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• REVISTA NOIZE

• NOIZE COMUNICAÇÃO

Publisher Noize Comunicação

Direção Kento Kojima Pablo Rocha Rafael Rocha

Direção de Criação Rafael Rocha Editor Tomás Bello Colunistas Dani Arrais Gaía Passarelli Lalai e Ola Persson Renata Simões Tony Aiex Direção de Arte Luisa Severo Ana Paula Peroni Diretor Comercial Pablo Rocha Publicidade São Paulo Letramídia publicidade@letramidia.com.br (11) 3062.5405 (11) 3853.0606 Revisão Jeferson Mello Rocha • NOIZE ONLINE www.noize.com.br Editor Paulo Finatto Jr. Redatora Paula Moizes Junte-se a nós no Facebook facebook.com/revistanoize • MAKE SOME NOIZE @ RÁDIO IPANEMA FM Quinta-feira, às 23h, em ipanema.com.br ou sintonize no 94.9 do seu rádio (POA) Apresentação Marília Feix

Gerente de Projetos Leandro Pinheiro Editora-Chefe Lidy Araújo Planejamento Bruno Nerva Martim Fogaça Administrativo Pedro Pares Produção Patrícia Garcia Jurídico Zago e Martins Advogados • NOIZE FUZZ Coordenação Andréia Sabino Frances Danckwardt Planejamento Dionísio Urbim Jerônimo Azambuja Juliano Mosena Leonardo Serafini Lucas Kafruni Redação Ariel Fagundes Bruno Moura César Rocha Daniel Grudzinski Elisa Rabelo Ingrid Flores Isadora Gasparin Leonardo Baldessarelli Renata Krás Audiovisual Vicente Lang

• COLABORADORES 1. Ariel Martini_ Ainda insiste em fazer fotos de show. 2. Fernando Schlaepfer_ Ex-Seagullsfly, ex-Café e ex-Globo. Atual C.E.O. e sempre fotógrafo no I Hate Flash. Além de designer / ilustrador / D.J. / produtor / ciclista / luchador / porrachegadebarra. www.ihateflash.net/sobre/schlaepfer . 3. Lalai e Ola_ Lalai trabalha com mídias sociais, mas sua paixão é música. É DJ e produz a festa CREW. Ola trocou a Suécia pelo Brasil, o design pela música e fotografia. 4. Renata Simões_Renata Simões, 34, é jornalista. Já produziu documentários, apresentou os programas Urbano e Video Show e colabora com revistas e sites. 5. Tony Aiex_ É editor e fundador do TenhoMaisDiscosQueAmigos.com. 6. Daniel Sanes_ Jornalista por formação, lunático por opção e roqueiro de nascimento. 7. Fernando Halal_ Jornalista malemolente, fotógrafo de técnica zero e cinéfilo dodói. Não morre sem ver um show do Neil Young. flickr.com/fernandohalal 8. Gaía Passarelli_ É reporter freelancer, apaixonada por trens, gatos e David Bowie. 9. Dani Arrais_ Jornalista, nasceu em Recife, mora em São Paulo há quase cinco anos. Começou o donttouchmymoleskine.com/ há quatro anos e de repente viu que falava de amor quase o tempo todo. 10. Leonardo Bomfim_ Jornalista e diretor de cinema. Edita o freakiumemeio. wordpress.com. 11. Nícolas Gambin_ Jornalista freela. Aprecia tocar The Meters com amigos nas horas vagas. 12. Marília Pozzobom_ É jornalista e trabalha com redes sociais. Come xis frango com bacon e tem Lulu Santos no iPod. Faz bico numa plantação de beterraba e ainda procura o seu negão de tirar o chapéu. 13. Leo Felipe_ Leo Felipe é jornalista, DJ e mestre em Artes Visuais, Gerente Artístico da Galeria Ecarta e Diretor Artístico da Minima.FM. 14. Rodrigo Esper_ Tem como trabalho ser fotógrafo no I Hate Flash, e como hobby, falar duas vezes antes de pensar, ser a pessoa mais empolgada do mundo e a mais exagerada do universo. www.ihateflash.net/sobre/esper

• FOTO DE CAPA_ ARIEL MARTINI

Os anúncios e os textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da revista. Revista NOIZE - Alguns Diretos Reservados.

• EXPEDIENTE #64// ANO 7 // DEZ/JAN/FEV ‘14_


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INSTAGRAM. COM/revista noize 6

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_foto: FERNANDO SCHLAEPFER

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NOME_ Caio Vaz O QUE FAZ_ Surfista profissional UM DISCO_ By the Way, do Red Hot Chili Peppers “Música e surfe tem um lifestyle muito parecido. Quando você está tocando ou ouvindo música, parece que entra num outro mundo. E assim acontece também com o surfe. De vez em quando, você até está triste, aí lembra que pode tocar um som e ficar feliz. Eu ouço música direto, gosto de muita coisa – reggae jamaicano,The Kooks, Red Hot, Cássia Eller, Dibob... Já cheguei até a surfar ouvindo música, com um MP3 player à prova d’água.”


“Gosto de fazer música que vai meio contra o que está acontecendo. Não é contracultura e não é cultura: é o refluxo da parada” Marcelo Camelo


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“Como estamos ouvindo isso? É completamente irrelevante.” LORDE, cantora neozelandesa _cutucando artistas como Nicki Minaj, Drake e Lana Del Rey

“Eu vou ser o primeiro designer do hip-hop. E por conta disso serei maior que o Walmart.” KANYE WEST _ ao comentar a sua parceria com a Adidas

“Às vezes, tudo o que você precisa é sacudir o esqueleto.” PHARRELL WILLIAMS _ justificando o sucesso de suas colaborações com Daft Punk e Robin Thicke

“Não é fácil tentar reinventar a sua banda depois de todos esses anos.” BLACK FRANCIS, líder do Pixies

“Concordo com Sartre quando ele diz que a música nada tem a ver com política.” CAETANO VELOSO

“A M.I.A. é o melhor e mais alto megafone dançante para a verdade.” JULIAN ASSANGE, fundador do WikiLeaks

“A gente não pode ter medo da música.” MARCELO JENECI

“Não enxergo música como competição, mas como libertação.” CRIOLO

“O hip-hop salvou a minha vida.” EMINEM


__”Um passo à frente e você não está mais

no mesmo lugar”, já cantava Chico Science na abertura de “Passeio no Mundo Livre”, em 1997. Fico imaginando se ele teria pensado em artistas como Tom Zé ao criar tal verso... Tom Zé é a mais perfeita tradução da famosa frase de Chico – quando você acha que ele está aqui, já foi parar lá adiante. Seus incansáveis malabarismos escritos e sonoros. Tom Zé sabe que música é movimento. Que não é preciso muito para iniciar sua revolução particular. Que, apesar de parecer óbvio, basta um passo à frente para você não estar mais no mesmo lugar. E que é assim, e só assim, que a gente realmente pode mudar alguma coisa. Um país, uma cidade, nós mesmos. Ou a música, que, pelas mãos de Tom Zé, está em constante ebulição. Vem quente que a gente tá fervendo! Have a good one, Tomás Bello. @eusoutomasbello


Foto: C.C / flickr.com/notvalid


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Fernando Laszlo

Cinco perguntas para ARNALDO ANTUNES _ por Tomás Bello

Depois de um projeto infantil e um álbum dedicado ao Iê-iê-iê, um disco lançado em fragmentos na internet. Arnaldo Antunes é mesmo um sujeito em constante transformação. E ele diz que é justamente a surpresa que torna a música interessante. O quanto é importante para o artista estar sempre em movimento?

pijama é uma roupa que me deixa com uma movimentação de palco muito livre.

É um desafio pra qualquer artista. Eu tenho esse desejo de estar sempre me renovando, acho que a minha geração de músicos tem essa diversidade como algo natural, de quem já viveu com essa conquista. Antigamente, tinha até passeata contra a guitarra elétrica. Mas depois da Jovem Guarda, depois da Tropicália, a gente vive uma geração que tem liberdade de trânsito entre os diferentes gêneros.

Em Disco, há essa canção chamada “Dizem” que fala que todo mundo quer paz. O que você busca? Essa música faz um certo drible entre a desilusão e a esperança. É uma música otimista, mas que reflete o dizer alheio. “Quem me dera, Não sentir mais medo/Quem me dera, Não me preocupar.” É claro que eu tenho esse desejo de um mundo melhor, sem guerra, sem violência, com melhor distribuição de renda pra todo mundo, com direitos de cidadania garantidos... Agora, eu sei que o mundo em que a gente vive não é esse, que tem muita coisa projetada ali. E a música reflete isso. Tem essa expectativa de melhora que muitas vezes não se mostra viável.

Existe uma música do agora? Eu não acredito em movimentos, como houve nos anos 50 ou nos 60. A gente vive um estado de diversidade, em que a novidade pode acontecer pra muitos lados. Não vejo projetos coletivos que apontem um futuro numa só direção. Acho isso mais saudável. As novidades surgindo a cada hora de um jeito nos fazem reavaliar nossos critérios. Você anda se apresentando de pijama. Por quê? Eu me sinto elegante de pijama. Acho bonito, acho legal. Ao mesmo tempo, eu tô saindo do banquinho do acústico e voltando a fazer um show mais dançante, mais elétrico, e o

A música ainda importa? A música é um dos veículos que a gente tem para alterar a sensibilidade das pessoas, pra transformar e juntar as pessoas. Ela faz parte da nossa vida de muitas maneiras, nos ritos, nas relações afetivas, nas comemorações. É uma realidade que está agregada à nossa vida. Eu não imagino um mundo sem música. Acho que seria muito triste.


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Divulgação

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_Por Gaía Passarelli //019

King Krule kingkrule.co.uk Quem é O jovem inglês Archie Marshall, que mora no sul de Londres e é também conhecido como zoo Kid, DJ JD Sports e Edgar the Beatmaker. Em até 140 caracteres “Um poeta”, como disse o próprio em entrevista ao Pitchfork. Por que é quente A mistura de spoken word com percussão e guitarra do jovem ruivo inglês o torna mais interessante do que outros garotos cantantes recém-saídos da terra da Rainha. “Adolescentes normais não têm o Frank Ocean se derretendo em elogios e propondo colaboração ao vivo na BBC”, lembra Rob Fitzpatrick, crítico do The Guardian. Comece com O single “Easy Easy”, a bela “Baby Blue” e a jazzy “A Lizard State”. Pra ouvir quando Num dia escaldante de verão, fechado no quarto com ar-condicionado ligado no máximo (ou pelo menos um bom ventilador). Qual o look Camisa de botão fechada até o

pescoço em tecidos estampados por baixo de paletós dois números maiores. Dizem por aí “Marshall não tem medo da própria dor”, definiu o NME em uma resenha elogiosa. O álbum de estreia É 6 Feet Beneath the Moon, lançado pela True Panther/XL em 24 de agosto passado, dia do seu aniversário de 19 anos. “É um álbum cheio de personalidade, com Marshall despejando sua dor emocional a plenos pulmões tipo Joe Strummer ou Pete Doherty”, define a Mojo. Feito pra quem... Gosta de Earl Sweatshirt, The Streets e Mount Kimbie – com quem ele colaborou na faixa “You Took Your Time”. Toca onde? Conan O’Brian, David Letterman, Glastonbury, Melt! Festival... Foi ainda indicado ao Sound of 2013 pela BBC. Tá bom?


