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Centro de Estudos do Humanismo Crítico Portugal & América Latina

Grupo de Debates Noética

páo vermelho, brasil Caesalpinia Echinata. Lam.

ibirapiranga

Estudos & Palestras

João Barcellos Inclui Estudo De

Manuel Reis


Índice História: Páginas de Educação _ Céline Abdullah páo vermelho, brasil _ João Barcellos A Gramática da História ao 3º Grau (ou 3º Nível) e o Opúsculo de João Barcellos: ‘páo vermelho, brasil (Caesalpinia Echinata. Lam.) ibirapiranga’ (Estudos & Palestras) / Jan. 2017 _ Manuel Reis

Anexos Atos Náuticos Portugueses / nova historiografia _ João Barcellos 1343, o rei Afonso IV e o Brasil _ Johanne Liffey Maratayama & Gohayó _ João Barcellos Mar Portuguez _ Alfredo Pinheiro Marques Obs.1: Imagens do acervo do Grupo de Estudos Noética e outras pinçadas da Web s/ restrições autorais p/ livre divulgação. Obs.2: Textos com ortografia original portuguesa foram mantidos nessa versão. Obs.3: Manoel Fialho [SJ], nasceu em Évora em 1616, faleceu em 27 de dezembro de 1718. Este jesuíta deixou manuscrita uma obra em 4 volumes, intitulada Évora ilustrada, de que o padre Francisco da Fonseca, da mesma ordem religiosa, fez um resumo, que publicou em Roma, em 1728, com o título Évora gloriosa; epilogo dos quatro tomos da «Évora ilustrada» que compôs o R. P. Manuel Fialho, da Companhia de Jesus, acrescentada e amplificada, etc. Foi este padre jesuíta quem teve a ousadia de primeiramente falar acerca do Caso 1342 e da carta do rei Afonso IV ao papa Clemente VI, segundo afirmaram jesuítas brasileiros em Paraty (1989) e Cerro Ybiraçoiaba / Iperó (2010). Obs.4: Geraldo Cantarino, autor brasileiro, solicitou cópia ao Archivio Segreto Vaticano, da Carta de 1342 sobre a Insula de Brasil, ou Brandam, e recebeu-a confirmando também ele o documento.


“[...] encontros na Praia de Apúlia, em 1973, época em que recebemos o Prof. Luís de Albuquerque em Guimarães, na presença do Prof. Santos Simões e do meu pai. Foi um fim de semana de muita geografia e muita história náutica na sede do Cine-Clube, dois ´pides´ na porta (um deles havia discutido com o meu pai e o Simões por causa de uma reunião agendada no Liceu para se falar da Univ do Minho...). Foi em Apúlia que um dos pescadores, mestre em alto mar, amigo do meu avô Faria, nos apresentou o livro do Assis Cintra (de 1921), e que ficou de ´molho´ estes anos todos por ignorância [´henriquina´] nossa...” _ J. C. Macedo (carta a Lillian e Manuel Reis, do CEHC)

"há histórias dentro da história que emergem como mar alto e dignificam os historiadores verdadeiros que nela buscam a sua raiz civilizatória" _ Luís Albuquerque

“[...] A História escreve-se e reescreve-se, em cada época/geração que passa, actualizando-se criticamente perante os dados ou elementos novos que vão surgindo. Estes têm, habitualmente, duas procedências: ou resultam dos diversos patamares historiográficos e dos erros detectados no confronto; ou são oriundos de uma nova acareação do material histórico (supostamente consolidado) com a pauta do Humano no tempo presente. Nunca, por nunca, pode ser abandonada a distinção, necessária e indispensável, entre o que é considerado, criticamente, da História (History), e o que é do domínio da estória (story). Não prestar atenção a essa distinção significa, ipso facto, entregar-se nas alcovas e na gendarmaria ideológicas do Establishment e das Instituições estabelecidas.” _ Manuel Reis


História: Páginas de Educação História é Educação. É assim que percebo o que o bom mestre João Barcellos me passa pelos seus livros, e são livros de tecnologia, e são livros de poesia e de contos, romances e ensaios; pois, e é verdade: muita história poeticamente narrada entre fatos e versões. Muita pesquisa. Anos e anos entre calhamaços, alguns com mais de cem anos, duzentos anos, outros de meio milênio, enfim, sem esquecer o trabalho de campo, o que ele mais gosta, “pois, sentir nas mãos e no cheiro a história que somos é a melhor pedagogia para uma educação verdadeira, local e universal” [João Barcellos – in “História é Alma; Poesia do Nós”, palestra. Coimbra, 1975]. Ninguém se educa, ou educa, sem ter na mente o conceito piagetiano da realidade entre as mãos, ou aquele outro socrático da verdade que ensina em qualquer idade. Foi nesta ponte filosófica e pedagógica que conheci João Barcellos e, mais, ou melhor ainda, quando o reencontrei em casa do professor brasileiro (e seu vizinho e amigo) Aziz Ab´Sáber, em 1993, para um bate-papo sobre sambaquis, cerros e afinidades afrobrasileiras e, logo depois, com ambos e o jornalista W. Paioli, em Cotia. Em meio a outras pesquisas, leio as que se referem aos certõens, mattos & mynas do Paranapanema, ao Fortim d´Itapema e à odisseia fenomenal de Antônio Raposo Tavares, em missão (quase) impossível e secreta para mapear o Brasil continental, ao status quo político e assexual do eunuco (o que ouvi meu pai falar muitas vezes, mas nunca memorizei) e, salve-se quem puder..., um estudo primoroso acerca do páo vermelho, ou brasil, que implode as teorias e invencionices luso-brasileiras ainda publicadas para formação (?!) de novas gerações. Militar recém-chegado a Coimbra, no meio do golpe de 25 de Novembro de 1975, que recolocou Portugal na trilha da Aliança Atlântica (OTAN), fez do quartel-general o seu “q-g cultural” e, uma semana depois, já proferia a palestra citada para militares e refugiados (não os ´retornados´ da África lusófona); duas semanas depois, num hotel do centro, a palestra “Dos Portugueses de Serr´Acima à Colonização do Brasil” com anotações feitas em documentos assentados na Torre do Tombo (no Palácio de São Bento) e outros dispersos por Lisboa, e onde encontrou “...uns papeis do Brasil com farta indicação ´colonial´ a Affonso Sardinha - o Velho”, ainda [na época] não analisados. Nesta palestra, o militar e intelectual encheu a plateia de informações que não existiam na memória escolar nem sequer na imaginação, pois, “o Brasil continuava como um gigante adormecido na História de Portugal, como se tal fosse possível...”, brincou ele. Sempre que da fornada intelectual de João Barcellos sai ´pão´ novo eu recebo (por fazer parte do Grupo de Debates Noética) sinopses eletrônicas (web) ou textos completos e, desta vez, pude ler um conjunto de pesquisas que logo me lembraram aqueles tempos formidáveis de Coimbra em que ele ´infernizava´ todas as pessoas com “coisas que só ele parece saber”. Hoje, o seu q-g cultural está no Brasil e na América Latina e é um dos intelectuais mais respeitados da contracultura lusófona e a fazer contraponto ao amigo e filósofo Manuel Reis, seu mestre e norte ideológico.

Celine Abdullah – Professora & Química Moçambique, 2017.


Assis Cintra – in “Nossa Primeira História”, Brasil, 1921 “[...] il documento di Suo interesse ha la seguente segnatura archivistica: Reg. Vat. 138, ff. 148r-149r. / Prefettura dell’Archivio Segreto Vaticano [da correspondência com João Barcellos, 2016].


páo vermelho, brasil Caesalpinia Echinata. Lam.

ibirapiranga

[estudos & palestras]

João Barcellos

“...se sabia nos fins do seculo xv e primeiros annos de xvi, como porque, por uma passagem d'ella se prova claramente que em 1498, na côrte de D. Manuel havia fundadas suspeitas, se não cabal conhecimento, da existencia d'essa parte da America que depois se chamou Brazil...” da reedição de Esmeraldo de Situ Orbis

O trato que amiúde se dá nos meios acadêmicos luso-brasileiros ao Brasil e ao Páo Vermelho, ou Brasil, aqui achado por acaso em 1342, é um trato de brandos costumes para não interferir nas políticas oficiais que fixam a estória dos manuais escolares sobre o assunto; mas, acontece que a história não precisa desse tipo de acadêmicos, porque ela trata de emergir ao longo das gerações entre documentos que às vezes pulam da poeira do esquecimento em que ignorância e a ganância de e do poder a deixaram.

dos teus saberes o importante é o registo da vida e dela dizeres o que nos coube na óptica em que somos (sobre)vida

MACEDO, J. C. – in ´Mundividência”, poema 31. Portugal, 1971.


A riqueza de uma citação na Carta de Mestre João, embarcado na armada de Cabral, em 1500, que fez o reconhecimento oficial da Ilha de Brasil [deixando padrão no sytyo] e logo levantou âncora para prosseguir no rumo da Índia, fez gerações de estudiosos e estudiosas mergulharem nela quanto Señor al sytyo desta terra mande vosa alteza traer un mapamundy que tyene pero vaaz bisagudo e por ay podra ver vosa alteza el sytyo desta terra, en pero aquel mapamundy non certyfica esta terra ser habytada, o no: es mapamundi antiguo e ally fallara vosa alteza escrita tan byen la mina porque revela ao rei Manuel I um mapamundi antiguo na posse de Pero Vaz da Cunha [o Visagudo] no qual está sinalizada já a Ilha de Brasil. Pela antiguidade do mapa assinalada pelo Mestre João, deveria ser um portulano a indicar ventos e distâncias que os capitães compartilhavam entre si.


carta de Mestre João e pormenor com o registro do Cruzeiro do Sul

Um mapa que só poderia ter sido traçado a partir do desembarque ocasional do capitão Sancho Brandão, em 1342, levado talvez ainda em alinhavos apenso à carta que o rei Afonso IV fez entregar ao papa Clemente VI.

embarcações da Marinha Mercante lusa, Sécs 14 e 15

Apontamentos Interessantes a Os Interregnos _ Entre os reinados de Diniz, seu filho Afonso IV, e Duarte I, Portugal viveu mais de um século de interregnos reinóis [leia-se também: tensões d´herança ibérica entre alcovas] que impediram o registro de parte da história e, em alguns momentos, a paralisia das ações ultramarinas. Por isso, não se pode estranhar que só


agora, 600 anos depois, tenhamos acesso a documentação sobre o desembarque do capitão Sancho Brandão, apesar de termos avançado muito com as pesquisas de Alfredo Pinheiro Marques, a maior autoridade portuguesa em ´descobrimentos quinhentistas´ e que, por sua vez, seguiu também os passos de outros grandes pesquisadores. Mas deve-se [a]notar que já pelos anos 1919 a 1921 o “Caso 1342” esteve sob estudos de brasileiros, civis e militares, por causa de um padre português [Manoel Fialho, SJ], professor na Universidade de Évora e que havia reconhecido documentos afins no Vaticano.

b Siará & Paranambuco _ Desde 1799 existem os estados brasileiros de Ceará e de Pernambuco.

O ceará sabemos que vem do tupi-guarani siará, q.s., caranguejo [existem outras versões, mas esta é a mais popularmente aceita], e o pernambuco é outro termo tupiguarani que se registrou paranambuco [para´nã + pu´ka], q.s. buraco no mar, em referência ao canal na Ilha de Itamaracá, e diz-se até hoje que era a maneira como os nativos desenhavam a forma como os barcos europeus furavam a barreira de recifes – recifes..., o termo que deu nome à atual capital pernambucana: Recife. Assim, até final do Séc. 18 as duas regiões eram espaço único de convivência para diversas etnias nativas cuja linguagem se assemelhava, na maioria dos casos, ao tupiguarani. E foi por ali que adentrou o navegador castelhano Vicente Yánez Pinzón, em 26 de janeiro de 1500. A fazer o quê? Ora, a fazer, ou tentar fazer, o roteiro que o capitam Brandam fizera por acaso em 1342... Depois que o francês Carlos V conseguiu cópia do mapa da expedição em terras do páo vermelho e muito além da finis terrae, corsários [piratas institucionalizados por reis e rainhas] e piratas verdadeiros, exploradores e aventureiros, fizeram-se ao mar de largo transformando a costa do páo vermelho, ou brasil, em terra de ninguém.


Brasil-colônia e Pernambuco no Séc. 16 e 17

Ora, havia uma rainha com interesses e de forte influência no Vaticano, e era Isabel, que não colhera os frutos da sua batalha diplomática tordesilhana contra el hombre, como ela chamava João II, o rei luso [leia-se, mais uma vez, Marques]. Se não estava clara (e nem está...) a ação ultramarina de Colombo, “perdido” no mar de largo e que nem preso foi por João II no seu retorno da costa caribenha, foi muito clara, claríssima, a visita de Pinzón à costa do páo vermelho, precisamente para onde tempestade longa e forte havia arremessado as embarcações sob o comando do capitam Brandam... Como o rei Manuel I não quis fazer o reconhecimento da costa do páo vermelho, ou brasil, na viagem do Gama para a Índia, teve de o fazer com Cabral, porque a visita de Pinzón soou na já mundana Lisboa como alerta sobre os interesses castelhanos.

E posto isto, vamos ao assunto...

1 Um pau de tinta!, ora, ora, e vejam lá como aquela gente selvagem se veste de tinta e mil e uma cores... É o que deve ter exclamado o capitão Sancho Brandão, da Marinha Mercante portuguesa quando, perdido e na ressaca de uma violenta e longa tempestade que o tirou da costa d´África para a outra banda atlântica. Aquela visão surreal aos olhos de uma pessoa cristã, que tinha o mundo como algo quadrado e imutável, despertou no capitão muitas curiosidades a serem respondidas em campo. Ora pois, gente além da finisterra. Como poder ser?... Ele, ocidental ibérico e embrenhado na fé dos saberes proclamados pelos padres cristãos, sempre escutara que a terra tinha fim no cabo de La Coruña. Aquela ladainha finis terrae parou


subitamente de o incomodar: Estou tão longe da Galícia que a terra parece redonda em vez de quadrada, pensou, mas não o disse para não parecer herege. E dos grandes monstros marinhos não vi, quiçá, eles sejam balizas d´ilusão que ora desfizemos!, continuou. Aparvalhado com o Outro Mundo que tinha pela frente, ordenou explorações e muita cautela à vista de uma foz de rio. Nada do que tinha visto em terras da costa africana se comparava à nudez paradisíaca daquela gente ribeirinha e, ao mesmo tempo [logo o soube], florestal. Os povos africanos viviam culturas tribais com um grau civilizatório em muitos casos superior aos cristãos, entre crenças e ecossistemas, mas as tribos de gentes de corpos pintados como vestimenta davam-lhe um panorama de pouco amigável. Mas logo soube que estava no ryo dos siarás [q.s. caranguejos] e que parte das tintas escarlates era extraída da ibirapiranga, o pau de tinta que ele conhecia como pau-brasil, oriundo da Ásia e a um custo superior ao do ouro.

Mapa da Costa com a Foz do Ryo Siará [traço do ´velho´ Albernaz, 1616] e Aldeia Kariri

Além de ter sido arrastado para Outro Mundo, o capitão percebeu, em suas andanças pela costa, ter encontrado a mina que qualquer rei europeu, e muito mais um papa, gostaria de ter: uma floresta de páo vermelho. Durante o tempo em que, com a ajuda das gentes nativas, refez cascos, velas e amarrações dos barcos, soube de mais tribos a norte a sul e muitas outras terras adentro remando por longos rios como amaru mayu [q.s. serpente mãe do mundo], ou amazonas. Ora, ora, e dizem-me os padres que o mundo tem abismo no cabo de La Coruña!..., murmurava para si.

Finis Terrae _ cruzeiro a indicar o fim do mundo em La Coruña

Não se sabe se o padre que compunha a guarnição teria sobrevivido à tempestade, mas o capelão era figura presente e fixa nos navios da Marinha Mercante. Se sobreviveu, deve ter tido ´conversas´ interessantes com o capitão... Diante do achado e para o explicar, o capitão teria que embarcar flora, fauna e gente do Outro Mundo que levaria


aos olhos do rei Afonso IV e, ele, o rei, logo faria chegar a boa nova ao papa Clemente VI. Eis aqui como Portugal chegou a Outro Mundo e dele soube do melhor pau-de-tinta em pleno Séc. 14, para logo se tornar o ponto crucial das navegações atlânticas entre as feitorias da Liga Hanseática, a par da odisseia marítima chinesa que anos depois singraria também a costa africana.

2 Diz-se, e diz-se porque não existe confirmação, que o mapa guardado por Bisagudo seria uma cópia do Atlas de Bianco [1448]. Acontece que Mestre João afirma ser cópia de um mapa muito antigo e não de uma cartografia recente. É verdade que Andrea Bianco cartografou uma ixola otinticha a ponête 1500 mile o que significa ser uma informação que lhe era muito antiga.

Obs.: Pero Vaz Bisagudo [Pero Vaz da Cunha] conhecido como Bisagudo, foi um navegador luso de bons serviços prestados ao rei João II em missões ultramarinas.

Por outro lado, dificilmente o Bisagudo teria acesso a tal documentação privada da elite reinol e papal, logo, o mapa citado no relato de 1500 na costa da Ilha de Brasil teria a ver com cartografia portuguesa própria, talvez nos moldes das cartas de navegação passadas de capitão a capitão nos diversos cais do mundo ´conhecido´. Durante o ano 1498, o rei Manuel I chamou o navegador e cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira para uma expedição especial, que hoje se denominaria ´não oficial´: reconhecer as áreas situadas além da linha tordesilhana, sendo que aquele experiente cientista fora um dos presentes ao tratado assinado em Tordesilhas. Como ele já estivera nas feitorias do golfo guineense, de passagem, muito provavelmente foi nessa missão que Cosme Fernandes, ouvidor na feitoria de São Tomé, embarcou para ficar no ponto sul da linha. Ora, ao enviar um cientista para reconhecimento, Manuel I demonstrou conhecimento da existência da Ilha de Brasil, uma memória perdida no tempo por causa dos interregnos institucional-reinóis, mas, que a sinalização existia, isso sim, existia.

Obs.: Cosme Fernandes, o Bacharel de Cananeia, que ergueu a Aldeia Gohayó [mais tarde Villa de S. Vicente] e o Porto das Naus com o povo guarani depois de desembarcado em Ilha Comprida.

Ninguém vai reconhecer o que não existe, mas achar. Como já afirmei, e o faço novamente,


o Brasil foi achado por acaso em 1342, e em 1500 oficializado pela passagem da armada cabralina que ali ergueu um padrão da posse portuguesa. Por outro lado, o rei não cairia na asneira de enviar um condestável [oficial do exército] mar adentro e nunca navegado, só um capitão ou um almirante [oficiais da marinha] teriam capacidade técnica pata tal missão. Acontece que Pedro Álvares Cabral era membro da Ordem [templária] dos Cavaleiros de Cristo, e Vasco da Gama representava a Ordem de Sant´Iago, [leia-se a magistral lição de história escrita por Marques, 1994] duas forças bélico-políticas cujas contendas resultaram no assassinato de Pedro [o Infante das 7 Partidas] e do seu neto e rei João II, ambos “santiagos”, enquanto que o infante Henrique era notoriamente um cavaleiro feudal alinhado com [e era o seu grão-mestre em Portugal] os “templários” e o clero obscuro. Não sendo fiel depositário da herança política e social de João II, o rei Manuel I quis devolver grandezas à Casa bragantina, aliada templária, logo, a sua viagem à Índia teria um comandante templário, mesmo porque o caminho era já uma rota conhecida – e, nessa rota, o desvio que o próprio Gama já assinalara e que se deveria fazer na segunda viagem para dar padrão à terra do páo vermelho

Mapa c/ as 2 primeiras viagens do Plano da Índia traçado por João II com Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral & o Padrão

e no mais, nada a dizer. Ou melhor: e se assim foi, o que disse e escreveu o cosmógrafo ´tordesilhano´? A odisseia marítima do cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira, que ele mesmo relatou no manuscrito Esmeraldo de Situ Orbis, mantido secreto até o Séc. 19, revelou o que o capitam Brandam certamente escutara dos nativos que conhecera a norte, no Séc. 14: é muita terra e é muita gente. E assim foi que o cosmógrafo repetiu em sua obra parte da narrativa apresentada pelo capitão quanto a distâncias e páo vermelho.


3

E, então, o que é esse páo vermelho que os nativos da Ilha de Brasil chamam de ibirapiranga? Ainda naqueles anos do quinhentos, o botânico e médico Andrea Cesalpino fez estudos sobre o ibirapiranga e seus espinhos [echinata / equinada] segundo os parâmetros conhecidos na época, logo, e no termo científico o ´páo´ ganhou nome latino: caesalpinia echinata. E no Séc. 18, muito tempo depois, o botânico Lamarck fez a descrição do vegetal ´pau-brasil´ no âmbito da nomenclatura própria, pelo que ao nome acrescentou-se ´lam´: Caesalpinia Echinata. Lam. É um vegetal. E como surge, como cresce?

Tronco, flor e espinhos do Páo Vermelho (ou Brasil)

A madeira é dura e compacta, resistente e com textura fina. O tronco pode medir até 70 cm de diâmetro e chegar a cerca de 30 metros de altura com folhagem que pode medir até 20 cm por unidade. Das suas flores percebe-se, poeticamente bebe-se, um perfume muito suave: elas são amarelas com pétalas de mancha púrpura, já a anunciar a riqueza que o tronco oferece. A madeira tem uma cor vermelho-laranja, mas, segundo especialistas do Instituto Botânico, do Rio de Janeiro e da Fundação Pau-Brasil, de Pernambuco, essa cor vira quase violeta com reflexos dourados logo após o corte. Dá para imaginar nativos e europeus maravilhados com a natureza do páo vermelho... A dita costa do páo vermelho estendia-se do norte a sudeste no complexo pluvial atlântico.


exploração do páo vermelho na Ilha de Brasil e estudo botânico

O conhecido páo vermelho comercializado na Índia e em Sumatra e que seguia para a Liga Hanseática para ser vendido a preço-de-elite entre os grandes mercados ali sediados, não era de alta qualidade, portanto, a descoberta do páo vermelho na Ilha de Brasil mudou os rumos da economia europeia e fez de Portugal e do Vaticano agentes de grande riqueza que parecia sem fim. As questiúnculas reinóis e papais causaram interregnos também na exploração, mas se para Portugal tais acidentes políticos e sociais ´fabricaram´ incómodos e misérias, franceses e ingleses e espanhóis, e mais os franceses e os holandeses, souberam aproveitar essa fraqueza e demandar aqueles mares e costas já navegados e devidamente cartografados (como certamente teria dito Carlos V, o irônico todo-poderoso de conchavo com o papado romano). Ou seja: o páo vermelho nunca deixou de ser explorado desde 1342...! Em pleno Séc. 15 só se falava do Brasil de Portugal, e era de cais em cais, de marujo a marujo. E até Geoffrey Chaucer, em seus Contos de Canterbury menciona descaradamente “o Brasil de Portugal”. Ora, ora, e isso em 1380...


Hoje, em pleno Sé. 21, aquele páo vermelho está em extinção, mas ainda assim é a base na fabricação de arcos para violoncelos e violinos. O que aconteceu? Se o capitam Brandam mencionou que carregou os barcos com muitas toras do páo vermelho, e se não sabemos a quantidade retirada depois, durante século e meio, sabemos que de 1530 a 1630 foram abaixo 2 milhões de ibirapirangas, aproximadamente 20 mil por ano, ou, segundo as contas de economistas em geral, 50 por dia. Durante o período que denomino como século judeu na Ilha de Brasil, o que não significa que não seja assim hoje..., e que se iniciou com Cosme Fernandes, João Ramalho e continuou com Affonso Sardinha (o Velho), a coroa lusa concedeu um arquipélago a Fernão de Loronha [hoje conhecido como Fernando de Noronha] que em troca (e sem poder explorar ou fazer a queima do páo vermelho, somente enviar ao reino) deveria produzir para os cofres d´elrey, e logo em 1515, segundo os dados disponíveis, extraiu naquela região pernambucana e enviou 5 mil toras. Um arraso para qualquer floresta. Tudo para tingir tecidos de fino trato e para construir mobiliário de alta resistência e beleza para as elites. Obviamente, a ´festa´ tinha prazo para acabar, e acabou.

Terminando

Obviamente, muitos documentos estão por emergir do descaso institucional e da pasmaceira pançuda e hipócrita de muitos acadêmicos, mais inclinados a festança regada a comenda, mas, o que já existe permite-nos dizer, e o digo, que a História Luso-Brasileira tem de ser revisada para dar suporte verdadeiro às novas gerações. A farsa ´henriquina´, que encobre dados e trabalhos primorosos de pesquisa profissional, não pode continuar... Os estudos do professor Luís de Albuquerque, notavelmente ampliados pelo professor Alfredo Pinheiro Marques, na Universidade de Coimbra, completaram um quadro que o professor Jaime Cortesão não conseguiu aferir completamente por falta de dados historiográficos, a primeira lição foi: o infante Henrique pouco, ou pouca ´coisa´ (e esta, mercê do irmão Pedro), desenvolveu em relação a ações diretas pelos descobrimentos ultramarinos, preferindo as batalhas feudais contra os árabes em praças africanas, e numa delas deixou, criminosamente, o irmão Fernando como refém.


o infante-conde-regente Pedro e livros sobre a sua história

Já o disse e escrevi que “o sonho do infante Henrique era ser rei, por isso agiu como agiu e veio a confrontar o irmão e regente Pedro colaborando no assassinato deste ao não interceptar (e poderia fazê-lo, sendo o grão-mestre dos templários da Ordem de Cristo) o conde de Barcelos e seus amigos da Casa bragantina, em Alfarrobeira”, uma conclusão a que cheguei depois de ler e reler material de pesquisa de Albuquerque e de Marques, mestres agora demonizados pela Universidade coimbrã bem no âmbito do corporativismo inquisitorial que derrubou a primeira Universidade criada pelo duque de Coimbra e regente Pedro [o Infante das 7 Partidas]. As festanças ´henriquinas´ em que o governo da República portuguesa se envolve até hoje são uma farsa acadêmica e política para impedir uma séria e profunda revisão da História, que não é a camoniana, mas passa pela poética épica pessoana e até pelo palco vicentino. Com os interregnos políticos e d´alcova que paralisaram o Reino português em diversos e sucessivos momentos entre os Sécs 14 e 15, o ano 1342 ficou esquecido para os portuguesas mas não para as nações que lhe cobiçaram o título de “o Brasil de Portugal”, entre elas a França e a Holanda. As viagens de Pedro, então o duque de Coimbra e senhor de espaços como o da costa central [Figueira da Foz e Buarcos], fizeram-no conhecedor de um passado recente relativo a uma Ilha de Brasil, particularmente nos portos ingleses e venezianos, e foi em Veneza que conheceu fra Mauro, o religioso camaldulense [q.s. beneditino] especializado em cartografia e que terminava um mapa-múndi já com a sinalização das


viagens chinesas de 1421-23, em aldeias-juncos [cada junco tinha 146 m de comprimento podendo embarcar centenas de pessoas, enquanto a caravela utilizada pelos lusos era uma casca de noz com 25 m de comprimento, capacidade para 50 toneladas, 2 a 3 mastros e convés único, embarcando de 20 a 45 tripulantes...].

a aldeia-junco e a casca de noz dita caravela

O duque e infante não teve dúvidas: fez a aquisição daquele mapa-múndi para o reino [Marques, 1994]. As viagens chinesas foram chefiadas por eunucos, segundo dados de Niccolo di Conti que, com certeza [Menzies, 2002], foi ele mesmo o responsável pela legenda no mapa de Mauro acerca de um barco chinês retornando de uma volta pela África. Uma façanha inacreditável para a época e tão importante quanto a do capitam Brandam em 1342. Nas pesquisas importantes de Menzies não existem referências a 1342 [o ano em que Portugal descobriu o Brasil], pois, se as tivesse estudado teria completado uma historiografia fantástica no âmbito da humanidade que queria e quer se conhecer. Acerca da retórica maruja e literata em torno do Brasil of Portugal, o conto 11 de Chaucer, in The Canterbury Tales, ainda no Sé. 14, diz muito...

He loketh as a sparhawk his eyen Him nedeth not his colour for to dyen With Brasil, no with grain, of Portugal.

O esforço de Diniz e do filho Afonso IV não foi em vão: a Marinha Mercante singrou os mares. Um feito que surgiu também na escrita do poeta galês Taliesen [in Mabinogion, XII, 144 / 1376] referindo-se ao “Brasil of Portingali”. Ou seja, o mundo sabia... A leitura do mapa-múndi de fra Mauro não desmente a historiografia consagrada (não a da política e a das comendas governamentais...), e aponta para outros estudos até no âmbito da costa do páo vermelho revelando que desde 1342, passando pelo 1421 dos chineses e o 1494 ibérico, o vegetal ibirapiranga foi extraído e comercializado sem paradas e até à sua quase extinção – extinção que acompanhou a própria extinção dos povos nativos.


