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João Barcellos

PARDINHO UM BUCÓLICO E PARDO CAMINHO DOS FOGOS DE SUBSISTÊNCIA & SESMARIAS À MODERNA URBANIDADE

2013


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

B218p

Barcellos, João, 1954Pardinho : um bucólico e pardo caminho dos fogos de subsistência & sesmarias à moderna urbanidade / João Barcellos. - São Paulo : EDICON, 2013. 64 p. : il. ; 21 cm

ISBN 978-85-

1. Rio Pardo (RS) - Geografia 2. Brasil - Geografia histórica I. Título.

13-2078.

01.04.13 04.04.13

CDD: 910 CDU: 910

043922


Índice

Apresentação I do Autor

Apresentação II Profª Fernanda Marques

Parte 1 A PAISAGEM QUE DESLUMBRA

Parte 2 A TERRA E A GENTE NOS OLHOS D´ÁGUA

Parte 3 O ARRAIAL DA CAPELA ENTRE FOGOS DE GENTE DESBRAVADORA

Parte 4 TÁBUA CRONOLÓGICA DO ASSENTAMENTO COLONIAL & POLÍTICO-ADMINISTRATIVO DE PARDINHO

Parte 5 Breve Glossário Notas & Bibliografia Sobre O Autor


PARDINHO UM BUCÓLICO E PARDO CAMINHO DOS FOGOS DE SUBSISTÊNCIA & SESMARIAS À MODERNA URBANIDADE

Apresentação I A definição lítero-historiográfica para uma região socialmente assente nos registros coloniais nem sempre é uma tarefa fácil, quase sempre, sim, é uma tarefa a envolver esforços pela demanda de fontes fidedignas, ou pelo menos aceitas pela compreensão geral e acadêmica. Falo aqui da Capitania de São Paulo e faço minhas as palavras do padre Manuel Aires de Casal... “[...] Confina ao norte com a [Capitania] de Minas Gerais, de que é separada pela Serra da Mantiqueira, e com a de Goiás de que é dividida pelo Rio Grande; ao sul com a de São Pedro, da qual é separada pelo Rio Pelotas; ao ocidente com o Rio Paraná, que a divide das províncias de Goiás e Mato Grosso; a oriente tem o mar oceano, e as províncias do Rio de Janeiro na parte setentrional, e a de Santa Catarina na meridional".

pois, assim ele descreveu, em 1817, a capitania que seria o eixo da economia sul-americana e, durante muito tempo, suporte da Coroa lusa. Quando, no final do Século 20, o cientista Aziz Ab´Sáber me apresentou à geomorfologia e à “necessidade de todos conhecermos o chão que pisamos para nele aprendermos a caminhar sem o ferir” [Barcellos, 1991], referia-se aos estudos que havia feito nas regiões de Sorocaba e Botucatu para levantar e registrar o histórico geográfico. E acerca do Rio Pardo, com nascente na Serra de Botucatu, dizia ele que “este rio é tão importante que até quem abriu fazendas nas suas margens percebeu que teria de respeitá-lo para viver em


paz” [idem]. Mais tarde, em 1996, ao conversar com Hernâni Donato acerca do histórico do Wotucatu, lembrei-me da frase ab´saberiana, e o estudioso confirmou que “as lavras foram abertas como que sob orientação dos nativos”, ou seja, os assentamentos agropecuários na serra e no entorno foram feitos com o cuidado de não quebrar a harmonia telúrica ali encontrada. E na verdade, os colonos portugueses, a maioria já luso-brasileira ou brasileira, arranchou-se como se arranchavam os nativos, embora que com ferramentas e utensílios domésticos que aqueles não possuíam. Isso durante a precariedade dos Séculos 16 e 17, pois, ao contrário do que vários estudiosos pensam e escrevem, existem registros de assentamentos no Wotucatu e periferia desde que as minas de ferro do Cerro Byraçoiaba deixaram de ser produtivas e as gentes foram obrigadas a procurar outras regiões, e, uma delas, talvez pela lonjura, mas também pelo ambiente propício à agricultura de subsistência, foi a Serra do Wotucatu. Mais tarde, escuta-se e se lê a denominação goyaz, que vem de rota para goyaz e situa-se além das cabeceiras do rio que tem nascente no topo da serrania. Obviamente, a região recebeu agricultores e, com eles, escravos nativos e africanos. Entretanto, em meados do Século 18, e já com a capitania paulista sob o mando do iluminista Morgado de Matheus [Luís António de Souza Botelho e Mourão], a região oeste foi a mais atingida pelo expediente oficial de abertura de caminhos e instalação de novos povoados, e o capitão-general não teve dúvidas em arregimentar mesmo “vadios e forros que andam dispersos e não têm casa” [in “Carta ao Conde de Oeiras”, de 24.12.1766], para compor novos fogos e civilizar os caminhos velhos alcançados pelos bandeirantes. Antes de a capitania ter reiniciado o seu despacho paulista, a companhia jesuítica [padres da Sociedade de Jesus / SJ] havia recebido, em agosto de 1717, uma “sesmaria de três léguas de terras [...] dos campos do Wotucatu, adiante de Guareí, distante da fazenda do capitão José Bicudo, 8 léguas, mais ou menos, no Paranapanema”. O que demonstra uma ocupação territorial e de cultivo com largo histórico. Com a nova ordem imperial de liquidar com a ação jesuítica no Brasil, os padres foram expulsos e ´suas´ terras divididas e entregues a lavradores comprometidos com a lavoura e o novo perfil econômico da capitania. E apesar do aumento do manejo de terras na serra do Wotucatu ainda prevaleceu a orientação do capitão-general: “para cada coisa tirada, outra deve ser colocada”. E isso valeu principalmente para as vilas e fazendas ribeirinhas. De tal evolução agrícola e urbana é que veio a surgir a necessidade de transformar a enorme Fazenda Santo Inácio, lá no “assimo do wotucatu” e a envolver a nascente daquele pardo rio, em novos arraiais, dos quais se formaram as povoações de Botucatu e Rio Pardo. Já no Século XIX, doações de terras para a construção do Patrimônio de Espírito Santo do Rio Pardo, possibilitaram o desenvolvimento definitivo da vila que, mais tarde, para se dissociar do nome Rio Pardo passou a chamar-se Pardinho, aliás, uma maneira de respeitar o velho caudal que lhe dá vida e prazer.


“E se vê que aquilo ali foi mar um dia”, escutei. E assim me dei conta, nos alvores de 2013, que estavam a falar-me de Pardinho, a urbanidade de origem wotucatuense que envolve e protege o Rio Pardo. Lembrei-me, então, que mapas e registros haviam passado pelos meus olhos durante pesquisas sobre o Cerro Byraçoiaba e a Região Sorocabana até à Serra de Botucatu, locais situados nos ramais mais frequentados do Piabiyu. Na coleta de dados e fontes bibliográficas do meu acervo eis que Wotucatu surge como farol a iluminar o nascimento de novas ´casas´, entre elas, uma casa chamada Pardinho, onde paulistas do Brasil se dizem ao mundo sob as cristalinas águas do [seu] Rio Pardo. O Autor

Apresentação II

PARDINHO NA LEITURA DE JOÃO BARCELLOS

O trabalho do pesquisador, poeta, romancista, jornalista e cronista João Barcellos, surpreende a cada nova jornada que ele apresenta. “Olha, perguntaram-me o que eu sabia acerca de Pardinho, uma cidade da cuesta wotucatuense, e eu respondi que ´passei por lá uma vez e, depois, tive conversas sobre a região com o Aziz e o Donato´ e, poucos dias depois, após passar por duas instituições na velha ´sampa´, acabei por registrar, às vezes poeticamente, o que sabia e o que fiquei sabendo de Pardinho. E, agora, eis aqui a (minha) História de Pardinho”. Esta foi a mensagem eletrônica que recebi do amigo e mestre, talvez por ele saber que me interesso muito pelos estudos relacionados à cuesta wotucatuense. E li. E reli. Toda a região da cuesta wotucatuense, onde está hoje a cidade de Pardinho (e esta região em particular), possui uma reserva lírica-paisagística que o professor Ab´Sáber chamava de “flor bruta”, e que o Barcellos chama de “pardo estilo da sobrevivência”, o que em ambos os casos significa o mesmo. E tudo isso está no estudo lítero-historiográfico agora levantado e ´assentado´ pelo Mestre JB. Atrevo-me a dizer: Este estudo, acerca de Pardinho e sua história, complementa e remata os estudos socioculturais e


históricos de João Barcellos no âmbito das vilas e serras a oeste do Planalto Piratiningo pelas quais a colonização lusa e judaica fez nascer um novo Portugal e, também aí, o espírito empreendedor para a formação do Brasil. Talvez por isso, a História de Pardinho é uma poética que só um mestre como João Barcellos poderia captar com tanta sensibilidade e brilho. É um orgulho ser convidada pelo Mestre JB para escrever uma apresentação a tão notável trabalho literário e histórico. MARQUES, Fernanda Antropóloga Buenos Aires / Argentina, 2013.


Parte 1 A PAISAGEM QUE DESLUMBRA

do que outrora mar foi ora é maresia de poética urbana a nova casa é um sal da terra em quimérica vivência tal o mar que se foi

1.1 Para qualquer lado que olhemos fixamos rochas (é o estudo geológico) e relevos (é o estudo geomorfológico) e vegetação – e, esta, no caso do Brasil, é diversa, como caatinga, cerrado, pantanal, i.e., unidades biológicas (biomas) com fitofisionomias próprias. Na particularidade naturalíssima que é a Bacia do Paraná, as rochas sedimentares da chamada Formação Botucatu, sobre o fenomenal e vivificador lençol d´água doce dito Aquífero Guarani, formam sinuosos canais fluviais e banhados que possibilitam, também, a preservação de matas e florestas. E quando observamos maciços como o Cerro Byraçoiaba e a Serra de Wotucatu e mergulhamos nas massas cristalinas dos olhos d´água, que ali brotam em meio à exuberância da vegetação e dos animais, perguntamo-nos “como isto aconteceu?”. Do ´paredão´ que é a Serra do Mar podemos adentrar a planície, como fizeram os precursores das bandeiras paulistas a partir da Sam Paulo dos Campu de Piratinin, e seguindo pelo sertão a oeste, como fizeram os jesuítas sob as ordens do astuto Manoel da Nóbrega, pela orientação piabiyuana dos guaranis, encontramos a Bacia do Paraná para aí observarmos a grande depressão marginal que se prolonga em Rio Claro, e na qual surgem, fantásticas, as cuestas da Serra Geral, incluindo Botucatu. E isso aconteceu


porque a Terra buscou em si mesma um equilíbrio gravitacional após tamanha bagunça vulcânica a jogar massas e massas de um lado para outro. Então, o soerguimento da Serra do Mar e da Cuesta aconteceu pela necessária “compensação isostática em relação ao peso das rochas sedimentares da Bacia do Paraná que levantou as bordas” [Ab´Sáber, idem].