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Divulgação

MAS DEVERIa_


_Por Gaía Passarelli //021

Kelela fadetomind.net/kelela Quem é Kelela Mizanekristos, nascida em Washington, baseada em Los Angeles, vinda de família etíope. Em até 140 caracteres Impressionante e novíssima cantora que vem trabalhando com alguns dos mais interessantes produtores para fazer um R’n’B moderno e cerebral. Por que é quente Porque poucos sons estão mais em alta do que esses estudos vanguardistas em cima do R’n’B norte-americano. E porque a música pop sempre precisa de vozes com personalidade e talento cru. Comece com “Bank Head” e a atmosférica “Go All Night”, que acaba de sair na compilação Saint Heron do recém-lançado selo da gata Solange Knowles, o Saint Records. Pra ouvir quando Bebericando algo gelado e efervescente numa pool party noturna. Qual o look Dreads longos e bem-cuidados, com camisa branca.

Dizem por aí “A voz de Kelela é uma onda lenta de vapor subindo pela grade do metrô; um feixe de luz através de uma cortina de gelo.” Quem diz é a Spin, que se derreteu em elogios para a mixtape da moça. O álbum de estreia Mixtape, serve? Procure por Cut 4 Me no Soundcloud. É excelente. “Ela mistura synth pop oitentista com produção contemporânea, uma sensibilidade americana, porém com gosto europeu. É uma introdução matadora, com produção fantástica e composições maduras”, define Robin Murray, crítica da Clash Magazine. Feito pra quem Gosta de Solange, Jam City, FKA Twigs e os produtores Morri$ e Kingdom, que assinam faixas na mixtape. Toca onde? Por enquanto, em mixtapes na internet e festas de caráter vanguardista. Mas espere e verá: muito em breve Kelela estará tocando no seu rádio.


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Erwin Breves / CC

BERLIM 24 horas em Berlim? Isso é possível? O que a Noize me propõe é um desafio maior que a volta ao mundo em 80 dias. Uma das cidades mais interessantes da Europa, Berlim Lunettes ferve em atrações culturais. É uma cidade jovem e relatilunettes-brillenavamente barata, e você tem a chance de ver um local se gentur.de reinventando constantemente. 24 horas é pouco, mas é o Wertvoll Berlin wertvoll-berlin.com que temos. Então, prepare-se e vamos pra rua. _SAIBA MAIS Grunewald Havelchaussee 61 – 14193 Berlin Wilmersdorf

Rodeo rodeo-berlin.de Schokoladen schokoladen-mitte. de

De canto e sossegado O Grunewald já foi a maior área verde do lado oeste da cidade. Então até você encontrar o seu cantinho de sossego lá dentro, tenha paciência.Vale a pena.

O lugar é lindo e perfeito para passeios. No verão dá para chegar até uma praia de banho chamada Strandbad Wannsee, e no inverno caminhar até um pico onde é possível esquiar. Um detalhe curioso é que o parque abriga um pequeno cemitério onde estão as cinzas da cantora Nico, ao lado da lápide da mãe dela. Arte É uma rua das galerias contemporâneas, o novo ponto da arte. O movimento no local começou por volta de 2007, e hoje, para entender onde Berlim se encaixa no mercado de arte, tem que passar por lá. Vale ligar para pedir indicações, já que muitas galerias se escondem em antigos prédios que você não dá nada pela fachada. Aproveite e conheça a loja Andreas Murkudis, uma multimarca que começou no Mitte e mudou-se para Potsdamer quando precisou de mais


_Por Renata Simões //023

Para comer Hora de caminhar (ou pedalar) em direção ao Mitte, o bairro que reúne artistas e jovens do mundo convivendo em harmonia com os ecos da guerra.Vá jantar numa antiga estação dos correios abandonada na Segunda Guerra, hoje o Rodeo, um restaurante e club.Você anda pelo bairro, acha o prédio, sobe as escadas na fé que tá no endereço certo, já que não tem muita informação em placas ou luminosos. Berlim é uma cidade que sussurra. Para ir ao Rodeo tem que fazer reserva. A noite berlinense tem coisa mais interessante, mas o lugar é tão lindo que vale a visita e o jantar.

Rodeo Der_Triton / CC

Nacht A noite na cidade tem muitas opções para quem quer ouvir música. No próprio Mitte fica o Schokoladen, com ótimos shows e preços camaradas. Essa dica quem me deu foi a neoberlinense Nina Lemos. Na minha última temporada em Berlim, caí no Cassiopeia, um espaço com diferentes pistas, mais voltado ao hip hop e à música eletrônica. Além da presença de bons DJs e MCs (Bambaataa é um que já se apresentou por lá), tem uma área externa. O bairro do Cassiopeia é o Friedrichshain, e como a noite em Berlim só termina quando o dia começa e o metro é 24 horas nos finais de semana, dá até para você ir aos dois lugares.Tudo depende da sua animação.

Strandbad Wannsee Divulgação

Compras Pegue uma bicicleta (tem várias para alugar na cidade) e vá atravessando o centro até chegar na Marienburger Strasse. Ou vá de trem, se não quiser perder tempo. Mas vá. A rua tem várias lojinhas que valem a pena e que são a cara da cidade. A Lunettes é um local de óculos antigos e não usados, assim como de caixas velhas e charmosas para a sua lupa. A Wertvoll Berlin é uma loja especializada em recursos sustentáveis, ou seja, tudo o que está à venda ali – roupas, acessórios, presentes – vem de materiais ecologicamente corretos e da política do fair trade.

ChaosHusky / CC

espaço, mantendo objetos, caveiras de porcelana e marcas alternativas no catálogo, ao lado de grandes nomes da moda. Tem que ver.

Schokoladen


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Fotos: Ariel Martiini

Essa é uma casa de roqueiros, totalmente. Já tivemos treta com vizinho, já bateu polícia na porta... Mas nós somos roqueiros mais tranquilos. A gente diz que é casa de roqueiro porque sempre tem gente aqui, porque tentamos deixar ela arrumada mas não conseguimos nunca. Apesar de tudo isso, a gente produz muito. Somos aqueles roqueiros que tão aprendendo o “faça você mesmo”.


esperando por você no iTunes, Deezer e Rdio.

O ritual dos instrumentos Nossos instrumentos ficam espalhados pela casa (risos). O ritual aqui é esse. A gente até tenta organizar, temos alguns porta-guitarras e tal, mas eles acabam ficando como pessoas, sentados no sofá. Mas tratamos eles muito bem, como se fossem nossas namoradas. Banda unida, jamais será vencida O fato de toda a banda morar junto influencia totalmente o nosso processo criativo. Como a gente está aqui o tempo inteiro, quando um tem uma ideia no violão o outro já vai pensando em algo mais. Já rola a ideia pra uma letra, ou alguém vê que ali poderia ter um riff extra, e já conseguimos gravar as coisas na hora mesmo. Quando a gente começou a morar juntos, passamos a conseguir expressar melhor em nossas músicas o amadurecimento de todos nós. E cada vez mais a gente percebe que vai crescendo nesse sentido. A ideia é essa. Não que a gente vá morar sempre junto, mas ter um QG onde a gente possa se reunir pra compor e fazer coisas novas. As jams Não tem nem hora nem momento pra receber amigos e fazer um som. E aí você vê nas fotos o pessoal que já apareceu aqui, os Titãs, o Cadú, nosso amigo de Brasília... Todo dia é assim. Tá difícil separar os horários certinho. Porque a gente tá em casa, aí vem o cara e já mete uma melodia, começamos a criar um som. A gente nunca sabe a hora que vai pintar alguém. Além disso, nossa casa é um centro de diversões. Galera chega aqui e fica jogando videogame. O xodó O xodó da casa é o Xbox (risos). Mas nós temos um carinho muito grande por todos os móveis – porque são peças antigas, presentes do pai de David, que veio da Itália. Agora, talvez o grande xodó mesmo seja o prêmio do VMB 2009. Dificilmente vai ter outro, né? (risos) Pelo menos a gente tem um pra contar a história.

Divulgação

_Vivendo do Ócio, grupo de Salvador, Bahia, que tem o EP Som, Luzes e Terror

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Rodrigo Esper

LARICAS PREGUIÇOSAS MAS MAIS SAUDÁVEIS DO QUE AS QUE VOCÊ FAZ

“Sou um cara muito preguiçoso, porém esforçado em mudar”, confessa o DJ e produtor carioca Leo Justi. Conhecido mundo afora pelo remix que assinou de “Bad Girls”, hit master da rapper M.I.A., o cara se diz bastante preocupado – e ocupado – em levar uma vida saudável. Para tal, tem algumas dicas. “Provavelmente óbvias pra sua mãe, mas valiosas pra você”, garante ele.

Larica 1 Se você tem uma preguiça brutal de cozinhar, vença aos poucos. A batata baroa é um bom começo. Cozinhe a batata, ou seja, só ferver água e jogar elas lá. Detalhe 1: se o tamanho delas for muito diferente, corte em pedaços de tamanho aproximado. Detalhe 2: você sabe a hora de tirar do fogo quando espeta um garfo e ela está macia. Detalhe 3: a boa é amassar a batata baroa, fazendo um purê. Aí taca muito azeite extravirgem, cominho e pimenta (ou noz-moscada, também demais!). E sal. Bem mais saudável do que um macarrão com molho pronto de tomate cheio de Glutamato Monosódico (pesquise se tiver os seus motivos, como eu tenho os meus, pra adicionar

mais uma preocupação na sua vida). Sobre cominho e pimenta: temperos. Se você tá nessa onda de começar a cozinhar, se arme logo no supermercado. Os que já provei e são o bicho: cominho e pimenta (misturados), noz-moscada e coentro (em pó não tem nada a ver com coentro fresco, que muitos não gostam). Larica 2 Basicamente, farei (feliz) propaganda do maravilhoso Pão do Bento, aqui do Rio. Integral. Jogo na sanduicheira e mando azeite, cominho, pimenta e sal de ervas (ou não). Há outros pães semelhantes, mas todos têm conservantes.Tipo, aguentam meses sem dar fungo. Surreal. Pão do Bento dá fungo em 5 dias. Isso é pão!


