Page 1

Centro de Estudos do Humanismo Crítico Portugal & América Latina

Grupo de Estudos Noética

JOÃO BARCELLOS

Rey & Mason a odisseia ibero-afro-americana de um ilustre apostasiado que serviu a João II e Manuel I e veio a ser um rei branco entre guaranis & com eles construiu o Porto das Naus em Gohayó na primeira comunidade mameluca da Ilha de Brasil

Sam Paolo dos Campi de Piratinin, Gohayó & Maratayama / Ilha Comprida. ISBN 978-85-290-0944-5 BRASIL


Índice

Apresentação / Fê Marques DA LIGA HANSEÁTICA AOS CONFINS DA LINHA DE TORDESILHAS

Parte 1 DA ILHA-FEITORIA DE S. TOMÉ AO FORTE DA COSTA DA MINA / o aprendizado O SÁBIO APOSTASIADO... MAS VIVO / a resistência JUDEU, CAVALEIRO & OUVIDOR O BACHAREL / o cristão-novo que fundou o primeiro núcleo luso-americano ILHA COMPRIDA berço da raça mameluca

Parte 2 GUERRA D´ IGUAPE & MARCO TORDESILHANO [Resumo d´ Estudos & Palestras]

Parte 3

POEMAS

Parte 4

OUVIDOR DA AVENTURA / conto épico

Parte 5

PORTUGAL / Política d´Estado, Navegações & Ciência

Parte 6

ANOTAÇÕES, FONTES & BIBLIOGRAFIA

ANEXO

CANANEIA & GOHAYÓ - Ou: 1500, o século hebraico do

Brasil a partir de um bacharel e ouvidor, judeu apostasiado.


APRESENTAÇÃO

Da Liga Hanseática Aos Confins Da Linha de Tordesilhas Fê Marques

Ninguém conhece o Brasil sem ter ciência historiográfica da globalização encetada antes do Tratado de Tordesilhas e a partir da Liga Hanseática, neste caso em particular, nos salões de Feitoria portuguesa de Bruges. Do monopólio mercantil de entre os Séculos 13 e 18, a Liga fez do mundo conhecido um globo humano que os portugueses souberam muito bem perspectivar nessa estrutura com a genialidade de Pedro, o mais ilustrado dos príncipes no Século 15, irmão do rei Duarte e avô do rei João II. É um ciclo reinol e eclesiástico que domina o comércio das nações europeias.

“Alcançar o sucesso político e econômico conseguido através da Feitoria de Bruges nas novas praças atlânticas é o que se imagina da Carta de Bruges enviada por Pedro ao irmão e rei Duarte, pois, nela insinua que a tomada de terras aos mouros na África não deve ser prioridade: prioridade é expandir os negócios do reino e dar conforto ao povo”, escutei de João Barcellos, na sua


palestra “As Feitorias e a Economia Global que determinou a Economia Liberal assente no Brasil a partir do Porto das Naus e serr´acima” (São Paulo, 2007). A exposição, que também era uma homenagem ao professor e cartógrafo Alfredo Pinheiro Marques, do Centro de Estudos do Mar, fez-me pensar em algumas das apostilas escolares do ensino médio e universitário: como é possível errar tanto na história de uma nação? Para o jornalista e escritor João Barcellos, a Carta de Brugges é o sinal claro e inequívoco dos conhecimentos que existem na Corte lusa acerca da viagem do capitão Sancho Brandão – “[...] e alguns historiadores confundem o capitão da armada do rei Afonso IV com o famoso padre e navegador Brendon, mas a documentação vaticana limpa todas as poeiras estóricas e percebemos, então, que a “terra grande de gente nua e muito pao vermelho” a que Sanches Brandão se refere vem a ser a tão secreta informação (entre outras) que perdura até João II” (Barcellos, idem) –, conhecimentos que estão na mente de Pedro quando, na sua viagem pelo mundo, encomenda um mapa mundi a fra Mauro, do qual João II fará a leitura para o Plano da Índia sem precisar se preocupar com aquela terra a oeste de Cabo Verde. A tal “[...] terra que Colombo não visita, porque não o queira, mas porque as suas ordens são outras: ir além pela Índia imaginária que os portugueses deixam correr solta entre cartógrafos, astrônomos e marinhagem. Colombo sabe que não sabe e o diz no seu diário de bordo, pois, está na missão de entreter os reis espanhóis, não para descobrir seja o que for – mas descobre outras terras, e nem no retorno passa pela terra avistada e visitada por Sancho Brandão em 1342”, como disse o mesmo Barcellos na palestra “Colombo: o espião de João II que deu certo” (S. Vicente, 2009). A missão de Colombo é de um aparato político tão flagrante que só isso explica o fato de João II não lhe cortar a cabeça e o deixar ir até os reis espanhóis anunciando novas terras, mas não a do Pao Vermelho: uma trama e tanto. O emissário e representante joanino ao Tratado de Tordesilhas é o navegador e astrônomo Duarte Pacheco Pereira que, no seu livro Esmeraldo do Situ Orbis (q.s. Dos Sítios Da Terra), repete informações da carta de Afonso IV ao papa Clemente VI, datada de Fevereiro de 1343. Ou seja, ele mesmo conferiu os dados, como logo depois faz o mesmo Bartolomeu Dias, e ambos já no reinado manuelino. Mas antes, em Tordesilhas, naquele ano de 1494, Duarte Pacheco Pereira é o sábio e o diplomata que em nome de João II defende os territórios conhecidos e não revelados e que envolvem dois monumentos cartográficos: a carta afonsina e o mapa de fr Mauro.


A conexão política entre a Liga Hanseática e o Tratado de Tordesilhas é tão óbvia que no mesmo ambiente galego também se trata de proteger as pescas lusas, não somente a questão de além-mar. Em sua palestra “A Economia Liberal que Lançou o Brasil que Temos Hoje” (Iperó, Morro Araçoiaba, 2011), João Barcellos analisou esta particularidade para demonstrar que “a nacionalidade brasileira tem uma geografia específica: de Gohayó ao planalto de Piratininga passando pelos sertões do Piabiyu e o fabuloso Cerro Ybiraçoiaba, onde Afonso Sardinha fez a primeira siderurgia da América e nela o governador Francisco de Souza instalou a Villa de Nª Sª do Monte Serrat despachando daí mesmo; e daqui mesmo, o Morgado de Mateus reinstaurou a Capitania paulista povoando e municipalizando áreas sesmeiras jesuíticas para fazer nascer o espírito do ser-estar brasileiro ignorando, como fizera Cosme Fernandes, a linha tordesilhana”. Esta análise é rara e só mesmo um investigador como João Barcellos poderia fazê-la após tantos estudos sobre “o Brasil que nasce da economia liberal assente ao longo do Piabiyu, e no qual surge o bandeirismo, o tropeirismo e, logo, a expansão agroindustrial”. Em tudo está o espírito mercantil global da Liga Hanseática. Com o cuidado de aferir dados nas obras fundamentais de Ab´Sáber, Donato, Lutzenberger (e com estes três em conversas para registro) e Pinheiro Marques, mapotecas e institutos, Barcellos achou, depois de publicar “Do Fabuloso Araçoiaba Ao Brasil Industrial” (o título diz tudo), o momento certo para compilar o que havia estudado acerca do “rey branco, judeu, mason e senhor de Maratayama”. É interessante verificar que ele vai além da questão histórica, porque agrega informações de importância ecológica relativas à formação do Porto das Naus e de Maratayama, sem as quais não se poderia sequer saber como o Bacharel teria resistido por mais de 30 anos a outros interesses de poder, local e global. A atitude de João Barcellos diante da História brasileira é a de um luso dos quatro costados que se identifica com a realidade histórica. MARQUES, Fernanda [Fê]. Antropóloga e Profª de História No verão vicentino da antiga Gohayó, em Fevereiro de 2014.


Parte Um


DA ILHA DE S. TOMÉ AO FORTE DA COSTA DA MINA o aprendizado

A segunda metade do Séc. 15 é uma efervescência política, militar, social e náutica. Mas também esotericamente filosófica a indiciar já um iluminismo libertário através dos ofícios mais artisticamente sofisticados: os técnicos militares e os astrônomos, os físicos (médicos) e os cartógrafos, são profissionais que mais se acham no meio esotérico, principalmente como free masons na Inglaterra, onde a liberdade de expressão não tem a censura direta da cristandade absolutamente obesa. Entre os centros acadêmicos europeus onde o humanismo crítico é foco está a Universidade de Salamanca, que forma espíritos para uma sociedade de livre expressão segundo a tradição árabe, apesar da censura clerical de fundamentalistas islâmicos e cristãos. Para os fundamentalistas de todos os credos quanto mais ignorância entre os povos, mais seguras e imperiais continuarão as igrejas. A sabedoria é ainda um tesouro guardado entre religiosos, mas já existem pessoas da burguesia que dominam a praça mercantil e, assim, pelo poder econômico que corrompe a nobreza e o clero, os seus filhos têm acesso às academias e se formam físicos, pedagogos,


filósofos, tecnólogos em náutica e ciências da natureza. É neste ambiente que o duque Pedro, o Infante das 7 Partidas, encontra o tesouro sociocultural que o transformará na ponta do progresso institucional português e logo com a fundação da Universidade de Coimbra sob uma certeza: “Odeio os homens estúpidos, e as suas obras ignorantes” [da Lápide da Sabedoria, esculpida para sinalizar a fundação da universidade]. Precariamente, a enfrentar o olhar obtuso e inquisitorial da cristandade, um punhado de reinóis intelectuais tenta alterar o estatuto medieval português.

Obs.: A designação Free Mason vem de Artes Liberais, muito em particular os ofícios de cartografia, geometria, alquimia, astrologia, engenharia-militar (mais tarde: arquitetura), etc., e o termo Mason está no Regius Poem, de 1390, também conhecido como Manuscrito Halliwell, por ter sido James Halliwell, bibliotecário e antiquário inglês, quem o descobriu. A atuação maçônica data do Séc. 14 enquanto instituição esotérica no meio das engrenagens políticas e econômicas. A integração dos templários sobreviventes à Maçonaria é feita em Portugal no âmbito da segurança que lhes é dada pela monarquia lusa em agradecimento aos feitos dos Cruzados na conquista de Lisboa pelo rei primeiro Afonso Henriques. É neste enquadramento que surge o bacharel judeu e castelhano nos meios templários de Lisboa.

1443 O duque e regente Pedro, o Infante das 7 Partidas, instala em Coimbra a Universidade para fazer frente aos “homens estúpidos, e as suas obras ignorantes”. 1484 Retorna do Golfo da Guiné o cavaleiro Diogo de Azambuja onde construiu o Castelo de S. Jorge da Mina; 1488 Bartolomeu Dias dobra o Cabo das Tormentas aplicando técnicas de navegação astronômica e tendo com ele tecnólogos de Salamanca em ciências náuticas, entre eles Cosme Fernandes, que também poderá ter colaborado com as investigações marítimas de Duarte Pacheco Pereira. 1490 Os engenhos d´açúcar da Ilha da Madeira produzem melaço de alta qualidade que é vendido a bom preço na França. Quem comanda as operações são venezianos que já tentam introduzir também a vinicultura na região. 1493 Álvaro de Caminha recebe do rei João II a Ilha de S. Tomé, no golfo guineense, para a povoar e nela chefiar importante feitoria militar e mercantil. Centenas de judeus ibéricos forçados à conversão cristã são levadas para S. Tomé e aqui iniciam experiências étnicas e sexuais para lhes cortar a linhagem de gente-nação enquanto se tornam produtores de açúcar e agropecuários seguindo o exemplo madeirense. Álvaro de Caminha é oriundo de uma família com ligações à de Cristovão Colombo, que tem um irmão na corte lisboeta a atuar como cartógrafo – e daqui é que supõe que Colombo não é veneziano, mas um português do sul e terá agido mesmo como peça de despiste a mando do rei João II, que não o matou quando regressou das terras caribenhas... É na Ilha-feitoria de S. Tomé que se inicia uma das mais interessantes odisseias individuais do luso-judeu no mundo. Nesta ilha-feitoria Portugal inicia um processo de fragmentação da massa marrana com orientação da elite da


cristandade: a gente-nação deixa de o ser e ´veste´ a indumentária de gente escrava e cruzada no nome e na alma. Neste aprendizado está Cosme Fernandes, o escravo de ideias liberais. O que aprende? Que pode ser ele-mesmo a desbravar a nação da sua liberdade. Tal inquietude psicossocial incomoda quem lhe está perto, e essas pessoas são reinóis de âmbito palaciano, mas também chama a atenção de quer se interessa pelo conhecimento, principalmente o náutico.

1497 Cosme Fernandes, erudito e judeu, ligado à Ordem (templária) de Cristo, tem curso livre no ambiente palaciano português, mas as intrigas da ignorância contra o seu saber e o que o espera é o desterro. Segue para a Costa Mina, onde fica conhecido por bacharel e, aqui, exerce funções de responsabilidade no âmbito da feitoria do Castelo de S. Jorge. Fez o seu bacharelato nos Colégios Menores [Escuelas Técnicas] da Universidade de Salamanca instruindo-se em astronomia e matemática e o seu espírito não acata ordens por acatar e todos os feitores o querem por perto. Por algum motivo, ou por ter embarcado em viagem – possivelmente com Bartolomeu Dias ou com Duarte Pacheco, pois, ambos singram o atlântico em busca de outras entradas marítimas para acertar o Plano da Índia – é dado como ausente e Pedro Álvaro de Caminha, primo do primeiro feitor, manda que documentos e bens do bacharel sejam leiloados e o resultado levado à feitoria da Mina. Durante algum tempo, o bacharel serviu na feitoria de santomense... Apostasiado e humilhado publicamente como toda a gente-nação no inferno inquisitorial da cristandade imperialmente absolutista, Cosme Fernandes é um dos homens mais cultos que o reinol e feitor Caminha tem a seu serviço. Já em Lisboa estivera envolvido em escaramuças por causa do seu ideal iluminista e, logo, apontado como herege-mason; entretanto, é a sua estatura


intelectual que o salva da tortura ou da fogueira ateada pelos padres. Nem sempre o “inimigo” pode ser tratado como tal na esfera da estratégia do poder, particularmente quando esse “inimigo” é a erudição que o poder não tem com abastança. E assim, tanto nas feitorias do Golfo da Guiné sobrevive um intelectual cristãonovo da ordem templária cujas ações o são por si e não por el-rey, e se embarca com capitães-do-mar é porque o seu saber está além da operacionalidade de um engenho d´açúcar ou contabilidade do comércio negreiro. Na pesquisa das correntes no mar-de-longo Bartolomeu Dias quer demarcar fisicamente o território da Linha tordesilhana e, em 1498, tendo a seu lado a ciência náutica do bacharel Cosme Fernandes, alcança a região austral da Ilha do Pao Vermelho – e, aqui, a história registra o porquê daquela “ausência” do cristão-novo anotada em S. Tomé: ele é o padrão em carne e osso que sinaliza a aventura da divisão do mundo entre Portugal e Castela. O erudito e apostasiado Cosme Fernandes, o Bacharel, é desembarcado no Pontal de Itacurussá... ou, mais provavelmente, na Ilha Comprida.


O SÁBIO APOSTASIADO... MAS VIVO a resistência

1 Cosme Fernandes é um homem jovem, mas vivido. “Tiraram-me tudo e agora dão-me a oportunidade ser outro sob falso altar. Pois bem, que assim seja...”, deve ter pensado. E assim ele atua como empregado-escravo do senhor Álvaro de Caminha e, na quietude das suas observações, apreende os meandros da aventura escravagista e náutica, pois, a ilha-feitoria de S. Tomé torna-se um ponto de encontro de magnatas e mercadores venezianos, alemães, portugueses, castelhanos – todos com um sonho: embarcar no Plano da Índia gizado pelo Infante das 7 Partidas e operacionalizado pelo seu neto e rei João II. Da marujada e dos capitães ele sabe da Ilha do Pao Vermelho e que a Feitoria da Mina é o grande pulo do marujo para as especiarias orientais, mas também para as terras a serem discutidas em Tordesilhas... Em várias considerações técnicas, ele dá a perceber que não é um leigo em astronomia, faz medições e interpreta. Já sabe como funciona a feitoria e como se ergue um atracadouro para o escambo de tudo e de gentes. Entretanto, o sábio apostasiado quer ser ele mesmo. Traído na sua humanidade, quer para si o algo que pode conquistar, construir a sua própria


mina de vivências num atracadouro com produção de melaço para reinóis de todas as cortes.

[o Porto das Naus, em Gohayó / “baía vicentina” pelo pintor Benedito Calixto de Jesus]

E resiste às tentações de ser um empregado-escravo graduado de um reinol e feitor que só conhece a dor das outras pessoas. Já o querem em outras bandas. “É gente-nação e mason tinhoso, crente de uma liberdade que não tem”, dizem, “mas é por de mais ilustrado, sim, o é”, completam. Mas, ser ilustrado numa sociedade de reinóis, capangas e religiosos fanáticos pode ser um rastilho a ser aceso em qualquer instante. A sua visão iluminista de mundo está além da realidade que o faz escravo. Mas, entre os reinóis cavaleiros e navegadores existem alguns que lhe admiram a intelectualidade e a ciência náutica. Da sua vivência nas feitorias de S. Tomé e da Mina aprende com os negros vendidos pelos próprios negros e revendidos pelos brancos que a humanidade é um exercício de sobrevivência pelo poder precário da liberdade provisória.

Pois, que a liberdade é um estatuto provisório: hoje se é dono, amanhã se é escravo.

2


No instante em que serve de âncora e é lançado no Pontal Sul, o cristão-novo e bacharel Cosme Fernandes passa de escravo apostasiado a ser ele-mesmo e livre entre dois reinos. Enfiam na terra uma tosca cruz de pedra a sinalizar a posse d´el-rey de Portugal e da Igreja cristã, e pronto, lá se vai a caravela de volta ao golfo guineense e aqui fica ele, o marco vivo.

Aqui ele conhece um pouco das terras novas que os mapas só registram pontualmente, como o da carta do rei Afonso IV ao papa Clemente VI, em 1343. Algum tempo depois e já de bem com alguns nativos e quando de um chefe guarani recebe a filha de presente, como é costume tribal honrar gente de fora e importante, logo percebe que o lugar agora dito itacurussá [q.s. cruz de pedra] pelos nativos pode ser ponto de referência náutica, entretanto, tem a aquela barreira de ilha comprida como referência melhor, mas não lugar para ser habitado, e demanda terra mais a norte onde eles têm aldeia e à qual chamam gohayó. Está extasiado. Tem mulher, tem o poder de mando pelo cunhadismo acidental. “Sou eu mesmo, aqui, nesta terra minha. Que el-rey fique com o seu Portugal que eu, nesta terra nova, faço a minha nação”, reflete e assim age. Está com tudo na terra “de cascas de ostras que o gentio antigamente comia e se acham hoje montes delas cobertos de arvoredos”. Sim, é verdade que está em terra estranha – terra de outras gentes, e gentes que não se entendem, que se guerreiam e comem os melhores guerreiros mortos para ficarem com o espírito da coragem. Habituado ao manejo de massas humanas, judias e negras, no Golfo da Guiné, ele não sonha, perspectiva para si outra realidade: construir uma feitoria-reino a partir do atracadouro natural que tem a aldeia dos guaranis em Gohayó. Mão de obra? As centenas de nativos de outras tribos aprisionados na aldeia. Produtos? Farinha de mandioca, peixe e água potável para a marujada dos barcos que passam ao largo – e ele sabe que passam sem rumo certo na demanda de escravos, ouro e pao vermelho. Ah,


ibirapitanga, dizem os guaranis apontando a árvore do pao vermelho. E lá, além do piabiyu, serr´acima, mais gentes, mais terras.

[Rascunho sobre Maratayama. Gaspar Mariano, 2010]

Num choque de realidade geográfica e política, Cosme Fernandes alcança um sonho sonhado nas feitorias do golfo guineense, e decide-se a não permitir que alguém lhe diga o que fazer ou como fazer. É tal o seu engenho que em pouco tempo já tem comércio de bens e de escravos com europeus, e o atracadouro passa ser conhecido como Porto das Naus.

* Da Linguagem Semítica No Mundo Novo... Quando o bacharel Cosme Fernandes se autodenomina senhor da costa sul com capitania em Gohayó, o que acontece? Certo que representa os alinhavos do Tratado de Tordesilhas e a precisão do ponto sul localizado em Ilha Comprida (também, Ilha Branca), onde fora deixado a seu pedido, em 1499 [Cortesão, 1960], aquele judeu-castelhano a serviço do rei João II e, depois, Manuel I, criou na sua ´capitania´ dois movimentos: primeiro, semita, ao incorporar a sua raiz cultural ao meio aplicando o nome ´gohayó´, e segundo, castelhano, em defesa da leitura própria da carta tordesilhana.


O termo gohayó não é propriamente algo da linguagem guarani, ou tupi, ou da fala comum tupi-guarani. De onde vem o termo? Do falar hebraico de um judeucastelhano que em tudo que faz e esconde é gente-nação. E vamos lá: o termo ´gohayó´ / ´goiaió´ vem do hebraico gua [região], hi [ela] e hó [merenda, benefício], q.s. ilha/lugar de provisões. Alguns especialistas na língua hebraica, citados pelo poeta J. C. Macedo [apud João Barcellos, in “Fortalezas, Fortins, Motins de Nativos & Guerra d´Iguape” anotações de 1992], indicam tais aplicações no ir-e-vir de exploradores semitas principalmente aqueles enviados/degredados pelos reis ibéricos ao Mundo Novo. O caso do ´bacharel´ difere dos outros porque ele se havia oferecido para ser ele mesmo o marco do ponto sul tordesilhano.

o que me garante ser de deus um estar no mundo novo é dele erguer nação a ferro e fogo e prazer de gerar novo ser sou a nação que em mim se diz deus e nela me faço querubim

Tudo indica que aquele ´lugar de abastecimento´ foi alvo da sabedoria do bacharel, que se percebeu muito isolado no lagamar da Ilha Comprida e se foi com os guaranis a formar Gohayó à vista dos canais e, ali, erguer o Porto das Naus para receber e abastecer as embarcações: o primeiro grande entreposto marítimo do Mundo Novo e a primeira aldeia-cais da raça mameluca. *

3 Com os guaranis viaja mais para o sul, mas ainda sobre a Linha tordesilhana, e encontra outros guaranis de fala diferenciada, como os Charrua, na região que já se diz entre marujos ser a grande laguna. É já um rei branco. Quem passa pede-lhe favores, abrigo. “Para cá da Guiné mando eu, para lá mande quem quiser”, diz. Com poder de mando para o bem e para o mal, ele ajuda a estabelecer a partir de Gohayó outras povoações, como Maratayama [q.s. onde a terra encontra o mar], e esta, na verdade, a primeira povoação lusoamericana já com cruzamento sociossexual a originar a raça mameluca. Cosme Fernandes lembra-se, certamente, dos seus estudos na Universidade de Salamanca, acerca da raça pura e das raças diferenciadas, e de como a gente-


nação, ou judaísmo, deveria se preservar como identidade física e mística. Mas, também pensa, após o inferno da apostasia forçada sob a tortura e em favor da cristandade: de que vale a raça pura diante do inferno? Assim, em poucos anos, de Gohayó a Maratayama, o notável intelectual e náutico judeu torna-se homem da terra nova e ajuda a formar a raça mameluca enquanto vende milhares de escravos nativos para europeus e faz escambo de tudo mantendo o Porto das Naus como polo dessas atividades, de sorte que aqui mesmo, no velho atracadouro da aldeia guarani, já administra também um engenho d´açúcar com a ajuda de degredados da Madeira e de S. Tomé. A estrutura comunitária litorânea depende só de si, por isso já alguns aventureiros sobem o Piabiyu pela serra para adentrar o planalto e o sertão que os guaranis dizem seu. Sim, existe um rei branco nos confins e a sul da Linha tordesilhana que já incomoda os interesses d´el-rey de Portugal. Sim, que ele ajude na colonização da região, ou se afaste para Maratayama e deixe Gohayó. Aos súditos d´el-rey só interessa o ponto estratégico levantado pelo judeu e mason: o Porto das Naus.