[a Cuesta wotucatuense em desenho esquemático]

[as placas tectônicas]

1.2 Antes da humanidade, cerca de 600 milhões de anos, aconteceu a era proterozóica. E, então, a ação telúrica que conhecemos como Orogenia Neoproterozóica Brasiliano Pan-Africano, produziu choques continentais; e dele sabemos, porque ao observarmos a ´paisagem´ resultante fixamos “falhamentos e mega lineamentos que foram exumados e hoje exercem um


controle forte no relevo da atual Serra do Mar” [Ab´Sáber]. Os Andes e a Serra do Mar formaram-se na mesma época e dos granitos formados (erosão) estão as rochas sedimentares que fizeram acontecer a Bacia do Paraná, onde, segundo vários estudos, a mais recente é do Cretáceo. Com esses choques e rupturas colossais, e principalmente a partir do vulcanismo fissural, que origina cânions, grutas, relevos ondulados, canais fluviais, fraturas imensas de onde brotam águas puras, pode se imaginar, por exemplo, que as serras e planícies que hoje percorremos foram ontem leito de mar... Como se escuta muito no entorno urbano das serras e, também, em Pardinho.


Parte 2 A TERRA E A GENTE NOS OLHOS D´ÁGUA

a terra que piso é o berço que tenho e nele não me detenho até cantar o sonho em que ando perdido sou gente da terra e lido com a esperança de ser arraial neste ar de bom vento

2.1 A imensidão de morros – podemos afirmar que estamos diante de um mar de morros – em torno da região serrana de Wotucatu, a muitas léguas a oeste do planalto de Piratinin, rodeada por todos os lados de nascentes e olhos d´água, mas com bucólica incidência na nascente que despeja a alegria da vida telúrica e cósmica por um caudal que corta a própria serrania e investe, desbravador, sertão afora – um caudal que os portugueses denominam Rio Pardo, no seu lento e precário assentamento colonial para seguir os passos dos povos sul-americanos em trilha própria, e primeiro, no aprendizado naturalíssimo de perceber a [sobre]vivência dos povos nativos, que


dominam este sertam, segundo, no reconhecimento logístico do Piabiyu [ou, Peabiru], o caminho ancestral por onde vão e retornam os guaranis entre vastas regiões do continente.

[A linha de Tordesilhas e o Piabiyu]

E não só: o Piabiyu é uma via de comunicação entre gente tupi, xavante, guarani [cuivá-guarani], kaingang... E a gente colonizadora sabe que foi a seguir o caminho feito a pé [´piabiyu´] dos nativos que o Bacharel de Cananéia [Cosme Fernandes, ou Duarte Pires] se fez temporariamente imperador da costa sudeste e que Affonso Sardinha [o Velho] tornou-se o grande precursor do bandeirismo. Estar com a gente nativa e perceber o porquê da sua estada mais prolongada em território como o Wotucatu é garantir conhecimentos para a jornada de assentamento agrário e pecuário, e, sim, dar seguimento àquela outra da demanda aurífera. Por isso, o rio que passa pardo e cheio pelos vales e morros da serrania deve ser embarcado pelo imaginário e pela ousadia dos portugueses. É o que sentem e é o que fazem. “Não estamos aqui de passagem, estamos aqui para refazer as nossas vidas!”, é o sentimento geral. E “com a fé de uma cruzada de assentamento sulcam a terra e bebem a água do pardo rio que lhes surge como novo altar para as orações da sobrevivência”, como escreveu o poeta J. C. Macedo, que remata:


“[...] a essência objectiva do acto sócio-político e económico que permeia os pousos e o arraiais das gentes em busca de uma mátria própria, mas já a ter os sertões do oeste piratiningo como berço, não é algo que as aguarda, mas a cultura possível diante das realidades geomorfológicas que encontram, logo, adaptam-se, seccionam saberes anteriores e aplicam os mais práticos... neste brutal sertam faço um novo mundo qual mar que galga almas virgens batalhas de vivas vertigens e nada m´alcança eu sou o mundo a fé e a capela no sertam E é o que sentem e é o que fazem, porque se sabem parte da natureza adoptada como berço na nova odisseia humana [...]”

Das raras famílias a fogos de arranchados, a serra ganha o convívio de uma civilização que lhe quer toda a vida que possa dar. Como não são sesmeiros, i.e., não possuem terra dada para cultivo, não pagam a siza, ou, a jugada, como dizem minho-durienses e trasmontanos. Muitos dos colonos que sobem a Serra do Mar e se fazem aos sertões dos carijós [leia-se guaranis] são oriundos das regiões portuguesas do Minho, Douro e Trás-os-Montes, gente que se adapta com facilidade às circunstâncias, mas sem perder a sua identificação linguística, mesmo quando necessita aprender a generalidade do tupi-guarani para garantir a comunicação. O pagamento da décima parte dos negócios está no regimento que administra as minas e as sesmarias, mas não atinge o trabalho liberal e a-volante, quer no transporte de cargas quer nos fogos de subsistência. Parte desta gente portuguesa é cristã-nova, diga-se, judeus forçados à fé cristã-católica, daí que muitos dos sobrenomes sejam “silva”, “macieira”, “sardinha”, “silveira”, “costa”, “castanho”, “torres” “vinhas”, “leite”, “prado”, “pedras”, “águas”, “rocha”, “campos”, etc. e etc., e entretanto, gente que determinou uma economia liberal entre o litoral e o sertão das serranias piratiningas, o que possibilitou o assentamento colonial no espaço que se pode denominar “o século judeu na Insulla Brasil”. Para esta gente perseguida inquisitorialmente no mundo da cristandade o que é preciso é conquistar espaço para fazer um novo tempo português e a sua ação determina o nascimento de uma nova nação...


2.2 O tipo de solo e os banhados que os colonizadores encontram permite-lhes vislumbrar a possibilidade de uma boa partida agrária e pecuária. Não sabem o que é, mas pisam em solo vulcânico enquanto miram furnas e fios d´água entre densa vegetação. Percebem nos costumes nativos o aproveitamento pleno de todas as possibilidades de cultivo de raízes nas beiradas ribeirinhas, em acampamentos de subsistência, mas também a demanda por pesca e caça. E assim formam os primeiros fogos [aglomerados familiares] no sertão da serrania.

nativos de trouxa às costas arcos e flechas e pouca fala dizem d´águas e comem raízes e delas bebem bagaço colonos põem de lado o embaraço querem construir outras raízes aos poucos vão à fala conquistam os povos bravios e erguem casas novas

E os povos nativos... Nas serranias wotucatuenses não existe apenas ´ar bom´, existe gente nativa... também! Gente da selva. Várias tribos com povos de linguagens diferentes ocupam o litoral, o planalto e o sertão. Dos tupis e guaranis, caiuás e kaingangs, entre outros, aos já distantes charruas (ao sul) e goyazes (ao centro-oeste), mas todos em comunicação pela malha do Piabiyu, os portugueses encontram a naturalíssima resistência nativa. Os sertões no entorno do Cerro Byraçoiaba e na Serra Wotucatu, além das aldeias aí existentes, recebem tupis e guaranis e caiuás em fuga de Cananéia, e principalmente após o assentamento das vilas de S. Vicente e de Santos. Em meados do Século 16 os nativos já não têm o apoio nem a liderança do Bacharel de Cananéia, mas gozam do beneplácito dos jesuítas, que os querem como escravos mansos. Com os nativos empurrados sertão dentro, os colonos portugueses têm que vencer a dureza dos rios e dos matos, enquanto evitam as flechadas e as ciladas, de quem resiste naturalmente à ocupação do solo próprio. Toda a bacia do Paranapanema é, no início do Século 17, um domínio fundiário e ribeirinho de gentes nativas. É o que dizem as cartas dos padres jesuítas e de estudiosos da expansão jesuítica e, séculos depois, de pesquisadores incansáveis na demanda da verdade em que ´aquele outro Portugal´ se levantou ao longo do Piabiyu.


E diga-se: colonizar não significa povoar, mas cercar e dominar para destruir outro povo, outra linguagem. Os portugueses e os castelhanos não encontram terras vazias na sua odisseia militar e mística, encontram povos dos quais querem as terras e as riquezas. É o espírito fundiário e místico da Idade Média assinado com requintes de barbaridade. No caso português, e entre Manuel I e João III, a Coroa transforma-se no altar da mística infalibilidade cruzadística e Vasco da Gama inferniza a Índia enquanto no Brasil os governadores dizimam povos e destroem línguas. Na concepção da sociedade mística vale somente a conquista da terra e, então, a destruição de outros povos é parte da fé que se dilata sanguinariamente: os marujosguerreiros e também os colonos luso-judaicos [cristão-novos] vivenciam esta concepção e realizam-na como um projeto pessoal em louvor d´el-rey e, também, em muitos casos, em benefício próprio, como se sabe das ações do Bacharel de Cananéia e do ´velho´ Affonso Sardinha, e mais particularmente das ações do governadores hereditariamente instalados e nem sempre presentes. E eis que a colonização avança... A primeira providência dos colonizadores é dominar as aldeias nativas e, se possível, refundá-las já com nome cristianizado – e lembro que Piratinin virou Sam Paolo, Guaiaó virou Santos e Engaguasu virou S. Vicente, e etc. –, pois, a par da ação militar de ´salteo´, têm os marujos-guerreiros o dever ´cruzado´ de expandir a fé da cristandade a ferro e fogo. E assim é que dominada a Serra do Mar instala-se uma luta de ocupação contra uma luta de resistência. Por mais aguerridos que sejam, resta aos nativos a rendição para escravatura e a fuga. Verificam que os nativos se comunicam com uma espécie de língua comum e alguns colonos percebem que a sua sobrevivência também depende do aprendizado dessa língua: é quando sabem que Wotucatu é o nome dado à região pelos nativos tupis. Aprendem que ybytu-katu significa vento ou ar [ybytu] bom [katu], e logo pronunciam Botucatu em natural aportuguesamento. Estão num território brutalmente bucólico, tal é a naturalidade de tudo o que veem e tocam: sentemse “no meio de algo surgido no meio de evoluções geológicas que não sabem precisar, mas reconhecem em tudo a força profunda da ´coisa´ bravia à qual a humanidade ainda não deu o seu polimento civilizacional, pois, é um todo pardo no qual os povos nativos se sentem em ´casa´ e por ela caminham sem a precisão ornamental, ou, a ´civilizacional´ ruptura que manipula a própria natureza” [Macedo, idem]. De tal sugestão de naturalidade é que sobrevém a denominação pardo que vai nomear o rio que brota da principal nascente na serra do Wotucatu, aquele caudal vivificador.