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ÁGUA

2.

TERRA

“Para beber, nadar e, de vez em quando, surfar.”

“Para construir um estúdio em cima e assim gravar músicas legais para fugir da realidade.” 3.

AR

“Para respirar e voar.”

4.

FOGO

“Para grelhar um queijo.”

5. O Little Dragon foi formado em 1996 em Gotemburgo, a segunda maior cidade sueca. Diz a lenda que o nome vem dos “pitis fumegantes” que Nagano costumava dar em estúdio durante as primeiras gravações da banda.7. Com apenas 19 anos, Archy Marshall – o King Krule – é uma das grandes promessas da música britânica. Corre ali na página 18 pra entender por quê.


Liderado pela vocalista Yukimi Nagano, o quarteto sueco já colaborou com Gorillaz,TV on the Radio e DJ Shadow. Já teve sua música embalando seriados como Gossip Girl, Grey’s Anatomy e Vampire Diaries. Aliás, você já deve ter chacoalhado o esqueleto ao som de “Ritual Union”, track que os colocou entre os queridinhos do electro anos 00.

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Divulgação

LITTLE DRAGON

5.

6.

AGORA

LITTLE DRAGON

“A banda é uma grande inspiração. Após todos esses anos, ainda não conseguimos adivinhar o que o outro vai trazer de novidade.”

“Talvez um pouco pretensioso, mas não há nada como viver o momento.”

7.

KING KRULE

“Ele é um artista sensacional, dono de um som e uma voz cativantes.”

8.

House Music

“É um gênero amplo, mas há algo de místico no bpm 115-125.”

8. Surgido em Chicago, EUA, no início dos 80’s, a House Music é conhecida por ter alguns elementos bem característicos: um beat 4/4 gerado numa bateria eletrônica, uma sólida linha de baixo e, em muitos casos, samplers ou pequenas porções de voz. Sempre girando em torno de 115 A 125 batidas por minuto.


_ENTREVISTA Leo Felipe e Tomรกs Bello

_TEXTO Leo Felipe

_Fotos ARIEL MARTINI 030\\ noize.com.br


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HERÓISEMQUERER As reviravoltas na biografia de um rebelde da música popular brasileira

[+1] Lançado em 2007, Fabricando Tom Zé é um documentário que mostra toda a irreverência e o vanguardismo do artista baiano. O filme, cujo fio condutor é uma turnê pela Europa, traz depoimentos de Caetano, Gil e David Byrne. [+2] A revista Carta Capital foi a primeira a revelar, no início da década de 2000, que a imagem da capa de Todos os Olhos não era a de um c*, mas, sim, de lábios prendendo uma bola de gude. A imagem foi feita pelo escritor Reinaldo Moraes, que trabalhava em uma agência de publicidade.

Autorizada ou não, a biografia de Tom Zé renderia a história perfeita de um herói da arte, trama com episódios de genialidade, radicalização, ruptura, incompreensão, isolamento, redescoberta e consagração. É uma história, no entanto, sem fim: este inquieto senhor de 77 anos segue, como se diz por aí, dando a “cara à tapa”. Um artista em estado perpétuo de fabricação+1. Biografar Tom Zé como um herói também seria uma ironia digna da carreira de um artista que sempre usou o humor como ferramenta para desmontar a realidade em sua volta. Em 1973, no radical e bem humorado LP Todos os Olhos+2, ele já cantava, frustrando expectativas dos que esperavam dele engajamento a causas heróicas: De vez em quando todos os olhos se voltam pra mim, de lá de dentro da escuridão, esperando e querendo que eu seja um herói.

Na música que dá nome ao disco,Tom Zé diz que é inocente, fraco, incapaz da violência ou de seguir mandamentos.Tom Zé é imprevisível.Tão imprevisível que, quarenta anos depois, mesmo contra a própria vontade, acabou se transformando no herói – graças à rebeldia que o manteve afastado do panteão da MPB por tantos anos.Tom Zé é hoje um artista do mundo, comparado pela imprensa internacional a gigantes como Frank Zappa+3, outro mestre do humor e das composições complexas. No Brasil, é referência confessa para uma nova geração de músicos com quem tem estabelecido um fértil diálogo, gente como Tulipa Ruiz, Lucas Santtana, Tatá Aeroplano, Kiko Dinucci, Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante e Emicida. Todos os olhos se preocupam mais com os cus alheios do que com os próprios? Não sou proctologista. Deixamos picando e ele chutou, passando adiante a polêmica requentada sobre a capa de seu famigerado


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disco. Lançado durante a barra-pesada da ditadura militar, Todos os Olhos funde a ciência da semiótica ao popularesco do linguajar chulo. O olho da capa, uma criação sugerida pelo ilustre poeta, tradutor, ensaísta e publicitário (quando isso ainda era motivo de orgulho) Décio Pignatari, até hoje gera polêmicas sobre sua autoria e verdadeira natureza. A escatologia não a impediu de ser eleita uma das melhores capas de disco da música brasileira. Não só no visual, o humor também está presente nas canções, como comprova a faixa que abre e encerra o trabalho – “Complexo de Épico”, uma cutucada na pretensão dos heróis-professores da nossa música popular: E por que então esta vontade de parecer herói ou professor universitário (aquela tal classe que, ou passa a aprender com os alunos – quer dizer, com a rua – ou não vai sobreviver)? O humor parece ser cada vez mais uma forma bastante eficaz de comentar a realidade – vide o sucesso dos novos humoristas. O compositor brasileiro ainda é um complexado que se leva a sério demais? Essa pergunta é tão legal que eu posso simplesmente assinar em baixo. Tanto da primeira quanto da segunda parte dela. Parece que neste momento artistas e intelectuais estão convocados a se manifestar sobre o tema das biografias. O senhor chegou a se posicionar nessa questão? Ha, ha! Achei o assunto tão difícil de opinar que resolvi desistir de ter direito a biografia. Por tanto tempo ignorado pela cultura oficial,Tom Zé precisa lutar para ter direito a uma biografia. Sua versão autorizada tem nos melhores momentos o bilhete de loteria premiado+4 que ingressou a família na classe

média de Irará, ainda nos primórdios da Era Vargas; as audições noturnas da Rádio Nacional; a consagração num show de calouros; as aulas na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia com os maestros radicais Smetak, Widmer e Koellreutter; o contato com Gil e Caetano; a gravação de Tropicália ou Panis et Circensis, manifesto fundador do movimento+5; o primeiro lugar no 4º Festival da Record com a música ‘’São São Paulo’’+6; e a gravação do primeiro disco – ainda no emblemático ano de 1968. Nos anos 1970,Tom Zé trilhou um caminho de experimentalismo juntando folclore e erudição e criou os instromzémentos a partir de um pedido prosaico da companheira Neusa: o conserto da enceradeira de casa. Vanguardista incorrigível, o poeta retirante da Paulicéia acabou afastado da mídia que tinha seus próprios heróis para consagrar. Na pior, precisou recorrer à publicidade como forma de complementar a renda familiar. O senhor está sempre um passo à frente? Já houve tempo em que pensei isso, em particular. Mas agora, se eu fosse extremamente vaidoso, diria que um dedo à frente seria o bastante (o que já é muita complacência). O correto é dizer que o que me salva é a consciência precisa de que estou um quilômetro atrás. O que faz a música estar em constante transformação? Ou o senhor não crê que ela esteja passando por tantas transformações assim? Porque toda a geração tem de compreender seu tempo para fazer a antítese dele (plagiando Moholy-Nagy). Obrigando a turma a pesquisar no Wikipédia, ele cita o velho modernista da escola alemã de design Bauhaus+7 como referência para pensarmos a relação do homem com a tecnologia, da qual ele (o homem:Tom Zé, você e eu) não pode ser escravo.Tom Zé subverte a finalidade dos objetos, fazendo de enceradeiras e liquidificadores seus instrumentos musicais e colocando a tecnologia a serviço da poesia.

[+3] A comparação foi feita pelo crítico de música do The New York Times, Jon Pareles. Diz ele: “Jogos de palavras, associações surpreendentes, leveza maior que a de alguns de seus pares americanos, como Frank Zappa”. [+4] O pai de Tom Zé, um humilde comerciante de Irará, tirou a “sorte grande” ao comprar um bilhete de loteria premiado, que era cinco contos de reis. Ele conta que o pai teve que buscar o dinheiro no Rio, voltando para casa no pau de arara. [+5] Lançado em 1968, o álbum contou com participações de Gil, Caetano, Mutantes, Nara Leão, Gal Costa, Tom Zé, o maestro Rogério Duprat e os poetas Capinam e Torquato Neto. [+6] Os festivais de música popular foram uma série de programas muito assistidos, transmitidos pelas principais emissoras da televisão brasileira entre 1965 e 1985. Os festivais consolidaram a MPB, revelando nomes importantes da nossa música, como Gil, Caetano, Elis e Chico Buarque. [+7] pt.wikipedia.org/ wiki/Bauhaus


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“A Tropicália já foi oficialmente encerrada por Gil e Caetano em 1969.” O senhor é um compositor de letras inteligentes, estruturas musicais e linhas de pensamento não tão convencionais, o que talvez até o torne um pouco incompreendido em alguns momentos. O senhor se sente isolado em um país como o Brasil? Não se trata de estar “isolado”. Talvez em outros países haja um compartimento maior da sociedade que se interesse por algo fora do establishment. Eu me lembro de que em 1960, quando cantei pela primeira vez na televisão, o IBGE informou que o analfabetismo no País chegava a 55%. Hoje é claro que isso não prevalece, mas a gente também não pode se apressar tanto, “para não queimar etapas”, como gostam de dizer os queridos comunistas.

[+8] A Luaka Bop lançou em 2012 a coletânea Nobody Can Live Forever, apresentando ao público norteamericano a obra de outro ícone: o soulman brasileiro Tim Maia. [+9] Em How Music Works, David Byrne defende que a música emerge tanto de circunstâncias culturais quanto da criatividade individual.