[Imagem do sítio arqueológico do Porto das Naus]

Entretanto, ao judeu e mason interessa viver a liberdade de ser ele-mesmo em terra nova, e nada mais. E sabe: precisa resistir para manter a sua posição de mando enquanto rei branco. Com os mestres de Salamanca aprendeu: resistir é construir a liberdade. A mais notável academia da época continua a criar gente ousada e a deixar um rastro de luz para o futuro. Com o sem os interesses d´elrey já existe nos confins e a sul da Linha tordesilhana outro Portugal e outra raça.


Judeu, Cavaleiro & Ouvidor


a importância dada pelo Infante das 7 Partidas e pelo seu neto e rei João II ao saber dos judeus expulsos da Espanha

eu sou quem do nada me fazem ouvidor nesta costa da mina e me servem com escrava menina aqui dou conserto nas cousas d´el-rey de quem sou servidor e vou além aqui sou nada e tudo e neste além não vejo altares mas de deus sou servidor sou eu & cavaleiro d´além

Lisboa, primavera de 2001

Um velho alfarrabista de Lisboa, amigo de noites de poesia e bom vinho, veio ter comigo no hotel carregando um punhado de papeis, a maioria cópias de documentos das feitorias do golfo guineense. Deste encontro, regado a goles generosos d´Alvarinho, resultou uma nova carga historiográfica sobre a vida de Cosme Fernandes, o judeu, rey e mason que deu origem à Raça Brasileira na Maratayama... Eis o apontamento, um poema e um desenho sobre o dito bacharel.

Naqueles anos do quatrocentos ilustrados pela generosidade de Pedro, duque de Coimbra e regente, Portugal ganha uma dimensão humanista [esta dimensão humanista só a compreendi por inteiro depois da leitura e releitura das pesquisa do Prof Alfredo Pinheiro Marques e de anotações do Prof Manuel Reis] que assusta a elite cavaleirosa e latifundiária que se faz acompanhar por um clero que assume essa mesma circunstância política e social – o que o notável Gil


Vicente descreve em várias das suas peças de teatro –, e tal circunstância favorece o Conhecimento; entretanto, logo, a Ignorância das elites sedentas de terras e dinheiros faz de tudo para atrapalhar o interesse republicano do príncipe já notabilizado na Europa por suas ideias avançadas. Não existem, então, muitas cabeças pensantes em Portugal e a própria elite é um fardo d´ignorância, por isso, quando Pedro assume a regência dá ao irmão Henrique oportunidades de fazer funcionar a Ordem [templária] dos Cavaleiros de Cristo, pois, ele sabe que o Conhecimento é a prática fundamental dos templários juntamente com a boa administração dos bens. Ora, Henrique é o grão-mestre templário, mas por ser simplesmente um cavaleiroso trata de tudo em tal visão de curta distância, não conhece a ação pública de longo alcance..., mas os templários, esses sim, sabem muito bem cuidar do tempo e do espaço. Nesta base é que Pedro concede direitos fundiários a Henrique para administrar feitorias e, obviamente, sendo a Ordem [templária] dos Cavaleiros de Cristo, formada por free masons ao tempo quatrocentista, e muitos deles judeus espanhóis formados na ilustre Universidade de Salamanca, a administração abaixo dos feitores, ou com os feitores, é formada por ilustres templários. A visão de Pedro é sustentada na necessidade de o Estado monárquico possuir um quadro de funcionários com saberes profissionais, e os judeus que já fogem das perseguições cristãs na Espanha não são gente qualquer – é na maioria gente ilustrada, cientistas e tecnólogos. Nos pátios da Ordem [templária] dos Cavaleiros de Cristo os judeus ilustres recebem guarida e oportunidades de trabalho, e alguns deles entram para o círculo restrito e palaciano das decisões reinóis. Um deles, já no reinado de João II, é um jovem chamado Cosme Fernandes, que teve instrução em Salamanca. Cavaleiro e ilustrado, o jovem é alvo de insinuações por ser judeu, e pior, não mais judeu; e, pior ainda, apostasiado. Vive escaramuças nos meandros palacianos e, numa dessas, a Corte envia-o para as feitorias do Golfo da Guiné.

eu sou quem do nada me fazem ouvidor

Vai para a Costa da Mina e para S. Tomé, e na feitoria da Mina é simplesmente o ouvidor.


Os documentos oficiais que referem Cosme Fernandes “no tempo que serviu de ouvidor” esclarecem o seu prestígio de homem ilustrado e servidor da ordem templária. Ele é “nada” no espaço colonial por ser um degredado que presta serviços a el-rey, mas é “tudo” quando representa o mesmo el-rey nas burocracias da administração da feitoria. Se para muitos jovens, mesmo na condição de degredados – e lembro que degredado não é criminoso, é alguém expropriado da sua fé e exilado por isso mesmo –, alcançar um posto no funcionalismo reinol é alcançar uma posição de destaque, para Cosme Fernandes é um ato transitório na sua sobrevivência inferno inquisitorial ibero-cristão, o mesmo que séculos antes levou os templários à fogueira, porque os seus atos mercantis e militares levavam Conhecimento a uma fatia populacional que as elites não queriam em ascensão: a burguesia urbana. Para o inquieto judeu e mason ilustrado em Salamanca a sua vida está além das feitorias, passa pelo campo exploratório das correntes marítimas (com Bartolomeu Dias e, antes, talvez, com Duarte Pacheco Pereira); o seu crédito de homem de ciência está entre grandes navegadores quatrocentistas que aportam nas feitorias africanas – e o que parece estar escrito no seu olhar é a demanda por uma terra que possa chamar de sua, terra nova. Neste contexto, o degredado pode ter solicitado uma experiência como marco vivo da marca tordesilhana, pois, dizem os documentos, ele é deixado no pontal sul da marca para aqui iniciar experiência com soldo a receber da corte d´el-rey Manuel I... Eis aqui, o perfil possível, e diante da papelada oficial existente, do cavaleiro, homem de ciência, degredado e apostasiado Cosme Fernandes, a quem se deve a primeira formação de povoação mameluca (raça brasileira) do ultramar português nos sítios de Maratayama e Gohayó.


O BACHAREL o cristão-novo rey & mason que funda o primeiro núcleo luso-americano [a importância da ´Guerra de Iguape´ para o entendimento do ser/estar luso-americano]

e não há credo e não há vergonha maldita peçonha de gente um arremedo fazem-nos bandidos na terra-mãe fazem-nos animais pela irracionalidade e um dia desterram-nos quais selvagens sem vontade pisados pela pata da própria mãe e outro dia eis-nos por única e própria vontade a gerar outra mãe

J. C. Macedo - ´Balada dos Desterrados´, Coimbra/1976.

1 A leitura sobre os primeiros personagens relacionados à Ilha do Pao Vermelho, ou Brasil, dá-nos uma informação preciosa: a essência da brasilidade começa em dois polos diferenciados que convergem para a sobrevivência e o assentamento de outro Portugal, outra ´terra-mãe´, mais generosa e justa. Ler a odisseia de Diogo Álvares, batizado ´caramuru´ pelos nativos Tupinambá, na Bahia; de João Ramalho, no planalto de Piratininga; e de Cosme Fernandes - o Bacharel, em Maratayama, é ler a odisseia que origina os primeiros focos luso-americanos e que, logo, desbravadores judeus como Afonso Sardinha [o Velho] dão-lhe continuidade político-administrativa e económica.

2


Nos casos da Bahia e de Piratininga os dois desterrados lusos integram-se completamente à vida dos nativos, enquanto que em Maratayama acontece apenas uma insinuação, pois, o Bacharel faz-se presente entre os chefes tribais e casa com as suas filhas no mais fantástico ´cunhadismo´ conhecido na história colonial... para obter o Poder local. A par dos três, instalam-se na costa da Ilha do Pao Vermelho, ou Brasil, dezenas de outras pessoas desterradas: judeus perseguidos pela Inquisição cristã. E também criminosos, diga-se. A história oficial do Poder prefere misturar as situações... Para a comunidade judaica em diáspora na América o objetivo primeiro é assentar, estabelecer a família e o credo. São dois polos que têm objetivos diferentes: a) os degredados por crimes sociais e políticos, ou se integram, ou aproveitam as facilidades que os chefes tribais oferecem em troca de casamentos com as filhas; b) os desterrados pela perseguição religiosa percebem que a América pode ser uma ´terra prometida´ e, logo, tornam-se turma aguerrida a desbravar e a comerciar novas oportunidades. Em cada ato dos dois polos nasce uma comunidade luso-americana que, entre 1500 e cerca de 1550, estabelece um novo querer geopolítico e social além do querer do Trono luso: o Brasil precisa ser uma terra livre. Um dos atos mais relevantes está nas ações do Bacharel que, em cerca de 30 anos de vivências, torna-se uma espécie de imperador do sul a chefiar o mercado de escravos entre nativos e a coordenar batalhas entre as tribos costeiras e as do planalto da Serra do Mar. As suas filhas mamelucas casam-se com marinheiros portugueses e, então, a Ilha do Pao Vermelho, ou Brasil, é já e de fato outro pedaço luso, mas livre das políticas reinóis de Lisboa. E assim é que, intimado a prestar esclarecimentos sobre as suas atividades na colônia do Rei luso, o Bacharel resolve dizer a Lisboa que o território é livre da autoridade metropolitana; no ano 1534, ´o Bacharel´, sob ameaça de ficar sem terras, ataca a nova povoação de S. Vicente e destrói toda a documentação da política-administrativa que ali começa a ter assento. Ali havia construído o Porto das Naus... O aviso é claro. E este é o primeiro grande confronto entre europeus de que se tem notícia na América portuguesa. O ato bélico fica conhecido entre os nativos e os europeus como Guerra d´Iguape e é uma grande demonstração do potencial de liberdade que enche o peito de desterrados e degredados e náufragos. Ou seja: nenhuma política colonial pode acontecer sem o diálogo aberto com as gentes que, malditas em Portugal, salvam e são a Ilha do Pao Vermelho, ou Brasil, diante da inoperância administrativa do Trono. A interação dos colonos não-oficiais com a comunidade judaica permite a instalação de redes comerciais que, embora precárias, funcionam na América do


Sul conhecida e ligada pelos nativos guaranis através do ancestral caminho dito Piabiyu. E neste primeiro momento é o Bacharel a ponta estratégica que mobiliza a política escravagista e a economia rural na adaptação dos conhecimentos europeus ao padrão nativo de tratar a terra. O segundo momento, no planalto de Piratinin, é executado pelo ´velho´ Sardinha, que instala um ´campus´ de atividade banqueira, política, escravagista, mineradora e guerrilheira, entre Ybitátá, Carapocuyba, Byraçoiaba e Byturuna, para depois conquistar o Pico do Jaraguá com o título de ´Capitão das Gentes´ de São Paulo. É este Sardinha um político, banqueiro e militar com tino para o negócio de minas, e é com ele, sob autorização jesuítica, que se instala no planalto o primeiro trapiche, tal e qual aquele engenho do bacharel a que o seu amigo Jeronymo Leitão dera continuidade no Porto das Naus. Com o velho Sardinha - ´velho´ porque tem um filho mameluco com o mesmo nome (o Moço) – expande-se a economia liberal nos ramais piabiyuanos entre Piratininga e Buenos Ayres e Asunción, como se sabe por documentos diversos e testamentos. Obs: A expressão “do pao vermelho” foi retirada da narração do capitão Sanches Brandão, da armada do rei Afonso IV, e o rei a manteve em carta de Fevereiro de 1342 ao papa Inocêncio VI [Biblioteca do Vaticano].

2.1 Tanto o Bacharel quanto Afonso Sardinha são figuras mui desconhecidas na Estória oficial, mas encontram-se amiúde nas pesquisas da vera História lusobrasileira. As pessoas gostam de se afirmar descendentes de João Ramalho, o patriarca, porque este não se opôs a Portugal, mas raramente escutamos e lemos pessoas afirmarem afinidades com degredados judeus como o Bacharel ou o preador ´velho´ Sardinha... Óbvia e objetivamente, também a pesquisa estórica passa por tal acomodação no seu envenenamento da História.

3 O rastro familiar deixado por Cosme Fernandes é enorme e visível documentalmente, de sorte que no final do Século 17 ainda havia herdeiros, como Francisco Alvares Marinho, a tratar de bens enquanto tais junto das instituições municipais e eclesiásticas, e ainda no Século 18 [1725] o bispo Bernardo Rodrigues Bueno cita Cosme Fernandes como “[...] Pessôa de grandes merecimentos deixou em seu testamento declaração de que suas terras ficão oneradas”, etc. e etc., o que demonstra que mesmo depois vencido pelos reinóis da Coroa portuguesa ele continuou a ser o marco vivo e histórico da linha tordesilhana. E mais: testemunho vivo de que a marca tordesilhana não passou mesmo de um engodo diplomático.


Alguns pesquisadores afirmam ter sido o Bacharel um dos homens deixados em Maratayama pela armada de Gonçalo Coelho, para dar início a uma comunidade enquanto ponto estratégico para o domínio do Rio da Prata e a busca do Potosí, a montanha de prata no Peru. Esses pesquisadores anotam Cosme Fernandes como o nome do Bacharel, um judeu. Mas, segundo o historiador Jaime Cortesão, o bacharel é Duarte Peres [talvez, Pires], deixado a sul da Insulla Brasil em Janeiro de 1499, ou anos antes, pela expedição secreta capitaneada por Bartolomeu Dias, que havia dobrado o Cabo da Boa Esperança [África do Sul] tendo embarcado aquele judeu de excelentes conhecimentos náuticos. Quanto ao nome, e ele poderá ter alterado nome para escapar da perseguição feita pela cristandade obesa de miopia mística, a maioria dos documentos mostra um bacharel degredado na ilha de S. Tomé, e, antes, como ouvidor no Forte da Mina, e que o navegador Bartolomeu Dias larga no sul tordesilhano para cumprir o resto da pena em degredo. Sabe-se, também, que em Gohayó é construído a mando do Bacharel um importante atracadouro, depois denominado Porto das Naus. Neste porto ele e um dos seus genros, Gonçalo da Costa, dirigem por anos o estaleiro que vai permitir o reconhecimento da costa sul, milha a milha: barcaças, canoas e bergantins, são mercadorias valiosíssimas que trocam com navegadores lusos e castelhanos, holandeses, ingleses e franceses. Tanto o porto-estaleiro como o morro em que vive [o Morro Xixová-Japuí, segundo documentação jesuítica] são pertences doados posteriormente a Pero Correia em termos de carta sesmeira, em Maio de 1542, e depois doadas aos padres da Sociedade de Jesus [SJ], como se pode ler: "... nesta vila de São Vicente, me foi feita uma petição em que diz que, por Gonçalo Monteiro, que aqui foi capitão, lhe foram dadas umas terras da outra banda desta vila, que é o Porto de Naus, terra que era dada ao Mestre Cosme Bacharel". Entre outras, a pesquisa de Cortesão é a que melhor informa sobre o Bacharel, até porque é a que demonstra o fato historiográfico e nos permite corroborar,


inclusive, que ele foi desembarcado no pontal de Itacurussá, e se não existia pedra-padrão para firmar ali a passagem da Linha de Tordesilhas, ele – o degredado e gente-nação e rey e mason Cosme Fernandes, ou Duarte Peres, – o seria em vida... Terminada a contenda entre o rei branco e senhor de Maratayma, descansa el-rey João III de seus temores acerca de uma colonização tendo um judeumason como pilar, e os seus reinóis chefiados por Martin Afonso de Souza distribuem os quinhões da terra conquistada: para Henrique Montes fica o Porto das Naus (Japuí), para Pêro Corrêa as terras de Itanhaém e Peruíbe e para João Pires Cubas (pai de Brás Cubas) as terras de Jurubatuba e Ilha de Barnabé.

4 E é assim que a leitura sobre personagens, que podemos nomear como prébandeirísticos, ou seja, antes do evento das Bandeiras que vão rasgar os sertões a partir de Sam Paolo dos Campu de Piratinin, muitos anos depois, dá-nos uma imagem da História que contraria os manuais políticos da Estória oficial, lusa e brasileira. Este é o ´século judaico´ da Ilha do Pao Vermelho, ou Brasil, cuja história ainda não foi devidamente pesquisada, mas que desde logo mostra que ser/estar lusoamericano não é um ato de vergonha ou de medo, mas um ato de grandeza no desbravar uma nação nova, e que só assim é possível entender a pujança das Bandeiras paulistas e a maneira como os Bandeirantes ousaram ser mais que o Rei luso, o ´algo´ de vistas curtas... Obs: De uma anotação feita em Lisboa e Coimbra [Portugal, 1975 e 1976] acerca de ´o Bacharel´ e concluída em S. Vicente e Cananéia [Brasil, 1989].


Parte Dois

O bacharel e vestígios arqueológicos do Porto das Naus

GUERRA d ´IGUAPE & MARCO TORDESILHANO


[Resumo d´Estudos & Palestras]

Pouco relacionada na maioria dos estudos luso-brasileiros, as contendas d´Iguape, nos Anos 30 do Séc. XVI, dão a conhecer particularidades sociais e psicológicas do luso que faz o primeiro luso-americano na ´ilha do pau brasil´ e de como ele se integra aos nativos para se ´achar´ senhor da terra nova opondo-se aos reinóis da Coroa lusa. Conhecer a história d´O Bacharel de Cananéia é saber da luso-brasilidade que deu riqueza a Portugal e fez o Brasil-nação pela alma mameluca...

1 A palavra ´iguape´ tem origem no tupi-guarani e significa ´água redonda´, talvez porque a Ribeira d´Iguape chega ao mar e logo volta para terra, ou, defendem outros pesquisadores, porque existe e abunda na região uma planta denominada ´aguapé´. É geralmente aceite que Iguape foi fundada em 3 de Dezembro de 1538, tendose por referência os documentos historiográficos que anotam essa data comoa da separação de Iguape e Cananéia. O povoado foi elevado à categoria de


Freguesia de Nossa senhora das Neves da Vila de Iguape, aquando da abertura do primeiro Livro do Tombo na Igreja de Nª Sª das Neves, construída na região dita Vila Velha, no sopé do morro que leva o nome ´Outeiro do Bacharel´, em homenagem ao Bacharel de Cananéia que se abrigou na barra do Icapara [Y, q.s. água; Ka´a, q.s. mata; Pará, q.s. mar = Rio Grande / Mar; ou Rio que Vai ao Mar]

2 Os confrontos bélicos de Iguape acontecem... O que acontece? Mais uma vez, e nem será a última, o foco é a batalha jurídica em torno das posses lusas e castelhanas delimitadas pelo Tratado de Tordesilhas, e agora, que é 1534, o castelhano Ruy Garcia de Moschera instala-se com a sua gente na periferia de S. Vicente. Após estabelecerem aliança com o Bacharel e os caciques guaranis por ele dominados, os castelhanos conseguem até vencer os lusos e reprimir a aproximação dos corsários franceses que assolam a costa, e é quando dão origem a Icapara, uma vila criada para sediar uma guerra.

Tendo Icapara como centro estratégico e a aliança do poderio local oferecido pelo Bacharel, os castelhanos lutam contra os portugueses, ocupam e destroem S. Vicente. São lutas acirradas, mas os portugueses conseguem apoios nativos nos caminhos da Serra do Mar e, aos poucos, conseguem tomar conta da situação empurrando os castelhanos de Moschera, e o próprio Bacharel para o sul da linha tordesilhana, até que, em 1536, Moschera se refugia em Buenos Ayres; sabe-se, entretanto, que Cosme Fernandes retorna para Maratayama sob o apoio maciço dos guaranis que lhe haviam dado as filhas de caciques e o poder de coordenar o dia-a-dia de algumas tribos costeiras.

3 Qual é a idéia do Bacharel que domina a costa sul? E, sendo um degredado a cumprir pena, como reúne tanta força nativa em torno de si? Um desterrado. Uma alcunha: Bacharel. Quais são os seus interesses?