2.3 Uma dos fatores de importância extrema na formatação de arraiais que logo viraram vilas e cidades, acima e abaixo da Serra de Botucatu, é a descarga de vida pelos olhos d´água... O Rio Pardo tem nascente na Serra de Botucatu, situada hoje no município de Pardinho, no Estado de São Paulo, a 1.007 m acima do nível do mar, e junto à front da cuesta. Afluente do Rio Paranapanema, atravessa 14 localidades do centro oeste paulista para desaguar na Represa Lucas Nogueira Garcez, em Salto Grande, e já na altitude de 377 m acima do nível do mar. É o principal rio da Bacia Hidrográfica do Médio Paranapanema, que engloba 42 localidades.

entre sesmeiros e escravos pela serrania de wotucatu aquém do grande sertam goyaz vem o rio em cânticos de paz a dizer de um eu e de um tu queda d´água entre livres abraços entre ouro e grãos de café e melaços lá vai o brasil pelo piabiyu

Um dos maiores rios do estado paulista, o Pardo circula por 264,25 km, desde a nascente à foz, na represa de Salto Grande; no percursos ´banha´ e mata a sede a gentes, primeiro de Pardinho, e depois, de Botucatu, Pratânia, Itatinga, Avaré, Cerqueira Cesar, Iaras, Santa Bárbara, Óleo, Bernardino de Campos, Santa Cruz do Rio Pardo, Chavantes, Canitar, Ourinhos e Salto Grande. Da nascente, em Pardinho, até Botucatu, o Rio Pardo sofre dois represamentos artificiais: a Represa da Cascata Véu da Noiva, em Botucatu, e a Represa do Mandacaru, onde é feita a captação d´água para o abastecimento de Botucatu.


Ele recebe a contribuição de vários afluentes: o Rio Claro, que tem sua nascente em Botucatu, e é afluente do próprio Pardo na cidade de Iaras, com 72 km; o Rio Novo, que nasce em Itatinga, e torna-se afluente do Pardo em Santa Bárbara, com 77 km, e o Rio Turvo, com nascente em Agudos, e 130 km, sendo este o principal afluente do Pardo, desaguando em Ourinhos. O percurso fragmentado, desde a fissura e do olho d´água que lhe dá origem e por toda a serrania, mostra e demonstra a formatação vulcânica dos maciços que se ergueram no Wotucatu e aclimataram a região para uma vivência de bons ares. É por isso que o Rio Pardo faz parte do progresso geral dos paulistas que em Pardinho cantam o Brasil autêntico.

Curiosidade Existem, na região gaúcha, o Rio Pardo (que dá nome à cidade Rio Pardo) e o Rio Pardinho (que desemboca no Rio Pardo). Ambos fazem parte da Bacia do Pardo. A Bacia Hidrográfica do Rio Pardo, localizada na região central do Estado do Rio Grande do Sul, aflui no Rio Jacuí, sendo integrante da Região Hidrográfica do Guaíba, correspondendo à Bacia G 90 [na classificação oficial]. A área de drenagem da Bacia do Pardo é de 3.636,79 Km², sua extensão é de 115 Km e a largura de 35 Km, representa 1,3% da área do Estado e 4,3% da Região Hidrográfica do Guaíba, abrangendo 13 municípios, com mais de 200.00 habitantes.


Parte 3 O ARRAIAL DA CAPELA ENTRE FOGOS DE GENTE DESBRAVADORA

O famoso sertanejo Aleixo Garcia, cunhado do menos famoso Bacharel de Cananeia, segundo as anotações do pesquisador jesuíta Luiz Gonzaga Cabral, está entre os padres que, em pleno Século 16, “[...] abriram as estradas de Santos a São Paulo E mais outras para o interior, especialmente uma por Botucatu até o aldeamento do Paranapanema com comunicação fluvial para Mato Grosso [...]”.

Ora, o que esta importante anotação nos informa é que a migração lusa e jesuítica do litoral da Serra do Mar para o sertam goyaz obedece à lógica das comunicações terrestres e fluviais dos guaranis pelo Piabiyu, ainda nos idos de 1530 a 1553. E mais: a colonização das serranias de Wotucatu inicia-se a partir do quinhentos pela demanda de verificar a história contada pelos guaranis e os tupis, pois, havia todo o interesse em encurtar a distância entre Salto Alto e Wotucatu. E é na intercepção das linhas nesta malha piabyuana que Nóbrega instala Maniçoba, antes de decidir a fixação jesuítica no planalto de Piratinin, por volta de 1553. Entre tudo e todos [leia-se portugueses e castelhanos] existe uma linha imaginária pela qual o papado da cristandade dividiu o mundo: é a Linha de Tordesilhas, tratado assinado entre o Vaticano [Alexandre VI], a Coroa castelhana [rainha Isabel] e a Coroa portuguesa [rei João II]. Pela bula inter cetera, foram divididas as concessões espanholas das portuguesas através de uma linha ou meridiano de polo a polo, a 100 léguas das Ilhas dos Açores e Cabo Verde, passando a pertencer o que dessa linha ficasse para o oriente a Portugal e para o poente a Espanha. E assim, em 1494 nasce o Tratado de Tordesilhas que, em especial na Insulla Brasil, vai acarretar lutas sangrentas entres os dois povos ibéricos.


[Suite du Bresil pour servir à l'Histoire Générale des Voyages tiré de la Carte d'Amérique de M. Danville. Jean Françoise de La Harpe]

Neste contexto beligerante é que os ibéricos adentram o setecentos. Na primeira metade do Século 18, o imenso território subordinado a São Paulo é abruptamente ampliado com a descoberta de novas jazidas de ouro em de Mato Grosso [a partir de 1719] e Goiás [a partir de 1725], e logo se erguem arraiais de mineração, depois, elevados à condição de vila, como as de Senhor Bom Jesus de Cuiabá [1726] e Boa de Goyaz [1736]. E é o mesmo contexto histórico e geopolítico que faz de São Paulo o eixo [a decalcar a malha piabyuana] de uma colossal rede fluvial e viária na direção oeste e sul... E aqui, onde está a Linha de Tordesilhas? Não está. Nem figura mais no imaginário português!


[a bula papal e o tratado]

No ano 1733 um fato econômico acontece em Sorocaba: um empreendedor atravessa a vila com os seus muares vindo do sul, mas antes tendo ido buscar cabeças à região argentina de Corrientes; de Cruz Alta alcançou os caminhos piabiyuanos até Sorocaba. É dado início ao Ciclo do Tropeirismo. As principais estâncias [re]produtoras de muares estão em Córdoba, na Argentina, e são propriedade dos padres jesuítas. Este ciclo, que abre inclusive uma nova estrada comercial, dinamiza toda a região oeste paulista e, obviamente, a região das serranias wotucatuenses ganham com tal pujança mercantil. Os ´bons ares´ da serra levam sitiantes a considerarem os seus fogos ótimas bases de oportunidades para abastecer a feira de muares com alimentos frescos. Na ousadia de ter o solo produtivo como amigo, nada se perde, o ganho é constante. Enquanto isto... As hostilidades espanholas, e os registros são vários, focam as atenções da Coroa lusa para o centro-este e o sul. As capitanias centrais e sulinas são agora grandes desafios políticos e administrativos. Então, sobressai a necessidade de organizar uma defesa efetiva no Rio da Prata contra as ofensivas castelhanas. Os pontos principais: a Colônia do Sacramento e a Lagoa dos Patos. É preciso e urge manter soberania portuguesa. O primeiro-ministro do rei José I é o notável reinol Sebastião José de Carvalho e Melo [conde de Oeiras] e este indica e nomeia o 4º Morgado de Matheus para assumir a tarefa de reestruturar a Capitania de São Paulo e instalar uma nova divisão fundiária a par de novas povoações. O iluminista e morgado Luís António de Souza Botelho e Mourão chega ao planalto piratiningo com ordens claras e a determinação de proclamar a soberania portuguesa.


[morgado e capitão-general]

Habituado a lidar com dificuldades e um leitor ávido da problemática social do seu tempo, o morgado não perde tempo. Em uma das cartas ao amigo e primeiro-ministro, ele registra: “Desejando dar providencia sobre a falta que ha de Povoações civis nesta Capitania, tenho disposto mandar formar seis em diferentes partes que me pareceram as mais próprias, e as mais úteis pela sua cituação, comodidade, e fertilidade do Paiz, e são as seguintes: Huma na Barra que faz o Rio Pirassicaba entrando no Tietê, dez legoas mais adiante de Araytaguaba, última povoação em que se embarca para Cuiabá, para que os que fazem esta viagem tinhão escalla mais abayxo em que possão refazer-se [...] Outra no Wotucatu, sobre o Rio Paranapanema para tentar-se poder restaurar as muitas fazendas que se despovoarão naquelle Rio depois que abandonamos a navegacão delle para Cuiabá, pertendo [sic] juntamente as vargens da Vaccaria de Guaycuru de que hoje se querem fazer senhores os castelhanos [...]; Outra na paragem chamada a Faxina sobre o caminho que vay de São Paulo para Curitiba adiante de Sorocaba que hé a ultima villa, quarenta legoas para ver se acrescentão para aquella parte mais as povoações por não haver em toda a distancia daquella Villa até Curitiba [...]em que só tinha alguns moradores [...] Outra nos Campos de Lagens/em legoas depois de Curitiba no caminho que vay para Viamão, para ver se juntão os muitos moradores dispersos que ha de parte de cima da serra da Costa do Mar, fazendo-se fortes sobre as margens do Rio Pelotas para fortificar aquella paragem contra invazões que ahy podem fazer os Índios das missões castelhanas, cortando-nos com muita facilidade o passo e comunicação que possamos ter por terra com os habitantes de Viamão [...] Outra na costa do mar na enseada de Guaratuba abayxo de Paranaguá para o Sul dés legoas por ser bom Porto de mar muito farto de peixe, e excelentes terras [...] Outra no Rio Sabaúna entre Iguape e Cananeia por ser bom porto do mar, muito farto de peixe, e boas terras, e desejar que todos os Portos desta Costa se povoem [...] De todos estes lugares mandarei a V. Exª. a carta chorografica logo que a puder concluir e ajustar para ir com a exactidão, a qual eu mesmo ey de fazer, e pintar por não ter quem saiba” [in Cartas Ao Conde de Oeiras]

Nessa missiva ele já indica claramente que uma das novas povoações a ser instalada seria no Wotucatu, sobre o Rio Paranapanema. Isto, porque já tem conhecimento que a região fora campo exploratório nas investidas sertanejas do Século 16 com a formação de arraiais de curta duração devido ao nomadismo das próprias ações. Em mente, o capitão-general tem a formação dos fortes de Iguatemi e de Sacramento entre toda a administração de novos arraiais e vilas para a urbanização da capitania. Para captar a atenção de


investidores, faz doação de terras, no quadro das sesmarias, tanto para agricultores quanto para mineradores.

