atingiu o “limite” na criação, gerando uma falta de vida nos desenhos, lembrando que no conceito do trabalho inclui a ação de criticar e não apenas de retratar. Existe uma forte referência dos trabalhos de Basquiat, que carregam consigo características de sua experiência nas ruas com o graffiti. Há uma semelhança entre Ciclos, vícios e ilusões e a obra de Basquiat (ref.19, página 71), onde as cores são aplicadas de modo chapado, sem degradê; onde existe uma presença de massas de cores sem misturas, quase puras.

Fig.20. Ciclos, vícios e ilusões, 2009. Desenho s/ papel 21 x 16cm


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Reflexões

Fig.21. Sem Título, 2009. Desenho s/ papel 31 x 31cm

Se pensar em outra maneira de abordar a figura do indivíduo nas questões já expostas até aqui, A estilista (Fig.22) e O quase-artista (Fig.23) são o resultado. Retratados sem a face, trazendo o conceito de anonimato, tendo o exercício de pesquisar texturas e trazendo a cor cinza nestes dois trabalhos, são o resultado da releitura dos trabalhos já desenvolvidos, trazendo referências que surgiram desde o desenho Najla (Fig.8) até a produção das fotografias. Texturas exploradas pelo vestir, indicando o ato de vestir-se com relação ao individualismo. Como Gilles Lipovetsky identifica em O império do efêmero, a moda proporcionou a diferença entre os seres, a autenticidade do indivíduo, a existência da diferença e do destaque entre eles. É a maneira de exibir sua personalidade e sua identidade para os demais. “Você é o que você veste”, logo as pessoas se vestem da forma como querem ser vistas, mas não necessariamente como elas de fato são.

Fig.22. A estilista, 2009. Desenho s/ papel 31 x 31cm


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3.4.2 Referências artísticas* As referências artísticas que envolvem a produção dos trabalhos apresentados neste capítulo são trabalhos com um excesso de conteúdo gráfico; com uma certa “poluição” visual, havendo alguns ruídos para quem observa, da mesma maneira em que se percebe uma harmonia e composição em cada um deles, como o trabalho do Bruno 9li (ref.13), Loro Verz (ref.11 e 16) e também da pintura de Basquiat (ref.19). Já os trabalhos da Dea Lellis (ref.17 e 18) se referem à estética limpa e ao trabalho delicado visualmente, porém totalmente carregado de significado crítico com relação à sociedade e alguns de seus modos e modismos, e outros trabalhos mostrados como referência visual irão mostrar a introdução da escrita como na obra de Remed (ref.15).

Fig.23. O quase-artista, 2009. Desenho s/ papel 31 x 31cm

* Obs.: Nota-se que os trabalhos apresentados como referências artísticas não dispõe de dados e nem especificação técnica pois são referências retiradas da internet sem as devidas informações disponíveis.


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11 / 16 - Loro Verz 13 - Bruno 9li 15 - Remed 17 / 18 - Dea Lellis 18

19 - Basquiat


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3.4.3

Reflexões

Referências de texturas e tonalidades da cidade

Para referências de texturas e tonalidades da cidade de São Paulo, uma pesquisa foi realizada através de fotografias que pudessem registrar como e qual é o olhar “aprofundado” para o cenário urbano. As fotos a seguir são resultado de uma pesquisa feita pela internet por texturas e tonalidades que pertencem à cidade de São Paulo em específico, e que delas pôde-se retirar elementos para o desenvolvimento e criação de intervenções gráficas dos trabalhos apresentados neste capítulo (principal e inicialmente na criação da Fig.19, e em seguida nos demais trabalhos posteriores)


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3.5 Progresso Trabalhando ainda com texturas e voltando ao ideal de criar um mundo imaginário, desligando-se do real e trazendo novamente a figura individualista que o “personagem” retrata, surge um momento de experiência na área digital. O computador é uma grande ferramenta para criação e desenvolvimento de trabalhos e ele foi utilizado inicialmente para a rápida elaboração dos trabalhos que seriam mais tarde feitos à mão – já que é possível gerar inúmeras cartelas de cor, criar diversas formas, aplicar inúmeros efeitos incluindo os que imitam texturas e técnicas manuais de desenho e pintura, entre outros. Mas o foco inicial que era criar com agilidade, podendo testar até chegar ao resultado esperado e então passar isso para o papel novamente, passou a ser a ferramenta com a qual se criava e finalizava um trabalho. Ponto de partida para os primeiros trabalhos digitais que nasceram e deram continuidade à criação de muitos outros. Todo trabalho criado diretamente no computador, não tendo uma tablet para desenvolvê-los, tem o resultado ruim, pois o traço que temos em uma folha de papel, não é o mesmo quando se utiliza o mouse para criação. A linha criada se torna dura e fragmentada ou tão suave e correta que perde as características de uma linha feita manualmente.

