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idades cidades divindades

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Na Galeria com Marcos Vieira e Mia Couto

poeSIa de Sol sal „Vida semaOrgasmo‟ Léo ArtesCote

Letras

Galeria

idades cidades divindades

Letras

Um poeta de Sol a Sal Um poeta de Sol a Sal „NÃO QUERO SER Jomalu em entrevista

IGUAL A NINGUÉM‟

Artes


Junta-se a Nós no facebook: Nos Artes e Cultura

Í

ndice

02 Junho de 2013

nosmocambique@gmail.com

04 - Efeméride

07 - Literatura

17 - Música

Assinalou-se o Dia da Criança Africana, celebrado como homenagem às vítimas do massacre do Soweto, a 16 de Junho de 1976, durante uma manifestação contra a falta de qualidade no ensino. Nesta edição estreia, saiba quais os artistas destacáveis da história universal nasceram nessa data….

Léo Cote, já conhecido nos meandros literários, decidiu estrear-se na plena maturidade como um carto-poeta autor de ―Carto Poemas de Sol a Sal‖ aos 32 anos de idade, enquanto finalista do curso de linguística e literatura na Universidade Eduardo Mondlane. Uma figura complexa que tem a filosofia como elemento associado à sua poesia...

Depois de ter invadido os palcos, grandes e pequenos a 20 anos, José Manuel Luís, artisticamente chamado Jomalu, celebra a sua ascensão como um verdadeiro artista afro. Reconhece-se exigente, duplamente esforçado, o que torna a sua música densa de mensagem, harmonia de tons, poesia e meditação. Nada mais ideal para afirmarse nesta entrevista como ―igual a ninguém‖.

13 - Galeria

Nas paredes do Nós encontram-se penduradas as imagens do fotógrafo brasileiro Marcos Vieira num dialogo com a poesia de Mia Couto, do livro ―idades cidades divindades‖ (Ndjira, 2007). Um olhar fotográfico da poesia madura do segundo escritor moçambicano galardoado com o Prémio Camões, o maior de língua portuguesa. Marcos Vieira tal como Mia Couto fotografa a alma das coisas...

21 - Teatro

Mutumbela Gogo, o rei do teatro erudito moçambicano encena um dos clássicos da dramaturgia europeia, o norueguês Henrik Ibsen. Mesmo no final do primeiro semestre e no rol da realização do Festival do Inverno em que a companhia participa, ―Um inimigo do povo‖ escrito por Ibsen em 1982 é o que Mutumbela Gogo exibe no Avenida

26 - M’saho

Apresentamos o M’saho o lugar dos poetas. Poetas de hoje e de sempre. M‘saho, essa palavra chopi para designar festa, recordamos o nome que tinha os saraus de poesia no correto do Tunduro, em Maputo onde a força da palavra não se media. A poesia de Bonde, Demetrios Galvão (Brasil) e Lily dos Amures e o trabalho de Frederico Ningi sob a poesia de José Luís Mendonça e David Capelenguela (Angola) abrem as portas

Seja um de Nós. Escreva-nos pelo e-mail: nosmocambique@gmail.com


E

03 Junho de 2013

ditorial

nosmocambique@gmail.com

NÓS MESMOS...

N

ão é uma introdução a

saudades, amizades e desejos. Na verda-

le. Nada recusável, basta que se escutem

caminho nenhum. Não é

de a arte é aquele lugar de esperança e

as suas composições para depois compa-

uma missiva alguma. De modo algum

desespero. Nós somos o lugar desse

rá-los a álbuns como ‗Atravessando rios‘

seria um editorial, esta espécie de afir-

desassossego e ternura

do velho Mucavele. É tudo ou nada. Uma

mação do que somos. Tão pouco é, este, o espaço de manifestos. Estes somos Nós. Um país para artes e cultura, o cio dos nomes dos nossos heróis da

ENDEREÇO Av. Mártires da Machava, 904 Bairro Patrice Lumumba - Matola E-mail: nosmocambique@gmail.com Celular: +258 82 27 17 645

ARTE DA CAPA Eduardo Quive COLABORADORES Alex Dau Cesário Matias David Bamo Niosta Cossa Lino Souza Mucuruza Dany Wambire FOTOGRAFIA Marcos Vieira Bantus Imagem Inocêncio Albino (colaboração) PROJECTO GRÁFICO Bantus Imagem

se iniciou

desde aos

sonhos, hoje é a metáfora desse desejo de

L

éo Cote já conhecido nos meandros

da

literatura

nacional, embora esteja no leito do seu

disse Milton Nascimento, a fronteira

livro de estreia ‗Carto Poemas de Sol a

tudo fruto de uma loucura.

inventaram no mapa, ―aqui não existe e

Sal‘ é o poeta que abre a sessão de

Sonhar em projectos culturais

não vai existir nunca‖. Por isso a conju-

Letras. O jovem que neste ano entra para

num Moçambique onde as prioridades

gação da terceira pessoa é como a junção

a idade que Cristo morre, é um poeta de

para as áreas sociais acrescem-se todos

dos dois, Nós – Artes e Cultura, a

sol a sal, a metáfora que serviu para diri-

os dias. É como se fôssemos estrangei-

revista para encontros com Nós mes-

gir aos seus ‗queridos‘ uma poesia de

ros . E não foram poucos, os nossos, que

mos. O objectivo é o nada, se nada é a

cariz cartográfica. Um estilo irreverente

precisaram ser estrangeiros para vive-

dimensão certa. O objecto é a cultura e os

e instigador. Mais do que as convicções

rem na exaustão a sua fúria artística.

seus fazedores. Mal sabemos tecer consi-

do autor e a bravura do poeta, a obra é

Mas Nós, mesmo cá dentro, exilamo-

derações, nem iniciais, muito menos

um exercício paradoxal de um filósofo

nos na astúcia do ressoar dos tambores,

finais. A cultura não é um campo de trân-

pedestre, mensageiro e carto-poeta.

como os canta Craveirinha em Xigubo.

sito. É um lugar de chegada. Só nos apre-

Eis-nos aqui. Nós e os outros.

sentamos pelo paradoxo de que somos

É

Edição Mensal n.º 01 Matola — Junho 2013 Distribuição electrónica

conversa à ‗Cesariana‘. Imperdível!

ser um território sem fronteiras. É como

cultura.

DIRECTOR Eduardo Quive

A

começar, num número que

S

onhos culturais não canta-

um conjunto de matérias e materiais.

E

ntre outros lugares para a manifestação da arte e da

ressaca criativa, na nossa Galeria, a

riam, se não fosse a sede de

Caso não fôssemos, dispensávamos apre-

exposição fotográfica vinda das terras

uma unidade pela unicidade das artes.

sentações. É tudo fruto de uma desneces-

brasileiras, pela lente de Marcos Vieira,

Somos um embrião que não se desfaz. A

sária explicação. Toda a tentativa de

num diálogo nostálgico com o nosso pré-

Arte tem o poder multiplicador e afecti-

dizer quem somos Nós, será motivo de

mio Camões – 2013, o escritor Moçam-

vo, a Cultura é esse poder. Encontros

fracasso, porque precisaríamos da sua

bicano Mia Couto em ‗idades cidades

esperados e inesperados são propósitos

definição, caro leitor, afinal, ao Nós,

divindades‘. Nunca a poesia foi contrária

sublimes do que somos, o povo como

você se inclui. Nesta altura o que nos

aos olhos da alma. Marcos Vieira não faz

Cultura e a Arte, como esse conjunto

convêm dizer é que mensalmente, propo-

de conta, na sua fotografia em jeito de

apurado pelo dom e pelo cultivo. Como

mos (se você também estiver de acordo)

Raio X, é possível ver os ossículos, tão

disse Ondjaki, todo africano nasce para

a trazer o melhor da cultura moçambica-

invisíveis e desconhecidos, entre o

contar estórias. Até porque são histórias

na e de outros espaços.

ribombar do coração. Se é verdade que a

pessoais que se tornam colectivas. A his-

N

a edição estreia, Nós, traze-

alma é una, a visita às nossas páginas de

mos o autor dos álbuns

Galeria, poderão ser esse consórcio,

órfãos, muito menos mal acompanha-

‗Vida Sem Orgasmo‘ e ‗Cesariana‘, o

entre as razões da alma ‗Ser‘ e o corpo

dos. E é importante dignificar os heróis

músico José Manuel, conhecido por

‗Estar‘. Marcos Vieira e Mia Couto can-

dessas causas continuando a sonhar,

Jomalu, que no ano passado celebrou os

tam as mesmas canções divinas!

porque os sonhos não se adiam.

20 anos da sua carreira. Poucas são as

tória, (in)felizmente não nos deixa

N

ós é aquele espaço de encontros semióticos entre

vezes que se pode ―celebrar‖ um percurso de cantador de memórias, estórias e peri-

D

entre outras exigências do labor artístico, no caderno

de poesia e prosa M’saho, como nos

a arte e o artista. Umas páginas para o

pécias diárias, como é o caso de Jomalu,

velhos tempos do Tunduro, timbilamos a

jornalismo cultural e debate de ideias.

aquele que apela que se deixem os pintos

arte de escrita, apresentando poetas e

Não importa delimitar os ângulos,

(crianças) crescerem, fora dos abusos

poetas. Em tudo isto e muito mais, o lei-

importa elevar os frutos da alma e do

sexuais que vão agredindo a nossa socie-

tor não é convidado a fazer parte, é cha-

pensamento. Do sabor das palavras aos

dade no formato da famosa palavra que

mado à consciência de que tudo vem de

efeitos das mãos; dos dedos que acari-

elas ganham ―catorzinhas‖. Uma entre-

Nós que conhecemos o valor das artes e

ciam a alma aos pés que pisam sem ferir

vista que decifra os mistérios da sua

da cultura. Sempre que se sentir incomo-

a essência das flores. O Homem é um

música metafórica e rica em fusão de

dado, reaja, aqui não há portas, se quer

descontente para consigo mesmo, os

ritmos,

exige-se convite para entrada, basta que

artistas, o sabem e não sossegam sem

―desassossegado‖ e que já veio assumir

afagar o único estímulo para as nossas

ser seguidor da melodia de José Mucave-

típico

de

um

verdadeiro

a arte cante… nosmocambique@gmail.com


E

03 Junho de 2013

feméride

Dia da Criança Africana

16 de Junho

DIA DA CRIANÇA AFRICANA

A

efeméride

tuído em 1991 pela Organização da

que se assi-

União Africana.

nala

A origem desta data está numa

memória das

reivindicação, mas a UNICEF faz

centenas de

um alerta à comunidade mundial,

crianças negras do Soweto (na Áfri-

no sentido de que se perceba que as

ca do Sul) que, neste dia, em 1976,

crianças são o eixo do desenvolvi-

foram mortas numa manifestação

mento, a génese do futuro de África

onde reivindicavam o direito à qua-

e de qualquer continente.

lidade do ensino e a aprender na sua língua materna.

to é que continuam a morrer à fome

Esse protesto transformou-se

milhares de crianças, vítimas de

em massacre. Além de centenas de

pobreza extrema, em virtude de

mortos, provocou milhares de feri-

doenças provocadas pela subnutri-

dos, sendo que nos dias posteriores

ção.

ainda se registaram mais perdas humanas (cerca de 100), numa luta sangrenta que durou duas semanas.

Fotografia: Albino Moisés

Apesar de todos os apelos, cer-

A 16 de Junho, lembra-se ainda outro tipo de dramas que atingem as crianças, como a sida ou a

Para homenagear essas víti-

violência sexual, sobretudo na Áfri-

mas e defender as crianças daquele

ca subsariana. Os conflitos arma-

continente, cujos direitos funda-

dos, que obrigam famílias inteiras a

mentais não eram respeitados, nas-

abandonar o local de residência,

ce o Dia da Criança Africana, insti-

suscitam, mais do que nunca, a

Fotografia: Eduardo Quive

em

Assinalou-se o Dia da Criança Africana, celebrado como homenagem às vítimas do massacre do Soweto, a 16 de Junho de 1976, durante uma manifestação contra a falta de qualidade no ensino.


E

04 feméride

Junho de 2013

Dia da Criança Africana

preocupação dos países. A Organização das Nações aprovou

‗Declaração

dos Direitos da Criança‘, que um ano depois do Dia da Criança Africana se tornou lei internacional. Nasceram neste dia Gio-

Fotografias: Eduardo Quive

Unidas

vanni Boccaccio, escritor e poeta italiano (1313), John Cleveland, poeta inglês (1613), Julius Schrader, pintor alemão (1815), Gustavo V, rei da Suécia (1858), Dante Milano, poeta brasileiro (1899), Faith Domergue, atriz norte-americana (1924) e Erich Segal, escritor norte-americano (1937). Morreram neste dia John Churchill, militar britânico e primeiro Duque de Marlborough (1722), Marc Bloch, historiador francês (1844), Imre Nagy, político húngaro (1958), David Mourão-Ferreira, escritor e poeta português (1996) Corino de Andrade, humanista

Fotografia: Albino Moisés

Fotografia: Eduardo Quive

e neurologia português (2005).