[exemplo de corte sesmeiro]

Entretanto, ainda antes a chegada do morgado, nas serranias de Wotucatu são criadas mais de 10 grandes áreas, uma delas, pelo Rio Santo Inácio, para reinóis paulistas, em 1709, mas que 10 anos depois a doam aos padres jesuítas, à qual dão o nome Fazenda Boa Vista.

Da Carta De Doação Da Fazenda Santo Inácio O cap. Antº Antunes e s/mulher Josepha Paes. da Villa de Itú de Nossa Senhora da Candelária

por hua escriptura de doação feita na dita Villa na Nota do tabelião José Fco. de Aguiar aos 10/12/1719, derão hua cismaria de legoa e meia de terras de testada e trez legoas de fundo que possuião nos campos de Ibitucatu, ao Collegio de S. Paulo, com o legado de hua missa cada anno no dia de S. Ignácio por elles instetuidores como dis a dita escriptura na forma seguintes: Que elles tinhão nos campos de "Boytacu" hua cismaria de legoa e meia de testadas e trez legoas de fundo que tinhão alcançado do Governador Antº de Albuquerque; que nestas terras formavão Cappéla perpétua de que davão a Administração do M.R.P. Reytor do Collégio de S. Paulo de S. Ignácio por elles insteuidores e o mais que rendessem, mandassem dizer hua missa cada anno no dia de S. Ignácio por elles instetuidores e o mais que rendessem as ditas terras, poderia o Reverendo Padre Reytor que fôr do Collégio, gastar na sustentação dos Relligiosos do seu Collégio ou em esmolas aos pobres e não poderão os ditos Reytores alhear


as ditas terras porque dellas só lhes larga os uzos e frutos na forma sobre dita e não o domínio para o que dezestião de toda a posse e dominio e senhorio que nas ditas terras tinhão e que tudo transpassavão ao dito Collégio para gozarem os ditos uzos e fructos mandando lhes dizer a dita missa cada anno fazendo –lhe sempre boas e de pas as ditas terras etc. O Cappitão Mel "Manoel" de Campos Bicudo e sua mulher Antonia Paes de Siqueira fez também doação de trez legoas de terras nos campos de Ibitucatú ao Collégio de S. Paulo pa. o ornato do altar de S. Ignácio e mandarem dizer por tensão deles doadores hua missa cada anno no dia de S. Ignácio, como tudo declara a escriptura da dita doação pelo Cap. Caetano Soares Vianna na cidade de S. Paulo aos 23/12/1719 na forma segte: - E por elles marido e mulher. Que elles são senhores e possuidores de huns campos e pastos no termo da Villa de Sorocaba aonde chamão de Botucatu os quaes campos alcançarão por cismaria do governador Antº de Albuquerque que confirmarão na sua Magestade e tem trez legoas de comprido com a largura que se achar desde as carranquias tomando caminho athé o mato do Anhamby e que querendo elles agora outorgantes fazer bem por sua alma davão a administração das ditas terras ao sobredito Padre Reytor aos Reverendos Padres Reytores que pelo tempo em diante lhe sossederem para que do que rendessem ornem, e fação todo gasto necessário para o altar de S. Ignácio que está na Igreja do Collégio desta Cidade e mandem dizer por tenção delles outorgantes hua missa cada anno no dia do glorioso S. Ignácio e o mais que restar do rendimento das ditas depois de feitos os gastos sobreditos poderão os Ps. Reytores como administradores gastarem em bem do seo Collégio ou no que milhor lhe parecer de esmolas e obras pias para o que reservando em si o Senhorio das ditas terras dão ao dito Padre Reytor e seus sucessores só administração e um fruto com os encargos sobreditos sem poderem alhear as ditas terras porque querem que a missa e ornato sejão perpetuas. etc.

E antes e durante o período de governança do morgado, de 1740 a 1780, há registro de outras sesmarias pelos rios Alambari, Tietê, Claro, Palmital, Pardo, Peixe e Turvo, tendo como referência a Rota do Iguatemi, sentido Mato Grosso. Adiante, no Século 19, os pedidos de sesmaria são maiores e no Caminho do Bananal [entre os rios Capivara e Alambari, na região de Botucatu] várias dessas sesmarias desmembram-se e surgem novas paisagens agrícolas. Entretanto, para o capitão-general, amigo d´el-rey e amigo da parda eminência dita conde d´Oeiras, não basta botar bando nas ruas e praças a dizer da precisão de erguer novas vilas e buscar outras minas, é necessário contratar milícia para fazer recuar os povos nativos nas regiões sorocabana e botucatuense, e, de mãos dadas com fazendeiros e mineiros, construir o Portugal tropical. Mesmo para o iluminista Luís António de Souza Botelho e Mourão parece que a gente bugre não tem razão de existir...! Para combater a gente bugre a capitania recruta e estabelece pelotões bugreiros com milicianos de larga experiência militar. Um dos militares é o sorocabano Francisco Manuel Fiuza que, e lembro a crônica de Hernâni Donato, "comanda destacamento que bate morros e matos a mandado dos fazendeiros ou por comissão oficial de limpeza dos caminhos", cuja crueldade


ecoa de morro a morro. Os pelotões bugreiros têm até 15 elementos muito bem armados e, além de atacar e aprisionar (na maior dos casos matar) nativos aldeados, ou a-volante, acabam por fazer, também, proteção a técnicos de medição de terras, tropeiros e colonos em viagem. É nesta limpeza étnica – os homens são mortos, as mulheres levadas para a prostituição (outras feitas escravas sexuais dos novos senhores da terra) e as crianças vendidas a casais de brancos – que se abre o caminho colonial e se prepara a mente para um Brasil que se vislumbra imperialmente. Este é o contexto social e político do assentamento colonial, e do desbravamento à flor da pele se faz a gente sertaneja. O morgado e capitãogeneral não tem alternativa: ou faz ou descumpre a promessa a el-rey e ao conde seu amigo. Opta por fazer e o faz com a determinação que a história registra em farta documentação. Ao desmembrar as sesmarias dadas a jesuítas e a fidalgos que não cultivaram as terras, a capitania paulista dá a oportunidade que muitas famílias há muito aguardam: erguer a casa própria com a roça da sustentação com sobras para a comercialização em mercado público. As cartas de dadas, ou registros de sesmarias, são a principal referência, junto dos registros paroquiais, para a informação historiográfica do assentamento português em solo sul-americano. Em plena serrania wotucatuense [veja-se o caso de Pardinho, por exemplo], tais cartas ajudam a elaborar a descrição da expansão social e econômica local e da capitania, mostrando como da ruptura sesmeira nasceram arraiais e vilas. Mas não nasceram facilmente. Algumas tiveram vida curta. Com o retorno do morgado ´iluminista´ a Portugal, os seus esforços são esquecidos pelo novo ´figurão´ da Coroa [Martim Lopes Lobo de Saldanha] em terras piratiningas e parte da logística instalada se desfaz. Quase um século depois, um pelotão bugreiro, comandado por José Theodoro de Souza, refaz a odisseia de Fiuza para recompor a colonização no sertão e tem Botucatu como quartel-general. É a última ´entrada´ nos sertões paulistas já no alvorecer da identidade cristã em solo tropical...


Parte 4 TÁBUA CRONOLÓGICA DO ASSENTAMENTO COLONIAL & POLÍTICO-ADMINISTRATIVO DE PARDINHO

LOCALIZAÇÃO & DADOS ÚTEIS

4.1 O AMBIENTE HISTÓRICO DOS SÉCULOS 16, 17 E 18.

Século 16 ///// Como a colonização feita por portugueses não é só “de portugueses”, mas também, e principalmente, da Igreja católica, as posses de terras e até o registro de muitas sesmarias são feitos pelo pároco local. Para se ter uma ideia dessa força temporal dos religiosos da cristandade, lembremos o poder político-militar que tinha o jesuíta Manoel da Nóbrega, o fundador da Sam Paulo dos Campu de Piratinin, e de como ele decidiu avançar pelo sertão a oeste na busca da trilha guarani e na qual instalou Maniçoba, a primeira


unidade colonial acima da Serra do Mar – e, diz-se, pois não existem documentos, muito provavelmente entre wotucatu e a trilha de goyaz. Assim e sendo a Capella o marco-zero de todas as povoações da colinização luso-católica, os vigários [párocos] têm o poder de fazer registros de terras e outras posses, além de certidões [nascimento, casamento, testamento de sertam, etc.]. Desta sorte, muito do que é a História do BrasilColônia está assentada nos livros paroquiais e principalmente aquela história dos núcleos primevos dos fogos erguidos no Piabiyu ainda no quinhentos. ///// Após a empreitada do ´velho´ Affonso Sardinha, nomeado capitam de gentes da villa em 1592, na defesa das gentes paulistas e tomando aos nativos aguerridos o Pico do Jaraguá, fica definitivamente aberto o sertão a oeste do planalto piratiningo que os jesuitas haviam sonhado. Com a chegada do governador Francisco de Souza, a villa jesuítica ganha traços urbanos e administrativos, ação que se estende aos confins do sertão e, no Cerro Ybiraçoiaba, o governador incentiva uma maior produção de ferro na usina da Família Sardinha enquanto envia exploradores para os focos do Piabiyu em demanda de ouro e outras pedras preciosas além Wotucatu. Tais entradas, que as cartas jesuíticas mencionan antes de 1580, demonstram que os portugueses [a partir de 1580 sob o domínio da Coroa castelhana] embora não ocupem o sertam guarani, pelo menos dele têm conhecimento e trafegam por terra e vias fluviais, uma vez que já sabem que do portinho da aldeia Carapocuyba podem alcançar outros portinhos de comunicação nativa ao longo do Rio Anhamby até Araratiguama. ///// Ainda a villa jesuítica é ponto de difícil acesso no planalto piratiningo quando o germânico Ulrich Schmidt a atravessa com destino ao porto de S. Vicente vindo de Asunción e Buenos Ayres pelo traçado sertanejo do Piabiyu. O mesmo traçado utilizado pelos caixeiros-viajantes a serviço de Affonso Sardinha na sua azáfama mercantil, entre 1560 e 1597. No esboço descritivo da sua viagem percebe-se que Schmidt alcança caminhos piabiyuanos entre o território de Wotucatu e o de Itaqui, e é deste esboço que, mais tarde, o Morgado de Matheus vai se servir para idealizar as rotas do Iguatemi e do Sacramento. ///// Dos registros observados, principalmente por pesquisadores jesuítas, mas também dos registros da Vereança paulista quinhentista, sabe-se que Wotucatu é via essencial para a penetração dos sertões através das serranias e que sertanistas e jesuítas já aqui têm caminho orientado pelos guaranis. É o Piabiyu, o caminho ancestral dos guaranis a ligar Piratinin a Buenos Ayres e Asunción, entre outras localidades do continente, por trilhas terrestres e fluviais.