Notas & Bibliografia Notas

Acerca do Evento Insulla de Brasil ou de Brandam _ Após a troca de documentos [carta e mapa] entre Afonso IV e o Papado cristão romano, em fevereiro de 1343, o silêncio institucional cercou o achado – e aqui foi mesmo achado – do capitão Brandão. Entretanto, em 1375, o rei francês Carlos V enviou ao Vaticano um cartógrafo da Escola de Maiorca [esta, então, já a rivalizar com a Escola da Cataluña, especialista em cartografia] e para fazer cópia do mapa da Ilha de Brasil, mapa hoje assente na Bibliothèque Nationale de France [iconografia, III, 132, s. XIV). Foi desse mapa que, muitos anos depois, Bisagudo obteve cópia que circulava entre os capitães. Deve-se lembrar, e o faço saudando as pesquisas do notável brasileiro Assis Cintra [infelizmente esquecido pelas academias luso-brasileiras], que o mapa-múndi do monge beneditino Ranulf Higdon, traçado em 1360, portanto, contemporâneo do capitam Brandam, contém a Ilha de Brasil na mesmíssima posição traçada na cópia de Carlos V [assente no British Museum / London]. Não se pode esquecer que capitam Brandam era um homem da Marinha Mercante, logo, navegando de porto em porto e trocando experiências com outros capitães... E na sua chegada a Lisboa, o simples anúncio da descoberta do Outro Mundo e muito páo vermelho fez do capitam Brandam o herói e a arca dos saberes que todos os capitães queriam compartilhar para comercializar na Liga Hanseática onde, aliás, Portugal possuía feitoria [em Brugge]. Acerca da Passagem da Armada Cabralina pela Insula de Brasil ou Brandam, em 1500 _ As notícias historiográficas que temos é que antes do condestável Cabral [ele era do exército e não da marinha...], já o almirante Gama deveria ter feito um desvio no atlântico para oficializar a posse da uma velha terra dita Ilha de Brasil, da qual Portugal extraia o melhor páo vermelho, ou pau-brasil. Por isso é que a carta de Mestre João, a bordo da armada cabralina, só poderia mencionar o mar já antes navegado e não uma descoberta, tanto que a sua percepção científica logo o remeteu ao muito antigo mapa que Bisagudo possuía. [Eu, como português, continuo a dizer que a epopeia Os Lusíadas, de Camões, foi uma farsa manuelina, ao tempo e através de João III, para branquear a história verdadeira em favor de heroísmos pouco recomendáveis... Quanto à lírica, Camões é soberbo e inigualável]. AFONSO – o 7º rei português, dito “o Bravo”, filho do rei Diniz. Herdando a Marinha Mercante e a excelência do almirantado genovês, deu-lhe mais incentivos; foi em seu reinado que, em 1342, o capitão Sanches Brandão descobriu por acaso a grande ilha do páo vermelho, ou Insula de Brasil ou de Brandam, assim designada por ele em carta ao papa Clemente VI, em 1343. Os documentos enviados pelo rei [carta e mapa] estão guardados no Archivio Segreto Vaticano. A carta contém a retórica habitual e corporativa entre os reinóis europeus e o papado, e o mapa é sinalizado com Insulla de Brasil ou de Brandam. ANDREA BIANCO – Cartógrafo e marujo, autor do atlas que leva o seu nome, com 10 folhas em pergaminho, desenhado em 1436, hoje na British Library [London-UK]. ALBERNAZ, João Teixeira (o Velho) – diz-se, aprendeu cartografia com o pai Luís Teixeira; em 20 de outubro de 1602 recebeu carta de Ofício de Mestre em ´cartas de marear, astrolábios, agulhas e balhestilhas”, para logo ser designado cartógrafo do Armazém da Guiné e Casa da Mina. O seu neto, João Albernaz (o Moço) continuou-lhe a excelência do traço cartográfico. BISAGUDO [Pero Vaz da Cunha, dito o] – Filho de Luís Alvares Pais, mestre-sala de Duarte I e de Afonso V, mestre Bisagudo chegou à corte de João II a quem serviu como navegador e bom conhecedor de cartografia. CANÁRIAS & ILHA DE BRASIL, OU BRANDAM – O arquipélago dito Ilhas Canárias divide-se em parte ocidental, com as ilhas Tenerife, Gran Canaria, La Palma, La Gomera e Ferro, e em parte oriental, com as ilhas Lanzarote e Fuerteventura, e ilhotas dispersas, tendo o ponto mais alto (a nível do mar) a 1200 metros. O litoral do páo vermelho, brasil, paralelo à costa da linha Macaronésia [Canárias, Madeira, Cabo Verde e Açores], no trecho entre Recife [costa pernambucana com 187 km] e a foz do Ryo Siará [costa cearense com 573 km], é na prática um continente à beira-mar, gigantesco em relação ao arquipélago do


povo guanche, de origem berbere [norte africano], além de que este arquipélago, ou Ilhas Canárias [de cão e não de canário], já era conhecido de cartagineses e romanos. Ora, o que encontrou, em 1342, o capitam Brandam? Gente nua e que não se opôs à presença ocasional dos portugueses. Já os guanches travaram ferozes batalhas contra invasores; e, mesmo que isolado, esse povo árabe não viveria nu, pois, a tradição do vestuário entre os árabes era mais antiga do que entre os europeus. Por outro lado, o rei Afonso IV não fala de um arquipélago, mas de uma terra beijada pelo atlântico com muito páo vermelho, ou brasil – aliás, informação repetida 155 anos depois pelo cosmógrafo Duarte Pacheco, que ´pilotou´ a armada cabralina na sua atracada de 1500 no norte da Insul de Brasil, ou Brandam – e a sua carta de fevereiro de 1343 ao papa Clemente VI é o registro da primeira insulla occidental no mapa da Marinha Mercante lusa. CARTA DO MESTRE JOÃO – descoberta no Séc. 19 pelo historiador luso-brasileiro, nascido no cerro Ybiraçoiaba / Iperó. A ´carta´ foi publicada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro na edição nº 19 da sua revista [Tomo V], Rio de Janeiro, Brasil, 1843. CASO 1342 – ... “[...] il documento di Suo interesse ha la seguente segnatura archivistica: Reg. Vat. 138, ff. 148r-149r. / Prefettura dell’Archivio Segreto Vaticano [da correspondência com João Barcellos, 2016]. DINIZ – rei português do Séc. 14, dito o “Lavrador" e "Rei Poeta", que iniciou a formação da Marinha Mercante como almirante genovês Emanuele Pessagno, obra continuada pelo filho e rei Afonso IV. Foi o rei Diniz que, enfrentando o Papado cristão-romano decidiu dar teto e sobrevida aos Cavaleiros Templários que conseguiram fugir da fogueira inquisitorial montada pela França e o Vaticano: os templários passaram a ser designados como Ordem dos Cavaleiros de Cristo e muitos dos seus monges especialistas [em comércio, navegação, administração, serviços bancários, etc.] foram cooptados para serviços palacianos paralelamente à atividade monástica. MAPPA DE BISAGUDO – ... Parte 3, Maço 2, Documento nº2, é onde se encontra[va] o “mappa de Bisagudo”. Torre do Tombo / Biblioteca Nacional, Lisboa-Portugal. MESTRE JOÃO [João Emeneslau ou João Faras] – cientista castelhano a serviço da coroa lusa. A sua missiva sobre o desembarque da armada cabralina em 1500 na costa da Ilha de Brasil revela um mapa antigo sobre a região e, em outra parte, revela o primeiro esboço da Constelação do Cruzeiro do Sul. ODISSEIA CHINESA EM ALDEIAS-JUNCOS _ A fantástica viagem oceânica durou 31 meses, entre março de 1421 e outubro de 1423. Quatro almirantes eunucos foram designados para a jornada ultramarina com 130 navios, cerca de 3 mil pessoas a bordo. A atividade mais importante foi a científica: o almirante Yang Qing ficou no Oceano Índico para estudar e desenvolver métodos a fim de determinar a longitude (eles apenas registravam latitudes a partir da observação das estrelas). PEREIRA, Duarte Pacheco – cosmógrafo, navegador e militar português que serviu aos reis João II e Manuel I, tendo sido um dos cientistas presentes ao Tratado de Tordesilhas [1494]. Fez uma viagem ao sul da Linha de Tordesilhas, em 1498, a serviço de Manuel I para verificar as terras ali existentes. ESMERALDO DE SITU ORBIS _ É desconhecido o destino do manuscrito original da obra, que se supõe ser de 1505 e que Diogo Barbosa Machado diz ter existido na casa do Marques de Abrantes. Existem 2 cópias: na Biblioteca de Évora e na Biblioteca Nacional de Portugal, ou Torre do Tombo. Ainda segundo D. B. Machado, era composto por 4 livros com 33, 71, 9 e 16 capítulos, além de 16 mapas iluminados e algumas estampas menores. O famoso capitão está celebrado por Camões como Achilles Lusitano, nas oitavas 13 a 25, canto X dos Lusíadas. O livro teve edição em 1627, sem os mapas e com poucas ilustrações, mas o texto "é o mais completo compendio do que sobre nautica e geographia maritima especialmente a da costa africana - se sabia nos fins do seculo xv e primeiros annos de xvi, como porque, por uma passagem d'ella se prova claramente que em 1498, na côrte de D. Manuel havia fundadas suspeitas, se não cabal conhecimento, da existencia d'essa parte da America que depois se chamou Brazil" [do editor]. VARNHAGEN, Francisco Adolfo – historiador notabilizado no império brasileiro, descobriu a Carta do Mestre João e, a partir dela, iniciou novos estudos luso-brasileiros quanto à descoberta do Brasil.

Bibliografia


1421: O ANO EM QUE A CHINA DESCOBRIU O MUNDO / 1421: the year China discovered the World – Gavin Menzies [oficial da marinha inglesa], 2002. A MALDIÇÃO DA MEMÓRIA DO INFANTE DOM PEDRO E AS ORIGENS DOS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES – Alfredo Pinheiro Marques. Ediç Centro de Estudos do Mar. Figueira da Foz / Portugal, 1994. – ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DA CARTOGRAFIA PORTUGUESA NA ÉPOCA DOS DESCOBRIMENTOS. Ediç. INCM, Lisboa/Portugal, 1988. BRASIL / 500 ANOS – João Barcellos. Ed Edicon, São Paulo / Brasil, 2000. – DO MAR ATLANTICO ÀS ENSEADAS DA COSTA DO PAU-BRASIL PASSANDO PELOS INTERREGNOS INSTITUCIONAIS ENTRE BORDEIS REINÓIS. Palestra. Espaço Mizar Cristal. Cotia/SP-Brasil, 2006; e Sorocaba/Brasil, 2009. CARTOGRAFIA – Luís de Albuquerque. Lisboa/Portugal, 1979. ESMERALDO DE SITU ORBIS – Duarte Pacheco Pereira. Obra manuscrita em 4 partes: Livro Primeiro (33 capítulos), Livro Segundo (11 capítulos), Livro Terceiro (9 capítulos) e Livro Quarto (6 capítulos), além de um Prólogo e diversos mapas apensos que desapareceram da obra. Quanto ao título, segundo estudos de Jorge Couto, da Universidade de Lisboa, Esmeraldo é anagrama com as iniciais em latim dos nomes Emmanuel (o rei) e Eduardus (o autor), e De Situ Orbis se traduz como Dos Sítios da Terra. A narrativa não foi publicada porque o egocêntrico e fanático Manuel I achou ser ela parte privada da sua vida. A obra foi finalmente publicada em 1892 em edição da Imprensa Nacional portuguesa. Dados publicados por Eduardo de Jorge Couto e Joaquim Barradas de Carvalho mostram que a obra lítero-científica foi copiada em 1573 e levada a Felipe II, de Espanha, pelo espião Giovanni Gesio, tal a sua importância como informação estratégica. HISTÓRIA DA PROVINCIA DE SANCTA CRUZ – Pero de Magalhães Gândavo. Ediç de António Gonçalves, Lisboa-Portugal, 1576. LIVRO QUE DÁ REZÃO DO ESTADO DO BRASIL. João Teixeira Albernaz [o Velho]. Atlas c/ 22 lâminas, 1616. Obs.: Este manuscrito foi estudado por D. de C. Moreno, em 1968. O objeto histórico está conservado no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro [RJ, Instituto Nacional do Livro]. Este trabalho foi depois completado por o Albernaz [o Moço], neto de ´o Velho´. NOSSA PRIMEIRA HISTÓRIA – Assis Cintra. Edit Melhoramentos. Cayeiras/SP-Brasil, 1921. Obs.: foi o primeiro historiador a comentar e publicar na luso-brasilidade a Questão1342. O INFANTE D. PEDRO AS ´SETE PARTIDAS´ E A GÊNESE DOS DESCOBRIMENTOS – Júlio Gonçalves. Ediç Agência Geral do Ultramar. Lisboa/Portugal, 1955. OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES – Jaime Cortesão. Lisboa/Portugal, 1960. TEMPLÁRIOS & PORTUGUESES MAR ADENTRO – J. C. Macedo. Estudos [c/ Hanne Liffey e Celine Abdullah]. Coimbra/Portugal, 1975. THE CANTERBURY TALES – Geoffroy Chaucer. England, 1380. TINTAS DE PÁO VERMELHO & PENACHOS: FLORA, FAUNA, ARTESANATO QUE BRANDÃO SEQUESTROU & APRESENTOU NA EUROPA DO SÉCULO 14 – João Barcellos. Palestra. Cerro Yibiraçoiaba / Iperó, Brasil, 2010. UMA ILHA CHAMADA BRASIL – Geraldo Cantarino. Ed Mauad. Rio de Janeiro / Brasil, 2004.


A GRAMÁTICA DA HISTÓRIA AO 3º GRAU (ou 3º NÍVEL) E O OPÚSCULO DE João Barcellos: ‘páo vermelho, brasil (Caesalpinia Echinata. Lam.) ibirapiranga’ (Estudos & Palestras)/Jan. 2017

Prof. Dr. Manuel Reis Centro de Estudos do Humanismo Crítico Portugal, 2017


* Que te diz a Auto-Experiência humana (criticista)? ‒ No processo do Conhecimento, há sempre um Sujeito e um Objecto. Mas há, ainda, uma terceira Realidade: a da Consciência do Indivíduo-Pessoa, que articula e entrosa as duas primeiras. Eis por que o processo do Conhecimento humano, no seu modo próprio e distintivo de operar, não consiste numa Dualidade, mas, outrossim, numa vera e autêntica Trindade. Isto mesmo envolve consequências de vida ou de morte, para a Espécie humana!...

● A Noção criticista integral dos exemplares individuais da Espécie vivente, que dá pela designação, na Bio-Antropogénese, de ‘Sapiens//Sapiens’, que é evocada e desenvolvida no C.E.H.C. (Centro de Estudos do Humanismo Crítico) como coluna dorsal do Edifício Cultural construído (e construendo), é a do Psico-Sócio-Ânthropos. Lobrigam-se, desde logo, aí (numa perífrase algo complexa e não fácil de entender…), três patamares ou dimensões na construção conceptual dos exemplares da Espécie dita humana: a) a psicológica e psicanalítica (por arrastamento homogéneo); b) a socialsociológica (que afecta, ainda mais, o processo de exteriorização dos indivíduos); c) e a antropológica, cumulativamente, que procura exprimir o carácter pessoal dos indivíduos-pessoas em causa. ● A percepção holística dos indivíduos-pessoas, em tal horizonte, suas actuações e comportamentos práxicos (estamos, implicitamente, a defender o primado da praxis crítica sobre a teoresis e as teorias, muito hilemorficamente segundo o modo aristotélico de operar, contra todos os Dualismos metafísico-ontológicos de Platão e de Paulo), conduz-nos a pressupô-los como articulando e entrosando o efémero e o permanente, o temporal e o perene, evitando a queda (tradicional) no báratro dos Dualismos metafísicos teimosos e irredentos. ● No script (que preparámos para a sessão de apresentação do Livro de Paulo Salgado, ‘GUINÉ: Crónicas de Guerra e Amor’, na Unicepe do Porto, em 2.12.2016) deixámos estabelecido, a propósito da índole da escrita neste Livro: “Aqui, todo o material/conteúdo do Livro ‒ factos e personagens, situações, acontecimentos e cenários ‒ é percepcionado e perscrutado aos três níveis conjugados da Observação/Apercepção: a) nível físico-fisicalista; b) nível social/sociológico; c) nível psíquico/psicológico (por vezes em atmosfera psicanalítica). “Por tudo isto, não temos receio em afirmar que Paulo Salgado segue, nesta sua obra paradigmática, o modelo historiográfico da História ao 3º Grau. O padrão icónico/emblemático deste novíssimo modelo de Historiografia (em Portugal) é o Livro titulado ‘Maldição da Memória do Infante Dom Pedro e a Origem dos Descobrimentos Portugueses’ (Figueira da Foz, 1994), do Dr. Alfredo Pinheiro Marques (afastado das suas funções de Docente de História, na Univ. de Coimbra sempre censória e inquisitorial, a partir da última década do séc. XX), actual Presidente e director do CEMAR (Centro de Estudos do Mar), sediado em Buarcos (Figueira da Foz). “Para se ter uma apercepção aproximada e, tanto quanto possível, precisa da esfera, que se configura na História ao 3º Grau, convirá evocar o horizonte da ‘História ao 2º Grau’, que foi edificada na 2ª metade do séc. XX, sob a epígrafe francesa de ‘Nouvelle Histoire’ ou ‘Histoire des Annales’, onde figuraram nomes cimeiros como Henri Lefèbvre, Jacques Le Goff, Georges Duby. Nesse horizonte, foram concebidas e editadas obras monumentais, marcantes e metodologicamente inovadoras, na Cultura


francesa e francófona, as quais foram, posteriormente, traduzidas e editadas por Edições Afrontamento (nas décadas de 80/90 do séc. XX); ‒ estamos a referir-nos às Obras monumentais (em 5 volumes) ‘História da Vida Privada’, e ‘História das Mulheres’ (em 5 volumes). “Dest’arte, emerge, perante a História do 1º Grau ‒ de índole fisicalista e geral ‒ , a História ao 2º Grau, com o seu envoltório concreto e situado, que procede do Indivíduo/Individual como âncora real/matricial, que impõe uma dimensão social/sociológica, concretizada a partir das irradiações efectivas dos Indivíduos, tomados e assumidos como Sujeitos e centros de responsabilidades. Ora, é justamente no encadeado do 2º para o 3º grau da História que se pode configurar e reconhecer a História ao 3º grau, com dimensão psicológica (e psicanalítica), baseada nos Sujeitos livres e responsáveis, que são (= devem ser) os Indivíduos-Pessoas. O Psico-SócioÂnthropos (de que nós falamos no C.E.H.C.) fica assim integral e completo, na sua Grande Estrutura, procedente da gramática específica do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Deve, entretanto, advertir-se, metodologicamente, que, nesta concepção triádica dos graus ou níveis da História (una e trina), os graus ou níveis surgem imbricados uns nos outros: o seguinte não anula o anterior, mas pressupõe-no para poder progredir e configurar-se plenamente”. ● Em 2005, a Edicon (São Paulo/Br.), com as chancelas unidas do Centro de Estudos do Humanismo Crítico, Grupo Granja e Centro de Estudos do Mar, editou o Livro, com o título propositadamente perifrástico e significativo: ‘MITO-HISTÓRIA & ÉPICA (Por um Refazer da Historiografia Portuguesa)’. Na mente dos 10 Autores, que aí deixaram os seus contributos e fizeram os seus depoimentos, havia um movimento centrípeto orientado para objectivos centrais: no caldeirão dos materiais e elementos, recolhidos e ordenados para a elaboração da vera e autêntica História, há sempre partes e sectores que, à partida, não usufruem dos predicados e critérios do que se tem por honestidade e fidedignidade da escrita histórica, por estatuto próprio construída sobre factos e documentos e personalidades adequadamente balizadas e acreditadas como os veros Actores/Agentes da História. Quantas vezes, lendas e narrativas, mitos e mitemas não fazem parte integrante da Literatura histórica, como ensina o catecismo oficial; e, por isso, não são considerados como tais, até são escorraçados e excluídos, por força da Ideologia (ou ideologias, no plural, admitidas no Establishment)!... Na base (criticista) dos Trabalhos desses Autores, encontravam-se, firmes, dois pressupostos, muito embora de modo apenas implícito: A) Ideologia e ideologias (qua tais) constituem estigmas típicos e específicos da tradicional Cultura do PoderDominação d’abord, onde ainda operam e funcionam os ‘laboratórios’ através dos quais se faz ou escreve a História (oficial!...); não esquecer que a Ideologia dominante selecciona sobranceiramente o que lhe interessa e dá jeito, e proscreve e exclui o que não lhe interessa e a repudia; B) a busca científica persistente e irrefragável só virá a ter lugar na futura e tão esperada Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. Até lá… muito há ainda que fazer e esperar!... Desta sorte, quem, denodadamente, procura investigar e escrever vera e autêntica História terá de assumir e respeitar dois critérios/princípios fundamentais: ‒ 1º (negativo): proceder à crivagem e ao balanço crítico de toda a Informação, que é carreada e transmitida nos compêndios da História (oficial), iniludivelmente concebidos e editados sob o signo das ideologias; 2º (positivo): abrir caminho para a Construção criticista da História, admitindo e recebendo informes e procedendo à pesquisa, em outras áreas de escrita e de documentos, que não são habitualmente tidas em conta no ‘quintal’ da História oficial.


Nesse Livro (editado pela Edicon: p.40-41), fazíamos nós questão de evocar a Saga chinesa, que, no seu auge, precedeu seguramente, cerca de meio século, a Saga lusa: “Nos bastidores da tecnologia náutica e das artes de marear dos árabes/islâmicos, que veio a contribuir decisivamente para a engineering náutica das Caravelas, não se podem esquecer os contributos da anterior e milenar civilização chinesa e os ‘juncos’ do coevo imperador chinês Zhu Di da Dinastia Ming, o qual mandou seus 5 almirantes (Zheng He, Yang Qing, Zhou Man, Hong Bao e Zhou Wen) proceder ao levantamento dos continentes e ilhas do Mundo, entre 1421-1423, e fazer vassalos e colónias nos diferentes países descobertos. (Cf. Gavin Menzies: ‘1421: O Ano em que a China descobriu o Mundo’, Dom Quixote, Lisboa, 2004). “Deve, aqui, advertir-se, entretanto, que, bem analisado criticamente o processo ideológico-histórico dos Descobrimentos chineses, não se podem inferir daí quaisquer conclusões legítimas que venham a infirmar ou a colidir com a substância de toda a arquitectura historiográfica, edificada pelo Prof. Alfredo Pinheiro Marques”. O Império chinês dos Ming, no séc. XV, não era, por certo, uma ‘Open Society’, segundo a categoria societária definida por Karl Popper, na 2ª metade do séc. XX. O chamado ‘despotismo asiático’ (denunciado por K. Marx e outros escritores, antes e depois dele) sempre caracterizou as governanças do Império chinês, ao longo de séculos e milénios… Mas, na situação concreta do séc. XV, os almirantes chineses só levavam consigo um mandato a cumprir por parte do Imperador: estabelecer entrepostos fiáveis de comércio internacional; não conquistar ou erguer, por meios de violência ou força, territórios colonizados ou a colonizar com suas gentes e povos, ‒ aquilo que vieram a edificar os conquistadores-colonizadores ocidentais, sob a bandeira do Imperialismo capitalista, nos cinco séculos posteriores. Aí começou, de facto, o Imperialismo do Ocidente.

CELEBRAÇÃO e ELOGIO de JOÃO BARCELLOS no seu esclarecido e crítico Ensaio

N.B.: O Autor (luso-brasileiro), sobremaneira nas últimas três décadas, já havia sido forte e largamente elogiado, no Brasil, pelos seus ensaios e palestras e opúsculos criticistas de investigação arqueológica polarizados na História real (sempre a redescobrir e identificar, ao longo da embusteira (ideológica) e enfeitiçada História oficial dos dois Países irmãos). Utilizamos, de propósito, a expressão Investigação arqueológica, no contexto e segundo o significado que lhe são atribuídos pelo filósofo francês Michel Foucault, na sua conhecida e paradigmática obra ‘L’Archéologie du Savoir’. Estamos a lembrar-nos dos ensaios de J.B. em torno de personalidades/personagens históricas como Cosme Fernandes, João Ramalho, Affonso Sardinha / o Velho (que neste estudo são, igualmente, referenciados: p.12). De salientar, ainda, neste mesmo horizonte, os trabalhos que são referidos na bibliografia do presente ensaio: Brasil/500 anos ‒ João Barcellos, Ed. Edicon, São Paulo/Brasil, 2000; e Do Mar Atlântico às Enseadas da Costa do Pau-Brasil passando pelos Interregnos institucionais entre Bordéis Reinóis. Palestra. Espaço Mizar Cristal. Cotia/SP-Brasil, 2006; e Sorocaba/Brasil, 2009.

Como foi possível que J.B. se tornasse capaz de produzir estudos e pesquisas históricas tão deslumbrantes, por desmitificadoras e criticistas, perante os estereotipados modelos ideológicos de fazer e arquitectar a História ‘ad usum delphini’, cujas lições nunca são aprendidas pelo cidadão comum e face às quais as próprias


elites governantes e dominantes fazem tudo por ignorá-las ou esquecê-las?!... O resultado práxico-societário não pode, assim, ser outro senão o insípido historicismo de Lotaria, como bandeira no Cortejo mortífero do ‘eterno retorno’ nietzscheano!... J.B. sabe ser exímio no padrão escolhido com as suas práticas coerentes e consequentes: a História ao 3º Grau (decorrente do ‘Psico-Sócio-Ânthropos’, a âncora do ‘Homo Sapiens//Sapiens’), imbricada (na sua estrutura compósita) no 2º Grau e no 1º Grau: o 1º na esfera básica das identidades fisicalistas; o 2º na esfera concêntrica das identidades sociais-sociológicas, onde a teia urdida das relações societárias é decisiva; o 3º na esfera superior (concêntrica) da inteligência e da consciência, atribuídas a todos os indivíduos-pessoas humanos que integram as diferentes sociedades. O curso desta História é, por si mesmo, evidente, persuasivo, pedagógico. Os outros modelos de escrever a História não passam de fantasmagorias ideológicas, as quais, por isso mesmo, não são aprendidas pelos governantes de turno e pelos cidadãos vivos. Daí, o ‘eterno retorno’!... A História ao 1º Grau, por definição, leva consigo os estigmas da Ideologia dominante no Establishment societário (e de outras ideologias submissas ou subjugadas). A História ao 2º Grau ocupa-se e preocupa-se com as relações societárias decorrentes de factos, acontecimentos e respectivas interpretações, onde a noção de Grupo sobreleva a de Indivíduo (anódino). A História ao 3º Grau ‒ que visa seriamente a visão científica primacial, esconjurando a ideológica do Mando e do Poder d’abord ‒ , apoiada no pressuposto das consciências críticas dos Indivíduos, não desdenha, em nome de uma Utopia serena, abrir criticamente caminhos através do estudo criticista das próprias lendas e tradições, que acompanham o caudal maior do Rio da História. No seu modo próprio de reescrever a História, J.B. empenha-se, com denodo, nestas três vertentes hermenêuticas do Processo histórico. E, em tal horizonte criticista, muito dificilmente ele poderá ser contraditado. Com estudiosos destes, o que nos cumpre fazer é aprender com eles. Depois do frontispício (= capa) do Opúsculo, o Autor começa assim o seu Intróito (p.2): “O trato que amiúde se dá nos meios acadêmicos luso-brasileiros ao Brasil e ao Páo Vermelho, ou Brasil, aqui achado por acaso em 1342, é um trato de brandos costumes, para não interferir nas políticas oficiais, que fixam a estória dos manuais escolares sobre o assunto; mas acontece que a história não precisa desse tipo de acadêmicos, porque ela trata de emergir ao longo das gerações entre documentos, que às vezes pulam da poeira do esquecimento em que a ignorância e a ganância de e do Poder a deixaram”. O horizonte e os sentidos críticos que aí avultam: ‘les ruses de l’Histoire oficielle’ e a sua denúncia manifesta, embora implícita; indivíduos e sociedades… todos se encontram inexoravelmente submetidos à lei de ferro do Objectivo-Objectualismo, que constitui a chancela régia da sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. É assim que o Autor estabelece o Pórtico do seu notabilíssimo e decisivo Estudo sobre o primordial achamento do Brasil/Páo Vermelho, pelo capitão da Marinha Mercante Sancho Brandão, às ordens do rei luso Afonso IV, o Bravo (o 7º rei da 1ª dinastia: 1325-1357). A carta de Afonso IV ao papa Clemente VI, anunciando-lhe a descoberta, é de 12 de fevereiro de 1343 [Archivio Segreto Vaticano / Livro 138, Fls. 148 e 149]. O documento em causa tem a seguinte ‘segnatura archivistica’: Reg. Vat. 138, ff. 148r-149r. Nessa carta, pode ler-se o que segue (inf. por e-mail de J.B./10.1.2017): “Diremos reverentemente a Vossa Santidade que os nossos naturais foram os primeiros que acharam as mencionadas ilhas do Ocidente… ‒ dirigimos para alli (ilhas do Ocidente) os olhos do nosso entendimento, e desejando pôr em execução o nosso intento, mandámos lá as nossas gentes e algumas naus para explorarem a qualidade


da terra, as quais abordando as ditas ilhas, se apoderaram, por força, de homens, animaes e outras cousas e as trouxeram com grande prazer aos nossos reinos”. O ‘esquecimento’ desta carta de Afonso IV é oriundo da confusão, na correspondência reinol-papal, da carta sobre o achamento da Ilha do Brasil ou Brandam com a carta da doação das Ilhas Canárias pelo mesmo papa, que é do mesmo ano, 1342. Não obstante, trata-se de dois documentos historicamente diferentes; e é com documentos, e não com suposições, que se faz a história (ibidem). Neste estudo de João Barcellos, (que podemos repartir em duas partes), na parte introdutória (pp.2-6) é apresentada a tese central sobre o achamento do Brasil, em meados do séc. XIV (1342), com coragem lacónica e surpresa q.b., por parte do capitão Sanches Brandão da Marinha Mercante lusa, o qual se pôs à vela por ordens do rei Afonso IV; e na 2ª parte (pp.6-18), procede-se às explicações adequadas, respondendo às interrogações que ainda se mantêm, proh dolor!, nas cabeças de todos aqueles que se deixaram formatar pelos clichés e molduras da ‘História oficial’!... Leiamos o enunciado preciso da Tese central (pp.2-3): “A riqueza de uma citação na Carta de Mestre João [cientista castelhano ao serviço da coroa lusa], embarcado na armada de Cabral, em 1500, que fez o reconhecimento oficial da Ilha de Brasil [deixando padrão no sytyo] e logo levantou âncora para prosseguir no rumo da Índia, fez gerações de estudiosos e estudiosas mergulharem nela quanto Señor al sytyo desta terra mande vosa alteza traer un mapamundy que tyene pero vaaz bisagudo e por ay podra ver vosa alteza el sytyo desta terra, en pero aquel mapamundy non certyfica esta terra ser habytada, o no: es mapamundi antíguo e ally fallara vosa alteza escrita tan byen la mina porque revela ao rei Manuel I um mapamundi antíguo, na posse de Pero Vaz da Cunha [o Visagudo], no qual está sinalizada já a Ilha de Brasil. Pela antiguidade do mapa assinalada pelo Mestre João, deveria ser um portulano a indicar ventos e distâncias, que os capitães compartilhavam entre si. Um mapa que só poderia ter sido traçado a partir do desembarque ocasional do capitão Sancho Brandão, em 1342, levado talvez ainda em alinhavos apenso à carta que o rei Afonso IV fez entregar ao papa Clemente VI”. A saga sobre a anterioridade histórica da ‘descoberta do Brasil’ (ca. de 1 século e meio entre 1342 e 1500) foi, agora, reassumida, em boa hora, como lembrou o próprio J.B. (ibi, p.4): “Mas deve-se [a] notar que já pelos anos 1919 a 1921 o ‘Caso 1342’ esteve sob estudos de brasileiros, civis e militares, por causa de um padre português, professor na Universidade de Évora, e que havia reconhecido documentos afins no Vaticano”. Ora, no período entre 1342 e 1500, dir-se-á que o ‘Caso 1342’ fora entregue às águas do mítico Rio Lêthes!... Todavia, depois que o rei francês Carlos V tomara conta do roteiro que o capitam Brandam fizera por acaso em 1342, ele próprio “conseguiu cópia do mapa da expedição em terras do páo vermelho, e muito além da finis terrae, corsários [piratas institucionalizados por reis e rainhas] e piratas verdadeiros, exploradores e aventureiros, fizeram-se ao mar de largo, transformando a costa do páo vermelho, ou brasil, em terra de ninguém” (J.B., ibi, p.5). No fim da 1ª parte do seu ensaio (p.6), J.B. deixou bem assinalado o hiato do 2º reconhecimento histórico do Brasil, do seguinte modo: “Como o rei Manuel I não quis fazer o reconhecimento da costa do páo vermelho, ou brasil, na viagem do Gama para a Índia, teve de o fazer com Cabral, porque a visita de Pinzón soou na já mundana Lisboa como alerta sobre os interesses castelhanos”. Essa visita do capitão castelhano


Pinzón às terras do páo vermelho foi o sinal de alarme na corte manuelina!... Embora tarde, o rei Manuel I não queria perder o achado. J.B. começa a 2ª parte do seu ensaio, mediis in rebus, como se fosse ele mesmo o capitão da caravela, Sancho Brandão: “Um pau de tinta!, ora, ora, e vejam lá como aquela gente selvagem se veste de tinta e mil e uma cores… É o que deve ter exclamado o capitão Sanches Brandão, da Marinha Mercante portuguesa, quando, perdido e na ressaca de uma violenta e longa tempestade que o tirou da costa d’África para a outra banda atlântica” (ibidem). Tendo, porém, serenado os elementos telúricos e a sua consciência, logo ele “soube que estava no ryo dos siarás [q.s. caranguejos] e que parte das tintas escarlates era extraída da ibirapiranga, o pau de tinta que ele conhecia como pau brasil, oriundo da Ásia e a um custo superior ao do ouro” (idem, ibidem). Estava na terra dos ‘bons selvagens’ à J. J. Rousseau, na terra dos tão estudados tupi-guaranis, entre outros povos nativos!... Quando se estudam os seres humanos, primacialmente, a partir dos Sujeitos, e não dos objectos, dá-se conta de que a dimensão económica da vida aflora muito naturalmente, como terá sido o caso com Sancho Brandão. A propósito dos Tupi-Guarani, enquanto ‘laboratório’ de estudo filosóficoetnológico, são, aqui, de evocar os trabalhos do conhecido etnólogo Claude LéviStrauss, que foi residir para o Brasil, e estudou, com dedicação, estes povos ameríndios da América do Sul, ‒ o que lhe valeu o título de promotor do Estruturalismo: tanto nas explicações etnológicas como na análise dos mitos. Obras mais importantes: ‘Les structures élémentaires de la parenté’ (1949); ‘Tristes Tropiques’ (1955) ; ‘La Pensée sauvage’ (1962) ; ‘Le Cru et le Cuit’ ; ‘Du miel aux cendres’ (1967). Com Lévi-Strauss, na Etnologia, e Noam Chomsky, na Linguística, a Escola Estruturalista contribuiu, decisivamente, para a solidificação de uma Epistéme distinta para as ciências psico-sociais e/ou humanas, em contraste com a Epistéme própria das ciências físico-naturais. A narrativa do nosso Autor processa-se vívida e presencial, quase no jeito de um vero e fecundo ‘romance histórico’. Ele sabe que o padre-capelão fazia parte da guarnição das naus. Vivo ou morto, ele teria dito ao capitão da nau: “Diante do achado e para o explicar, o capitão teria de embarcar flora, fauna e gente do Outro Mundo, que levaria aos olhos do rei Afonso IV e, ele, o rei, logo faria chegar a boa nova ao papa Clemente VI. “Eis aqui como Portugal chegou a Outro Mundo e dele soube do melhor pau-detinta em pleno Séc. 14, para logo se tornar o ponto crucial das navegações atlânticas entre as feitorias da Liga Hanseática, a par da odisseia marítima chinesa, que anos depois singraria também a costa africana” (idem, ibi, p.8). O cientista castelhano, Mestre João, que seguia na armada de Cabral e que desembarcou, em 1500, na costa da Ilha de Brasil, com o objectivo de proceder ao seu reconhecimento oficial, era do parecer que o mapa guardado por Bisagudo não seria cópia do Atlas de Bianco [1448], mas, outrossim, cópia de mapa muito mais antigo (cf. ibi, p. 8), ‒ os mapas portulanos, que, muitas vezes, não passavam para cima da alçada dos capitães das naus, e, por isso, não figuravam nas chancelarias dos reinos. Tudo bem confrontado e avaliado, é neste horizonte que a Tese central criticista de João Barcellos resulta insofismável (p.9): “Manuel I demonstrou conhecimento da existência da Ilha de Brasil, uma memória perdida no tempo, por causa dos interregnos institucionais-reinóis, mas, que a sinalização existia, isso sim, existia. Ninguém vai reconhecer o que não existe, mas achar. Como já afirmei, e o faço novamente, O Brasil foi achado por acaso em 1342, e em 1500 oficializado pela passagem


da armada cabralina que ali ergueu um padrão.” O cientista/cosmógrafo, Duarte Pacheco Pereira, o Autor do famoso Esmeraldo de Situ Orbis, (documento mantido secreto até ao séc. XIX), que serviu aos reis João II e Manuel I e assessorou no Tratado de Tordesilhas (1494), faz referência à odisseia do capitam Brandam, no séc. XIV, aos nativos que este conhecera a Norte, às distâncias e ao páo vermelho (cf. idem, ibi, pp.9-10). A árvore do páo vermelho é conhecida, na Ilha de Brasil, pelo nome de Ibirapiranga. No séc. XVIII, o botânico Lamarck acabou por caracterizar, oficialmente, para Dicionários e Enciclopédias, esse vegetal chamado ‘pau-brasil’ com a sua nomenclatura própria actualmente reconhecida: ‘lam’: Caesalpinia Echinata. Lam. O tronco da árvore pode chegar aos 70 cm. de diâmetro e aos 30 metros de altura; as suas flores são amarelas; e a cor da madeira é vermelho-laranja. Diz o nosso Autor: “o páo vermelho nunca deixou de ser explorado desde 1342!...” (ibi, pp.10-11). “Em pleno séc. 15 só se falava do Brasil de Portugal, e era de cais em cais, de marujo a marujo. E até Geoffrey Chaucer, em seus Contos de Canterbury, menciona descaradamente ‘o Brasil de Portugal’. Ora, ora, e isso em 1380… “Hoje, em pleno séc. 21, aquele páo vermelho está em extinção, mas ainda assim é a base na fabricação de arcos para violoncelos e violinos. O que aconteceu? Se o capitam Brandam mencionou que carregou os barcos com muitas toras de páo vermelho, e se não sabemos a quantidade retirada depois, durante século e meio, sabemos que de 1530 a 1630 foram abaixo 2 milhões de ibirapirangas, aproximadamente 20 mil por ano, ou, segundo as contas de economistas em geral, 50 por dia” (idem, ibi, pp.11-12). João Barcellos (luso-brasileiro de cabeça e coração) é Autor de inúmeros opúsculos e palestras revolucionários do que deveremos chamar Arqueologia histórica criticista de Portugal e do Brasil. Sempre como exímio campeão do que o C.E.H.C. designa por História ao 3º Grau. A sua Conclusão (fundada e fundamental) fica bem revelada e expressa na frase lapidar (ibi, p.12): “a História Luso-Brasileira tem de ser revisitada”. Há factores de ordem estrutural/estruturante, criticistas, de grande importância, que ele resume nas pp. seguintes 13-15. Nós subscrevêmo-los, na sua totalidade. Com acerto incontornável, ele deixou aqui exarada (p.14) esta Tese monumental: “o ano 1342 ficou esquecido para os portugueses, mas não para as nações que lhe cobiçaram o título de ‘o Brasil de Portugal’, entre elas a França e a Holanda”. Por outro lado (e nas Histórias do Mundo a Oriente…) “nas pesquisas importantes de Menzies, não existem referências a 1342 [o ano em que Portugal descobriu o Brasil], pois se as tivesse estudado teria completado uma historiografia fantástica, no âmbito da humanidade que queria e quer se conhecer” (idem, ibi, p.15).