L

05

etras

Junho de 2013

Literatura

UM POETA DE SOL A SAL LĂŠo Cote, poeta Fotografias: Bantus Imagem


Letras

Junho de 2013

Literatura

07

P

odemos avaliar o livro “Carto Poemas de Sol a Sal” (AEMO, 2012) como aquela forma que o poeta encontrou para dizer o que o seu âmago aponta em relação aos diversos dissabores e sabores da vida, até ao abstracto que pode também assegurar alguma reflexão por parte do leitor. Léo Cote, já conhecido nos meandros literários, decidiu estrear-se na plena maturidade como um carto-poeta aos 32 anos de idade, enquanto finalista do curso de linguística e literatura na Universidade Eduardo Mondlane. Uma figura complexa que tem a filosofia como elemento associado à sua poesia... Eduardo Quive eduardoquive@gmail.com

A sua poesia expressase como que direccionada, quando por exemplo começa com termos como “Querido filho:”. Porquê essa formulação?

- Se for a olhar para todo o livro, os debates, as cartas para o meu filho que agora tem apenas dois anos e sete meses, não podes pensar que estou a falar com ele, mas são personagens que, por efeitos das circunstâncias, usei-os para dialogar no livro. Não estou a conversar com o meu filho biológico que vejo todos os dias, empírico, mas estou a falar de um filho possível... é nessa perspectiva que também pode-se olhar o amor. Portanto, quando falamos de amor é que só podemos amar aquilo que nos pode transferir uma resposta, idêntica ou superior àquilo que pedimos. Naturalmente quando pede alguma coisa, está a espera de uma resposta que pode ser positiva ou negativa e, dependendo dessa resposta, avalia se pode voltar a fazer o pedido ou não. A vida é feita dessas relações, encontros e desencontros.

O seu livro intitula-se “Carto Poemas de Sol a Sal”. Como é que define a “Carto poesia”? De onde vem essa ideia? - Na verdade o título do livro não foi por mim dado. Outro dia, estávamos na sede da AEMO eu, Lucílio Manjate, Sangare Okapi e Mbate Pedro, a conversar. O Sangare já tinha lido o texto e sugeriu que desse ao livro o título de Carto Poemas. Na altura prometi que ia pensar no assunto. Na mesma altura o livro não estava totalmente composto, mas senti que o título fazia algum sentido para o livro. Mas percebi também que podia melhorá-lo, afinal era curto e seco. Queria acrescentar alguma coisa mais artística. Lembrei-me da expressão Sol a Sol em que, normalmente, quando a pessoa anda todo dia, por exemplo, um vendedor ambulante circula de ponta a ponta, pode-se perceber que andou

Pelo que se nota nos textos encontra-se uma atitude filosófica por parte do poeta. Fale-nos da sua formação como leitor.

de sol a sol, quer dizer, esse indivíduo andou desde que o sol nasceu até o fim do dia, a procura de alguma resposta. Mas também não me contentei com o sol a sol, entendi que podia ser de Sol a Sal, porque temos na zona da Matola, as salinas. Imagina que as pessoas acordam de manhã e vão a esse trabalho com o sal. E depois tem a própria transpiração que nos dá o sabor desse sal e por ai nasceu o título. Não nasceu de mim propriamente.

Falou desse debate que houve em torno da obra antes mesmo de ser publicada. Seria interessante que contasse-nos a história da composição da obra e o valor desse tipo de intercâmbio entre escritores. - Todo o livro nasce por via dos textos. No princípio fiz uns 10 textos em que ia tentando encontrar elementos que organizados interligam os textos. É nessa perspectiva que vou prestando atenção, aos elementos que se repetem nos

textos. Faço esse exercício a procura de um tema para que o livro em si nasça. Já fiz várias vezes esses exercícios e não chegaram a resultar, nalgumas. Quando consigo isso, é quando o livro nasce. Se não consigo esses dez a trinta textos, corrijo e acabam ficando uns sete desses trinta. É a procura desse título. Os textos foram nascendo a procura de um título. E fui debatendo com os amigos, pelo que Sangare Okapi deu-me a ideia e assim, comecei a pensar no livro de uma forma mais pragmática. E foi firmando esses personagens que é o meu filho, meu pai, amigos, minha mãe entre outros. Nessa altura faltava poucos dias para o meu filho vir ao mundo. Quer dizer isso aliase à obra. Vou dialogando com o meu filho ao longo de toda a obra, como filho, amigo, entre outros familiares. Familiares no sentido literário, mas tinha que pensar numa matriz mundana, do dia-adia. O livro foi dado corpo literário a esse meio humano em que estou. Os personagens em si não são aquelas do dia-a-dia, mas são as que idealizo para dialogar com elas textualmente.

- Realmente a tendência filosófica dos meus textos podem ter a ver com os autores que leio. Os meus poetas de cabeceiras são todos eles dessa tendência, quer sejam, Fernando Pessoa, ou Rui Knofli. Wolter Wiltman, João Melo Neto, Ferreira Gullar, Jorge de Sena são autores que têm essa tendência filosofante. Um pouco de Eugênio de Andrade, mais no seu poema curto e sintético, não tanto do espírito dos textos. Gosto também do Sebastião Alba que também enquadra-se na linha dos outros. Do Eduardo White, gosto dele pessoalmente, embora a sua poesia não seja que se compara aos primeiros que mencionei, na verdade ele é muito fraco quanto à tendência filosófica. Mesmo nos livros que ele tenta fazer visitas a outros espaços se percebe que é um poeta de língua portuguesa que não consegue extravasar esse espaço. Porém percebe-se que é um poeta que conhece a China, Índia, mas faz as viagens a partir da língua portuguesa. De ponto de vista estético ele é mais forte, o trabalho com o verso e a nível temático, quando se restringe a um certo espaço, como num dos seus últimos livros, ele consegue ser melhor. Mas o que me interessa nesses autores é a sua tendência filosofante e obviamente li muita filosofia, o Aristóteles, Platão, Nietzsche, Marx – embora nunca o tenha lido por completo.

Por que estamos a falar da leitura queria saber se a sua escrita é uma consequência da leitura ou então ela acontece por acaso? - É uma pergunta difícil. Acho que a escrita e a leitura convivem. Quando criança gostava muito de escrever, rabiscar, chamam isso de garatujar, que é escrever pequenas coisas, a criança pega


letras

Junho de 2013

Literatura

08

Hoje parece-me que perdemos aquele encanto que tínhamos no princípio, que era fazer poesia com encanto e vontade, obviamente com outros interesses, mas a poesia acima de tudo, o que agora já não há.

D‘alma que se instalou no ICMA (Instituto Cultural – Moçambique Alemanha) e também sentimos a necessidade de termos uma casa que nos acolhesse, foi quando conseguimos o Teatro Avenida. Aliás, mesmo o nome Arrabenta Xithokozelo resultou de vários debates, começamos pensando num nome como sexta da poesia e etc. Os integrantes do grupo foram saindo, o Sérgio foi um deles, depois eu tive alguns problemas com a Manuela que não tinham nada a ver com o grupo, mas abandoneio.

numa folha branca e vai anotando pequenas coisas e a minha mãe incentivava muito isso. Dali a fase a seguir comecei a desenhar e, por conta disso lia. Tinha uma pequena biblioteca em casa que me pôs em contacto com o mundo das letras e fui lendo ao longo da vida. Na verdade tomei consciência de que podia ser um escritor devia ter uns 17 anos de idade e foi quando comecei a levar a sério essa consciência. Este percurso é feito por este casamento, entre a vontade de escrever e de ler. Comecei a ler mais do que a escrever, de certa forma começo a escrever por efeitos das leituras. Hoje, acho que as duas coisas convivem, há um exercício de escrita, e há um exercício de leitura. Quanto a esse processo não posso dizer o que vem

primeiro. Para mim as duas coisas estão lá e convivem pacificamente e complementam-se. O poeta precisa da leitura para escrever para ser poeta, mas o poeta para ser poeta precisa de escrever. Por outra a escrita precisa da leitura mas ela por si só pode acontecer. A leitura no mais amplo sentido é um processo contínuo, um leitor também reescreve um livro enquanto lê.

E a sua actividade literária... Sei que é um dos precursores do movimento “Arrabenta Xithokozelo”. - A ideia inicial da criação do Arrabenta Xithokozelo, não foi minha, foi de uma jovem chamada Joaquina.

Ela circulava nos fóruns de escrita – agora não sei porque anda sumida – mas andava por aí e nós a conhecíamos. Ela faz também literatura na UEM. Um dia desses, ela já conhecia a Manuela Soeiro, (directora do Teatro Avenida), foi falar com ela para a criação do grupo. A Manuela aceitou e mandou que se organizasse. Foi quando ela veio falar comigo, com o Salésio, Bonde e Sérgio, formamos o grupo. A Joaquina depois saiu, ela na verdade é que era coordenadora do grupo, mas por questões de gestão do grupo e por alguns conflitos pessoais, ela achou por bem, sair. E porque tentávamos manter o grupo, nós os outros, principalmente eu, Bonde, Salésio, demos conta. Isso foi por volta de 2005. O grupo surgiu em paralelo com o movimento Poetas

Hoje o grupo ainda conta com o Bonde, Salésio e alguns que vão dando a continuidade. Talvez a Euraca também ainda está lá. Hoje penso que o Arrabenta Xithokozelo já não existe, é minha opinião. Ele vai se esticando porque existem alguns membros ainda interessados, e que há interesse nisso, por isso vão fazendo o grupo funcionar e ele aparente funciona, mas o núcleo duro do grupo já se desfez. Hoje parece-me que perdemos aquele encanto que tínhamos no princípio, que era fazer poesia com encanto e vontade, obviamente com outros interesses, mas a poesia acima de tudo, o que agora já não há. Agora já há questões muito pragmáticas de querer aparecer, fazer o nome, se calhar seja por várias preocupações por que já crescemos, alguns já são pais, como eu. Mas no princípio havia um feeling de fazer as coisas, houve um momento em que o grupo estava muito bom, principalmente


Letras na declamação que era o nosso maior interesse. A literatura fomos fazendo ao longo do tempo, porque tínhamos a consciência de que éramos imaturos, então a única coisa que podíamos fazer era declamar. Apostamos nisso. Penso que a Euraca e mais Salésio que o Bonde, são exemplo de quem dizem bem poesia. Eu próprio sou exemplo. São exemplos produtivos, todos saímos daquela forja. Nós começamos com uma coisa que o Mbate Pedro organizou e entrou-nos o ―bichinho‖. Foi bom, ganhei muito com isso, eu coordenava os ensaios. Acredito que os outros companheiros também ganharam muito com isso. Não sabia tanto quanto sei hoje sobre a declamação, embora tivesse uma formação que nessa área que frequentei por aí em 2001, coordenada por Jaime Santos. Hoje o conhecimento é outro, porque tive várias informações, li obras sobre a matéria.

A convivência com escritores como contribuiu para a sua construção poética? - O ambiente literário, como todos ambientes tem dois lados: ou ele te perde ou te constrói. Todos os ambientes infelizmente têm aspectos positivos e negativos. Uma coisa boa que aprendi no ambiente literário foi compreender os outros que escrevem. As outras inteligências artísticas. Isso foi bom porque o mesmo objecto pode ser descrito ou escrito, falado, ou dito, por várias entidades, mas de forma criativa e rica. Isso deu para perceber ao longo desse processo e foi bom. Ligueime à Associação dos Escritores Moçambicanos. E o meu primeiro livro, saiu pela chancela da AEMO, por consequência dessas relações que fui mantendo. É porque estou no meio literário que conheço os escritores, todos eles. Para além de ter as obras e ser leitor, os conheço, o que é bom para mim como autor. Isso permite-me também trocar ideias com os eles e até de livros. Na verdade me socializei literariamente com esses escritores. O lado negativo é que dentro do ambiente literário existem muitos mitos, pequenos deuses, tipo Ungulani Ba Ka Khosa, Paulina Chiziane, Mia Couto, etc, são de facto deuses do nosso aspecto literário e por volta disso há mitos. Depois há mitos sobre o próprio exercício de escrita. Algumas pessoas podem pensar que para se ser poeta é preciso se ser como Eduardo White. Mas o White tem outra estrutura para ser como é, a mesma que um outro pode não ter, seja social, familiar e intelectual. Logo quem quiser imitar Eduardo White, pode se perder, como autor, pessoa, poeta. O Eduardo White tem a sociedade que o protege, tem um outro estatuto social, trata-se de quem tem uma escola literária de mais de 20 anos. Ele não é ―um‖ poeta, é ―o‖ poeta. Não há-de ser um emergente que vai querer fazer o que ele faz e pensar que há-de ter

Junho de 2013

Literatura

09

o mesmo tipo de tratamento. Esses mitos que se criam induzem-nos muitas vezes ao mau caminho. Cada escritor tem o seu tempo e as condições são diferentes. Vamos imaginar o Ungulani que se desenvolveu no meio da polémica, num ambiente em que todo mundo social era movimentado. É verdade que ele precisou escrever o ―Ualalapi‖ para sair do anonimato, também é sua marca. Mas no meio disso tem outras histórias de bastidores que vamos sabendo. Agora, quem quer imitar Ungulani, esquece que o que ele fez era permitido naquele tempo, e neste tempo a sociedade está menos receptiva àqueles comportamentos. Esse exercício, nós os intelectuais, ou poetas, esquecemos de fazer tentando perceber o nosso tempo. No nosso tempo o que é possível fazer? Eu vi muitos escritores jovem com talento que ficaram pelo caminho por causa desses mitos que não souberam acolher bem e mastigá-los. Depois as nossas gerações conflituosas – penso que os conflitos de gerações sempre houve e haverá – ainda que em silêncio. Há coisas que os Ungulani viam que nós fazíamos e não nos diziam e ficavam a distância a falar do tipo ―miúdos‖. Há coisas que temos na cabeça que são ilusões, produtos da incompreensão de uma determinada realidade em que não estamos com capacidade de compreende-la e falhamos. Não é tanto pelo sistema, é pela incapacidade de, eu, Léo, compreender esse sistema.