É tão importante a malha piabiyuana que nela resultam contatos mercantis entre portugueses, castelhanos e nativos, o que não agrada à Coroa lusa, que manda vigiar o caminho, como faz o governador Duarte da Costa [Regimento de 1556] e pune severamente quem ousa não acatar a ordem. Esta proibição acarreta na diminuição do fluxo sertanejo que passa pela serrania de Wotucatu, mas não impede a entrada de aventureiros que se misturam aos nativos e originam a primeira mescigenação no local.

Século 17 ///// Durante a era seiscentista, e enquanto Portugal não se desvencilha da Castela, o que aontece só em 1640, a colônia brasileira sofreu com ataques costeiros de corsários ingleses que, ao atacar interesses castelhanos atacam, também, os portugueses. Isso acarreta em dificuldades logísticas gerais, mas, especialmente, vem a frear o desenvolvimento gizado pelo governador Francisco de Souza, autodenominado Marquês de Minas. Apesar das diculdades, colonos como João Rodrigues [entre outros exemplos], em 1611, “[...] assiste na terra há muitos anos, tem muitos filhos. Está se mudando para Obiraçoyava e pede terras pela ribeira do Carapoi, começando na tepera de Hibopoara”

Ou seja: o seiscentos é a era da desolação para a villa jesuítica e o ganho social e econômico para as regiões no sertão a oeste. Isto mostra que o sertam guarani na malha piabiyuana teve assentamentos esparsos já no Século 17, independentemente da Maniçoba nobregana nos idos de 1552 a 1553.

///// A descoberta de jazidas auríferas no centro oeste da colônia e de diamantes fez migrar parte da população do sertão paulista, o que paralisou ainda mais o já precário assentamento de fogos nas serranias e caminhos ribeirinhos do Piabiyu. É em tal contexto que o padre e banqueiro Guilherme Pompeo de Almeida segue o mesmo traço mercantil do ´velho´ Affonso Sardinha e transformase no eixo do desenvolvimento que vai alimentar as gentes que cavocam e faiscam no centro oeste. Este é um dos exemplos de que as sesmarias dadas a gentes empreendedoras resultaram em sucesso mercantil contribuindo para uma nova economia na colônia. Por outro lado, também mostra que a villa jesuítica ficou praticamente despovoada sendo ultrapassada em pujança socieconômica por Sant´Anna de Parnaíba; mas, o pior estava no sertão entre a região de Sorocaba e Wotucatu, pois, eram poucos os progresssos nas lavouras de


milho e de algodão, enquanto a pecuária ainda era sustento principal na subsistência familiar. ///// A transição do seiscentos para o setecentos não seria fácil para as gentes paulistas nem tampouco para os governantes coloniais assediados pela ganância da Coroa na vida boa de Lisboa. As gentes que mais sofrem estão nos fogos assentados a eito nas serranias, como a de Wotucatu. Resiste melhor às dificuldades quem sabe perceber nos costumes dos povos nativos o jeito de sobreviver, de levar a vida com e no meio das coisas naturais. A maioria dos fogos e das sesmarias que adentram o setecentos está em situação de pura sobrevivência, pelo que a doação de terras aos padres jesuítas passa a ser, também, uma solução intermediária – a saber: os sesmeiros grã-finos [alguns deles brasonados, i.e., de casas fidalgas] que não têm como dar continuidade às lavouras, não perdem a sua posição social, até melhoram-na com a doação de terras aos jesuítas e outras corporações religiosas da cristandade, além de que ganham a benção perpétua... como já haviam feito Affonso Sardinha e Guilherme Pompeo de Almeida.

[Mapa de Jean Baptiste Borguignon. Século 18.]


///// A quase paralisação da mina de ferro no Cerro Ybiraçoiaba também contribui para a migração de famílias portuguesas e de escravos africanos. São gentes que vão a povoar outras paragens entre o Rio Sorocaba e o Rio Pardo, adentrando outras as margens do Anhamby, precisamente pelas trilhas da malha do Piabiyu que anteriormente haviam sido exploradas a partir de despachos no arraial mineiro do Ybiraçoiaba.

Século 18 ///// Entre os anos 1703 e 1715 todo o sertão paulista ressente-se da fuga de braços que antes haviam estado no esforço agrário e pecuário. Entretanto, aventureiros a-volante assentam pousos...

sigo a vida pelos meandros da serrania não tem porteira que me pare (nem ventania nem frio) este passo d´arriba sou bravio como pardo fruto c´anima quem aventura quer na serrania

É a gente ´bravia´ que, a beber a circunstância da aventura na necessidade de sobreviver, marca a ascensão luso-brasileira em ´passo d´arriba´ entre os fios d´água na serrania wotucatuense.

///// Alguns sesmeiros de grande arcabouço percebem-se à margem do progresso possuindo sesmarias em terras agricultáveis, mas não produtivas, e decidem fazer doações a religiosos para não perderem a dignidade social, antes que a Coroa intervenha e resgate os títulos de posse. A situação é bem diferente daquela em que alguns cresos paulistas [Sardinha e Pompeo, entre eles] decidiram passar, no final da vida, todas as posses para a administração jesuítica. Já em pleno setecentos a demanda por uma agricultura de resultados é uma política que urge tocar para a frente, ou a capitania poderá estagnar. 1719 O capitão Antônio Antunes e a mulher Josepha Paes fazem doação de terras sesmeiras à Companhia de Jesus [padres jesuítas]. É a partir da Fazenda dos Jesuítas que se inicia o processo sistemático de ocupação da Serra de Wotucatu [ou Ibitucatu] e desse território serão desmembradas terras que originam os primeiros arraiais e villas wotucatuenses, entre elas a que sediará a cidade de Pardinho mais de um


século depois. Antes desta sesmaria, formaram-se fogos e arraiais de curta duração, mas que determinaram uma ocupação de solo efetiva. 1722 O sargento-mor Manoel Gonçalves de Aguiar, e sócios, recebem provisão para abrir caminho novo de Sorocaba à embocadura do Pardo. 1766 As ordens imperiais que a diplomacia de Luís António de Souza Botelho e Mourão [Morgado de Matheus], nomeado capitão-general, carreia para reerguer a Capitania de São Paulo, determinam também a expulsão dos padres jesuítas da atividade religiosa, política e comercial. 1768 O capitão-general manda fazer o reordenamento territorial para o aproveitamento econômico das sesmarias que antes foram da Sociedade Jesus [SJ], e aquela doada em 1719 na Serra de Wotucatu é imediatamente desmembrada para possibilitar a formação de novos povoados e abrir a rota para Iguatemi, onde a capitania quer instalar fortificação e dar combate aos castelhanos do sul. Para a nova ordem colonial interessa arregimentar mesmo vadios e gente sem eira nem beira para que a capitania conquiste espaço na produção agropecuária, mineradora, e, principalmente, dar continuidade ao espírito urbanista que o governador Francisco de Souza legara ao despachar oficialmente no arraial mineiro em pleno Cerro Ybiraçoiaba. 1770 Novos arraiais surgem no assimo da serra do botucatu, instalam-se capellas que são marcos-zero a sinalizar a fé da gente desbravadora. Com o fim de muitas sesmarias, várias capuavas [o rancho fundo para pouso temporário] foram esquecidas, umas, e aproveitadas por sitiantes, outras. Um dos arraiais, precário, com meia dúzia de fogos, sobressai ano após ano no entorno do olho d´água que origina o Rio Pardo. Mais tarde, o arraial ganha a denominação Bom Jesus do Ribeirão Grande. 1830 Abertura da estrada entre Sorocaba e as cabeceiras do Rio Pardo. Dos núcleos sesmeiros de Wotucatu em dispersão pela nova economia de mercado, outros colonos chegam na demanda de novas oportunidades. Durante os Anos 30, alguns colonos fazem doações locais e erguem-se estabelecimentos diversos. 1835-40 Instalam-se os primeiros núcleos de cafezeiros e a região alcança, em poucos anos, importância na economia da Província paulista.


Cultura do Café em Pardinho O clima ameno e a umidade baixa fazem da Vila do Espírito Santo de Rio Pardo uma região para o plantio do café. Dos luso-brasileiros e italianos do Século 19 à comunidade miscigenada do Século 21, a vila troca de nome para Pardinho e produz agora 1.000.000 de pés de café entre os pequenos agricultores. A principal atividade econômica na serrania wotucatense, desde o tempo dos primeiros pousos é a roça de milho e mandioca, a par de raros pastos para gado leiteiro. A floresta deslumbra pela sua grandeza, mas é nos largos campos de arbustos perto dos fios d´água que a agricultura floresce também. Na serrania, após a divisão fundiária com a ruptura de fazendas sesmeiras não cultivadas ou com o termo contratual vencido, ordenada pelo Morgado de Matheus, em meados do Século 18, surge um novo empreendimento no sertão a oeste da capitania paulista: o engenho d´açúcar. O engenho já existia nas mãos de várias famílias, entre Santos e São Paulo, como o dos Erasmos e o da Família Sardinha, no Século 16, porém, não era uma atividade organizada para dar sustento geral. A visão do capitão-general é a que possui da sua experiência no morgadio trasmontano: industrializar a atividade agrícola. É a época dos pomares e vinhas, das lavouras de milho, mandioca, algodão e da produção de leite e queijos, e do fumo, nas regiões de entre Acutia [Cotia], Araçariguama e Itu, Sorocaba e a serrania de Wotucatu. A missão do morgado, entre a atividade econômica e a militar, é feita de tarefas difíceis, mas o seu empenho faz da capitania o foco do Brasil. E é com as novas povoações e o novo ciclo agrícola e industrial que São Paulo mata a fome dos milhares de mineiros no centro-oeste, considerando-se, também, que nesta época a região do sul é parte da capitania... daí, a lógica militar da rota do Iguatemi e do Sacramento, a possibilitar uma defesa geral. Nos alvores do Século 19 abrem-se outras possibilidades. A cana d´açúcar e o café ganham força na economia como focos de riqueza. Nas regiões de Campinas, Wotucatu [agora mais conhecida por Botucatu] Piracicaba, MogiMirim, Porto Feliz, Sorocaba, Jundiaí, estão mais de 300 engenhos d´açúcar e pinga [aguardente], 100 só entre ituanos com produção de 100.000 arrobas. Nos anos de 1830 o alto da cuesta surge como novo centro cafezeiro, quando a produção desses grãos deixa de ser uma atividade exclusiva do Rio de Janeiro.