Progresso


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Quando o CAD foi introduzido no ensino da arquitetura, substituindo o desenho à mão, uma jovem arquiteta do MIT observou que, “quando projetamos um espaço, desenhando linhas e árvores, ele fica impregnado em nossa mente. Passamos a conhecê-lo de uma maneira que não é possível com o computador. [...] Ficamos conhecendo um terreno traçando-o e voltando a traçálo várias vezes, e não deixando que o computador o ‘corrija’ para nós”. Não é uma questão de nostalgia: a observação leva em conta o que é perdido mentalmente quando o trabalho na tela substitui o traçado à mão. (SENNETT, 2005, p. 51)

Richard Sennett demonstra a perda dessas características e comenta ainda que o ato de desenhar e redesenhar um projeto à mão cria um desenho de possibilidades. Possibilidades de mudanças e variações no desenho da visão humana do espaço e trabalho. Por conta disso, para criar as ilustrações digitais, foram feitos rascunhos à mão e em seguida escaneados para o computador. Assim, o pensamento flui melhor e o trabalho passa a obter traços característicos ao trabalho manual, pois sem isso, o trabalho pode correr o risco de parecer artificial e não adquirir características do artista na criação das ilustrações.


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Progresso

Fig.24. (pág anterior) Influências, distúrbios e observações, 2009. Ilustração digital

Fig.25. Influências, distúrbios e observações, 2009. Ilustração digital

O trabalho Influências, distúrbios e observações, explora a criação rápida de texturas e a possibilidade de repetição de elementos com muita cor. Nas ilustrações Chupa que é de uva, Sobe lá no pé de jaca (Fig. 27) e Suck my ice (Fig.28) a crítica do comportamento e das atitudes individualistas está também presente de forma sutil, como na Fig.17. A cor por sua vez, procura trazer a sensação de vida e alegria aos desenhos que procuram retratar também um pequeno universo particular do indivíduo, como a fuga da realidade na procura de um mundo privado. A inclusão da escrita também está presente nestas ilustrações, que exploram a variedade de tipografias disponíveis no computador, trazendo em cada uma, alguma frase aleatória retirada de momentos descontraídos entre amigos, como: “Pipis in the face”, “Tits on the lips” e “Suck my ice”.


Fig.26. Chupa que é de uva, 2008. Ilustração digital


Fig.27. Sobe lá no pé de jaca, 2009.

Ilustração digital


Fig.28. Suck my ice, 2008. Ilustração digital


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Nota-se que em cada frase, há em comum uma característica que remete fortemente a um lado sexual, sem perder o humor que desde o início surge de alguma forma em alguns trabalhos. Falando de uma forma geral, todos pensam de alguma forma em sexo, em satisfação pessoal de suas vontades, pois vivemos a era da satisfação imediata e superficialidade, onde o corpo é e já faz um tempo, um objeto de desejo. As frases inseridas com caráter de humor remetem à malícia das pessoas. Já o título de cada trabalho, não tem ligação com a frase inserida, mas tratam de alguma forma da malícia ou do deboche de uma pessoa pra outra, como os feirantes fazem nas feiras de rua da cidade de São Paulo, por exemplo, chamando a atenção de mulheres por “moça bonita não paga, mas também não leva” e satirizando aquelas que não compram em suas barracas “não compra porque o marido não tem dinheiro sobrando pra dar né”, entre outras. O título Chupa que é de uva foi também retirado das ruas, e o trabalho retrata a “morte” do indivíduo que se isola e se fecha para si, parando no tempo (por isso os pés fincados no chão), crítica àquele que não compartilha conhecimento e educação, indicando um período repleto de ignorantes, onde estes são árvores que não evoluem, não nascem folhas e nem dão frutos e o título é então, uma forma indireta de ofensa e sátira de sua condição. Esteticamente, o trabalho remete a um sorvete por ter inserido, um palito de sorvete, criando assim a ligação com o título.