Adenda ● Sobre as recheadas e densas ‘Notas & Bibliografia’, que rematam e respaldam este Ensaio deslumbrante e renovador de João Barcellos (pp.16-18).


As 3 páginas, integradas no Opúsculo com toda a pertinência, para nós, funcionaram como pano de fundo ou, mesmo, scenario, para um entendimento adequado, identificativo e globalizado, de todo o corpus do Texto. A ‘peça teatral’, que se desenrola no palco, carece, absolutamente, desta escrita apendética. ‒ Aí se pode ler: Foi no reinado de Afonso IV, ‘o Bravo’, que “em 1342, o capitão Sanches Brandão descobriu, por acaso, a grande Ilha do páo vermelho, ou Ilha de Brasil ou de Brandam, assim designada por ele, em carta ao papa Clemente VI, em 1343. Os documentos enviados pelo rei [carta e mapa] estão guardados no Archivio Segreto Vaticano [...]. A carta contém a retórica habitual e corporativa entre os reinóis europeus e o papado, e o mapa é sinalizado como Insulla de Brasil ou de Brandam” (ibi, pp.1617). ‒ Sobre o ‘Caso [Acaso!...] 1342’, ficou aí averbado [a partir da correspondência do Vaticano com J.B.], que ‘[…] il documento di Suo interesse ha la seguente segnatura archivistica: Reg. Vat. 138, ff. 148r-149r / Prefettura dell’Archivio Segreto Vaticano’ (p. 17). Esta mesma fonte documental foi-nos confirmada, a nosso pedido, por e-mail de J.B. (10.1.2017), tal como foi agora registada. Entretanto, o nosso Autor deixou, aí mesmo, um completo abrégé, em torno de Sancho Brandão e da Ilha de Brasil, ou de Brandam, que é do teor seguinte: “Sancho Brandão ‒ português, capitão da Marinha Mercante, que, em 1342, enfrentando prolongada tempestade na costa africana, foi ‘arremessado’ atlântico adentro, deparando-se, subitamente, com a foz de um rio [ryo siará], e em cujas florestas descobriu grande quantidade de páo vermelho, ou brasil. Já em Lisboa, o capitão fez ver a Afonso IV a importância do acaso, que levou ao descobrimento daquilo que o rei denominou de Insula de Brasil, ou de Brandam, em carta de Fevereiro de 1343 ao papa Clemente VI ‒ carta com mapa (este, mais tarde copiado pelo rei francês Carlos V) a assinalar a localização da ‘ilha’ ‒, cuja importância é sufocada por questiúnculas, que impedem uma abertura mais abrangente da historiografia das descobertas transoceânicas em torno do ‘henriquismo’ e da data de ‘1500’ ”. Em outro e-mail (com a mesma data), J.B., a propósito da Carta do rei Afonso IV ao papa Clemente VI (cuja missiva central já foi referenciada no corpo do Texto desta recensão), teve o cuidado de registar a seguinte Observação (importante e decisiva): “Existe quem confunda a correspondência reinol-papal da doação das Ilhas Canárias com a carta de 1342 sobre a Insula de Brasil ou Brandam, mas os documentos são historicamente diferentes e a história é feita de documentos e não de suposições”. ● Sobre a Odisseia Chinesa em Aldeias-Juncos, escreveu, também, nas suas ‘Notas & Bibliografia’, com muita perspicácia e acerto, o nosso Autor (ibi, p.17): “A fantástica viagem oceânica durou 31 meses, entre Março de 1421 e Outubro de 1423. Quatro almirantes eunucos foram designados para a jornada ultramarina com 130 navios, cerca de 3 mil pessoas a bordo. A actividade mais importante foi a científica: o almirante Yang Qing ficou no Oceano Índico, para estudar e desenvolver métodos a fim de determinar a longitude (eles apenas registavam latitudes a partir da observação das estrelas)”. ● Sob o signo do C.E.H.C.: Sobre o Encontro com militantes do CEHC e a Palestra de João Barcellos de 11.1.2017 (onde estiveram alguns jesuítas e beneditinos…), subordinada ao tema: ‘Estética das Políticas Governamentais’, ‒ recebemos da Prof. Fê Marques um e-mail de 12.1.2017, onde se pode ler o seguinte resumo criticista da Palestra havida e seus efeitos:


“Dizer da elite político-eclesiástica, através do áudio-visual cinematográfico e televisivo é mostrar que a estética do Poder é a mesma de sempre, muda somente de instrumentos e de tecnologias de aplicação, tanto na operação quanto na divulgação. [Não esquecer que o ‘eterno retorno’ cíclico da Sátira criticista de F. Nietzsche e a redoma, pressuposta, da sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord permeiam e cauterizam todo o Universo mental/ideológico das Sociedades humanas, ao longo dos séculos, das grandes coisas às pequenas coisas…, se nada for feito para inverter a marcha apocalíptica da Humanidade, no horizonte futuro, organizado segundo a gramática do ‘Sapiens//Sapiens’.] “Nem sempre a ficção imita a vida real, mas, na maioria dos casos, a estética produzida visa ampliar a estrutura daquela ‘núvem’ ideológica do Poder-de-mando sob a qual vivemos. E veja-se que ‘tanto o oficial inglês [em Lawrence] quanto o padre que sai de um campo de concentração siberiano e vira papa [em Shoes] se relacionam numa moldura psicológica a dizer-nos da eternidade do Poder’. Se se fizer um paralelo entre o gesto político-militar de Thomas Edward Lawrence [o Lawrence, ele mesmo: arqueólogo, espião, escritor e militar inglês] e a operacionalidade irracional de Winston Churchill no combate ao desejo de libertação árabe com gases letais, poucos anos depois, teremos como resultado a base sociopata que sustenta o império bestialmente racial sem se precisar sequer de buscar ‘raízes’ esotéricas/exotéricas, para uma científica aferição das realidades políticas. “E então, retorno à vaca fria: que raio é isso de Nova Ordem Mundial? Para a intelectualidade compromissada com o humanismo crítico resultante da Liberdade individual/colectiva [conforme o filósofo Manuel Reis, et alii/et aliae], que gera progresso social, a ordem nova é uma sociedade sem caudilhos a tangerem o todo humano; mas, para o mando feudal das políticas elitistas a ordem só é nova na retórica políticoeleitoreira, porque ideologicamente é a mesma de sempre”.

Meditação: Para uma rota/rumo Psico-Sócio-Cultural Crítica (em atmosfera budista: a partir do individual e do colectivo, bem entrosados, mas sempre em transcendência para aperfeiçoamento!) (o 14º Dalai-Lama não desdenharia concordar com e subscrever este pequeno rol de afirmações que se segue)

A) As ideologias, qua tais, constituem ‘atmosferas’ envolventes, próprias e exclusivas da tradicional e sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. Aí, elas são chamadas a desempenhar as funções (vinculativas e sobredeterminantes…), para que foram societariamente instituídas: superiormente comandadas pelos (legítimos ou ilegítimos…) detentores dos Poderes no Establishment, elas exercem as suas funções como todos os instrumentos de medição: v.g., a balança para os pesos ou o metro para as medidas. É óbvio que tudo isto tem o seu lugar no universo do Cultural e das culturas. Em termos estruturais/estruturantes, as ideologias adoptaram, por sistema, a bitola ternária, que está sempre (e em última instância) nos espaços administrativos-


burocráticos dos Poderes estabelecidos. Como é sabido, aí, o que está estabelecido e acaba por ser repetido, por toda a gente (os ditos ‘cidadãos’ do Império societário…) é esta eterna trempe: positivo//negativo//neutro. Paradoxalmente, esta tríade só é rigorosamente válida no universo da Física e da Química inorgânica; já não o é nos mundos da Química orgânica e da Biótica. Ora, exactamente com esta Bandeira (alfarrábio ou borda d’água…), a Governança e os Poderes Estabelecidos safam-se, perante os povos (= massas/multidões), e até são capazes de atribuir prémios, galardões e comendas, aos súbditos mais destacados e prestigiados!... É desta sorte que lavam a face e preservam a honra!... B) As ideologias, qua tais, não têm lugar ou função própria e específica na futura (alternativa ao ‘mundo que existe’…) Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. Esta Alternativa diferencia-se e constitui-se por oposição à tradicional Cultura do Poder-Condomínio (que, proh dolor, ainda subsiste, ameaçando as Sociedades e a Espécie humana). Hermes Trismegisto (divindade do Egipto antigo) revelava-nos o seu axioma predilecto: ‘um divide-se em dois é sinal de vida; dois fundem-se em um é o sinal da morte’!... Assim, no horizonte da bio-psico-antropogénese e nos domínios da Biótica, num universo analisado e estudado segundo a Gramática de uma Ciência livre e honesta, não há (não pode haver, por supérfluas, inúteis e contrárias à pesquisa da verdade!...) funções próprias e exclusivas, de ordem ideológica, atribuíveis a poderes genuinamente democráticos. Visto que, aqui, são as Ciências e os saberes livres e responsáveis (como os seus Autores/Actores!) que tudo balizam e orientam, segundo a Gramática de confiança da Democracia. Eis por que, aqui, à luz da Filosofia Perene, o que há é o Bom ou o Mau, o Certo ou o Errado, o Sim ou o Não. “Que a vossa linguagem seja: ‘Sim? sim’, ‘Não? Não’: o que se diz a mais vem do Mau” (Mt.5,37). Não há, por conseguinte, lugar, aí, para o isento ou neutro… Esta é uma falácia (da nossas Cultura ocidental) que se tem de afrontar, criticar, banir!... Na Idade Média (cf. v.g., Tomás d’Aquino), era muito celebrado e invocado, no âmbito geral da Vida (encarada nos seus três ramos: vegetativa, animal e humana), o parergo axiomático, atribuído ao corpus doutrinário da Filosofia Perene: ‘Bonum ex integra causa; malum ex quocumque defectu’. C) Razão pura (Reinische Vernunft) // Razão Prática (Practische Vernunft): Adoptando a díade filosófico-crítica de Immanuel Kant, é forçoso chegar-se, hodiernamente, à conclusão (crítica/criticista) de que o Primado (sócio-operatório), entre os dois campos da Ratio, deve ser atribuído à Razão Prática. Na verdade, só por essa Via poderemos abrir caminho e aceder à Cultura (Alternativa) da Liberdade Responsável primacial e primordial. De outra maneira, (atribuindo o primado à Razão pura, especulativa, solitária, individualista/egoísta…), as Sociedades humanas continuarão incapazes, por estruturação, de romper o ôdre (ou jaula) da Cultura do Poder-Dominação d’abord; permanecerão fechadas (obstinadamente…) e não abertas, como lhes cumpre e é seu desígnio antropológico. Continuarão a agir segundo o catecismo do ‘Homo Sapiens tout court’, à semelhança dos ‘carneiros de Panúrgio’ de Molière, eternamente conduzidos-chefiados por ‘pastores de rebanhos’ (omnipotentes e omniscientes). A Libertação/Salvação (duas realidades, que são uma só…) da Humanidade e das Sociedades humanas só advirá mediante a prática desses dois ancoradouros: o Diálogo socrático (definitivamente esquecido, na base da Society!...); e a Justiça jesuânica (que, em virtude da Visão dualista do Mundo, foi relegada para as calendas gregas do Juízo Final e da ‘Outra Vida’!...). Ora, o Diálogo socrático é absolutamente necessário e imprescindível, para cumprir a missiva e os desígnios da Filosofia e das Ciências; a Justiça jesuânica é absolutamente necessária e indispensável, para


realizar a vera e autêntica PAZ e a Convivência pacífica no seio dos Povos reunidos em Nações/Estados, e nas relações exteriores entre os Estados/Nações. D) O primado da Razão Prática sobre a Razão pura é comprovado e imposto pela lei/princípio da busca necessária, por parte dos Humanos, da Identidade pessoal e da Sanidade (mental e orgânica) dos Indivíduos-Pessoas. De contrário, os humanos e suas sociedades ver-se-ão resignados e constrangidos a dois tipos de situações estruturalmente errados: a Paranóia e a Esquizofrenia; e a todo um Mundo societário, radicalmente falso e escravizante, estigmatizado pelo sempiterno Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo. Por outro lado, a Razão Prática ergue-se e constitui-se, por definição, imensamente mais próxima (ela está mediis in rebus!) de Bios e da Biótica e do Mundo real e concreto dos Humanos, em contraste com a Razão pura e a sua inexorável redoma solitária/especulativa, que a torna, ex officio, ‘cadela de guarda’ do Establishment. Ao abrigo da Cultura do Poder-Dominação d’abord, é absolutamente impossível cumprir a Ética/Moral encerrada no célebre (e proclamado tão só como cymbalum tiniens…) axioma do antigo filósofo helénico Protágoras (ca. 490-420 a.E.c.): ‘O Homem é a medida de todas as coisas’ = o Conhecimento é, necessariamente, relacionado e relativo à Experiência de cada Indivíduo; nenhum homem pode refutar outro, pois não há dois homens com experiências idênticas. Em resumo, Protágoras era um ‘agnóstico’ declarado (no sentido tradicional/estereotipado do termo), no concernente a qualquer religião institucionalizada. O horizonte crítico de Protágoras confirma e corrobora a necessidade fundadora do Diálogo socrático primacial e primordial.


Na Perspectiva da Última Festa de

Mário Soares

(Tenha-se em conta que é a mesma Letra F que inicia as duas Palavras portuguesas: Festa e Funeral.)

N.B.: Em termos fenomenológicos, poder-se-á dizer que M.S. é um exemplar proeminente do primado atribuído (filosoficamente) à Razão Prática, à rebelia da ‘Omnipotência/Omnisciência’ atribuída aos Poderes Estabelecidos, conduzidos e orientados pela sempiterna Razão Pura, inveteradamente estigmatizada pelo Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo. O que lhe terá faltado foi mais iluminação criticista, para poder assegurar o alargamento do seu projectado Espaço revolucionário. Antes de morrer, Göthe teria exclamado: ‘Licht, mehr Licht’!... Entretanto, a Khrematística (denunciada por Aristóteles, e hoje reconfigurada sob o guarda-roupa do neoliberalismo capitalista global) não conseguira domesticá-lo, em virtude de ter preservado as bases (tradicionais) do Ideário humanístico.

● Ditos, que viraram slogans ou axiomas: ‒ ‘Só é vencido quem desiste de lutar’! Trata-se de uma tirada feliz e sensata, procedente dos tempos ominosos e cruéis do Fascismo e da Luta anti-fascista. ‒ ‘Sou um homem de esquerda. Sou socialista. Mas, antes de ser socialista, sou democrata. E, antes ainda, sou português’. (in ‘Soares’, da Jornalista Maria João Avillez, 1997). É um Bilhete de Identidade sócio-política, colhido e configurado num ambiente cultural de teor empíreo-criticista (como se diria nos tempos de Lenine (Wladimir Illich Ulianov)). ‒ ‘Não acredito em recompensas eternas, manter até ao fim um comportamento ético é de uma grande coragem’ (in ‘Expresso’, 9 de Junho de 2007).


‒ ‘Acredito na espécie humana e no progresso. Todos somos dotados da capacidade de distinguir o bem do mal, todos temos uma certa consciência crítica’ (in ‘Expresso’, 9 de Junho de 2007). ‒ Sobre o modo de estar no Mundo e na Sociedade: ‘Tornei-me político pela força das circunstâncias. Nunca encarei a política como carreira nem como profissão e nunca ganhei dinheiro com a política, sempre perdi’ (in ‘Expresso’, 9 de Junho de 2007). ‒ ‘Muito mais do que homens, Soares combateu ideias e princípios, e soube ver a floresta em vez da árvore’ (Manuel Goucha Soares, in ‘Expresso/Revista’, 14.1.2017, p.69). ‒ A cédula de Identidade sócio-política de M.S. (repetida, muitas vezes, em entrevistas): ‘Agnóstico, Republicano e Laico’ (por esta ordem); ‘Português, Democrata e Socialista’ (por esta ordem). ‒ Antes ainda do 25 de Abril de 1974, (no período do exílio em França), M.S. publicou, na prestigiada Editora Calmann-Levy, a 1ª edição do seu ‘Portugal Amordaçado. Depoimento sobre os anos do fascismo’ (Arcádia/Lisboa, 1974), com o título ‘Le Portugal Baillonné’. O Autor terá preferido ‘Depoimento Inacabado’, ou até ‘Testemunho Incompleto’. (Cf. ‘Exp.-Rev., 14.1.2017, p.34). Sobre esta Obra central da sua vida, editada pela Arcádia em 1974 (com 728 pp.), ele próprio teria dito, muito mais tarde: ‘Quero um dia reeditá-la, tal qual, mas fazendo notas de pé-de-página’. (Cf. José Pedro Castanheira, ibidem). Este foi um projecto que M.S. nunca chegou a concretizar. Em ‘Le Portugal Baillonné’, ele escreveu já frases lapidares como esta: ‘Critico [sobre o comunismo] o sacrifício do valor, para mim essencial, da Liberdade; e a concepção totalitária do Estado, que abomino’ (cf. J.P.C., ibidem). O projecto que M.S. já então tinha em mente era o do ‘socialismo em liberdade’ ou o projecto abalroado da ‘Primavera de Praga’ (1968): ‘socialismo de rosto humano’. No concernente às sociais-democracias, ele já dizia aí: ‘Critico a inconsequência e a falta de rigor doutrinário, que as levaram a ser, quase sempre, gerentes leais do capitalismo…’. (Cf. idem, ibidem). “Ainda no Aljube, casou-se, em 1949, com Maria de Jesus Barroso, que conhecera na Faculdade de Letras. O casamento foi por procuração. Para padrinho escolheu o amigo Manuel Mendes, que também estava preso”. (J.P.C., ibi, p.30). “Estava em São Tomé no barbeiro, quando ouviu na Emissora Nacional a notícia da cirurgia a Salazar. Intuindo que era o fim do regime, saiu a correr para a rua, aos gritos ‘é o fim do salazarismo!’ ” (Idem, ibi, p.34). ‒ É indiscutível que, em contraste com a época anterior do ‘Fascismo salazarento’ (sombria, obscurantista e tenebrosa), que vai desde o Golpe de Estado de 1926 até ao 25 de Abril de 1974 (os 4 anos de ‘marcelismo’ não alteraram grande coisa…), o M.F.A. (Movimento das Forças Armadas), que teve a coragem, com a sua ‘Revolução dos Cravos’, de pôr termo a essa longa Noite de Obscurantismo e Repressão, instaurou, no Portugal de Abril, uma Nova Época de Liberdade, Prosperidade, Democracia e Paz societária. Uma nova Constituição Política (a partir de Abril de 1976), que, ao tempo, foi pioneira em todos os Estados-Nações da Europa (designadamente, Sistema Educativo e Sistema de Saúde, tendencialmente gratuitos), constituiu sem dúvida, a grande conquista e vitória. E, nesta nova Avalancha sóciohistórica, Mário Soares foi, inquestionavelmente, a Grande Figura de proa (o timoneiro inquestionável do Navio… mas, por isso mesmo, com redobradas responsabilidades nos destinos colectivos). Num painel sensato, o jornalista do ‘Expresso’, Pedro Santos Guerreiro pintanos o quadro sócio-histórico como segue (ibi, p.3): “É por tudo isto que expressamos gratidão e queremos que essa gratidão seja um endosso para manter o legado. Agostinho da Silva, que foi seu mestre e o chamava Danton, o herói da Revolução


Francesa, dizia que ‘nenhum político deve esperar que lhe agradeçam ou sequer lhe reconheçam o que faz; no fim de contas era ele quem devia agradecer pela ocasião que lhe ofereceram os outros homens de pôr em jogo as suas qualidades e de eliminar, se puder, os seus defeitos’. Soares tinha mil defeitos, eram parte dele, ‘nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro’, escreveu Clarice Lispector: ele foi sempre tudo porque foi sempre todo, um espírito livre, um sem-medo que ia, um sem-merdas que agia, um homem tão seguro do curso das ideias que não desistia de nenhuma e todas eram por Portugal. “Soares venceu na sua luta, mesmo se não venceu todas as lutas. Venceu porque não teve medo de perder ‒ porque não teve medo. O medo é a vitória da pior ditadura. O medo é a escravidão dos homens livres. O medo despedaça-nos na indiferença, na neutralidade, no cálculo, nessa covardia de esperar que venha um salvador salvar-nos do que não afrontamos [a virtude/defeito mortífero dos cristãos paulinos…]. Soares não esperou um salvador nem quis sê-lo ele, mostrou a potência da coragem e do pensamento livre. Foi um intrépido sem loucura, na lucidez de, sabendo o que é certo e errado, lutar pelo certo. Daí a ausência de tragédia, a sua capacidade de detonação, a força do seu clamor”. “Não quis uma vida sábia, mas uma vida com sabor. Foi um pensador que agiu, um prático sem o cinismo de um pragmático, um sonhador que realizou, que não escreveu direito por linhas tortas, escreveu a torto e a direito a história da democracia” (idem, ibidem). ‒ ‘Cada um é pró que nasce!...’ ‒ diz a Lusa Gente, com uma espécie de pulsão instintual de alma universal, alimentada pela sua ‘História de Descobridores de oceanos e terras’!... Norte-americanos houve que estavam à espera, durante o PREC (19741976) que a Revolução dos capitães de Abril transformasse Portugal numa sorte de Cuba, no Ocidente europeu. Isso não ocorreu, nem, afinal, seria bom e positivo que viesse a ocorrer. Quando os caminhos andados (dos socialismos e dos comunismos…) estão errados, é sempre melhor, historicamente, que as tragédias não se repitam!... Militantes e líderes de Partidos, antes do 25 de Nov. de 1975, estiveram bem alerta, perante o celebérrimo DEBATE de 6 de Novembro de 1975, na R.T.P., entre Mário Soares (Sec.-Geral do P.S.) e Álvaro Cunhal (Sec.-Geral do P.C.P.): ansiosos por verificar qual dos dois venceria!... Uma vez terminado o Debate, que te disse o senso comum criticista?!... Se o chefe do P.C.P não venceu, também o chefe do P.S. não triunfou. Porque, afinal, um e outro tinham já, sócio-historicamente falando (e do ponto de vista da objectividade histórica), razões e argumentos de sobra, para se entenderem, juntarem esforços procedentes dos dois Partidos e rasgarem um Caminho Novo, ‒ o que não veio, decididamente, a acontecer. Em tal contexto, um P.C.P. ‘derrotado’ obrigou o P.S. de M.S. a todas as derivas à Direita e à Esquerda… O que triunfou definitivamente foram as ideologias político-partidárias, sobejamente conhecidas e estereotipadas e caducas. O Processo histórico (na sua globalidade e à escala planetária…) ficou, mais uma vez entupido e ensimesmado, diante do ‘Muro das Lamentações’ da História. (Como na Revolução Francesa de 1789 e na chamada ‘Revolução europeia dos Povos’, em 1848, nos tempos de K. Marx e F. Engels, para a qual eles redigiram o ‘Manifesto Comunista’). Esta tremenda ‘Querelle des Modernes’ (que levou muitos ‘intelectuais revolucionários’ a fazer o seu harakiri e a converterem-se em chiens de garde do Establishment) tinha os seus fundamentos reais, para quem os quisesse ver e ler objectivamente, ao longo das revoluções sociais dos últimos 250 anos, na História do Ocidente. O Projecto do Socialismo falhou redondamente (tanto o ‘utópico’, como o dito ‘científico’). E o seu Falhanço redondo resultou, fenomenologicamente, das suas construções elaboradas na base dos Planos objectivo-objectuais (consoante o


catecismo dessa religião laica que é o Objectivo-Objectualismo cientista…); e, em termos estruturais/estruturantes, também historicamente, visto que, no Ocidente, não se conhece oficialmente, até ao presente, outra Cultura senão a sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. Academicamente, esta Conclusão final (que esteve latente àquele Debate!...) não era conhecida dos dois intervenientes (tanto quanto nos foi dado saber). O primeiro (de nosso conhecimento) que trouxe a público (de modo argumentado e científico) o fracasso dos Projectos (ditos) Socialistas foi o Prof. John Kenneth Galbraith (assessor de John Kennedy para a Economia política), no seu Livro, ‘O Nôvo Estado Industrial’ (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969/2ª ed.). No quadro dos saberes e análises revelados neste Livro, a Conclusão objectiva, óbvia e indiscutível, só pode ser esta: o vero e autêntico Socialismo só pode ser edificado a partir dos Sujeitos humanos, livres e responsáveis; não através de planos, comandados pela religião do Objectivo-Objectualismo. J.K.G. editou, posteriormente, um outro Livro admirável sobre os vícios e as virtudes dos que exercem os Poderes. Chamou-se ‘Anatomia do Poder’ (Diffel, Lisboa, 1983/4). Por tudo isso, o tão proclamado ‘Homem Novo’ não nasceu, nem se viu alguma vez emergir das revoluções socialistas, registadas pela História!... ● Respigando a via criticista aberta pelo C.E.H.C.: no horizonte do Pensamento Radical, uma vez que ‘Nada de humano nos pode ser alheio’ (Terêncio Varrão): Diferenciação/Ruptura em busca de Caminho Novo. N.B.: Vamos, aqui, assinalar, tão só, o que podem chamar-se os marcos miliários da Obra do Autor, polarizada, no futuro, na fundação expressa do C.E.H.C. (Centro de Estudos do Humanismo Crítico), em 1995 (em coordenação com o escritor e historiador João Barcellos, em Cotia/São Paulo/Br., e respectivas equipas de militância cultural, a difundirem actividades e temas de discussão, mediante a Rev. electrónica Noética (noetica.com.br). Em termos filosófico-doutrinais criticistas, estamos a abrir caminhos para uma Outra Galáxia cultural.

‒ Encarnação Reis: ‘Igreja sem Cristianismo ou Cristianismo sem Igreja?’. Moraes editores, colecção Linha de Risco, Lisboa, 1969. Este Livro conduziu ao afastamento de toda a acção docente, exercida pelo Autor, tanto no Liceu D. João III, em Coimbra, como no Seminário Maior de Coimbra. Constituiu o momento da rotura formal/definitiva do Autor face ao grémio eclesiástico da diocese de Coimbra. A pessoa do Autor nem sequer recebeu um rescripto, um simples paper/documento, sobre as razões do seu despedimento, por parte do Arcebispo da diocese (surdo-mudo… e não obstante, fora o próprio Arcebispo, perante o diferendo em torno das credenciais da ordenação socerdotal, que havia induzido o candidato a ordenar-se, ‘que a Igreja precisava dele’)!... ● ‘Igualdade Radical para a Mulher’ Ed. Livraria Almedina, Coimbra, 1970. Trata-se de um Livro, que foi o resultado dos trabalhos de investigação e estudo de 25 Estudantes universitários, cristãos/críticos assumidos, que integravam o Grupo académico ‘Quem somos e o que queremos?’. Fizeram-se mil exemplares dessa 1ª edição. 900 exemplares, ao 3ª dia de vida na montra da Liv. Almedina, foram confiscados pela PIDE/DGS. E o Coordenador do Grupo, Prof. Manuel Reis, foi objecto/vítima de um processo disciplinar, por parte do Reitor da Univ., Prof. Cutelo Neiva e respectivo Senado da Univ., que o levou à expulsão das suas funções de Director Artístico do C.E.L.U.C. (Coral dos Estudantes de Letras da Univ. de Coimbra). ‒ Manuel Reis: ‘Camelo ou Animal Político?!...(Contribuição para a História do Florescimento e Emurchecimento do 25 de Abril)’. Edicon/Terra Nova (Grupo de Debates Noética e Centro de Estudos do Humanismo Crítico), Portugal & América


Latina, São Paulo, 2014. Esta obra teve uma ‘Via Sacra’ curiosa: esteve à beira de ser editada pela Ulmeiro de José A. Ribeiro, em 1976; depois, em 1983, pelas Edições Afrodite de Francisco Ribeiro de Melo; depois, ainda, em 1999, pela Assírio & Alvim, pela mão de Manuel Hermínio Monteiro. Nenhuma destas edições em Terras lusas resultou. Só a iniciativa, no Brasil, do nosso muito querido Amigo e Companheiro de Lutas Muitas, João Barcellos, conseguiu, em boa hora, trazê-la a público. E o subtítulo do Livro, entre parênteses, que é da sua autoria, diz tudo o que a Obra foi e é bem como das suas razões de existir. ‒ Manuel Reis: ‘FLASHES Sobre a Esquerda neste Final de Século (Milénio)/CRISES do PCP e da Modernidade Incluídas)’. Estante Editora, Aveiro, 1989. Esta Obra faz o balanço criticista (em pauta Psico-Sócio-Antropológica) do que foram os projectos/movimentos socialistas/comunistas institucionalizados, ao longo do séc. XX, nas oitavas da Queda do Muro de Berlim, em 1989, e do Colapso da U.R.S.S., em 1991. ‒ Manuel Reis: ‘SÓCRATES E JESUS (esses desconhecidos!...)/As Duas Revoluções Gémeas)’. Edicon, São Paulo, 2001. ‒ Manuel Reis: ‘TRAIÇÃO DE SÃO PAULO’. Editora Ideal e Centro de Estudos do Humanismo Crítico, Guimarães, 2007. A edição brasileira desta Obra saiu a público no mesmo ano, mas com o título: ‘Despaulinizar o Novo Testamento sob o Signo do Jesuanismo’. ‒ Manuel Reis: ‘NATAL JESUÂNICO (Sob o Signo do Natal Jesuânico: em Defesa do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ )‘. Ed. Liv. Ideal e C.E.H.C., Guimarães, 2008. A edição brasileira, da Edicon, é da mesma data e tem por título: ‘Sob o Signo do Natal Jesuânico que, paulatinamente, vem sucedendo ao Natal cristão ou Panorama Crítico da Actualidade em defesa do ‘Homo Sapiens//Sapiens’ ‘ ‒ Manuel Reis: ‘Em Busca de Outra Civilização’. C.E.H.C. (Portugal & América Latina): 1ª ed., São Paulo (Edicon); 2ª ed., Guimarães (Tertúlias de Guimarães, 2013). ‒ Manuel Reis: ‘CULTURA OCIDENTAL & HUMANISMO CRÍTICO’ (Livros 1 e 2). Edicon, 2015. (Terra Nova, C.E.H.C.: Portugal & América Latina, Grupo de Debates Noética). ‒ Manuel Reis: ‘NOVA HUMANIDADE/NOVA SOCIEDADE (Segundo o ‘homo sapiens//sapiens’)’. Edicon, São Paulo, 2016. N.B.: Esta foi uma Lista das obras do C.E.H.C., presumivelmente mais importantes e decisivas, no horizonte da necessidade vital urgente de abrir novos Caminhos, em termos criticistas, a partir das pepitas d’ouro que ainda residem na Cultura do Ocidente que, proh dolor!, continua, ainda, a ser estigmatizada e vilipendiada pela sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord (ou Cultura do Poder-Condomínio, como preferem dizer os nossos amigos/irmãos do Brasil).