Os de um luso-judeu condenado talvez por isso mesmo pelo rei Manuel I e que agora, em terras que pelo cunhadismo acha suas, diz-se senhor de tudo e faz as suas leis. O que é Portugal para o desterrado na terra nova? Nada. O que o rei de Portugal é? Nada. Ele vive como vive acima da Serra do Mar outro velho luso-americano: João Ramalho. Na verdade bacharel não é alcunha, é grau acadêmico obtido na mais prestigiada universidade do Século 15, a de Salamanca; e ele o é em matemática e astronomia pelo que os documentos dizem, ou deixam perceber. E embora notáveis estudiosos o tenham como Duarte Peres (ou Pires) o certo é que ele pode ter alterado o nome na conversão da fé para Cosme Fernandes, como aparece nos documentos brasileiros. Não seria o primeiro nem o último judeu convertido a fazê-lo. Dos seus ofícios nas feitorias do golfo guineense ele aprofundou os conhecimentos que tinha do mercantilismo global (mercadores e banqueiros, traficantes, escambos, transferências para viagens e negócios e etc.) focado na Liga Hanseática, a mais poderosa instituição de monopólios que herdou da Ordem dos Tamplários o ritual politico e econômico do poder financeiro diante de todos os outros poderes – e, não por acaso, o poder reinol da cristandade acabaria incinerar esse ritual... ou acabaria nele. Fora do foco de Bruges, onde Portugal tem feitoria famosa e partir da qual pratica as influências necessárias para obter apoios de banqueiros e mercadores (e estes respondem favoravelmente à perspectiva de uma grande aventura comercial no mar de longo, e não o “tesouro” templário, como se afirma erroneamente, pois, é do Estado luso que sobrevive a ordem ora dita “de Cristo” tendo o infante Henrique como cavaleiroso e grão-mestre), Portugal faz das ilhas atlânticas feitorias avançadas e lucra com especiarias, ouro e escravos. Pelo que a documentação dá a entender, Cosme Fernandes é também integrante da Ordem (templária) de Cristo, e assim, o seu relacionamento na Corte joanina pode ter tido problemas aí mesmo – a saber: o rei João II é cavaleiro da Ordem de Santiago, como fora Pedro, o seu avô duque e regente, e sabe-se que nos corredores palacianos corre ainda sangue da vingança joanina contra os da Ordem (templária) de Cristo que apoiaram a Casa bragantina no assassinato de Pedro, em Alfarrobeira, e nem o nome do infante Henrique é coisa comum neste ambiente. Então, não é de estranhar que o judeu e maçon e templário Cosme Fernandes, ou Duarte Peres, tenha se envolvido em escaramuças fúteis, só pelo fato de “estar” templário... Aqui pode estar o foco dos mistérios que o levaram à apostasia e ao degredo, uma vez que João II notabilizou-se por separar o trigo do jóio no que respeita a alto conhecimento intelectual e tecnológico fosse a pessoa que fosse. De feitoria em feitoria, Cosme Fernandes conquista um arcabouço de saberes que lhe dão fama e ao mesmo tempo inveja, mas ele trata de si mesmo, quer


saber de si e não dos outros. Largado no pontal de Maratayama, dito Itacurussá, crucificado pelos manuelinos como padrão vivo a testemunhar o marco tordesilhano, ele decide ser o divisor d´águas e toma o marco para si, torna-se feitor e rei na plenitude do território imenso que é o majestoso estuário de lagamar – a terra nova, sua nação. Assim é que a gente reinol da Coroa lusa tem que ajoelhar diante dos mandos e desmandos de um judeu e maçon que age sob a sombra das tribos guaranis. Ele não quer saber nem de Portugal nem de Portugueses, e trata somente com gentes que o recebem com simpatia, incluindo a boa vontade estratégica dos castelhanos..., ora, pode ser também a dos corsários franceses ou a dos ingleses e holandeses! O desterrado só tem uma convicção: “Nesta terra nova finquei minh´alma e por ela vou morrer!”. Nativos e europeus entenderam bem a mensagem. Mas os europeus querem não um naco deste poder, querem a terra nova que o capitão Sancho Brandão avistara e adentrara erm 1342 e que ora é geopolítica tordesilhana.

E então, tantos os lusos quanto os castelhanos sabem de veios auríferos em parte da costa, em Maratayama e em Iguape, assim como na subida da serra lá por Jurubatuba. Como vai o Bacharel encarar tanta pressão? Por mais força nativa que reúna em torno de si, ele também sofre contestação dentro das paliçadas das tribos guaranis do tronco Karai-Yo [ou Carijó], e aos poucos, mesmo colaborando com os castelhanos por pura briga de desterrado contra a Coroa lusa, perde terreno, força..., mas não o prestígio, tanto que depois da Guerra d´Iguape ainda se instala novamente em Maratayama, para aí morrer talvez às mãos de guaranis hostis. Só pela terra nova das águas cristalinas entre florestas densas ele até que poderia sobreviver, mas a terra nova tem prata e tem ouro, e o poder regiamente constituído é maior e organizado na demanda por riquezas. Por isso, a Guerra


de Iguape é, num primeiro momento, o pico do poder de um judeu e maçon e, num segundo momento, a sua queda enquanto muralha humana na resistência a Portugal.

4 O enquadramento social e psicológico do ibérico desterrado, por convicções místicas [o judeu, o cigano, etc.] e políticas [oposição à Coroa lusa], mas nunca de criminoso comum, é um caldeirão d´águas que fervem continuamente até ao nascimento do Brasil enquanto Nação; e estas águas juntam-se os quereres particularíssimos da Casa de Bragança, que havia traído Portugal no assassinato do regente Pedro e do seu avô o rei João II, no Séc. XV, e tornaria a fazê-lo diante das tropas napoleônicas fugindo da Lisboa e deixando para trás um Povo ´ao deus dará´... Por esses dois momentos da Coroa lusa é que se pode avaliar o sinal de repulsa que vive no peito da lusíada gente que, dos pequenos portos do norte e do centro embarcam para a terra nova que é a Ilha do Pao Vermelho, ou Brasil. Um embarque que deixa Portugal esvaziado, mas que vai refazê-lo durante três séculos na terra nova, entre ´entradas´ e ´bandeiras´, para logo permitir à gente luso-americana a visão não de um Outro Portugal, mas de uma terra nova que gera uma nova Nação: o Brasil..., ainda sob a Coroa bragantina, mas por pouco tempo, uma vez que o ideal republicano do regente Pedro e do seu neto e rei João II surge primeiro na Ilha do Pao vermelho, ou Brasil, e só depois rebenta os grilhões em Portugal.

5 Perceber as atitudes do Bacharel de Cananéia é perceber aquele Portugal descontente que se faz ao mar e sobrevive na maresia para refazer a alma em terra nova. Eis por que a Guerra de Iguape é uma fonte de antropologia cultural autêntica que nos permite visualizar o Ser português que Está americano e que, então, age como tal para ser ele-mesmo na Liberdade individual que tem espelho nas comunidades nativas em que se integra, domina e explora.

* O rei branco e senhor de Maratayama nunca quis expandir o seu jeito de serestar, deixou-se ficar pelo litoral, sim, milhas e milhas de litoral, uma nação de terras como se pode perceber pela distribuição que delas foi feita após a Guerra de Iguape, e porque não se dispôs a dilatar o seu ´reino´ não fez a jornada piabiyuana de serr´acima e não desfrutou da beleza e das riquezas oferecidas


pelo planalto de gentes chefiadas por João Ramalho. Ora, numa simples observação de estrategista teria vislumbrado um império maior que o reino de Portugal e nem o Brasil seria o continente que é hoje – só o é porque outros judeus, como Afonso Sardinha, fizeram a jornada piabiyuana de serr´acima e ofereceram a Portugal um Portugal luso-afro-americano no entorno das explorações territoriais e de mineração. Se a Guerra de Iguape demonstra a eterna dicotomia das políticas ultramarinas de Lisboa, o ato regionalista de um degredado judeu e mason feito por si mesmo rey branco mostra a dificuldade de uma nação que vive para sustentar uma família coroada e não investe na sua dignidade humana. A marca tordesilhana de Itacurussá continuou o ideal pedro-joanino das ciências náuticas em torno de uma política nacional, mas a visão mística manuelina deturpou a odisseia marítima iniciada com o Mapa de fra Mauro. A estrutura regionalista montada por Cosme Fernandes forneceu o pilar físicosocial que o colonialismo precisava a partir do Porto das Naus e nele fez acontecer outro Portugal. *

Ilha Comprida Ponto Sul Tordesilhano


1 Com dezenas de quilômetros de extensão, a ilha onde o Bacharel desembarcou, tornou-se a referência para a ocupação luso-americana um pouco antes do fim do Séc. 15, uma vez que a chegada do Bacharel se dá pelo ano 1498, pelos indícios de registros da sua saída como feitor em ilha portuguesa no Golfo da Guiné. E mesmo que se aceite os indícios de 1502, ou 1503, nada se altera, pois, é com Cosme Fernandes – o bacharel formado nas Escuelas Técnicas da Universidade de Salamanca e judeu ibérico – que se inicia ao largo da maratayama e, principalmente, na ilha comprida, a construção de uma feitoria ibero-americana: a aldeia-casa que vem a ser o berço da raça mameluca, ou Brasil. E digo ´construção´ para sinalizar que o ato colonial é totalmente personalizado pelo antigo ouvidor da ilha-feitoria de S. Tomé aplicando toda a sua experiência política e administrativa. Ecossistema exuberante de mata atlântica, a Ilha Comprida é agora Área de Proteção Ambiental (APA), conectada ao Circuito Polo Lagamar por conter ainda sambaquis, manguezais, lagoas, falésias, e ser, por isto mesmo, uma região de estudos permanentes em história e geografia, mesmo porque é berçário de um fantástico viveiro de peixes e crustáceos do atlântico sul, além de ponto de passagem de aves migratórias.

Hoje, fala-se de Ilha Comprida enquanto região política e administrativamente autônoma – é municipalidade no mapa do Estado de São Paulo, desde Dezembro de 1991 –, mas, ao tempo da chegada do Bacharel é, na verdade, um pedaço de Maratayama, depois Cananeia. O termo guarani, segundo afirmam caciques guaranis e tupis [in Encontros com a Cultura Tupi-Guarani; Instituto


Geográfico e Histórico de São Paulo, 2011] significa “onde a terra encontra a água grande, ou mar” – nós não damos nome ao local, apenas vivenciamos a circunstância, afirmam os caciques –, e, naquela ilha comprida a perder de vista, talvez umas oito milhas, o Bacharel inicia a sua odisseia colonial sob o mando régio português, mas, na perspectiva de defender a carta política do Tratado de Tordesilhas, i.e, a sul do ponto é Castilla Y Aragón [Espanha] e não Portugal.

Estudo de Fernando Shinji Kawakubo [USP]

2 A percepção que o Bacharel tem da região é imediata: Como alguém vive ´bem´ neste ambiente tão hostil de águas que se chocam e nem matam a sede? E esta ilha comprida que é uma barreira entre as águas?, deve ter-se questionado. A sua primeira ação é, obviamente, adaptar-se ao terreno e saber das gentes, pois, sabe de relatos acerca de tribos no vasto litoral do ponto sul tordesilhano.


Depois de viver sob as ordens reais e de feitores, Cosme Fernandes quer ser ele-mesmo, senhor de minha casa, e só. Ao fazer da ilha comprida o seu primeiro abrigo é que ele desbrava a região da maratayama e conhece tribos com maioria de gente guarani. Gente da beira-mar, mas mesmo assim mais ribeirinha por viver na mata atlântica e se fazer ao mar apenas para pescar. Nas primeiras conversas, sempre precárias por falta de linguagem apropriada, as partes aplicaram a comunicação comum a sobreviventes: precisamos viver. Fugido da inquisição castelhana e abrigado pela Ordem [templária] dos Cavaleiros de Cristo, em Lisboa, o judeu e bacharel Cosme Fernandes, ingressa nos trabalhos profissionais da corporação e conhece, então, a vida política reinol no espaço da intermediação de tecnologias e saberes acadêmicos, o que o leva ao cargo de ouvidor na feitoria de S. Tomé, no golfo guineense. Uma experiência que o leva a conhecer marujos e capitães de grande experiência oceânica, mas também a escutar relatos de viagens antigas no entorno do pao [de tinta] brasil e de como a carta política de Tordesilhas pode ´virar´ o mundo conhecido. Experiência feita na feitoria ele quer agora o mundo, mas..., um mundo onde ele-mesmo possa ser gente! Viu o que tinha de ver, aprendeu o que tinha de aprender entre campos de cereais, vinhas, engenhos d´açúcar, viveiros de plantas diversas, tráfico de escravatura, administração portuária, ora, é chegada hora!, diz para si mesmo, e sai do Golfo da Guiné para ser a referência viva do ponto sul do Tratado de Tordesilhas. Do que se aproveita? Do trato com marujos e capitães, do conhecimento adquirido na escuta de relatos navais. Diz-se que o Mundo Novo é o paraíso que os portugueses não sabem ou não querem tanger, ora, eis me pronto para ser o homem certo no lugar certo... As ordens régias, tanto joaninas [João II] quanto manuelinas [Manuel I], são simples: no encontro de novas terras deixem nossas marcas com mudas de plantas e a expansão do reino. Certo, a el-rey o que dele é, e a mim o que eu tomo da terra nova, decidiu o Bacharel. Absorvendo a paisagem tropical na ilha comprida e já envolvido no escambo sexual com filhas de caciques, na maioria de guaranis, ele conquista um poder local que logo alarga para regional ao conceber a ideia de construir um Porto das Naus, mais a norte, em uma aldeia que os guaranis têm como Gohayó. A sua aldeia-feitoria ganha contornos de império e o Porto das Naus passa a ser referência geopolítica nos mares do sul. O bacharel de Salamanca acaba de conquistar o seu lugar ao sol no Mundo Novo. A capacidade de gerenciar o seu império com capital no Porto das Naus é tal que lhe permite desdenhar do rei português e seus emissários. Entre a Maratayma e Goyaó situa-se a sua feitoria, espaço que muitos marujos portugueses adotam como terra nova e aqui lançam mais sementes lusoamericanas: a raça mameluca é uma realidade social e cada vez mais política. 3


Entretanto, o bacharel que desembarcou na ilha comprida continua o mesmo enquanto referência viva do ponto sul tordesilhano, mas a política reinol de Lisboa é outra e esbarra nos interesses regionais assentados pelo feitor a vulso e feito por si mesmo e já agora rey & mason. Para ele, o espaço entre a Maratayma / Ilha Comprida e Goyaó é o seu espaço-tempo de glória, o qual não tem interesse em dividir com o rei português, tampouco o espanhol, embora saiba que abaixo do ponto sul é território de Castilla y Aragón. Para os portugueses, o Porto das Naus, em Goayó, tem importância para o domínio do Atlântico Sul, por isso, a armada chefiada por Martim Afonso de Sousa, três décadas após o Bacharel ter fundado o porto, obriga-o a deixar a região, e ele segue para Iguape, aldeia organizada pelo castelhano Ruy Garcia Moschera, com apoio direto do próprio Bacharel. Por seu lado, Martim Afonso de Sousa transforma Goayó em São Vicente e inicia a ocupação luso-católica da região. Aos poucos, ficam apenas vestígios da feitoria do Bacharel... 4 O poderoso Bacharel tem forças guerreiras nativas e aliados castelhanos para defender o que considera ser a carta política de Tordesilhas, que os portugueses não respeitam. A sua força não é apenas tribal-militar, é também econômica, pois, a partir do litoral, emissários seus palmilham o ancestral Piabiyu dos guaranis que liga às tribos dos sertões além da Serra do Mar, logo, um poder econômico e logístico que lhe permite realimentar a força militar a qualquer momento... Por outro lado, a raça mameluca defende-o, percebe nele o chefe nato, e quer ter dos portugueses o mesmo tratamento que tem dos castelhanos, que estão na região, mas não lhe cobiçam a terra. É preciso agir e municiar as gentes. O Bacharel sabe de um navio corsário atracado perto da ilha comprida e, com apoio de Moschera, toma-o. Tem agora armas suficientes para atacar as forças do reinol Sousa. Corre a era de 1534. A força do Bacharel avança contra São Vicente e destrói a nova aldeia não deixando nem registros cartoriais e libertando presos das carceragens. No recuo, fazem trincheira num outeiro na entrada de Iguape e com peças de artilharia saqueadas aos franceses do navio corsário.

Imagem do Outeiro do Bacharel


A tropa portuguesa da armada chefiada por Martim Afonso de Sousa é bem melhor preparada e Guerra de Iguape define o fim da carta política de Tordesilhas e o fim da feitoria Maratayama / Ilha Comprida e Gohayó gizada e mantida por Cosme Fernandes durante 30 anos. 5 E de novo o desterro. Moschera foge para a Ilha do Desterro [Santa Catarina] e o Bacharel vai junto, mas logo retorna para viver na ´sua´ Ilha Comprida e sem se envolver mais em questões políticas e bélicas, uma vez que o seu Porto das Naus é agora parte da geopolítica colonial portuguesa que começa, efetivamente, em São Vicente em termos de cidade e de capitania. Concluindo... A interessante história construída pelo bacharel Cosme Fernandes em torno de uma feitoria própria entre Maratayama / Ilha Comprida e Gohayó / Porto das Naus deve ser entendida, primeiro, como o marco divisório do ponto sul tordesilhano, e segundo, como a ascensão lenta da raça mameluca no contexto colonial português e expandida pelas gentes de serr´acima.

Observação de Aziz Ab´Sáber “Acerca do Bacharel e da Ilha Comprida temos ainda muita história para ser recolhida e contada. Ao ler o rascunho do pesquisador e escritor João Barcellos acerca do ´ponto sul tordesilhano´, observo que ao tempo do ´bacharel´ a região que agora conhecemos por Ilha Comprida foi o ´ponto´ que primeiramente pisou esse antigo ´ouvidor da feitoria de S. Tomé, a serviço do rei João II´. Ele não poderia ser, de fato, um marujo simplório, porque logo verificou que as condições geo-climáticas locais não eram apropriadas e, ao mesmo tempo, dialogou com as tribos guaranis e tupis, sendo que em ambos os casos, era preciso um histórico de conhecimentos. A sua experiência no golfo da Guiné, lembra-nos João Barcellos, fez do ´bacharel´ a referência viva do Tratado de Tordesilhas e, por isso, ´a Guerra de Iguape demonstrou a raiz judeo-castelhana desse homem que lutou contra Portugal para defender os interesses de Espanha tendo o tratado como lei política´. Segundo os estudos deste incansável intelectual luso-brasileiro, esse ´ponto sul tordesilhano é o berço da raça mameluca´, porque, defende ele em tese historiográfica, ´o bacharel criou em torno de si uma força-tarefa de ocupação tendo o escambo sexual com as nativas como eixo principal´”, escreveu o geógrafo e professor uspiano Aziz N. Ab´Sáber, que estudou a maravilhosa incidência de microrganismos no estuário da região [in Encontros com João Barcellos, em Cotia, ano 2012].

Estudos Observados /// A área está localizada no litoral sul do estado de São Paulo (região sudeste do Brasil) inserida no macro compartimento do Litoral das Planícies Costeiras Estuarinas. A região é mais conhecida como vale do rio Ribeira de Iguape. Duas importantes feições geográficas são encontradas na área: a desembocadura lagunar da Barra do Icapara (delimitada por uma ilha barreira chamada de Ilha Comprida) e a foz do rio Ribeira de Iguape. Esta área é caracterizada por um intenso processo morfodinâmico de crescimento da Ilha Comprida para Nordeste (NE), erosão da Ilha de Iguape na margem esquerda da desembocadura lagunar da Barra do Icapara e crescimento de um esporão arenoso no sentido Sudoeste (SW). Fernando Shinji Kawakubo [Laboratório de Aerofotogeografia e Sensoriamente Remoto / LASER; Departamento de


Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo] – in Investigaciones Geográficas, revista; nº68; México, Abril de 2009. /// O relevo apresenta restrições à ocupação urbana. Há 5.000 anos, quando se desgrudou do continente, a Ilha Comprida tinha apenas 18 km de extensão, contra os 74 km de hoje. O crescimento de período mais recente está documentado por fotografias aéreas e de satélites. Tive acesso a fotografias tiradas de avião em 1962, 1973 e 1991 e a imagens produzidas pelo satélite francês Spot, de 1994, e pelo norte-americano Landsat, em 1997. Com isso, pude verificar que apenas entre 1973 e 1991, um período de 18 anos, a Ilha Comprida cresceu 500 metros. O crescimento da Ilha Comprida ocorre mais precisamente em sua porção nordeste, no local conhecido como Barra de Icapara. O que vem ocorrendo é um intenso recuo da margem da ilha de Iguape, cuja terra se desloca para a Barra de Icapara. É um fenômeno que continuará ocorrendo [...], haverá uma nova dinâmica entre o fluxo de vazante da barra, que vai aumentar, pois haverá soma das águas do Rio Ribeira e do Mar Pequeno, e as correntes litorâneas. Wendel Henrique [geógrafo, do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), da UNESP, campus de Rio Claro]

Parte Três


Poemas acerca d´O Bacharel & sua odisseia na Ilha do Pao Vermelho, ou Brasil

Cananéia, Ilha Comprida, Gohayó & Iguape

Ó terra, minh´alma! Longe está a Liberdade a alcançar. Ó terra, minh´alma em ti s´espraia em novo olhar


e sentidos. Desterrado, mas forte no querer a Vida, não quero saber de norte nem de sul: preciso m´encontrar, saber d´Eu em profunda fala, olhar adiante com a Verdade, que em minhas ventas está a idade d´alguém acusado de ser “ninguém”, alma penada, perdida... Quero vos contar a sina d´alguém que sabe da Morte em Vida. Dizem que sou “nada”, e o garrote mostraram-me, mas fui ao mar de longo para uma morte que dizem mansa, e eis me, ora, noutra realidade. Disseram-me “és nada”, e da boa cidade caí em ilhas onde o luso faz aldeia e outra cama. Decidi ser Eu mesmo, a vida não entregar ao acaso d´injustiças místicas. Se há norte Eu o sou, e minha fala é meu forte! Ora quero ouvir d´alguém “és tudo” , cantar outra sina, noutras paragens ser a Palavra e a Ordem. Ah, ora Eu sou a nova cidade! Degredado, náufrago e “nada”, eis me agora um quase “tudo”. Estou na Ilha do Pau Brasil e tenho dama da terra com dote de Poder para aqui o Eu reinar. Quem sou Eu? Falem agora... Já não sou de um lote nem sou besta de carga, sou quem decide do garrote, e para Portugal novas gentes estou a fazer medrar; vendo até barcaça para o luso sem pingo d´alma que quer por aqui ficar. Que o Mundo me aguarde... Entre as tribos d´América, gentes de idade que não sei, estou rei e senhor: tenho cama de folhas e de rede, dama da terra que me faz desejar a Vida, e outras que me vêm com dote de muitos poderes de cacique. Se antes não a tive, a Sorte ora me faz bem. O que sou e o que faço está a s´espraiar nas rotas das tribos e fiz porto pra nele a barcaça ancorar. Do “nada” este Eu é “tudo” e... Liberdade! Nem tudo é paz... Lusos sabem de castelhanos em Iguape e que na Cananéia vieram me saudar. “Tu não tens alma,


nem és luso!”, disseram-me. Quiseram ordenar a este Eu livre ordens do rei luso, e eu disse: “Ei, anote aí: ninguém vem aqui sem pena de morte pra dizer a Eu, o Bacharel, como s´arranchar entre as gentes da Ilha do Pau Brasil. Se vosso rei não alcança outro olhar, eu vos digo que aqui a criatividade é o reino e a Vida é a rainha. Não há cidade grande, temos porto e aldeia, robusta dama que dá gente nova pra terra e que muito gosta d´amar no balanço da rede”. Entenderam? Não. E ouvi o toque de guerra que nos faz destruir até rico alforge, como se o Mundo Novo não possa se achar em Liberdade. Tudo se destrói, tudo se derrama em nome d´el-rey, aqui, à vista d´Iguape! Disseram-me: “És castelhano. Não tens dignidade pra ser luso nem cristão-novo!”. Ouvir tal palavra da inquisição sem pingo d´alma é piada pra encantar no batuque da lua cheia. Eles não sabem que o corte da maniçoba do dia a dia é livre ação sem calote d´escambo reinol. “Eu sou o que está a libertar um Eu que vocês agrilhoaram”, disse. Mais: “Sou arma que o vosso rei não desarma. Eu sou a impunidade...” Se com ´nuestros hermanos´ dei fim à reinol vassalidade que queriam em Gohayó, isso foi lição dada, que entre a Cananéia e a Iguape tem rei a lutar pelo livre viver d´Eu – e, est´Eu é do porte da imensidão que aqui é, e das nove e tantas damas da terra tenho legião mameluca para armar e m´ir arriba! Sou o Novo Mundo por herança d´aventura, e vou morrer como quero... em Liberdade, sem saber do longe nem da latitude. Ó terra, minh´alma é em ti Nação e no sertão outro mar. Fui desterrado e sou rei perante a Morte e a Vida, e Eu-mesmo sou o garrote. Ó terra, ó Ilha do Pau Brasil, não há amar que te resista, mas a aventura não é mansa no querer da Liberdade!