Tratando-se de uma pessoa que sempre conviveu com a escrita e com escritores, tendo, igualmente, a possibilidade de ter se destacado entre essa sociedade de escritores antes mesmo de publicar o seu livro, como é que define o escritor? - Não sei. Gostei de uma autora brasileira que diz uma coisa interessante relativamente a essa questão de ser

Hoje penso duas ou três vezes antes de publicar o meu livro, porque o próximo não pode ser pior que o que já publiquei.

escritor ou não. Dizia que nós descobrimos que somos escritores, muitas vezes, por efeito da recessão crítica que nos catalisa para percebermos que somos escritores. A boa ou má recessão nos faz perceber se somos ou não escritores. Em parte concordo com ela. Mas também tem o lado individual dos nossos próprios propósitos: quando é que tu descobres como escritor? É muito difícil. Não sei. A escritora está olhar a relação entre o produto posto à disposição e os ditos leitores desse produto. Mas tem o escritor que se vão encontrando, o indivíduo que cresce intelectualmente. Na verdade eu só publico meu livro quando converso com o professor Francisco Noa, apresentando-o um projecto de livro. E ele aprovou que podia publicar, na altura disse que aia falar com pessoas que pudesse tornar isso possível. Mas eu decidi escrever uma outra coisa se calhar com mais qualidade na minha visão. Mas foi nessa relação de uma pessoa melhor ferramentada que o livro nasceu. Não me descobri poeta por causa do professor Noa, mas descobri que tenho algumas habilidades porque me relacionei com ele. E descobri que afinal tenho alguma qualidade porque me relacionei com ele. A sua opinião é de uma pessoa ferramentada na matéria. Então se ele diz que tem qualidade tem que se acreditar nele. É como quando vamos ao hospital, quando o médico perante a doença diz, toma isto, a gente toma confiante de que vamos melhorar. Não estou a dizer que isto funciona taxativamente como na relação médico

paciente. É que são pessoas que nós damos a liberdade deles opinarem e tomas isso como verdade e aceitamos. Como o meu caro avaria, penso logo no mecânico e penso nessa entidade como a que vai resolver o meu problema. Na verdade quando começo a pensar em ser poeta, entrego os meus primeiros textos ao meu avô e ele fez umas correcções linguísticas, ele disse-me que não vai tocar no conteúdo, mas estava preocupado com a língua. Deu-me o conjunto de gramáticas para ler e resolver os meus problemas. Depois conhecia professora Rita Chaves que deu a sua opinião sobre o meu trabalho, depois a professora Ana Mafalda Leite. Com o professor Noa, foi também pelo facto de ter sido meu professor e por isso ele aceitou fazer o prefácio do meu livro. Então é alguma verdade que também te descobres como poeta com estas pessoas que pensam ser as mais autorizadas para falarem do teu livro e da literatura de uma forma geral.

É difícil distinguir um bom poema? - Um bom leitor, ou um leitor activo, ainda que não possa discutir tecnicamente um poema, ele pode discernir um bom poema. É uma coisa inconsciente, intuitiva, em que nós lemos e por causa da bagagem de leitura me apercebo que este é um bom poema. Porque tenho outras leitoras feitas, dentre livros bons e maus, posso olhar num poema e dizer


Junho de 2013

Letras que este é bom. Agora há níveis dentro da arte que posso ter dificuldade de acessar, daí que há necessidade de lidar com pessoas tecnicamente experimentadas, porque independentemente da minha inclinação estética eu posso ler um poema e dizer se é bom ou mão. Tecnicamente falando. Enquanto o leitor normal, passional, como diz Humberto Eco, pode dizer se gostou do poema não. Fundamentalmente, é o leitor tecnicamente experimentado que faz o poeta reflectir em torno da sua produção. Hoje penso duas ou três vezes antes de publicar o meu livro, porque o próximo não pode ser pior que o que já publiquei. É claro que os leitores passionais têm a sua importância, também.

O poeta de Carto Poemas de Sol a Sal é um pedestre. Anda pelas ruas e vai observando. E quando observa manda as cartas para os seus “queridos” sobre o que desperta a sua preocupação. Há uma presença nas ruas, por parte desse poeta e ele não se conforma com o decorrer das coisas. Quer comentar isso? - Isso resulta de um exercício. Se for a reparar a literatura surge sobre duas correntes, uma literatura que pensa só na literatura, a arte pela arte, o seguido pelo Rui Knofli, Sebastião Alba, Reinaldo Ferreira. São autores que tinham uma perspectiva literária. Mas também temos autores como José Craveirinha e Noémia de Sousa. Eu sou um produto dessas duas escolas. Mas sou adepto da escola do Knofli, Alba, Reinaldo Ferreira, Eduardo White, porque me parece que há um outro tipo de labor, não só temática. Noutra vertente, a questão temática é mais profunda, isso é intrínseco à própria poesia. Enquanto numa, nós podemos fugir da temática social, noutra não.

Tens preocupação também com os aspectos da própria existência. A morte e a vida são objectos da sua inquietação poética? - Sobre a morte reflicto profundamente no livro que estou a preparar. Se neste livro falo pouco dela, como temática secundária é pela minha relação com os outros. O que estou a escrever agora, a morte é uma temática forte. Por exemplo tenho a imagem de Deus como forte no ―Carto Poemas de Sol a Sal‖, mas no livro que estou a preparar isso vai reduzir-se.

Está portanto a preparar um livro de poesia? - É poesia. Eu sou poeta. Se um dia eu escrever prosa há-de ser por experimentação. Mas eu sou poeta e não estou a procura de ser outra coisa. É difícil ser-se bom nos dois campos. Ramos Rosa, Jorge Luís Borges, são exemplos raros. Eu sou mais poeta que outra coisa e dedico o meu tempo nisso.

E qual é o tempo que dedica à poesia?

- Quase todo. Quase que não faço outras coisas. Às vezes penso em coisas soltas que tem outro sentido, mas a poesia está lá e vou registando. Agora uso o celular para escrever, porque nem sempre tenho a caneta na mão.

Em que momento liberta esses versos? - Recordo-me outra vez dos mitos. Há pessoas que acordam de madrugada para escrever. Mas uns fazem isso por causa das suas obrigações sociais. Eu não preciso disso. Já escrevi de madrugada, por causa das minhas obrigações sociais. Agora escrevo a qualquer hora. A história de que tem que se escrever de madrugada é um mito. Pode-se escrever a qualquer hora. É verdade que a madrugada tem o silêncio como o atractivo.

Muitos escritores reclamam da dificuldade de publicar um livro. Qual foi a sua experiência? - A dificuldade de publicar livros não está só em Moçambique. Um pouco por todo o mundo há essas reclamações. Agora em Moçambique em específico, o problema agudiza-se. Eu não passei por isso. Eu fiz primeiro um percurso muito pessoal, solitário ou ligado apenas à mim mesmo. Que era tentar encontrar esses elementos que tornem a minha obra aceitável. Eu estava procura de pessoas que entendem da matéria para dizer alguma coisa sobre a minha obra. Então o meu percurso foi mais nessa busca que de publicação. Eu vi muitos escritores a publicar livros e não andei atrás porque estava a procura de outra coisa. Até que no ano passado cheguei a publicar. Eu sei que o caminho mais fácil é ir pela publicação, isso é mais fácil, na verdade. Nós às vezes pensamos em ir por esse caminho a pensar que publicando um, vamos publicar, outro, mas não é tão linear assim. De facto publicar um livro não significa literalmente que terás facilidades de publicar o segundo.

Então concorda que não é o livro que faz o escritor? - Não. Os livros fazem o escritor. Sem eles não és poeta, não há dúvidas disso, falando socialmente. Tu precisas de ter as obras, como poeta. Mas o caminho é saber esperar, facto que não impede aos que querem chegar cedo à meta. Agora que há dificuldades, isso é um facto. Para conseguir uma editora que publique o livro é muito difícil. Mas eu não tive muitos problemas porque sempre estive ligado à AEMO, conheço todos esses escritores, então dancei menos. Agora os outros tem que dançar mesmo, não tem outro caminho.

Literatura

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LIVRARIA As Hienas Também Sorriem:

Um efeito dominó para muitas “classes”

David Bamo davidbamo@gmail.com

A

s Hienas Também Sorriem é o mais recente brinde literário do Contista e dramaturgo, representativo da novíssima prosa moçambicana, Aurélio Furdela. O livro não é feito só de contos, assim como de canções de angústia sadicamente cantadas por diversas forças vivas da sociedade. Isto porque as fábulas da obra retratam o diaa-dia de qualquer moçambicano, é como se de Marrabenta clássica de Moçambique se tratasse. Uma Marrabenta que exaltação das nossas vitorias e desgraças. Por outro lado, o livro remete-nos a hipocrisia caracterizada pelo sentido metafórico do seu título, As Hienas Também Sorriem. Pois bem, como é possível? Hienas seres selvagens tão perigosas, sem humanismo possível para sorrirem, mas que na prosa ―cronística‖ Furdeliana aventurada nos contos, vão mostrar os seus perigosos dentes. Na nossa óptica a abordagem de Aurélio Furdela não é essencialmente uma carta de amor aos doutores deputados, porque o efeito dominó é extensivo à muitas classes. Quantas vezes não vimos gente falsa com sorriso largo, a As Hienas Também Sorriem de Aurélio engatar inocentes Furdela já nas livrarias a 300MT pelo cifrão, padres que estupram crianças, jornalistas que vivem de comissões, ganância assassina que leva os médicos a abandonarem os doentes, meia a volta, estas todas classes quando o assunto é a protecção do estômago faz-se de vítima, e num outro ângulo, finge um profissionalismo inexistente. E nós perguntamos quem são essas hienas que sorriem? É o que Roberto Chitsondzo chamaria de Katina P, ou seja, todos os esforços que se opõem ao desenvolvimento. Há aqui uma falsidade que mata, arrogância que mata, estupidez que mata, individualismo que mata, e esses actos macabros, quem leva a cabo? São de homens e mulheres desta terra libertada com suor, sacrifício e sangue. Não obstante, e me socorrendo na música Sathani dos ―Bons Rapazes‖, tiramos vida uns aos outros por causa do morango – o dinheiro. E de novo perguntamos quem são essas hienas que sorriem? Se quem se diz apoiar o país ―prostitui‖ o povo, agita extremismo. Dão-nos balas que matam. E quem ganha? São as hienas. Todos ambiciosos, individualistas, extremistas e tantos outros terão que ser as hienas furdelianas que sorriem pelo cifrão. A isto chamaríamos, pobreza de espírito.


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Letras

Ensaio

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A INFLUÊNCIA RUSSA NA LITERATURA BRASILEIRA A chegada do romance russo ao Brasil foi uma consequência marginal de um processo internacional iniciado na França, que o tornou uma sensação europeia em meados da década de 1880.

Adelto Gonçalves*

Portanto, o caráter inovador da prosa russa foi imediatamente detectado pelos críticos brasileiros, que passaram a utilizá-lo largamente como termo de comparação em suas críticas e recensões. E até a apresentá-lo como um modelo de emancipação para a literatura brasileira.

marilizadelto@uol.com.br

III

I

Q

ue a literatura russa influenciou boa parte da literatura produzida no Brasil, especialmente no final do século XIX e na primeira metade do século XX, nenhum crítico de bom senso pode colocar em dúvida. Até que ponto chegou essa influência e como seu deu, pois, na maioria, por desconhecimento do idioma russo, os autores tiveram acesso apenas a traduções de segunda mão do francês, é que nunca ninguém havia estabelecido. Essa questão, porém, já está devidamente esclarecida e aprofundada, depois da pesquisa de proporções ciclópicas empreendida pelo professor Bruno Barretto Gomide em sua tese de doutoramento apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em junho de 2004, que saiu em livro em 2011 pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp): Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936), Prêmio Jabuti 2012, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria Teoria e Crítica Literária. As fontes deste livro foram extraídas de arquivos particulares de escritores e de uma extensa pesquisa que o estudioso fez em jornais, revistas e livros publicados entre 1887 e 1936, valendo-se também de consulta não só em arquivos públicos e de universidades em Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro como nos Estados Unidos, especialmente nas bibliotecas das universidades de Illinois, Indiana, Stanford e Califórnia.