Só mais uma without question e uma question tag, para concluir: É óbvio que temos de voltar à estafada ‘vaca fria’ da Profª Fê Marques (no seu e-mail de 12.1.2017, em torno da mais recente palestra do João sobre ‘a Estética das Políticas Governamentais’. Indignado, ele questiona e responde com acerto: “Que raio é isso de Nova Ordem Mundial? Para a intelectualidade compromissada com o humanismo crítico resultante da liberdade individual/colectiva [conforme o filósofo Manuel Reis, et alii/et aliae], que gera progresso social, a Ordem Nova é uma sociedade sem caudilhos a tangerem o todo humano; mas, para o mando feudal das políticas elitistas [e sempre excludentes], a ordem só é nova na retórica político-eleitoreira, porque ideologicamente é a mesma de sempre”. É, efectivamente, a mesma de sempre: a) porque se encontra ancorada na sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord; b) porque atribui o primado aos Poderes, e não aos Saberes (filosóficos e científicos); c) porque divide e separa os dois


campos: o da Teoria (dos mandantes e dirigentes) e o das práticas (dos submetidos e executantes); d) porque atribui o primado (inamovível) à Razão pura kantiana, e não à Practische Vernunft. Ora, esse é o Mundo (dito humano?!...) das hierarquias monoárquicas e das submissões/subordinações; não o Mundo Humano da Igualdade/Liberdade Responsável dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos. Onde está a bandeira, realmente praticada e cumprida, da Liberté//Égalité//Fraternité (oriunda da Rev. Francesa de 1789?!... Ou foi o lábaro, posteriormente, adulterado pela substituição de ‘Fraternité’ por ‘Prospérité’?!... A question tag articula-se com a necessidade de completar (indo até às raízes…) o parergo soarista: ‘agnóstico, republicano e laico’, muitas vezes anunciado por Mário Soares, como seu B.I. cultural, e agora retomado por Mário de Oliveira, no seu Texto 3, JF, Edição 124 (Jan. 2017), em torno de ‘A última Lição de Mário Soares: E o Cardeal não pôde presidir ao Funeral’ (e-mail de 13.1.2017). “Foi como quem lhes arrancou os dentes sem anestesia, aos bispos portugueses e aos cardeais do Estado do Vaticano. Mas a verdade é que nem o núncio apostólico em Lisboa, nem o cardeal patriarca D. Manuel III, nem nenhum dos outros bispos do país puderam presidir ao funeral do cadáver de Mário Soares. Neste particular, o antigo Presidente da República de Portugal fez jus ao que sempre disse ser ‒ agnóstico, republicano e laico” (idem, ibi, p.1). Vale a pena continuar a transcrever os dois parágrafos seguintes e o apêndice do 3º parágrafo. “No actual contexto nacional, com uma Concordata em vigor desde 1940, assinada entre os Estados do Vaticano e de Portugal, o facto ganha contornos de uma das maiores lições de Mário Soares. Fica claro, duma vez por todas ‒ e é curioso que seja um republicano laico, na peugada de Jesus Nazaré, a gritá-lo ao Ocidente ‒ que o único denominador comum a todos os povos das nações é o HUMANO. Não o religioso, menos ainda o cristão. Só o Humano é verdadeiramente católico. O religioso e o cristão são factores de divisão entre os povos; como tais, não têm a marca de Deus ABBAMãe, o da Fé política de Jesus Nazaré. Só o Humano é transversal a todos os povos. Fora do Humano, só há seitas, partes de um todo, causa de divisão, por isso, pecado organizado e institucionalizado”. “ ‘Que todos sejam um’, quer intensamente Jesus Segundo João. [Além de João, Filipe e Jesus são os 3 Autores do 4º evangelho dito canónico!...]. Não se refere, obviamente, à unidade das igrejas que, então, nem sequer existiam, muito menos à unidade das religiões, toda a alienação dos povos que as integram e cultuam, Referese exclusivamente à Humanidade, aos povos das nações. Que ele quer ver unidos e religados uns aos outros, uns com os outros, e não religados a um mítico deus projectado e criado pelos seus ancestrais medos, e, sobretudo, pelas ambições dos respectivos sacerdotes e pastores mercenários. Que todos sejam um só povo de múltiplos povos, de múltiplos falares, de múltiplas cores e de múltiplas tendências, um verdadeiro arco-íris vivo e orgânico à escala planetária. A beleza das belezas”.

“Sempre que a verdade praticada é proclamada sobre os telhados, ela, que faz do mito, da ideologia, da encenação e do ritual a sua verdade, remete-se sempre ao silêncio”. (Idem, ibidem: p.1). ‒ “Saibam que o terceiro milénio é plena e integralmente Humano, ou não será. Saibam também que o religioso não faz parte da matriz original dos seres humanos. Tal


como o medo que está na génese do religioso. Tal como o poder. Nascemos simplesmente humanos, não religiosos. Morremos simplesmente humanos, não religiosos. O religioso vem depois, como o Tentador, à medida que crescemos em anos na história. E que, lá onde entra e se instala, sempre divide para reinar”. (Idem, p.2). As religiões institucionalizadas (patriarcais/machistas) tiveram o seu início, no Egipto e na Mesopotâmia, ca. de 3.500 a.E.c., com a instituição dos deuses uranianos e o começo do processo civilizatório, estigmatizado pelo Primado absoluto do Homem sobre a Mulher, do Macho sobre a Fêmea. No anterior Período da GILANIA (Riane Eisler), que vai de 7.500 a.E.c. a 3.500 a.E.c., vigoravam os princípios da Igualdade entre os dois sexos humanos. ‘Aliquando dormitat Homerus’ ‒ terá dito do épico helénico o poeta épico romano Virgílio. Quando o Companheiro Mário de Oliveira repete e glosa o dito de M.S.: ‘Agnóstico, Republicano e Laico’, ‒ ter-se-á, ele, apercebido da vera e criticista semântica do 1º dos 3 vocábulos?!... Nem sequer pomos a questão de o próprio M.S. ter empregado o termo nesta acepção. Outro galo cantaria em toda a sua construção ideológico-cultural, embasada na sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. Agnóstico é um termo que, na Cultura do Ocidente, foi forjado pela Teologia e pela doutrina cristã/católica predominante. Ao alfa privativo (do grego), o que foi acrescentado foi o termo helénico referenciado à gnosis. Ora a mundividência da Gnósis (= Conhecimento) era precisamente a moldura das Escrituras apócrifas ou gnósticas das origens do Cristianismo. Essas Escrituras foram, definitivamente, condenadas como heréticas no 1º Concílio Ecuménico (Niceia/325). Este Procedimento foi o salva-conduto da Afirmação do Cristianismo paulino como religião revelada. Muito gostaríamos que os dois Mários reivindicassem o título de veros e autênticos Gnósticos (que nada têm a ver: nem com o significado tradicional do vocábulo Agnóstico, nem com a semântica tradicional do termo Gnóstico). Ocorre uma Questão controversa, análoga a essa, na expressão corrente ‘Ditadura do Proletariado’. K. Marx e o Marxismo clássico não encontraram problemas no seu uso e abuso!... Como se a semântica da própria Língua/Linguagem não fosse importante e decisiva para a definição dos conceitos e o balizamento das noções filosóficas… Ora, ao abrigo da Ética/Moral, recomendada pela Filosofia Perene (criticista), própria do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, continua a ser válido e legítimo o Axioma: ‘Non facienda mala, ut eveniant bona’; ou a mesma Lectio em outro aforisma: ‘os fins não justificam os meios’ (= a moralidade dos meios não pode ser curto-circuitada pelos fins previstos).

Post scriptum A propósito do ‘Forum Económico Mundial’ de Davos (na Suíça): revelação jornalística em 16.1.2017. Nas Sociedades nacionais, em todo o Planeta, 8 indivíduos (os mais ricos) são detentores de metade ou mais de metade da riqueza da Humanidade inteira. Metade da população mundial ronda os 4 mil milhões. Até quando a Humanidade poderá tolerar, suportar esta Injustiça, esta Indecência cruel, na (des)organização e no (dis)funcionamento da Economia política’?!... O Sistema capitalista, na sua actual fase derradeira (o neoliberalismo capitalista global), produziu dois Efeitos/Consequências catastróficos e apocalípticos: as Alterações Climáticas com a absoluta inabitabilidade do Planeta Terra; e as Sociedades


violentas e desigualitárias, exploradoras e opressoras: os meios de produção e de troca são detidos por 1% da população mundial; os restantes 99%, ou sobrevivem forçados à submissão e à dependência dos chefes e dos patrões, ou sobrevivem na penúria, na pobreza e na miséria, ou tornam-se criminosos para poderem sobreviver… As crenças (religiosas) alimentam a sobrevivência de mais de ¾ das populações da Terra!... Uma vez acalmadas as pulsões, garantidas pelo primado (civilizatório) da Guerra sobre a Paz, da força e da violência sobre a vida pacífica e harmoniosa, será, agora, que se vai pôr termo à Pré-História e encetar uma vera e autêntica História Humana?!...

Guimarães, 18 de Janeiro de 2017. Manuel Reis (Presidente do C.E.H.C.)


ANEXOS


Atos Náuticos Portugueses Nova Historiografia

Com base nos estudos e obras dos Professores Luís de Albuquerque Alfredo Pinheiro Marques Manuel Reis Jaime Cortesão

Estudos e Apresentação

João Barcellos

Introdução 1 Sejam quais forem as circunstâncias, o Passado das Pessoas e das Comunidades tem um Traço Historiográfico cuja envergadura sociocultural, política, militar religiosa e econômica, tem base em registros, orais e escritos. No caso da Oralidade, temos os Atos Primitivos das pessoas que conquistaram os alvores civilizatórios e tentaram perpetuar a sua condição gregária; no caso da Escrita, temos já o conceito de Continuidade de um Saber que deve ser Estudado e Renovado, porque a Pessoa Humana já se percebe como Mundo próprio. Sejam quais forem os Registros Históricos, são Documentos comprovatórios que datam uma Pessoa, uma Família, uma Comunidade, uma Nação. Isto é Historiografia. 2 Uma das mais brilhantes páginas da História da Humanidade foi desenvolvida pelo Povo Português, entre os Séculos XV e XVI, quando, a partir das regiões piscatórias de Buarcos e Aveiro, no Ducado de Coimbra, o infante e regente Dom Pedro, mais tarde mundialmente conhecido como “o Infante das 7 Partidas”, deu possibilidade para execução das primeiras viagens exploratórias, após ter conhecido a Europa e ter encomendado a Fra Mauro, em Veneza, um Mapa – que viria a ficar conhecido como Mapa de Fra Mauro – , sobre o qual o neto desse infante, o rei Dom João II, veio a perspectivar o Plano da Índia em meio ao Tratado de Tordesilhas, em 1494. Assim foi que os Descobrimentos Portugueses, com grande participação de pescadores e pilotos da Galiza, tiveram a sua origem... a partir de Buarcos e Aveiro e com decisões do infante, regente e duque Dom Pedro tomadas em Montemor-o-Velho. 3 Foram vários os historiadores que conseguiram determinar e estabelecer uma Cronologia Histórica dos Descobrimentos Portugueses, mas os estudos do Prof. Luís de Albuquerque, da Universidade de Coimbra, e do seu discípulo e continuador, Prof. Alfredo Pinheiro Marques, também cartógrafo, trouxeram para a luz eventos pessoais e regenciais da chamada Era pedro-joanina [entre o infante-regente Dom Pedro e o seu neto e rei Dom João II], que não foi – nem é...! – mais possível falar dos Descobrimentos Portugueses sem olhar com perplexidade para a figura do Infante Dom Henrique que, até à publicação dos estudos de


Albuquerque e Marques, era tido como o obreiro da odisseia marítima com território-sede numa falsa escola náutica em Sagres... Também, pela observação de crítica construtiva do escritor e filósofo Manuel Reis, têm as pessoas de fala portuguesa a possibilidade de discutirem com maior abrangência a Nova Historiografia dos Descobrimentos Portugueses.

Breve Tábua Cronológica Da História Dos Atos Náuticos Portugueses Sécs XIV, XV e XVI

de onda em onda sobre tábuas e uma vela a gente lusa vai ao mundo e por ele maruja de afonso o quarto a joão o segundo com um das sete partidas no meio portugal s´alarga de cais em cais e no jeito d´estar assim se diz altar e mundo ai como esta gente lusa é carangueja e ousa e vai serr´acima na busca de terra nova e outros amores quiçã nova onda

MACEDO, J. C. – in ´Mundividência”, poema 43. Portugal, 1971.

Século XIV Muitas pessoas ficam incrédulas quando se fala do Séc. XIV no que diz respeito às Navegações Portuguesas. E, no entanto, é nesse século que tudo começa, embora se possa ir mais longe através dos documentos régios que, do Séc. XII ao Séc. XIII, demonstram uma emigração biscaína e galega, de pescadores, ao longo da costa portuguesa até aos Algarves, e a conseqüente fixação de uma Cultura Nórdica através deles.

1308 O rei Diniz cria a Marinha Mercante portuguesa enquanto manda cultivar um pinhal, em Leiria, para a construção de embarcações. 1312 Já com a presença do príncipe Afonso, o rei Diniz contrata o veneziano Emanuele Passagno para o posto de almirante da Marinha Mercante. O mesmo continua sob o reinado de Afonso IV e a primeira grande aventura é a descoberta do arquipélago do povo guanche, ou Ilhas Canárias. 1342


É o ano em que a Coroa concede foral à Vila de Buarcos, no centro de Portugal e Ducado de Coimbra. Os pescadores de Buarcos ganham de Afonso IV privilégios, como incentivos fiscais, enquanto a região recebe e fixa pescadores da Biscaia e da Galiza [v. Jaime Cortesão e A. P. Marques]. É com a Marinha Mercante que Portugal se faz ao mar, primeiro, entre pequenas e médias navegações de cabotagem [de cais em cais, de cabo em cabo] em sua própria linha litorânea, e depois, a adentrar o mar oceânico. Em meados deste ano, o capitão Sancho Brandão, da Marinha Mercante, é atingido por forte e longa tempestade na costa africana e arremessado para a costa de uma terra desconhecida e oposta à africana, e onde ele recolhe nativos nús e muitas toras de páo vermelho, ou brasil. 1342 É o ano em que, a 22 de fevereiro, o rei Afonso IV noticia o papa Clemente VI do achado de uma Insula de Brasil, ou Brandão, anexando mapa da região. A partir deste momento Lisboa torna-se um centro de espionagem e de grande atividade naval em razão do corte e exploração do páo vermelho, ou brasil, via Liga Hanseática. Obs.: A escrita diplomática reinol-papal é idêntica em muitas sinalizações geossociais, mas quanto a Ilhas Canárias e a Insula de Brasil, ou Brandão, a sinalização é tão desigual que querer misturar os assuntos é um exercício falho. Nem existe páo vermelho, ou brasil, nas regiões europeias. Outra questão: A designação Ilhas Canárias é muito anterior à designação dada por Afonso IV ao que viria a ser o continental Brasil, nem o rei luso teria como inventar diplomaticamente uma ´insula de páo vermelho´... Existem nomes e designações!

1351 O rei Afonso IV permite que os pescadores da Pederneira [hoje, Nazaré] façam a sua faina também no Algarve. São marujos de mar alto que ampliam a sua atividade e ajudam a desenvolver mais as pescas e a Marinha portuguesa. 1383 Ano de boas recordações para as pescas e para a Marinha portuguesa: passa por Buarcos uma embarcação chamada Carabela, cuja construção obedece a traços tecnológicos nórdicos.

Século XV

1408 - 1412 O rei João I, da Casa de Aviz, dá ao filho Dom Pedro o senhorio de várias vilas, entre elas Buarcos. Com o filho, o rei incentiva o desenvolvimento mercantil e marítimo da vila, com isso, inicia-se um crescimento demográfico. 1415 João I e os filhos Duarte, Pedro e Henrique, conquistam a praça de Ceuta, no norte africano. Pedro é nomeado Duque de Coimbra e Henrique fica com o Ducado de Viseu. 1419 Descobrimento das ilhas de Porto Santo e de Madeira. 1420 Henrique é nomeado administrador da Ordem ´templária´ de Cristo, de perfil mercantil e radicalmente feudal. 1425 - 1428


Pedro viaja pela Europa, contata as Cortes, mercadores, viajantes, religiosos, artistas, cartógrafos, luta ao lado dos ingleses. Essas viagens tornaram-se, no Séc. XVI, a fonte de inspiração para uma literatura de cordel que o celebrou como O Infante Das 4 Partidas, primeiro, e Das 7 Partidas, em volumes posteriores, editados por Gomes de Santo Estevão. Esta é a época em que, longe, faz uma profunda reflexão sobres as distorções políticas e sociais que predominam em Portugal; e, em 1426, escreve na Flandres a Carta de Brugge ao irmão e rei Duarte, que recebe bem os aconselhamentos contra as aventuras coloniais em África e os desmandos feudais da Casa de Bragança e da Ordem de Cristo. Na sua passagem por Veneza, onde é Senhor da Marca de Treviso, conhece o monge e cartógrafo Fra Mauro, a quem encomenda um mapa, que virá a ficar famoso como Mapa Dourado de Fra Mauro, pelo qual o rei João II gizou o não menos famoso Plano da Índia. 1427 Descobrimento dos Açores. 1431 Pedro escreve O Livro da Virtuosa Benfeitoria, que lhe é base política, social, econômica, militar, religiosa e cultural. No livro, permite-se especulações filosóficas que engrandecem a Língua Portuguesa e nele trata-se, pela primeira vez, de Poesia [Marques, 1994]. 1433 Henrique recebe, enquanto grão-mestre da Ordem ´templária´ de Cristo, o monopólio da pesca do atum, no Algarve; recebe a doação das ilhas da Madeira; recebe o monopólio do fabrico do sabão em todo o país; é autorizado a enviar gentes para os Açores. Henrique, que não viaja nem se cuida social e culturalmente, atua como grande senhor feudal muito ligado a empreendimentos coloniais de primado cavaleiresco, e raramente voltado para empreendimentos marítimos, embora acompanhe a decisão de explorações tomada pelo irmão Pedro. 1434 O rei Duarte, aconselhado por Pedro, faz prosseguir os trabalhos de contato mercantil e náutico, e nesse âmbito, concede privilégios aos pescadores venezianos fixados nos cabos de S. Vicente e de Sagres, embora as atividades de pesca e guarda de embarcações aconteçam só no cabo vicentino. 1436 O cartógrafo Andréa Bianco desenha o Atlântico em mapa circular, o que permite divagações náuticas por ter colocado algumas hipóteses no traçado. Os infantes Pedro e João dizem-se contrários às políticas feudais e coloniais de expedições cavaleirescas nos desertos do norte africano. Henrique e Fernando, como feudais que são..., mostram-se radicalmente favoráveis à conquista da praça de Tanger. Talvez para não magoar o lado feudal-cavaleiresco da família, o mais forte, Duarte aceita a jornada militar. 1437 A tentativa de tomada da praça de Tanger fracassa e a humilhação é maior quando o comandante, Henrique, decide não se entregar e deixa o irmão Fernando sob custódia dos mouros. Uma página negra no histórico da Cavalaria Portuguesa, cujos comandantes sempre honraram o seu posto fidalgo. Mas, Henrique não é um fidalgo, é um feudal que desconhece a ética dos cavaleiros... Fernando, que havia acreditado na boa fé do irmão, já definha nos calabouços e percebe (e o diz em missivas ao rei e irmão) que foi iludido por um irmão sem escrúpulos... 1439 Henrique é contrário à entrega da Regência ao irmão Pedro. O rei Duarte morrera em 38 e o príncipe Afonso é uma criança... Na verdade, a Ordem ´templária´ de Cristo percebe que o Infante Pedro, além de culto, tem o perfil republicano do político capaz de abrir Portugal


ao Mundo e prejudicar as casas feudais, que não querem [um]a Nação estruturada, social e economicamente. Entretanto, as Cortes entregam a Regência a Pedro. E pouco tempo depois, o infante-regente Pedro confirma os monopólios e os quintos que a Ordem de Cristo ´henriquina´ recebe, como que a dizer “sei muito bem o que vocês querem”! É um ato mais diplomático do que familiar. 1440 Pedro enfrenta forte oposição feudal de Afonso - o Duque de Barcelos, homem forte da Casa de Bragança, que conta com o apoio da Ordem de Cristo – i.e., de Henrique e das esferas mais conservadoras da Igreja Católica, que acarinha principescamente. Para isso servem os monopólios e os quintos. 1441 Pedro nomeia Estevão Anes piloto da barra da Figueira da Foz. Continua assim a dar recursos humanos e técnicos para o desenvolvimento das explorações marítimas que têm base no Ducado de Coimbra. A Carabela começa a ser mais utilizada e com ela Nuno Tristão passa o Cabo Branco na costa da Mauritânia. 1443 Desgostoso, desesperado e enfermo, morre no cativeiro o infante Fernando. Numa tentativa última de desviar Henrique das tentações cavaleirescas e colonialistas, Pedro oferece-lhe o monopólio das navegações. Transfere para ele, também, o senhorio das terras de Tresfalmenar [que correspondem a S. Vicente e Sagres]. Nuno Tristão estabelece em Arguim o primeiro entreposto comercial português na África.

* Pedro, infante-regente do Reino e Duque de Coimbra, celebrado na literatura de cordel europeia dos Sécs 15 e 16 como o Infante das 7 Partidas, funda a Universidade de Coimbra segundo a ótica da sophia grega: Amigo, segue-me, e não te deixarei viver na servidão nem morrer na pobreza; porque a Experiência me gerou e a Memória me deu à luz. Os Gregos chamam-me Sophia; e eu Sabedoria. Odeio os homens estúpidos, e as suas obras ignorantes [sic], ou na quais não se encontra qualquer utilidade [sic]. Conforme mandou na lápide do ato fundador. Esta primeira Universidade teve pouca duração, pois, e óbvio (no ambiente de resistência ao feudalismo), foi destruída logo após o assassinato do notável reinol que exercia a res publica em todos os seus atos políticos e socioculturais. Algo impressionante na sua época... // Obs.: a lápide foi achada recentemente e o Centro de Estudos do Mar, dirigido pelo Prof. A. P. Marques, publicou um manifesto acerca de tal importância arqueológica e historiográfica, que contou com releitura do filósofo Manuel Reis. *

1444 Gonçalo de Sintra, por ordem de Henrique, vai caçar escravos em Arguim e é morto na empreitada. 1446


Pedro, infante-regente, promulga as Ordenações Afonsinas, já que representa o príncipe Afonso V. O que se deve dizer é que Portugal passa a ter uma Carta jurídica e social e econômica cuja fonte está na Carta de Brugge. 1448 Afonso V atinge a maioridade e o regente Pedro deixa a administração central. Andréa Bianco traça a carta náutica que influenciará o trabalho de Fra Mauro, solicitado e pago por Pedro, Duque de Coimbra e Senhor da Marca de Treviso. 1449 A guerra entre a Casa de Coimbra e a Casa de Bragança, que se pode também declarar como guerra entre a Ordem de Sant´Iago da Espada e a Ordem ´templária´ de Cristo, isola Pedro cada vez mais no seu castelo de Montemor-o-Velho. As forças vaticanianas, feudais e colonialistas, capitaneadas pelo Duque de Barcelos têm o apoio da Afonso V e de Henrique... 20 de Maio. Nas terras de Alfarrobeira é assassinado o infante e duque Pedro e com ele dezenas de pescadores de Buarcos e alguns fidalgos fiéis. Além da morte de Fernando, o obscuro e feudal Henrique carrega agora, também, a morte de Pedro, o irmão mais velho. Talvez que o seu grande sonho fosse a Coroa, mas não teve nem engenho de cavaleiro nem talento político para se colocar como fidalgo em quem o Povo e as Cortes pudessem confiar. Henrique isola-se, então, para ser o que sempre foi: um príncipe sem horizontes próprios nem nacionais. Logo após Alfarrobeira é feito um grande esforço feudal para apagar a Memória, oficial e popular, do infante-regente Pedro. A Casa de Coimbra fica sem apoios e o Ducado, principalmente as regiões de Buarcos e de Aveiro, é votado ao esquecimento, embora sejam os seus pescadores e os seus marinheiros que continuem a fazer navegar o sonho de um império d´além-mar... 1452 Pero Vasques de La Frontera, que viajara com Diogo de Teive, até à Terra Nova, encontrase com o jovem genovês Cristovão Colombo e deixa-o a par de alguns projetos portugueses de navegação no mar-de-longo. 1454 O papa Nicolau V concede a Afonso V e a Henrique direitos de propriedade sobre as terras e os mares de África até à Guiné, já conquistadas e a conquistar. A estreita colaboração entre a Ordem ´templária´ de Cristo e o Papado romano atenta para o esquecimento oficial da importância das políticas de navegação e contato mercantil do infante-regente Pedro. 1454 Nasce o príncipe João, herdeiro de Afonso V e de Isabel, filha de Pedro. Mesmo durante a sua adolescência, o chamado Príncipe Perfeito demonstra uma vocação político-administrativa republicana que se percebe ser herança do avô Pedro, e é educado pelas mulheres que haviam sido apoio direto do infante-regente, ou seja, educado no ódio a quem patrocinou e fez o desastre de Alfarrobeira. Entre o desenvolvimento do jovem príncipe e o restabelecimento do feudalismo em Portugal, o que na verdade nunca chegou a ser impedido, as expedições marítimas quase param por falta de incentivos, até que... 1460 Morre o infante Henrique, só e obscuro. Depois dele, o interesse mercantil privado renasce em torno das navegações, pois, já não tem os entraves ´oficiais´ da Ordem de Cristo e os quintos terão de ser divididos entre a Coroa e quem executa, de fato, a arte de navegar.


1474 Colombo navega por águas mediterrâneas. 1475 Abraão Zacuto, astrônomo judeu, escreve o Almanach Perpetuum e idealiza as tábuas de navegação astronômica para leitura de meridianos pela declinação do Sol. 1477 Fernão Teles de Meneses, que tem um projeto de navegação ocidental, é assassinado em Alcácer do Sal. O seu projeto é cobiçado por muitos marujos e aventureiros, e talvez tenha sido isso a causa do crime. O projeto tinha, nas mãos dele, o apoio do príncipe João. Talvez os interesses de Castela tenham falado mais alto... 1478 Colombo passa uma temporada na ilha da Madeira. Ali começa a arquitetar os passos a dar para se inteirar, de fato, dos projetos portugueses [se é que ele mesmo não é parte de um jogo político e diplomático, como afirmam alguns pesquisadores]. E, em 1479, casa com a fidalga portuguesa Felipa Muniz Perestrelo, filha do capitão e navegador Bartolomeu e educada nos meios da Ordem de Sant´Iago, pela qual passam quase todos os projetos de navegação. 1482 Terminam as obras no Castelo da Mina [ou, Gana], onde a Regência pedrina havia estabelecido um bom comércio de ouro e um excelente ponto de encontro de informações náuticas, e que o príncipe João vê como base de continuidade para os projetos do próprio avô... 1483 João II – o Príncipe Perfeito toma posse e logo põe ordem nas casas feudais que, de imediato lhe fazem guerra, como fizeram contra o avô Pedro. Entre tentativas de assassinato e de um lento, mas eficaz, envenenamento, João II percebe-se só e monta a uma guarda própria com fidalgos que já haviam sido fiéis de Pedro. Os da Casa bragantina ou fogem ou são presos, enquanto o Estado Português começa a ser uma realidade e as navegações ganham mais força. A grande vingança do neto do morto de Alfarrobeira é isolar os feudais e construir, com base nas políticas estabelecidas na Carta de Brugge, um Estado forte e republicanamente percebido pelo Povo. Enquanto isso, o Mapa de Fra Mauro serve de base para a projeção do Plano da Índia e navegações de aproximação. A atividade governamental ganha os favores e a credibilidade popular e da burguesia mercantil, e assenta-se, então, a Era pedro-joanina. E João II é tido como o maior estadista da Europa, então. A rival Isabel, a ´católica´ chama-o de ´El Hombre´ tal o respeito que as outras Cortes nutrem pelo republicano monarca português. A Nação Portuguesa vive o esplendor de um crescimento social e econômico sem precedentes, apesar das ameaças de guerra civil sustentadas pelos feudais bragantinos, principalmente os exilados em Castela. Com o rei João II fazem-se grandes desenvolvimentos técnicos e científicos para renovação da arte de navegar os mares: é estabelecida uma Náutica Astronômica a partir das Tábuas anuais e com grande apoio de cientistas judeus, adaptam-se o Astrolábio [medidor da altura de um astro em relação à linha do horizonte] e o Quadrante [relógio solar], adapta-se a Carabela para servir como navio de guerra, é gerada uma nova Cartografia e o Reconhecimento Hidrográfico é o primeiro a ser feito no mundo de forma sistemática. A Era pedro-joanina deu a primazia experiencial aos navegadores portugueses que, nas eras seguintes, não souberam transformá-la numa Ciência Moderna tecnologicamente estabelecida. E o Império foi-se... Finalmente, um Monarca reina pela e com a Nação e faz o Mundo olhar Portugal com olhos de respeito e admiração. 1484


Embasado pelo conceito de esfericidade de Toscanelli, já conhecido pelos portugueses, Colombo oferece a João II um plano de navegação para chegar à Índia. 1485 José Vizinho e o cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira fazem levantamentos hidrográficos na Guiné. Vizinho e Mestre Rodrigo criam uma tábua astronômica embasada na de Zacuto, com obtenção da Latitude pela leitura meridiana do Sol. Apesar das experiências rudimentares feitas de porto em porto, aventura em aventura, desde a época de Pedro, é certo que a época de João II ganha mais consistência científica na arte de navegar o mar-de-longo. E o rei sabe que é chegada a hora de Portugal... 1487 Enquanto Colombo, depois do “não” joanino, tenta convencer os reis de Castela a aceitarem um projeto de navegação ocidental, que parece cópia daquele do português Fernão Teles de Meneses..., outro português, Bartolomeu Dias, dobra o que chama de Cabo da Boa Esperança, e Pero da Covilhã, com Afonso de Paiva, acha caminhos para o Oceano Índico e... a Índia. João II tem razão: é chegada a hora de Portugal...

1492 Colombo chega a terras desconhecidas. Pensa que está na Índia e chama os Povos da Floresta de ´índios´. Na verdade, está na América – nome que será convencionado a partir de crônicas europeias de Américo Vespúcio, que esteve em outras navegações portuguesas e castelhanas, enquanto ´olheiro´ de investidores burgueses. O local irá chamar-se Hispaniola [ou Haiti], e a América será a vã glória e o fim de Colombo. 1493 Os portugueses, de experiência em experiência, e às vezes com ajuda de cientistas como Zacuto, criam a tábua náutica quadrienal [1493-96] para navegação astronômica. João II entende que o sonho de um ultramar com vários pontos de contato, em termos de civilização e de atividade mercantil, a Ocidente e a Oriente, é perfeitamente possível. E ordena o início da construção da armada que irá navegar para a índia. No regresso da sua aventura, Colombo é obrigado a parar em Lisboa e explica a João II a “Índia” que havia encontrado. “Dessa já nós sabemos...”, deve ter pensado o astuto rei português. Entretanto, o processo de envenenamento do Príncipe Perfeito continua. O rei sente-se mal por diversas vezes e médicos de fora são chamados. Num dos recentes envenenamentos, várias pessoas próximas, e até o cozinheiro, morreram... Várias pessoas, íntimas do infante-regente Pedro, foram mortas por envenenamento, e até a sua filha, mãe do rei João II. Os feudais da Casa bragantina não descansam e querem a morte de quem ousou enfrentá-los e desalojá-los de um Poder que pensam divinamente perpetuado no [seu] quintal aristocrático. 1494 Num ato de grande demonstração de autonomia do Estado Português e do Rei, João II faz do Tratado de Tordesilhas o grande palco das políticas interna e externa, diante do Papado romano e de Castela – e, ali, estabelece regras de apoio efetivo às pescas e às navegações portuguesas, no que divide o tratado em duas partes, e deixa o Papado e Castela em murmúrios de estupefação. O Tratado de Tordesilhas é a vitória de um Estadista que vê o Mundo pela grandeza do seu Povo e prevê o sucesso da Nação. Os portugueses dão uma grande lição diplomática ao Mundo feudal.