A cultura do café depende de altitude, de temperatura e de irrigação adequada, tudo o que existe de bom na região wotucatuense. "[...] a plantação do Caffé cumessa com algum entuziasmo, e com razão por quê toda Costa da Serra hé completamente livre das geadas e dá satisfatoriamente de muito boa qualidade".

É o que informa um Ofício-Relatório da Câmara de Vereadores ao Presidente da Província de São Paulo, datado de Botucatu, 1862. E a gente italiana... A força da comunidade italiana em Pardinho, que aqui se instala quase ao mesmo tempo dos primeiros grãos de café, é tão importante que o escritor Deodato Faconti, também italiano, faz a seguinte descrição para nos dizer da grande atividade agrícola solta na serrania wotucatuense:


"...os fortes carroceiros italianos... temperados sobre a pedra-ferro dos nossos espigões, viviam sempre cobertos de poeira e molhados de suor, pregando as suas roupas, a aderir às suas carnes bronzeadas. Traziam para a cidade o café beneficiado que carregavam das propriedades mais afastadas. Desciam e subiam os caminhos mais escarpados, que ligavam as Fazendas do Aracatu, Monte Selvagem, Ribeirão Grande, Braz de Assis e Pardinho. Subiam e desciam fulminados por um sol abrasador, às vezes encharcados de chuva e sujos de barro; desapareciam nas terras arborizadas e reapareciam no terreno descampado, onde passeava de cabeça alta a soberba Siriema, que com a pupila vermelha estava controlando os movimentos da cobra, que se torcia ao sol; e onde os únicos rumores eram o canto estridente da Araponga e o surdo silvo do chicote, que castigava os burros que, cansados e sem fôlego, com o pescoço esticado e curvo, produzindo faiscas com as ferraduras, puxavam o pesado veículo, cujas rodas cercadas com aros de aço, trituravam as pedras do caminho... Eram eles, os carroceiros de aço: Bertocchi, Roder, Potiens, Titon, Gaspar, Forti, Gasperini, Bianco, Horácio, Garcia...e Ricardo Dromani, os Vicentini, os Bataglia, Fioravanti e outros titans..."

Segundo algumas fontes esparsas, ao sul da Cuesta, nos velhos distritos de Ribeirão Grande e Espírito Santo do Rio Pardo [que originaram Pardinho], eram tantas as famílias italianas que, no início do Século 20, eram conhecidas por Calabria de Botucatu.

1889 Criada a Lei nº 65 que assenta Freguezia do Bom Jesus do Ribeirão Grande... “O Doutor Pedro Vicente de Azevedo, presidente da província de S. Paulo, etc. Faço saber a todos os seus habitantes, que a Assembléia Legislativa Provincial decretou e eu sanciono a seguinte lei: Art. 1º - Fica creada uma frequezia com a denominação de freguezia do Bom Jesus do Ribeirão Grande, no bairro denominado capella do Bom Jesus do Ribeirão Grande do termo e comarca de Botucatu. Art. 2º - A nova freguezia, que continuará a pertencer ao mesmo município a que actualmente pertence, conservará as mesmas divisas que tem com o districto policial. Art. 3º - Ficam revogadas as disposições em contrário. Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir, tão inteiramente como nella se contém. O Secretário desta província a faça imprimir, publicar e correr. Dada no palácio do governo da província de S. Paulo, aos vinte e sete dias do mez de Março de mil oitocentos e oitenta e nove. (L.S.) Pedro Vicente de Azevedo. Carta de lei pela qual vossa excellencia manda executar o decreto da Assembléia Legislativa Provincial, que houve por bem sanccionar, creando uma freguezia com a denominação de freguezia do Bom Jesus do Ribeirão Grande no bairro denominado Capella do Bom Jesus do Ribeirão Grande do terreno e comarca de Botucatu, como acima se declara. Para vossa escellencia ver, José Christino da Fonseca a Publicada na secretaria do governo da província de São Paulo, aos vinte e sete dias do mez de Março de mil oitocentos e oitenta e nove. O Secretario da província – Estevam Leão Bourroul.”

A povoação, apesar de ter vivido anos bons com colheitas excelentes para ser Freguesia, é uma das mais prejudicadas, logo, a freguesia não vinga distrito. E logo, onde é o arraial-freguesia Bom Jesus do Ribeirão Grande, o colono João Antônio Gonçalves doa área para que se erga a Capela do Divino Espírito Santo. E os outros o seguem, os das famílias Franco, Campos Melo,


Moraes Barros, a do tenente Euzébio da Rocha Camargo, e isso é que logo permite perspectivar o ideal de uma nova povoação que se inicia com os estabelecimentos em torno da Capela do Divino Espírito Santo.

1891 Com base no arraial Bom Jesus do Ribeirão Grande, é criado o Distrito de Espírito Santo do Rio Pardo, por Decreto Estadual nº 159, de 16 de Abril, no Município de Botucatu. Neste espaço acomoda-se a comunidade italiana que chega para ampliar os serviços de produção agrícola e já a plantar grãos de café...

a montante dos fios d´água eis terra para grãos de café está no ambiente do wotucatu a profecia do novo mundo semeei milho e arranquei mandioca com a mesma fé que amei mulher da terra no espelho d´água lá a jusante no chão de fogo da minha mãe d´água dedilho a viola d´eterno sitiante

E entre as tradições luso-afro-brasileiras – do artesanato à música e à ousadia de novos processos para outras plantações adequadas ao clima serrano – eis que as gentes no “assimo do wotucatu” ganham mais calor humano: a gente italiana é alegre por natureza e brava na realização dos seus sonhos.

1938 A denominação Rio Pardo nomeia outros lugares. Para evitar erros burocráticos da política administrativa, os moradores do Distrito de Espírito Santo do Rio Pardo fazem petição para alterar o nome da localidade. Decreto Estadual nº 9775, de 30 de Novembro: o Distrito de Espírito Santo do Rio Pardo passa a denominar-se Pardinho. 1939 a 1958 Pardinho é território do Município de Botucatú. Em virtude do Decreto-lei Estadual nº 14334, de 30 de novembro de 1944, que fixou o quadro territorial para vigorar em 1945-1948, o Distrito continua no mesmo Município, Botucatú, assim como nos quadros fixados pelas Leis nº 233, de 24-12-1948 e nº 2456, de 30-12-1953 para vigorar, respectivamente, nos períodos 1949-1953 e 1954-1958. 1959 O Distrito de Pardinho é elevado à categoria de Município com a denominação de Pardinho, por Lei Estadual nº 5285, de 18 de Fevereiro, e ganha autonomia político-administrativa desmembrando-se de Botucatu.


1983 Criada a primeira área de proteção ambiental - APA do estado de São Paulo, destinada a proteger as cuestas basálticas, as áreas de recarga do aqüífero guarani, os recursos hídricos superficiais, a fauna, a flora e o patrimônio cultural da região. 1960 É instalado o Município de Pardinho em 1º de Janeiro. A instalação da Prefeitura e Câmara de Vereança da nova municipalidade segue a praxe da política-administrativa que determina, a todas as novas unidades, a data de 1º de Janeiro para a posse efetiva e pública.


O que do pouso de nomadismo gera fogo e deste se apropria a estrutura para erguer o arraial, segundo as circunstâncias encontradas no meio hídrico e florestal, resulta uma humanidade que da pequena comunidade de desbravadores lega a possibilidade da urbanidade a quem chega.

o eco da serra embarca no rio pardo diz às gentes da vária fragrância da vida e num dia de grande fé e batida na observância do caudal do rio pardo a ideia emanou da serra pelo rio pardo vivemos como pardinho casa nova somos eis nos na vida pelo que fomos e ora o futuro já erguemos embarcamos no rio pardo somos pardinho a continuar o eco da serra

É esta telúrica e cósmica circunstância geográfica e social que perspectiva e permite os desdobramentos políticos e administrativos que assentam o ideal da cidadania. No abraço ao olho d´água que se estende pela serra em fio d´água e em parda vivência entre animais, solos e vegetações, nomeou-se certa vez de Pardo aquele fio d´água, e porque a humanidade em arraial é parte dessa circunstância geofísica, quase sempre bruta e fugidia, mas deslumbrante, ela mesma se disse [e diz] Pardinho, como que a celebrar a poética odisseia das velhas gentes desbravadoras que ousaram ser o que foram. A poética que emana das cristalinas águas do Pardo cria uma musicalidade ambiental, a harmonia da raiz, e aqui a viola não fala alto, ela canta a natureza que envolve a ruralidade de Pardinho, cria rodas d´amizade no encanto da alma brasileira que se liberta da rédea e da canga colonial.


4.2 Executivo & Legislativo

Do Executivo O primeiro Prefeito é Amâncio da Rocha Camargo, com experiência no legislativo de Botucatu, onde atuou nas legislaturas de 1948-1952 e 1952-1955. O vice é João Corulli. Amâncio da Rocha Camargo é filho do tenente Euzébio da Rocha Camargo, tido como um dos grandes municipalistas do seu tempo. O legado político passou para o filho e deste para o neto Benedito da Rocha Camargo Junior, que, em 2013, segue a mesma trilha e é prefeito de Pardinho.

Do Legislativo O primeiro corpo da Vereança é o seguinte: presidente Faustino Soares Leitão; vice Rafael Rodrigues; vereadores Benedito Brasílio, Benedito Rossi, Gentil Nery, Hilário Vivan, Oscar Ezequiel, Procópio Pinto de Carvalho e Renato Pauletti.