Neste livro, a recepção da literatura russa no Brasil é estudada a partir de dois eixos: pesquisa documental da recepção crítica do romance russo e estudo da vasta bibliografia comparatista que lida com outros casos de recepção da literatura russa no Ocidente. Tudo isso acompanhado pelas discussões específicas fornecidas pela crítica literária e pela historiografia da cultura brasileira, como observa o autor na introdução. Os primeiros textos que utilizavam os romancistas russos como contraponto a questões literárias candentes no Brasil datam da segunda metade da década de 1880. Já o final da década de 1930 marca um momento em que tais discussões perdem sua força e deixam de ser relevantes para a crítica. O trabalho conta ainda com um anexo que reproduz algumas fontes significativas, privilegiando as de mais difícil acesso. II

É observar que a chegada do romance russo ao Brasil foi uma consequência marginal de um processo internacional iniciado na França, que o tornou uma sensação europeia em meados da década de 1880. Foi quando surgiram as traduções em escala industrial e livros de crítica que assinalavam a recepção desses romances em língua francesa. Gomide aponta o ensaio O Romance Russo, de Eugène-Melchior de Vogüé (1848-1910), publicado em 1886, como o elemento basilar dessa recepção, pois era a ele que recorria a maior parte dos ensaístas, inclusive no Brasil. Entre

os romancistas brasileiros, Lima Barreto (1881-1922) foi o que mais se deixou influenciar pelas ideias que o romances russos traziam implícitas, especialmente a partir do prefácio que Vogüé escreveu para Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoiévski (1821-1881). O pesquisador observa que já havia conhecimento da literatura russa no Brasil antes mesmo da década de 1880, mas esses contatos se davam em escala diminuta. A partir daquela data, o seu ―surgimento súbito‖ no País, em função do que ocorria na França, passou a atiçar a criação de uma literatura genuinamente nacional, como observaram ao tempo José Carlos Jr. (??), um crítico paraibano hoje quase esquecido e justamente ―ressuscitado‖ por Gomide, e Clóvis Bevilacqua (18591944). Mas, como constata Gomide, essa interpretação não foi unânime. Para Tobias Barreto (1839-1889), por exemplo, os romancistas russos eram a negação de tudo o que a cultura francesa representava. Para Silvio Romero (1851-1914), os russos seriam também o melhor exemplo antípoda de Machado de Assis (18391908). Se o escritor fluminense construía delicados estados psicológicos de suas personagens à maneira do francês Paul Charles Joseph Bourget (1852-1935), Romero fazia o contraste com a estética radical do choque, exemplificada por Edgar Allan Poe (1809-1849) e Dostoiévski, observa Gomide. E acrescenta: para Romero, o autor fluminense ficava ―bem abaixo de Dostoiévski, Poe e até de Hoffmann (1766-1822), quando este envereda, como o próprio Machado diria, pelo distrito da patologia literária‖.

Na primeira parte de seu livro, Gomide trata da divulgação dos romancistas russos a partir da metade dos anos 1880, especialmente de 1883 a 1886. E apresenta exemplos do aumento vertiginoso do número de traduções e do entusiasmo nos meios intelectuais pelo novo fenômeno literário. Mostra ainda que, quando a revolução de 1917 assustou o mundo, já havia no Brasil uma tradição de três décadas de discussão do romance russo em periódicos e livros de crítica. Portanto, associar autores como Dostoiévski, Turgueniev (1818-1883), Leon Tolstói (1828-1910) e Alexandr Pushkin (1799-1837) ao bolchevismo só podia partir de mentes obnubiladas, o que não é de admirar, pois, à época da última ditadura militar (1964-1985), o livro Juan Rulfo: Autobiografia Armada (Buenos Aires, Corregidor, 1973), de Reina Roffé, teve a sua importação barrada, por volta de 1975, porque o censor fez uma interpretação beligerante da palavra ―armada‖, quando o título queria dizer apenas que a autobiografia havia sido ―armada‖ com declarações do escritor retiradas de entrevistas publicadas em épocas diversas. Santa ignorância... Na segunda parte de seu trabalho, Gomide estuda as décadas de 1920 e 1930, quando era flagrante o impacto da revolução bolchevique. E mostra claramente que, ao contrário do que se supõe, a literatura russa nunca foi uma espécie de patrimônio da esquerda, pois intelectuais católicos, como Alceu de Amoroso Lima (1893-1983), Tasso da Silveira (1895-1968) e Jackson Figueiredo (1891-1928), já discutiam sua influência na literatura mundial, especialmente a partir de Dostoiévski, Máximo Górki (1868-1936) e Leon Tolstói.


Junho de 2013

Letras

Gomide defende que é anacrônico reler os primeiros momentos da recepção da literatura russa no Brasil de acordo com os resultados posteriores à revolução de 1917. A segunda parte do livro apresenta, além de um panorama do mercado editorial da década de 1930,

textos que desconfiam abertamente das interpretações geradas no fim do século e tentam cercar os romancistas russos por outros ângulos. E contestam a ideia de que o niilismo de Dostoievski e de outros escritores russos teria preparado terreno para o avanço do comunismo e a vitória dos bolcheviques em 1917, apenas porque a literatura russa sempre esteve associada a questões sociais. Na conclusão, Gomide defende que é anacrônico reler os primeiros momentos da recepção da literatura russa no Brasil de acordo com os resultados posteriores à revolução de 1917. Como o livro vai até 1936, fora da análise de Gomide fica o recente renascimento do interesse do leitor brasileiro pelo romance russo que, a rigor, deu-se depois do lançamento, em 2001, da primeira tradução de Crime e Castigo, de Dostoiévski, feita diretamente do russo por Paulo Bezerra, pela Editora 34, de São Paulo. Em seguida, saíram vários livros traduzidos diretamente do russo por Paulo Bezerra, Boris Schnaiderman, Fátima Bianchi, Lucas Simone e outros. Em 2011, saiu também

Poetas da CPLP reunidos em livro

A

antologia poética Arquiologia da Palavra está em via de lançamento em Maputo. A obra que reúne poetas de desde as mais antigas e recentes gerações abrange os criadores dos países de língua portuguesa. Serão encontrados na referida obra, poe-

mas de Mia Couto, recentemente atribuído o prémio Camões – 2013, Eduardo White e Adelino Timóteo, Sangare Okapi nomes sonantes da literatura moçambicana, aos emergentes, Dinis Muhai, Bonde, entre outros. Do Brasil, Afonso Romano de Sant‘Anna é um dos inseridos. A antologia Arquiologia da Palavra é uma iniciativa da revista de Literatura Moçambicana e Lusófona, Literatas, sob a coordenação de Amosse Mucavele e será lançada a 12 de Julho no Centro Cultural Brasil – Moçambique, data em que se comemora o segundo ano da criação da revista pertencente ao Movimento Literário Kuphaluxa. Publicada em versão electrónica desde 12 de Julho de 2011, a revista Literatas é uma publicação empenhada na divulgação da literatura moçambicana e no intercâmbio através da criação literária com os demais países de língua portuguesa.

Ensaio

Gente Pobre, de Dostoiévski, com tradução de Luíz Avelima, pela editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP. IV Bruno Gomide (1972) é doutor em Letras pela Unicamp, com estágio de doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Realizou cursos nas universidades de Illinois, Indiana, Cambridge e Linguística de Moscou. Foi pesquisador-visitante no Instituto Gorki de Literatura Mundial, em Moscou, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). É o organizador do grupo de trabalho de Literatura Russa da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic). Organizou a Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998), lançada recentemente pela Editora 34, que reúne nomes conhecidos no Brasil como Pushkin, Gógol, Dostoiévski, Tchekhov, Tolstói, Pasternak, Bábel e Nabókov e outros menos conhecidos, como Odóievski, Grin, Chalámov, Kharms, Platónov e Sorókin, num total

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de 40. Tem publicado artigos em periódicos internacionais, como Tolstoy Studies Journal e Vopróssi Literaturi, e participado dos principais congressos de eslavística.

__________________________ DA ESTEPE À CAATINGA: O ROMANCE RUSSO NO BRASIL (18871936), de Bruno Barretto Gomide. 1ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 768 págs., 2011, R$ 120,00. E-mail: edusp@usp.br ____________________________ (*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).


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aleria

Fotografia

Marcos Vieira* marcosvieira2002@gmail.com

DESPEDIDA

idades cidades divindades

Uma parte de mim parte sem mim e, assim, partida, em mim nasce repartida, ávida e sem fim, a vida inteira, enfim. Maputo, 2004

*Diálogo fotográfico com poemas do livro “idades cidades divindades” (Ndjira, 2007) do escritor moçambicano Mia Couto, prémio Camões-2013


Galeria

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Fotografia

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O ESPELHO Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos. Maputo, 2006


Galeria

Junho de 2013

Fotografia

A ADIADA ENCHENTE Velho, não. Entardecido, talvez. Antigo, sim. Me tornei antigo porque a vida, tantas vezes, se demorou. E eu a esperei como um rio guarda a cheia. Gravidez de fúrias e cegueiras, os bichos perdendo o pé, eu perdendo as palavras. Simples espera daquilo que não se conhece e, quando se conhece, não se sabe o nome. Maputo, 2005

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Galeria

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Fotografia

VERSOS DO PRISIONEIRO (3) Não me quero fugitivo. Fugidio me basta. Dentro do pássaro há uma grade, um eterno confinar de gaiola. Da liberdade das aves, outros poetas falaram. Eu falo da tristeza do voo: a asa é maior que o inteiro firmamento. Quando abrirem as portas eu serei, enfim, o meu único carcereiro Maputo, 2006


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Artes Entrevista

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Música

„NÃO QUERO SER IGUAL A NINGUÉM‟

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epois de ter invadido os palcos, grandes e pequenos a 20 anos, José Manuel Luís, artisticamente chamado Jomalu, celebra a sua ascensão como um verdadeiro artista afro. Foi com guitarra oferecida por seu irmão, que se moldou o autor de “Deixem os pintos crescer” e “Cesariana”, temas que caracterizam o estilo metafórico e de crítica social da música de Jomalu. Os seus mais de 20 anos de músico são marcados por noites e manhãs de intensas composições e dedilhares sempre fora do padrão. Reconhece-se exigente, duplamente esforçado, o que torna a sua música densa de mensagem, harmonia de tons, poesia e meditação.

Fotografias: Divulgação

O próprio Jomalu revela-se…


Artes

Cesário Matias nosmocambique@gmail.com

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Sendo um jovem e a fazer um estilo de música mais próximo do tradicional, não se sente sozinho e abandonado? - Na verdade não me sinto solitário a fazer o estilo de música. Eu pego num estilo musical e começo a fazer a

Sei que foi oferecido a primeira guitarra por seu irmão. Que significado isso teve no seu crescimento artístico? - A guitarra que o meu irmão ofereceu-me foi muito importante para a minha carreira. Ele foi oferecido a viola numa conferência que participou na Suazilândia por um amigo. Mas ele sabia que tinha um irmão que era muito empenhado para a música. Ele até ficou um tempo com a guitarra, mas chegou um tempo que cedeu-me. Ele sabia que ela seria-me muito útil. Aliás foi num momento difícil da minha carreira, pois ela estava a começar. Lembro-me que para poder tocar viola aproveitava aos meus colegas da igreja para tocar por um tempinho. Com essa guitarra que o meu irmão ofereceu-me, foi uma maisvalia, porque já tinha guitarra para praticar e fazer as minhas aparições.

música para o mundo. A minha música é consumível por qualquer canto. Isso deve-se à essa capacidade que tenho de fazer as coisas. E não me sinto sozinho, porque é um estilo que tentei cultivar, é uma versatilidade minha, e é disso que busco. Não quero ser igual a ninguém, procuro ser diferente. Claro que sempre há-de haver alguma semelhança com alguém, mas sempre lutei para ser um pouco diferente ou diferente. Fazer inovações, criar fusões do tradicional para fazer um afro-jazz, um pouco de afrorock que são consumidos em todo mundo. E é por isso que não me sinto só, aliás sinto-me com uma aceitação boa, para aquilo que eu pretendia, porque no fundo quando comecei, eu até sentia-me solitário, mas como estou a seguir um sonho, sempre fui fiel ao estilo de música que decidi fazer. Talvez posso dizer eu me sinto só, em relação algumas entida-

Música

des que ainda não percebem o meu estilo e a dimensão do que estou a fazer e as vezes quando precisamos de apoios fica difícil. Mas mesmo assim algumas já começaram a compreender aquela luta que sempre travei, aquilo que estou a fazer e isso me deixa feliz, porque de facto, chegou o tempo em que somos perce-

Cresci num tempo em que as coisas eram feitas com muito rigor, eu também sou muito rigoroso no trabalho.