Tratado de Tordesilhas 1- Estabelecimento territorial das Pescas Portuguesas 2- Fixação do meridiano separador das terras alcançadas e a alcançar, por Portugal e Castela, a 370 Léguas a Oeste das ilhas africanas de Cabo Verde. 3- Determina o apoio incondicional dos reinos ibéricos para uma ofensiva contra o avanço turco no ocidente. 1495 Finalmente, os inimigos do Portugal, Estado e Nação, vencem. O grande Rei João II não agüenta mais envenenamentos e sucumbe. O Povo percebe o desastre e o desespero toma as ruas, as praças, os campos, os barcos. João, o Príncipe Perfeito, está morto! O feudal Manuel I recebe o Poder e logo promove o retorno dos exilados bragantinos, que tomam conta do Estado e o dividem entre si. Sem um descendente direto, João II preferiu não provocar uma guerra civil e deixou aos inimigos de Portugal o que eles tanto queriam: a Coroa. Não a Nação, que do Povo é pertença. 1496 Colombo consegue montar uma segunda armada e segue para o que julga ser a Índia... 1497 Vasco da Gama, cavaleiro da Ordem de Sant´Iago, leva a armada joanina às costas da Índia, para glória de Manuel I, um rei que tem um Império nas mãos e começa a esbanjá-lo para cortejar os favores do Papado romano enquanto a Nação morre aos poucos. 1498 - 1499 Duarte Pacheco Pereira, que estivera também em Tordesilhas a representar João II, navega pelo Atlântico Ocidental e aferiu a realidade geográfica da Insulla Brasil, segundo a sua crônica Esmeraldo de Situ Orbis. Navegadores de Castela, como Alonso de Ojeda, acompanhado de Américo Vespúcio, ou Diogo de Lepe e Vicente Yanes Pinzón, que já estivera na primeira viagem de Colombo, navegam pelo sul da Insulla Brasil e aí encontram uma cruz, possivelmente colocada por navegadores portugueses. 1500 Manuel I retira o comando da armada joanina das mãos de Vasco da Gama, cavaleiro da Ordem de Sant´Iago, e passa-o para o condestável [e não marujo] Pedro Álvares Cabral, cavaleiro da Ordem ´templária´ de Cristo. Cabral parte para a Índia e, a meio caminho, toma posse da Ilha de Brasil, pau Brandão, a que dá o nome de Vera Cruz. O seu escrivão, Pêro Vaz de Caminha, sabe onde está e não fala nem de “índios” nem de “índias”.


1343 O rei Afonso IV e o Brasil

Johanne Liffey London-UK, 2013

Notas de Esclarecimento 1 O poeta J. C.Macedo e a médica Hanne Liffey, de quem sou filha, trataram do assunto Brendan e da importância do rei Afonso IV, em 1973, quando ambos estavam envolvidos com palestras culturais e cineclubistas, no norte de Portugal e da Espanha. E ele, só muitos anos depois, em 1991, é que teve a oportunidade de aferir alguns dos dados de então com a nova historiografia do professor Alfredo Pinheiro Marques e de rever escritos do professor Luís de Albuquerque (e este, com quem ambos tiveram encontro naquele mesmo ano de 73). Nesta reunião de notas que Hanne e João deixaram está a essência do pensamento de uma juventude anti-colonial e libertária que bebe em fontes da própria história irlandesa e portuguesa. A praia e aldeia de Apúlia (em Portugal) serviu várias vezes como “casa d´amor e casa libertária” e, outras vezes, de “refúgio para acções clandestinas contra o regime salazarista”. Iniciada na estenografia pelo pai, Hanne permitia-se anotar tudo, e agora, muito do que temos do poeta J.C. Macedo vem desse ´baú´ de surpresas literárias e políticas. 2 Hoje, ela é reclusa de um catolicismo fundamentalista e raro se atreve a pôr o nariz para fora desse seu deslumbramento, apesar de ser médica, enquanto ele é o que foi na sua ânsia de liberdade e de conhecimentos e continua mundo fora...


Dos Papeis Nota 1 Numa anotação guardada por Hanne Liffey durante a palestra “o bravo e ousado rei que deu cais e mar aos barcos comerciais portugueses”, do poeta e jornalista J. C. Macedo, em novembro de 1973, está o seguinte: “Na história geral, ele é o ´bravo´ e ousado chefe militar. Entretanto, e a dar continuidade aos primeiros esforços do pai, o rei Diniz, que mandou plantar o Pinhal de Leiria, a sua acção maior está ligada à projecção e ao estabelecimento da Marinha Mercante portuguesa que, mesmo precária, serve de base para as primeiras navegações portulanas e longe da costa; e a ele devese o olhar de um Portugal que não se atém ao simples umbigo ibérico de tanto rala e enrola sexual no embalo das linhagens monárquicas sob a benção da cristandade, apesar da ´santa´ mãe...”.

[pinhal de Leiria, em mapa e foto; rei Diniz]

Aldeia piscatória de Apúlia. Província do Minho, norte de Portugal, 1973.

“A casa que abriga quatro jovens intelectuais e dois casais de pescadores tem a fragrância marinha que flui entre cada grao de areia no chão, e o calor da fogueira onde o caldo esquenta e a sardinha assa reforça o ambiente. O frio faz as pessoaas perceberem cada pedaço da ossatura até que as gargantas estalam ao receberem um gole d´aguardente, os corpos se expandem a estufar na súbita e extrema mudança de situação”, eis o registo do poeta que poderia ter dado mais uma entre as várias novelas que escreveu na época.


Um dos pescadores é profissional na caça à baleia, mas também participou de duas jornadas na longa pesca do bacalhau, mas agora, aos cinquenta e oito anos, é pescador nas rotinas de uma aldeia de província, enquanto em outros dias faz a recolha do sargaço para a indústria dos cosméticos e, no verão, ensina ricaços a lançar a linha para pesca na beira da praia. No meio de uma dentada na sardinha e um gole d´aguardente ele diz que “este povo de pescadores que fomos, e ainda somos, deve-se a tempo a inteiro ao rei Afonso, filho do rei Diniz [...], porque só a partir da marinha por ele idealizada é que Portugal se fez ao mar e, muito tempo depois, foi do Atlântico ao Índico, e mais, meus jovens, ainda no Atlântico e já no reinado d´Afonso é que o capitão Brandão costeou o que ele chamava de terra do pao vermelho, que nós hoje chamamos pau-brasil. Então, meus jovens, tudo o que se diz por aí de um infante dom Henrique o navegador é treta, como é treta a tal escola naval de Sagres, pois, tudo o que houve depois do pinhal de Leiria foi uma marinha mercante que foi ao mundo atlântico. Dizer que tudo começou com o tal infante Henrique é uma parvoíce tão tamanha como dizer que o Vasco Gama foi um heroi cristão por ter matado milhares de asiáticos, ou que o Cabral ´descobriu´ o Brasil, quando ele foi diretamente para chantar o padrão da posse e retornar ao caminho para a Índia. Pois, o nosso jovem poeta aqui tem toda a razão ao dizer que tudo teve início com o Afonso, o filho do Diniz”.

[um estaleiro português e o rei Afonso IV]

Após algumas palestras sobre “a ânsia libertária do povo celtibérico”, entre operários e camponeses, a irlandesa Hanne quis abrir o leque para dispor a sua versão do lendário monge Brendan. O nem tão velho marujo português fizera um quase discurso histórico sobre o monge irlandês no meio de uma tremenda bebedeira num tasco da aldeia, mas o dado chegara aos ouvidos do avô materno do poeta Macedo, que tinha filhos no Brasil: ao ter conhecimento de “um pescador d´Apúlia que sabe mais que os professores de história”, o próprio poeta propôs a Hanne dar o rumo de Apúlia ao Citroen 2C... Confirmada a versão agendaram um encontro na entrada do antigo casino, mas o marujo ofereceu o aconchego do seu lar. Ora, “com sardinha assada e aguardente vamos estar à vontade”, esclareceu. O poeta lembra que “lá por 1964, um seminarista que organizava jogos e passeios com jovens, a partir da igreja matriz de Barcelos, costumava dizer que tudo foi decidido pelas pombas que derrubaram a insensatez das águias no jogo das políticas” [o poeta lembrou, mais tarde, que “a linguagem era a mesma utilizada pelo Prof. Marques na identificação dos bastidores políticos do Século XV”, e que “o seminarista foi mais tarde afastado”...], e comenta que só agora percebe que a pomba era Pedro, o duque de Coimbra e depois Regente, na sua luta intelectual e política contra o feudalismo que imperava em Portugal – essa águia constituida também pelo irmão Henrique, cruelmente insensato a ponto de deixar o irmão mais novo como refém dos árabes.


Obviamente, “as pombas nem tiveram tempo para enxergar um novo Portugal, porque as águias usurparam o reino em manobras de rapina que ceifaram a vida de Pedro”, remata. Se a jovem professora irlandesa (também a estudar medicina) Hanne Liffey quer confrontar dados que possui sobre o monge Brendan com os conhecimentos do marujo, já o poeta J. C. Macedo quer entender melhor a dinâmica política dos descobrimentos marítimos. “Eu acho que o busílis dos descobrimentos está na carta do Afonso IV ao papa Clemente VI...”, atirou o poeta no meio da conversa. “Ah, e tu sabes, meu jovem poeta, que com essa carta o rei enviou um mapa a descrever a grande ilha do pao vermelho, segundo, é claro, os dados fornecidos pelo capitão Sancho Brandão, e mais..., dessa carta foi que o imperador francês... o, ooooo, o Carlos V, tirou cópia. Não existiu segredo sobre o Brasil desde 1343, o que existiu foi conversa fiada de muita alcova, muita puta coroada para alargar as linhagens, até que o rei João II juntou todas as peças, deixou o Colombo navegar à vontade e sem rumo enquanto preparava a viagem do Gama para a Índia das especiarias orientais”. A maneira como o marujo expõe a história faz a irlandesa indagar onde ele aprendeu tudo aquilo; e ele não se faz rogado e diz: “olhe, menina, eu não sou doutor, sou marujo, mas não sou analfabeto nem imbecil. Olhe, aprendi no mar que a carta do tipo T-O não interessava ao rei Afonso, e sim a carta portulana, porque o que se queria era ir de porto em porto a saber o que havia mar adentro: a T-O era óptima para os astrónomos religiosos, mas péssima para as políticas económicas, porque dizia muito das coisas religiosas e quase nada da aventura marítima e daquilo que os povos antigos haviam navegado”. E o que diz é o que mais interessa a ela. “Então, a viagem do monge Brendan pode ter sido uma ligação antiga...”, arremessa, qual pedaço de madeira para a fogueira. “Olhe, menina, que os irlandeses (ou os velhos celtas) navegaram tanto quanto os vikings é coisa que nenhum marujo experiente desconhece, o problema do (teu) monge é que ele deveria ter narrado de jeito mais cartográfico e não tão misticamente a viagem”. A esta altura da conversa já o poeta percebe que a linha política que movimentou os descobrimentos portugueses passa mais pelos interesses das cabeças coroadas do que pela razão d´Estado. Então, “a viagem de Colombo às ´Índias ocidentais´ é um engodo maquiavélico alimentado pelo rei João II, que já enviara Duarte Pacheco Pereira a Tordesilhas para reiterar essa óptica, e, pela primeira vez, um rei põe de lado a política feudal da sua linhagem para executar um plano de políticas públicas económicas em torno do comércio marítimo”, anota ele.


Entretanto, assim como a política anti-feudal de Pedro o levou à morte, em Alfarrobeira, os mesmos feudais arquitectaram o envenenamento gradual do rei João II, pois, as políticas públicas levariam o feudalismo à decadência enquanto a burguesia capitalista e republicana ascenderia com grandes poderes financeiros. “Que se façam as viagens, sim, mas sob as ordens do Trono”, gritavam os feudais. Mas, então, já Portugal está no mar alto e a burguesia ultramarina é uma realidade que os reinóis não podem alterar, apenas compartilhar no espaço político, porque o económico já não lhes pertence. Para o poeta, “o rei Afonso IV, após travar batalhas cor-de-rosa no rala e enrola sexual das alcovas monárquicas (e ainda dar espaço para o bastardo Afonso Sanches, preferido do pai Diniz e ligado aos interesses espanhóis com apoio da ´santa´ Isabel), soube tirar proveito desse quadro mental decadente para tecer uma política económica que, diga-se, segurou Portugal até que Manuel I recebeu de mão beijada o espólio dos descobrimentos e gastou-o nas alcovas e na compra de missas do Vaticano, ao qual ofertou fortunas fantásticas enquanto o povo morria de fome ou enfermo, a trair a óptica pública do rei João”.

Dos Papeis Nota 2 “Sabemos que é ao tempo do rei Diniz que Portugal tem a sua primeira experiência mercantil de navegação e que algumas aldeias piscatórias tornam-se docas estratégicas, mas é com o filho Afonso (o 4º na dinastia) que a nação ganha uma política de facto e de direito relacionada à Martinha Mercantil”, na opinião do poeta. Quando se lê em Camões a epopeia marítima portuguesa é difícil imaginar a fonte original que levou a nação à aventura plena em alto mar, no entanto, a leitura de Pessoa sobre a história portuguesa remete-nos à fonte original do querer ser a nação por inteiro espelhada em cada alma a navegar. Os primeiros tempos de Portugal são os de povos nortenhos da beira-mar ou próximos dela (de Guimarães a Póvoa de Varzim e Porto, de Barcelos a Esposente e Viana, etc.), e “são os povos da beira-mar que vão impulsionar a expansão para o centro (Coimbra) e o sul (Lisboa, Alentejo e Algarve) na linha dos velhos celtiberos da Lusitânia [e mais dos Godos] e, também, na linha dos miliares, as pedras da sinalização romana”, como lembra Hanne a lembrar estudos em Albuquerque e Cortesão. “Na perspectiva do mar é que o Portugal do rei primeiro Afonso Henriques se estende e é com Diniz que se estabelece, mas só é uma nação marítima a partir de Afonso IV, e este tem a glória de assumir e cartografar as primeiras grandes expedições e, nelas, a ilha grande do pao vermelho”, na visão empírica do velho marujo d´Apúlia.


[lusitanos e lusitânia]

[marcos miliares romanos]

Ainda o encontro com o marujo d´Apúlia não havia terminado quando ele, de repente, leva a mão à cabeça, levanta e pega um livrinho que estava em cima de uma caixa de papelão: “Este livro foi-me dado por um (ah, eles dizem cara), pois, por um cara da marinha de guerra do Brasil. E aqui, neste livrinho, diz que a carta e o mapa de Afondo IV para o papa Clemente VI, de 12 de Fevereiro de 1343, está no Archivio Secreto do Vaticano, livro 138, folhas 148 e 149...”. Todos vêem que é um livro de 1921, do catálogo da editora Companhia Melhoramentos, a editora do famoso escritor Monteiro Lobato. Com excepção do outro marujo, ninguém mais aqui tinha conhecimento do livro.

O autor, Assis Cintra, demonstra em “Nossa Primeira História”, o título do livro, pleno conhecimento da história política e marítima portuguesa. “E vocês, meus jovens, vocês sabem agora porque é que eu mando à merda os professores de história que pregam nas nossas escolas sobre a escola náutica de Sagres e o marinheiro chamado Henrique. Tudo uma bosta académica... E olhem, eu só não pus fogo na ´mensagem´ do Pessoa


porque ele retrata o Henrique como uma besta negra (sim, é só ler com atenção) e fala da nossa alma marinha com muito apreço, e já o ´lusíadas´ do Camões ardeu mesmo!...”, vocifera ele. Hanne e João não sabem o que dizer, apenas têm a percepção de que alguns brasileiros conhecem melhor Portugal do que os portugueses. Uma triste realidade social e académica. Assis Cintra, autor de várias obras, presta homenagem à história de Portugal e, quanto ao Brasil, reedita no seu livro conteúdos do Pero de Magalhães Gândavo, que ele acredita ter sido o primeiro a escrever acerca do Brasil.

[o livro e Gândavo]

Mas não. Se se considerar a óptica historiográfica, pode-se afirmar que tanto Caminha quanto o Mestre João foram os primeiros a escreverem acerca do Brasil, uma “terra descoberta de novo” como diz o rei Manuel em carta ao rei de Espanha, em 1501. Também, se considerarmos a missiva (diplomática e cartográfica) do rei Afonso IV ao papa, em 1343, podemos dizer que a primeira escrita sobre o Brasil é esta de 1343 e, a segunda, a reproduzir na prática aquela de Sancho Brandão, a saída na pena de Duarte Pacheco Pereira, em 1498; e, ainda nos anos de 1500, os livros de Hans Staden (1557) e de Ulrich Schmidel (1567), e o deste último de grande importância pela descrição do Piabiyu, a rota guarani continental que logo, segundo as pesquisas de João Barcellos, seria o espaço sem tempo de uma economia liberal a gerar uma nação chamada Brasil.

[Staden e seu livro]

[o livro de Schmidel, o aventureiro do Piabiyu]


Os livros falam por si. E porque os livros falam por si, assim como artigos de jornalismo especializado e ensaios, o poeta J. C. Macedo lembra que “o professor Luís de Albuquerque passou a ´ler´ os descobrimentos e a cartografia pela lupa da sua famosa ´teoria de aproximação funcional´, e isso levou-o a compartilhar análises com pesquisadores da linha náutica, como Armando Cortesão, por exemplo, do que resultou uma nova leitura a tanger outras ópticas históricas geralmente não levadas a público”.

[Prof. Luís de Albuquerque, a quem se deve parte das releituras historiográficas sobre os Descobrimentos contra a óptica ´henriquina´.]

Dos Papeis Nota 3 Os documentos falam e não escondem a verdade. Documentos há que não permitem releituras, tão simples e ojectivas são as suas mensagens. Por que o documento de 1343 foi esquecido? Como é que uma carta real com mapa anexo vai para o Vaticano, anos depois o mapa é copiado por imperador francês, é referido como sendo “o mapa antigo que tem Bisagudo” na carta do Mestre João, em 1500, mas a história de Portugal não regista a sua existência...?! Se existiu uma política de sigilo ela foi executada por João II em torno do planeamento da armada que o Gama iria capitanear para a Índia, além do Cabo das Tormentas, sigilo que fez de Colombo um marujo perdido em alto mar. E mais: “Em 2 de Março de 1450 o Infante de Portugal doou ao fidalgo flamengo Joe van den Berge, natural de Bruges, umas ilhas açorianas. No documento de doação, que ser encontra na Torre do Tombo (Registro de ilhas, portos e costas) ha uma referencia á ilha do Brasil, descoberta pelo bravo Sancho Brandão” [Assis Cintra, in “Nossa Primeira História”, p.9]. E então? Com tantas referências ninguém fala de Sanches Brandão nem da [sua] Ilha do Brasil? Sigilo que nada... “O que existe, de Pedro I a Afonso V, é uma política de selvajeria cavaleirosa e feudal para conquistar terras aos árabes em nome da cristandade, e pior, desde que Diniz acobertou os templários na sua Ordem dos Cavaleiros de Cristo o projecto marítimo de Afonso IV só vem a ter


continuidade efectiva com o duque e regente Pedro, seguido por João II, seu neto. O que há, de facto, é uma verdade: a política de acções mercantis através das navegações marítimas foi trocada pelos campos de batalha no norte africano, o que foi objecto de duras críticas de Pedro, em carta de bruges, porque isso era do interesse templário, e não do reino português, mas... Este ´mas´ vem por conta das acções políticas de Pedro que beiram, no Século XV, um republicanismo extremamente atacado pelos feudais e pelo seu bruto irmão Henrique,o mesmo feudalismo que levara Manuel I a afundar Portugal na angústia de uma riqueza fabulosa gasta em quinquilharias e igrejas e na ambição desmedida de querer reconquistar Jerusalém. Ora, ora...”, diz o poeta. “É verdade, com as riquezas do ultramar fizeram de Lisboa uma cidade de ostentação e prostituição chique, de missas e mais missas, e nada de reforma urbana e agrária”, remata Hanne. Sobre esta questão o que se pode dizer, hoje, é que 1343 é o ano em que o Brasil é baptizado e registado no paço real português e que, a partir de então, é tido como “o Brasil de Portugal” nos cais da Europa e da África. Tudo o resto são circunstâncias ideológicas e administrativas no meio do folclore político. E pronto, este era o registo que eu queria trazer à luz para homenagear minha mãe Hanne e o meu pai J. C. Macedo.

Johanne Liffey

FONTES _ a partir de doc´s fornecidos por João Barcellos

A ARTE IBÉRICA DE NAVEGAR E MISSIONAR PARA COLONIZAR – LIFFEY, Hanne & MACEDO, J. C.. Palestra e Opúsculo. Viana do Castelo /Pt, 1974. Ediç mimeografada, Turma de Jovens Intelectuais Anarquistas (tjia). A PROJECÇÃO DA NÁUTICA PORTUGUESA QUINHENTISTA NA EUROPA. Luís de Albuquerque. Ediç JICU-AECA, Sep. LXV; Coimbra-Portugal, 1972. CARTA DO REI AFONSO IV AO PAPA CLEMENTE VI – Biblioteca do Vaticano, 1343. CARTA DO REI MANUEL I AO REI DE ESPANHA – História. 1501. CARTA DE MESTRE JOÃO AO REI DE PORTUGAL – História. Terra de Santa Cruz (Brasil), 1500.


CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA AO REI DE PORTUGAL – História. Terra de Santa Cruz (Brasil), 1500. CURSO DE HISTÓRIA NÁUTICA. Luís de Albuquerque. Livraria Almedina, Coimbra, 1972. CURSO DE HISTÓRIA DA NÁUTICA E DA CARTOGRAFIA. Luís de Albuquerque e Armando Cortesão. (sumário das lições) Universidade de Coimbra, 1970-1971. ESMERALDO DE SITU ORBIS – Duarte Pereira Pacheco. Edição de Raphael Eduardo de Azevedo Basto; Imprensa Nacional; Lisboa/Pt,1892. HISTÓRIA DA PROVINCIA DE SANTA CRUZ A QUE VULGARMENTE CHAMAMOS BRASIL – Pero Magalhães de Gândavo. Edição de António Gonçalves, Lisboa-Portugal, 1576. Obs.: esta obra integra os estudos anteriores do autor, ditos TRATADO DA PROVÍNCIA DO BRASIL e TRATADO DA TERRA DO BRASIL. HISTÓRIA VERDADEIRA E DESCRIÇÃO DE UMA TERRA DE SELVAGENS, NUS E CRUEIS COMEDORES DE SERES HUMANOS, SITUADA NO NOVO MUNDO DA AMÉRICA, DESCONHEVIDA NTES E DEPOIS DE JESUS CRISTO NASVBTERRAS DE HESSEN ATÉ OS DOIS ÚLTIMOS ANOS, VISTO QUE HANS SDTADFEN, DE HOMBERG, EM HESSEN, A CONHECEU POR EXPERIÊNCIA PRÓPRIA E AGORA TRAZ A PÚBLICO COM ESTA IMPRESSÃO – Hans Staden. Marburgo, edição de Andres Colben, 1557. HISTÓRIA VERDADEIRA DE UMA VIAGEM CURIOSA FEITA POR U. SHMIDEL. Ulrich Schmidel. Frankfurt, 1567. NOSSA PRIMEIRA HISTÓRIA – Assis Cintra. Companhia Melhoramentos, Cayeiras (São Paulo) - Brasil, 1921. Obs.: neste livro o autor reedita conteúdos de Gândavo em homenagem histórica. PIABIYU (A ROTA ANCESTRAL DOS GUARANIS) – João Barcellos. Edicon, Brasil, 2006. POEMAS PARA A HISTÓRIA QUE OS IBÉRICOS ENCONTRARAM ENTRE OS POVOS NATIVOS DO ATLÂNTICO A OESTE DE CABO VERDE, OU, A PARDA ESSÊNCIA DA INSULLA DESCONHECIDA. – J. C. Macedo. Araçariguama, Brasil (material digitalizado, colecção particular de Johanne Liffey), 2007.


Maratayama & Gohayó Ou: 1500, o século hebraico do Brasil a partir de um bacharel e ouvidor, judeu apostasiado. Estudos e Apontamentos de 1991-92, Digitalizados e Revistos em 2017

João Barcellos

Não, não é invenção nem lenda... Eis o Porto das Naus. O famoso atracadouro do bacharel, que é também a Aldeia Gohayó, região mais tarde denominada Villa de São Vicente, e logo, Capitania, a partir de meados do Século 16, ressurge no Século 21 pelas mãos de arqueólogos que buscam mais dados acerca do primeiro yngenho d´açúcar montado no litoral, cerca de 1570, pelo capitão-mor Jerônymo Leitão e a contar com a tecnologia experimentada na Ilha da Madeira.

yngenho d´açúcar no Porto das Naus [imagem dos trabalhos de arqueologia pinçada da web]

Esta aldeia-porto é destruída em 1540 quando um maremoto atinge a região assoreando a entrada da barra. Entretanto, o yngenho d´açúcar do capitão-mor funciona durante toda a atividade deste político e militar que, também, ao tempo de Affonso Sardinha (o Velho), recebe a sesmaria da Aldeia de M´Baroeri na margem do Rio Anhamby perto da Sam Paolo dos Campi de Piratinin, ou seja, cerca de 1615, momento em que o pirata holandês Joris van Spilbergen invade a Villa de Sam Vivente e destrói tudo. Tanto a pirataria a vulso quanto a ação de corsários – piratas institucionalizados pela monarquia inglesa, conceito reinol também utilizado pelos portugueses – vão ao sul e sudeste em busca das ´partidas´ de ouro e diamantes, particularmente ao largo de


Paraty, e vão ao nordeste capturar as ´partidas´ páo vermelho, ou brasil. Se ´algo´ se sabe entre Maratayama e Gohayó é que o Porto das Naus sinaliza a necessidade de toda a marujada por serviços práticos e alimentação, além de sexo e de bebida. Assim, o trapiche do Porto das Naus é a tábua de salvação para uns e outros. Este quadro historiográfico demonstra o quanto a Ilha Brasil, ou Brandam – sim, aquela assim denominada em 1343 pelo rei Afonso IV – era conhecida, e mais: que nunca deixou de estar nos planos ultramarinos, ou o rei João II teria decapitado Colombo ao saber que ele passara por perto chamando o atlântico sul de “Índia”..., a não ser que a ação colombiana fizesse parte de outro projeto joanino, ora, primeiro as especiarias indianas, depois, as vastas ilhas do páo vermelho, ou brasil., quiçá, alguns documentos dispersos ainda nos venham a dizer algo mais... Portugal é, entre 1493 e 1530, um reduto de inovações tecnológicas assentes no fervor marujo de alcançar o que o memorável Sanches Brandão havia alcançado por acaso, e repito, por acaso e mercê de violenta e longa tempestade na costa africana: a Ilha de Brasil. Lá por meados de 1342 foi o capitão e sua gente atirada para uma costa desconhecida e diante de um rio que beijava a orla marítima [Cintra, 1921], que logo souberam ser a foz do rio do syará [q.s. caranguejo]. Aquele afortunado capitão da Marinha Mercante acaba de descobrir o ouro-mais-que-ouro: o pau-brasil. Assim, em fevereiro de 1343 o rei Afonso IV noticiou o papa Clemente VI do extraordinário evento – evento que ficaria em segredo d´Estado até às descobertas do infante e regente Pedro, em meados do Séc. 15, quando, em digressão pelo mundo ocidental conheceu, em Veneza, fra Mauro [religioso camaldulense] e dele adquiriu um mapa-mundi... Assassinado em 1449, na batalha d´Alfarrobeira, ainda na regência, Pedro, dito o Infante das 7 Partidas, teve os seus estudos reiniciados pelo neto e rei João II que, já tempo do Tratado de Tordesilhas [1594], tinha conhecimento pleno da situação da Ilha de Brasil e, que, paralelamente, utilizava o mapa do frade veneziano para desenhar o Plano da Índia. De tal sorte que, aprisionado Colombo no retorno das ilhas caribenhas, o rei luso desdenhou do achado e o deixou prosseguir para o seio da corte da rainha Isabel, a castelhana que chamava João II de el hombre, e não é preciso dizer mais nada! Ora, ele não havia achado nada de novo na carta de bordo do apressado almirante que ousou chamar de ´índios´ os povos americanos julgando estar na Índia... Se nos cais das vilas de pescadores do norte [Viana do Castelo, Vila do Conde, etc.] até o centro [Figueira da Foz, Aveiro, Buarcos, etc.] pulsa então um querer avançar mar adentro interrompido [Marques, 1994] pela morte de Pedro e a ineficiência reinol de Henrique, mais cavaleiroso e feudal do que marujo, sabe-se que é um querer de ir ao mar conhecido e não aquele poético e ignorante ir ao mar nunca navegado... O assassinato [por envenenamento] do rei João II, em 1495, não interrompe nem as tratativas de Tordesilhas nem a odisseia para a Índia, que acontece com Manuel I que, na segunda ida à Índia, em 1500, manda reconhecer [com padrão reinol] as terras da Ilha de Brasil.

* “[...] A partir do momento em que as autoridades templárias – e ´templárias´ porque as feitorias estavam sob ordens dos Cavaleiros da Cruz de Cristo, que haviam substituído aqueles monges-cavaleiros ao tempo do rei Diniz [Sécs 13 e 14]; e, lembrando que, no Séc. 15, o grão-mestre é o infante Henrique, assim agraciado pelo irmão Pedro, então regente [leia-se a obra de Alfredo Pinheiro Marques, sobre o


assunto] – dizia eu..., as autoridades da feitoria de São Tomé, no golfo guineense, aceitam a oferta feita por Cosme Fernandes...” [Macedo, 1975], judeu-castelhano formado em Salamanca, e a serviço dos reis João II e Manuel I desde que fugira da inquisição em Castilla y Aragón. Qual é a oferta? Qual é o interesse de um judeu no marco sul tordesilhano? Só uma: “o notável cristão-novo quer ser o marco vivo no ponto sul do Trato de Tordesilhas e ali defender a divisão ibérica do Mundo Novo” [idem]. *

O que este painel historiográfico tem a ver com os judeus? E com Maratayama? E com Gohayó? Além dos serviços financeiros e bancários, que inauguraram a globalização econômica, os templários nunca fugiram da regra de vivência judaica, mas celebrando ao mesmo tempo os gentios, como que a celebrar a palavra universal jesuana (lembrando aqui os estudos de Manuel Reis), o que lhes deu respeito e muito espaço operacional entre essa ´raça dispersa dos árabes em ruptura ideológica´, como ensina Antoine Fabre d´Olivet, logo, angariando apoios entre financistas e cientistas. A maior riqueza que o rei Dinis e o filho Afonso IV retêm dos templários é a informação tecnológica e a organização econômica. É com muitos e muitos ilustrados judeus que se fazem as finanças [organização e cobrança] do reino português e, também o é, além de cartógrafos e pilotos venezianos, com muitos cientistas árabes e judeus que a Marinha Mercante do reino conta para se aperfeiçoar, o que aconteceu com maior incidência na era pedro-joanina [regente Pedro e rei João II, para melhor precisar], uma vez que ao contrário do que se apregoa nas academias luso-brasileiras [Marques, idem] o infante Henrique participa unicamente do estado corporativo e feudal da Ordem [templária] dos Cavaleiros de Cristo, ficando com Pedro a responsabilidade das ações ultramarinas. Ao desencadear “o Plano da Índia, traçado por João II, o rei Manuel I serve-se dos mesmos judeus especialistas já a serviço de João II, mais precisamente no apoio técnico e logístico a partir das feitorias na costa africana” [Barcellos, 1989] do Golfo da Guiné. E é aqui que, com documentos oficiais e muitos esparsos, mas que se complementam [Cortesão, 1960], encontramos um ouvidor e judeu apostasiado [– i.e., com a fé mística retirada] que quer viver pessoalmente as tratativas meridionais assentadas em Tordesilhas, lá nos confins do mar adentro. Quem é o judeu? Diz-se que é degredado português na África e mandado para o sul da Linha de Tordesilhas. Ora, nem tanto à ignorância nem ao mar... Cosme Fernandes [Cosme Fernandes Pessoa], dito entre a marujada como Bacharel da Cananeia, é um dos mais brilhantes judeus que João II abriga em Portugal e que, sob as ordens da Ordem dos Cavaleiros de Cristo é colocado como ouvidor na feitoria de São Tomé.


Feitoria de S. Tomé, onde Cosme Fernandes foi colocado pelos templários como ouvidor.