Progresso


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Em Sobe lá no pé de jaca, o título surgiu a partir da expressão “pisou na jaca”, remetendo visualmente a uma árvore. O indivíduo, apresentado na forma de um espantalho, representa o tipo de pessoa que evita contatos com outras pessoas, que só pensa em seu próprio crescimento e desenvolvimento, espantando as demais. A frase “Tits on the lips” traz também o interesse pelo contato com o próximo apenas pelo desejo sexual e satisfação pessoal, e o vulcão ilustra a constante instabilidade e explosão no comportamento. Pensando em possibilidades técnicas e imaginando a possibilidade de variar novamente o suporte utilizado, percebe-se que a criação de cada ilustração envolve a sobreposição de camadas em um determinado software, que neste caso utilizou-se o Adobe Illustrator. Pensando no processo de produção e na estética final de cada ilustração, observouse que cada camada poderia ser uma camada diferente de papel, reproduzindo inclusive distância entre elas, trazendo um possível volume ao trabalho que passaria de desenho digital à colagem já utilizada em trabalhos anteriores, porém agora com relevo. Isso envolveu uma pesquisa por suportes, envolvendo diferentes tipos de papéis, surgindo uma pesquisa voltada aos artistas que trabalhassem com fotomontagem como Max Ernst e John Heartfield, assemblage iguais as de Joseph Cornell e outras formas de utilização do papel como Jullien Vallée explora bem em seus trabalhos junto ao excesso de cor e formas, criando trabalhos de ilustração utilizando somente o recorte, colagem e a dobra de papéis em sua construção. (ver página 92 de referência)


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Fig.29. Ciclos e vícios, 2009. Desenho s/ papel 107 x 85cm

O papel é utilizado todo dia por milhares de pessoas para inúmeras funções, presente em todo nosso cotidiano e por uma vida inteira; que contém uma fragilidade aparente, da mesma forma como tem força e resistência, e é utilizado por vários artistas, designers, ilustradores etc. de diversas formas diferentes. Foram pesquisados papéis de diferentes gramaturas (espessuras), texturas, cores e consistência, da qual dependendo da técnica artística sobreposta no papel, a aderência do material era totalmente variável, como por exemplo, utilizar marcadores em um couchê, canson ou papelão. Para os trabalhos atuais concluídos, o papel Duplex foi usado tanto como suporte de fundo das colagens com recorte, incluindo papel Canson com variações de cor e textura (trama), e o papel Pluma (Foam Board ou papel Metier) foi usado para as sobreposições de planos nos trabalhos. Os desenhos criados seguem as mesmas características e técnicas dos últimos trabalhos realizados e mostrados até aqui, incluindo a técnica da pintura com spray, recorte de fotos reais etc., usando as referências de trabalhos de Max Ernst e John Heartfield (ver página 93 de referências). Nos trabalhos em que se exploram diferentes materiais para a produção de cada obra, sendo todo o trabalho final resultado de recortes, colagens e sobreposições de papéis, de algum modo tem que haver um rascunho, molde ou exemplo a seguir.


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Progresso

Fig.30. Solidão, 2008.

Desenho s/ papel e colagem 34 x 52cm

Essas obras foram esboçadas em um caderno de estudos, onde

toda a estética, envolvendo cor e composição e as sobreposições eram elaboradas. Em um rascunho de Solidão, as diferentes camadas de sobreposição eram numeradas do 1 ao 4 (ver página h do caderno de rascunho pág.90), ou seja, do mais baixo ao mais alto nível. O rei da cocada preta se deu da mesma forma que os demais, e a obra Ciclos e vícios é uma releitura de Ciclos, vícios, ilusões (Fig.29). Observou-se que após prontos, em alguns trabalhos o papel apresentou ondulações, devido à baixa gramatura e/ou excesso de tinta spray em sua superfície, mas de um modo geral, todos foram bem resolvidos explorando a colagem e sobreposições de planos.


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Fig.31. O rei da cocada preta, 2008.