18 bidos e somos ouvidos.

Sinto na sua música muita poesia, muita fusão de ritmos e sons, em fim, muita nostalgia. Penso que a sua música é difícil de se ouvir…

- Procuro ser entendido pelo público, tanto moçambicano como estrangeiro. Não sei se é pela minha infância ou pela minha vivência: eu cresci num tempo em que as coisas eram feitas com muito rigor, eu também sou muito rigoroso no trabalho. Tenho muita garra no que faço e não faço coisas banais, sempre procurei fazer uma coisa com pés e cabeça e, para tal, exercito muito, procuro fazer letras com qualidade na mensagem e escrita e que não são muito denotativa, mas que as pessoas consigam apesar do esforço, compreender. A poesia, também tem a ver. Eu faço coisas que exigem um pouco de esforço por parte do receptor em termos de decifrar a mensagem, a linguagem melódica e rítmica das minhas músicas e tento procurar um encanto qualquer no receptor. Porque as coisas em termos musicais estão mesmo mal em Moçambique. Se coloca-se dez artistas no mesmo saco


Artes

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Música

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Gosto de estar em sítios como uma casa metida no meio do nada, nota-se que há uma semelhança total em termos de composição, melodia, as letras versam quase os mesmos temas da mesma maneira. Eu procuro fazer o diferente, sempre tentei fazer isso, para ser notável no meio de muitos.

Portanto, se há esforço por parte do receptor, qual será o seu esforço durante a criação? - Para trazer um produto que vai requerer do ouvinte um esforço, isso vai, consequentemente, requerer de mim um esforço a dobrar, porque para compor, não só escrevo, não só dedilho os acordes e já está. Tenho dito sempre que muitas pessoas que até estudaram música nas grandes universidades, há muitos deles que não sabem dessa componente. Há letras apropriadas a certas melodias e há melodias apropriadas a certas letras e há uma série de trabalhos durante a composição que fazem dela uma coisa boa e bela. Não é só levar uma letra meter numa melodia aleatoriamente, eu trabalho e procure ver o que é que encaixa naquela melodia ou naquela letra. Portanto, da minha parte há um esforço acrescido e incansável, as vezes uma mesma música sofre várias alterações antes do produto final.

E o que representa para si o momento de criação? - São momentos especiais e únicos, porque cada composição tem a sua origem e a sua inspiração. E eu me inspiro muito em coisas do horizonte. Em coisas que muita gente não consegue alcançar. Em segredo já disse um jornalista que gosto de estar em sítios como uma casa metida no meio do nada, em que nessa mesma casa por baixo passa um riacho. Quando olho para aquilo vislumbra muita coisa. Abre-me a mente. Traz-me coisas louváveis. Traz-me loucuras. Eu me inspiro muito nesse tipo de imagem. Eu gosto muito de sair para esses locais, as vezes na Suazilândia ou mesmo dentro do país, gosto de ficar nesses sítios. Eles trazem-me muita coisa. Gosto de ouvir o som dos animais, pássaros, o mar a correr, o barulho da água passa das rochas e bate. São coisas que para mim são muito importantes. Quando componho uma música tradicional, por exemplo, a inspiração me aparece muito nesses lugares. Aparecem do nada e me inspiro. Faço alguma coisa.

São essas paisagens que alimentaram o seu primeiro traba-

lho discográfico orgasmo”?

“Vida

sem

- Sobretudo ―Vida sem Orgasmo‖ foi muito inspirado nesse tipo de paisagens e espaços tradicionais. Mas eu sou um jovem que tem muitas ambições não só por dentro do país mas também por for a. Como sabemos o nosso país não tem condições para um indivíduo como eu e com outros com grandes ambições para fazer sua música prosperar. Eu mostro através da minha música a diversidade. Faço o que todos terão espaço para encaixar-se. Mesmo um europeu apanha alguma coisa no meu trabalho.

em que nessa mesma casa por baixo passa um riacho. Quando olho para aquilo vislumbra muita coisa. Abre-me a mente. Traz-me

Curiosamente, o orgasmo é um ponto mais desejável de se atingir. E o seu trabalho nos propõe uma vida sem ele. Afinal de contas como é que se pode viver sem orgasmo? - Eu sou uma pessoa subjectiva nas minhas letras e composições. Não gosto de entregar de bandeja as coisas. Gosto que as pessoas reflictam. No entanto, a tradução directa que podemos encontrar sobre esse álbum é de que é algo que nós quei-

coisas louváveis. Traz-me loucuras.


Artes ramos fazer ou façamos mas que não conseguimos atingir o ponto desejado. O ponto mais alto. O auge da coisa. Cada pessoa que recebe essa mensagem, tem a missão de descodificar de acordo com as dificuldades que passa na vida e que lhe impedem de realizar algo até onde deseja.

Olhando para a música “Deixem os pintos crescerem” que pertence a este álbum, nota-se uma preocupação sua com a degradação social e com os problemas urbanos. Qual é a sua missão como artista olhando, particularmente, a o que diz esta música? - A minha missão como músico é educar as massas e a sociedade. A música ―Deixem os Pintos Crescerem‖ foi inspirada numa situação vivida no quotidiano nas nossas cidades. Há situações de pessoas mais velhas: nossos pais, nossos avós, até nossas mães, que tem primado por conquistar crianças e adolescentes e isso é negativo. Temos visto velhos adultos que conquistam crianças em troca de alguns valores, sobre tudo as raparigas. Isso fez-me compor essa música. Quero educar a sociedade para não pautar por esses comportamentos.

Temos ainda o “Uni Dururo” já pertencente ao álbum, “Cesariana”. O que nos tem a dizer sobre esse trabalho? - O ―Cesariana‖ é mais um exemplo daquilo que tenho dito que os meus títulos são sugestivos e subjectivos. Quando alguém tem um parto cesariana não é porque quis, embora hoje em dia, hajam os que optam por isso. Mas não se considera parto normal. E eu quero incentivar a camada jovem para a lutar para conseguirem fazer as suas coisas. O empreendedorismo é importante na vida, para que as pessoas não sofram pelo emprego. Por outro lado, uso aqui dois nomes, quando digo Cesariana, digo também César e Ana, digo que a vida não é fácil e nunca foi fácil, então chamo atenção a César e Ana que pode ser qualquer um, para que lutem pela vida. No entanto a vida não é fácil. É um sacrifício. O ―Uni Dururo‖ que vem nesse CD, também é para fazer um apelo a aos que pautam pelo adultério. Nas sociedades africanas, temos o problema do adultério, então é muito grave. Falo de um homem que gosta de enganar as mulheres dos outros e fica a maldizer dos seus maridos para lograr os seus intentos. É uma crítica porque não posso dizer a alguém que o marido não presta porque tenho os meus objectivos para com a esposa. Isso é feio. Mas temos visto no dia-a-dia. Isso origina conflitos e mortes. Portanto, como quero educar a sociedade, fiz essa música no sentido de educar as nossas famílias.

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Você canta o tradicional e o cenário que usa para aparecer em público é também tradicional. O que isso tem a ver com o cidadão Jomalu? - Eu quero dizer a sociedade africana e moçambicana que o que é africano é nosso e não devemos fugir como muitos fazem. Muitos dizem que não seguem a tradição enquanto por de traz vai. Fazem isso até os dirigentes, os religiosos, seguem a tradição, no entanto não dão a cara a dizer que seguem. Portanto, procuro mostrar que a tradição é uma coisa normal como outra. Eu vi na África do Sul e na Suazilândia, como as pessoas vestem e decidi me comportar daquela maneira. Não que eu sinta exactamente todos passos, quero somente dizer que a tradição existe. Os nossos trajes são um verdadeiro encanto e é preciso usa-los. A nossa cultura é importante e temos que explorar e cultivar, porque os novos que agora nascem não tem noção do que vale a nossa cultura. Eu como jovem, procuro mostrar a outros jovens que não é nenhuma vergonha mostrar a sua cultura.

FAZER MÚSICA COM PRUDÊNCIA

Acho que nasci com a veia artística, fiz teatro, mas desde criança me ocorreu que tinha que ser músico.

Se o que tem dominado os últimos tempos para os artistas é o aparecer sempre na imprensa, nos palcos e em outros eventos públicos, pode-se dizer que Jomalu é um artista calado. Pouco falado, aliás, quase que não falado. Mas como ele mesmo afirma, ―não apareço sempre por uma questão de preservação de imagem‖.

E em que palcos Jomalu anda? É pouco comum ver um show seu! - Por uma questão de postura minha, não apareço muito nos palcos moçambicanos, mas aqui em Maputo, com pouca frequência apareço nos gran-

Música

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des espectáculos. Mas a questão de aparição limitada também tem a ver com a preservação de imagem. Não tenho tocado em bares porque eu sei muito bem que nos bares paga-se mal. Eu tenho tocado com artistas que ganham muito bem pelo trabalho de qualidade que fazem e também, não gosto de me fazer passar por uma pessoa dessas. Prefiro concentrar-me em um ou dois espectáculos grandes por ano e o resto das minhas actuações faço em galas, em locais restritos onde sou convidado e fora do país também tenho actuado em locais privados que não são espectáculos muito públicos. Mas tenho estado e estou a fazer música com muito vigor. Tenho contactado com grandes entidades fora do país para enriquecer a minha divulgação por ai fora. Todos os anos faço isso. No ano passado mesmo, fui duas vezes a Europa onde estou a negociar a divulgação do meu disco e vou noutros continentes também para tentar divulgar a minha música e o meu trabalho.

É notável a qualidade das letras e até da mensagem nas suas músicas, isso será fruto de muita leitura? - Por acaso não tenho lido muito. Mas eu sou um pensador. Não tenho lido muito mas eu penso. Tenho a veia artística e sei escrever e sou um indivíduo que foi a escola, estudou. Tenho bases mínimas para saber fazer bons poemas e escrever boa coisa. Portanto não é muito baseado na leitura a minha qualidade, embora leia quando posso.

Como é que vê os seus 21 anos de carreira? - Os meus 20 anos de carreira foram marcados por várias etapas. Acho que nasci com a veia artística, fiz teatro, mas antes mesmo disso, já fazia música na igreja, é uma coisa que desde criança me ocorreu que tinha que ser músico. Então, quando digo que a minha carreira é composta por várias etapas é pelos passos que dei até hoje: fui corista e percussionista por muito tempo, já trabalhei em arranjo de voz em grupos corais, ouve um tempo que comecei a trabalhar na minha carreira a solo, mas antes criei bases para ser músico. Os meus mestres sempre me diziam uma coisa importante: ―ser músico não é só acordar e já ser, é preciso cultivar e semear para um dia colher.‖ A minha filosofia sempre foi essa e eu trabalhei no sentido de por as coisas num bom termo. Hoje em dia tenho orgulho de dizer que passei por boas mãos, trabalhei com vários artistas, várias bandas, isso para mim foi importante, ter aprendido e continuo a aprender até hoje. Estou feliz, tenho sido um jovem a fazer um estilo de música que faço isso vem dos músicos que bebi e dos meus ídolos nacionais e internacionais.

A

A D EN

G

Coloque o seu evento nesta agenda. Mande-nos e-mail: nosmocambique@gmail.com

21 e 22 de Junho Festa da Música Artesanato, Gastronomia e Espectáculos. Artistas: Neco Novellas e Mingas Locais: Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM - 21 de Junho) e Jardim Tunduro (22 de Junho)

Quinta-feira 11 de Julho – 19h 5ª Toca no Jardim do CCFM – Maputo Banda: Kuche’s Quartet Marrajazz Composição: Timóteo Cuche (saxofone tenor), Cremildo Chitará (bateria), Dudu Stallin (guitarra), Filipe Fumo (contrabaixo), Convidado: Luís Fumo (trompete). De 27 de Junho a 07 de Julho Kugoma 2013 – Fórum de cinema de curta-metragem O KUGOMA é uma mostra internacional anual de cinema de curta-metragem, com enfoque na exibição gratuita para públicos novos, nos bairros periféricos da cidade de Maputo e, para a formação prática, através da produção de oficinas. Criado por duas produtoras independentes, o evento tem exibido centenas de filmes, ao longo das últimas 3 edições, sempre durante 10 dias consecutivos, em sessões ao ar livre simultâneas, em vários bairros da cidade e, em reconhecidos centros culturais, atingindo públicos diversos, com todos os géneros cinematográficos.