Ninguém faz de um degredado uma autoridade, muito menos em terras d´além-mar: todos sabem que ele é um bacharel da Universidade de Salamanca, a mais importante do mundo ocidental, então. Não por acaso, é mais um entre muitos acadêmicos judeus abrigados sob o manto templário. O que pretende Cosme Fernandes? Ele é o judeu castelhano com aquele falar ladino que se escuta muito na corte lusa e que logo remete ao espaço sefarad [do hebraico, q.s. Península Ibérica] do lado de lá. O que um judeu ilustrado quer e faz em sua vida? A reconstrução na nação hebraica seja qual for o lugar. Levar o espaço sefarad para as bandas longínquas e a sul da Ilha de Brasil é ganhar uma oportunidade única para se dizer e estar com deus. O que pretende Cosme Fernandes tão logo é desembarcado, cerca de 1497, ou 99, no imenso e fantástico lagamar que é o ponto sul tordesilhano? Reconstruir o ser-estar hebraico em terra nova. O que ele vê diante de si deixa-o atordoado...

A semelhança topográfica do lagamar e da ilha comprida [ que é ´maratayama´, como escuta depois] com o espaço de entre rios e mar de Canaan dá-lhe a sensação de ter feito a ação certa. O termo cananeia, no árabe e no hebraico, significa perfumado, que também dá origem ao termo jericó. Entretanto, cananeia também diz dos gentios não-judaicos. Não se sabe, a documentação existente não nos deixa perceber, com quantos outros judeus apostasiados e lusos degredados ele foi deixado no lagamar, o certo é que ele toma a chefia e logo se faz ao ventre das filhas dos caciques guaranis. É deste primeiro


instante do cunhadismo colonial que surge a raça mameluca [gente oriunda do cruzamento entre europeu e nativa]. Assim, e não só pela semelhança topográfica, é que a denominação “de cananeia” se origina, pois, a fala ladina do novo chefe destas bandas tratou de espraiar a visão da ancestral Canaan.

nesta terra nova oh deus meu escravo serei apenas teu aqui parece canaan e a paz sopra oh deus meu teu reino será aqui outro nação sobra e vamos além do breu qu´inda falta goaió nesta terra nova oh deus meu

Possivelmente, algum de entre os religiosos da cristandade, que logo começaram a chegar ao espaço multicultural de Gohayó, deve ter lembrado da passagem bíblica em Mateus 15.21-28 sobre a ´mulher cananeia´ que, sendo de origem sírio-fenícia, logo não-judaica, era tida como ´sem valor social´, mas que o profeta Jesus [o Cristo] atendeu mesmo assim na sua ação e palavra universal [Reis, 1982]. A ação do ilustrado Cosme Fernandes indica, em relação a Gohayó, que nenhum povo pode ficar isolado no pátio dos gentios, mas servir ao todo comunitário.

Entretanto, o talento e a experiência dele como ouvidor e astrônomo na feitoria lusa d´África leva-o a perceber, pelas andanças com os nativos guaranis, tanto à flor d´água como serr´acima, que está isolado demais das outras gentes que os nativos lhe sinalizam; por outro lado, vê que embarcações passam ao largo sem condições de chegarem perto da costa. O que é preciso? Buscar um espaço que seja ao mesmo tempo aldeia e cais, de abrigo e de abastecimento, ou, como ele mesmo, ladino, diz goiaó... Os nativos não têm como entender a linguagem do homem branco, que já se lhes mistura em sangue e fartos embriões, mas entendem que é hora de juntar os trecos e


fazer ninho além da ilha comprida. Visita um lugar que é uma enseada perfeita e onde chegam amiúde outros nativos amigos, e outros nem tanto, e, ao largo, navios a precisarem de apoio. Eis o goiaió!, determinou.

Depois de dias e dias de caminhada bruta vencendo mais de quarenta léguas, e em meio à construção da aldeia-cais à qual todos dizem ser gohayó, repetindo a ladainha do homem branco, ele começa a ser chamado de mestre e de bacharel da Cananeia. O termo ´gohayó´ ou ´goiaió´ vem do hebraico gua [região], hi [ela] e hó [merenda, benefício], q.s. ilha/lugar de provisões. Assim nasce a aldeia Gohayó com um cais para receber, reparar e abastecer embarcações, que recebe o nome de Porto das Naus. Entre os anos 1505 a 1530, o bacharel Cosme Fernandes é o homem forte da costa sul da Ilha de Brasil e faz investidas estratégicas entre a [sua] Cananeia e a ponta de Itapema para acalmar os ânimos belicosos entre nativos de diferentes tendências e faz predominar o instinto judeo-castelhano de preservação em assentamento: Eu trouxe a civilização. Eu mando!, deve ter repetido para os correligionários e a filharada mameluca.

A velha maratayama, hoje, Cananeia e Ilha Comprida


Com o funcionamento pleno da aldeia-cais Gohayó, o todo-poderoso torna-se feudal temido e toma terras até de portugueses que vão se instalando no entorno do seu trono e ao arrepio dos reinóis lusos. Não há uma religião dominante, não há uma lei geral, mas há a fé das gentes na terra nova e um chefe cujo mando não se discute nem na beirada do trapiche.

Maratayama, do tupi-guarani q.s. lugar onde a terra encontra o mar [tãma ou yãma = terra, e mara = mar]. Lembrando aqui anotações do marujo-explorador Bartolomeu Dias como de Duarte Pacheco Pereira [in Esmeraldo De Situ Orbis] a região dita Maratayama situa-se a 25° 00’ Sul de ladeza, que o mesmo é dizer, latitude, no âmbito das determinações tordesilhanas. O ´reino´ do Bacharel de Cananeia é um mutirão de esforços que se confronta com o viver nativo de João Ramalho, um cristão-novo que talvez tenha desembarcado com ele, ou antes ou pouco depois; o certo é que esse outro subiu a serra e assentou-se ali de corpo e alma, embora tenha, sim, feito a ponte entre nativos e padres jesuítas e reinóis lusos em situações mais agudas, o que não impediu a descomunal matança e escravaria resultantes da posse da Ilha de Brasil. E o bacharel o foi até que as elites reinóis e religiosas de Portugal resolveram desembarcar de vez na Ilha de Brasil o mando colonial...

Bibliografia BARCELLOS, João – No Entorno Do Bacharel Uma Visão Estratégica Política & Econômica Aproveitada Por Portugal. Palestra. Ilha Comprida e São Vicente, 1992. [Obs.: agradecimentos a Johanne Liffey, London-UK]. – Entre o Bacharel-Ouvidor & Affonso Sardinha (o Velho) o Outro Portugal que Originou o Brasil-nação. Palestra. Santos e S. Vicente, Brasil-1989. Palestra repetida em Cotia-Brasil, em 1998, e em Lisboa-Portugal, 2000. CINTRA, Assis – Nossa Primeira História. Edit Melhoramentos, São Paulo, Brasil-1921 CORTESÃO, Jaime – Os Descobrimentos Portugueses / Vols I, II e III. Lisboa, Portugal, 1960. D´OLIVET, Antoine Fabre – Histoire philosophique du genre humain, ou L’homme considéré sous ses rapports religieux et politiques dans l’état social, à toutes les époques et chez les différents peuples de la terre, précédée d’une dissertation introductive sur les motifs et l’objet de cet ouvrage (2 vol., 1824). Réédition / Éditions traditionnelles, Paris, 1966. MACEDO, J. C. – Mundo Novo Ibero-Cristão: estudos e viagens acerca das fortificações à flor d´água e seus engenheiros-militares. [Material mimeografado das palestras no Quartel-General do Exército, em Coimbra e em Lisboa], 1975-76 e 1981. – Apontamentos Acerca Dos Judeus Nos Primeiros Anos Do Mundo Novo Mameluco. Palestra para furriéis e oficiais milicianos no Serviço de Comunicações do Exército, Lisboa-Portugal, 1975. MARQUES, Alfredo Pinheiro – A Maldição Da Memória Do Infante Dom Pedro E As Origens Dos Descobrimentos Portugueses. Centro de Estudos do Mar, Figueira da Foz / Portugal, 1994


MARQUES, Manuel Eufrázio de Azevedo – Assentamentos Históricos, Geográficos, Biográficos, Estatísticos e Noticiosos da Província de S. Paulo / 2 Vols. IHGSP, Livraria Martins Fontes / São Paulo, Brasil, 1879. REIS, Manuel – Camelo ou Animal Político. Texto original de 1982, lido em partes por J. C. Macedo em conferências para estudantes e professores, em Portugal. Publicado finalmente no Brasil [Ediç Edicon + CEHC] em 2011. ‒ Socrates e Jesus / Esses Desconhecidos. (As Duas Revoluções Gémeas). EDICON. São Paulo, Brasil-2001. SAMPAIO, Theodoro – O tupi Na Geografia Nacional. Typ. Da Casa Ecléctica. São Paulo, Brasil, 1901.


O Norte e Centro de Portugal – "Mar Português" – na História Marítima e dos Descobrimentos Geográficos Portugueses, segundo Alfredo Pinheiro Marques

"(…) no cômputo geral da História Marítima, da Etnografia e Cultura Naval, do Património Cultural Marítimo, deste país que é Portugal. O país em que sempre mais e mais se invocam, e se repetem, até à náusea, banalidades retóricas, mitos infantis, e mentiras políticas, acerca da importância dos "Descobrimentos" (e das respectivas "Comemorações") na identidade nacional portuguesa… O país em que sempre se discursa e trombeteia tudo isso, relacionando-o com os pretensos pioneirismos "Henriquinos", do Algarve, e as pretensas grandezas "Manuelinas", de Lisboa, ao mesmo tempo que sempre se silencia, se asfixia, se destrói, e se condena ao subdesenvolvimento e à emigração, os territórios e as populações do Norte e Centro que, de facto, são, e sempre foram, o verdadeiro Portugal marítimo… Os territórios e populações do Norte e Centro, a partir dos quais foram feitas as navegações e os descobrimentos geográficos portugueses… Os territórios e as populações que, de facto, originaram os pescadores, mareantes e colonizadores portugueses… Os que verdadeiramente criaram Portugal e a expansão ultramarina portuguesa. Os que, verdadeiramente, criaram o "Mar Portuguez"… Profundamente diferente — absolutamente contraditório… — em relação às versões oficiais e rotineiras da doutrina (desde há muito, canónica…) que em Portugal sempre tem sido oficiada, ritualizada e imposta (diferente, quer em relação às grandes mentiras e manipulações das versões da grande História geral de Portugal e dos "Descobrimentos Portugueses" quer em relação às pequenas inércias e ignorâncias das pequenas Histórias locais, provincianas, que julgam que, nisto, como em tudo, o "centro do mundo" é um sítio como Lisboa…), este é o contributo do autor destas linhas. O autor de "A Maldição da Memória do Infante Dom Pedro e as Origens dos Descobrimentos Portugueses" [1995] (e, antes disso, autor, até, do "Guia de História dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa" [1988]…), o autor português que, nos fins


do séc. XX e nos inícios do séc. XXI, deixou dito, escrito, e afirmado, para sempre, que a criação do Portugal Marítimo e dos "Descobrimentos Portugueses" foi feita a partir do Norte e Centro (a partir de Portugal…), e não foi feita, como é óbvio (ou deveria ter sido óbvio…) a partir do Algarve e de Lisboa (a "mentira inverosímil"…). (…) De Aveiro/Ílhavo até à Foz do Mondego/Buarcos, a síntese, radicalmente inovadora, e contraditória, da História Marítima da Beira Litoral portuguesa — a síntese em que já se havia afirmado, de maneira sonora e inequívoca, a sua verdadeira importância, sempre silenciada, menosprezada, e esquecida, no âmbito da História geral de Portugal —, estava já assinada, e deixada para a posteridade, desde há vinte anos (desde 1995, em "A Maldição da Memória…"). (…) Em conclusão, no passado e no presente do "Mar Português", a MENTIRA INVEROSSÍMIL (anedótica), e manipulação política (evidentíssima, e grosseiríssima), de Sagres, etc., contra a EVIDÊNCIA ÓBVIA (indesmentível), e realidade verdadeira (secular e, ainda hoje, bem viva…), de Aveiro-Ílhavo e a verdadeira origem dos marítimos e pescadores de Portugal inteiro… (incluindo-se, nesse número, até mesmo, também, os do Tejo, em Lisboa, no século XIX, ou os de Lagos, no Algarve, no século XV…). Rotina, desleixo, cobardia, ignorância doutoral, provincianismo local, oportunismo epocal, tudo de mãos dadas, sempre de vistas curtas, e sempre pago com o dinheiro público de um país infelizmente sempre falido. Colaboracionismos infindáveis, quer "académicos", universitários, quer autárquicos, locais e regionais. Colaboracionismos e ignorâncias oficiais, "institucionais", de todos os que chegam ao ponto de andar a semear a ignorância da História da sua própria terra [!], ao mesmo tempo que, em Montemor-o-Velho [!], em Aveiro [!], etc., andam a repetir lenga-lengas anedóticas acerca de Sagres, do Infante Dom Henrique ou do "Colombo português", etc, etc., etc.… Todos, sempre, "sábios", de mãos dadas para a manutenção do insustentável "regular funcionamento das instituições". Enfim, todos sempre assegurando o legado ao Futuro dos mesmos mitos e mentiras que vêm do passado e que ninguém nunca teve, nem tem, nem vai ter, a coragem (e o saber…) para enfrentar e para corrigir (…). in Alfredo Pinheiro Marques, Curso de História e Cultura Marítima de Portugal, da Beira Litoral e da Região da Foz do Mondego, Figueira da Foz: Centro de Estudoas do Mar, 2014.

O NORTE E CENTRO DE PORTUGAL (JUNTAMENTE COM A GALIZA) NO DESENVOLVIMENTO MARÍTIMO E NAS NAVEGAÇÕES PORTUGUESAS DE COMÉRCIO E DESCOBRIMENTO GEOGRÁFICO… E A MENTIRA INVEROSSÍMIL DOS "DESCOBRIMENTOS HENRIQUINOS" FEITOS A PARTIR DO ALGARVE... (longos excertos de vários capítulos do livro A Maldição da Memória do Infante Dom Pedro e as Origens dos Descobrimentos Portugueses de Alfredo Pinheiro Marques [1995]...):

(…) Há de facto indícios importantes que mostram ter havido também outras origens para os avanços portugueses no mar. Neste campo é preciso ter em conta os contributos — e contributos bem pioneiros! — das regiões da Zona Centro do país, pertencentes ao senhorio do Infante D.Pedro. Isto tem até agora sido menosprezado na historiografia portuguesa, pois estas regiões — da Foz do Mondego e de Aveiro — não foram até hoje objecto de estudos históricos nesta perspectiva (da História dos


Descobrimentos), com a devida dimensão e sistematicidade (devidamente fundamentados com qualidade científica e/ou devidamente divulgados com impacto nacional). Mas, só pelo que neste momento já conhecemos, julgamos que não parece haver dúvidas de que o papel destas regiões foi muito significativo, e o Infante D.Pedro desenvolveu estes seus senhorios próprios, nos aspectos demográficos, económicosociais, comerciais marítimos e piscatórios, com este mesmo objectivo: incentivar as navegações e os Descobrimentos. A História Regional é um campo de extrema importância e de extrema utilidade; pessoalmente nunca havíamos tratado de temas de História Local e Regional (até recentemente), pois temos sobretudo tratado de questões que têm a ver com os aspectos técnicos e científicos dos Descobrimentos (sobretudo a Cartografia), mas numa perspectiva nacional, e até mesmo de geopolítica global. Mas, sem dúvida que, para futuro, vamos também dedicar-nos a estes aspectos regionais, articulados com o todo nacional — e, como é compreensível, iremos especializar-nos na nossa própria região (incluída no que é, e sempre será, a Beira): precisamente aquela a que hoje em dia estamos ligado, a da Beira Litoral, nas zonas de Coimbra e da Figueira da Foz, outrora territórios do Ducado de Coimbra. Desde sempre tem sido bastante ignorado pelos historiadores dos Descobrimentos o contributo dado para as navegações pelas regiões do Centro e Norte de Portugal. Mas não pode continuar a sê-lo. (…) Enquanto Duque de Coimbra, o Infante D.Pedro fez progredir todas as regiões da beira-mar incluídas no seu senhorio, que então cresceram e se transformaram no que viriam a ser mais tarde. Por sua iniciativa foram sobretudo protegidos os pescadores e as actividades ligadas ao mar, quer em Buarcos, quer em Aveiro. Para além da pesca em ambas as regiões, existia também salinicultura quer em Aveiro quer na Foz do Mondego, e nesta última região existia igualmente construção naval. A documentação mostra que o comércio externo deve ter sido então importante em ambas. E mostra que no fomento demográfico e económico, promovido pelo Duque, nesse sentido, foi determinante a instalação de populações e actividades marítimas provenientes do Norte — certamente originárias da Galiza e de Biscaia, etc — populações e actividades chamadas e instaladas pelo Senhor local, para valorizar estes espaços do litoral do Ducado de Coimbra. O Infante D.Pedro foi Duque de Coimbra e Senhor de Montemor-o-Velho e de Buarcos, de Penela, Miranda e Lousã, de Aveiro, Verdemilho, Ílhavo e Mira, de Condeixa e de Tentúgal, etc, tendo tido por isso uma grande influência no desenvolvimento da região do Baixo Mondego e da Beira Litoral. Foi, no seu tempo, o principal Senhor da Beira Litoral. Para além do restante grande senhorialismo regional (como já dissemos, maioritariamente eclesiástico, e com o qual teve conflitos), o Infante D.Pedro teve a seu favor não só as classes urbanas e mercantis e os sectores ligados aos Municípios locais (refiramos de novo a sua abundantíssima e cordial correspondência trocada com a câmara da sua cidade de Coimbra, um exemplo "democrático" invulgar a nível nacional), mas também alguma nobreza regional e local do Baixo Mondego, cujas possessões estavam disseminadas por entre os senhorios do Infante Duque, e que naturalmente sofria a sua influência e se colocava ao seu serviço. O exemplo mais notável desta nobreza regional partidária do Infante de Alfarrobeira foi o da família dos Gomes da Silva, de S.Silvestre e S.Marcos do Campo, que de pais para filhos foram alcaidesmores de Montemor-o-Velho, e Senhores de Vagos, um território da beira-mar situado entre as terras de Ílhavo e de Mira, pertencentes ao Infante. Até hoje ainda ninguém reparou que, com os seus próprios senhorios de Aveiro, Verdemilho, Ílhavo, Mira e Buarcos, e com o senhorio de Vagos dos Gomes da Silva, o Infante dominava quase toda a costa da Beira Litoral, só lhe faltando, para dominar a totalidade, os tais senhorios de Santa Cruz que tentou infrutiferamente obter… Quiaios e Eimide-Redondos…


E julgamos que também ainda ninguém notou que, mais a sul, as áreas litorâneas importantes, onde existiam actividades portuárias e piscatórias, eram igualmente senhorios pertencentes aos aliados mais próximos do Duque de Coimbra. Referimo-nos à Póvoa de Paredes, Pederneira (actual Nazaré), Alfeizerão, S.Martinho e Salir do Porto, pertencentes ao Mosteiro de Alcobaça, onde pontificava o Abade D.Estevão de Aguiar, amigo de D.Pedro. E a isto poderia ainda talvez somar-se Atouguia da Baleia (com o Baleal e Peniche), que veio a pertencer ao Infante D.Fernando que ficaria prisioneiro em Marrocos, mas que, antes disso, era muito próximo de D.Pedro (que o deixou à frente do seu Ducado de Coimbra enquanto viajou pela Europa). E talvez nesta última região pudesse haver já algum interesse também de Álvaro Gonçalves de Ataíde, o governador da casa do Infante D.Pedro, seu alcaide-mor de Coimbra, e que mais tarde, já nas vésperas de Alfarrobeira, seria feito por D.Afonso V Conde de Atouguia. Igualmente não se tem notado que estes locais acima citados — por exemplo Buarcos, ou Ílhavo e a Ria de Aveiro em geral — são precisamente os pontos de fixação e as bases intermédias do movimento de expansão para sul das populações e tecnologias piscatórias e marítimas então em curso (movimento que sempre continuou ao longo da História de Portugal). Tudo isto junto constituía na verdade uma extensa área costeira — todo o Centro de Portugal — onde fervilhavam actividades de comércio externo, construção naval, pesca e salinicultura. Coimbra foi o maior centro urbano do Ducado, mas o principal local de habitação de D.Pedro (para além de Penela, onde também fez estadias) foi sobretudo o antigo paço real (depois ducal) de Tentúgal, a meio caminho entre Coimbra e Montemor-o-Velho, na estrada que vai dar a Buarcos e ao mar. No coração do Baixo Mondego ergue-se o castelo de Montemor-o-Velho, que foi o verdadeiro centro do poder militar do Infante D.Pedro. Este foi o mais forte castelo pertencente ao Regente, que nele teve como alcaide-mor o seu cavaleiro Aires Gomes da Silva (filho do João Gomes da Silva que já fora alcaide no tempo de D.João I, e que na "revolução" de 1383-85 controlou em nome do Mestre de Avis estas regiões até ao mar). Daqui viriam a partir a maior parte das forças do Infante D.Pedro que foram à batalha de Alfarrobeira. A nível local, o Duque de Coimbra e Senhor de Buarcos teve um papel decisivo no desenvolvimento da região de Buarcos e da Foz do Mondego, em que hoje em dia se integra a cidade da Figueira da Foz — e o mesmo se passou com Aveiro (que não conhecemos tão bem, e que por isso iremos aqui referir menos). Buarcos já antes existia, e era um importante porto de pesca, que dispunha de foral de povoamento anterior (dado pelo Rei D.Afonso IV em 1342). Era o principal núcleo de toda a zona da Foz do Mondego, desde Montemor-o-Velho até ao oceano, correspondendo à actual região da Figueira da Foz — que muitas vezes era mesmo chamada como a região da "Foz de Buarcos" (a Figueira propriamente dita era no século XV uma povoação muito pequena e pouco significativa, somente virada para o rio e sem qualquer contacto com o mar, ligada administrativamente a Tavarede e portanto pertencente ao cabido da Sé de Coimbra). Foi verdadeiramente depois de Buarcos passar a pertencer ao Infante D.Pedro — e sobretudo depois de por sua iniciativa os pescadores passarem a ser protegidos e isentados de uma série de obrigações — que se desenvolveu e aumentou a sua população, transformando-se no que viria a ser nos tempos modernos. Segundo Pinho Leal, Buarcos terá sido criada nos meados do século XV por pescadores galegos. Como sabemos que não foi exactamente assim (pois temos notícia de que a fundação é mais antiga) julgamos que isto deve querer dizer que, mais ou menos por essa época (sem dúvida no tempo do Infante D.Pedro), esta vila piscatória, já existente desde o século anterior, terá tido grandes afluxos de populações marítimas dessa origem nórdica, mandadas vir pelo Duque de Coimbra. Conhecemos as cartas régias destes anos concedendo privilégios para os habitantes e para os futuros


moradores deste senhorio de D.Pedro. De resto, julgamos que isto não deverá ter sido senão a continuação (e o momento crucial) de um processo demográfico e tecnológico que já vinha de antes — pois em nossa opinião os povoadores iniciais, nos meados do século XIV (aqueles a quem D.Afonso IV deu foral), já deviam ser também originários do Norte, certamente de Biscaia e da Galiza. Também as restantes regiões da Foz do Mondego beneficiaram da protecção do Regente, pois foi sobretudo durante o seu governo que progrediram, embora depois viessem também a sentir a desgraça que se abateu sobre o Ducado de Coimbra e a Zona Centro, quando D.Pedro foi morto pela nobreza feudal descontente com a sua governação equilibrada. É firme convicção do autor destas linhas que as regiões da Beira Litoral tiveram nos Descobrimentos e nas navegações quatrocentistas um papel muito maior e mais importante do que até agora se tem julgado, escrito e afirmado. Disso existem já claríssimos indícios, e quem sabe quantas provas mais se poderão encontrar entre a documentação que esteja ainda inédita. Quando se fala dos Descobrimentos pensa-se sobretudo no Algarve e no Sul, mas a realidade deve ter sido mais complexa, e já nesta época os pequenos portos do Norte de Portugal deveriam ter começado a mostrar o dinamismo que mais tarde patenteariam nos séculos XVI-XVII (e que o historiador Jaime Cortesão tão bem realçou, articulando isso com a sua teoria sobre os "factores democráticos na formação de Portugal"). O que julgamos que deve ter acontecido é que estas regiões, por terem antes pertencido ao Infante D.Pedro e beneficiado da sua protecção, vieram depois da batalha de Alfarrobeira a sentir também a desgraça que se abateu sobre Coimbra e a Zona Centro. E foram violentamente penalizadas. Decaíram, e sofreram um processo de apagamento. Não foi certamente por acaso que em 1449 na batalha de Alfarrobeira estiveram presentes os humildes pescadores de Buarcos, corajosamente dando o seu contributo, certamente pobre, mas inegavelmente generoso, para tentar defender o seu Senhor, que antes os havia protegido contra os abusos dos poderosos (e os havia recentemente instalado na terra). A própria história do castelo de Buarcos viria a reflectir esta decadência e esta maldição pós-Alfarrobeira. Este castelo do Infante D.Pedro elevava-se sobre a baía da Foz do Mondego, dominando a vila piscatória. A torre foi muito melhorada por obras do Infante. Logo a seguir à sua morte na batalha de Alfarrobeira esta torre de Buarcos foi ocupada, em nome da Coroa, por um nobre adversário, D.Fernando de Castro, dito "o Cegonho", Vedor da Fazenda de D.Afonso V, e pertencente a uma família próxima do Infante D.Henrique. Pouco depois, ainda no ano de 1450, esta torre foi dada pelo Rei ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que desde sempre a reivindicava. Como já dissemos, enquanto Duque de Coimbra o Infante D.Pedro andou sempre em conflito com o grande senhorialismo eclesiástico regional (sobretudo com o Mosteiro de Santa Cruz), para tentar fazer reformas na cidade de Coimbra e para tentar obter as terras do litoral que lhe faltavam (Quiaios e Redondos) e assim conseguir criar uma unidade política e económica virada para o mar no centro de Portugal, desde Aveiro até Buarcos. As regiões do Baixo Mondego que haviam pertencido ao Infante D.Pedro foram nos anos de 1450-1466 oprimidas com gravames, imposições e violências várias (disso existe já comprovação). Só depois, mais tarde, sobretudo quando passaram a pertencer ao Príncipe Perfeito, neto de D.Pedro, vieram a poder respirar um pouco, e escapar à pressão que até então haviam sofrido. Adiante daremos exemplos dessas opressões pós-Alfarrobeira. Passados os tempos mais duros da maldição, virá a vila de Buarcos a ser dada em 1461 ao filho do Infante D.Pedro, o Condestável D.Pedro entretanto regressado do exílio (em 1456). Mas, dada a sua partida, poucos anos depois, para a Catalunha, onde foi disputar a Coroa de Aragão e onde morreu, viria finalmente esta vila a ser atribuída, em 1466, ao Príncipe D.João, o futuro Príncipe Perfeito e Rei D.João II (neto do Infante D.Pedro, e sobrinho do Condestável D.Pedro). A partir deste momento esta terra, tal


como outras que haviam pertencido ao Ducado de Coimbra, será pelo Príncipe (e futuro Rei) protegida, e assim poderá em alguma medida ultrapassar a situação de desgraça em que vivia desde a morte do Infante D.Pedro na batalha de Alfarrobeira. Com que gente — com que homens, com que navios — viria o Rei D.João II a fazer as navegações e descobrimentos da segunda metade do século XV? Não seria em grande medida com a sua própria gente, de Aveiro e de Buarcos? A documentação pouco deixa perceber (devido à política de sigilo que efectivamente D.João II tentou aplicar, ou devido a outras razões de desaparecimento da documentação joanina?). Mas, como adiante mostraremos, há evidências muito interessantes, e que nos deveriam fazer pensar. De Montemor-o-Velho era originário (e lá está sepultado) o Diogo de Azambuja que em 1482 fundou S.Jorge da Mina no Golfo da Guiné… Num dos próximos capítulos deste livro iremos tratar especialmente desse problema até agora tão ignorado pela historiografia portuguesa: os contributos da Beira Litoral para os Descobrimentos, e a continuidade que neles se nota entre a primeira e a segunda metade do século XV… entre o Infante D.Pedro e o Rei D.João II… a Casa de Coimbra nas origens dos Descobrimentos… Julgamos que tudo isto aponta para uma importante participação — bem maior do que até agora se julgou — das regiões litorais da Zona Centro no processo dos Descobrimentos (e não só da Zona Centro, pertencente a D.Pedro, mas também das restantes regiões litorais mais a Norte, pois estas áreas Norte e Centro estão intrinsecamente ligadas, como adiante mostraremos). Julgamos que foi este contributo do Norte — dos portos, dos homens, dos navios, das tecnologias náuticas do Centro e Norte do país — que originou a profunda alteração qualitativa e quantitativa operada a partir de 1441 nos Descobrimentos (introdução do navio revolucionário no Sul chamado caravela, novas capacidades técnicas de navegação e de pilotagem, consequente ultrapassagem das dificuldades que haviam feito deter a náutica mediterrânica). Apesar do carácter polémico que alguns poderão ver nesta nossa afirmação, não temos dúvida em afirmar que julgamos que os Descobrimentos Portugueses do século XV (os decisivos, na década de 40, e a partir daí todos os restantes, até ao fim da centúria) não foram feitos com tecnologias, com meios e com homens, provenientes do Algarve. Não foram, nem poderiam ter sido, por razões óbvias que se prendem com a natureza da sociedade portuguesa da época (razões demográficas, étnicas, sociológicas, políticas). Claro que, naturalmente, o Algarve, território mais meridional então submetido à Coroa de Portugal, foi a base mais adequada (e a efectivamente usada) para as operações então desenvolvidas na direcção do longínquo Sul. Mas, só deverá ter sido isso mesmo: uma base de operações. O Algarve não poderia ter sido outra coisa senão uma base intermédia e um ponto de passagem. Porquê? Por razões que não pode ignorar quem quer que hoje em dia estude História com uma perspectiva científica e informada. É que o Algarve (o Reino do Algarve) não era na época considerado como fazendo parte de Portugal ou habitado por Portugueses. Não era uma simples figura de retórica quando no título dos Reis de Portugal se dizia que esses monarcas, além de Reis de Portugal, eram também Reis dos Algarves (o de aquém e o de além mar em África). Não era só uma formalidade quando um autor como Garcia de Resende, e já bastante depois, c.1530, ainda escrevia (…) fora de Portugal, no Reino do Algarve, em Alvor muito pequeno lugar (…), ou (…) em todo o mar Oceano não há outros navios latinos senão as caravelas de Portugal, e do Algarve (…). O Algarve não era então (e por muito tempo ainda continuaria a não ser) considerado como fazendo parte de Portugal. A sua população era ainda (na primeira metade do século XV) constituída por mouriscos, e só lentamente estava sendo substituída e dominada por populações de origem portuguesa, vindas do Norte, cujo influxo viria a dar origem à moderna população algarvia tal como hoje existe. No caso português talvez não tenha havido tão radicais expulsões e intolerâncias como aconteceu na Andaluzia