Foi preciso que o cosmopolita David Byrne encontrasse o álbum Estudando o Samba (1976) em um passeio à procura de vinis por São Paulo, em meados dos anos 1980, para que a trajetória de Tom Zé sofresse uma guinada inesperada. Lançado pela (então estreante) gravadora do ex-Talking Head, a Luaka Pop, The Best of Tom Zé revelou ao mundo parte da genial criação do músico brasileiro e ajudou a retirá-lo do ostracismo. Em 2010, a gravadora lançou o box set Studies of Tom Zé: Explaning Things So I Can Confuse, uma compilação de seus estudos teóricos em forma de disco feitos sobre o samba, o pagode e a bossa nova+8. O senhor ainda tem contato com David Byrne? Como vai a carreira no estrangeiro? David me mandou recentemente o manuscrito da tradução de seu novo livro sobre música e atividade musical+9. Um precioso levantamento da história da gravação sonora e da influência desses meios até na composição de canções. O

livro em inglês já está à venda nos Estados Unidos e disponível na Amazon. Creio que toda escola de música muito terá a lucrar adotando-o em seu currículo. Minha carreira no exterior continua progredindo como um sonho. Dentre todas as possibilidades, por que escolheu a música como principal forma de arte para se expressar? Que boa ideia perguntar isso! Principalmente nesses últimos discos, como Tropicália Lixo Lógico, me pergunto se não seria mais fácil explicar as ideias e teses em um livro. Mas agora é tarde, não tenho fôlego para mudar de vertente. As questões colocadas por Caetano e Gil em fins dos 1960 ainda dão conta de nossa realidade cultural? A Tropicália já foi oficialmente encerrada por Gil e Caetano em 1969. E qual seria a nossa realidade cultural? Oh, querida Noize, isso é pergunta para professor! No palco,Tom Zé é um habilidoso clown que conduz plateia e banda com o mesmo carisma que fez dele uma figura acessível para os jovens músicos. Mas sua relação com os meios de comunicação continua conflituosa. Recentemente, protagonizou um episódio inédito no showbiz brasileiro, envolvendo a conturbada Copa da Fifa, a maior marca de refrigerante do planeta e a mais importante rede social da atualidade. Criticado por seus politizados fãs por participar de um comercial da multinacional,Tom Zé doou o cachê e gravou um EP sobre o episódio, ainda no calor dos acontecimentos.


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“O que me salva é a consciência precisa de que estou um quilômetro atrás.” Passados meses do episódio da Coca-Cola e diante de todos esses conflitos deflagrados pela Copa do Mundo no Brasil, o senhor reconsiderou algumas opiniões sobre o veredito do Tribunal do Feicebuqui ou ainda vale o que foi colocado com muita perspicácia em sua música? O principal é que o episódio me deu oportunidade de descobrir que pode haver um contato mais íntimo com os que me acompanham. Eu já escrevera que A liberdade é uma Graça Todo dia se decifra Todo dia se disfarça. Outra coisa que me fez ficar curioso e admirado foi como todo comentário crítico dava ao que eu considerava “abrir os ouvidos para todos” um caráter de fraqueza e chamava os usuários das redes sociais de censores. E eu nunca consegui convencer os primeiros de que minha posição é dar completa confiança e liberdade a todos os rede-socialistas, mesmo que eles estejam contra mim. Por isso, repito: A liberdade é uma Graça/Todo dia se decifra/Todo dia se disfarça. E a banda de Irará fez bom uso do dinheiro doado? Sim. O dinheiro foi doado à Banda Lítero-Musical 25 de Dezembro, de Irará, em nome de minha mãe-de-leite, uma pessoa humilde, dona Maninha. Eu nunca havia agradecido a ela convenientemente. Conforme me informou o diretor da banda, a própria escola de música passará a ter o nome dela.


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Qual o próximo tema de seus comentários musicais? A música tem mesmo essa função de cutucar a ferida? A música pode ter essa função de cutucar a ferida. Mas na Bahia há um provérbio que diz que passarinho que canta muito caga no ninho. Além disso, estou convencido de que quem fala mata sua própria ideia.

[+10] Jogos de Armar traz um CD bônus com trechos das composições e bits para que o ouvinte possa remixar o material. [+11] O norteamericano Ezra Pound foi poeta e crítico nos primeiros anos do modernismo. No livro ABC of Reading, de 1934, apresentou sua – hoje famosa – divisão dos 3 tipos de criadores: inventores, mestres e diluidores.

Decifrando a graça disfarçada da liberdade, aprendendo com os alunos, explicando para confundir,Tom Zé segue exercitando rebeldia e bom-humor. Do alto de sua pequena grandeza, é um artista em constante busca por novas formas de inteiração com o público, seja incentivando o remix de sua obra, como no disco Jogos de Armar (2000)+10, ou favorecendo o download de músicas, prática condenável por muitos de sua geração. É o caso da nova canção, “Discurso do Papa”, disponível gratuitamente na rede.Tendo como alvo a figura máxima da caduca religião católica,Tom Zé assume o papel do cronista, um comentador dos episódios cotidianos, intenção já sugerida em Imprensa Cantada (2003). E, mesmo contra a sua vontade, segue como um herói para muita gente.

Em que pé está a música brasileira? Acho que não está no pé. Está pra cima da cabeça. Ezra Pound+11 afirma que quando um país começa a escrever mal, é quase certo que logo mais não poderá governar-se. A juventude com que tenho trabalhado me dá uma consistente esperança, uma boa expectativa. Estive perto da Trupe Chá de Boldo, da Filarmônica de Pasárgada, d’O Terno, de Tatá Aeroplano, de Kiko Dinucci – olha, eles são fortes. No caso de Emicida, acho que ele é um poeta que dá voz a todo um estrato da sociedade. Como em nossa cultura a canção tem se mostrado um vigoroso meio de informação e sendo uma arte que transita intensamente, creio que, quanto ao Brasil, Ezra Pound não tem com que se preocupar. O senhor é constantemente citado como enorme influência (e com imensa reverência) por diversos músicos da nova geração. Por que acha que isso acontece? E como se sente em relação a isso? A coisa mais simples fala mais do que um discurso: sinto alegria. Quanto a por que isso acontece, também fico admirado. E me pergunto se teria alguma coisa a ver com o fato de praticar mais rebeldia do que música.


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PS: Querida turma da Noize, tive sempre um peso da minha língua, causado pelo tratamento de “senhor”. Na próxima, baixem a bola pra “você”. Beijos, Tom Zé. (O respeito é grande, Tom Zé.)


__TEXTO Daniel Sanes

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Em meados dos anos 2000, um grupo canadense era apontado pela crítica musical como a maior revelação dos últimos tempos. Utilizavam instrumentos pouco convencionais dentro do rock (harpa, acordeão, xilofone), faziam um som menos convencional ainda, tinham seis integrantes em cima do palco. Uma década mais tarde, headliner dos principais festivais mundo afora, com o número 1 da Billboard e um Grammy no currículo, as expectativas se confirmam. Simplesmente a maior banda indie do planeta, o Arcade Fire tem uma trajetória tão impressionante quanto a sua própria música.


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Desde o primeiro disco a banda já figurava entre a nata do indie. Ainda hoje, se mantém fiel à Merge Records, gravadora fundada em 1989 por Mac McCaughan e Laura Ballance, do grupo norte-americano Superchunk. O selo é também Certa vez, ainda nos primórdios da banda, Butler responsável por estava chegando em uma apresentação quando se lançar álbuns de deparou com uma fila que virava o quarteirão. “Foi nomes como Terealmente chocante: ‘há gente suficiente querendo enage Fanclub e ouvir nossa música e nos ver. Podemos fazer isso’. Dinosaur Jr. Tudo o que tem acontecido desde então é uma extensão daquela cena e daquele sentimento”, declarou anos depois ao jornalista David Fricke, da Rolling Stone EUA.

A banda se formou em torno do casal Win Butler e Régine Chassagne. Criado no Texas, Butler cursava estudos religiosos na Mc-Gill University de Montreal, quando, em 2003, conheceu Régine cantando standards do jazz em uma exposição de arte. Começava ali uma parceria no amor e na música. No mesmo ano, aliás, o grupo lançou o EP Arcade Fire, seu primeiro registro oficial. Vendido durante os shows, o disquinho foi relançado dois anos depois.

O título é alusivo ao momento pelo qual passavam os principais integrantes da banda – Win Butler e Régine Chassagne perderam o avô e a avó, respectivamente. Desde o começo, o Arcade Fire prefere fazer discos temáticos, em que as canções funcionam melhor se ouvidas em sequência.

“Wake Up” chegou a ganhar covers de artistas como Macy Gray e John Legend, e serviu de trilha para o Super Bowl. No embalo, a Microsoft teve a cara dura de plagiar o hit em um comercial do MSN (alguém lembra?). Um plágio bem fraquinho, por sinal. Veja: migre.me/gSRiM

Em setembro de 2004 sai o debut, Funeral. Uma crítica elogiosa do Pitchfork ajudou a esgotar a tiragem inicial do álbum, que se Mesmo pouco conhecidos, os canadenses tornou o primeijá tinham fãs ilustres. David Bowie chegou ro lançamento da a se apresentar com eles em um prograMerge a chegar ma de TV, enquanto o U2 convocou-os ao Top 200 da para abrir a Vertigo Tour. David Byrne e Billboard. “ReBruce Springsteen também já dividiram o bellion (Lies)”, paco com a banda. “Crown of Love” e, principalmente, o hit “Wake Up” impulsionaram as vendas.


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Ainda que frequentando o estafante circuito de festivais, a banda encontrou tempo para gravar o single “Cold Wind”, que entrou na trilha sonora da série Six Feet Under, e, assim como Funeral, recebeu uma indicação ao Grammy. Uma curiosidade: o lado B do single chama-se “Brazil” na verdade, uma versão em inglês de “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso.

Em abril de 2005, o grupo estampava a capa da revista Time com a seguinte manchete: “A mais intrigante banda de rock do Canadá”. Hoje, talvez fosse “do mundo”. Não é de hoje que o Arcade Fire deixa os fãs aflitos às vésperas de um lançamento. No final de 2006, foi disponibilizada no iTunes a faixa “Intervention”, junto com “Black Wave/Bad Vibrations”. Detalhe: esta segunda, que sucede “Intervention” no álbum, vazou acidentalmente.“Acho encantador que possamos enviar a faixa errada para o mundo inteiro com apenas um click”, ironizou Win Butler.

O segundo álbum dos canadenses saiu primeiro em redes P2P, em janeiro de 2007. No formato físico, foi lançado dois meses depois – emplacando, de cara, um segundo lugar na Billboard. Foram 92 mil cópias vendidas só na primeira semana. A canção “Neon Bible” ganhou clipe interativo em que o internauta podia movimentar as mãos e o rosto A religião não é apenas uma referência no título de Butler. Aliás, ainda ou em algumas letras de Neon Bible.Antes de pode: é só entrar gravar o disco, a banda comprou e reformou em beonlineb.com. uma antiga igreja em Montreal, a qual transformou em estúdio. Na primeira perna da turnê, o Arcade Fire tocou em uma série de pequenos templos na América do Norte.