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Artes

Teatro

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UM INIMIGO DO POVO

A

companhia teatral Mutumbela Gogo, fundada em 1987 com intuito de gerar o uma escola de teatro profissional em Moçambique, ainda est�� nas celebrações do seu 25º aniversário, encenando um dos clássicos da dramaturgia europeia, o norueguês Henrik Ibsen. Mesmo no final do primeiro semestre e no rol da realização do Festival do Inverno em que a compa-

nhia participa, “Um inimigo do povo” escrito por Ibsen em 1982 é o que Mutumbela Gogo exibe no Avenia

Eduardo Quive eduardoquive@gmail.com

Fotografia: Inocêncio Albino

Em destaque actors Victor Raposo, Adelinho Branquinho e Graça Silva com actors do grupo teatral Luarte. Cena da peça ―Um inimigo do Povo‖ no Teatro Avenida

―Toda a nossa vida moral está contaminada‖, essa frase resume todo o ideal de ―Um inimigo do povo‖ peça já apresentada em anti-estreia pela companhia teatral Mutumbela Gogo, no princípio em Maputo, com a qual, viajará para várias províncias do país, tendo

iniciado com província de Cabo Delgado já na primeira semana de Maio e neste mês de Junho a entrar para o Festival do Inverno. Uma vez mais a dramaturgia Noruega se enquadra no contexto

moçambicano. O reconhecido como um dos criadores do teatro realista moderno, sendo por isso, igualmente, tido como maior dramaturgo da Noruega do século XIX, Henrik Ibsen não encontra espaço para inventar diante da miséria que o cerca e o que está por de trás de muitas

vestes e títulos sociais. ―Um inimigo do povo‖ escrito por si em 1882 não precisou de reinventar-se para servir neste 2013 em Moçambique. A companhia teatral Mutumbela Gogo que já encenou duas das mais controver-


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Artes sas obras de Ibsen ―Casa de Bonecas‖ e ―Hedda Gabler‖, fez a anti-estreia na última sexta-feira anunciando igualmente a sua digressão pelo país, a partir de Pemba, em Cabo Delgado, para ao longo do ano estar em cena nas províncias de Sofala, Manica, Nampula e o regresso à Maputo. Se em 1882 Henrik Ibsen pretendia criticar, não só, o conservadorismo da sociedade, como também o liberalismo, na actualidade, a peça que encaixase perfeitamente nas condições sóciopolíticas que Moçambique se encontra, não foge do objectivo. A par disso, ―Um inimigo do povo‖ moçambicano encenado por Manuela Soeiro concluiu que devia incutir algumas mudanças para o contexto em que se encontra. Na verdade não foram ―grandes‖ mudanças da obra-prima. O facto intrigante é de se ter mudado a personagem de Prefeito da cidade no original de Ibsen para se enquadrar em um Inspector representado por Adelino Branquinho. Porém preferiu-se manter a estrutura do Dr. Tomás Simbine, médico, uma encarnação feita por Jorge Vaz. Essas duas figuras fazem os acontecimentos naquela cidade que não tem

nome, mas a estrutura remete-nos a um país inteiro como Moçambique. O Inspector é irmão do Dr. Tomás e, ambos estão envolvidos no projecto da estância Balnear, que é o centro da controversa. Por um lado, o médico entende que o projecto não foi instituído com perfeição tendo, a cidade, águas contaminadas. Se é verdade que as águas consumidas por vários citadinos são impróprias, muitas seriam as vítimas mortais por contraírem várias doenças, incluindo os visitantes que a contar pela importância que se lhes dão, escalam o lugar com frequência. Mas esses problemas não merecem o mesmo olhar ―catastrófico‖ por parte do seu irmão, por sinal um homem poderoso na cidade, o inspector Pedro Simbine. O inspector entende que a revelação do seu irmão podia causar uma grande crise social e económica e danos ao seu governo. Daí começa o conflito para depois se chegar ao próprio conceito de ―liberdade‖ que, em última instância, é o ideal da peça. O inspector Pedro Simbine é capaz de tudo para que não se revele a verdade sobre a contaminação das águas. Chega a usar a família do seu irmão para convencê-lo a não tornar o caso de conhecimento público. Mas, cer-

Teatro

to de que estava a fazer o bem e o justo para toda a sociedade, Dr. Tomás Simbine é irreversível na sua decisão, afinal, tem todos os documentos que comprovam a sua descoberta e pelas suas costas, está a ―maioria sólida‖ e a imprensa, tal quarto poder, que o ajudariam a ―purificar a cidade de tantos males‖. Aliás, é igualmente interessante notar o papel, por um lado, do presidente da Associação dos Pequenos Empresários, a tal maioria sólida que garantiu ser o lado forte do Dr. para levar avante a sua denúncia e, por outro, o editor do jornal ―Mensageiro do Povo‖ que garantiu que a mensagem do médico chegaria à todo o povo por intermédio do seu órgão que estava ao serviço da verdade. Contudo esses dois grupos não passam de uns bajuladores do elo mais forte em função do que lhes beneficiaria individualmente. O lambe-botismo, a cobardia, falsidade, medo, ganância e pobreza fazem o conjunto de factores que isolam o médico Tomás Simbine no seu conceito de liberdade. O seu irmão, Inspector Simbine, passa por cada lugar onde o médico tinha em seu favor e em nome do governo atemoriza. A dita maioria sólida que o médico confiava cai nas graças daqueles que podem tudo e o jornal também muda de posição face às vantagens da sua aliança ao executivo. Tudo contra aquele que inicialmente era tido como justo e que apenas pretendia revelar a verdade.

Fotografia: Bantus Imagem

Na verdade, a escolha de um inspector que também podia ser a figura de um general, enquadra-se no que se assiste diariamente pelos meios de comunicação social moçambicanos sobre o poder desses em vários empreendimentos.

Victor Raposo ensaiando a peça ―Um inimigo do Povo‖ no Teatro Avenida

Outra verdade é que a estância balnear pode se aplicar à qualquer instituição pública que a par de várias inviabilidades dos projectos aplica-os, basta que sejam economicamente viáveis. O papel dos que pautam pela verdade tem sempre um final trágico como o de Eduardo Mondlane, Samora Machel, políticos; o economista António Siba-siba Macuácua e jornalista Carlos Cardoso, que tiveram mortes por assassinato perseguindo várias verdades. É em sua homenagem, que a companhia Mutumbela Gogo apresenta a peça, de acordo com Manuela Soeiro. Um inimigo do povo pode ser aquele que inicialmente foi amigo. Aquele que quer salvá-lo. Mas a história con-

22 tada pelos que tem poder tem mais peso para uma sociedade em que ―toda a vida moral está contaminada. Todos os chamados homens são autênticas donas de casa. Os dirigentes são como cabritos numa machamba nova‖. Diz o médico Tomás Simbine, quando proclamado

“Toda a vida moral está contaminada. Todos os chamados homens são autênticas donas de casa. Os dirigentes são como cabritos numa machamba nova”

inimigo do povo após as articulações feitas pelo ―poder‖ para defraudar os seus intentos. Mas o mesmo médico, olhando para si, só, no meio de uma cidade inteira que não o compreende e que, por vários factores, se deixa enganar sem se aperceber que são os ricos que governam, os tais que estão fora do alcance das doenças dos pobres como essa água contaminada, trata os dirigentes como ―irracionais enferrujados‖. Totalmente isolado, o médico ainda desabafa ―esses que põem ao avesso a moral e a justiça. Temos que cortar o mal pela raiz. A falta de oxigénio enfraquece a consciência. Quem são os que constituem a maioria neste mundo? Os tolos.‖ Uma lição ainda fica do ―inimigo do povo‖, vendo-se abandonado também pela imprensa que se apresenta como aquela que diz a verdade, bem como a maioria que se deixa enganar pelo estômago, entende que a melhor luta travase quando se está só. Dito isto, resta concluir que o elenco encenado por Manuela Soeiro, constituído por Graça Silva, Adelinho Branquinho, Victor Raposo, Jorge Vaz e actores do grupo teatral Luarte, soube fazer com que, a ironia e a coragem de Henrik Ibsen, que sempre resultaram em atitudes reaccionárias, servisse no contexto e no público moçambicano.


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Artes

Exposição

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MARCIAL EXPÕE „GÊNESIS‟ NO CASA ÁFRICA Rosália Diogo Apresentação

É

mente entre Etiópia e Quênia, onde se

com imensa satisfa-

encontra o Lago Turkana, o artista

ção que apresento a

escolhe esta região na qual foi encon-

exposição ―Gênesis‖, do

artista

Marcial

trada a maior parte de fósseis de homi-

plástico

Ávila,

nídeos, transformando-a em seu Gêne-

que

sis particular, fazendo uma alusão dire-

tem como fonte de inspiração os territó-

ta

rios sagrados dos terreiros de Candom-

à

Capela

Sistina,

tentando

―deseuropeizar‖ as figuras dos santos

blé e Umbanda e os festejos da irmanda-

católicos, representados com os fenóti-

de de Nossa Senhora do Rosário dos

pos negroides, na tentativa do reconhe-

Homens Pretos, da cidade de Diamantina, em Minas Gerais. Mas o trabalho

ção desta etnia, dando-lhes visibilidade,

Eva negros, transferindo para o homem

também se inspira em várias outras

raramente vista em galerias de arte. A

a culpabilidade e mostrando Eva sem

manifestações profanas, resultantes da

característica do trabalho e estilo do artis-

sentimento de culpa ou intenção de

diáspora africana no território mineiro.

ta é valorizar a cultura negra e sua estéti-

pecado.

Por lidar especificamente com

ca, sem caricaturar ou torná-la exótica.

Focado em teorias científicas que

figuras humanas negras, as obras trans-

Deste modo, propõe uma nova leitura

comprovam o surgimento do homem no

formam-se num veículo de representa-

sobre a Gênesis, representando Adão e

Continente Africano, mais especifica-

DISCOTECA

cimento do Continente Africano como o berço da humanidade. Portanto, que se manifeste a nossa inquietude sobre os conceitos de desterritorialização e reterritorialização dos lugares e papeis do homem e da mulher, e também, das raças ou etnias, a partir do convite que o artista nos faz.

Ghorwane – Kudumba

Niosta Cossa nosmocambique@gmail.com

C

ríticos e amantes da Música Moçambicana têm subestimado, in ju st ament e, o Ghorwane pós-Zeca Alage. Alexandre Chaúque, por exemplo, escreveu que, pós assassinato de Alage, os Ghorwane ―levantaram a cabeça e gravaram Kudumba, um disco que, sem ter a performance de Majurugenta, deixa-nos claramente o rasto de um conjunto maduro‖ (http://noticias.sinfic.pt/ pls/notimz2/getxml/pt/ contentx/22216). O que não corresponde inteiramente à verdade. É verdade que Majurugenta tem do seu lado o génio de Zeca Alage – que éra um autêntico monstro –, tem a carga mítica – o primeiro álbum; praticamente com a encarnação original do grupo e alguns dos seus executantes mais cintilantes; gravado e lançado pela Real World do grande Peter Gabriel; o assassinato de Zeca Alage, pouco antes do lançamento do álbum –, e tem sonoridade e estética características e únicas – que acabaram por definir o estilo dos

Ghorwane –, mas, Kudumba, de 1997, é um álbum melhor do que Majurugenta.

de Majurugenta.

Kudumba é mais compacto, é mais equilibrado, é mais homogéneo e igualmente brilhante. E tem um génio por detrás da sua concepção: Pedro Langa! Pedro Langa éra um outro monstro.

E tem também o fascinante Jorge César. Este contribui com outras 3 músicas soberbas.

Se Majurugenta é dominado por Zeca Alage e seu saxofone, Kudumba é iluminado por Pedro Langa e sua guitarra. A influência e o estilo de Pedro Langa aparecem por todo álbum, e, sem desmerecer os outros compositores, suas músicas são fortes demais. ―U yo Mussyia Kwini‖, ―Vhory‖ e ―Mamba ya Malepfu‖ são obras-primas. No entanto, o que realmente dita a superioridade de Kudumba é o salto qualitativo que as composições de Roberto Chitsondzo deram do primeiro álbum para o segundo. Chitsondzo voltou diferente: tocando uma guitarra acústica/ semi-acústica, com músicas mais mexidas, mais dinâmicas e contribuiu com 3 grandes músicas, ―Txongola‖, ―Sathani‖ e ―Xizambiza‖. É um Chitsondzo num nível completamente diferente e acima daquele

Portanto, quando, à monstruosidade de Pedro Langa, junta-se Chitsondzo no seu melhor e Jorge César a virar genialmente o estilo dos Ghorwane de cabeça para baixo, facilmente tem-se um álbum melhor do que Majurugenta e muito mais do que isso: um álbum tremendamente portentoso! Em última instância, Kudumba é uma resposta digna do espírito humano à adversidade e a reafirmação da vida sobre a morte. Com o assassinato de Zeca Alage, que levara a banda ao topo e deixara a fasquia muito elevada com o mítico álbum Majurugenta, os Ghorwane reergueram-se e, longe de tentarem repetir a fórmula daquele álbum muito aplaudido, reinventaram-se e foram longe, concebendo um álbum ainda melhor. Em Kudumba, os Ghorwane ten-

tam novas abordagens sonoras para além dos ritmos nacionais. Pedro Langa usa ritmos do Congo Kinshasa no final de ―U yo Mussiya Kwini‖ e experimenta ritmos à Salif Keita e Afro-Jazz em ―Vhory‖. ―Salabude‖ e ―Progresso‖, de Jorge César (a segunda escrita em conjunto com Carlitos Gove), têm influência de música sulafricana (os Stimela em particular). E dão um início afro-jazz à ―Massotcha‖ de Zeca Alage. Roberto Chitsondzo é o único que mantém a estéticaGhorwane, mas, com os arranjos dados às suas músicas, acaba também em território sonoro estranho, sem que deixe de ser efectivo e impressionante. Uma grande banda, brilhante ao longo do álbum. Um grande álbum do início ao fim, sem uma única música má ou fora do tom do álbum. De longe, o melhor conjunto de músicas dos Ghorwane, muito bem estruturadas, superiormente executadas, formando um álbum colossal. Provavelmente, o melhor álbum moçambicano.