castelhana ao longo dos séculos seguintes (houve antes sobretudo integração), mas sem dúvida existiu uma situação semelhante, também com uma evidente separação étnica. Além disso, os efectivos demográficos originais algarvios, no período da dominação portuguesa, nunca devem ter sido muito abundantes (e, naturalmente, devido à opressão que sofriam, e às constantes fugas que realizavam, foram decaindo e sendo substituídos por portugueses). Esses efectivos demográficos originalmente algarvios (mouriscos) não só não deveriam então ter sido muito abundantes como, além do mais, nada aponta para que devessem ter tido muito especiais qualificações e especializações em actividades marítimas e piscatórias. Antes dos fins da década de 30 e do princípio da década de 40 não nos aparecem no Algarve caravelas nem navegadores como os que a partir daí vão dinamizar imparavelmente o avanço para Sul. Claro que a partir do século XV o Algarve passou a ser não somente uma base de passagem, mas, também um centro de fixação e irradiação de actividades marítimas e piscatórias. Os pescadores algarvios viriam a ser nos séculos seguintes bastante activos, de Lagos a Olhão e Tavira (e ainda hoje continuam a sê-lo), por razões óbvias: desenvolveram-se mais e mais, pois é lá perto que existem boas zonas piscatórias. Mas, antes do influxo das populações do Norte, é claro que não era assim. Só por anacronismo pode ter havido quem até hoje o julgou e o escreveu. A nobreza que se instala no Algarve é toda ela de origem setentrional: portuguesa. Os descobrimentos e navegações da década de 40 — com os Infantes D.Henrique e D.Pedro — são um momento deste processo. É evidente que as clientelas dessa nobreza, os homens de armas, os navegadores, etc, têm essa mesma origem setentrional. É evidente que as tecnologias e os homens que vão ser utilizados nas navegações provêm do Norte: provêm de Portugal. Nem de outra forma poderia ter sido, pois os responsáveis portugueses da época, naturalmente, à luz do espírito do tempo, nunca teriam confiado em agentes algarvios para executarem um processo como esse. A ideia de que possa ter sido algarvia a origem dos navegadores e das técnicas de navegação dos Descobrimentos é de facto indefensável — e só nos deveria fazer pensar como é que é possível que algo tão abstruso e inverosímil (e que a documentação e as evidências não sustentam) possa ter sido até hoje considerado na historiografia portuguesa como um dado incontroverso e um autêntico dogma… Só uma historiografia tão mitificada, ideológica e politicamente conotada, deformada e deformadora, como tem sido muita da portuguesa, é que nos poderia ter tentado convencer disto: de que a origem dos Descobrimentos deverá ter estado no Algarve… A maneira como o fez, é sabida: mitos atrás de mitos, lendas e mentiras, com o Infante D.Henrique, e Sagres, e a "Escola de Sagres", etc… Se as tecnologias náuticas do Mediterrâneo — as originalmente dominantes no Algarve — permitissem triunfar no desafio do litoral africano atlântico, então isso já deveria ter acontecido há mais tempo (e sabemos que tal nunca aconteceu, devido ao fracasso dos genoveses de Vivaldi e dos catalães de Ferrer, e devido à lentidão do avanço dos luso-genoveses de Lanzarotto Malocello no século XIV, e até possivelmente dos portugueses de Gil Eanes nos anos 30 do século XV). A partir de 1441 tudo muda. A verdadeira alteração qualitativa e a verdadeira aceleração (autenticamente vertiginosa) ocorrem a partir dos inícios da década de 40, quando estes príncipes do Norte — D.Pedro e D.Henrique — se empenham mais fortemente e mais sistematicamente na navegação para Sul ao longo da costa africana. Empenham os seus meios e a sua gente: homens, navios e tecnologias náuticas que, obviamente, deverão ter vindo do Norte. Estes príncipes do Norte apontam-se para o Sul desconhecido, desinteressando-se então de conquistas em Marrocos e nas Canárias (aplicam a política defendida pelo Infante D.Pedro…). Fazem-no, usando gente do mar, e usando novos navios: pequenos navios úteis para reconhecimentos, provenientes das actividades marítimas e piscatórias setentrionais,


que à partida nada têm a ver com guerra, nem servem para transportar grandes tropas — "caravelas", essas revolucionárias embarcações que, pouco depois, irão provocar a admiração de Alvise de Cadamosto, um tão experiente marinheiro mediterrânico… que tinha obrigação de conhecer bem todas as espécies de embarcações usadas no Levante e no Sul da Europa… Trata-se aqui, na verdade, do problema da origem das tecnologias náuticas utilizadas nas navegações e descobrimentos quatrocentistas… Apesar da maneira como isso até agora foi muitas vezes ignorado e diferentemente considerado na historiografia, o autor destas linhas não tem dúvidas em afirmar que considera a maior parte dessas tecnologias (quase todas, incluindo a própria caravela…) como originadas no Norte e Centro de Portugal… originadas nos seus dinâmicos portos, onde há muito vinha a germinar o lento amadurecer económico, sociológico e técnico a que Jaime Cortesão chamou a "formação democrática de Portugal" (e que têm tratado também outros autores, desde Alberto Sampaio a Octávio Lixa Filgueiras e ao Com. Fernando Alberto Gomes Pedrosa). Trata-se de tecnologias originadas nos portos do Noroeste peninsular, incluindo os portugueses (mas, também os da Galiza), onde há muito vinha a florescer esse encontro de culturas que faz de Portugal "o mais atlântico dos Mediterrâneos, o mais mediterrânico dos Atlânticos". A ideia da importância ímpar do Algarve nas actividades marítimas e piscatórias (e, consequentemente, nos Descobrimentos) tem sido sempre defendida pelos historiadores henriquistas — mas a verdade é que mesmo aquele que de entre eles mais se especializou nesse esforço regionalista algarvio, Alberto Iria, não conseguiu fundamentar a sua tese com documentação coeva, e acabou por ser obrigado a reconhecê-lo, justificando a falta dessa documentação devido a desaparecimentos ao longo dos séculos seguintes, por catástrofes e incúrias várias (terramotos, desleixos administrativos, etc.). Isto é só um exemplo de como em Portugal os mitos henriquinos têm sido aceites, e avolumados, à revelia da verdadeira lição das fontes. Desde que as obras sejam massificadas pela propaganda oficial, ou monumentais, ou luxuosas, ou quantitativamente impressionantes (e os historiadores adversários politicamente silenciados…), parece que ninguém verdadeiramente se dá ao trabalho de ler esses livros de lombadas grossas ou douradas, e de notar as suas incongruências e as suas lacunas no que diz respeito às teses que são supostos defender. O que fica perfeitamente claro na documentação existente é que nestas épocas dos séculos XIV e XV o que existiu sobretudo no Algarve foi o comércio externo das frutas locais, mais do que a pesca de mar alto (mas… mesmo esse comércio externo era feito sobretudo por navios do Norte… da cidade do Porto, etc…). A verdade é que as actividades piscatórias visíveis no Algarve nos séculos XIV-XV devem ser de origem exterior, não algarvia (não islâmica). As pescarias do atum até podem ter (em algumas das suas tradições) uma componente e uma experiência de origem mediterrânica, mas as pescarias da baleia e outras de mar alto — as que dão prática de navegar — são indubitavelmente de origem nórdica. As almadravas do atum quase se pode dizer que não são sequer uma forma de pesca… pois, como tem sido notado, as suas massivas chacinas localizadas têm mais a ver com caça de espera do que com navegação… e nenhuma experiência podem fornecer, em termos de navegação de mar alto… O que nesta época verdadeiramente se encontra são pescadores do Norte a pescar no Algarve. De resto, isso nada tem de extraordinário, e só vem no sentido do que já se constatava em relação ao resto do litoral pertencente à Coroa de Portugal — e também em toda a faixa atlântica europeia, em que existiu sempre nestas épocas esse primado do Norte. Tudo isto tem condições para ter sido há muito compreendido; o contexto humano e tecnológico em que aconteceu é fácil de ser estudado e entendido (se os historiadores dos Descobrimentos estiverem atentos à História das Pescas). O problema tem sido o


de os historiadores dos "Descobrimentos" até agora, não se terem dado conta, suficientemente, da importância desta dimensão. Os historiadores dos Descobrimentos Portugueses, até hoje, não se debruçaram sobre a mecânica deste processo (a maior parte das vezes, têm-no menosprezado e descurado quase completamente!) — talvez com a muito honrosa excepção, nisto, como em tantas coisas mais, representada pelo pioneirismo da finura sociológica e geográfica de Jaime Cortesão. Mas, o que é facto é que a realidade fala por si mesma, e mostra esta simples e indesmentível evidência: as primeiras viagens de descobrimentos marítimos, no que diz respeito ao seu contexto humano e tecnológico, foram, obviamente, feitas por pescadores. E estes pescadores, pelo simples facto de serem pescadores, eram, de certeza (não poderiam deixar de ser!) originários do Norte. Compreenda-se: os descobrimentos iniciais foram feitos por pescadores. Os homens e os navios vieram, evidentemente, do Norte e Centro de Portugal. Nem de outro lado poderiam ter vindo! E nós julgamos que nesta expansão para sul, como núcleos de povoamento piscatório intermédio (historicamente bem documentados) foram decisivas as regiões do Centro de Portugal pertencentes ao Infante D.Pedro e ao Ducado de Coimbra (e outras, próximas, de seus aliados). É evidentíssimo este alastrar contínuo da mancha piscatória e técnico-marítima para o Sul, movimento secular de longa duração, incessante e permanentemente reavivado, com os seus fluxos e refluxos sazonais. Esta gente, que não se mistura com os terrícolas, e que tem os seus característicos símbolos de família gravados nos barcos e nos utensílios, vive, verdadeiramente, no mar; mesmo que estabeleçam bases, por alguns invernos ou algumas gerações, em qualquer ponto da costa onde o Poder político dos terrícolas lhes deixe construir os seus palheiros e lhes garanta condições mínimas de sobrevivência (não excessiva opressão económica), estes homens e as suas mulheres estão sempre prontos para poderem voltar a qualquer momento para o Norte de onde provêm (e, às vezes, fazem-no). Mas o movimento continua sempre, e nele são importantes os núcleos intermédios que se estabeleceram em locais com condições favoráveis, e nesses locais prosperaram (e, por isso, deixaram-se ficar durante mais gerações). Exemplos desses núcleos foram nos fins da Idade Média locais como: Caminha; Viana e grande parte do litoral minhoto; Matosinhos e S.João da Foz do Porto; Ovar, Murtosa, Aveiro, Ílhavo e a Ria do Vouga em geral; Buarcos e a Foz do Mondego; a Pederneira, Paredes e Salir; Atouguia, Peniche e o Baleal. Exemplos desses núcleos foram nos séculos seguintes, até à actualidade, locais como: a Póvoa de Varzim ou Vila Praia de Âncora (para além dos outros sítios do Minho e dos arredores do Porto); a Ria de Aveiro, sempre mais e mais (após ultrapassar o problema do assoreamento da barra); Buarcos ainda, em alguma medida (mas decaindo muito); a Nazaré (sucedendo à Pederneira); Peniche, cada vez mais dominante no Centro. De todas estas bases intermédias que pontuam o processo de expansão litoral viriam sempre depois a irradiar as influências para as comunidades piscatórias e marítimas estabelecidas mais a sul: Lisboa, Caparica, Sesimbra e Setúbal (e até núcleos de varinos espalhados pelos esteiros do interior da foz do Tejo, até Santarém… destes, até Almeida Garrett irá escrever, no século XIX…); litorais do Alentejo e, sobretudo, do Algarve (os mais próximos dos ricos bancos pesqueiros meridionais e africanos). Isto, de que não se deram conta os historiadores que têm tratado do mais célebre capítulo da História de Portugal, sabem-no os etnólogos que têm estudado as pobres comunidades piscatórias, da Póvoa a S.João da Foz, da Afurada à Murtosa, de Ílhavo a Buarcos, da Nazaré a Peniche. Sabem-no até os escritores e poetas que têm observado os pescadores e o seu largo mundo de miséria e de azul. Apeteceria convidar os historiadores dos Descobrimentos a lerem Pedro Homem de Mello: (…) Virei costas à Galiza; voltei-me antes para o sul… (…) Virei costas à Galiza, voltei-me antes para o mar… (…).


Apeteceria convidá-los a lerem Raul Brandão: (…) Fito-os. É o mesmo tipo que conheço de Aveiro, de Caparica e de Sesimbra. O patrão Joaquim Lobo, de grandes barbas brancas, afirma que esta gente veio de Ílhavo. Alguns lembram-se de ouvir a mesma coisa aos velhos e teimam: — Somos de Ílhavo… Viemos de Ílhavo… — Também tenho a ideia de que foram os cagaréus que povoaram os melhores e mais piscosos pontos da costa. Ontem como hoje, vinham por aí abaixo, aos dois e três barquinhos juntos, até ao Algarve. Aparecia-lhes toda a costa incógnita, os penedos nascidos no meio do mar, os fios de areia reluzindo e as baías entranhadas nos paredões. À aventura iam ter às águas do peixe. E eu sinto como eles a primeira impressão dum panorama nunca visto e duma frescura que ninguém respirou. Descobriram os sítios a que a sardinha se encosta, os fundões que dão a pescada e o cherne, e os melhores abrigos para refúgio do mau tempo. Sabiam a costa a palmos. Voltavam um dia com a mulher, os filhos, a rede e a panela da caldeirada. Fixavam-se no areal, construíam os palheiros, cobrindo-os com rama, e fundavam uma nova povoação. O peixe era tanto como no princípio do mundo (…). Já no nosso século, o processo continuou, semelhante ao que sempre deve ter sido nos séculos anteriores: como mostram Octávio Lixa Filgueiras e o Com. Gomes Pedrosa, as inovações contemporâneas (como a traineira) alastram a partir da zona basca e cantábrica: uma década mais tarde usam-se na Galiza, duas décadas depois usam-se em Peniche. Os exemplos de fixação galega contemporânea, como Vila Praia de Âncora, junto ao Forte da Lagarteira, simplesmente nos exemplificam os processos congéneres anteriores, ocorridos nos séculos passados em Buarcos, na Ria de Aveiro ou em Peniche. Nos séculos passados, é evidente o que deve ter acontecido. Os historiadores dos Descobrimentos parecem até hoje não se ter apercebido de que o primeiro dos Descobrimentos Portugueses foi… precisamente… o do litoral português… E os Descobrimentos seguintes, mais para sul… foram a continuação natural do anterior… e feitos pela mesma gente… A influência setentrional — e mesmo, originalmente, basca e galega — está bem documentada ao longo dos tempos, desde o século XIV. Façamos aqui rapidamente uma síntese da sua evolução. Como mostram Alberto Sampaio e Octávio Lixa Filgueiras, já antes, no século XII, c.1115-1120, o Arcebispo D.Diego Gelmirez havia desenvolvido na Galiza a construção naval, com o recurso inicial a técnicos mediterrânicos, sobretudo genoveses, mas com um florescimento autónomo posterior. Assim se conjugaram no Noroeste peninsular influências mediterrânicas e nórdicas. Assim nasceu também a Marinha portuguesa, no Condado Portucalense, ao sul do Minho. Mas há que distinguir entre uma Marinha de guerra, com galés, e uma Marinha comercial e piscatória, com navios que progressivamente se vão adaptando às condições físicas do Atlântico. No que diz respeito às galés de guerra, para sempre se manteve a ligação mediterrânica, mas no que diz respeito à navegação atlântica comercial e piscatória o caso é bem diferente. A Marinha nacional vai germinando no Noroeste com o seu próprio dinamismo (e continuará a beneficiar de influências galegas, cantábricas e bascas, na pesca da baleia e em outras navegações de mar alto). Digamos que a influência mediterrânica ainda se mantém, mas sobretudo em relação a uma Marinha de guerra com galés, que se destina exclusivamente a serviços de guarda-costa e corso, no litoral sul e no Mar do Estreito. Quanto a uma Marinha comercial e pesqueira, o dinamismo atlântico vai-se desenvolvendo por si mesmo: sobretudo por influência do Norte. Isto mesmo nos é revelado pelas ocorrências regionais das actividades pesqueiras na documentação — e, dentro delas, sobretudo, pelas ocorrências do navio pesqueiro que, séculos mais tarde, nos vai aparecer a ser utilizado nos descobrimentos: a "caravela". E o que é que nos diz a documentação acerca destas mais antigas ocorrências? Embora até agora isto não tenha sido devidamente notado pela maior parte dos historiadores dos Descobrimentos, a verdade é que estas menções documentais apontam todas para o Norte — para o litoral Noroeste português, e mesmo para a Galiza — constatando-se


portanto que, como é compreensível, continuou sempre a haver uma grande influência galega na pesca no litoral português. É de 1255 a primeira menção em Portugal de um navio chamado caravela (no foral de Gaia, deste ano). De 1258 datam as menções seguintes de caravelas no litoral português, em inquirições realizadas respectivamente em Pindelo da Maia (que não sabemos se será exactamente a actual Mindelo) e em S.João da Foz. O contexto destas menções mostra claramente estarem relacionadas com actividades piscatórias nórdicas. Depois, em 1286, referem-se caravelas no foral da Póvoa de Paredes, localizada um pouco ao sul da Foz do Mondego, no litoral da região de Leiria (póvoa então a ser criada pela Coroa através da fixação de pescadores exteriores). E, em 1383, segundo o Com. Gomes Pedrosa, na própria vila de Buarcos, aquela que virá a ser senhorio do Infante D.Pedro… O curioso é que estas referências documentais são muito poucas, até à década de 30 e aos inícios da década de 40 do século XV (quando aparecerem as caravelas em Lisboa e no Algarve… começando a ser utilizadas no âmbito das guerras marroquinas e dos reconhecimentos africanos ordenados por D.Pedro e D.Henrique). Este tipo de embarcação (de origem pesqueira) deve ter continuado entretanto a ser utilizado sobretudo para a pesca. Adiante apresentaremos uma listagem das ocorrências que conhecemos deste navio na documentação já das décadas de 30 e 40, nas vésperas e nos inícios dos Descobrimentos. Nas suas origens a pesca oceânica no litoral português certamente se desenvolveu por influência das regiões mais a norte, nomeadamente da Galiza. Em 1291 não seria ainda auto-suficiente, constatando-se que, neste ano, por exemplo, a cidade de Coimbra ainda importa peixe da Galiza. Exemplos semelhantes se poderiam citar para muitas outras regiões do país, chegando até aos séculos XIV e XV. Será possível distinguir o que sejam pescadores ainda galegos, ou pescadores já portugueses? Pelas razões que temos exposto, julgamos que não é fácil, ou sequer possível, fazer essa distinção (dada a extrema especificidade e a pertinaz autonomia destas comunidades populacionais, e dados os ritmos dos fluxos e refluxos do seu movimento, no âmbito da grande influência nórdica plurissecular, de que temos falado). O comércio externo, naturalmente, desenvolveu-se em Portugal a par com a pesca. Desde o século XII se encontram notícias de mercadores portugueses a negociar um pouco por toda a Europa, desde a Flandres e Noroeste Europeu até ao Mediterrâneo Oriental. No século XIV este desenvolvimento iria ainda avolumar-se mais, e dar origem a cartas de privilégio e tratados internacionais tendo como objecto o comércio português. Já em 1293 os mercadores portugueses haviam criado uma bolsa de seguros e socorros mútuos, logo sancionada pelo Rei D.Dinis. De 1308 data um tratado de comércio celebrado pelos Portugueses com o Rei de Inglaterra. Com o Mediterrâneo os parceiros náuticos e comerciais privilegiados foram, naturalmente, os Genoveses (os mesmos cuja esfera de influência chegava desde o Mediterrâneo Ocidental até ao Noroeste Europeu). Em 1305 a Coroa portuguesa concedeu aos italianos Momedes e Bonanati licenças para a pesca do atum nas águas portuguesas (litoral alentejano). Em 1314 fora nomeado pelo Rei D.Dinis um Nuno Fernandes Cogominho, o Conde do mar, como almirante-mor, mas, como entretanto falecesse, logo em 1317 D.Dinis chamou a Portugal o genovês Emanuel Pezagno, para desempenhar e reorganizar as funções do almirantado (comando da frota real e organização de uma marinha de guerra equipada com galés de tipo mediterrânico, para o serviço no Estreito). Especialmente bem recompensados e obrigados a trazer consigo uma equipa de técnicos e marinheiros genoveses, os Peçanha (Pezagno) iriam manter na sua família o título de almirante de Portugal durante várias gerações. No ano seguinte foram feitos Senhores de Odemira. As actividades desta armada de galés deveriam incidir sobretudo no litoral sul e no Algarve — as mesmas regiões onde poderia existir alguma influência mediterrânica em técnicas pesqueiras como as das almadravas do atum, influência essa documentada pelos acima citados Momedes e Bonanati, mas que era bem menos dinâmica do que a influência contrária, de origem nórdica, que por esta época começará a varrer sistematicamente as costas portuguesas.


Em 1325 morreu D.Dinis e subiu ao trono português o Rei D.Afonso IV, em cujo reinado viria a ser por demais incentivado este dinamismo marítimo e piscatório nos litorais portugueses, que julgamos ser sobretudo de influência nórdica: galega, cantábrica e basca. Será no reinado deste Rei D.Afonso IV que os Portugueses começarão a aparecer no Sul nos reconhecimentos geográficos e na reivindicação de novos espaços ultramarinos, nomeadamente através da expedição portuguesa integrada pelos marinheiros genoveses ao serviço de Portugal que, c.1336, terá provavelmente redescoberto o arquipélago das Canárias, pondo fim ao seu desconhecimento medieval. Lanzarotto Malocello seria um destes marinheiros genoveses, e por isso uma das ilhas se chamou "de Lançarote", e foi depois representada nas cartas náuticas com o escudo de Génova. As ilhas quando foram descobertas eram habitadas pelos Guanches, de origem não muito bem identificada (que ao longo dos séculos seguintes foram sendo escravizados pelos colonizadores espanhóis, e acabaram por se extinguir). Em 1325, na primeira carta do cartógrafo mediterrânico Angelino Dalorto (Dulcert), ainda não vinham representadas estas ilhas das Canárias. Viriam a sê-lo depois, em 1339, na segunda carta deste cartógrafo Dalorto (Dulcert), que ostentaria duas ilhas do arquipélago das Canárias (uma delas, chamada Lançarote, sinalizada com uma bandeira genovesa), e igualmente a Madeira e Porto Santo, representadas já de uma maneira credível. Nesta época, em 1338, são pela primeira vez concedidos privilégios pela Coroa portuguesa a mercadores estrangeiros estabelecidos em Portugal. Em 1340 D.Afonso IV tenta proteger e fixar no Reino baleeiros (de origem exterior, certamente biscainha), arrendando o respectivo monopólio por 6 anos em todos os portos de Portugal e do Algarve a um mercador, que julgamos ser basco, chamado Afonso Domingues, dito Donzel, sediado em Peniche (lugar então pouco importante, próximo do Baleal e da então mais importante Atouguia da Baleia). É claro que todos estes topónimos indiciam já pescarias da baleia. Esta influência basca nas baleações em Portugal não deverá ser considerada como surpreendente, pois seria sempre de prever, e está de acordo com tudo aquilo que já se sabia: o constante pioneirismo e primazia dos biscainhos nesta actividade — primazia que, mais tarde, nos séculos XVI-XVII, em Portugal e no Brasil, voltará depois a manifestar-se (quando, durante o governo da Dinastia Filipina, importantes monopólios nesta actividade voltarão a ser arrendados a biscainhos). Os bascos — da Biscaia espanhola e do país basco francês — foram desde sempre (e sobretudo nos fins da Idade Média) os mestres indisputados na pesca da baleia. Esta influência nada tem de surpreendente, mas, curiosamente, foi até hoje em Portugal ignorada e confundida, talvez até por causa do que julgamos terem sido alguns equívocos, levando a que os historiadores portugueses dos Descobrimentos não se tivessem apercebido deste processo, que julgamos bem real, e bem indesmentível. Colocamos mesmo a seguinte hipótese: no documento respectivo, o que julgamos ser vazco não terá sido transcrito como vezio…? Em 1342, logo dois anos depois, o mesmo Rei D.Afonso IV deu foral à vila de Buarcos — que, como já dissemos, segundo Pinho Leal, viria a ser no século XV povoada por pescadores de origem setentrional e galega — e nós julgamos que já o estava a ser nesta mesma época (e nesta região da Foz do Mondego sempre existiu, e ainda hoje existe, tantos séculos depois, o nome Biscaia como nome de família). Este processo de colonização do litoral através de comunidades vindas do exterior era particularmente compreensível nesta época — e, nos anos seguintes, viria a ser contrabalançado (e tornado ainda mais útil?) pelas quebras demográficas causadas pela Peste Negra, que em 1348-1349 assolou violentamente Portugal. Escusado será enfatizar o significado sociológico da época da Grande Peste, como divisor de dois períodos na Idade Média: um período anterior em que dominou o ruralismo feudalizante e a pura economia senhorial, e um período posterior em que esse mundo entrou em convulsão, devido aos reflexos económico-sociais da grande quebra populacional. Entre esses reflexos está,


como sabemos, a crise dos campos e dos senhorios — e o consequente ascenso das zonas urbanas e portuárias, e das actividades comerciais. A crise política portuguesa dos fins do século XIV viria depois a ser também, em alguma medida, uma repercussão da crise económica e social que se arrastou desde os meados do século. O ascenso das actividades comerciais-marítimas e piscatórias é uma outra faceta disto mesmo: ele ocorre ao mesmo tempo que entram em decadência as unidades económicas senhoriais, centradas na terra. Em 1351 o mesmo Rei D.Afonso IV concedeu aos pescadores da Pederneira (correspondente à actual Nazaré) licença para pescarem no Algarve. Constata-se portanto que estes pescadores de mar alto, já instalados na costa portuguesa, estavam alargando as suas actividades. Certamente por isso em 1353 Portugal celebrou um tratado de comércio e pescas com a Inglaterra, permitindo aos pescadores portugueses pescarem nas águas inglesas e da Bretanha. Em 1357 sobe ao trono português o Rei D.Pedro. Ao mesmo tempo, são concedidos pela Coroa privilégios aos mercadores genoveses estabelecidos em Portugal, mas, neste mesmo ano de 1357, constata-se que são comerciantes da cidade do Porto quem negoceia nas frutas do Algarve, o que continuarão a fazer nos anos seguintes. Em 1359 o novo Rei D.Pedro confirmou baleações já existentes em Lagos. A partir desta data verifica-se que estas pescarias de mar alto estão já instaladas no Algarve, mas é fácil de perceber que são pescadores de origem setentrional. De resto, o mesmo continuará a acontecer com os tráficos comerciais: como já dissemos, em 1357 (e em 1361) quem aparece são comerciantes do Porto a negociar nas frutas algarvias. De 1412 datará um primeiro e extenso rol da repartição dessas frutas (vefificando-se que são ainda mouriscos e judeus muitos dos produtores e fornecedores locais). Em 1420, num revelador documento, a Coroa portuguesa esclarece como devia ser feita a taxação das dízimas sobre as pescarias em todo Portugal, e no Algarve. Aí é explicitamente referido — e fica claramente demonstrado — que os pescadores vão pescar ao Algarve e depois trazem o pescado para outras regiões. Eles eram, sem dúvida, do Norte e Centro. É óbvio que as actividades piscatórias que devem ter estado na origem das navegações dos Descobrimentos foram as baleeiras — e outras de mar alto — de origem nórdica, e não as de origem mediterrânica, como as almadravas do atum. Este tipo de pescarias de mar alto, de origem atlântica — basca, galega e portuguesa — existia no Algarve muito recentemente, e por influência do Norte, onde se situavam os seus verdadeiros centros irradiadores. Os primeiros navios utilizados nos reconhecimentos geográficos mostram isto mesmo. Sobre o que seriam as barcas e os barinéis iniciais, não parece possível aos historiadores terem uma noção muito segura, por falta de fontes precisas que os documentem. Acerca das barcas, que devem corresponder a uma designação muito genérica, não se sabe praticamente nada (e, no passado, até floresceram teorias infundamentadas que julgaram poder distinguir entre "barcas" e "barchas", etc). Também sobre os barinéis nada até hoje se adiantou. Na bibliografia portuguesa sobre estes temas, desde os esforços iniciais, tão antigos quanto meritórios, de oficiais de Marinha como Lopes de Mendonça e, mais recentemente, de autores como Pimentel Barata, parece não se ter dito nada de novo sobre estes assuntos. O que vamos deixar aqui é uma simples sugestão — da nossa parte, que não somos, nem pretendemos ser, especialista em arquitectura naval (e simplesmente temos conversado com colegas espanhóis). Perguntamos: não corresponderá o nome "barinel" à designação de um barco apropriado para a pesca da baleia, através da sua forma nórdica (cântabrica ou galega?) "balinel"? Julgamos que sim. E julgamos que isso pode ser relacionado com tudo o que acima dissemos acerca dessa influência setentrional — basca e galega — que até hoje tem sido menosprezada pelos historiadores dos Descobrimentos. A distribuição geográfica da palavra, nas suas mais antigas ocorrências documentadas, dá-nos razão… Porquê? Porque, como já escrevemos neste capítulo,


deveria ser originário do Norte (e muito provavelmente do Porto) o Afonso Gonçalves Baldaia que à costa africana foi mandado em 1435 e 1436, para a explorar, com o seu "barinel"… — e que, depois, no ano seguinte, foi recompensado com um cargo na cidade do Porto… — e que julgamos que só por erro de leitura da crónica de Zurara tem sido até hoje considerado como "copeiro" do Infante D.Henrique… (ou escanção da "Escola de Sagres"…). Além disso, citando cronologicamente: um "barinel" referem em 1437 os procuradores da cidade do Porto como sendo o tipo de navio em que antes haviam mandado buscar soldados e archeiros à Inglaterra, para ajudarem na campanha de Aljubarrota… Anos depois, em 1439, encontramos a menção de um "barinel", em Viana da Foz do Lima… Por 1441-1443 encontramos um João de Figueiró mestre do "barinel" de Aires Gomes da Silva… A partir desta época pode ter-se difundido mais, e aparecer também noutras regiões, mas a maior parte das referências continua a ocorrer sempre no Norte e Centro de Portugal, nas zonas de influência piscatória e galega. A barca (talvez) e o barinel (certamente) são de origem piscatória. E, sem qualquer margem de dúvida, dessa origem provém o terceiro tipo de navio utilizado nos Descobrimentos — o mais importante — a caravela… que depois tão revolucionária se tornará, a partir dos inícios dos anos 40. Por mais paradoxal ou polémico que isso possa parecer, nós julgamos que a caravela, e tudo o resto, vem do Norte e Centro de Portugal… E, apesar de até agora poucos autores o haverem notado, a verdade é que, como já vimos, a documentação conhecida dá-nos absolutamente razão… pois na verdade as primeiras menções de "caravelas" provêm do Norte, no século XIII (como já dissemos, foral de Gaia de 1255, inquirições em Pindelo da Maia e S.João da Foz, de 1258)… e só depois, em 1441, esses "revolucionários" navios aparecem de repente no Algarve e nos Descobrimentos, com Nuno Tristão… Tem até hoje havido toda a espécie de discussões, fantasias, suposições e especulações, acerca da origem e natureza destes navios chamados "caravelas", e acerca da etimologia do seu nome — considerando esse nome como proveniente de uma raiz árabe, etc. Até é possível que o nome tenha qualquer eco dessa raiz (se é que tem…), mas isso não significa taxativamente que tenha essa origem a realidade a que se refere, pois é sabido como existem nestas questões deslocamentos e deslizamentos semânticos que levam a que venham a ser chamadas da mesma maneira coisas bem diferentes. O que interessa é, verdadeiramente, a documentada origem geográfica. Não nos parece que possa haver a mínima dúvida deste facto insofismável, que as fontes claramente mostram: as primeiras "caravelas" — caravelas de pescar — surgem no Norte… e só depois, lentamente, muito mais tarde, aparecerão no Sul… Entretanto, aparecem no Centro: Paredes, e a importante vila piscatória de Buarcos… E depois teremos o documento de 1441 sobre navios na Foz do Mondego… Julgamos que neste alastrar da influência nórdica foram importantes as regiões do Ducado de Coimbra: Buarcos era um dos mais meridionais pontos de fixação de pescadores de origem galega. Retomemos a listagem cronológica das ocorrências de menções a caravelas na documentação que conhecemos. Depois das inquirições de 1258 em Pindelo da Maia e S.João da Foz, e das referências de 1286 no foral e confirmações da Póvoa de Paredes (pertencente ao Mosteiro de Alcobaça, e imediatamente ao sul do litoral do Ducado de Coimbra), temos a menção deste navio em 1383 em Buarcos (segundo o Com. Gomes Pedrosa). Depois disso, aparecer-nos-á nos anos 30 do século XV, nas vésperas dos descobrimentos, e depois nos anos 40, nesses mesmos descobrimentos, com os navios revolucionários comandados por Nuno Tristão… Em 1434 mencionam-se caravelas nos privilégios concedidos aos pescadores que morarem em Lisboa e abastecerem o mercado da grande cidade. São, obviamente, navios utilizados na pesca. Por ocasião da preparação da expedição a Tânger, c.1436, num texto régio diz-se que existia um grande número de caravelas na armada fretada


para levar os soldados e os suprimentos. Mas refere-se que, mesmo aí, muitas delas deveriam desenvolver actividades pesqueiras (para contribuir para o abastecimento do exército) — e diz-se que a maior parte deveria regressar rapidamente, pois faziam falta em Portugal, visto que asseguravam subsistências para as populações, e respectivos rendimentos fiscais para a Coroa. Esta necessidade de recorrer massivamente ao contributo destes pequenos navios pesqueiros (pouco adequados para guerra e transporte), no contexto da sabida falta de transportes que se tornou tão dramática para a expedição (e que levou também ao frete de muitas embarcações de Biscaia e de Inglaterra) parece ao autor destas linhas — embora nunca tenha visto isso referido na bibliografia — o momento decisivo em que se avolumou no sul a utilização destes navios de origem nórdica, momento que depois teve a sua continuidade com o início do seu uso para os reconhecimentos africanos, a partir de 1441. Numa visão simplista, dir-se-ia: o avolumar da presença deste tipo de navios no sul e no Algarve, por ordem do Rei D.Duarte, parece dar-se por causa de eles terem servido de transportes numa expedição marroquina comandada pelo Infante D.Henrique… apontando portanto para a ideia de que pudesse ter sido o próprio Duque de Viseu a reuni-los… e, logo depois, alguns anos mais tarde, a ter a ideia de os utilizar para irem mais para sul… Parece… Mas… a realidade é mais complexa… Pelas razões que temos mostrado, estes navios deveriam ser, na sua esmagadora maioria, originários do Norte e Centro. Quem foi que em 1436 organizou o levantamento das forças no Porto e no Norte, para essa expedição de Tânger? Como demonstrou Domingos Maurício Gomes dos Santos, esse organizador no Norte (e, por razões óbvias, certamente também no Centro) foi… precisamente… o Infante D.Pedro, Duque de Coimbra… Apesar de a sua posição pessoal até ser contra essa e outras aventuras senhoriais em Marrocos… o Infante D.Pedro, tendo recebido ordens reais, "não as sofismou", e não se recusou a assumir o encargo organizativo que nesse sentido recebeu do seu irmão Rei D.Duarte — e foi ele quem preparou as forças do Norte… Julgamos que foi assim que se deu no sul uma inusitada afluência desses pequenos barcos pesqueiros setentrionais… Num documento de 1440 cita-se uma caravela que em 1437 estivera integrada na esquadra que foi a Tânger, e que salvara muitos soldados na retirada. Nesse mesmo ano de 1440 menciona-se uma caravela integrada numa armada preparada no Algarve. A partir deste momento, vão suceder-se ininterruptamente (e cada vez mais numerosas) as menções a caravelas no Algarve e nos Descobrimentos. Enumeremos. Primeiro, desde logo, Zurara, em cuja crónica (escrita c.1453) se diz que no ano de 1441 foi enviado para o litoral africano Nuno Tristão com uma caravela. Depois, por ordem cronológica, encontramos as seguintes menções: 1443, privilégio de não lhe ser constrangida a sua caravela, para Gil Vaz, morador em Lagos, a pedido do Infante D.Henrique; 1446, título das Ordenações Afonsinas referente ao capitão-mor do mar (D.Álvaro Vasques de Almada, o grande amigo do Infante D.Pedro), autorizando-o a requisitar e constranger caravelas para o serviço real; 1449, ordem régia de reposição da jurisdição única do almirante para poder constranger caravelas e homens mareantes (emitida claramente contra o capitão-mor D.Álvaro Vasques de Almada e contra o fronteiro-mor do Algarve, Gonçalo Nunes Barreto, nas vésperas de Alfarrobeira); 1450, carta de quitação a Diogo Afonso Malheiro, referindo-se que ele em 1444 entregara a Gomes Pires e Lopo Fernandes do Condado, escudeiro do Infante D.Pedro, panos para serem comerciados no Rio do Ouro, numa caravela do Rei; 1452, uma caravela real portuguesa em Málaga; 1453-1454, caravela de Diogo Pereira levando mantimentos de Buarcos para Lisboa; 1454, confisco a um Afonso Fernandes por ter trocado ou vendido em Inglaterra a sua caravela; 1455, menção e elogio das caravelas portuguesas pelo veneziano Alvise de Cadamosto; 1455, caravela comerciando com Marrocos; 1456, capítulos de Cortes, referentes a Viana, Ponte de Lima e Vila do Conde, com privilégios de não constrangimento de caravelas locais para abastecimentos a Ceuta, etc; 1456,


carta de quitação a Gonçalo Pacheco, tesoureiro-mor de Ceuta, referente aos anos de 1451-1452, mencionando uma caravela de Afonso Furtado que levou pão de Buarcos para Ceuta, e uma outra, de João de Alvarenga, que levou igualmente pão do Mondego para a mesma cidade marroquina (e ainda um navio galego com a mesma proveniência e destino), e ainda uma outra caravela, do Rei, cujo mestre era Álvaro Fernandes (que julgamos poder ser o mesmo que, no tempo da Regência, em 1446, fez os até então mais longínquos reconhecimentos na costa africana), também com pão para Ceuta, e ainda uma outra caravela, que é indicada como sendo pertencente à Rainha (e que julgamos portanto ter-lhe ficado a pertencer por causa de ser herdeira do seu pai Infante D.Pedro). Em 1460 sabemos que estavam a ser construídas caravelas no Porto; no mesmo ano são referidas em actividades piscatórias na Pederneira, Paredes, Salir e Alfeizerão. Os exemplos continuam, mas não vale a pena continuar a listá-los daqui para a frente. Claro que, para futuro, as caravelas disseminaram-se cada vez mais por todo o país e pelo Algarve. Mas parece claro que, na origem, elas provêm das regiões do Norte e Centro do país (onde, por isso mesmo, ficaram para sempre mais abundantes na documentação). Como adiante diremos num próximo capítulo deste livro, julgamos que as regiões do Norte e Centro de Portugal foram importantes não só na primeira metade do século XV — no tempo do Infante D.Pedro — mas também depois, na segunda metade do século, no tempo do seu sucessor no Senhorio das regiões do Ducado de Coimbra… o seu neto… o Príncipe D.João, depois Rei D.João II… desde a juventude Senhor de Montemor-o-Velho, de Aveiro e de Buarcos… in Alfredo Pinheiro Marques, A Maldição da Memória do Infante Dom Pedro e as Origens dos Descobrimentos Portugueses, Figueira da Foz: Centro de Estudos do Mar, 1994 [1995], "Capítulo 3 - O Infante D.Pedro nos Descobrimentos e na História Local e Regional"