Da Mulher Ao Poder Não me digam o que fazer, aprendo n´América que o Poder está na Mulher – ela, que me é tudo e porto feliz. Com ela conquisto o Mundo e é nela que m´encontro bem longe dos males d´Ibérica, sorte feliz. Aqui sou o rei que o é pelo Homem disperso na Mulher quimérica!

Rei Sou Sou o Bacharel que o Porto das Naus abriu para nele âncoras lançar ousado marujo, mesmo o que também é filho do Luso – esse que me ultrajou! E desses ventos maus ainda vou cobrar o juro... O que é justo. Negaram-me, e ora sou o senhor das naus!

Rey & Mason feitoria e porto mercadores e marujos e gente de dinheiro sob as estrelas na notável salamanca surge o homem novo traja ideais para ser e estar sob as estrelas negam-me a fé e o nome, diz ele no solo onde lê as estrelas não foi à escuela de salamanca para ser e estar nada e s´encara então como homem novo


que outras gentes s´ajoelhem e acendam velas diz ele que levanta ideias e velas e eis que se faz ao mundo por inteiro a ler estrelas ora é feitor e é rei em seu porto

Marco Vivo nada é igual para toda a gente nem o sol nem a lua em tordesilhas dividem o mundo os d´além-mar são coisa sem alma e nua surgem estandartes exuberantes da rica gente e nela um iluminado se perpetua é marco de carne e osso no novo mundo oh precário mundo com sol e com lua no desterro o homem novo gera outra gente

Outra Nação Já se vê pao vermelho na maratayama guaranis se dizem senhores da terra da marca e em gohayó dão ao home da outra terra outra marca o ventre da mulher de maratayama o homem branco ora é rei sem ceptro


a mulher da maratayama dá ao mundo outra marca gente nova canta liberdade serr´acima o rei branco sabe que o mundo novo aqui atraca outra nação nasce na maratayama

Nova Grey deixam-me no fim do mundo querem que trabalhe para o rey me dão soldo bom mas o que eu quero é fazer nova grey ser rey com as gentes da floresta é o que eu quero cada ideia minha aqui é lei pago com a vida esta luz que dou ao fim do mundo


Parte Quatro

Ouvidor da Aventura Conto ĂŠpico de JoĂŁo Barcellos

Ouvidor da Aventura


Ou, a história do judeu que iniciou ao sul da linha tordesilhana a formação da Raça Brasileira.

um conto épico de

João Barcellos

Abertura O mundo português do quatrocentos vive a modernidade de um príncipe com gênio aguçado para a res publica e que o povo europeu reconhece como Infante das 7 Partidas, aliás, um dos raros aristocratas da lusa terra com cultura e conhecimento adquirido em ricas viagens de prospecção social, política, cultural e científica; mas, também é verdade que este quatrocentos é o tempo das armadilhas e traições, estupros ideológicos e escambos sexuais, logo, não admira que um espírito republicano seja trucidado pelo espírito latifundiário de políticos e religiosos – e é o acontece no assassinato de Pedro, o Infante das 7


Partidas, na batalha de Alfarrobeira... E, uns anos depois, o seu neto e rei João II, que o povo denomina como Príncipe Perfeito, vem a ter o mesmo tratamento, porém, mais sofisticado, porque os latifundiários optam por um envenenamento gradativo e incógnito. Entre o Infante das 7 Partidas e o seu neto e Príncipe Perfeito vive a nação portuguesa o melhor desenvolvimento humano, inclusive, com as Ordenações Afonsinas, promulgadas por Pedro enquanto regente em nome de Afonso, um rei ainda criança. O convívio de Pedro, duque de Coimbra e regente, com a diversidade étnica da sociedade portuguesa faz dele um político consagrado à paz social e ao desenvolvimento técnico e científico e em tal ambiente tem contatos com importantes judeus ilustrados, que vivem entre Portugal e Espanha, alguns já a fugirem de perseguições inquisitoriais da cristandade cega e fanática. Entretanto, e apesar de lhe seguir os passos políticos, o neto e rei João II não consegue conter o poder eclesiástico que exige regras severas do Estado português contra quem não reza pela cartilha da cristandade, e se essa gente João II não a leva para a fogueira, trata-a (e até para sobreviver como político) como não-gente obrigando-a à apostasia, e nasce a gente cristã-nova, cujo geração imediata é separada e entregue a famílias cristãs para a “justa” catequese. Entretanto, embora apostasiado, o judeu ilustrado continua a sua vida em altos cargos no Estado, até porque alguns são cavaleiros de ordens esotéricas, como a Ordem dos Cavaleiros de Cristo, que em Portugal substitui a Ordem Templária. O tempo inquisitorial luso-cristão tem o seu início no reinado de João II, precisamente quando o Estado tem a necessidade de povoar ilhas e torná-las socialmente rentáveis, logo, a gente cristã-nova é degredada para a costa e as ilhas do golfo guineense, onde Portugal possui feitorias. Este é o quatrocentos português dominado por uma linha política que se pode nomear como pedro-joanina e na qual surge o Plano da Índia e o suporte administrativo, também no âmbito da Liga Hanseática, para a ação ultramarina que tem continuidade com o rei Manuel I e que, enquanto desenvolvimento técnico e científico, termina no seu reinado devido ao fanatismo do ideal da reconquista de Jerusalém. E, entre as feitorias de São Tomé e do Forte de São Jorge da Costa da Mina surge um ouvidor que, por si só, é história...


Suceda o que suceder, o Brasil será sempre uma herança de Portugal. SOUTEY, Robert – in “História do Brasil”. London, 1819 / Vol 3º.

1ª Parte

Salamanca, 1492. Em todos os setores pedagógicos a universidade vivencia princípios iluministas que apontam para um humanismo crítico que é quase uma unanimidade entre figuras ilustres da Inglaterra; mas, Salamanca é reduto da Espanha e a universidade é mais um foco da catequese da cristandade em pleno catolicismo fanático.


As cátedras superiores são plenamente dominadas pelo clero e os gran latifundiários aliados dos autodenominados reis católicos – Isabel e Fernando, em campanha final para a conquista de Granada. Entretanto, a universidade tem as Escuelas Menores e aqui estão bacharelatos para Astronomia e Direito, Física e outros. Muitos dos mestres são sábios judeus, como o astrônomo Zacuto, e entre os estudantes já em final de curso está um jovem que se especializa em leis e astronomia... Aqui, nesta região de Castela e Leão, vivem várias comunidades judaicas cuja juventude tem o privilégio de adentrar o pátio das escuelas e seguir os passos de alguns sábios.

O mestre mira o jovem de alto a baixo e diz: – Muito bem, mas..., se tu dizes que todas as parcelas da sociedade devem participar da evolução do reino, o que dizes do domínio de outros povos... – Como fizeram os romanos, dominam e aculturam, ou, como fizeram os celtas, integram-se! O mestre passa a mão pela barbicha. Não lhe agrada a liberdade com que o jovem se expressa, e torna a questionar: – Ninguém toma terras e gentes para se integrar, mas para impor uma nova lei segundo a sua grei! – Aqui ao lado – ele abre os braços para logo direcionar a mão direita para o mapa-múndi no centro da sala e focar a Península Ibérica –, bem, aqui ao lado, mestre, na outra banda chamada Portugal, as gentes de lá descobriram terras além-mar e agora estão a povoá-las, mas as que acharam já povoadas, tomaram-nas, e nelas assentaram feitorias, e isto significa, sim, uma conquista, mas também uma certa integração com as gentes nativas e seus costumes – passa o olhar pela turma e pousa-o no mestre –, aliás, o costume da escravidão entre os negros da África está a ser muito bem utilizado pelos portugueses...


Entre os estudantes há sorrisos, mas também apreensão pela fala livre do colega. Chamado à reitoria por duas vezes foi alertado para a possibilidade de ser expulso da universidade. “Aqui, a grei é a Igreja, e a lei é a santa Bíblia”, escutou do padre encarregado da pedagogia. “Não estou aqui de graça, a minha família paga os meus estudos”, retrucou nas duas vezes. Mas logo escutou o último aviso: “A tua família também vai pagar a lenha e a palha que farão de ti uma tocha humana se continuares a blasfemar...”. Não quis comprometer a família e optou, então, por dizer sim e não diante do mestre. O tema de hoje, que o mestre chama de “a expansão em outros mundos pelas correntes do mar e do vento”, leva o jovem a tirar a mordaça que se impôs. Nota a apreensão nos olhares que o focam e mais no semblante do mestre. – Bem, mestre – abre os braços de novo e mira a vasta biblioteca que cobre parte das paredes –, eu entendo assim: se Portugal consegue buscar outros mundos e ainda tirar vantagem disso, é claro que estamos a reiniciar o ciclo da expansão romana, e neste ciclo, embora tardiamente, nasce a Igreja romana que herda aquela expansão utilizando-a para ser também a Igreja dos mundos novos! O mestre abana a cabeça. Sabe da existência de espiões à escuta de retóricas “inovadoras”. – É verdade, meu jovem, é verdade. Mas estás certo na compreensão das circunstâncias históricas que fizeram da Igreja o que ela é hoje, e parte delas criadas [isso veio a calhar...], no âmbito ibérico, pelos príncipes de Portugal, e ora no tempo d´el-rey dom João II, que quer ir a outros mundos além dos mundos conhecidos e lavando os seus capitães o ideal da missão cristã. Muito bem. Muito bem. Ele conhece o mestre há dois anos e sabe que o seu “muito, muito bem” faz encerrar a retórica. Então, com a contrariedade no semblante, retorna ao banco e senta-se entre os quatro colegas de turma. – Acho que o mestre está a evitar que acendam uma fogueira para ti... – escuta de um deles. Ele olha-o e acena a cabeça afirmativamente. Percebe que todo o cuidado é pouco em tempo de espiões e de tochas humanas, e pior, de rodas que esticam braços e pernas até soltarem do tronco... – Ah, mas também podem pôr o garrote no teu pescoço! – lembra o mesmo colega com um sorriso malandro e a fazer um gesto macabro de aperto de saca-rolhas com a mão. O jovem inclina-se para frente e murmura: – Prefiro mergulhar nas cinco cordas duplas da vihuela debaixo do olhar de uma


donzela lá entre as oliveiras, sim, lá atrás da catedral... ali gozamos divinamente a vida! A vida do jovem, desde que se apercebeu das armadilhas que a própria vida lhe oferece por ser judeu, é uma picada esburacada sob um tapete de folhagem outonal. Vê e orgulha-se dos mestres judeus e árabes que levam saber e equilíbrio pedagógico à universidade construída e dominada pelos cristãos – cristãos pouco dados à convivência, pois, preferem simplesmente guerrear em nome do seu deus e dominar outros povos. Mas, se os deuses antigos de romanos e persas e gregos e celtas contemplavam e davam à mulher um lugar digno, por que é que o deus dos cristãos não conhece a mulher e faz dela escrava de tudo e de todos?..., eis o pensamento que amiúde o aflige, atormenta. Mesmo porque ele sabe que a mulher entre judeus também é um escrava – a escrava que o Jesus dos cristãos libertou e com ela fez o seu percurso sendo uma delas (a Madalena) sua companheira... Já interpelou o mestre da filosofia sobre o assunto, mas verificou que linhagem real e religião são tabus até na adega entre bêbados de primeira tigela. Do pai raramente escuta opinião, mas da mãe escuta uma quase canção diária: meu filho, judeu cruza com judeu, trabalha com judeu, ajuda judeu, não enrabicha com cristã ou muçulmana. Estudada e vivida, a mãe envolveu-o com as primeiras letras, ensinou-lhe música e, aos doze anos, já falava como se fosse um rabino. Não, não e não!, religião não é vida para mim, prefiro a ciência, fazer do saber outros saberes, viver com todas as mulheres o prazer das paixões, dizia às vezes para uma mãe perplexa. Que será deste menino?!, murmurava ela. Aos quinze anos era o que ele queria e isso vivenciava quanto podia. Quatro anos depois é um jovem a terminar o bacharelato com a esperança de viver os mundos e a olhar os cinco dedos da mão: saber, ofício, prazer, poder... e poder, murmurava. No meio da maresia política e econômica que se adensa em torno de um projeto de Cristóvão Colombo, antes rejeitado pelo rei português João II, religiosos e cientistas discutem possibilidades de poder e de riqueza. Entretanto, Colombo precisa de dados explicitamente científicos e um dos mestres com quem conversa é Abraham Zacuto, astrônomo que acaba de compilar novas tábuas náuticas para o seu Almanach Perpetuum. Mas, o mestre Zacuto é, então, um dos cientistas preferidos de João II que tem com ele uma ligação através de Duarte Pacheco Pereira, o astrônomo e navegador luso que tem palmilhado o oceano atlântico quase em paralelo com a ação marítima de Bartolomeu Dias... quase, porque nada circula ao acaso nas decisões joaninas para a realização do Plano da Índia, nem a recusa do plano de Colombo foi um delírio, mas uma certeza do saber feito de conhecimento.


O descrédito dado por João II ao projeto de Colombo demonstra que o marujo desconhece a realidade dos resultados já obtidos pelos capitães e astrônomos lusos. No início do ano, Isabel e Fernando conquistam finalmente Granada e a região ibérica respira e canta no embalo da cristandade. O esforço da conquista requisita muito mais que despojos circunstanciais, e se a Igreja não aposta em Colombo, a cúpula econômica isabelina precisa de fontes de riqueza. O que perderá a Espanha com o envio de uma frota ao mundo desconhecido, quiçá, à Índia? E então, Colombo tem a oportunidade de ir ao mar... – A partir de agora, meu filho, não és mais Peres, e sim Cosme – escuta o jovem uma mãe que treme dos pés à cabeça. – Os padres obrigaram-nos a ser cristãos e tomar nome cristão...

Atento, o jovem já sabia que mais dia menos dia os pais teriam que tomar uma decisão para evitar a fogueira. – Mas, onde está meu pai? A mãe abraça o jovem, chorona, trémula. – O teu pai, que mestre alfaiate é, foi feito marinheiro e iria embarcar num dos barcos de Colombo. Mas soube agora que conseguiu escapar para Portugal. Agora, nós também temos que ir. Vamonos juntar em Lisboa. Já tenho a tua trouxa pronta. – Ela segura o rosto dele entre as mãos e termina: – Dizem que os frades inquisidores não têm poder em Portugal e que o rei João II é que manda! – Isso é o que vamos ver, minha mãe!, porque a cristandade é um poder dentro do poder, e João II terá de, um dia..., jogar pelos interesses da Igreja, ou matam-


no. Eu sei que aquele (ah, o dos livrinhos de feira: o Infante das 7 Partidas) que foi seu avô quis mudar Portugal e logo foi morto e atirados aos cães bravos. Um rei sábio como esse João II, ele mesmo, o que recusou Colombo, conhece a lei da sobrevivência cristã: é dando que se recebe. Salamanca, campo polvilhado de fogueiras, os gritos de espanto e de dor dos torturados nas masmorras cristãs mostram o inferno humanamente possível produzido pelas mentes de quem deveria mostrar unicamente o paraíso.

O fanatismo da cristandade provoca a figa em massa das comunidades judaicas que adentram Portugal principalmente por Viseu e Coimbra e logo tomam a estrada para Lisboa; muitas famílias entram pelo nordeste de Trás-os-Montes e alojam-se na serrania de Chaves e Miranda do Douro para se espalharem entre os rios Douro e Minho. Reeditam a odisseia celta e a conquista romana entre os castros e os marcos miliares. Mas é uma fuga dolorosa: milhares de crianças são capturadas e entregues para evangelização em famílias cristãs-castelhanas. Portugal é uma casa fiel à cristandade. O que os judeus, apostasiados ou não (e ora ditos cristãos-novos), encontram na terra do neto do Infante das 7 Partidas? Não têm tempo de respirar. Não há fogueiras acesas, mas os padres inquisidores buscam mais crianças e, também, as mulheres que simplesmente sabem ler e escrever servem como bruxas que conspurcam Portugal e o nome do cristo. Nesta idade das coisas humanas e europeias o rei é apenas o rei, e um rei não é mais que o religioso investido de inquisidor. Prossegue a cruzada entre prisões e torturas. Ser judeu ou negro d´África e nada e o mesmo. Entretanto, há um judeu que escapa amiúde ao cerco inquisidor: o mestre que detém o conhecimento... De aldeia em aldeia, casa em casa, Cosme e a mãe chegam a Lisboa após sessenta e três dias. Têm posses, podem pagar o que a maioria das famílias judias não pode. O suborno de oficiais subalternos e padres regulares é o aliado perfeito que une a família.


Lisboa, bairro de Santa Madalena. Cosme e a mãe um homem de meia idade na Rua da Princesa. Estão na Judiaria Grande. Na velha sinagoga está o homem que procuram. – Pai. Meu pai...! – Não, meu filho, nada de nomes de família – atalha ele –, meu nome aqui é Damião e tu és Cosme, Cosme Fernandes. E a tua mãe é Maria Fernandes.

2ª Parte Em poucos dias o jovem Cosme é apresentado a um cavaleiro da Ordem de Cristo. Estão na casa que o pai conseguira comprar na Rua Nova, perto da sinagoga. O templo é também um dos refúgios da linha de apoio montada pelos templários que, em Portugal, e desde o rei Diniz, operam com o nome de Cavaleiros da Ordem de Cristo e sob uma bula específica emitida pelo papado cristão. – És tu, então, o tão falado moço bacharelado em leis e astronomia... O ego do jovem está inflamado. Um cavaleiro já o conhece. Desconhecia as atividades esotéricas do pai, mas sabia que as tinha. Mas nunca imaginou que estivesse entre os templários, ou que simplesmente lhes fosse ponto logístico. Fugir da inquisição da maneira como fugiu e, logo, reunir a família em outro país, não é um feito qualquer: existe uma mobilidade de interesses. – Meu senhor, serei útil em tudo o que tiver de ser feito, apesar das circunstâncias que me deixam isolado e escravo... – Ninguém é escravo mentalmente, meu filho – corta o pai. E prossegue: – O meu amigo vai levar-te para conheceres um trabalho que te querem dar: ouvidor. O cavaleiro levanta a mão e diz: – Vamos logo. Põe esta capa e este chapéu, tira esse gorro que te denuncia como judeu. Cosme é o judeu por inteiro. Mas tudo se altera muito com a capa e o chapéu. – Aqui, vais agir como cristão batizado em pé. E pronto.


A mãe e o pai, juntos, assistem à cena. Percebem que o que é feito protege o filho e que ele terá de se adequar ao tempo português joanino, já agora igual ao isabelino no trato da judiaria.

3ª Parte Depois da Madeira e dos Açores, os portugueses preocupam-se com a enorme reentrância situada na costa ocidental africana. “É preciso povoar, administrar e defender as terras do mar”, diz-se na corte joanina. – Eis aqui a Costa da Mina e, aqui, a Ilha de São Tomé, dois territórios que contribuem muito para o Reino de João II e também para a nossa Ordem!

Cosme está numa dependência da Ordem de Cristo perto do cais de Lisboa. Na sua frente está um mapa recente das posições ultramarinas portuguesas e, a seu lado, o cavaleiro que ora lhe é instrutor para o conhecimento das leis e das astronômicas já aplicadas à náutica portuguesa. – E isso...?! – quer saber, apontando para um papel enrolado numa das mãos do cavaleiro. Mas ele faz de conta que não escutou e continua: – Bem, meu jovem, a função de ouvidor numa feitoria, rica ou pobre, é ajudar na administração do todo social e produtivo. E precisamos de um jovem na nossa feitoria mais rica: a da Costa da Mina, que ora é Forte de São Jorge. E a regra é simples: já se encaminham propostas para um acordo entre portugueses e castelhanos quanto a pescas e territórios e, ontem, el-rey João II recebeu o naufragado Colombo e sabemos que ele navegou além das posses deste reino, ou seja, ele não tocou na Terra do Pao Vermelho, onde o capitão Sancho Brandão lançou âncora em 1342 e o rei Afonso IV chamou de Brasil em carta ao papa Clemente VI... – ...?! Já ouvi falar de Brasil, sim, mas nunca de Terra do Pao Vermelho... O cavaleiro desenrola o papel e Cosme observa um mapa praticamente esquemático, portuário, com uma terra a oeste da ponta caboverdeana. Junto, está cópia de uma carta régia. – Eis o Brasil, que há mais de cem anos é terra portuguesa! Mas, por ora, o interesse real concentra-se na Índia das especiarias


orientais, e não nas índias ocidentais que Colombo buscou, e por desconhece o Brasil como desconhece o caminho para o Oriente que Vasco da Gama já se prepara para palmilhar! Pela cópia da carta régia o cavaleiro lê Diremos reverentemente a Vossa Santidade que os nossos naturaes foram os primeiros que acharam as mencionadas ilhas do occidente [...], mandamos lá as nossas gentes e algumas náos para explorarem a qualidade da terra, as quaes, abordando as ditas ilhas, se apoderaram, por força, de homens, animaes e outras cousas e as trouxeram com grande prazer aos nossos reinos e deixa que o seu protegido faça a própria leitura, mas vê na sua frente um jovem que engole em seco por desconhecer tanta atividade marítima mais de um século antes do Tratado de Tordesilhas. Cosme é um jovem de boca aberta. – Mas se o mestre Zacuto é próximo de Duarte Pacheco Pereira e d´el-rey João II, por que não falou isso a Colombo... Pois, sabemos quer os dois conversaram. – Ora, ora, meu jovem, mestre Abraham Zacuto é uma pessoa sábia, não iria conversar assuntos d´Estado com qualquer marujo... Mais uma vez, Colombo é visto como desclassificado na ordem das circunstâncias náuticas que impera em Portugal, e até na Ordem de Cristo. – Por que achas que, ontem, o rei não prendeu Colombo? E por que achas que João II impediu que o papa corrupto Alexandre VI, da família Bórgia, estivesse em Tordesilhas? – Colombo desconhece a existência do Brasil... O que achou pensou ser a Índia oriental e desatou a chamar os povos ocidentais d´além África como “índios”, pelo que ouvi hoje em Alfama. E assim, o interesse d´el-rey é que ele continue a contar essa história enquanto o capitão Gama prepara a armada para a verdadeira Índia e os pesquisadores Pacheco e Dias continuam na demanda de novas correntes!, e, entretanto, a nossa Ordem continua a administrar parte dos dízimos e feitorias como renda que paga também a construção de barcos que vão ao mar... E, por outro lado, a Espanha ganhou benefícios do papa castelhano Alexandre... O cavaleiro percebe-se diante de uma mente brilhante. – Isso mesmo, meu jovem, isso mesmo! E escuta: – Algo me escapa... Esse marujo Colombo é marujo, mesmo, ou é espião bem pago por el-rey João II? O cavaleiro sorri, enrola novamente o papel com a cópia do mapa de 1342 e carta régia, e diz: – Tu és bom em retórica, meu jovem, mas prefiro não comentar... Ah, esta será a tua sala de estudos até estares pronto para levantar âncora e galgar o posto de ouvidor... na Costa da Mina!