Desenho s/ papel e colagem 40 x 40cm

Todos eles partem de um aspecto artesanal, onde se utilizou

tesouras e estiletes para recorte manual. São trabalhos realizados em etapas, com uma demanda de tempo de montagem grande, uma vez que durante o processo há variáveis mudanças de acordo com o andamento da criação, e a percepção do que foi rabiscado inicialmente com o que já está concretizado e feito se altera de acordo com as necessidades de harmonia de cores e composição do trabalho. Além disso, o papel possibilitou criar trabalhos bi e tridimensionais, que saem do plano e dão mais vida às obras.


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3.5.1 Caderno de estudos A seguir, algumas páginas do caderno de estudos que mostrará o modo de pensar e elaborar um trabalho de colagem como Solidão ou O rei da cocada preta. Todo esse processo envolve estudos de cor e de relevo como já comentado, além de pensamentos que surgem durante a elaboração dos rascunhos.

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3.5.2 Referências artísticas* As referências para os trabalhos de desenho e colagem elaborados partem de períodos mais antigos, através de artistas como Joseph Cornell, Max Ernst e John Healtfield aos mais recentes e contemporâneos como Julien Vallé. Exploram o papel como suporte e como ferramenta/material principal (ref.24), ora construindo ilustrações, ora trabalhando com fotomontagem.

* Obs.: Nota-se que os trabalhos apresentados como referências artísticas não dispõe de dados e nem especificação técnica pois são referências retiradas da internet sem as devidas informações disponíveis.

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20 / 21 / 22 - John Heartfield 23 - Max Ernst 25 / 26 - Julien VallĂŠ 28

28 - Know Hope


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Conclusão Após toda pesquisa realizada no comportamento do indivíduo e de suas relações com a sociedade e a cidade, além de estudar a própria cidade voltando o olhar às suas características estéticas e com base em tudo que foi produzido, e da forma como foi elaborado cada trabalho, concluo que em cima de tudo isso pode haver uma pesquisa ainda maior relacionada às texturas e outras características urbanas que podem servir de conteúdo gráfico para mais trabalhos bem como outras formas de abordagem do indivíduo na sociedade, política etc. Ao que foi apresentado até aqui, posso afirmar que continuarei a não seguir somente uma única técnica e estilo de trabalho, mas também a procurar mais evoluções e adaptações do que vier a ser feito, para que o trabalho possa amadurecer a cada etapa, explorando suportes e maneiras de se trabalhar. Toda trajetória de pesquisa do TGI significou um aprimoramento e uma abertura na abordagem do conceito inicial abordado, expandindo todo o processo criativo à novas reflexões, onde cada texto e cada etapa do processo criativo gerou motivação para se continuar a construir um projeto artístico cada vez mais desenvolvido e envolvido em conceitos e motivos sólidos.


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Bibliografia Livro BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e discurso: História e Literatura. São Paulo, Ática, 1995. FRASER, Tom. O guia completo da cor. São Paulo, Senac,2007. Graphics Alive. (6.ª ed.) Hong Kong, victionary, 2006. GROSENICK, Uta. Art Now! 2. Hohenzollernring, Taschen, 2005. HELFENSTEIN, Josef. Robert Hauschenberg – Cardboards And Related Pieces. New Haven, Yale University Press, 2007. Illustration Play. (2.ª ed.) Hong Kong, victionary, 2007. LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio – Ensaios sobre o Individualismo. São Paulo, Manole, 2005. __________. O império do Efêmero. São Paulo, Editora Schwarcz Ltda., 2006.


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SCHAFF, Adam. Introdução à semântica. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968. SENNETT, Richard. O Artífice. Rio de Janeiro, Record, 2009. Stereographics. Hong Kong, victionary, 2008. MCSHINE, Kynasto. Joseph Cornell. Nova Iorque, Museu de Arte Moderna, 1996. MENDES, Camila Faccioni. Paisagem urbana: Uma mídia redescoberta. São Paulo, Senac, 2006 Tactile – High Touch Visuals. (3ª. ed.) Berlin, Die Gestalten Verlag, 2008.


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Bibliografia


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indivíduo individual  

Trabalho de conclusão de curso de Bacharelado em Artes Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina - FASM.

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Trabalho de conclusão de curso de Bacharelado em Artes Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina - FASM.

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