m’saho Caderno de Prosa&Verso

EXTINÇÃO Anónimo nosmocambique@gmail.com

H

oje entro pela porta que dá para o meu bairro não como antes, com o mesmo olhar, com o mesmo semblante, entro como quem erra por uma terra sem dono e de pernas abertas, de virgindade violada ao extremo, um lugar de incertezas que alagam os sonhos dos meninos. O que terá acontecido? Pergunto aos presentes, de volta recebo um par de olhos cabisbaixos e de poucos amigos, com uma lágrima a espreita, como se eu já de cara soubesse a resposta das minhas inquietações. Não vês o que tu vês? És cego ou fazes-te de cego? Aqui em África as coisas são passíveis de mudança repentina, sem que alguém saiba, tudo pode acontecer, da água para o vinho, dizem os mais entendidos, tudo pode a qualquer momento. Como se fôssemos comandados por entidades de uma outra dimensão desconhecida. Em minhas palavras então digo, fervemos em pouca água e estamos em constante mutação e oscilação, assim como os outros. Entro de volta mais uma vez ao meu bairro para ter a digna certeza de que não me enganei em momento algum ou ainda para ver se não fui tomado por algum espírito ou força do mal, como maior parte das vezes alegamos, agi sem pensar, fiz sem pensar nas consequências; pode até ser? Mas a luz do dia como tamanha lucidez? Entrei e estou aqui, o que vejo não são casas mas palhotas de meia tigela, que guardam consigo muitas lágrimas e sorrisos abstratos, guardam o cheio do barro, das panelas de barro, da água no pote, mas com muita pureza, diferente da cidade onde só proliferam bares, discotecas, lojas de venda de tudo mais alguma coisa, painéis publicitários, luminosa ou gráfica, panfletos, banners, e muita publicidade mesmo, a paisana também pode ser. E onde ficarei para pensar e refletir, onde poderei respirar sem ser atraído pelo prazer de consumir e consumir mais? Procurava eu um canto da rua onde pudesse encontrar um sapateiro que me ajudasse a recuperar o meu par

de sapatos já cansados de serem pisados contra o chão empedernido do meu país em sem-extinto. São essas as duas personagens do meu conto, O alfaiate e o sapateiro. Logo lembrei me do Sr. Tavares, de idade já avançada, e de calor grossos nas mãos, de tanto repor os sapatos dos outros e os seus sempre em espera, já diz o ditado que ―o santo de casa não faz milagres‖. O homem, o encontrei sentado e de mãos cruzando a cara como se deitasse lamentos fora porque o pesam a vida. Vestira uma camisa cinza de três ou quatro botões até ao abdómen e na companhia dele ouvia-se voz do locutor da rádio RDP África, estacão lusófona do outro lado, era a estacão 89.20 que punha a tocar desde as 5 da manhã, sua hora natural de vir ao local do trabalho e ficava com os ouvidos apurados para recordar a sua terra natal, Montemor –o- velho, onde ficara seu cordão umbilical. Coitado dele, dizia eu para meus botões. Enquanto cozia calmamente as camurças, perguntava eu se o trabalho lhe chegava para pôr o pão a mesa e vestir algumas camisas e um par de sapatos. O que é que chega neste mundo? Nada chega para coisa alguma,

vivo apenas oh meu jovem, estou a cumprir os últimos dias da minha vida. Rematou indicante. Confessou-me que trabalhara a vida toda a cozer sapatos e fazer remendos em coisas alheias, não se apercebendo da distração acerca das suas próprias rasgaduras. Pegou numa das mãos e abriu mais os olhos e o volume da sua seca voz, voz muito distante e pobre, consumido por anos de cheiro da resina e da cola com a qual trabalhara a vida toda. A minha profissão está a entrar em extinção, sabe! Ela está se acabar pouco a pouco, daqui por mais alguns anos já não terei o que comer. E agora a pergunta, quem nunca teve um sapateiro a porta, um alfaiate, um engraxador? Depois que voltei para recompensa-lo pelo profissionalismo de seu trabalho dei-me conta que tudo estava ligado e havia uma correspondência tal de fatores e que era devido a tal globalização, uniformização dos mercados. E disse mais uma vez, vocês são a esperança disto tudo, veja você os onde mete os pés e as mãos, hoje tu compras um par de chinelos e na semana seguinte voltas a mesma loja para comprar mais um porque o anterior já não presta. Nem cozedura dá

para fazer, porque é tudo feito mesmo para não durar, para que consumas mais e gastes mais da tua moeda. A extinção pode apresentar-nos duas situações, ou porque esta é demasiada usada ou consumida, porque temos demais opções que nos satisfazem, ou não é sequer usada ou nem existe a consideração de ser usada novamente, estas são as condições da sua existência. Com a extinção da profissão de sapateiro, alfaiate e as demais que sempre estiveram ligadas as nossas vivências, vão-se por água abaixo também algumas páginas da estória da nossa Historia. E onde estaremos nós para reclamar, onde iremos comprar papel novo para substituirmos o velho, onde irá parar o dinamismo próprio de nós mesmos. Falo de uma extinção desta profissão como exemplo de uma avalanche de extinções que estão a decorrer neste exacto momento, aos olhos vistos, onde permanece uma nuvem escura e difusa sobre como será o amanhã e o agora, o ontem fica tão distante de todos os tempos e sequer teremos provas para reconhecer que foi nosso ou que esta ligado a nós.


M’saho

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Crónica

DEUS VOS ABENÇOE

CADERNOS DE HAIDIAN 5 de Abril de 2013

Dany Wambire danitoavelino@gmail.com

Pedro Pereira Lopes pedrolopes.isri.ap@gmail.com

N

ão, não sou medroso, mas o futuro intimida-me mais do que Dorian

Gray, ou Jean-Baptiste Grenouille, ou Drácula, ou ainda Judas, mais do que todos os ícones do terror-fantástico. Pequim acordou e deitou-se cinzenta, uma corrente de ar entrava pela janela do quarto e abraçava-me com estalos de açoite. O verde já aparece, tímido, uma ponta de sorriso inocente. Seguem -se mais 3 dias de feriado, devido ao Festival Qingming, quem vai compreender os chineses, difícil é imaginar o povo moçambicano em três longos dias de festas! Terminei a revisão do livro de recordações do meu amigo diplomata, estou mesmo um versado em história política malawiana. Gostaria de dizer que não consigo perceber o génio feminino, mas isso não seria inteiramente verdade, eu sou capaz, com pena (ou talvez gozo), de prever toda uma empreitada behaviorista, como se se necessitasse de uma alma razoavelmente valente para entender essas Fúrias pavlovianas. E por falar em mulheres, avizinha-se o 7 de Abril, e a minha paixão é ver a senhora minha mãe de capulana e lenço, como poematizou o Chil. Espero dormir em paz, e quanto ao futuro, ah!, quero Moçambique em paz, com ou sem a maldição dos recursos, mas em paz. Calem-seme essas flautas-armas que se empinam em guerra.

E

nganou-se quem ousou pensar que o subsolo é moradia dos mortos e que o que nele existe é pura e exclusivamente propriedade deles. Tudo e todos quantos encontram descanso no subsolo são procurados para fins diversos. Tão vasculhado é o chão. Cada grão de areia é esquadrinhado, para se lhe tirar alguma coisa de útil. Ou de inútil. Na verdade, recentemente, inúmeros mortos de Fim-de-Mundo já não conseguem pregar o olho. Com razão, que já passou a fase de motivo. O morto que em demasia dormir pode acordar, com certeza, em cemitério alheio. Até fora do seu distrito. Afinal, certo é o adágio: o camarão que tanto dorme, acorda na frigideira. Fim-de-Mundo, ilha pela sua extrema pobreza, é que antes não recebia visitações de brancos, indivíduos doutra raça e doutra caixa. Mas agora vinham aos molhos, procurando só formas para desenvolver os pobres doutra margem. Só para desenvolver os pobres, era o que se apregoava e se pregava. Tudo quanto existisse devia ser explorado, em Fim-de-Mundo. O que era de baixo e o que era de cima. Uma destas visitações coube ao bairro Passageiro, arredores de Fim -de-Mundo. Foi num Domingo que os inquilinos do bairro viram um eminente empresário fim-de-mundense acompanhado de um dirigente nosso, indicando espaço necessário e desnecessário. Mais, o gesto do empresário era agressivo: com mínimos dedos, destruía casas edificadas não só com muito suor, bem como com um pouco de sangue próprio. ― Estas casas devem sair, para não dificultar a implantação do projecto. O nosso dirigente, Violetim Doméstico, não expulsava palavra nenhuma. Apenas com aceno de cabeça, consentia com a vontade do empresário, enquanto exigia acções no empreendimento a ser implantado. E prontos. Com a população do bairro Passageiro conversaria o dirigente Violentim. Que se retirasse a população do espaço do empreendimento, pois haveria recompensas e indemnizações chorudas. Mais, o empresário construiria casas melhoradas, noutro bairro, arredores de Fim-de-Mundo. Disse, ainda,

que haveria luz e água canalizada, nestas novas casas. ― A vossa vida vai melhorar, com energia e água. A população festejou a proposta, com pompas, mas sem circunstâncias. Ulteriormente, porém, irrompeu, da multidão, alguém inconformado com a proposta, e fez uma pergunta ao dirigente Violentim: ― Sendo todos nós desempregados, como vamos pagar esta luz e água canalizada, mais tarde? Resposta pouco convincente veio do chefe Violentim. Apenas disse que tudo se ajeitava. Que houvesse paciência e esperança. Afinal, a vida era dinâmica, com contínuas mudanças. A maioria venceu. O projecto ganhou apoio popular, pernas para andar e mãos para executar. Novo bairro foi identificado, aterrado e parcelado. Foram construídas casas de alvenaria, todos beneficiando da mesma planta. Estendeu-se a rede de energia e de água.

Um povo que se preze reza sempre. Devoto a Deus, que o povo era, não fazia sentido inexistir uma igreja, na nova zona. Nos meses seguintes, a população do bairro Passageiro solicitada foi visitar as novas casas, no virgem bairro. E em azáfama, toda mbumba para lá se dirigiu. De imediato, os olhos de muitos subiram as paredes das novas casas, confirmando a convencionalidade de que se revestiam. Os seus dedos, pela primeira vez, ligaram e desligaram um interruptor de corrente eléctrica. Confirmaram a funcionalidade das torneiras. Apesar de lhe desconhecerem o uso, se deliciaram da beleza dos quartos de banho, adornados de azulejos brancos.

Quando tudo pronto estava, para a transferência das pessoas e dos seus víveres, no dia sequente, eis que o pastor Mukondiwa, a desoras, andou de casa em casa a pedir a não retirada das pessoas, assim cedo, sem observância de uma única condição. Que condição mais? Ninguém sabia, senão o próprio pastor da Igreja do Renascimento Cristo Era Negro. A ignorância afligia a todos. Mas, em breve, conhecer-se-ia a razão dessa vontade do pastor, como ele próprio propagandeava, o Representante de Deus no bairro Passageiro. Sim, se o motivo não fora segredado às pessoas do bairro, o mesmo não sucederia ao dirigente Violetim e ao empresário. Estes mereciam, deveras, todas as explicações. Era só questão de horas e honras à surpresa, pois a oportunidade sempre haveria. Na hora combinada, no terreno estavam o empresário e o chefe Violentim, prontos para se despedirem dos inquilinos do bairro. Muitos considerandos foram tecidos, próprios de políticos. Inúmeros vocábulos, para dizer a mesma coisa, que é o nada. Todavia, terminado o discurso dos dois, o pastor Mukondiwa pediu para usar da palavra. Das expressões inclusive. Sem rodeios e recheios, ele disse. ― Nós não podemos sair daqui, sem satisfazerem, antes, as nossas condições! ― Que condições mais, meu senhor? Já construímos casas melhoradas, com água, luz, e tudo… ― E tudo o quê, chefe?! Não há igreja. Onde vamos rezar? Aqui tínhamos uma igreja nossa. Apesar de estar cansada, ali o nosso Deus nos via e ouvia. Foi a partir deste momento que os demais se aperceberam da intenção do pastor, e houve uma ovação para ele. Um povo que se preze reza sempre. Devoto a Deus, que o povo era, não fazia sentido inexistir uma igreja, na nova zona. Tudo deveria ser feito para a edificação da igreja, o empresário que arcasse com todas as despesas, para pôr aquele povo a comunicar com Deus. E se não o fizesse, uma dose de culpa teriam o dirigente e o empresário, caso aquele povo não fosse salvo, no dia, em que a tudo seria colocado um ponto final.