4ª Parte


Ainda em Lisboa, o jovem integra-se à Ordem templária na qual apura saberes. Quase todos os grandes cientistas do quatrocentos são membros ou estão na sua periferia esotérica. E são as ordens de Cristo e de Sant´Iago, uma ligada à Casa de Bragança e outra à Casa de Aviz, que servem de abrigo às mentes iluminadas da época. Na verdade, as fontes dos saberes são as notáveis universidades de Salamanca e Paris onde árabes e europeus registram experiências e conhecimentos também recolhidos entre muitos religiosos-cientistas, como fra Mauro, cujo mapa-múndi foi encomendado pelo duque e regente Pedro e passou a ser a fonte de João II para o Plano da Índia.

Antes de tudo isso, o rei Diniz teve ciência suficiente para determinar o plantio do Pinhal de Leiria para a construção da marinha mercante e, logo, o seu filho e rei Afonso IV, a braços com epidemias que matam parte do povo português, manda a marinha em busca das terras já conhecidas como “insullas occidentais” e, em 1342, o capitão Sancho Brandão traz-lhe o que o próprio rei chama de “Ilha do Brasil”. Em nenhum caso sobreveio uma escola náutica e astronômica, porque todas as ações tiveram começo e fim com Pedro e seu neto João II sobre as políticas de sigilo náutico e suas paixões pela ciência e a educação. Um pesadelo para os cavaleirosos feudais e um passo no estilo res publica para o Estado português.

Em finais de 1494, já em Tordesilhas o cientista e navegador Duarte Pacheco Pereira havia espraiado a diplomacia joanina e conseguido um êxito que levaria a rainha Isabel a chamar o rei português de “el hombre”, Cosme não é mais o jovem acadêmico de Salamanca, mas o homem experimentado na retórica


palaciana e na pura vivência sexual que apimenta e faz da vida um campus experimental. – Em três dias partes para o Forte de São Jorge da Mina e, como ouvidor, administrarás também a parte do dízimo que cabe à nossa Ordem. É a notícia que aguardava há anos. – Muito agradecido, meu mestre... – É possível que te chamem a dar apoio à feitoria de São Tomé, ao largo do golfo da Guiné, e se acontecer..., aceita! – Sim, meu mestre. – Ah, o que aconteceu na outra noite no palácio de Sintra depois do jantar d´elrey...?

Dois dias antes, Cosme participava de um encontro de cientistas com assessores reais no Palácio de Sintra. O seu sotaque castelhano e a sua postura de cavalheiro diante de tudo e, principalmente, das moças e damas da corte, sempre causou esgares do tipo “lá vem o judeu com os salamaleques que o levarão à fogueira”, ou, “maldito marrano batizado em pé que farei morrer de quatro como qualquer asno”. Mas isso nunca o incomodou. É coisa que “vem de quem tem brasão, mas não tem estudos”, costumava dizer. Naquela noite, porém, após o jantar na presença d´el-rey João II, o jovem cavalheiro conseguiu momentos agradáveis com uma dama de influência política palaciana. Entretanto, o marido foi avisado e o duelo de honra só não foi às últimas consequências porque a guarda do rei esfriou na ponta da espada os ânimos nos jardins do palaciano. – Vá para Lisboa e não voltes aqui. Aguarda notícias... – escutou Cosme. Era já um nome importante no círculo joanino, ou não teria saído com vida do episódio. Mas, e ele sabia, a sua vida palaciana acabava ali. E foi uma noite de muita sorte... O rei João II, pelo que se dizia na Europa, era o único monarca com uma guarda permanente com membros escolhidos a dedo entre a sua fidalguia. – Não, não precisa falar – continua o cavaleiro. Obviamente, não. Se há algo que é do conhecimento da Ordem é a desordem habitual na vida sexual do jovem de Salamanca. – Sexo prejudica a Ordem? Prejudica a Ciência, meu mestre? O cavaleiro leva as mãos ao rosto, passa os dedos pelos cabelos longos, demora a responder, mas remata: – Prefiro não comentar! Três dias depois, Cosme embarca para a Costa da Mina com passagem, primeiro, pela Ilha de São Tomé, onde deixará documentos da Ordem. Na verdade “assim vão conhecer-te e se precisarem de ti já saberão o que fazer”, ouviu do mestre. Chove forte em Lisboa, mas está tudo pronto para o sempre mágico momento de içar a âncora.


Dois barcos de corso montados por João II passam pela nau durante o percurso. Agora, o mare nostrum português tem uma corrente de segurança contra o apetite imperial isabelino alimentado pelos exilados bragantinos, e estes preferem que a rainha castelhana aposte dinheiro e armas na invasão de Portugal contra o incentivo às viagens de Colombo. Torna-se óbvio que Isabel prefere não provocar febres bélicas em “el hombre” que, aliás, apresenta sintomas progressivos de envenenamento, e talvez ela o saiba... tantos são os bragantinos que a cercam! E chove forte quando a nau deixa São Tomé e ruma para a Costa da Mina. A marujada e outros embarcados não vivem a tormenta, mas só sossegam quando as ondas amainam. Cosme sentia-se já acostumado ao balanço d´alma no gingado do barco e à visão da sujeira e das ratazanas entre nas entrâncias da madeira, mas no agito de agora sente o fel da aventura sinistra tomar-lhe a garganta, e lá vai o fel ao mar. Mas, das ratazanas, a história da marinhagem diz-nos que, apesar de tudo..., foram também comida exótica para matar a fome! A embarcação desliza depois que a massa d´água se acalma e Cosme pode assistir a um dos momentos mais infelizes da aventura marítima: o físico é chamado para tratar do escorbuto de um marujo e a cena é terrível: embebedam o homem com aguardente e o físico corta a gengiva infectada. O físico não tem bola de cristal nem faz mágica, e diz: – Ei, enfiem mais aguardente nele, se morrer que morra feliz! Cosme é recebido com cortesia pelo capitão e feitor do forte. É portador de mensagem da Ordem e nela foi nomeado ouvidor. Ao largo da reentrância ele deslumbrou-se com a paisagem. Aqui, eu vou aprender a montar uma feitoria..., pensou diante de tanta beleza. Sim, beleza é coisa boa, mas ele tem em mente um projeto, e quer lidar com engenho d´açúcar e de vinho, fazer brotar milho e hortaliça da terra, construir uma terra nova... a casa minha. Com os marujos e capitães que atracam na costa aperfeiçoar o saber em correntes e ventos, fazer a linha de Tordesilhas para saber da terra do pao vermelho..., e para isso tem permissão do mestre cavaleiro. É só chegar o momento certo.


– Temos uma casa para vossa mercê dentro do forte e dela cuida uma escrava moça de Cabo Verde... presente do vosso mestre! – diz o capitão com um sorriso maroto. E ele percebe logo que o presente é na verdade um alerta: cuida de ti e dos teus estudos e esfrega-te na escrava. Mas o capitão tem outra novidade: – Um dos oficiais de Bartolomeu Dias quer ter uma conversa com vossa mercê. Ele também viajou com Duarte Pacheco Pereira... – Mui digno e honrado capitão, isso sim é um presente que me alegra muito! – Pois então, arriba meu ouvidor, arriba! Os dois deixam o atracadouro em conversa amena sobre a administração do ouro e dos escravos, além do intercâmbio comercial e diplomático com gente embarcada de outros países. A adaptação do ouvidor às circunstâncias africanas é tão rápida e peculiar que até os macetes para administração mais produtiva dos engenhos d´açúcar ele vai buscar aos judeus que passaram pela Madeira, onde os mestres genoveses deram início a tal indústria agrária com apoio do regente Pedro. Os judeus aproveitam o liberalismo comercial das feitorias para refazerem a vida e, em alguns casos, retomam cargos públicos. A nação portuguesa carece de gente escolarizada. Parece que toda a nobreza quer é viver à sombra dos benefícios reais, como próprio regente Pedro havia denunciado na sua já célebre Carta de Brugges, ainda hoje muito comentada – e, diz-se no murmúrio palaciano, o instrumento com o qual deu base às Ordenações Afonsinas e o mesmo pelo qual a Casa bragantina e o Clero decidiram dar-lhe fim em Alfarrobeira. Quando teve acesso a uma rara cópia da carta que circula amiúde entre os cavaleiros da Ordem é que Cosme tomou ciência do espírito republicano que embasa o reinado de João II e toda a vida daquele que foi o Infante das 7 Partidas. Não admira que Henrique tenha sido só e simplesmente o grão-mestre da Ordem de Cristo, pois, o irmão Pedro é tomava as decisões até na divisão dos dízimos, chegou a comentar quando o seu mestre-cavaleiro aludiu certa vez à vida sombria do infante Henrique. E, mais uma vez, o seu tutor na Ordem disse: “prefiro não comentar”. Cosme percebeu que o mestre-cavaleiro não era neutro, preferia incentivar o seu protegido a pensar em soluções de vida, não apenas em retórica. É óbvio para Cosme que a Ordem de Cristo só existe, e assim continua a templária, porque o Reino decidiu apoiar a causa pelos esforços que a própria Ordem desenvolveu no estabelecimento do Estado português e suas fronteiras ainda no tempo de Afonso Henriques, o rei primeiro. E nela têm os judeus uma casa e um abrigo, apesar da cristandade fanática. E agora, na longínqua costa d´África, um ouvidor homenageia a casa com um serviço de alto nível administrativo. Entretanto, a Costa da Mina exerce um fascínio grande em Cosme Fernandes. Ainda em Salamanca leu uma descrição da Costa do Ouro feita por Abu Ubaid


Abdala, ou al-Bakri, geógrafo em Córdoba no Século 11, e soube que árabes e africanos tinham, então, negócios estabelecidos na região. E mais... – Olhe, meu rapaz, quando o mercador Fernão Gomes arrendou esta costa ele tinha que avançar até 100 léguas para expandir o território, e isso, creio eu, há uns 30 anos, e foi ele que conheceu várias tribos muito bem organizadas, porém, sempre em pé de guerra... Eram os akans, os fantis e os ashantis. Para essa gente a riqueza é ter escravos, então, fazem guerra para conseguir mais escravos... – Sim, eu sei, capitão – diz Cosme. – A escravidão não é uma invenção portuguesa, nem a caravela... Bem, e essa gente tem uma agricultura bem organizada, além de bons negócios em sal e ouro! Cosme conversa finalmente com um dos mais viajados capitães portugueses. É um prático, mas aprendeu a ler e a escrever a bordo de várias naus para conseguir o posto de capitão. Agora, é um dos melhores conselheiros sobre correntes marítimas e a ele recorrem notáveis como Bartolomeu Dias e Duarte Pacheco Pereira. – Pois então, meu rapaz – continua o velho capitão –, e esse Fernão Gomes conseguiu chegar à fala com o povo Akan, aqui, na bacia do Rio Volta, e aqui, com Diogo de Azambuja, construímos o Forte de São Jorge da Mina... – ... e todo o ouro que daqui sai alimenta o Reino e as armadas que vão ao mar de longe em busca do melhor caminho para a Índia... O capitão sorri, sabe que está diante de um homem estudado, brilhante. – Acredito que o caminho para a Índia já está definido há tempos, ou o capitão Gama não teria sido incumbido por el-rey dom João II de formar a armada e nem o Colombo estaria solto por aí...E aliás, Colombo foi um dos marujos que trabalhou aqui, com Azambuja, e creio que com carta de um mercador genovês! O capitão faz um gesto de cansaço e diz: – Meu bom rapaz, tu és inteligente e já vi que vida de palácio ou de forte não é para ti. Deve estar a chegar por aqui o Dias e o Pereira, cada qual com as suas missões, aproveita e embarca o teu sonho na rota de um deles!

** – Se tu ires pro mar que leva pra outras bandas tu leva eu, ouvidor meu? – quis saber a jovem num português ainda difícil e que Cosme lhe ensina aos poucos. Ele observa o corpo esguio e belo da caboverdeana. Os longos cabelos negros e encaracolados formam uma túnica exuberante sobre as suas costas. – Olha, minha menina, quando eu for, e tu sabes que vou, não poderei embarcar mulher – ele vê a tristeza no olhar dela e segura-lhe a cabeça entre as mãos –, mas, vou deixar-te bem. Comprei o tasco do cais e quero que tu continues a tua vida


com esse negócio em meu nome e com pulso firme de mulher que sabe da vida. Ó, minha princesinha de ébano! – Tu ires pro mar e mim aqui ficar pr´aturar merrujo bêbado... – Minha menina, negócio bem organizado é pra toda a vida e eu sei que tu vais dar conta do recado. A minha vida é longe e eu quero ser o marco vivo do mundo novo... Diante da estranheza que, súbito, surge no semblante dela, ele reage com uma risada: – Ai, ah, ah... Eu vou construir uma terra nova! **

– Sim, meu caro capitão – ele lembra-se da conversa com a escrava –, podeis ter a certeza que o meu rumo tem apenas uma parada por aqui. – E daqui, o que tu tinhas para aprender já está na memória e, agora, deves aproveitar o conhecimento para fazer coisa nova em outro lugar, quiçá, meu rapaz, um lugar teu! Se até o incompetente Colombo logrou achar outros mundos...

Ilhas do golfo guineense: São Tomé, 1495. Sob fortes temporais, a tropical feitoria portuguesa recebe uma notícia e uma proclamação: “El-rey João II é morto. Viva el-rey Manuel I”.

Cosme Fernandes está na ilha em missão de rotina administrativa para a Ordem de Cristo. – Um vulcão de desencontros vai dominar Portugal, como o vulcão que fez esta ilha... – escuta ele entre a marujada sempre espevitada pelos bragantinos e a Igreja contra a política joanina. Morto após uma longa doença, que também levou em períodos diferentes gente que lhe era muito próxima, o Príncipe Perfeito que ousou desafiar os costumes régios e se apaixonou por Ana de Mendonça – uma jovem que não era a mulher que lhe cabia por linhagem... –, deixa um legado de políticas públicas antes registradas nas Ordenações Afonsinas pelo seu avô e regente Pedro, do qual vingou a o assassinato ocorrido em Alfarrobeira. Cai a Casa de Aviz e, com o rei Manuel I, entra em cena a Casa de Bragança para expurgar a


essência pedro-joanina que lhe havia retirado o poder feudal. Ainda o corpo do rei morto circula diante dos olhos estupefatos de um povo que aprendeu a admirá-lo e eis que o rei posto mostra que só quer saber de salamaleques e benções da padralhada que o instiga à retomada de Jerusalém... Está aberta a rota para um fanatismo de clientelas diversas e o capitão Gama se vende de corpo e alma para estar no novo mapa e obter regalias que o rei morto não lhe deu. A odisseia caraveleira já é tida, em poucos dias de novo reinado, como nova cruzada, pois, alguns capitães de mar são trocados por capitães de cavalaria. A política palaciana volta a subsidiar o feudalismo e tal é a violência contra os povos que Gil Vicente retrata-a como palco da vida que não será a mesma. A era manuelina é megalomania pura, tem a cruzada como foco principal e um Portugal como paisagem. Ah, a Índia, lá iremos, sim, mas como rota para reconquistar Jerusalém!, escuta-se. E o velho cavaleiro de Sant´Iago troca de bandeira para ser cavaleiro de Cristo: o Gama é a imagem do poder pelo poder. No início de dezembro Cosme está de volta à Mina e logo recebe notícias da sua escrava: – Aqui beo um ome dito barmeo e qué palabrar com tu. Entre as notícias que tem da marujada que circula no golfo guineense e as da própria Ordem, as palavras da sua escrava parecem acender uma luz no desânimo latente do ouvidor. – Caramba, minha nega, dás-me uma boa nova! Esse tal de barmeo é o capitão Bartolomeu Dias... Quando reencontra o velho capitão de mar e agora dono de roça, escuta; – Os deuses do mar estão a teu favor, meu rapaz! Podes largar tudo e ir ao mundo, uma vez com Pereira e outra vez com Dias, pois, há um bom intervalo entre as viagens dos dois! Alto e forte, Cosme impõe respeito a quem quer que seja, mas quando conversa com o velho capitão agrada-lhe a forma como o trata com aquele “meu rapaz”, em vez de “meu ouvidor”, ou “meu Mestre”. Acostumou-se intimamente a tê-lo como pai na ilha longínqua – Sim, meu caro capitão – diz, e toda a sua figura imponente reflete uma alegria de viver enorme. – A minha rapariga de Cabo Verde já me disse que o capitão Dias passou lá em casa... – Olha, só não vou contigo porque a idade não deixa. Eh, e pelo que tu sabes de astronomia eu acredito que ele te quer para ajudar em outras demandas e também no assentamento da banda sul do Tratado de Tordesilhas... – ... e eu, meu caro capitão, não me importo de ser o marco vivo..., pois, nessa terra nova posso erguer a minha casa! Estão perto da casa do ouvidor e a escrava traz um jarro com água fresca e dois copinhos de barro. Súbito, Cosme bate as palmas das mãos com força e diz: – Olhe aqui, meu bom amigo: eu prometi à minha rapariga que a deixaria bem e com o negócio da taberna do cais. Mas sei que ela vai precisar de ajuda. Está tudo em meu nome, mas vou passar para o seu nome com a condição de que nunca abandonará nem o negócio nem ela! Também tenho uma roça e uma


casa lá em São Tomé, e duas escravas que tomam conta de tudo, mas com certeza o feitor vai leiloar e passar a renda para a casa da Mina. – Honras-me muito com essa proposta, meu rapaz! Eu dou-me muito bem com essa menina, e a minha mulher também gosta dela. Podes ir em paz que ela e o negócio vão ficar em boas mãos... – ... meu capitão, tenho-o como se fosse meu pai, e você sabe disso! Até meados de 1497 raramente aparece no seu posto de ouvidor e o capitão do forte já fez saber à Ordem que retomará a Casa do Ouvidor pela vacância gerada nas sucessivas viagens de Cosme Fernandes. Conhecer o grande Duarte Pacheco Pereira e a viajar com o destemido Bartolomeu Dias é um sonho que alimenta a aventura em qualquer jovem. A estes homens deve Portugal a abertura para novos mundos e outros conhecimentos náuticos. E é com Dias que Cosme faz viagens pela costa africana e adentra o além-mar a oeste de Cabo Verde. No início de 1498 o já antigo ouvidor da Mina reencontra Duarte Pacheco Pereira num dos atracadouros de Cabo Verde e escuta dele: ...temos na parte occidental, passando além do mar oceano, uma terra com abundante e fino pao brasil, numa distância de 28 gráos do polo antarctico e 70 do polo arctico. – Vossa mercê, dom Duarte, viu a terra nova que o capitão Sanches Brandão viu e nela desembarcou em 1343... – Sim, e vejo que tu conheces destas coisas. Estás um mestre feito... – retruca o grande capitão e cosmógrafo. – Segui o mappa de Pero Vaz de Buisagudo, que é copia do mappa da carta d´el-rey Afonso IV ao Papa. Quero dizer: el-rey mandou fazer o registro e não o descobrimento, pois, a terra do pao brasil já era conhecida dos portugueses. – É a insulla de Brasil... – É, a 1550 milhas destas ilhas de Cabo Verde. E o Colombo só não foi morto por el-rey João II porque não tocou este chão português! – Verdade. Foi o que me disseram na Ordem... – ... é claro, a Ordem. A maneira como o capitão falou “a Ordem” impressiona Cosme, pois, sabe que ele é uma pessoa muito respeitada entre os cavaleiros e estudiosos. Sábio, segue as pisadas do seu mestre e prefere não comentar. É que Cosme leu, em Lisboa, cópia da carta náutica de Sancho Brandão – aquela que estava junto do mapa que o mestre lhe mostrou, anos antes – e os dados que agora escutou são idênticos, ou iguais. – O capitão Bartolomeu Dias falou-me de ti – corta dom Duarte – e disse-me que és uma mente brilhante, o que és, de fato. Acho que essa terra nova do “pao vermelho”, como dizia o capitão Brandão, pode ser a tua casa... Ora, precisamos de gente com conhecimentos para defender a parte sul, pois, os castelhanos já


velam e remam por lá em busca de um “eldorado” floresta adentro! Dentro de alguns dias, Bartolomeu deve arribar por aqui e vou recomendar-te como mestre para cuidar do marco sul do Tratado de Tordesilhas! A aventura está no olhar de Cosme. Todo o seu respirar é um “quero ir, e pronto”, e isso foi notado por Dias e por Duarte. Para os dois, Cosme é o homem certo para o lugar certo. Um mestre para a terra nova...

5ª Parte Dos quentes trópicos do golfo guineense aos trópicos amenos a sul da Linha de Tordesilhas, eis que Cosme Fernandes conta nos dedos a quint´essência da sua vida. Bartolomeu Dias, em meados de 1498, acolhe a ideia de dom Duarte e faz embarcar Cosme Fernandes mais uma vez. – Mas, desta feita, ó mestre Cosme, tu vais ser a nossa referência “á 25º de ladeza na costa sul do grande mar oceano aos confins da Insula Brasil”. – Só tenho que agradecer a honra que o grande capitão me dá... – ...sim, mestre Cosme, mas será uma vida solitária e de muita dificuldade, e nem sabemos como as tribos de lá vão reagir à tua presença! Não será o ouvidor com a sua escrava e os benefícios dados pelo feitor... serás tu mesmo mui longe das vistas d´el-rey. Uma aventura...! Estão perto da feitoria de São Tomé, mas Cosme não desembarca. – É a aventura que esperei a vida inteira, meu capitão! – responde. E o capitão, com o olhar fixo no homem alto, forte e barbudo, pensa: Tinha razão dom Duarte, eis o homem certo para iniciar a existência de Portugal no marco sul de Tordesilhas.

1498. Início do verão tropical. Um bote a remos leva e deixa o mestre Cosme Fernandes a 25º de ladeza na ponta sul da Linha de Tordesilhas. Com ele, algumas ferramentas e comida de marujo para alguns dias.