Para ouvir o single “Black Mirror” os fãs tinham que ligar para o número (866) NEON-BIBLE, ramal 7777. Mais esquisito que isso só o vídeo que a banda usou para anunciar o novo disco: em meio a trechos de músicas, o “guitarrista vencedor do prêmio Juno Richard Reed Perry” dá detalhes sobre Neon Bible.

De três em três anos, é hora de bater ponto no estúdio. Mais acessível (ouça “Ready to Start” e “Modern Man”) e ainda assim aclamado pela crítica, The Suburbs foi lançado em agosto de 2010. Estreou no topo das paradas dos EUA, Inglaterra, Irlanda, Portugal e Canadá. Choveram premiações para The Suburbs. Além do Grammy conquistado em 2011, a banda faturou o BRIT Awards, o Juno Awards e o Polaris Music Prize. Não é pouca coisa.


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A belíssima faixa-título não ganhou videoclipe, mas um curta-metragem – Scenes from Suburbs – assinado por ninguém menos que Spike Jonze, diretor de Quero Ser John Malkovich. O cineasta, aliás, incluiu uma nova versão do hit “Wake Up” no trailer de Onde Vivem os Monstros, filme de 2009. Em uma apresentação no Friday Night with Jonathan Ross (talk show tipo o Programa do Jô), Butler arremessou seu banjo contra uma câmera após tocar “Keep the Car Running”, de Neon Bible. Arrancou risadas constrangidas do apresentador britânico. “Haha, ladies and gentlemen, Arcade Fire”, disse Ross. O áudio do programa foi usado para abrir e encerrar “You Already Know”, faixa do disco seguinte, Reflektor.

E o Arcade Fire curtiu mesmo fazer clipes interativos. Dessa vez, foi para “We Used to Wait”. No site thewildernessdowntown. com você insere o endereço da rua em que nasceu e gera um vídeo com imagens reais do Google Maps interagindo com cenas gravadas. Detalhe: só funciona no Chrome.

Lançado em disco duplo, Reflektor traz referências primeiramente ao Haiti, mas também ao Brasil.A música “Afterlife” ganhou vídeo com imagens do filme Orfeu Negro, de Marcel Camus, adaptação da peça Orfeu da Conceição, deVinícius de Moraes. Mais tarde, saiu o clipe oficial, dirigido pelo velho amigo Spike Jonze.

Não é por acaso que Reflektor é o disco mais eletrônico do Arcade Fire. James Murphy, ex-LCD Soundsystem e mentor do selo DFA, foi convocado para a produção.

O Lollapalooza Brasil já confirmou o Arcade Fire como uma das principais atrações de sua próxima edição. Os caras tocam no segundo dia do festival, 6 de abril de 2014. Nos vemos lá!

Para anteceder o quarto álbum, o Arcade Fire fez uma campanha de marketing poucas vezes vista. Desenhos típicos do Haiti, terra dos pais de Régine Chassagne, surgiram nas ruas de grandes cidades ao redor do mundo com as letras da palavra “Reflektor” embaralhadas. Pouco antes, via Twitter, a banda havia confirmado a data do lançamento do disco (28 de outubro de 2013) em resposta a um fã. Simples assim. Revelada a capa do disco – uma imagem da escultura de Orfeu e Eurídice, de Auguste Rodin –, a banda lançou um clipe de 15 segundos no Spotify intitulado “9:00 9/9”, referência à data do show de uma suposta banda chamada The Reflektors em uma casa noturna em Montreal. Não é preciso ser gênio para saber de que banda realmente se tratava...

Já “Reflektor”, a música, conta com os vocais de David Bowie, recémretirado da aposentadoria. Além disso, tem dois clipes: um tradicional, e o outro... interativo! Este segundo pode ser acessado em justareflektor.com/.


NOIZE APRESENTA:

Um pouco de humor, amor adolescente, atitude ...lost e riffs marcantes de guitarra. Joga tudo isso no liquidificador e tá pronto o Blink 182. Nascida em 1992, em San Diego, Califórnia, o sucesso foi chegando aos poucos, os hits tocando nas rádios, o lifestyle americano tomando conta e, em 1999, o álbum Enema of the State chega nas lojas e no topo das vendas. É ele o nosso homenageado da vez.

Lançamento: 1º de junho de 1999 Duração: 37:46 Gravadora: MCA Records Produção: Jerry Finn

A atriz pornô Janine Lindemulder, enfermeira da capa, já faturou o prêmio de Melhor Cena de Lesbianismo 3 vezes no AVN Awards e, dizem, já pegou Sandra Bullock. Depois disso, foi presa algumas vezes, se aposentou e virou professora de jardim de infância.

Enema of the State é um trocadilho com o tíltulo do filme Enemy of the State e a capa foi criada com base no nome inicial do álbum que seria Turn Your Head and Cough Enema of the State em vendas: cinco Discos de Platina nos EUA, quatro no Canadá e dois na Austrália, sem contar um na Europa e Rússia e um Disco de Ouro na Suíça.

Lenda: 182 é o número de vezes que Al Pacino fala “fuck” em Scarface

A capa possui três versões, culpa da Convenção de Genebra que não deixou os caras usarem a cruz no chapéu e da indecisão de Mark Hoppus em usar o “b” de Blink em caixa alta ou baixa.


PUBLIEDITORIAL


_TEXTO leandro vignoli

_Fotos SAMUEL ESTEVES 046\\


OS REIS DO INDIE //047

Arctic Monkeys, The Rapture, Queens of the Stone Age, Franz Ferdinand, LCD Soundsystem. O que esses gigantes da música anos 00 têm em comum? Três nomes: DFA, Domino e Matador. Responsáveis por apresentar ao mundo os artistas mais emblemáticos do indie neste novo século, as três gravadoras ditam o que toca em seu iPod há – pelo menos – uma década. E o segredo para moldar a história da música pop, segundo os seus fundadores, é viver a música que lançam. “Colocando o DJ na sacada, era tranquilo botar umas 600 pessoas por aqui, com o som tocando por mais de 12 horas.” Ao lembrar das festas que produzia junto de James Murphy no escritório que dividem em Manhattan, Jonathan Galkin remete aos primórdios da DFA. Descreve com tanta naturalidade o fato de que empurravam os móveis contra as paredes, de que eram apenas um grupo de amigos criando música e produzindo festas no mesmo prédio em que trabalhavam, que nem parece que está contando a história da gravadora independente que definiu o som dos anos 00. Setembro de 2001. Em Nova Iorque, caíam as torres gêmeas, o prefeito Rudolph Giuliani encerrava o seu mandato e as leis que controlam bares e casas noturnas amolecem no embalo. Pronto, estava

estendido o tapete para a juventude criativa da cidade superar um de seus grandes traumas recentes, mergulhada no hedonismo. Nesse cenário, a DFA abria suas portas+1. Resumia toda a efervescência cultural da Big Apple em um único single: “House of Jealous Lovers”. A track do The Rapture colocou funk e disco no punk, apresentou à cultura clubber o espírito DIY+2 de agir e pensar, transformou o antes cafona cowbell em ícone indie, cunhou o chamado postpunk revival+3. Na cola, Murphy, o sócio famoso, lançou a estreia do seu LCD Soundsystem. E aí veio MTV, capas das principais publicações pop mundo afora e uma indicação ao Grammy. Meio que sem querer, a DFA fazia o mundo indie cair na pista de dança.

[+1] “Lembro da urgência em encurtar o nosso nome”, conta Jonathan. Afinal, DFA significa Death from Above (ou, “morte que vem de cima”). Alguma dúvida de que iria pegar mal? [+2] DIY = Do It Yourself. O famoso “faça você mesmo”. [+3] Pitchfork e NME elegeram “House of Jealous Lovers” como uma das melhores 20 músicas dos anos 2000. Para ouvir, aqui: http:// migre.me/gSHu2


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[+4] Antes de migrar para uma major, o Interpol lançou via Matador seus dois primeiros álbuns: Turn on the Bright Lights (2002) e Antics (2004). [+5] O líder do Hot Chip, Alexis Taylor, chegou a trabalhar na gravadora – empacotando CDs para fãs e escrevendo releases para a imprensa. [+6] Ou, o selo independente de Seattle que revelou o Nirvana.

Mais que sucesso, relevância artística Com a DFA vieram The Rapture e LCD Soundsystem. Mas Nova Iorque, buscando se reerguer após o 11 de setembro, colecionava artistas montando o quebra cabeças de seu maior boom cultural desde o final da década de 70 – ou você não lembra que Yeah Yeah Yeahs, The Strokes, TV on the Radio, Interpol, todos nasceram ali? É neste capítulo da história que entra a Matador Records. Fundada em 1989 por Chris Lombardi, a Matador construiu seu nome ao longo da década de 90. Ao alavancar a carreira de Pavement, Guided by Voices, Cat Power e Yo La tengo, tornou-se – e também os artistas de seu casting – referência unânime quando o assunto é indie rock. Virou a página do calendário e a gravadora adentrou o novo século apadrinhando o Interpol. Com a parceria, o grupo comandado por Paul Banks se consolidou como o maior expoente de um cenário que bebia fortes doses de pós-punk inglês, com tons sombrios e atmosféricos à la Joy Division e um especial apreço por ternos bem-cortados. A banda cravou o Top 20 das paradas britânicas e norte-americanas, vendeu mais de 1 milhão de discos e abriu terreno para toda uma leva de nomes como Liars, Editors e Longwave+4. Os números, no entanto, não significam nada. “Já houve muitas vezes em que gostamos de uma banda ou do álbum que eles criaram, mas não sentimos que eles eram únicos comparados a outros nomes por aí. Mesmo que possam parecer comercialmente viáveis e vender bem, quando a gente escolhe trabalhar com uma banda tem que ser um nome que tenha identidade, que saiba quem eles são. Acho que é nisso que vale a pena a gente perder o nosso tempo”, diz o big boss da Matador. Indie também quer dinheiro Em outubro de 2005, You Could Have It So Much Better, segundo álbum do Franz Ferdinand, chegou ao número 1 da parada britânica. Dias mais tarde, era o Arctic Monkeys que emplacava a bombástica “I Bet You Look Good on the Dancefloor” no topo da British Chart. Em menos de um mês, a Domino