M’saho

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Crónica

A CARTA

Eduardo Quive

KATEMBE DO LADO DE LÁ

eduardoquive@gmail.com

Torta saudade intensa cospe ventos além leste. Leste a carta Alex Dau

que

alexdaumz@gmail.com

deixei entre

D

tuas

ei um sorvo no cigarro que segurava entre os dedos calejados da mão direita e fiquei mirando o fumo evolar-se lentamente.

recuperava da bebedeira que apanhará na sexta-feira e não voltará para casa nem com a cumplicidade da aurora.

Estava sentado num dos bancos da marginal, descobrindo através da cacimba o outro lado da baía.

Quando dei por mim já estava no ferry-boat balançando sob vontade das aguas do indico.

Especulava sobre o que estaria a acontecer nos muitos tectos dos habitantes da Katembe, apesar de ébrio tinha noção suficiente que muitos habitantes daquele distrito passavam por inúmeras dificuldades.

Um pensamento torturava minha mente, o que estaria a minha esposa a magicar, não foi preciso reflectir muito, eu já estava condenado a adultério, ela já me tinha julgado e condenado no primeiro momento em que o seu braço encontrou o vazio do leito marital.

Fiquei tentando a explorar aquela região que desconhecia e que constituía fonte de inspiração e relaxamento para sempre que me encontrava mergulhado numa celeuma qualquer, pois recorria amiúde àquele lugar. O ferry-boat aportou na ponte cais de Maputo, e os primeiros passageiros desembarcaram. Caminhavam apressados cada um para o seu destino, muitos com certeza iam laborar, e eu

Estava bastante comprometido com a minha irresponsabilidade e não queria voltar para casa nem com a cumplicidade do sol.

Iria pagar caro pela ousadia de me ausentar do leito conjugal que comungara durante anos com a minha amada. Quando o ferry-boat ancorou a estibordo, desembarquei e descalcei-me para sentir Katembe sob os meus pés, uma brisa acolheu-me senti-me livre como a gaivota que planava sobre o mar. Corri que nem um petiz sobre a areia da praia, e desfrutei de um bem-

estar inigualável.

pernas?

Pela primeira vez vi a cidade de Maputo sob um outro ponto de vista e percebi como a cidade seria enganosa para quem não a conhecia, também sobre os tectos de cimento estariam os seus habitantes mergulhados nos seus problemas urbanos que se perdiam na dimensão da grandeza da cidade.

Encontrei-a

Deste lado não dava para imaginar a podridão que habitava aquela cidade, com tantos males que minavam o bemestar dos munícipes. Se a minha esposa me escorraçasse de casa, eu não ficaria perdido divagando pelas ruas nauseabundas da cidade. O telemóvel retiniu insistentemente, retirei do bolso e divisei no visor o nome ―amor‖ não, naquele momento ela era mais que um desamor e me roubava a paz e harmonia que gozava por isso a ignorei. Ainda me despi na praia deserta e auscultei o som do mar que chegava com as ondas que me beijavam os pés.

molhada de sangue cheirava dor. Odor do tempo? Mulher, isso passa. E voltaremos a ser o que somos: carteiros dos dois.


M’saho

Frederico Ningi

Junho de 2013

Poesia

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M’saho

Junho de 2013

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Crónica

POESIA DE DEMETRIOS GALVÃO AUTOBIOGRAFIA - Demetrios Galvão aconteci em 26 de Dezembro de 1979 na província de teresina. Depois disso, iniciaram os percursos: pulando muros e roubando livros, invadindo terras e produzindo fanzines. No tempo perdido, ouvia muito rock e escrevia poesia (livros = cavalo de Tróia, 2001; fractais semiótico, 2005; cd = um pandemônio léxico no arquipélago parabólico, 2005). Seguindo os passos do meio, costurei um curso de história e ziguezagueei por uma cidade-dissertação. Hoje, estou doutorando com os olhos em fotografias e trabalhando na academia onírica, realizando perfomances e fabricando comprimidos-poemas. Além disso, exerc actividades domésticas, sou pai de gatos, cultivo cactos e gosto de café.

um dia a colisão nos beija a boca Mesmo que pudéssemos nadar na noite de chuva a colisão foi inevitável, e quando ela tocou nossas bocas o que escorria era vinho seco. extraviamos os sonhos que

a gaveta guarda uma coleção de pedras

escorriam pela corda vermelha que ata nossas sequelas, as folhas caídas, os abismos de cores sem fim: enleados um ao outro saltamos para fora d’água. como peixes cegos vagamos por cidades esquecidas e praças ensolaradas que pollock des-

os cabelos são samambaias:

a previsão do tempo é uma falácia

serpentes. mega-tons de urros estilhaçando o céu lilás o meio-fio é um cadafalso em seu ato passadiço. as horas escapam pelas frestas que entra o sol, goteiras de mazelas, infiltração de miasmas nas paredes de carne.

p/ mardônio frança e nuno gonçalves

os sons desfigurados na geladeira e o silêncio esquálido, o sofá me acolhe em seus braços-cinzas de polvo. mato a sede em rostos de profundidade sem fim, em rostos de subsolo.

os brinquedos, os jogos de advinhação, a cidade e suas senhas-salamandras, as mandalas hipnotizadoras, a rota

gêmeos no trópico de Capricórnio

da barbárie e as memórias que entregam o seu coração aos

vísceras pinçadas por um guindaste celeste

bandeirantes, que entregam seus nomes, sua prole, seus

do âmago da engrenagem amnésia

sonhos de se tornarem camaleões ou peixes ou águias ou

serrote atravessando os decibéis dos cardumes cálidos.

fogo. Há setas que apontam pró norte, há uma confusão

as multidões vestem pesadelos do século passado

nos sensores, sentidos, os poemas-malabares cospem fogo,

e os galos cantam em suas lágrimas-verde-ocre:’

os cheiros e o sexo estão longe, o mar chega para lamber e

o coração hoje é etiqueta onde já foi revolução.

sarar as feridas, o vento é chicote bem vindo nas costas, os brinquedos agora obsoletos, as conchas do mar, o pára-

tua língua é chernobil dentro da minha boca

quedas está nas costas esperando ser aberto, a cidade col-

dentro dos dias ovais, vulcões-chafarizes

meia cria seus doentes mentais, a cidade frankstein devora

expelindo embriões nervosos

seus doentes mentais, a cidade é uma sequela aberta, feri-

lamparinas de ternura cósmica iluminando

da que nunca sara, cores mortas, portas fechadas, pernas e

funerais barrocos.

mantelava com seu pincel de canivetes. esfaqueamos a escuridão da noite com relâmpagos sorridentes que os pardais depositavam em nossos cabelos e continuamos a peregrinação para macondo, desviando das árvores, da insanidade dos postes, dos túmulos, das caretas flamejantes, de nós mesmos alcoolizados. carregávamos no ombro um feixe de almas pescadas na maré baixa, e os barcos estacionados na aresta do tempo descarregavam uma multidão de peixes órfãos, enquanto o sol mastigava as segundas-feiras.

alguém comeu minhas mortes

minha boca suja de sono no teu sonho sujo desata novelos e subtrai gengivas:

braços e cabeças e troncos espalhados pelas calçadas, os desenhos que se pintam são hecatombes, terremotos, nada

jorge de lima guia o barco bêbado

gosto de deserto em prato de cerâmica,

de cores de Almodôvar, a cada esquina um besouro a des-

meu capitão faz troca-troca com dionísio

língua escorregando pela geometria

cer pela garganta, a sala de estar é um calabouço, um cala

e um deus pagão dança nu na lâmina reimosa do asfalto:

defasada. arapuca armada: impossível

boca, uma mordaça, moscas cercando os cadáveres da

uma guerra toma conta do meu sexo.

resistir ao ato de se abismar. a janela cega revela nódoas, seqüelas atrás dos

cidade-hospício, cercando as mentiras e a dor da lembrança, pegamos carona em corpos alheios pra esquecer os

cogumelos inflamados nascem no tórax da neblina

tijolos. o silêncio costurado com bar-

sonhos ruins, há lugares que vendem coisas que já aconte-

onde a última chance morre na cama.

bante faz lembrar que as raízes cortadas fazem falta: - onde furtaram meu

ceram, que já tocaram, que já foram vistas, que já foram lidas ou faladas, a cidade é uma sucata velha teimosa.

tua cabeça é paralelepípedo arremessado na minha medula.

quase nada há um incêndio infinito e asas longe do tronco.


M’saho

Junho de 2013

OOO… AAA… ZINALDA ESCOLHEU VIVER…

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Crónica

POEMAS INÉDITOS DE BONDE

Lily dos Amures

Milha de um destino apedrejado, Inventam mil razoes em opções ocasionais Não tem-se muita verdade, almas em amálgama de sensações nos corpos viris de mulher, Recolhem encantos ressoantes na FENY casa de (de) S (fé), FENY não é nenhum bordel FENY é (de) S (bordel) Que embala-se no coração viciado do homem humano,

Ontem sonhei outro dilúvio trazendo o resto da espécie

Porque buscar o fel da angústia,

salva na canoa do Noé. – Um par de deuses e anjinhos,

se os amores florescem aqui?

e vi-me alegre, com a lembrança do primeiro golo da infân-

A luz da solidão enfraquece-me a voz, e o paladar do silêncio

cia.

desgasta-se no Verão. Pedra à pedra, o dia se esconde

Então, as espigas nocturnas se quedaram ao destino,

do coito.

pois, nada se perdeu no desabrochar. Terei um descanso para que a alma boceje?

Homem humano!? Homem humano não!!!? Assim me sento para ouvir canções que me soam lá do cume da FENY E por vezes me trovejam muita sexualidade de porcaria, este sabor alheio a sabor de açúcar E nas noites… a minha nossa FENY arde, a ZINALDA também arde na FENY, os murros idem ardem, as varandas pátios despovoados, povoam pares loucos que cães cadelas no meio do cio homem humano gritam gritarias com sabores

A terra seguia na sucessão dos dias, trazendo consigo a

Que valores sigo ainda? Saio à madrugada

sombra da morte

convicto da perdição que trago comigo!

e uma esperança ténue numa noite que não fora. E o crânio enchera-se-me de nódoas

Ás vezes, o tédio às voltas escapa-me entre os dedos

Enquanto, o sangue escorria sob o joelho cravado das faltas.

e o coração ansioso chora. O espanto é um sol, e os homens tropeçam no destino,

Quando despertei, o meu destino estava no fio de questões

e só a Deus pertence o futuro!

efémeras, E o vazio palpitava de fome.

Como ser um Deus? Entre os que partem uma saudade paira... Parece-me ter ouvido a porta estalar atrás da sombra que não trago.

Quero em mim o alvor, o cântico do devir,

Como desfazer-me da irritação na hora do adeus?...

que não se cale ao sol, guardião que entoe o silêncio.

saboreando E

um

bandido

MULATO passa

de

HAMER foca com as luzes para os muros as varandas e pátios (des) patiados e patiados, e ele diverte-se com as imagens do striptease apresado a renunciar sabores e comparável a de quem chupa canade-açúcar com muita agitação e tirando

Que mágoa é essa que não cessa? Terei comigo ainda, o agasalho dos homens?

Esta fórmula de palhaços espalhados. E (gosta-se bem) só dentro,

à preguiça, deusa poética dos peregrinos da noite. O Nada!

Como estar satisfeito, e libertar-me da rédea do amuleto?... Paira em mim o sonho de mártir, e sento o meu corpo sobre o soalho,

um som da boca a sabor e/ou ritmo de x e ah,

O Nada pode seguir-me. Eu curvo os meus neurónios

Já nada me extasia, e... reparo que, às vezes o prazer passa por mim de mansinho junto à margem, onde me desfaço do tempo.

imaginando-me a beber chá com golos maiores que a chuva à janela. – Confessarei meu pecado ao vento, perto da gaivota solitária que cantarola à hora da criação!

(tabus). Mas os homens alumiados não se preocupavam com a luz bruta E moças também, e gritavam « – aprovei-

E as vozes de embalo amainam na sua surdez,

E, o que será o Nada oculto ao sol? ...

fascinando outras bocas em sede,

O céu adiante desfaz-se e fico com os grãos de pó.

enquanto sigo o mutismo das pedras.

que coloquei no átrio dos pensamentos.

te ver …» com muita vibração na consoante [R], a voz típica do Niassa, minha terra florida. Há quem diga isto prostituição… Não!… ( prostituição troca de valores

As sombras são incómodas como os cabelos

Nada canta na minha safra, a horta que não plantei, E, os versos fogem. A mão amiga de outros tempos findou na bonança e não me posso aliviar do que não possuo.

Agora, as árvores correm ao vento, e as lágrimas do firmamento não cessam, apoderando-se da minha jangada na encosta da cidade.

monetários que se pague e cada almofada que abafa) Sim, Bonde é poeta moçambicano a residir em Maputo. Estes textos fazem parte do seu projecto de livro “Na leme do silêncio”


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