Em menos de uma semana reconhece que está numa ilha comprida e vasta. E vê sinais de fogueira em entradas florestais. As gentes de aqui já sabem que estou aqui largado, já viram as minhas fogueiras, ora..., pensa. Esta ilha comprida é tão grande que não dá para conhecê-la em poucos dias. Cosme percebe que a Ilha Brasil é terra muito vasta e com muita gente espalhada. Ele fica quase uma semana isolado. Faz e desfaz acampamento para ficar íntimo da região que quer como sua terra. Certo dia, ele acorda com barulho estranho e logo se levanta já com a espada em punho. Entre doze e quinze pessoas dão um passo para trás diante da sua reação. Estão nuas. Umas portam arco e flecha, outras manejam lanças compridas. Escuta-se opio das aves marinhas e só. Um dos homens estende a mão para tocá-lo. Já tinha acontecido isso numa parte da Mina e ele deixa-se tocar, mas com a musculatura pronta para manejar a espada. E falam e fazem sinais com as mãos como a dizer “nós somos da outra banda da ilha”; Cosme percebe que é convidado. Mas não um convidado qualquer. Os nativos olhamno com reverência, e ele sente-se um deus estranho entre estranhos. Segue os nativos e logo embarca numa das canoas de casca d´árvore em direção à margem que leva à floresta. Eles não deixam de tocá-lo e fazem festa. Cosme nota receio no olhar deles. Eles acham que sou algum deus. É isso..., pensa. E age assim mesmo. Serei o deus que eles esperam... O seu raciocínio é rápido, pois, sabe que das suas atitudes depende a sobrevivência a partir deste momento – momento em que desembarca na margem e dezenas de homens e mulheres vêm saudá-lo como deus que chega do mar. Ainda na canoa percebeu que a região é uma depressão d´águas entre canais tendo a ilha comprida como contraforte. Isto aqui é uma laguna imensa e cheia de vida, pode-se viver aqui para sempre!, registrou ao observar montículos de conchas, ou seja, restos de frutos do mar que serviram de alimento aos nativos. Quase um arraial de lisboeta em festa, as gentes do Brasil recebem o mestre Cosme e dão-lhe honras de divindade.


Em certo momento, ele exibe e faz demonstrações com adaga e com espada. Os nativos estão fascinados. De repente, da idade do osso e da pedra chegam à idade do ferro: um lance espetacular da civilização no entorno das navegações. Por aqui ninguém lançou âncora antes de mim, diz para si mesmo. O cacique da aldeia diz-lhe, com paciência e repetições que estão em maratayama, terra que beija o mar. – Maratayama... – repete ele. E é saudado com gritaria. O cacique abre os braços e uma jovem aproxima-se. Mais uma vez os gestos são a linguagem. – De mim pra tu – explica o cacique, que lhe oferece a jovem, e ele entende ser sua filha. E ela pega uma de suas mãos puxando-o para uma barraca que ele diz ser oca. Não sabe o tempo, mas acredita que duas ou três horas depois escuta a mesma gritaria quando a jovem, agora uma mulher consagrada pelo sexo vivido, deixa a oca. Pela abertura vê que o cacique se aproxima e toca, satisfeito, o cabelo negro e liso dela. Decide-se e sai também da oca dando um nó no cordão que segura o seu calção. O cacique utiliza as mãos e diz: – Nós, mesmo sangue! Durante meses é um convidado muito especial que se integra aos costumes de um povo do qual sabe, agora, que circula pela terra em busca da ivy marãey, que ele entende por terra da paz. O povo é guiado pelo maracá do caraí: o som da cabaça oca e cheia de pedrinhas é o sinal do maracá que o caraí, ou chefe religioso, cadencia em cada nova aldeia que monta ou desmonta. E a primeira cabana a montar e a última a desmontar é a opy – a casa do caraí. É com este chefe religioso que o bacharel de muitos estudos em Salamanca aprende outros sentidos, outros saberes. – Nóis, de longe estar aqui. Guarani caminha pra chegar na ivy marãey, porque a vida não poder ser fardo... – escutou no terceiro mês de gravidez da meninamulher e filha do cacique. O religioso desenhou na terra batida um mapa com sequência de montanhas e rios. – Nóis, vir de montanha em montanha e nesta maratayama povo não ter como saber onde a ivy marãey... Como nóis fazer mais piabiyu?! Cosme Fernandes está deslumbrado. O povo guarani vive uma aventura mística há centenas de anos. – Povo teu – diz ele a fazer sinais com os dedos e as mãos e a aproveitar o desenho – veio


de serr´acima por entre rios e sempre no piabiyu. Caraí vai, caraí vem, e a caminhada continua, mas..., agora tem a água grande... Ele entende, agora: Tomaram-me como divindade da tal terra da paz, ou semmal. Mas também entende que o seu filho será um filho de deus. As atitudes do pai da menina-mulher e as do caraí indicam-lhe a posição social. E ele mesmo está acima do cacique e do caraí. Em menos de um mês, ele organiza as ideias e passa a comandar a administração dos escravos de outros povos, além de comandar ataques para aumentar o número de escravos. Tanto o cacique daqui como o soba-rei africano só têm poder efetivo mostrando serem senhores de grande número de escravos... A soma dos conhecimentos como ouvidor na costa africana e como marco vivo da ponta sul tordesilhana fazem de Cosme Fernandes o rei branco da terra nova que quer para si mesmo. – Como não temos mais piabiyu diante da água grande, vamos organizar o povo e construir uma aldeia lá na ponta de gohayó, onde teremos água para beber e terra para mais cultivo – disse ele, na noite de festa do nascimento do filho. – E lá, em gohayó, vamos os escravos vão erguer um cais para fazermos negócios com outras gentes que vêm da água grande. A percepção aguda do rei branco é que o faz rei de fato na terra nova. Durante os últimos nove meses viu várias embarcações passarem ao largo, mas, cauteloso, pediu para os nativos não se mostrarem. Com a organização de uma aldeia-cais na ponta de gohayó e a segurança de centenas de guerreiros guaranis, Cosme Fernandes tem a última ideia para juntar as peças na sua cartada social e política. No final de 1499, um lance longo de milhas a norte da maratayama, surge na ponta de gohayó a aldeia-cais. Logo no primeiro dia recebe dois barcos ingleses e no segundo um francês e um espanhol. Cosme Fernandes logo é chamado por uns de Mestre Cosme e o bacharel deixa-se nomear livremente. Alguns marujos reconhecem nele o ouvidor da Costa da Mina, daí o “mestre”, pois o ouvidor é chamado assim em várias feitorias. – Deixaram o mestre livre e a tomar conta do marco de Tordesilhas e ele agora é o marco e o ouvidor d´ele-mesmo, caramba! – já se escuta entre a marinhagem de várias embarcações que só sobrevivem tendo ponto de abastecimento no porto do mestre. E mais: o porto de gohayó é o farol da terra nova dita Brasil. – Meu mestre Cosme... – exclama hoje, que é véspera de natal para a marujada cristã, um oficial de carreira que muito conversou com ele no Forte da Mina –, olhe, se vossa mercê me garante mulher e comida e trabalho neste porto, eu fico para lhe servir! E assim é que o bacharel de Salamanca e ouvidor do Forte da Mina começa a construir o seu império-feitoria. Falar com Mestre Cosme, agora..., só com a autorização dos seus oficiais. Os caciques de várias aldeias guaranis rendem-


se ao brilho guerreiro do rei branco e dão-lhe mais meninas-mulheres, e mais mamelucos nascem para formar a raça própria da terra nova que todos dizem ser Brasil, em algum ponto do mundo já nem tão desconhecido. Mas, ninguém fala do Brasil português, todos falam das terras do mestre Cosme. Quando fez os nativos mudarem da comunidade de maratayama para gohayó ele também queria conhecer outra vertente do piabiyu na ligação de serr´acima. O cacique tinha-lhe mostrado umas pequenas pedras de brilho metálico que outros guaranis em peregrinação carregaram da “montanha ybiraçoiaba muito além do topo da serra que segura a água grande e da aldeia piratinin onde está o homem branco bamalhi” – o conjunto que ele mesmo e outros portugueses da aldeia-cais chamam serra do mar. Foi nesse momento que soube da presença de um português nos confins de serr´acima. Ainda em Salamanca, ele viu esquemas de produção de ferro e pegou em algumas pedras pretas, luzidias umas, pardas outras. Também já viu ouro no troca-troca que é o escambo entre nativos de línguas diferentes, peças arrancadas na “montanha jaraguá logo abaixo do topo da serra e depois d´água do anhamby”. Em quase um ano de convivência, Cosme Fernandes distingue as tribos e faz-se entender num guarani rudimentar, o mesmo que utiliza para falar com os tupis. E são os tupis que lhe dizem: – Na piratinin outro branco veio na mesma lua que tu e vive com nóis o nosso viver. As ita una são da ybiraçoiaba na outra ponta do piabiyu – entre outras notícias. Também, os portugueses que se lhe juntam começam a falar a língua dos nativos e as informações brotam das filhas de caciques e caraís, além de que os próprios caciques têm interesse no bom relacionamento com estes homens meio estranhos e meio deuses. Agora, a linhagem mameluca, que também tem na aldeia piratinin, desperta nos nativos um pendor para o sedentarismo, uma vez que “desta maratayama não tem seguimento o piabiyu”, e são incentivados pelo comércio cada vez maior de produtos locais no escambo com a marujada dos barcos que aportam em gohayó. Os europeus percebem que os nativos dão importância ao brilho metálico da pedra preta e ignoram inteiramente a importância do brilho d´ouro e de luar em outras pedras, como as que arrancam lá na montanha jaraguá para diversão. Em breve, o Mestre Cosme é conhecido em toda a costa sul e os castelhanos aproximam-se dele com diplomacia. Em uma das viagens à ponta sul, conhece a tribo charrua e uma aldeia koty na ilha meimbipe – e aqui sabe de uma montanha de pedras brilhantes rio acima lá no potosí. O domínio da costa sul é seu e dos seus homens. – O mundo que se conhecia não é mais o mesmo – diz para um dos seus homens –, e olha, são tantas as novas de ouro e prata que logo teremos até gente d´el-rey de Portugal a querer o que é nosso... – ...e também os castelhanos, que já se dizem nuestros hermanos! – resmunga o outro, enquanto acaba de colocar um segundo barril d´água doce no pequeno


navio da frota de gohayó. – Melhor do que a minha pessoa, ocê sabe que palmilhamos entre Portugal e Castela neste marco sul de Tordesilhas... – ...verdade! – concorda Cosme, enquanto dá ordem de partida ao homem da vela. – Mas também é verdade que o marco sou eu e se aqui vim para marcar o tratado, também aqui vim para fazer minha esta terra nova! O caminho para as especiarias da Índia está aberto, e mais ano menos ano Portugal vai querer tirar proveito do nosso trabalho... e, por isso, um bom relacionamento com os castelhanos também é um bom negócio! – Bem, por enquanto, o nosso porto das naus, lá em gohayó, é a sede de um reino que os reinóis de Lisboa gostariam de ter! Cosme Fernandes senta-se no barril d´água e retruca: – Olha, ó Garcia, tu és meu compadre nesta terra nova e aqui nem a Ordem de Cristo eu deixo meter o bedelho, pois, isto aqui é aventura minha!, e aqui já temos raça nova que pensa como nós... – ... mas, não os filhos do Ramalho! – Ora, ó Garcia, o gajo não é português: o gajo é mais tribal que os tribais daqui! Os meus filhos e os teus filhos têm sangue daqui, é verdade, mas já pensam na aventura do mar e não no piabiyu... Garcia encara o compadre e diz: – Apesar disso, talvez o Ramalho, lá da piratinin, se interesse mais em ficar de bem com os reinóis que aqui chegarem, ora... Pensativo, o olhar na costa que fica cada vez mais longe, Cosme Fernandes parece que não se ilude: – É verdade, problemas nós vamos ter e muitos. Mas seja qual for a nossa sorte, ela será vendida muito cara, porque nós somos a aventura de terra nova e os reinóis de Lisboa são a política velha do “tudo ter sem nada fazer”! – Ah, ah, ah... falou o ouvidor!... – ri Garcia. – Enquanto isso, e isso vai esperar muitos anos, nossas mulheres vão dar-nos mais filhos e gohayó será um reino. Ora, ó compadre, e neste enquanto nós já vivemos a nossa aventura! Que venha mais gente, pois, os nossos filhos já serão guerreiros e será a vez deles decidirem... – Ouvidor?... Aqui, eu só trato da aventura de viver! – remata Cosme Fernandes com o dedo indicador a marcar o seu reinado costeiro entre meimbipe e gohayó. Nesta aventura de viver a vida pela resistência a tudo e todos nasce um Brasil mameluco e outro Portugal nele se espraia a confirmar uma herança de umbigo ibérico tropicalmente assente na diáspora judaica. A história do judeu e free mason Cosme Fernandes é a história daquele outro Portugal que se faz no Mundo também a partir da apostasia de um povo que é uma comunidade social e esotérica e se diz povo-nação por isso mesmo – e que, em tal sorte civilizacional, vem a ser o eixo da primeira raiz mameluca da ilha do pao vermelho, vulgo, Brasil.


[Palavras não habituais citadas neste texto: ANHAMBY / Rio Tietê; APOSTASIA / afastamento [impedimento] religioso; CARAÍ / pajé, chefe religioso; CASTRO / aldeia fortificada; GOHAYÓ / Ilha de S. Vicente; INSULA / ilha; ITA UMA / pedra preta; JARAGUÁ / Pico do Jaraguá no planalto piratiningo; KOTY / casa de, ou ponto-de-encontro; LADEZA / latitude; MARATAYAMA / terra e água; MARCO MILIAR / totens de pedra sinalizando espaços em milhas para a tropa romana; MEIMBIPE / ilha de Santa Catarina; OPY / casa de religioso guarani; PAO VERMELHO / pau-brasil; PIABIYU / caminhofeito-a-pé sinalizando a peregrinação esotérica dos guaranis; PIRATININ / água de peixe barulhento; YBIRAÇOIABA / montanha que cobre o sol; IVY MARÃEY / terra-do-sem-mal, do esoterismo guarani.]

Parte Cinco

PORTUGAL Política d´Estado, Navegações & Ciência


Tábua Cronológica

1094 - O conde Henrique assume o governo do Condado Portucalense com castelo e sede em Guimarães. 1128 - Monges-militares da Ordem dos Templários entram no Condado Portucalense a convite a condessa Tereza que lhes dá o castelo de Soure. - Afonso Henriques, filhos dos condes Henrique e Tereza, combate no campo de S. Mamede (Guimarães) as forças militares dos pais e separa o Condado Portucalense da Galiza. 1115/20 - Diego Gelmirez, arcebispo de Sant´Iago de Compostela, dá início à construção naval com técnicas mediterrâneas. 1139 - Afonso Henriques proclama-se Rei de Portugal. 1159 - A região de Tomar é doada à Ordem dos Templários. 1245/1275 - O rei Afonso III manda plantar o Pinhal de Leiria em 12 mil hectares. 1261/1325 - O rei Diniz dá continuidade ao Pinhal de Leiria para a formação de da Marinha Mercante. 1311 – Os templários são perseguidos, presos e mortos em toda a Europa sob a benção da Cristandade, mas em Portugal recebem abrigo e transformam-se na Ordem dos cavaleiros de Cristo. 1342 - A serviço do rei Afonso IV, o capitão Sancho Brandão percorre parte da costa da “Insula Brasil” reconhecendo o território já antes alcançado por outros marinheiros portugueses. - Afonso IV concede privilégios aos pescadores de Buarcos e concede foral de vila à região no âmbito do concelho de Montemor-o-Velho. 1343 - Afonso IV escreve ao papa Clemente VI e dá notícia oficial da “terra do Brasil”, cheia de “pao vermelho”. [É o mapa de Sanches Brandão que, mais tarde, Visagudo tem e mostra a outros marujos e que, em 1500, é referido nas cartas oficiais da armada de Pedro Álvares Cabral para demonstrar que o Brasil é coisa de mapa antigo.] 1357 - O rei Pedro I dá vários privilégios aos mercadores genoveses que já atuam em Portugal. 1375 - É desenhado, em Maiorca, o Atlas Catalão. Supõe-se que o autor seja o judeu Cresques Abraham. 1385 - Começa a Dinastia de Aviz com o rei João I. 1408 - João I concede territórios de Buarcos, Tentúgal, Penela e lousã, ao infante Pedro, seu filho. 1415 - O rei João toma Ceuta. Os seus filhos, Pedro, Duarte e Henrique tomam parte da expedição e, logo, Pedro é feito duque de Coimbra. 1418 – Inabilidade militar do infante Henrique, em Ceuta, anula os esforços anteriores e os árabes retomam a região. 1420 - O infante Henrique é nomeado administrador da Ordem [templária] de Cristo. 1426 - O duque Pedro viaja pela Europa e vai à Palestina. Conhece fra Mauro, em Veneza, e suas obras cartográficas entre as quais escolhe uma: o Mapa-


Múndi com as indicações das viagens chinesas. No eixo da Liga Hanseática, escreve a Carta de Bruges, dirigida ao irmão e futuro rei Duarte. 1428 - O infante e duque Pedro retorna da viagem, depois de ter combatido ao lado de outros príncipe e reis, e ser honrado com o título de senhor da Marca de Treviso. 1439 - O infante e duque Pedro é nomeado Regente por menoridade do rei Afonso V. Uma das primeiras tarefas do regente é perspectivar as Ordenações do Reino e, logo, denominadas Ordenações Afonsinas. As outras, no âmbito do teor ideológico da Carta de Brugges, são: dar prioridade aos estudos náuticos, agrários e piscatórios, e parar com as campanhas feudais e cavaleirosas nas praças do norte da África. 1442 - Antão Gonçalves, com um cavaleiro alemão dito Balthazar, percorre o Rio do Ouro para trato de escravos. - Sob as ordens expressas do regente Pedro, o infante Henrique encaminha diversas tarefas no âmbito da Ordem de Cristo no que tange a povoamento de novas ilhas e administração de novos bens ultramarinos, além dos que governa já no continente. - As expedições marítimas ganham força com a regência de Pedro e a nação envolve-se com o mar de tal maneira que não é mais possível sequer perceber esforços feudais para tomada bélica de terras a partir de Ceuta. Portugal começa a ser uma nação de marinheiros e feitores. 1443 - Fruto da inabilidade militar e política de Henrique, morre num calabouço de Marrocos o infante Fernando, que ali havia ficado como refém na vez do próprio Henrique... 1446 - O regente Pedro promulga as Ordenações Afonsinas. 1447 - Nuno Tristão e Álvaro Fernandes percorrem o Rio Tabete. - Sob a administração direta do duque e ex-regente Pedro, a ilha açoreana de S. Miguel é privilegiada com isenção do dízimo real em carta do rei Afonso V. - O rei Afonso V mostra-se um feudal nato e tanto o clero como a nobreza cavaleirosa retomam atividades de mando. O antigo regente, Pedro, começa a ser ameaçado e vários dos seus ofícios régios são anulados pelo novo rei em favor das elites e com apoio expresso do também cavaleiroso infante Henrique, duque de Viseu e administrador da Ordem de Cristo. 1449 - Na região de Alfarrobeira, feudais da Casa de Bragança derrotam e assassinam Pedro. O ilustre fundador da Universidade de Coimbra não “ilumina” mais a Nação portuguesa e a Casa de Aviz é anulada politicamente. Talvez por não ter sido nomeado regente, percebe-se que Henrique sente-se vingado com a morte do irmão Pedro. Entretanto, sem Pedro a dinâmica das navegações diminui no ritmo e quase desaparece. 1452 - Constantinopla é conquistada pelos turcos e a cristandade movimenta-se para não ficar isolada no contexto místico-militar. 1454 - O rei Afonso V e o infante Henrique recebem o prêmio maior por sua obediência às elites clericais: bula do Papa Nicolau V concede-lhes o direito sobrea as terras e mares de África, até à Guiné, já conquistados ou a conquistar na guerra contra os infiéis. De tal bula é que muitos historiadores se acharam (e acham) no direito de dizer que Henrique foi o responsável pelos descobrimentos marítimos... 1455 - Aloísio Cadamosto aborda a costa da Gâmbia com Vicente Dias. 1457/60 - Cadamosto e Antônio de Noli percorrem o Cabo Roxo na Guiné e descobrem cinco das ilhas de Cabo Verde.


1459 – É feito pelo reino português o último pagamento referente à aquisição do Mapa-Múndi de Fra Mauro, feita pelo duque Pedro. A obra cartográfica de Fra Mauro teve a colaboração de Andrea Bianco e informações “orientais” [navegações chinesas] de Toscanelli. 1460/61 - Pedro de Sintra atinge a Serra Leoa e vai até o Cabo Mesurado. 1461/62 - Diogo Afonso descobre mais outras ilhas em Cabo Verde. 1464 - O cavaleiroso Afonso V é derrotado em Marrocos e Portugal vive novamente a vergonha da inabilidade militar e política, pois, além da derrota, o rei salva-se pedindo que o capitão Duarte de Menezes lhe cubra a fuga... e aí é morto. 1471 - João de Santarém e Pedro Escobar mapeiam toda a Costa da Malagueta, a Mina de Ouro, e chegam ao Rio do Lago. 1469/71 – Descobertas as ilhas do Golfo da Guiné: Formosa, Fernando Pó, Corisco, Ano Bom, São Tomé, Príncipe e da Costa do Gabão. - O rei Afonso V volta à batalha e conquista Arzila e, logo, toma Tanger. Nesta expedição está o príncipe João, que aqui é feito cavaleiro. 1475 - Na universidade de Salamanca, o judeu Abraham Zacuto redige o Almanach Perpetuum contendo tábuas para medição da declinação solar que logo ganham o estudo de astrônomos, astrólogos e marinheiros. 1477 - O príncipe João assume o reino como João II. Primeiras tarefas: incentivar as navegações e o comércio ultramarino; paralelamente, vingar o assassinato do avô e duque Pedro. 1478/79 - O dito “genovês” Cristóvão Colombo está na Madeira depois de ter abordado as feitorias do Golfo da Guiné a serviço do mercador Paolo Di Negro. 1481 - Diogo de Azambuja levanta a fortaleza de São Jorge da Mina. 1484/5 - Diogo Cão chega ao Congo e ao Cabo Negro. - Colombo, sob a influência de Toscanelli, apresenta a João II proposta para navegações no ocidente em demanda do oriente (ou “índias”), mas o rei recusa. [Não existem dados historiográficos que permitem dar crédito cabal quando a uma conversa do rei com o representante de mercadores. A única certeza é que Colombo foi aprisionado no retorno da sua primeira viagem, mas João II deixou-o ir contar as suas proezas da “índia” na corte isabelina. E é aqui que se questiona: Colombo foi uma diversão marítima lançada pelo rei João II para ocupar Isabel?] 1486 - João Afonso descobre o reino de Benim. 1488 - Bartolomeu Dias dobra o Cabo de Boa Esperança. 1490 - O rei João II prossegue o seu Plano da Índia e inicia os preparativos para a viagem de Vasco da Gama. - Nas escuelas da Universidade de Salamanca está um jovem judeu que em Portugal será Cosme Fernandes. 1494 - Duarte Pacheco Pereira é o cientista e o navegador que representa João II nas conversações do Tratado de Tordesilhas, com dois fundamentos de política governamental: a) defender as pescas portuguesas; b) defender e registrar as terras conhecidas e sob jurisdição portuguesa. - Duarte Pacheco Pereira e Bartolomeu Dias realizam, separadamente, experiências na demanda do conhecimento das correntes marítimas e ventos: experiências ligadas ao Plano da Índia. E ambos reconhecem a vasta costa da Insula Brasil já descrita como Terra do Brasil em documento de 1343 pelo rei Afonso IV.