Records viu um álbum e um single de seu catálogo chegarem pela primeira vez ao ponto mais alto do mercado fonográfico na terra da Rainha. “A Domino nunca foi antissucesso”, diz Laurence Bell quando o assunto é os dois gigantes da música independente que revelou para o mundo na primeira década dos anos 2000. Fundador da gravadora, ele rebate a ideia de que soa um paradoxo para uma gravadora assumidamente indie ser responsável por dois dos grupos mais bem-sucedidos do rock britânico nos últimos anos. “Enquanto nós viemos de uma cultura ‘faça você mesmo’, assim vieram essas bandas que acabaram se tornando extremamente bem sucedidas.+5” Bell lembra que quando conheceu o Franz Ferdinand eles ainda eram uma típica banda de pub, mais um nome entre tantos outros da cena underground de Glasgow, Escócia. “Eles tocavam nessas bandas que soavam como Captain Beefheart e The Fall. Eram do mesmo universo que a gente, mas tinham essa ideia de se tornar uma banda pop, uma banda pop DIY. E nós adoramos a ideia. Adoramos eles como pessoas e adoramos as músicas.” Com o Arctic Monkeys não foi diferente: ele descobriu o quarteto ainda em Sheffield, quatro adolescentes fazendo um som na garagem dos pais. “Eles começaram a gravar suas músicas em CD-Rs, distribuir para as pessoas durante os shows, e essa garotada saía dos pubs e divulgava as músicas na internet. Tudo virou uma bola de neve a partir dali.” Era 1993 quando Laurence Bell decidiu dedicar sua vida à música. Como primeiro passo, arriscou lançar na Inglaterra o EP Rocking the Forest, do grupo norte-americano Sebadoh, licenciado a partir da Sub Pop Records+6. Em plena era do britpop, de Blur e Oasis, o indie yankee sequer rendia notas de rodapé na imprensa britânica para a novata gravadora. Até que virou a década e a Domino passou a apostar suas fichas em artistas locais – descobriu não apenas Franz Ferdinand e Arctic Monkeys, mas também nomes como The Kills e Hot Chip. “Nós apenas não temos medo de lançar música que a gente considere legal, possa ela vender ou não. Há um poder intrínse-


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“Quando conheci o Arctic Monkeys, eles eram apenas quatro adolescentes fazendo um som na garagem dos pais.” Laurence Bell, fundador da Domino Records

[+7] Semelhante ao que aconteceu com a Matador, Laurence começou a Domino em seu apartamento, em Londres. “Com um telefone, uma máquina de fax e muita vontade”, lembra. [+8] Nem o termo “hipster”. Porque apesar de ter surgido ainda nos 40’s pra descrever uma pessoa ligada as cenas Bebop e swing jazz, foi ali que ele ganhou força. Principalmente depois que Malcolm Gladwell cravou o termo em seu best seller, O Ponto da Virada. [+9] O minidocumentário Too Old to New, Too New to Be Classic mostra a história e importância da DFA para a música pop. Conta com a participação de artistas do selo, como Holy Ghost!,YACHT e Hercules & Love Affair. Aqui: http://migre.me/ gSKhu

co a essa política”, avalia Bell+7. Com 20 anos recém-comemorados, mais de cinquenta artistas em seu casting e alguns milhões de álbuns vendidos, a Domino é hoje uma das mais duradouras e bem-sucedidas gravadoras independentes do Reino Unido, símbolo maior do renascimento da música inglesa após a queda do britpop. Selo de qualidade Mais do que executivos do mercado fonográfico, a DFA foi criada em torno de um time de engenheiros de som e produtores musicais. Mais do que lançar um punhado de artistas para faturar alguns dólares, ela criou uma identidade sonora – James Murphy conseguiu ser o arquiteto de uma cena musical que se desenvolveu a partir de um selo. Não fosse ele combinar a atitude punk com som e técnicas de produção da disco music e o chamado “novo rock” nunca teria acontecido+8. Em busca da “sonoridade DFA”, artistas consagrados como Nine Inch Nails, Gorillaz, The Chemical Brothers e M.I.A. foram atrás de Murphy e cia. para produzir suas tracks. “Após 2001, você dificilmente olha para o Top 40 sem ver uma música, rock ou não, que tenha um beat dançante”, chegou a cravar o crítico da revista Esquire, Paul Schrodt. “Em um certo sentido, o conceito da DFA está muito mais presente em nossa atitude do que

na sonoridade. Acredito que o selo assume muito mais um padrão de qualidade, na linha do ‘confie em nós que você gostará’”, analisa Jonathan Galkin. Por ter conseguido não só dar um som aos anos 00, mas sintetizar o espírito de uma geração, Galkin reconhece que a DFA tem hoje um significado muito maior do que o de uma simples gravadora. “Não começamos a partir de uma marca de ‘lifestyle’, mas as pessoas compram merchandise com o nosso logo. A marca realmente assumiu uma certa atitude, uma certa experiência ou estética.”+9 Chris Lombardi considera natural que selos como DFA, Domino e o seu Matador conquistem status de marca, que se estabeleça uma relação de confiança entre gravadora e ouvinte. Acima de tudo, porque são liderados por gente que tem sua origem no cenário musical que representam, o que faz com que as pessoas se reconheçam não só na música, mas também em seus conceitos e atitudes. “Desde que começamos a empresa, o que nós fazemos é expressar o nosso gosto musical e apreço por cenas e artistas através das bandas que assinamos. Então, é natural que você tenha algo como uma ‘sonoridade Matador’.”+10 Reconhecida por sua originalidade, por dar suporte a artistas comercialmente arriscados como The Fall ao mesmo tempo em que aposta em nomes como Julia Holter, Laurence Bell chegou a criar a


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“Talvez o mundo não precise mais do que quatro versões da mesma música.” Jonathan Galkin, sócio de James Murphy na DFA

The Domino Press. Segundo ele, investir também na publicação de livros é continuar sendo regido pelo coração. “Faz parte da nossa cultura, reflete quem somos. Nós ficamos felizes em lançar música considerada mais ‘marginal’, por exemplo. Se algo não é popular não significa que seja ruim.” O presente e o futuro da música “Eu não tenho uma bola de cristal”, brinca Laurence Bell quando questionado sobre o que deve acontecer com a música em cinco ou dez anos. Ele diz que a Domino tenta constantemente se adaptar ao mundo em que está inserida – e hoje, garante, o mundo vive online. “Esse é o primeiro lugar que a gente vai em cada lançamento.” O big boss da Domino Records não está errado. Ainda em 2012, a venda de músicas digitais representou 55,5% do total do mercado fonográfico britânico. Pela primeira vez, a receita digital superava a obtida a partir de formatos físicos, como CDs e vinis+11. Com a popularização de serviços legalizados de streaming e download de músicas, como Spotify, Rdio e iTunes Store, a tendência é de que a música realmente viva cada vez mais online. Mas nem tudo é alegria. Ainda há equações a serem feitas para equilibrar a balança. Jonathan Galkin cita o exemplo dos remixes. “Tudo está na mesa. Por algum tempo, existiu

essa ideia de que produzir remixes era o ideal para atrair a atenção das pessoas no sentido de comprar um single ao invés de baixá-lo de graça. Só que aí você gasta seis mil dólares para produzir quatro faixas, sendo que para três dessas ninguém vai dar bola. Talvez o mundo não precise mais do que quatro versões da mesma música.” Galkin acredita que a economia da música está voltada também para os artistas. Defende que hoje é muito caro manter uma banda – e aí, avalia ele, entra o MPC, SP-404 Sampler+12, DJs assumindo papel principal em clubs e casas de shows ou mesmo nomes como o da cantora canadense Grimes. “É assim que surgem esses artistas, a partir da necessidade, a economia de sair em turnê.” Em um cenário como esse, o fundador da DFA só teme pela qualidade do que pode acabar sendo produzido. “Se você tem cinco shows em sequência, e cada um deles é um cara no palco com um MPC e um microfone, não vejo como isso pode acabar sendo uma noite agradável. Nós fizemos vários festivais onde tivemos um palco da DFA, e, ao lado, em outra tenda, estava o Swedish House Mafia. É um bom exemplo de como nós somos os caras mais velhos próximos a estes EDM gritantes. Mas estava todo mundo lá, assistindo a eles. O que aconteceu? Isso é tudo contra o que sempre lutamos.”

[+10] Foi a Matador que bancou o retorno do Queens of the Stone Age ao mercado independente. Curiosamente, foi com o lançamento de … Like Clockwork que a banda chegou pela primeira vez ao topo da Billboard, em junho de 2013. [+11] Os dados são da Indústria Fonográfica Britânica (BPI). [+12] O SP-404 é um sampler portátil com efeitos integrados, que permite a produção de beats e padrões sonoros. O MPC é um misto de sampler, sequenciador e ferramenta de performance.


_FOTOS _TEXTO _FOTOS Rafa rocha ALEXANDRE LUCCHESE ACERVO PESSOAL DE JOEY RAMONE

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Joey Ramone você conhece bem. Mas não Jeffrey Ross Hyman, o primogênito de um casal de judeus de Nova York. Minutos depois de nascer, em 19 de maio de 1951, Jeffrey já revelava à família que chegara alguém único, que exigia cuidados: o bebê nasceu com um tumor e precisou ser operado às pressas. O tortuoso – e muitas vezes dramático – caminho que transformou Jeffrey em Joey é agora revelado por uma das pessoas mais próximas ao vocalista dos Ramones, seu irmão Mickey Leigh. Três anos mais jovem, Mickey acaba de lançar no Brasil Eu Dormi com Joey Ramone: Memórias de Uma Família Punk Rock, livro que testemunha a

trajetória do ícone punk rocker desde os primeiros passos até a morte por linfoma, em 2001. Com ajuda de Legs McNeil, conhecido por seu trabalho em Mate-me Por Favor, o lançamento vai além: contextualiza o crescimento do músico em paralelo à história do rock, oferecendo um panorama da música popular desde a década de 60. Aqui, Mickey abre seu álbum de fotos para revelar imagens da infância e adolescência do irmão – muitas delas, aliás, vem a público pela primeira vez através desta Noize que você tem em mãos.


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Joey nasceu com a massa de um feto não desenvolvido presa à sua coluna. O teratoma – do tamanho de uma bola de beisebol – foi removido em cirurgia logo depois do parto. O risco de desenvolvimento de um tumor maligno era considerável, mas ele saiu ileso, a não ser por uma grande cicatriz que o acompanhou por toda a vida.


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“Meu irmão mais velho era extrovertido, aventureiro, alegre, talentoso e corajoso”, escreve Mickey. Na foto, Joey está inabalável ao lado do irmão, assustado com os animais de brinquedo. Para Mickey, “a cicatriz em formato de lua crescente na parte inferior das suas costas lembrava o que era o perigo de verdade”.


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Bem que o pai tentou, mas os pequenos não tinham jeito para o esporte. O rock & roll foi a saída que Mickey e Joey encontraram para se enturmar por onde passavam. Richie Valens, seguido de Leslie Gore e Boris Picket, foram alguns dos primeiros músicos que fizeram os ainda jovens irmãos Hyman descobrirem que havia um novo estilo musical nascendo. E que eles não abandonariam jamais.