ATA DE INSTALAÇÃO DA CÂMARA MUNICIPAL DE PARDINHO Ao primeiro dia do mês de janeiro do ano de mil novecentos e sessenta às 11 horas, nesta cidade de Pardinho, no prédio do Cine Azul, sito à rua Sarg. José Egydio do Amaral nº 13 com a presença de altas autoridades locais, realizou-se a sessão de instalação da Câmara Municipal. Assumindo a presidência o Exmo. Sr. Dr. Helio Oscar de Moraes Garcia digníssimo


Juiz da 1ª Vara desta Comarca, convidou o Sr. Oscar Ezequiel para servir de secretário, e determinou a seguir que se procedesse a chamada dos Srs. Vereadores diplomados. Feita a chamada responderam a mesma os senhores: Oscar Ezequiel, Gentil Nery, Faustino Soares Leitão, Rafael Rodrigues, Benedito Rossi, Benedito Brasile, Hilário Vivan, Renato Pauletti, Procópio Pinto Carvalho. Procedeu-se em seguida, em vista da existência de número legal, a chamada dos senhores vereadores para a conferência dos diplomas e prestação do compromisso regimental o que foi feito cada um de per si. Terminada essa cerimônia, o M.M. Dr. Juiz de Direito declarou empossados os senhores vereadores e instalada a Câmara Municipal. Finda a solenidade de instalação da Câmara o Dr. Juiz de Direito convidou o vereador Oscar Ezequiel para secretariar a sessão, prosseguindo em seguida os trabalhos para a eleição do Presidente da Câmara, de acordo com a Lei nº 2.550, de 13 de janeiro de 1954, que dá nova redação ao artigo 45 da Lei Orgânica dos Municípios, e verificou-se o seguinte resultado: Para Presidente da Câmara Municipal foi eleito o vereador Faustino Soares Leitão. Em seguida foi pelo M.M. Juiz de Direito declarado empossado no cargo. Terminado o discurso, o Dr. Juiz de Direito retirou-se do recinto. Em prosseguimento à sessão realizou-se a eleição para os demais cargos da Mesa, os quais foram os seguintes: Vice-Presidente, Rafael Rodrigues, 1º Secretário: Oscar Ezequiel, 2º Secretário: Benedito Brasile, e o Sr. Presidente empossando-os, convidou o 1º secretário a tomar assento à Mesa. Nomeou uma Comissão para introduzirem no recinto os Srs. Prefeito, Amâncio da Rocha Camargo, e o Vice-Prefeito, João Corulli a fim de prestarem os compromissos regimentais e foi pelo Sr. Presidente declarado empossados nos cargos. Em seguida falou o senhor Paulo Geraldo de Oliveira, em seguida o Sr. Presidente antes de encerrar agradece a presença das autoridades, e o povo em geral e convoca para o dia 4 do corrente, a primeira sessão ordinária com a Ordem do Dia: eleição dos membros das comissões permanentes. Nada mais havendo a tratar, eu Oscar Ezequiel lavrei a presente ata, que lida e achada conforme, vai assinada pela Mesa. Faustino Soares Leitão, Oscar Ezequiel, Rafael Rodrigues, Benedito Brasile.

A ata segue a práxis da formação administrativa e jurídica de novas municipalidades na Província de São Paulo. Entretanto, verifica-se que

a municipalidade de Pardinho não nasce apenas do ato político emancipatório, é mais fruto do esforço agro-mercantil das gentes que sucedem, com sucesso e abnegação de sitiante, àquelas do arraial Bom Jesus do Ribeirão Grande e do Distrito de Espírito Santo do Rio Pardo, e exigem de si mesmas, enquanto nova geração, a mesma ousadia cidadã e urbana.

O que está na mente política das gentes pardinhenses é o interesse social para o desenvolvimento sustentável do grande e histórico legado agropecuário, e em tal raiz é que Pardinho se realiza como municipalidade.


4.3 Localização & Dados Úteis

Localização Localiza-se na latitude 23º 04' 52" sul e na longitude 48º 22' 25" Oeste, na altitude de 1.100 m acima do nível do mar.

Área & Demografia A municipalidade ocupa uma área de 209,89 km2 e uma densidade demográfica de 26,59 hab/km2. É uma unidade municipal integrada ao Estado de São Paulo tendo como atividade econômica principal a agro-pecuária e o turismo ecológico. Dista do marco-zero da capital paulista 200 km.

Vias de Acesso


Ao Km 193 da Rodovia Castelo Branco, e, também, pela Rodovia Marechal Rondon.

População A sua população [estimada em Censo de 2010 / IBEGE] é de 5.582 habitantes. Como cerca de 63,2% [índice IBGE] tem habitação no núcleo urbano, parte da população agrícola desloca-se diariamente para os seus afazeres.

Atividades Econômicas & Culturais A economia centra-se, tradicionalmente, na pecuária de corte e leite, avicultura, suinocultura e na agricultura. Desde meados do Século 19 a região é um polo forte na produção de grãos de café. A área industrial é reduzida e por ela respondem um laticínio, uma metalurgia e fábrica de máquinas agrícolas. O comércio é de subsistência. Na região, segundo a secretaria de Fazenda do Governo do Estado de São Paulo, estão registradas 180 empresas que ocupam 2.057 pessoas. A municipalidade tem um PIB per capita [a preços correntes] de R$14.480,81 e está integrada ao Fundo de Participação dos Municípios [FPM]. A cidade de Pardinho está integrada ao Circuito Polo Cuesta para o desenvolvimento de ações ecológico-esportivas e turísticas. Sedia uma unidade do Instituto Jatobas, polo de desenvolvimento sustentável e no qual o “projeto de construção com bambu” dá visibilidade a outras possibilidades econômicas e artesanais.

A tradição da sociedade regional comunitariamente enraizada no labor agropecuário faz de Pardinho, no Século 21, uma comunidade de vocação própria que se alarga das lavouras e pastos ao turismo ecológico, a par de uma sensibilidade natural para sediar a cultura da poética musical, ou música de raiz.


Parte 5 Breve Glossário Notas & Bibliografia Sobre O Autor

Breve Glossário ANHAMBY [de “anhima”, ave que os nativos preservavam na região] – Nome dado pelos nativos ao rio conhecido hoje como Tietê. AQUIFERO – reservatório subterrâneo d´água doce. Na América do Sul, o Aquífero Guarani forma a maior reserva conhecida. ARRIBA – Acima. A expressão ´passo d´arriba´ foi muito utilizada pelos ibéricos durante as jornadas de ocupação colonial das terras ´definidas´ no Tratado de Tordesilhas. A-VOLANTE – Pessoa que vive circulando de um lado para outro e não se fixa nunca. BANDEIRA – [ou: bandera´, na tradução castelhana da palavra de origem árabe. Assim como ´salteo´]. “Os portugueses aprenderam a arte de banderar nos campos de batalha no norte da África. A formação da tropa em bandera é a junção tática de duas ou mais companhias que, estrategicamente, possuem uma tropa d´elite na frente para realizar o primeiro ataque (salteo)”, segundo as observações de J. C. Macedo. “Na colonização luso-católica da Insulla Brasil os luso-paulistas organizaram ´banderas´ e ´salteos´ para capturarem povos nativos, ocuparem as suas terras e, depois, explorarem as suas riquezas”. BANDO – Leitura pública de informação oficial. Um oficial saía às ruas e praças da região e, após o toque do tambor, anunciava a informação.


BUGRE – É o aportuguesamento da palavra francesa ´bougre´ que, no Século 12, significava ´herético´ [do latim medieval ´bulgàrus´], pagão. Durante a colonização luso-católica no Brasil utilizou-se a palavra bugre para identificar selvagens e incultos pagãos, ou não-cristãos. CANGA – Suporte de madeira que serve para segurar e conduzir bois e vacas. CAPUAVA – Rancho provisório, ou rancho fundo, para pouso de jornada agrícola nos limites da fazenda ou sesmaria. CARTA DE DADA – Registro de obtenção de sesmaria com tempo determinado para sua a utilização produtiva. CAVOCAR – Criar espaço para construir cabana, ou casa. CRISTÃO-NOVO – Pessoa de fé judaica obrigada a abdicar da mesma passando a vivenciar a fé cristã catolicizada [i.e., mundializada]. Através de uma análise de J. C. Macedo [Coimbra, 1976], entenda-se a questão: “[...] objectivamente de mãos dadas com a política inquisitorial do Vaticano, Isabel de Castela, em 1492, expulsa mais de 60.000 judeus que emigram para o norte da África e, logo ao lado, para Portugal, onde o rei João II os acolhe para se beneficiar da mão-de-obra especializada, de tal sorte, que são judeus os mais importantes oficiais da Corte joanina e, também, são oficiais e mestres judeus os primeiros especialistas no desenvolvimento do Plano da Índia que aquele rei gizava desde que o seu avô Pedro, duque de Coimbra e regente [ele elaborou as Ordenações Afonsinas], havia despertado Portugal para a aventura marítima. Para não ser muito incomodado pelo Vaticano, o rei João II instituiu um tributo para a permanência da gente judaica em terra lusa. Mas quando Manuel I assumiu o Trono, delirando com a conquista de Jerusalém, expulsou os judeus. E logo, na mesmíssima óptica política e mística, o rei João III, em 1536, instalou a Inquisição [e o Tribunal do Santo Ofício], levando à prisão, desterro, tortura e morte, milhares de judeus. Foi essa acção da Coroa lusa que levou, principalmente do Minho, Douro e Trás-os-Montes, dezenas da famílias judaicas, feitas cristãs à força, a optarem por recomeçar a vida nas serras e sertões da Insulla Brasil; e, mais precisamente, foram essas gentes que fizeram da vila Piratininga e das suas serranias e sertões a oeste e pelo Piabiyu, o eixo econômico da América do Sul, a começar pelo destemido e bravo Bacharel de Cananeia, seguido pelo político, banqueiro e minerador Affonso Sardinha (o Velho), entre os Anos 30 e os 90 do Século 16 [...]”. CUESTA – Relevo assimétrico formado pela movimentação tectônica que determina fronteiras naturais e ambientais. DÍZIMO – “Das cousas que se compram e vendem, ou se escambam por outras, se paga o tributo da siza, o qual consiste na decima parte do preço das cousas vendidas”, dizia-se e fazia-se no Portugal dos Séculos 14 a 18. Populações ao norte falavam ainda de “a décima”, ou “a jugada” [aqui, para criticar o jugo tributário]. FAISCAR – Procurar entre o cascalho restos de mineração aurífera. Ou: explorar novos leitos em busca de mais ouro. FOGOS – Pequenas unidades familiares instaladas durante a colonização portuguesa acima da Serra do Mar e pelo sertão. FORMAÇÃO BOTUCATU – Formação arenítica e assimétrica gerada há muitas eras [600 milhões de anos] no sertão a oeste do planalto da Serra do Mar. ILUMINISMO – Movimento cultural da vanguarda intelectual europeia [John Locke, Baruch Spinoza e Isaac Newton, entre outros] contra a intolerância política e religiosa, no Século 17, e tendo como foco filosófico o poder da razão. GOYAZ – Do tupi gwa ya, q.s. “gente da gente”, ou “gente da mesma linguagem”. Os nativos Goyaz dominavam os campos onde muito ouro foi descoberto, por isso, a sua trilha ficou conhecida como “trilha goyaz”.