- Com a expulsão, em 1492, dos judeus pelo reino de Isabel, Portugal é quase invadido por uma massa de gentes aterrorizadas, mas também João II se obriga a obedecer à cristandade e muitos judeus são apostasiados e degredados. Ainda assim, alguns judeus ilustrados são cooptados para serviços d´Estado – um deles, Cosme Fernandes, segue para o Forte da Costa da Mina em cuja feitoria tem ofício de ouvidor. Ainda em Lisboa, o judeu apostasiado e ´free mason´ é integrado à Ordem de Cristo. 1495 - Morre o rei João II após longo envenenamento, do qual também foram vítimas pessoas que lhe eram próximas. - Com o rei Manuel I renasce mais uma vez a Casa de Bragança e o feudalismo toma conta do poder monárquico. O reino é tomado pela insensatez do fanatismo manuelino que quer retomar Jerusalém... 1497 - Vasco da Gama, já no reinado de Manuel I, cumpre o Plano da Índia, de João II, e enfim abre o caminho marítimo das especiarias orientais. 1498 - Bartolomeu Dias deixa Cosme Fernandes como marco vivo da Linha de Tordesilhas a 25º de ladeza sul. 1499 - O antigo ouvidor da feitoria da Costa da Mina começa a construir várias milhas a norte de Maratayama a aldeia-porto de Gohayó e, nela, a primeira comunidade mameluca geradora da Raça Brasileira. 1500 - Pedro Álvares Cabral passa pela “Insula Brasil” a caminho da Índia e deixa marco a sinalizar a posse real do território já mapeado anteriormente e registrado no Vaticano, em 1343, pelo rei Afonso IV.

Parte Seis Anotações, Fontes & Bibliografia


NOTAS BACHAREL & OUVIDOR – Uma das figuras mais importantes no trato das feitorias coloniais é o Ouvidor. É um magistrado designado pelo capitão-feitor para tratar dos casos judiciais, ou seja, o Ouvidor tem a função de velar pelo bom andamento jurídico das ações geossociais que movimentam a política colonial. É um magistrado que responde diretamente ao capitão-feitor ou donatário do território e não ao rei. Para ser designado Ouvidor na feitoria da Casa da Mina, no golfo guineense, o judeu apostasiado, cavaleiro (templário) de cristo e mason Cosme Fernandes, ou foi indicado pela Ordem de Cristo, ou o donatário [Álvaro de Caminha] o era –, mas, não existem evidências quanto a isto. Já no caso da feitoria de São Jorge da Mina, a região e a cidadela estão sob a jurisdição da Ordem [templária] de Cristo, entre 1482 e 1514, logo, o ilustrado Cosme Fernandes é designado sob os bons ofícios templários. Como judeu apostasiado e degredado, Cosme Fernandes não pode ter poderes de decisão nem ocupar o cargo de Ouvidor, mas ele é um ilustre bacharel e o reinado joanino não despreza mão-de-obra especializada, muito menos os feitores originários daquela instituição. Acerca desta questão existem leituras interessantes – a saber: ÁLVARO DE CAMINHA, CAPITÃO-MOR DE ILHA DE SÃO TOMÉ, ensaio de Humberto Baquero Moreno, in Congresso Internacional “Bartolomeu Dias e a Sua Época” – Actas; Universidade do Porto, 1989. O MANUSCRITO DE VALENTIM FERNANDES, Torre do Tombo, edição da Academia Portuguesa de História; Lisboa, 1940. OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES, Vol. 3, de J. M. da Silva Marques, através de “Livros das Ilhas” (Torre do Tombo); Lisboa, 1971. BANDEIRAS – Grupos paramilitares de Cerco e Salteo do tipo árabe que os portugueses introduziram no Brasil para a conquista dos sertões e dos povos nativos. As BANDEIRAS também foram importantes na descoberta de minas de ouro, ferro, prata e diamantes. Através da ação das BANDEIRAS o Tratado de Tordesilhas foi reduzido a um pedaço de papel e os portugueses transformaram a ´ilha Brasil´ num imenso continente de diferentes aspectos culturais e ecológicos. CARTA DE BRUGE [de Pedro, duque de Coimbra ao irmão e futuro rei Duarte, 1426] – «O governo do Estado deve basear-se nas quatro virtudes cardeais e, sob esse ponto de vista, a situação de Portugal não é satisfatória. A força reside em parte na população; é pois preciso evitar o despovoamento, diminuindo os tributos que pesam sobre o povo. Impõem-se medidas que travem a diminuição do número de cavalos e de armas. É preciso assegurar um salário fixo e decente aos coudéis, a fim de se evitarem os abusos que eles cometem para assegurar a sua subsistência. É necessário igualmente diminuir o número de dias de trabalho gratuito que o povo tem de assegurar, e agir de tal forma que o reino se abasteça suficientemente de víveres e de armas; uma viagem de inspeção, atenta a estes aspetos, deveria na realidade fazer-se de dois em dois anos. A justiça só parece reinar em Portugal no coração do Rei [D. João I] e de D. Duarte; e dá ideia que de lá não sai, porque se assim não fosse aqueles que têm por encargo administrá-la comportar-se-iam mais honestamente. A justiça deve dar a cada qual aquilo que lhe é devido, e dar-lho sem delonga. É principalmente deste último ponto de vista que as coisas deixam a desejar: o grande mal está na lentidão da justiça. Quanto à temperança, devemos confiar sobretudo na ação do clero, mas ele [o Infante D. Pedro] tem a impressão de que a situação em Portugal é melhor do que a dos países estrangeiros que visitou. Enfim, um dos erros que lesam a prudência é o número exagerado das pessoas que fazem parte da casa do Rei e da dos príncipes. De onde decorrem as despesas exageradas que recaem sobre o povo, sob a forma de impostos e de requisições de animais. Acresce que toda a gente ambiciona viver na Corte, sem outra forma de ofício». CUNHADISMO – Referência em estudos do professor e pesquisador Jaime Cortesão, o cunhadismo foi uma das maneiras com que os europeus conseguiram dominar os povos nativos da África e da Ilha Brasil: 1-

Por cada filha de soba-rei ou cacique conseguida no escambo, o colono europeu ganhava um poder infinito e podia, até, comandar a tribo em guerras locais;


2- Da troca de sangue europeu com o africano e o americano nasceram MAMELUCOS, uma raça de mulatos nas feitorias do Golfo da Guiné e, além Cabo Verde, a primeira colônia luso-americana em Maratayama.

IMAGENS DA SITUAÇÃO COLONIAL – É possível um olhar sobre o pré-Brasil (ou Ilha do Pao Vermelho) e o Luso-Afro-Brasil na leitura de desenhos, gravuras, aquarelas e fotografias de vários artistas. Do pintor alemão Johann Moritz Rugendas [1802-1858] há registros fabulosos da situação colonial que, em pleno Séc. 19, não é tão diferente daquela do início do Séc. 16, a não ser pela presença maciça de negros africanos; do fotógrafo português (dos Açores) Christiano Jr, as imagens de um preto e branco que ganha cores de documentação genuína pela concepção do retrato epocal; e com o brasileiro José Wasth Rodrigues [1891-1957], entre outras atividades, a literatura histórica ganha ilustrações que nos remetem ao todo colonial; outro alemão, Revert Henry Klumb, de quem não se tem notícias familiares, fotografa de forma pioneira um Brasil entre a decadência sociopolítica permanente e certo progresso urbano no novecentos; e pela arte do brasileiro Oscar Pereira da Silva [ 1867-1939] surgem momentos pictóricos de grandiosidade a sublimar a história; outro importante artista é John White Alexander [1856-1915], pintor e ilustrador norte-americano que se dedica também ao estudo pictórico das tribos brasileiras; Theodor de Bry [1528-1598] foi um ourives belga que se especializou em gravura sobre cobre e produziu retratos fantásticos sobre os costumes dos nativos do Novo Mundo e o escambo de objetos entre eles e os europeus, além do canibalismo de algumas tribos da Insula Brasil. Finalizo esta anotação com um artista da costa litorânea tordesilhana: Benedito Calixto de Jesus [1853-1927]; pedagogo e artista de mãos cheias ele conviveu com a história no ambiente em que ela se fez para fazer de Outro Portugal uma nação chamada Brasil a partir da geração mameluca de entre Gohayó e Maratayama. O BACHAREL – “[...] Duarte Peres ou Cosme Fernandes, esta figura, ainda envolta em certos mistérios por causa de documentação diversa e contraditória, representa a dicotomia da política ultramarina do rei Manuel I, ou seja, é preciso dominar e enriquecer para se tomar novamente Jerusalém, logo, não é o progresso de Portugal e da humanidade que está em jogo, mas o fundamentalismo místico em favor da cristandade imperial (ou católica). A elite nobre e clerical manuelina despreza Portugal como identidade nacional, actua como braço armado do Poder papal, por isso não ´arma´ uma estrutura de contato e de povoamento nas terras novas, actua unicamente pela óptica da conjuntura dessa política mística” – MACEDO, J. C., in “Observações Acerca Do Nascimento De Um Rei Branco No Marco Tordesilhano De Itacurussá”. Artigo. Lisboa, Q-G das Forças Armadas, 1975. Nesta observação do poeta e jornalista J. C. Macedo, em seus estudos da fase lisboeta, e enquanto militar e cidadão interessado nos quês do ser-estar português, ali e no mundo pela leitura das informações publicadas por Cortesão, e de um encontro com Agostinho da Silva, no Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, está o busílis da Questão bacharel. Pois, ele debruça-se na maresia mística que domina a paixão existencial de Manuel I e que, por exemplo, Vasco da Gama leva à letra no genocídio provocado no oriente em nome da cristandade. E então, com o foco no Oriente e na possibilidade da retomada de Jerusalém, a elite manuelina é essencialmente cavaleirosa – como diria o notável Pinheiro Marques na análise ao condestável feito marujo Pedro Álvares Cabral para assinalar a posse da Insulla Brasil e continuar de lá na viagem à Índia – e larga os territórios d´além-mar e já conhecidos como América criando espaços para que desterrados e degredados assumam o papel que deveria ser do Estado/Coroa: é aqui que surge a Questão Bacharel. O erudito Cosme Fernandes, farto da vilanagem mística e já ele mesmo propenso a ser rei e deus, pois então..., apropria-se do marco tordesilhano de maratayama e, a partir do atracadouro de gohayó, edifica um reino e um altar: ele é o senhor da vida e da morte. “Tomar as terras e as gentes ao rey branco e judeu e mason Cosme Fernandes é a única saída para a Coroa portuguesa dar início à colonização, e não por feitorias, mas com capitanias hereditárias, e aí acontece a guerra d´Iguape na resistência apresentada pelo rei branco que os manuelinos haviam humilhado e desprezado” [Macedo, idem]. A elite política e religiosa portuguesa, diante das necessidades econômicas criadas pela miopia mística manuelina volta os olhos e a esperança para as riquezas naturais e humanas (alimentos e escravos) que existem no que quinhão americano; entretanto, a resistência de quem aqui reconstruiu a vida e criou outra raça é violenta – tão violenta quanto a ordem d´el-rey de passar a fio d´espada quem não obedecer. O reinol Martin Afonso de Souza, em 1531, faz cumprir a ordem do rei João III: a batalha pela posse da terra envolve o rei branco e os castelhanos de um lado, a tropa de portuguesa de outro. Obviamente, a tropa está bem armada e os mil e tantos guerreiros guaranis (ou carijós) misturados a castelhanos fazem uma oposição épica, mas caem. E enfim, Portugal começa a tomar conta da sua América...


PIABIYU, BACHAREL, SCHMIDEL & LOGISTICA NATIVA – “A força descomunal do bacharel antecipa a força brava dos portugueses que sobem a serra e domam os sertões”, diz Hernâni Donato para formar a imagem quase sobrenatural de Cosme Fernandes. Sim, e assim ele aprece aos olhos dos guaranis m´byanos que estão no extremo do Piabiyu e querem crer ser ele um enviado da “terra sem mal” – aliás, o Piabiyu cruza toda a parte sul do Tratado de Tordesilhas e adentra as terras além de Buenos Ayres e Asunción, como o alemão Ulrich Schmidel verificou na sua torna-viagem fantástica e, felizmente, documentada em diário próprio. “Os jesuítas, liderados pelo padre Manoel da Nóbrega, registraram tudo, menos a primeira incursão no sertão para a instalação da aldeia de Maniçoba, e não temos um dado preciso sobre ela, mas o diário de Schmidel ajuda-nos numa aproximação geográfica, da mesma maneira que nos dá a entender ter sido o Peabiru [outra maneira de escrever e pronunciar o Piabiyu] percorrido desde os tempos do bacharel, lá da Cananeia, já com o Porto das Naus em operação” [idem]. A logística nativa piabiyuana demonstra como em poucos anos o que é da sobrevivência e da comunicação entre os povos da floresta passa a ser da sobrevivência e da comunicação entre os colonos e garimpeiros da sorte. Da precária aldeia de Maratayama ao atracadouro de Gohayó é que Cosme Fernandes altera o aspecto geossocial e funda a primeira política mercantil de domínio territorial no entorno da marca tordesdilhana, pois, “ele (o bacharel, que não é homem iletrado e tem visão humanista, mas age com a cultura do seu tempo...) não opera somente com os povos da região, ele transforma essa gente em nova gente”, como observa Aziz Ab´Sáber, ao pegar de outra forma o termo “cunhadismo” utilizado por Jaime Cortesão; “além de que ele não altera o meio, integra-se ao meio e aqui sobrevive sem permitir que outros aventureiros, e durante uns trinta anos, destruam a nova identidade geossocial” [idem]. Mas é de tal logística que Martin Afonso de Souza precisa para impor as ordens d´el-rey e o processo de colonização definitiva da terra e dos povos da Ilha do Pao Vermelho, ou Brasil, então, como feitor reinol ele derruba a grei do bacharel... PILOTOS & CIENTISTAS NÁUTICOS – Uma das mais notáveis fontes acerca dos pilotos que serviram a expansão marítima portuguesa é a coleção de estudos (e livros) do professor e cartógrafo Alfredo Pinheiro Marques, e nela percebe-se claramente a contribuição de pilotos e astrônomos oriundos das pesca no mar alto e das academias de Salamanca, Granada e Santiago de Compostela; aliás, deve-se a Zacuto [Abraão Zacuto], astrólogo e astrônomo judeu, o desenvolvimento das primeiras tábuas quadrienais do sol para a navegação, publicadas no seu livro Almanach Perpetuum. Reeditado em Portugal, em 1496, e traduzido do hebreu para o latim e do latim para o castelhano pelo seu discípulo José Vizinho, médico e astrônomo de D. João II, o livro passou a fazer parte intelectual do Plano da Índia junto com o Mapa de fra Mauro adquirido pelo duque-regente Pedro ano antes em Veneza. De galegos, bascos e venezianos formaram-se de norte a sul de Portugal comunidades que ajudaram a modernizar as pescas e a ciência náutica local, e os venezianos ainda formataram uma nova sociedade na Ilha da Madeira. É também do professor e cartógrafo Alfredo Pinheiro Marques a referência historiográfica à universidade fundada em Coimbra pelo Infante das 7 Partidas e o seu desempenho [ao contrário ao do irmão Henrique, que só usufruiu...] no incentivo à ciência náutica contrapondo-se às ações cavaleirosas de tomada (cristã) de terras aos mouros no norte d´África. Porto das Naus / Gohayó – Uma notícia [Agência Estado, Brasil, 15.7.2011] trouxe um certo alívio para pesquisadores da história luso-brasileira: Uma descoberta arqueológica em São Vicente está ajudando a elucidar um período pouco documentado da história brasileira: o início do ciclo da cana-de-açúcar no País, que começou com os engenhos do litoral paulista. Escavações nas ruínas do Porto das Naus descobriram dois tanques de caldo de cana e mais de 400 fragmentos de peças usadas no engenho de Jerônimo Leitão, construído em 1580 na área próxima ao primeiro trapiche alfandegado do Brasil. "Esses tanques eram utilizados para fazer melado e torrões de açúcar, que eram levados para Portugal. Acreditamos que tenham entre seis e dez deles nessa área", explica o arqueólogo Manoel Mateus Gonzalez, que comemora a descoberta das duas estruturas circulares feitas com grandes pedras, com raios de 2,2 m e de 1,5 m. Entre as peças encontradas, Gonzalez destaca os fragmentos de "formas de pão de açúcar" - peças de cerâmica com pequeno orifício na extremidade, onde o melado era colocado depois de cozido para passar por decantação. Delas saíam torrões de açúcar para então serem levados à "casa de purgar", onde eram limpos, purificados, divididos e classificados segundo a qualidade. As escavações no Porto das Naus começaram em maio do ano passado e os tanques são a primeira grande descoberta do projeto, realizado pelo Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas (Cerpa) em parceria com a Prefeitura de São Vicente. As ruínas ficam em área de mil metros quadrados, bem próximas à Ponte Pênsil, e são tombadas pelos


órgãos de patrimônio municipal e estadual e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Os dados arqueológicos, no geral, informam aquilo que pesquisadores sérios e leitores da vera historiografia já sabiam: “O portinho de Gohayó, levantado artesanalmente por Cosme Fernandes (o Bacharel de Cananeia), até pela experiência dele nas feitorias guineenses, foi mais do que um atracadouro: era um engenho que fornecia sustentação aos [seus] mamelucos e à marujada de passagem. Com o afastamento do Bacharel, nos Anos 30 do Século 16, a região foi tomada por Jerônymo Leitão, que ali reiniciou a usina de açúcar e melaço, o mesmo capitão que viria a ter muita importância junto das ações de Afonso Sardinha (o Velho) e a quem recorreu em socorro financeiro várias vezes pelo que diz o testamento de 1592” – MACEDO, J. C. [in “Degredado e Ouvidor”; ensaio. Lisboa, 2001]. PORTUGAL sinopse histórica Portugal tem uma história que se inicia oficialmente na baixa Idade Média, no momento em que Afonso Henriques, o rei primeiro, conquista a autonomia pelas armas diante do Reino de Leão. Entretanto, a humanidade tem presença na região com os hominídeos 500.000 anos antes, e vários povos, como os cartagineses e os fenícios, que erguem aqui diversas feitorias, enquanto os celtas se integram nas comunidades locais; ainda antes (Século 3) da cristandade se tornar um poder católico e colonial, Roma toma a região, mas com a queda deste império chegam os povos germânicos e árabes – e assim, depois de conquistar a independência diante do reino leonês, Portugal tem que abrir caminho conquistando terras aos árabes, do Minho ao Algarve. Durante o Século 12, em 1139, enquanto ocorrem as cruzadas inquisitoriais da cristandade, é fundado o Reino de Portugal embasado no Condado Portucalense com fronteiras entre o Rio Minho e o Rio Douro – e, em 1927, estabelece as fronteiras nacionais tornando-se a primeira nação europeia com tal definição geográfica. Pioneira na exploração de vias marítimas na Europa, a nação portuguesa expande-se de forma ultramarina durante os Séculos 15 e 16 – e particularmente na regência de Pedro (Infante das 7 Partidas) e no reinado do rei João II, seu neto –, quando forma um império de colonização e de comércio com feitorias na África, e, a seguir, com o rei Manuel I, na América, na Ásia e na Oceania. Ainda no Século 16, em 1580, uma crise de sucessão com a morte do rei Sebastião, cria a união dos tronos ibéricos envoltos em questiúnculas de linhagem e sexo reinol; assim, Portugal perde a autonomia nacional e o domínio do seu poder global. Só no Século 17, em 1640, a nação recupera a sua identidade. Entretanto, um terramoto, em 1755 destrói Lisboa, enquanto as invasões espanhola e francesa geram grande instabilidade política e econômica também devido ao poder absolutista, por isso, no Século 19 (em 1820) uma revolta leva à promulgação da Carta Magna para iniciar uma Monarquia Constitucional. Em tal quadro político e administrativo, mas ainda sob os efeitos de absolutismo reinol e grandes interesses do clero cristão, Portugal perde o Brasil e começa a viver a realidade do umbigo ibérico. No décimo ano (1910) do Século 20 outra revolta dá fim à monarquia e institui o Estado Republicano. E logo, em 1926, um golpe d´Estado dá guarida a uma ditatura política e militar só desalojada com outro golpe d´Estado, em 25 de Abril de 1974, quando Portugal torna-se ele-mesmo e deixa as suas possessões ultramarinas em definitivo. SOBRE O COSME – O encontro com Carlos M. Trigueiros, alfarrobista lisboeta com acervo historiográfico próprio, na primavera de 2001, perto da Rua do Ouro, levantou poeiras na minha memória: “Aqui tens tudo o que consegui sobre o Cosme. E olha que não é pouco, pá..!”, disse. Diante de tanta papelada (cópias de arquivos da administração das feitorias), pedimos uma garrafa d´Alvarinho para celebrar e fazer o estudo... gole a gole. Uma determinação do feitor Pedro Álvaro de Caminha a suceder hereditariamente ao tio, capitão da Ilha de S. Tomé (aqui começa a idealização da “capitania hereditária”) sobre bens do ouvidor Cosme Fernandes chamou-nos a atenção. “Esse gajo, para ser ouvidor teria quer ser membro da Ordem de Cristo, que passou a administrar algumas feitorias por legado do regente Pedro ao infante d. Henrique, ou estou errado?”, diz Trigueiros. Mas disse-lhe que não: “Não estás errado, é isso mesmo. O rapaz é judeu e mason da casa templária. E não um criminoso desterrado. Ele é um judeu ilustre e degredado primeiro pelo rei João II e depois pelo rei Manuel”. A documentação do feitor-capitão da Ilha de S. Tomé dá história a um nome que até então não tinha história. Para os historiadores que teimam em classificar o Bacharel de Cananeia como o primeiro dos criminosos largados por Portugal no Brasil, aqui está uma história verdadeira e surpreendente, porque os documentos sempre nos dão as pistas para contar a história tal como ela foi feita... TESOURO TEMPLÁRIO – Ainda existem pessoas crentes de “[...] um “tesouro” templário... Palermice alongada no tempo e no espaço da Literatura de Cordel medieval” (MACEDO, J. C., palestra para furriéis


da companhia de atiradores especiais e foto-cines; Q-G do Exército, Lisboa, 1975). É verdade. Uma palermice e tanto corroborada por historiadores desatentos aos dados documentais. Vejamos: a)

b)

c)

d)

Os monges-cavaleiros da Ordem do Templo foram despojados pelos reinóis da cristandade e da corte francesa de todos os bens por serem uma ameaça à existência do igrejismo já profissionalizado e mistificado exotericamente; É certo que Portugal recebeu uma parte desses monges-cavaleiros, mas o fez com autorização papal que logo transforma os templários em Cavaleiros da Ordem de Cristo, e estes, pelos bons ofícios prestados às diversas cabeças coroadas portuguesas, inclusive na tomada de Lisboa aos mouros, recebem terras e castelos ligando-se muitas vezes à administração de setores do Estado; Assim, ao tempo do nebuloso e criminoso infante Henrique (que deixou o irmão mais novo para morrer em sua vez no norte da África...), este torna-se grão-mestre e a Ordem começa a receber benefícios da mercantilização das feitorias no Golfo da Guiné e Ilha da Madeira por ordem de Pedro, o infante-regente que inicia a proclamação das Ordens Afonsinas e com quem a comunidade judaica tem um bom relacionamento sociocultural e político... Ou seja: o “tesouro” templário é a ótima capacitação mercantil que os monges (ou pseudo monges) têm de valorizar monetariamente tudo o que fazem. É verdade que têm sábios entre eles, pois, a área clerical ainda detém o poder da informação geral, mas não formam uma Escola Náutica em Sagres nem subsidiam a Expansão Marítima, porque os principais sábios são contratados pelo Estado e a marinha mercante está em progresso desde os tempos do rei Diniz e do seu filho Afonso IV com apoios de banqueiros e mercadores da Liga Hanseática.