Reviravolta na família. Quando Joey estava na terceira série da escola, seus pais se separam. Um ano depois, a mãe casa com outro homem e ele precisa se readaptar em um novo espaço, com novos irmãos – Dave e Reba. Apesar de judeus, a família comemorava o natal como uma festa qualquer. Na foto, Mickey, Dave, Joey e Reba aguardam para abrir os presentes.

Joey e suas longas pernas (à direita na foto) eram motivo de chacota entre os colegas da escola. Mickey começa a perceber que o irmão andava de modo desajeitado e não conseguia correr. A imagem idealizada do irmão mais velho começa a ruir.


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Depois de Mickey entregar uma redação intitulada Eu Queria que a Escola Explodisse, sua professora ficou alarmada e sugeriu à família alguma atividade para o menino extravasar sua energia. Foi assim que os instrumentos musicais entraram na casa de Joey, que logo quis uma bateria para acompanhar o irmão. Já demonstrando sintomas de TOC, Joey demorava em torno de duas horas para ajustar sua bateria, fazendo com que os colegas de banda perdessem a paciência. Depois de uma longa fase sem tocar, já passando dos 20 anos, ele pediu a Mickey algumas dicas de guitarra. O irmão ensinou uma sequência de acordes com apenas duas cordas sobre a qual Joey começou a improvisar e repetir o verso “I Don’t Care”. Estava composta a primeira música dos Ramones.


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O TOC fazia com que Joey não conseguisse jogar nada fora, gerando a maior bagunça em casa. Cansada do filho que não tomava jeito, sua mãe se mudou com Mickey para um apartamento sem espaço para Joey. Ela era dona de uma galeria de arte onde o filho trabalhava e poderia dormir à noite. Foi uma lição dura, mas fez com que ele encarasse seus projetos mais a sério. Foi nessa época em que começou a nascer os Ramones.


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NO RIO DE JANEIRO, RJ

Skate e hip hop. É o que levou Carol Anchieta ao jornalismo, é o que dita o seu estilo de vida. “Desde a adolescência já me relacionava com o estilo por ter sido bailarina de street dance. A minha personalidade gosta do que acontece na rua, seja música ou esporte”, justifica. Gaúcha, Carol foi parar no Rio em função do trabalho. Com a “Sofa Tape’’ do DJ Madruga, mais Emicida e Edi Rock como trilha sonora, ela comanda dia após dia o Jornal Futura, no canal de TV de mesmo nome. Há pouco mais de um ano na cidade maravilhosa, Carol diz que ganhou um novo olhar sobre o street style. “Aqui, as pessoas são mais livres no vestir, os bailes charme trazem uma maior valorização da black music, o meu cabelo não chama tanta atenção como em Porto Alegre.” Liberdade, aliás, é o que também guia a apresentadora na hora de se vestir: tênis, jeans, camisetas. “Gosto de estar confortável, então invisto numa peça estilosa e o resto fica mais ‘basicão’ mesmo.” _A calça é Chifon. chifon.com.br _“Salve a Rua”, a blusa, vem da Matriz Skate Shop. matrizskateshop.com.br _O óculos foi comprado no Brique da Redenção, em Porto Alegre. “Só mandei colocar lentes de grau”, diz Carol. _O relógio é Alexandre Herchcovitch para Chilli Beans. chillibeans.com.br _O sneaker é Nike. nike.com.br

Fernando Schlaepfer

CAROL ANCHIETA


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Divulgação

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DENTRO DA MOCHILA

camiseta COM história

_JOSS STONE,cantora britânica

_Tim Bernardes, vocalista e guitarrista da banda O Terno

1. Laptop: “Está sempre comigo.” 2. Fones de ouvido: “Sempre bom para não incomodar ninguém.” 3. Sabonete facial: “Não carrego muita coisa comigo, mas isso é essencial em viagens.” 4. Telefone: “Tenho que estar sempre disponível.” 5. Speakers: “Você pluga no PC ou no telefone e pronto. Se você ama música, precisa ter um.”

““Eu usei essa camiseta dos Mulheres Negras no primeiro show que O Terno fez, em 2009, quando participamos de uma apresentação do Mauricio Pereira (meu pai) no Auditório do Ibirapuera, dando canja junto com Os Mulheres. É uma camiseta que sobrou da época do primeiro disco deles, dos anos 80, e estava guardada no fundo do baú do Mauricio até a gente roubar ela pra usar no show. Recentemente, no Festival Planeta Terra, o Chaves usou outra vez. E ela tá por aqui como carta na manga pra outros shows legais que O Terno for fazer.”


Divulgação

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CASA DE NOCA

Avenida das Rendeiras, 1176, Lagoa, Florianópolis Divulgação

Nelson Sargento, Gerson King Combo, Délcio Carvalho. Este bar, mergulhado no fervo da Lagoa da Conceição, é isso mesmo: música brasileira. De ícones da nossa música a expoentes locais, a Casa de Noca dedica seus dias e noites a passear pelos mais diversos ritmos tupiniquins – samba, frevo, chorinho, maracatu... Foi criado por estudantes da Universidade Federal para divertir o povo durante um verão qualquer, depois que as festas

no campus foram proibidas. Já soma dois anos de vida. Tudo bem que as pessoas geralmente vão à Floripa em busca de sol e mar. Mas entre um mergulho e outro, botar o esqueleto pra chacoalhar um pouquinho não faz mal a ninguém. Juliana Baratieri _SAIBA MAIS www.casadenocafloripa.com


Paolo Margari/cc

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CAsa da música

Avenida da Boavista, 604, Porto, Portugal Inaugurado em 15 de abril de 2005 por ninguém menos que Lou Reed (R.I.P.), a Casa da Música virou imediatamente um ícone da cidade do Porto. “É uma das mais importantes salas de espetáculos construída nos últimos 100 anos”, chegou a cravar Nicolai Ouroussoff, crítico de arquitetura do New York Times. E olha, depois de visitar o local você dificilmente acha a frase um exagero. TB

Wojtek Gurak/cc

Sabe aquele tipo de lugar que você só acredita vendo? A Casa da Música é um deles. Não é em qualquer esquina que você encontra um lugar tão grandioso como este, totalmente dedicado a música – quer dizer, eventos de arte, design e tecnologia já vêm engordando o calendário da CdM há algum tempo. Aliás, você entra no prédio e já recebe uma revista com a programação – 100% fechada – para o ano inteiro.

_SAIBA MAIS www.casadamusica.com


Arcade Fire Reflektor Merge Não sou um grande fã de Arcade Fire. Sei que o melhor modo de começar uma resenha não é revelando um posicionamento tão pessoal sobre o artista a ser analisado, mas achei que, neste caso, seria o mais honesto a se dizer. Afinal, não é para justificar uma nota ruim, e sim para defender uma boa. Reflektor, o quarto disco da banda canadense, transcende qualquer avaliação baseada em uma reles opinião pessoal. É um trabalho que conquista os ouvintes mais incrédulos já na primeira audição, e vai ficando melhor à medida que se consegue perceber o quão belo ele é. A ideia de um álbum duplo conceitual inspirado no mito de Orfeu (Wikipedia, por favor, que o espaço aqui é limitado) funciona bem, e a presença de James Murphy, ex-LCD Soundsystem, é a prova de que, se o produtor for bom, deixará sua marca. Mas o que se sobressai mesmo é o talento do grupo, especialmente do casal Win Butler/Régine Chassagne, com uma performance vocal de levar às lágrimas. Bowie dá uma canja na eletrônica faixa-título, que, ao lado de “Afterlife”, “Normal Person” e “Porno”, sintetiza o novo Arcade Fire: post-rock da melhor qualidade, com direito a uma revisita ao lado bom dos anos 80, e uma capacidade incrível de se reinventar mantendo a identidade. Um clássico? Perdoem-me pelo clichê, mas só o tempo vai dizer. Já para saber que Reflektor é um dos melhores discos do ano não precisa ser fanático; basta não ser surdo. Daniel Sanes

Pra quem gosta de: David Bowie, LCD Soundsystem e Talking Heads.

“Se este é o céu, eu preciso de algo mais” Win Butler, na letra de “Reflektor”

LEGENDAS Ouça no talo É, legal

Dá um caldo Seu ouvido não merece


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Camisa de Vênus Camisa de Vênus Som Livre Rezam as palavras dos integrantes que a estreia do Camisa de Vênus, lançada há exatos trinta anos, surgiu de um compacto gravado e mixado em apenas uma noite – nada poderia ser mais punk e cru. O álbum marca a ida do grupo a São Paulo, onde eles se tornariam um dos mais importantes nomes do rock brasileiro, mas onde também brigaram com dirigentes de grandes gravadoras, que queriam outro som e outro nome para a banda. A resposta veio em “Passamos por Isso”, faixa que abre o set e que acidamente ironiza: “vocês vão entender, obedecer, aprender a curtir MPB”. Eis o papa Marcelo Nova sambando na cara da sociedade como nunca, em pleno embalo do estouro do BRock. “Beth Morreu”, masoquista, pornográfica e hardcore, se tornaria um dos maiores sucessos dos baianos, um soco no estômago com dois minutos de duração. Difícil imaginar a cena posterior, dos anos 90, sem uma influência como essa. Pra quem gosta de: The Clash, Replicantes e Raul Seixas

Apimentado, inspirado e veloz, o repertório só desacelera em “Passatempo”, a qual muitos acusam de ser plágio de “That’s Entertainment”, dos mods ingleses do The Jam. Nícolas Gambin

M.I.A. Matangi N.E.E.T. Recordings Verdade seja dita: em pouco menos de uma década, M.I.A. cravou seu nome na indústria pop. Com letras ao estilo “dedo em riste” e um batidão capaz de reverberar pelos quatro cantos do planeta, a rapper inglesa foi, talvez, a principal voz feminina a empunhar uma bandeira política e social sem cair no ridículo. Meio que na marra, sua fórmula acabou influenciando uma geração de artistas importantes, de Grimes a Santigold. Eis que, depois da recepção morna a Maya, de 2010, ela chega ao quarto registro de estúdio. Infelizmente, Matangi também fica no meio do caminho. Faixas como ‘‘Lights” e “Boom Skit” lembram o início da carreira, e seu ritmo vibrante pode ser a solução pra quem busca dar um up no seu dia. Outra porrada é “Y.A.L.A.”, que ganhou um vídeo sensacional. Mas é pouco. Nem a presença do The Weeknd em duas músicas tira a sensação de monotonia que atravessa o ouvinte. Pra quem gosta de: Major Lazer, Diplo e Bonde do Rolê

Em tempos de Miley Cyrus e sua anarquia plastificada, sente-se ainda mais falta daquela M.I.A. de raiz. Que volte logo. Fernando Halal