IGUATEMI – O Forte de Nossa Senhora dos Prazeres do Iguatemi localizava-se na margem esquerda do Rio Iguatemi, cerca de 12 km acima da sua confluência com o Rio Paraná, próximo à foz do Rio das Bagas e à atual cidade de paranhos, no estado de Mato Grosso do Sul, no Brasil. O local, hoje em ruínas, em área dos povos nativos. A construção do forte pode ser considerada um marco na história da disputa fronteiriça entre os povos ibéricos, uma vez que foi a primeira fortificação a ser levantada no sul da capitania de Mato Grosso, abrindo caminho para a construção de novas edificações como o Forte de Coimbra e as Fortificações de Ladário. JESUÍTAS – A famosa Sociedade de Jesus, S.J., chegou ao Brasil chefiada por Manoel da Nóbrega que, no planalto de Piratininga, fundou a Sam Paulo dos campus de Piratinin, cerca de 1554, depois da destruição pelos nativos da Aldeia Maniçoba, em 1553. Os padres jesuítas foram expulsos do Brasil em 1759, ação concretizada nos atos políticos do Morgado de Matheus, em 1766. MARCO-ZERO – A instalação da capela sinalizava o marco-zero das povoações erguidas pelos portugueses. MEANDROS – Canais fluviais sinuosos. MORGADIO – Organização familiar rural sob um código de hereditariedade feudal. O título de Morgado perpetua-se pelas gerações da família. MUARES – Os “[...] padres jesuítas compraram ou receberam doação de fazendas [estâncias] na região argentina de Córdoba e, além de vinhas, milho, mandioca, frutas, etc., dedicaram-se à reprodução de muares, o animal de carga mais adequado para vencer as dificuldades das trilhas piabiyuanas. Trabalhavam para os jesuítas escravos nativos e africanos, mas estes eram tidos como não-cristãos, ou cristianizados, e estavam no trabalho mais árduo, enquanto aos outros era dado o trabalho doméstico e agrícola menos pesado (e eram tidos como ´servos´ pelos padres)”, segundo estudos do poeta J. C. Macedo a propósito. PARDO – 1) Na tradição portuguesa, diz-se “de pardo” o que é naturalmente rústico, indomável, ou, a precisar de polimento, de ser tomado. [Exemplo do dicionário português: Pardo - o arroz sem casca após o beneficiamento, mas ainda não polido.] Uma tese acadêmica sobre “o cidadão polido e o selvagem bruto”, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2004, faz uma excelente análise à situação colonial. 2) O termo também é utilizado para diferenciar pessoas racialmente e, particularmente, no contexto social luso-brasileiro. 3) Pardas as eminências [do francês “éminence grise”] obscuras que oficialmente não aparecem nas esferas políticas, porém exercem uma fortíssima influência nas decisões dos governantes. PIABIYU / PEABIRU [do guarani: ´caminho feito a pé´] – Estrada guarani que, pelo Caminho 1, liga o Atlântico [desde São Vicente] ao Pacífico [pelo Peru e o Equador] passando pelo maciço dos Andes, foi o espaço da primeira odisseia da economia liberal paulista através de cresos [ricos] como Affonso Sardinha [o Velho] e o padre jesuíta Pompeo de Almeida. No território do Brasil-colônia, a estrada tem 1.320 Km [200 léguas] com largura de 1,76 metros [8 palmos]. E pelo caminho 2, liga São Vicente a São Paulo, Sorocaba e a Serra de Wotucatu, obliquando depois para chegar a outros pontos, aos campos de Goyaz e à Serra d´Apucarana. POUSO – Acampamento temporário de viajantes. Muitos dos ´pousos´ feitos por bandeirantes, nos Séculos 17 e 18, deram a origem a várias cidades nas regiões do sudeste e centro-oeste. SACRAMENTO [Colônia de] – ou, Colonia del Sacramento. Cidade do Uruguai com origem na antiga cidade de Colônia do Santíssimo Sacramento fundada há 333 anos por Manoel Lobo, a mando da Coroa lusa, no Século 17, como ´farol´ do domínio dos portugueses sobre os castelhanos. Das “cartas instrutivas” carreadas pelo Morgado de Matheus, ao tomar posse como capitão-general de São Paulo, para o período de 1766 a 1776, a referência maior era de povoar a capitania com estrutura urbana e militarizar a defesa da mesma, o que ele fez ao dinamizar novas vilas e dar assento aos fortes de Iguatemi e Sacramento com objetivos permanentes de defesa.


SERTÃO – É uma palavra originada no assentamento colonial português. Quando se aventuraram acima das serras de mar encontraram territórios semiáridos. Não aguentando o clima quente e seco nomearam tais regiões de “desertam” [”desertão”], que logo passou a ser falado como “sertam” [“sertão”]. SESMARIA – Ato administrativo e jurídico português que normatizava a distribuição de terras destinadas à produção. O Estado, recém-formado e sem capacidade para organizar a produção de alimentos, decide legar à iniciativa particular essa função. O sistema surgiu em Portugal no Século 14, tendo por base a lei das Sesmarias, de 1375, criada para combater a crise agrícola e econômica que atingia o país e a Europa, e que a peste negra agravara. Com a instalação da capitania hereditária no Brasil-colônia, a sesmaria passou a ser moeda de troca entre fidalgos e cresos locais, entre os Séculos 16 e 20, logo, também durante o Impértio brasileiro de Pedro I e Pedro II. TORDESILHAS [TRATADO DE] – Documento assinado na povoação castelhana de Tordesilhas a 7 de Junho de 1494, entre Os reinos de Portugal e Espanha dividindo, com a benção e o oportunismo do papado da cristandade, as terras "descobertas e por descobrir" por ambas as Coroas. O tratado pela sequência da contestação portuguesa às pretensões da Coroa espanhola resultantes da viagem de Colombo, que ano e meio antes chegara ao chamado Novo Mundo, reclamando-o oficialmente para a rainha Isabel. O tratado definia como linha de demarcação o meridiano de 370 léguas a oeste da Ilha de Santo Antão no arquipélago de Cabo Verde. A linha estava situada a meio-caminho entre estas ilhas e as ilhas das caraíbas descobertas por Colombo, no tratado referidas como "Cipango" e Antília. Os territórios a leste do meridiano pertenceriam a Portugal e os territórios a oeste, à Espanha. O documento foi ratificado pelo rei João II [Portugal] e pela rainha Isabel [Espanha], em 5 de Setembro do mesmo ano.

Obs. do Autor: Os nativos da Insulla Brasil são aqui nomeados por “povos nativos” e pelos seus nomes próprios e não por “índios”, uma vez que tal designação é errada – a saber: Colombo, ao desembarcar no território caribenho pensou ter alcançado a Índia e grafou como “índios” os habitantes que lhe surgiram na costa. Ora, não existem “índios” no Brasil, mas existem povos nativos como guaranis, kaingangs, xavantes, botocudos, tupis e etc.

Notas & Bibliografia

Notas Da Poesia / Os poemas integrados ao texto geral da História de Pardinho foram escritos, uns, durante os ´estudos luso-americanos´ para o registro historiográfico atualizado do Cerro Byraçoiaba e Sítio Metalúrgico de Affonso Sardinha (o Velho), em 2011, e outros, ao sabor dos ´bons ares´ na leitura de fontes lítero-historiográficas e geográficas sobre Wotucatu e Pardinho. Das Conversas Citadas / Algumas anotações técnicas e historiográficas utilizadas para o texto geral da História de Pardinho foram registradas durante conversas de João Barcellos com o cientista Aziz N. Ab´Sáber e o historiador Hernâni Donato. Das Instituições Consultadas / Atas da Câmara Municipal de São Paulo, Atas da Câmara Municipal de Sorocaba, Atas da Câmara Municipal de Santo André, Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Arquivo do Estado de São Paulo [sesmarias], Instituto de Geografia [USP], Arquivo Nacional Torro do Tombo [Lisboa/Portugal], Arquivo Histórico Ultramarino [Lisboa / Portugal], Genealogia Paulistana, Arquivo Particular de João Barcellos, Associação Brasileira da Indústria do Café [ABIC], Prefeitura /


Câmara do Município de Pardinho, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas [IBGE], Confederação Nacional de Municípios, Governo do Estado de São Paulo [Fazenda] e Instituto de Estudos Espaciais [INPE].

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de pesquisadores selecionou conteúdos para editar, em 2012, os livros HISTORIOGRAFIA PARA SANTA CRUZ DO RIO PARDO e SANTA CRUZ DO RIO PARDO / HISTORIOGRAFIA PARA O SÉCULO XIX. RIBEIRO, Fernanda L. & CAMPOS, Sérgio – VULNERABILIDADE À EROSÃO DO SOLO DA REGIÃO DO ALTO RIO PARDO, PARDINHO, SP1. Estudos, 2007. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, Vol 11, nº6, pp. 628-636. RICARDO, Cassiano – MARCHA PARA OESTE. São Paulo, 1940. RIZZINI, Irma – O CIDADÃO POLIDO E O SELVAGEM BRUTO: A EDUCAÇÃO DOS MENINOS DESVALIDOS NA AMAZÔNIA IMPERIAL. Tese de doutoramento. UFRJ/IFCS/PPGHIS. Rio de Janeiro, 2004. SANTOS, Sílvio Coelho dos – INDIOS E BRANCOS NO SUL DO BRASIL / a dramática experiência dos Xokleng. Florianópolis/Br., Edeme, 1973. SETTE, Bartyra / JUNQUEIRA, Regina Moraes – [coordenadoras do] PROJETO COMPARTILHAR [projetocompartilhar.org] SCHMIDL, Ulrick – HISTÓRIA VERDADEIRA DE UMA VIAGEM CURIOSA FEITA POR U. SCHMIDL. Frankfurt, 1567. THEODOROVICZ, Antonio; THEODOROVICZ, Angela Maria de Godoy; CANTARINO, Sonia de Cruz – ATLAS GEOAMBIENTAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS DOS RIOS MOGI-GUAÇU E PARDO. Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo. Programa Informações para Gestão Territorial. São Paulo, 2000. TIBIRIÇÁ, Luis Caldas – DICIONÁRIO DE TOPÔNIMOS BRASILEIROS DE ORIGEM TUPI. São Paulo, 1985. Ed Traço. ZIMBACK, C. R. L. – MAPA DE SOLOS DA BACIA DO RIO PARDO, SP. BOTUCATU. São Paulo, 1997. FEPAF; FCA/UNESP.


Sobre o Autor

Laureado duas vezes com o prêmio Clio de História, o intelectual português João Barcellos, pesquisador e conferencista, realizou e registrou pesquisas sobre a luso-brasilidade, a essência brasileira na cultura lusófona.

Autor de livros como DO FABULOSO ARAÇOIABA AO BRASIL INDUSTRIAL, CARAPOCUYBA, COTIA – UMA HISTÓRIA BRASILEIRA, MORGADO DE MATHEUS, ARAÇARIGUAMA – DO OURO AO AÇO, etc., continua a sua odisseia historiográfica pela alquimia de ser-estar português no mundo.


Jo達o Barcellos jb.escritor@uol.com.br


HISTÓRIA DE PARDINHO