Uma das intervenções mais aprofundadas neste assunto foi feita pelo escritor e filósofo Manuel Reis, que dirige, em Guimarães, o Centro de Estudos do Humanismo Crítico, no âmbito da discussão da regionalização das políticas públicas em Portugal, quando ele aproveitou para passar o bisturi historiográfico sobre os templários (in “Regionalização: O que Não Foi Dito...!”, Ed Estante; Aveiro/Pt, 1997); desse corte para apreciação surgiu a demonstração do exercício monetário e bancário globalizado no mundo feudal da Idade Média pelo qual se iniciou a cobrança do juro por empréstimo ou remessa. Falar de tesouro templário é o mesmo que falar de uma Escola Náutica do infante Henrique, estórias da trupe intelectual que construiu a fachada ideológica do Estado Novo salazarista e, com ela, até o Galo de Barcelos, enquanto imagem popular para o turismo local e internacional. SAMBAQUIS – Quem primeiro se refere historiograficamente à ancestralidade humana na região da Ilha do Pao Vermelho é frei Vicente de Salvador – a saber: Faz-se também muita cal, assim de pedra do mar como da terra, e de cascas de ostras que o gentio antigamente comia e se acham hoje montes delas coberos de arvoredos, donde se tira e se coze engradada entre madeira com muita facilidade. Esta é uma anotação sua no livro História do Brasil, publicado em 1889, mais dois séculos depois de escrito. Muitos séculos depois, o professor e geógrafo Aziz Ab´Sáber, da Universidade de São Paulo, faz pesquisas no Estuário de Cananeia que, publicadas, tornam-se importantes referências socioecológicas a demonstrar a importância da região do marco tordesilhano como marco da evolução de uma civilização que lhe é muito anterior.

FONTES DE PESQUISA Torre do Tombo / Biblioteca Nacional, Lisboa/Pt; Arquivo do Estado de São Paulo, Brasil; Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Brasil; Institutos da Universidade de São Paulo, Brasil; Institutos da Universidade de Salamanca, Espanha; Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (inpe), Brasil; Aqrquivos Particulares de Carlos M. Trigueiros (Lisboa/Pt, 1924-2012); Arquivos Particulares do Prof. Dr. Aziz N. Ab´Sáber (Cotia, Br; 1924-2012); Atas da Câmara Municipal de São Paulo, Brasil – Séc 16; Arquivos Particulares do poeta e jornalista J. C. Macedo (sob cuidados da Drª Johanne Liffey), London, UK; Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (ihgsp), Brasil; Centro de Estudos do Mar, Figueira da Foz / Pt; Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa/Pt; Itamaraty (mapoteca), RJ/Br; Biblioteca do Exército, Brasil; Instituto Histórico e Geográfico de Santos (ihgs), Brasil; Notícias da Redescoberta e formação do Sítio Arqueológico Porto das Naus e entrevista com o arqueólogo Manoel Gonzalez (in Agência Estado, 15.7.2011); Sítio


Arqueológico Porto das Naus; Consultas ao Prof José Lutzenberger (1926-2002); Consultas ao historiador Hernâni Donato (1922-2012); arquivos municipais de Santos, Iguape e Cananeia; Museu Imperial de Petrópolis, Brasil; Pinacoteca Municipal de São Paulo, Brasil.

Fotos & Desenhos: do Autor, da Web (para livre copiagem) e de Autores Citados.

BIBLIOGRAFIA

A ERA DOS APOSTASIADOS NAS FEITORIAS E CAPITANIAS – João Barcellos. Ensaios e palestras. Santos e S. Vicente. 1992. – A GUERRA DOS DEGREDADOS CONTRA O IMPÉRIO REINOL E RELIGIOSO – Ensaios e palestras. Cananeia e S. Vicente, 1992. A ILHA DE S. TOMÉ: ALGUNS PROBLEMAS HISTÓRICOS – Maria Benedita Araújo. Coimbra, 1991. A MALDIÇÃO DA MEMÓRIA DO INFANTE DOM PEDRO E AS ORIGENS DOS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES – Alfredo Pinheiro Marques. Centro de Estudos do Mar. Figueira da Foz, 1994. CIVILIZATION AND CAPITALISM, 15th - 18th Century: The perspective of the world – Fernand Braudel. University of California Press, USA-1992. CONVERSAS COM AZIZ AB´SÁBER – Série de entrevistas sobre ecologia e história registradas por João Barcellos para os jornais “Treze Listras” e “Gazeta de Cotia”. Cotia, 1991 e 1992. DICIONÁRIO DAS BATALHAS BRASILEIRAS – Hernâni Donato. Ibrasa, SP-1987. DOCUMENTOS QUE FALAM & IMPLODEM ESTÓRIAS OFICIAIS (História versus Estórias, ou o ser-estar português no mundo que Portugal desconhece) – J. C. Macedo. Palestras e opúsculo. Rio de Janeiro, 1989. DOCUMENTOS MANUSCRITOS AVULSO DA CAPITANIA DE SÃO PAULO (catálogo) – J. J. Arruda (coord.). Imprensa Oficial/ FAPESP/ EDUSC; São Paulo, 2000. ESMERALDO DE SITU ORBIS – Duarte Pacheco Pereira. Lisboa, 1505. FEITORES E FEITORIAS – Virgínia Rau. Brotéria (Vol. 81, nº5); Lisboa, 1995. FORTIFICAÇÕES NO BRASIL – Aníbal Barreto (Cel.). Biblioteca do Exército Editora, RJ, 1958. GEOMORFOLOGIA DO SÍTIO URBANO DE SÃO PAULO – Aziz Nacib Ab'Sáber. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1957. HISTÓRIA DO BRASIL – Vicente de Salvador (frei), 1889. LA ARGENTINA – Rui Diaz Guzman, 1612. LETTERA A SODERINI – Carta do explorador Américo Vespúcio, em 4 de Setembro de 1504, da qual, e pela leitura massiva pela imprensa de Gutenberg, ficou o novo mundo a ser conhecido como América. MAPAS E PLANOS MANUSCRITOS RELATIVOS AO BRASIL COLONIAL – Isa Adonias. (Material conservado no Ministério das Relações Exteriores) Ministério das Relações Exteriores, Rio de Janeiro, 1960.


O BACHAREL DE CANANEIA / ESSE ETERNO DESCONHECIDO – João Barcellos. Ensaio e palestra. Cananeia e S. Vicente, 1992. OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES (obras completas) – Jaime Cortesão. Lisboa, 1960 e 1962. – OS DESCOBRIMENTOS PRÉ COLOMBINOS DOS PORTUGUESES – Lisboa, 1947. OS JESUÍTAS MATEMÁTICOS E OS MAPAS DA AMÉRICA PORTUGUESA – A. F. de Almeida. Lisboa, 1999. PAPEIS DO BRASIL (Torre do Tombo) – Leituras de J. C. Macedo. Lisboa, 1975. PIABIYU – João Barcellos, in “Viver História”, coletânea Debates Paralelos, Vol 8, c/ coordenação de João Barcellos. Edicon & CEHC, 2012. RELIGIÃO & PODER – Carlos Firmino, in “O Sentido Da Vida”, coletânea Palavras Essenciais, Vol 5, c/ coordenação de João Barcellos. Edicon & CEHC, 2010. SAMBAQUIS DA REGIÃO LAGUNAR DE CANANEIA – Aziz Nacib Ab'Sáber. Universidade de São Paulo, 1953. SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DE IGUAPE E SEUS FUNDADORES – Ernesto Guilherme Young. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, vol. VII; pp. 293-294, 1902. TERRA SEM MAL: OPROFETISMO TUPI-GUARANI – Helène Clastres. Ed Brasileiense. SP, 1978. THE PORTUGUESE SEABORNE EMPIRE (1415-1825) – Charles Ralph Boxer. Knopf, USA-1969.


ANEXO

Cananeia


& Gohayó Ou: 1500, o século hebraico do Brasil a partir de um bacharel e ouvidor, judeu apostasiado.

Estudos e Apontamentos de 1991-92, Digitalizados e Revistos em 2016

JOÃO BARCELLOS

Portugal é, entre 1493 e 1530, um reduto de inovações tecnológicas assentes no fervor marujo de alcançar o que o memorável Sanches Brandão havia alcançado por acaso, e repito, por acaso e mercê de violenta e longa tempestade na costa africana: a Ilha de Brasil. Lá por meados de 1342 foi o capitão e sua gente atirada para uma costa desconhecida e diante de um rio que beijava a orla marítima [Cintra, 1921], que logo souberam ser a foz do rio do syará [q.s. caranguejo]. Aquele afortunado capitão da Marinha Mercante acaba de descobrir o ouro-mais-que-ouro: o pau-brasil. Assim, em fevereiro de 1343 o rei Afonso IV noticiou o papa Clemente VI do extraordinário evento – evento que ficaria em segredo d´Estado até às descobertas do infante e regente Pedro, em meados do Séc. 15, quando, em digressão pelo mundo ocidental conheceu, em Veneza, fra Mauro [religioso camaldulense] e dele adquiriu um mapa-mundi...


Assassinado em 1449, na batalha d´Alfarrobeira, ainda na regência, Pedro, dito o Infante das 7 Partidas, teve os seus estudos reiniciados pelo neto e rei João II que, já tempo do Tratado de Tordesilhas [1594], tinha conhecimento pleno da situação da Ilha de Brasil e, que, paralelamente, utilizava o mapa do frade veneziano para desenhar o Plano da Índia. De tal sorte que, aprisionado Colombo no retorno das ilhas caribenhas, o rei luso desdenhou do achado e o deixou prosseguir para o seio da corte da rainha Isabel, a castelhana que chamava João II de el hombre, e não é preciso dizer mais nada! Ora, ele não havia achado nada de novo na carta de bordo do apressado almirante que ousou chamar de ´índios´ os povos americanos julgando estar na Índia... Se nos cais das vilas de pescadores do norte [Viana do Castelo, Vila do Conde, etc.] até o centro [Figueira da Foz, Aveiro, Buarcos, etc.] pulsa então um querer avançar mar adentro interrompido [Marques, 1994] pela morte de Pedro e a ineficiência reinol de Henrique, mais cavaleiroso e feudal do que marujo, sabese que é um querer de ir ao mar conhecido e não aquele poético e ignorante ir ao mar nunca navegado... O assassinato [por envenenamento] do rei João II, em 1495, não interrompe nem as tratativas de Tordesilhas nem a odisseia para a Índia, que acontece com Manuel I que, na segunda ida à Índia, em 1500, manda reconhecer [com padrão reinol] as terras da Ilha de Brasil.

* “[...] A partir do momento em que as autoridades templárias – e ´templárias´ porque as feitorias estavam sob ordens dos cavaleiros da Cruz de Cristo, que havia substituído aqueles monges-cavaleiros ao tempo do rei Diniz [Sécs 13 e 14]; e, lembrando que, no Séc. 15, o grão-mestre é o infante Henrique, assim


agraciado pelo irmão Pedro, então regente – dizia eu..., as autoridades da feitoria de São Tomé, no golfo guineense, aceitam a oferta feita por Cosme Fernandes...” [Macedo, 1975], judeu-castelhano formado em Salamanca, e ao serviço dos reis João II e Manuel I desde que fugira da inquisição em Castilla y Aragón. Qual é a oferta? Qual é o interesse de um judeu no marco sul tordesilhano? Só uma: “o notável cristão-novo quer ser o marco vivo no ponto sul do Trato de Tordesilhas e ali defender a divisão ibérica do Mundo Novo” [idem]. *

O que este painel historiográfico tem a ver com os judeus? E com Cananeia? E com Gohayó? É com muitos e muitos ilustrados judeus que se fazem as finanças [organização e cobrança] do reino português e, também o é, além de cartógrafos e pilotos venezianos, com muitos cientistas árabes e judeus que a Marinha Mercante do reino conta para se aperfeiçoar, o que aconteceu com maior incidência na era pedro-joanina [regente Pedro e rei João II, para melhor precisar], uma vez que ao contrário do que se apregoa nas academias lusobrasileiras [Marques, idem] o infante Henrique participa unicamente do estado corporativo e feudal da Ordem [templária] dos Cavaleiros de Cristo, ficando com Pedro a responsabilidade das ações ultramarinas.

Ao desencadear “o Plano da Índia, traçado por João II, o rei Manuel I serve-se dos mesmos judeus especialistas já a serviço de João II, mais precisamente no apoio técnico e logístico a partir das feitorias na costa africana” [Barcellos, 1989] do Golfo da Guiné. E é aqui que, com documentos oficiais e muitos esparsos, mas que se complementam [Cortesão, 1960], encontramos um ouvidor e judeu


apostasiado [– i.e., com a fé mística retirada] que quer viver pessoalmente as tratativas meridionais assentadas em Tordesilhas, lá nos confins do mar adentro. Quem é o judeu? Diz-se que é degredado português na África e mandado para o sul da Linha de Tordesilhas. Ora, nem tanto à ignorância nem ao mar... Cosme Fernandes [Cosme Fernandes Pessoa], dito entre a marujada como Bacharel da Cananeia, é um dos mais brilhantes judeus que João II abriga em Portugal e que, sob as ordens da Ordem dos Cavaleiros de Cristo é colocado como ouvidor na feitoria de São Tomé.

Feitoria de S. Tomé, onde Cosme Fernandes foi colocado pelos templários como ouvidor.

Ninguém faz de um degredado uma autoridade, muito menos em terras d´além-mar: todos sabem que ele é um bacharel da Universidade de Salamanca, a mais importante do mundo ocidental, então. Não por acaso, é mais um entre muitos acadêmicos judeus abrigados sob o manto templário. O que pretende Cosme Fernandes? Ele é o judeu castelhano com aquele falar ladino que se escuta muito na corte lusa e que logo remete ao espaço sefarad [do hebraico, q.s. Península Ibérica] do lado de lá. O que um judeu ilustrado quer e faz em sua vida? A reconstrução na nação hebraica seja qual for o lugar. Levar o espaço sefarad para as bandas longínquas e a sul da Ilha de Brasil é ganhar uma oportunidade única para se dizer e estar com deus. O que pretende Cosme Fernandes tão logo é desembarcado, cerca de 1497, ou 99, no imenso e fantástico lagamar que é o ponto sul tordesilhano? Reconstruir o ser-estar hebraico em terra nova. O que ele vê diante de si deixa-o atordoado...


A semelhança topográfica do lagamar e da ilha comprida com o espaço de entre rios e mar de Canaan dá-lhe a sensação de ter feito a ação certa.

O termo cananeia, no árabe e no hebraico, significa perfumado, que também dá origem ao termo jericó. Entretanto, cananeia também diz dos gentios não-judaicos.

Não se sabe, a documentação existente não nos deixa perceber, com quantos outros judeus apostasiados e lusos degredados ele foi deixado no lagamar, o certo é que ele toma a chefia e logo se faz ao ventre das filhas dos caciques guaranis. É deste primeiro instante do cunhadismo colonial que surge a raça mameluca [gente oriunda do cruzamento entre europeu e nativa]. Assim, e não só pela semelhança topográfica, é que a denominação “de cananeia” se origina, pois, a fala ladina do novo chefe destas bandas tratou de espraiar a visão da ancestral Canaan.

nesta terra nova oh deus meu escravo serei apenas teu


aqui parece canaan e a paz sopra oh deus meu teu reino será aqui outro nação sobra e vamos além do breu qu´inda falta goaió nesta terra nova oh deus meu

Possivelmente, algum de entre os religiosos da cristandade, que logo começaram a chegar ao espaço multicultural de Gohayó, deve ter lembrado da passagem bíblica em Mateus 15.21-28 sobre a ´mulher cananeia´ que, sendo de origem sírio-fenícia, logo não-judaica, era tida como ´sem valor social´, mas que o profeta Jesus [o Cristo] atendeu mesmo assim na sua ação e palavra universal [Reis, 1982]. A ação do ilustrado Cosme Fernandes indica, em relação a Gohayó, que nenhum povo pode ficar isolado no pátio dos gentios, mas servir ao todo comunitário. Entretanto, o talento e a experiência dele como ouvidor e astrônomo na feitoria lusa d´África leva-o a perceber, pelas andanças com os nativos guaranis, tanto à flor d´água como serr´acima, que está isolado demais das outras gentes que os nativos lhe sinalizam; por outro lado, vê que embarcações passam ao largo sem condições de chegarem perto da costa. O que é preciso? Buscar um espaço que seja ao mesmo tempo aldeia e cais, de abrigo e de abastecimento, ou, como ele mesmo, ladino, diz goiaó... Os nativos não têm como entender a linguagem do homem branco, que já se lhes mistura em sangue e fartos embriões, mas entendem que é hora de juntar os trecos e fazer ninho além da ilha comprida. Visitou um lugar que é uma enseada perfeita e onde chegam amiúde outros nativos amigos, e outros nem tanto. Eis o goiaió!, determinou.


Depois de sete dias de caminhada bruta vencendo mais de quarenta léguas, e em meio à construção da aldeia-cais à qual todos dizem ser gohayó, repetindo a ladainha do homem branco, ele começa a ser chamado de mestre e de bacharel da Cananeia.

O termo ´gohayó´ ou ´goiaió´ vem do hebraico gua [região], hi [ela] e hó [merenda, benefício], q.s. ilha/lugar de provisões.

Assim nasce a aldeia Gohayó com um cais para receber, reparar e abastecer embarcações, que recebe o nome de Porto das Naus. Entre os anos 1505 a 1530, o bacharel Cosme Fernandes é o homem forte da costa sul da Ilha de Brasil e faz investidas estratégicas entre a [sua] Cananeia e a ponta de Itapema para acalmar os ânimos belicosos entre nativos de diferentes tendências e faz predominar o instinto judeo-castelhano de preservação em assentamento: Eu trouxe a civilização. Eu mando!, deve ter repetido para os correligionários e a filharada mameluca. Com o funcionamento pleno da aldeia-cais Gohayó, o todo-poderoso torna-se feudal temido e toma terras até de portugueses que vão se instalando no entorno do seu trono e ao arrepio dos reinóis lusos. Não há uma religião dominante, não há uma lei geral, mas há a fé das gentes na terra nova e um chefe cujo mando não se discute nem na beirada do trapiche. O ´reino´ do Bacharel de Cananeia é um mutirão de esforços que se confronta com o viver nativo de João Ramalho, um cristão-novo que talvez tenha desembarcado com ele, ou antes ou pouco depois; o certo é que esse outro


subiu a serra e assentou-se ali de corpo e alma, embora tenha, sim, feito a ponte entre nativos e padres jesuítas e reinóis lusos em situações mais agudas, o que não impediu a descomunal matança e escravaria resultantes da posse da Ilha de Brasil. E o bacharel o foi até que as elites reinóis e religiosas de Portugal resolveram desembarcar de vez na Ilha de Brasil o mando colonial...

Bibliografia

BARCELLOS, João – No Entorno Do Bacharel Uma Visão Estratégica Política & Econômica Aproveitada Por Portugal. Palestra. Ilha Comprida e São Vicente, 1992. [Obs.: agradecimentos a Johanne Liffey, London-UK]. – Entre o Bacharel-Ouvidor & Affonso Sardinha (o Velho) o Outro Portugal que Originou o Brasil-nação. Palestra. Santos e S. Vicente, Brasil-1989. Palestra repetida em Cotia-Brasil, em 1998, e em Lisboa-Portugal, 2000. CINTRA, Assis – Nossa Primeira História. Edit Melhoramentos, São Paulo, Brasil-1921 CORTESÃO, Jaime – Os Descobrimentos Portugueses / Vols I, II e III. Lisboa, Portugal, 1960. MACEDO, J. C. – Mundo Novo Ibero-Cristão: estudos e viagens acerca das fortificações à flor d´água e seus engenheiros-militares. [Material mimeografado das palestras no Quartel-General do Exército, em Coimbra e em Lisboa], 1975-76 e 1981.


– Apontamentos Acerca Dos Judeus Nos Primeiros Anos Do Mundo Novo Mameluco. Palestra para furriéis e oficiais milicianos no Serviço de Comunicações do Exército, Lisboa-Portugal, 1975. MARQUES, Alfredo Pinheiro – A Maldição Da Memória Do Infante Dom Pedro E As Origens Dos Descobrimentos Portugueses. Centro de Estudos do Mar, Figueira da Foz / Portugal, 1994 MARQUES, Manuel Eufrázio de Azevedo – Assentamentos Históricos, Geográficos, Biográficos, Estatísticos e Noticiosos da Província de S. Paulo / 2 Vols. IHGSP, Livraria Martins Fontes / São Paulo, Brasil, 1879. REIS, Manuel – Camelo ou Animal Político. Texto original de 1982, lido em partes por J. C. Macedo em conferências para estudantes e professores, em Portugal. Publicado finalmente no Brasil [Ediç Edicon + CEHC] em 2011. ‒ Socrates e Jesus / Esses Desconhecidos. (As Duas Revoluções Gémeas). EDICON. São Paulo, Brasil-2001. SAMPAIO, Theodoro – O tupi Na Geografia Nacional. Typ. Da Casa Ecléctica. São Paulo, Brasil, 1901.

JOÃO BARCELLOS


Humano de visão crítica e construtiva, João Barcellos é o poeta em tudo o que faz e escreve, seja como jornalista, romancista, dramaturgo, pesquisador de história ou conferencista. Ao buscar o perfil social e histórico de Cosme Fernandes (o Bacharel de Cananeia) ele traz para o nosso meio mais uma tábua de dados surpreendentes acerca da luso-brasilidade, e retoma a linha que o fez escrever acerca do Morgado de Mateus e do Piabiyu, e os já clássicos Do Morro Araçoiaba Ao Brasil Industrial e Gente da Terra. A epopeia luso-brasileira ganha com este intelectual uma poesia que, apesar de circunstancial, ilustra a emoção da portugalidade no mundo. O intelectual português continua a odisseia historiográfica de manter a memória luso-brasileira limpa dos horrores da estória.

Marta Novaes Buenos Aires, Argentina, 2014.

Rey & Mason  

a odisseia ibero-afro-americana de um ilustre apostasiado que serviu a João II e Manuel I e veio a ser um rei branco entre guaranis & com el...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you