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pra ver A Festa Nunca Termina Reino Unido, 2002

Direção: Michael Winterbottom Com Steve Coogan, Paddy Considine e Andy Serkis

Um raio X vibrante e multicolorido de um dos mais influentes capítulos da história do rock. Assim é 24 Hour Party People, visão do britânico Michael Winterbottom para o boom da cena alternativa de Manchester. O fio condutor da história é Anthony “Tony”Wilson (Coogan, mestre), agitador cultural tão arrogante quanto sortudo: do final dos anos 70 ao começo dos 90, ele esteve à frente do dance club Hacienda e do selo Factory, onde revelou “apenas” Joy Division, New Order e Happy Mondays. Em meio a isso, acompanhamos o surgimento do ecstasy e da cultura rave, e a participação nonsense do lendário produtor Martin Hannett, que exigia o máximo de seus músicos. Apesar do constante tom de sarcasmo, o longa traz cenas fortes como o ataque epilético de Ian Curtis (Sean Harris) – e assume de vez um tom amargo ao defender que, quando o business passa a se sobrepor à arte, é porque o sonho acabou. Fernando Halal

Pauline na Praia França, 1983

Direção: Eric Rohmer Com Amanda Langlet, Arielle Dombasle e Pascal Greggory As estações do ano são sempre determinantes no cinema de Eric Rohmer, um dos nomes gloriosos da Nouvelle Vague. O verão foi protagonista de diversas obras do cineasta francês – do tédio de quem fica na cidade em O Raio Verde às aventuras amorosas no interior em O Joelho de Claire. Pauline na Praia talvez seja o que melhor representa a fase mais leve do diretor, a série “comédias e provérbios”, realizada nos anos 80, com filmes sobre encontros e desencontros de amigos, entreveros amorosos e problemas mundanos, construídos com equipe reduzida e pouquíssimo dinheiro. Rohmer deixa claro que não precisa de muito para filmar os pequenos dramas de uma jovem nos últimos dias de sol de um balneário: as festas, as noites na praia, os amores expressos, tudo com aquele clima dos anos 80 que já começa a parecer nostálgico. Leonardo Bomfim


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pra ler O Teste do Ácido do Refresco Elétrico

Aconteceu em Woodstock

De Tom Wolfe Editora: Rocco

De Eliott Tiber (com Tom Monte) Editora: Best Seller

439 páginas

304 páginas

DISCOTECA BÁSICA LOU REED Por Tony Aiex

The Velvet Underground & Nico (1967) É impossível falar da discografia de Lou Reed e não citar a estreia do Velvet Underground. Desde a sua capa icônica até sons como “Venus In Furs” e “Heroin”, o álbum com produção de Andy Warhol entrou para a história.

O livro-reportagem é uma obra obrigatória para entender a febre psicodélica que tomou conta da costa oeste dos Estados Unidos no verão do amor de 1967, deixando resíduos consideráveis em boa parte do mundo. Com uma escrita alucinada e uma pesquisa rigorosa,Tom Wolfe radiografa o início e o fim dos Merry Pranksters, grupo liderado por Ken Kesey que viajava o país num ônibus escolar organizando festas e distribuindo LSD, mostrando de que forma aquilo transformava radicalmente algumas pilastras comportamentais norte-americanas, sem deixar de notar as incoerências e o lado sombrio daquela novidade, culminando no isolamento do protagonista. É o ápice inventivo do Novo Jornalismo, gênero jornalístico que tirou a palidez da escrita de não ficção entre as décadas de 50 e 60. Leonardo Bomfim

A história de Eliott Tiber mudou radicalmente no verão de 1969.A realização do Woodstock, considerado até hoje o maior festival de música de todos os tempos, foi responsável pela grande virada na vida do rapaz, que aproveitou as altas vibrações da época para “sair do armário”. Escrito em primeira pessoa, este livro (que inspirou o homônimo filme de Ang Lee, bastante fiel à obra original) é o relato de alguém que vivenciou de perto um momento histórico – os pais de Tiber eram proprietários de um hotel na região onde foi realizado o festival, e sua influência na comunidade local foi decisiva para que o evento ocorresse. Aconteceu em Woodstock emociona ao mostrar como a arte pode mudar a vida das pessoas, além de ser um registro ímpar da efervescência musical no final dos anos 60. Daniel Sanes

Transformer (1972) O segundo disco solo de Reed é uma verdadeira obra-prima, com a clássica “Walk On The Wild Side” e ainda “Perfect Day” e “Satellite Of Love”. E há boatos de que “Wagon Wheel” é obra de David Bowie.

LULU (2011) Ame ou odeie, o álbum conceitual em parceria com o Metallica é o último registro de Lou Reed antes de morrer. Todas as 10 canções têm letras compostas por ele, com instrumentais arranjados junto com a banda de James Hetfield e Lars Ulrich.


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Qual a música que mudou SUA vida? Quem responde é Neil Primrose, baterista do grupo escocês Travis. “Hejira, da Joni Mitchell, foi um álbum que realmente me pegou quando eu tinha uns 16 ou 17 anos. As letras são fenomenais. Muitas pessoas consideram Lennon ou Van Morrison ótimos letristas, mas eu acredito que ninguém se iguala a Joni Mitchell. Em um nível emocional, ela pode dizer mais em um verso do que esses caras em toda uma canção. É um álbum muito poderoso, que te leva para outro lugar.”

__ por Marilia Pozzobom

BODE Apesar de ter feito a cabeça de Neil, Hejira não é o disco mais conceituado de Joni. Blue, seu quarto álbum de estúdio, é considerado um dos melhores de todos os tempos. Além de traduzir a cor da capa da bolacha (azul), blue denomina aquele sentimento melancólico e rasgado que permeia todas as letras do álbum. Em português, seria o bom e velho “tô de bode”.

ETS Além de dar nome ao disco e ao sentimento de Joni, Blue era o projeto que tinha como objetivo determinar se os óvnis eram uma ameaça potencial para a segurança nacional norte-americana, o The Blue Book Project. Ao final do estudo, 701 casos de indícios de extraterrestres foram classificados como inexplicáveis. O estudo começou no ano de 1952 e teve fim em 1970.a Wonderland”, um dos maiores hits de Mayer.


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PLAYBOY No mesmo ano de 1952, Marilyn Monroe estreava em seu primeiro papel principal, em Don’t Bother to Knock, de Roy Ward Baker. No ano seguinte, o então jovem Hugh Hefner colocava todas as suas fichas – e poupança – na primeira revista de mulher pelada do mundo. Ao total, Hugh investiu oito mil dólares para abrir a revista, quinhentos dos quais foram usados para comprar os direitos de um ensaio feito em 1948 por Marilyn.

MUFFIN Acredite se quiser, esse é o nome com o qual Frank Zappa e sua mulher Gail batizaram a sua filha mais velha. Diva Muffin é irmã de Dweezil, Ahmet e Moon Unit (wtf?!). Os nomes bizarros das filhas foi discutido por Zappa em uma de suas últimas entrevistas, publicada em maio de 1993 na Playboy. Por pior que seja, olha que Diva se saiu bem: seu nome quase foi Motorhead (ela nasceu quatro anos depois da banda liderada por Lemmy Kilmister).

WOODSTOCK Em 1967, dois anos antes do épico festival, Lemmy trabalhava como roadie de Jimi Hendrix, a última e mais esperada atração do Woodstock. A apresentação foi gravada e hoje pode ser encontrada em vinil com a distribuição da (santa coincidência) Moon Unit Records, do Reino Unido.

SNOOPY O nome “Woodstock”, aliás, também batiza o melhor amigo do cãozinho Snoopy – um pequeno pássaro amarelo inspirado na ave que ilustra a arte original do pôster do festival. Em sua língua materna, o cãozinho viajandão sempre começa as suas histórias com a frase “It was a dark and stormy night” (“Era uma noite escura de temporal”, em tradução literal), citação essa que abre a letra de “Crazy Cries of Love”, de Joni: “It was a dark and stormy night/Everyone was at the wing-ding”.


Fosso é aquele lugar que fica EM frente ao palco, onde fotógrafos se espremem, cara a cara com o ídolo, em busca de um clique que congele a eternidade.

Em Reykjavík, capital da Islândia, a tarefa até que se torna bem menos cabulosa (ou não).

Durante cinco dias em um frio de zero grau e vento de rachar a cara, mais de trezentos artistas passam pelo Iceland Airwaves, festival que desde 1999 é uma das principais fontes de descoberta da novíssima música.


Fotos: Ariel Martini Texto: Ariel Martini

Os preparativos para o histórico show do Múm na centenária igreja Fríkirkjan.


Hjaltalín, banda muito popular na Islândia.


1

//071 [1] Show off-venue no hostel Loft, que é supernovo e charmoso. A banda é o excelente pós-rock do For a Minor Reflection. [2] Mais um show offvenue, dessa vez numa loja de discos situada na própria Harpa, o QG do festival. O som é da banda islandesa Apparat Organ Quartet [3] Emiliana Torrini, o melhor show do festival.

2

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À tarde, rolam os shows off venue, em cafés, lojas e albergues.Tudo de graça. Porém, pra ir de um palco ao outro a saída é recolocar todas as camadas de roupa e enfrentar a geladeira. Pelas sete da noite começam os eventos oficiais na Harpa, a ultra moderna casa de concertos da cidade, onde só entra quem tem a pulseira do evento (esgotada há meses, by the way). Foi com ela que assisti a Emiliana Torrini, ao AlunaGeorge, Jon Hopkins e uma penca de bandas islandesas que nunca conseguiria ver em outro lugar: a incrível voz de Borko, a etérea Samaris, o genial Múm e Ólafur Arnalds, compositor neoclássico regendo a orquestra de Reykjavík no salão principal, um dos pontos altos do evento. Por fim, a oportunidade de ver a aurora boreal e de trombar com a Björk assistindo a um show.


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[4] AlunaGeorge, o superdançante duo inglês que deve vir ao Brasil em 2014. E que ninguém deve perder.

[5] O gordinho Borko, que tem um som incrível.

[6] A aurora boreal vista da própria cidade de Reykjavík, num raro momento sem nuvens e sem vento.


_Por Dani Arrais donttouchmymoleskine.com

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Vem Quente Que Eu T么 Fervendo!

Justin Jernigan fakedomainname.blogspot.com.br

Filipe Redondo filiperedondo.com

Joe Nigel Coleman on.fb.me/13zx8yS


Revista Noize #64 | Dezembro 2013 | Janeiro | Fevereiro 2014  

”Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, já cantava Chico Science na abertura de “Passeio no Mundo Livre”, em 1997. Fico ima...

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