(…) o Príncipe Perfeito conseguiu reunir, e tomar sobre os seus ombros, não só a herança do seu avô Infante D.Pedro, mas também a herança longínqua do infante D.João, aquele irmão que outrora fora o grande amigo (e apoiante da política metropolitana e ultramarina) do Regente Duque de Coimbra. Quem diz Ordem de Santiago diz a península de Setúbal e o Alentejo litoral, dominados por essa Ordem. Na confluência destas duas heranças reside, sem dúvida, a chave do sucesso de D.João II. Isto significou que o Príncipe Perfeito, ainda antes de ser Rei, dominou praticamente todo o litoral do país, desde os litorais Norte e Centro, que sempre haviam sido pertencentes ou aliados do Ducado de Coimbra, até ao litoral alentejano, da Ordem de Santiago da Espada — a mesma Ordem que no passado havia sido encabeçada pelo Infante D.João apoiante da Regência de D.Pedro… a mesma Ordem que para futuro ficaria sempre indissoluvelmente ligada ao Ducado de Coimbra… — pois a seguir a D.João II assim continuaria, sob o Mestrado de D.Jorge de Lancastre, o seu filho bastardo, e portanto bisneto do Infante D.Pedro. As navegações e descobrimentos continuaram assim no tempo do neto, feitas pela mesma gente que já as havia feito no tempo do avô… o Ducado de Coimbra e os seus aliados mercadores do Norte… e a Ordem de Santiago da Espada, da península de Setúbal e do Alentejo litoral — bem mais e melhor do que o Ducado de Viseu e a Ordem de Cristo! Os Descobrimentos Portugueses, nos inícios e na fase decisiva, na primeira e na segunda metade do século XV, foram ordenados pela Coroa e pela Casa de Coimbra — com os mercadores e pescadores do litoral Norte e Centro, e com a Ordem de Santiago da Espada (do litoral alentejano) — e não pelo Ducado de Viseu-Beja e pela Ordem de Cristo… (que nem sequer tinham saída para o mar… e que com o mar sempre tiveram pouco a ver…), apesar das contínuas manipulações historiográficas


com que, para futuro, se lhes atribuiu essa glória… Este processo parece não ter sido até hoje compreendido pela historiografia portuguesa. Ou tem sido escamoteado. Na verdade, ainda está por fazer a história do Rei D.João II — o verdadeiro responsável dos Descobrimentos, o maior Rei da História de Portugal. (…) A boa metodologia para se compreender o maior Rei da História de Portugal é fazer aquilo que até hoje nunca havia sido feito, mas que nós vamos agora aqui praticar: em vez de se tentar compreender a época e os contemporâneos a partir da influência (em termos individualísticos ou "heróicos") do Grande Rei… dever-se-á compreender e explicar o Grande Rei a partir da influência dos seus fiéis, amigos e servidores. Dever-se-á integrar o Homem no seu tempo. É um simples — e necessário — exercício de ultrapassagem da História "heróica". É hoje em dia forçoso ultrapassar as concepções da História à maneira do "Culto dos Heróis" de Carlyle (do século passado), ou dos "Cultos da Personalidade" do Salazarismo e do Estalinismo (dos anos 30 deste século). É hoje em dia forçoso compreender cada época e os seus movimentos colectivos. Compreender os Homens: todos os homens. (…) Este aspecto não havia até agora sido notado na historiografia portuguesa, mas o autor destas linhas afirma-o neste momento, e vai para futuro desenvolvê-lo: a historiografia portuguesa dos Descobrimentos falhou até agora numa tarefa que é importante, e que não deveria nunca ter sido menosprezada, ou verdadeiramente ignorada, como a maior parte das vezes, infelizmente, foi… É que, sendo certo que os avanços decisivos dos Descobrimentos Portugueses são os da segunda metade do século XV, do tempo do Rei D.João II (repressão do feudalismo e estabelecimento de um Poder moderno na metrópole, defesa do Golfo da Guiné e passagem para além dele, concepção e execução sistemática de um "Plano da Índia", desenvolvimento da Náutica Astronómica e de outros aspectos técnicos e científicos, tentativa de aplicação de uma "Política de Sigilo", início da Missionação dos povos africanos, enfim, tudo o que, interligado, é a política ultramarina de D.João II) — sendo certo que tudo isso é o decisivo acelerar dos Descobrimentos… não se procurou investigar e esclarecer uma dimensão essencial: não se procurou esclarecer a dimensão técnica e humana desse processo… Não se tentou averiguar "como é que isso foi feito" e, sobretudo, "quem o fez"… Não se procurou, com verdadeiro empenhamento, saber algo que é importantíssimo… (e que é incrível como na verdade nunca foi sistematicamente investigado e esclarecido): não se procurou saber de que regiões são originários os homens de confiança e os navegadores de D.João II… Quando alguém neste mundo manda fazer alguma coisa, chefia homens… e usa meios materiais e técnicos. Uma boa pista para compreender o que é que está a ser feito… é compreender quem faz… — quem são os colaboradores… os executores… utilizáveis… e utilizados… por quem mandou fazer… Assim, quando o autor destas linhas colocou esta hipótese, e resolveu seguir esta pista, procurou investigar algo que achou muito estranho que até então nunca houvesse sido feito: inventariar sistematicamente as origens e proveniências regionais dos guerreiros e dos navegadores da segunda metade do século XV, ao serviço da política e dos Descobrimentos de D.João II… De facto, em Portugal tanto se fala de Descobrimentos, repetindo velhos lugares-comuns já sabidos, e retóricas antiquadas… e no entanto não se fazem investigações assim básicas (e que é imperdoável que ainda não estejam feitas…). O autor destas linhas nunca se satisfez com a estranha situação vigente na historiografia portuguesa: "resolver" o problema dos Descobrimentos considerando que são importantes os dirigentes que os ordenaram, e esquecendo a identificação completa dos homens que os executaram… — "resolver" (e arquivar…) o problema dos Descobrimentos considerando que os navegadores da primeira metade do século XV (os "do Infante D.Henrique"…) deveriam ser provenientes do Algarve ("Sagres", etc…


tudo lendas… tudo mentiras…), e que os da segunda metade do século XV, do tempo do Rei D.João II, deveriam ser, na sua maior parte, "de proveniência desconhecida"… Como desconhecida? Pois é lá crível que uma questão como esta, tão importante e tão decisiva (e reveladora para outras problemáticas…), não esteja resolvida, nem se façam sobre ela investigações sistemáticas?… Resolvemos portanto seguir esta pista. Os resultados a que chegámos parecem-nos ser suficientemente seguros e indesmentíveis. Independentemente de mais tarde os desenvolvermos, consideramo-los já como suficientemente sólidos para agora aqui os apresentarmos. Julgamos que eles permitirão trazer nova luz à História dos Descobrimentos Portugueses. Nova luz acerca da sua natureza, origem e causalidade. E acerca da influência que neles teve o homem assassinado em Alfarrobeira — mesmo mais tarde, no tempo do seu neto Príncipe Perfeito… A primeira conclusão a que chegámos (e que já apresentámos num capítulo anterior deste livro) é a de que os Descobrimentos iniciais, os da primeira metade do século XV — os do "período do Infante D.Henrique" — não deverão ter sido todos, nem mesmo a maior parte… executados por navegadores do Algarve, às ordens do Infante D.Henrique… Deverão ter sido levados a cabo também (e sobretudo…) por navegadores de outras proveniências regionais… nomeadamente vindos do Norte do país e da faixa atlântica do Ducado de Coimbra, pertencente ao Infante D.Pedro… Esta primeira conclusão, como se vê… já era de algum alcance… e talvez passível de ser considerada polémica e provocatória… Mas, a nossa segunda conclusão ainda o é mais… É que julgamos ter chegado à conclusão de que os Descobrimentos decisivos, os da segunda metade do século XV — do "período de D.João II" — foram todos, ou ao menos a sua maior parte… executados por navegadores do Norte e do Centro de Portugal… nomeadamente da faixa atlântica do Ducado de Coimbra, outrora pertencente ao Infante D.Pedro… e entretanto controlada pelo seu neto e herdeiro político Rei D.João II… cabeça da Casa de Coimbra, Senhor de Montemor-o-Velho, de Aveiro e de Buarcos… (…) Depois deste longo parêntesis que fizemos, para de forma alargada inventariarmos os homens de confiança e guerreiros que ao longo de toda a vida iriam rodear e apoiar D.João II, forçoso é concluir que, como no princípio dissemos, eles são provenientes do litoral do país: ou do Baixo Mondego e do litoral Centro, que sempre haviam sido pertencentes ou aliados do Ducado de Coimbra, ou do litoral alentejano, da Ordem de Santiago da Espada (que para efeito da estratégia de navegações ultramarinas igualmente sempre lhe fora aliada). D.João II foi, efectivamente, "Duque de Coimbra": senhor das terras e dos homens que antes haviam sido de seu avô. Documentadas e provadas tantas ligações como as que acima listámos — que vão desde a aia até ao camareiro-mor… e aos homens de mão… e ao chefe da guarda pessoal… e ao médico… e chegam mesmo até ao confessor… (e alguma ligação mais haverá… de que ainda não falámos… e bem íntima… de que neste capítulo ainda havemos de tratar…) — não pode haver dúvidas da tese que postulamos: D.João II foi senhor do Ducado de Coimbra, e por isso foi quem foi e fez o que fez. À pergunta que eventualmente poderia ser posta — mas então por que é que nunca viveu regularmente ou se demorou com mais tardança nessas regiões do Baixo Mondego, de Aveiro e do Norte, onde estavam as raízes dos seus principais servidores e aliados? — a resposta é óbvia: os problemas, as inimizades e os adversários com que ao longo da vida continuamente teve que se confrontar, estavam no Sul… (quer problemas internos, criados pelas conspirações da grande nobreza feudal… quer problemas externos, criados pela ameaça castelhana…). Por isso o Rei teve que viver quase continuamente nesse Sul, e circulou sobretudo num quadrilátero definido por Setúbal, Lisboa, Santarém e Évora, acolhendo-se sempre que possível à protecção próxima da sua Ordem de Santiago da Espada, mas tendo que tomar muitas


vezes o caminho de Évora, pelas Alcáçovas — para vigiar de perto a nobreza feudal alentejana e o inimigo estrangeiro castelhano, as duas ameaças que, a partir de Vila Viçosa (Ducado de Bragança) e de Beja (Ducado de Viseu), e a partir da fronteira, sempre deram mostras de se coligarem e de representarem o maior perigo para o monarca e para o país. in Alfredo Pinheiro Marques, A Maldição da Memória do Infante Dom Pedro e as Origens dos Descobrimentos Portugueses, Figueira da Foz: Centro de Estudos do Mar, 1994 [1995], "Capítulo 5 - A Casa de Coimbra nos Descobrimentos: do Infante D.Pedro ao Rei D.João II"

Iludida pela alegada importância do Infante D.Henrique, a maior parte da historiografia sobre os Descobrimentos Portugueses — mesmo quando bem intencionada — tem até agora laborado em erro. A Casa de Viseu-Beja e a Ordem de Cristo (desde o Infante D.Henrique até ao Rei D.Manuel) não foram decisivas — ou sequer particularmente pioneiras e importantes — nos momentos cruciais dos Descobrimentos Portugueses. E mesmo nos da Expansão e Colonização, que se seguiram, foram-no só de forma medíocre: foram-no nos aspectos económicos, da tributação senhorial a que tinham direito, devido às grandes atribuições que foram concedidas à Ordem de Cristo das rendas de muitas das novas terras (viveram disso… não o fizeram…). Se esse longo protagonismo coube a alguma Casa senhorial, ela foi a Casa de Coimbra… — para além, claro, do Povo Português que, esse sim, foi sempre o verdadeiro protagonista. Quem foram os verdadeiros responsáveis dos momentos cruciais dos Descobrimentos, nas suas diversas fases? Sintetizando, poderíamos dizer: no século XIV, época de pré-preparação… tratou-se de um lento amadurecer sociológico e desenvolvimento comercial-marítimo dos litorais portugueses, dos pescadores e dos mercadores do Norte e Centro (a "formação democrática de Portugal" de que falou Jaime Cortesão); na primeira metade do século XV, época dos desenvolvimentos pioneiros e embrionários… os responsáveis foram a Coroa de Portugal (Rei D.João I, Rei D.Duarte, Regente D.Pedro) e depois também a Casa de Coimbra (Regente D.Pedro), a Ordem de Santiago, e a Casa de Viseu-Ordem de Cristo (Infante D.Henrique); na segunda metade do século XV, época dos desenvolvimentos decisivos… os responsáveis foram primeiro a iniciativa privada (mercadores como Fernão Gomes) e depois sobretudo a Casa de Coimbra e a Ordem de Santiago (Príncipe D.João), e em seguida, mais ainda, a Coroa de Portugal (do Príncipe Perfeito já aclamado Rei, mas sempre usando a sua Casa de Coimbra e a sua Ordem de Santiago); por fim, nos últimos anos do século XV e primeiros anos do século XVI, época da colheita dos frutos… os responsáveis foram… no que diz respeito às intervenções decisivas, os cavaleiros da Ordem de Santiago, Vasco da Gama, D.Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque… os antigos colaboradores de D.João II, originalmente pertencentes à Ordem de que era Mestre o herdeiro da Casa de Coimbra (D.Jorge de Lancastre)… e, no que diz respeito à verdadeira colheita dos frutos, e à escrita da História… por fim… a Coroa de Portugal, tornada sinónimo da Casa de Viseu-Beja e da Ordem de Cristo (Rei D.Manuel)… Ao contrário do que até agora se tem julgado e se tem infindavelmente repetido, nos Descobrimentos Portugueses não foram na verdade decisivas a Casa de Viseu e a Ordem de Cristo (do Infante D.Henrique até ao Rei D.Manuel). Foram-no, sim, o Infante D.Pedro e o Rei D.João II. A Casa de Coimbra. O momento decisivo em que se definiu o destino de Portugal — o momento do triunfo da vocação atlântica do país e do início dos Descobrimentos e Encontros Ultramarinos que iriam mudar a História do Mundo — foi o tempo do Infante D.Pedro de Coimbra. E depois, na geração seguinte — mais ainda — foi o tempo do seu neto e herdeiro político:


o Rei D.João II, o Príncipe Perfeito, (…) dos seus povos mui querido e dos grandes mui temido (…), o soberano justiceiro e modernizador que abateu a nobreza feudal; o Príncipe que, já desde a juventude, era cabeça da Casa de Coimbra; o Senhor de Montemor-o-Velho, de Aveiro e de Buarcos; o governador e Mestre das Ordens Militares de Avis e de Santiago da Espada; o Príncipe Perfeito que, usando os homens do Ducado de Coimbra e da Ordem de Santiago, impulsionou decisivamente os Descobrimentos Portugueses. D.João II usou como divisa: Pela Lei e pela Grei. E no seu ouro africano mandava cunhar a legenda: (…) o justo florescerá como a palmeira (…). E no seu brasão usou a ave exótica que foi conhecida devido às navegações, e que se julgou que tirava sangue do próprio peito para alimentar os filhos. O neto do Infante D.Pedro foi o maior Rei da História de Portugal, e foi o verdadeiro responsável dos Descobrimentos Portugueses. Dele disse o cronista (…) pareceu mui claro que era próprio e verdadeiro coração da República (…). Para além de tudo mais, como julgamos ter demonstrado longamente nas páginas deste livro, é para nós claro e indesmentível que em Portugal as navegações, os "Descobrimentos", as tecnologias náuticas, as expansões comerciais e demográficas, originaram-se sobretudo no Litoral Noroeste… no Norte e Centro… — onde está (sempre esteve… e ainda hoje continua a estar…) o dinamismo demográfico, económico e social criado pela iniciativa privada e pela concentração das populações. Como mostrámos nos capítulos "O Infante D.Pedro nos Descobrimentos e na História Local e Regional" e "A Casa de Coimbra nos Descobrimentos do Infante D.Pedro ao Rei D.João II" quem tinha saída para o mar, e interesses em actividades marítimas, e portos, e navios, e estaleiros de construção naval, e actividades de pesca e salinicultura — e portanto tinha especiais razões para dinamizar todos esses processos — eram as regiões mercantis e piscatórias do Norte (povoações burguesas como o Porto, Viana, etc) e era o Ducado de Coimbra (Aveiro, Ílhavo, Mira e Buarcos) e os outros portos do Centro de Portugal (Pederneira, Salir, Atouguia e Peniche, até Lisboa), e era a Ordem de Santiago (península de Setúbal e Alentejo litoral). Não eram, nem podiam ser, o Ducado de Viseu e a Ordem de Cristo! Como poderiam o Ducado de Viseu e a Ordem de Cristo (e o ducado de Beja, que depois lhes foi associado) fazer os "Descobrimentos"? Com que homens? Com que navios? Com que portos? (para tentar "responder" a esta última pergunta… tão escandalosamente óbvia… é que foram inventados mitos e mentiras como os de Sagres…). Onde estão, ainda hoje, os portos oceânicos das regiões do Ducado de Viseu (Beira Alta e Beira Baixa), da Ordem de Cristo (Beira Baixa e Ribatejo interior) e do Ducado de Beja (Baixo Alentejo interior)? Algum historiador henriquista no-los consegue mostrar? Como repetidamente dissemos ao longo deste livro, na verdade em Portugal tem-se sempre tentado (e muitas vezes tem-se conseguido…) tapar o sol com uma peneira… A única coisa que o Duque de Viseu e a Ordem de Cristo tiveram foi a transferência de um direito régio (transferido por um determinado Regente…) de cobrar impostos sobre essas actividades económicas: sobre essas navegações e sobre esses comércios. Não as financiaram. Não as dinamizaram. Financiaram-se com elas (exercendo um direito de tributação senhorial que lhes foi atribuído), e só por isso nelas tiveram interesse. O que efectivamente depois aconteceu foi que vieram a manter esse direito e esse interesse… — para sempre, cada vez mais… (mesmo depois do assassínio do Regente que tinha feito a atribuição original…). Onde está a documentação arquivística da Ordem de Cristo ou do Ducado de Viseu em que se mostre que eram essa Ordem e esse Ducado (e não os mercadores e armadores privados) quem pagava, em percentagem minimamente significativa, a


armação dos navios usados nos Descobrimentos? Alguém até hoje viu essa documentação? Os historiadores henriquistas que a apresentem… (já deviam tê-la apresentado há muito, em vez de acumular retóricas e mitos). Onde estão os documentos de arquivo que provem, para além de qualquer dúvida, a importância exclusiva do Infante D.Henrique, e do Ducado de Viseu, e da Ordem de Cristo, nos "Descobrimentos"? Qualquer historiador digno desse nome sabe, ou tem obrigação de saber, que fontes narrativas como as de Zurara e seus seguidores, produzidas a posteriori, numa situação de manipulação e silenciamento político tão descarada como a que se seguiu à batalha de Alfarrobeira, não valem nada. Seriam precisas outras fontes para as corroborar — arquivísticas e isentas, e anteriores a 1449. Onde estão? Alguma vez os henriquistas as apresentaram, até hoje? Alguém já viu essas provas? Por que é que não existem? Por causa do "Terramoto"…?!!! E por que é que, pelo contrário, há fontes isentas, cartográficas, estrangeiras, que desmentem Zurara e a sua versão de ter sido o Infante D.Henrique o responsável único dos Descobrimentos? São estas as perguntas a que os henriquistas têm que responder. Quem tem que — de uma vez por todas… — apresentar verdadeiras provas do que afirma, são os historiadores henriquistas. Ou então calar-se de vez (e explicar como puderam estes mitos durar tanto…). Em Portugal existem hoje liberdade de expressão e liberdade de investigação científica. Não é possível continuar a impor uma versão da História que é (e sempre foi…) infundamentada, abusiva e errónea. Sempre foi… — e só através de ilegítimas pressões e censuras políticas pôde no passado ser mantida. Tudo o que nos capítulos anteriores dissemos sobre o contributo das regiões do Norte e Centro de Portugal para as navegações e Descobrimentos, deve ser compreendido tendo em conta algo que nos séculos passados era muito evidente (era-o mais do que hoje… e ainda agora é perfeitamente inegável…). Referimo-nos às especiais capacidades das populações do Litoral Noroeste em relação a todas as actividades marítimas, nomeadamente o comércio de longo curso e, sobretudo, a pesca de alto mar e a construção naval em madeira. Ninguém pode negar esta tão óbvia realidade — que, no século passado, e neste século, era ainda por demais visível. Ainda recentemente os pescadores por exemplo da Póvoa de Varzim — no tempo de figuras como o "Cego do Maio" — eram perfeitamente únicos no seu género. Na sua perícia e na sua coragem não podiam ser comparados com nenhuns outros. Porquê? Porque eram vagas recentes de um processo multissecular, de longa duração, que já vinha desde há muito (e, por isso, estes homens, quanto mais recentemente vindos do Norte, mais capazes eram no mar). Quanto à construção naval ou à armação de frotas pesqueiras — de lugres bacalhoeiros ou de quaisquer outros dos últimos navios à vela — ainda até há alguns anos (até ao fim…) era indesmentível o primado por exemplo de Aveiro. É perfeitamente evidente que estas realidades não eram, nem podiam ser, recentes (estas coisas nunca podem ser recentes, pois têm que ter uma espessura temporal… demoram muito tempo a amadurecer). Este primado do Noroeste é simplesmente a repercussão na Época Contemporânea (nos séculos XIX-XX) de uma longa tendência que já vinha dos séculos anteriores (XIII-XVIII). Os historiadores e sociólogos das comunidades marítimas e piscatórias sabem-no bem: nos séculos passados a influência dominante processou-se de Norte para Sul, ao longo da Hispânia Atlântica. Desde os fins da Idade Média, foi do Noroeste Litoral — da Galiza e do Norte de Portugal — que vieram sempre os homens habituados ao mar alto, e com eles a construção dos navios e as restantes técnicas para isso adequadas. Daí vieram — do "Porto de Portugal" e de todas as outras regiões setentrionais — mesmo quando, depois, no seu progressivo alastrar para Sul, se estabeleceram no Centro ou em Lisboa, ou no Algarve. Isto, que se passou em Portugal, passou-se em Espanha exactamente da mesma maneira, com a influência biscainha, cantábrica e galega, na Andaluzia.


Como mostrámos nos capítulos "O Infante D.Pedro nos Descobrimentos e na História Local e Regional" e "A Casa de Coimbra nos Descobrimentos do Infante D.Pedro ao Rei D.João II" os "Descobrimentos" nunca poderiam ter sido feitos por navios do Algarve! Foram feitos por navios do Norte… Navegação faz-se com navegadores: gente habituada às actividades marítimas e piscatórias de alto mar. E não é segredo para ninguém — em nenhuma época, em nenhuma parte do mundo — que é o mar mau que faz os navegadores bons. De resto, este processo técnico e sociológico simplesmente acompanhou o processo político. Portugal é isto mesmo: um Norte que alastrou para Sul. E Norte, no início (e antes do início…), quer dizer Galiza… Portugal e a História portuguesa podem na verdade ser vistos à luz de uma análise que se poderia dizer quase freudiana, tentando fazer a identificação profunda desta realidade colectiva e das suas origens — tentando descobrir a sua identidade — como recentemente tem feito a moderna historiografia portuguesa, nomeadamente sob o influxo da obra do Prof. José Mattoso. Para compreendermos esta importância do Litoral Noroeste de Portugal, deveremos ter em conta os contributos de autores precursores como Alberto Sampaio (ou, nos nossos dias, Octávio Lixa Filgueiras e o Com. Fernando Alberto Gomes Pedrosa) e, sobretudo, deveremos voltar à tese inicial de Jaime Cortesão, brilhante intuição que para sempre ficou na sua obra, em que postulou o dinamismo comercial-marítimo decorrente das características sociológicas e geográficas de Portugal, e particularmente do Litoral Noroeste. Houve realmente desde sempre um dinamismo do Litoral Norte e Centro: dinamismo económico dos pequenos portos da altura, dinamismo social destas populações. Estes portos eram muitos mais do que são hoje — até em locais agora insignificantes no que diz respeito a construção naval e comércio marítimo, como S.Martinho e Salir, Mira, Paredes. Na altura eram significativos: construíam navios, tinham actividades económicas ligadas ao mar, as populações emigravam. A toda a hora iam homens, em navios pequenos (por exemplo até em caravelões, que são caravelas pequenas), para o Brasil. Iam e vinham, e continuamente aparecem na documentação. Todo este dinamismo económico do Norte de Portugal foi teorizado por Jaime Cortesão e articula-se com a sua tese sobre os "factores democráticos na formação de Portugal". Significa um precoce desenvolvimento comercial burguês nestas zonas do Norte do país, desenvolvimento esse que de resto se articula com aspectos de modernidade que vieram ao de cima na crise dos finais do século XIV — e, depois, também, com a política de modernidade e de desenvolvimento comercial que tentaram impor o Regente D.Pedro e o seu neto Rei D.João II. Como já dissemos, não é por acaso que o Regente teve uma especial simpatia, e muitos partidários, no Porto, a cidade desde sempre burguesa e "democrática". Tudo isto, visível na obra de Cortesão sobre os Descobrimentos, se articula depois também com a sua obra brasileira. Porquê? Porque, como ele muito bem demonstrou, há uma radical diferença entre as diversas expansões ultramarinas portuguesas: existe por um lado a do século XVI, centrada na "Rota do Cabo", na Índia, na pimenta, em Lisboa (expansão centralizada, estatizada, com grandes capitais, muitas vezes estrangeiros), e existe depois a dos séculos XVII e XVIII, que é dinamizada pelo Litoral Norte (iniciativa privada, pequenos e médios portos, pequenos e médios meios de negócios, pequenos e médios navios). No Norte, mesmo que a escala seja mais pequena, é todo um tipo de processos diferentes, aquilo a que hoje em dia se chamaria um "dinamismo da sociedade civil", um desenvolvimento do mercado e da sociedade. Há uma radical diferença nisto, e Cortesão foi o grande pioneiro da sua compreensão e da sua explicação. A Índia quinhentista, a "Rota do Cabo", é um processo monopolista, um processo estatizado, um empreendimento da Coroa (com capital estrangeiro). Os navios saíam de um porto único, e só a ele regressavam. Escusado será dizer que esse grande porto cada vez cresceu mais, e é essa a origem da principal maldição que a partir daí se avolumou cada vez mais sobre Portugal: a macrocefalia lisboeta.


Lisboa engordou centralizando o Império Ultramarino, com os seus grandes navios, com os seus grandes meios de negócios — que, de resto, não são a maior parte das vezes portugueses, e têm como base financiamentos estrangeiros: dinheiros do centro da Europa, italianos, alemães, flamengos, avolumando cada vez mais a deficitária balança comercial portuguesa. Morto D.João II, entronizado D.Manuel, posto em funcionamento o esquema comercial que vai de Antuérpia a Calecut passando por Lisboa, Portugal fica para sempre uma "semi-periferia", na terminologia de Immanuel Wallerstein, não conseguindo fixar a riqueza e não conseguindo industrializar-se (simplesmente fazendo uma "Política de Transporte", na terminologia de António Sérgio). O Rei português endivida-se cada vez mais. De facto, o Rei português comporta-se como aquilo que é: como um fidalgo alentejano… como um aristocrata sem capacidade económica empresarial e sem modernidade capitalista. No prazo de uma geração "dá cabo do negócio": rapidamente decai o Império do Oriente. Toda a gente neste mundo se comporta como aquilo que é. E ninguém — nem mesmo quando bem intencionado — pode facilmente libertar-se do peso das maldições que sobre si fez cair o atraso estrutural (o arcaismo económico e o subdesenvolvimento cultural). Nem mesmo qualquer voluntarismo conjuntural ou vontade política mais excepcionalmente esclarecida pode facilmente alterar o que é constitucional. Ninguém deixa de ser condicionado pelos bloqueamentos estruturais decorrentes da falta de desenvolvimento (falta de cultura e falta de modernidade) do mundo em que vive, em que foi criado, e que vai recriar. O futuro é sempre o futuro possível. O Poder é, naturalmente, o vértice último onde tudo isto se joga. É evidente que o Rei D.Manuel não teve o rasgo, a modernidade, a visão, do Rei D.João II. Em História, o que foi foi. E não vale a pena especular sobre o que poderia ter sido… (neste caso, o que poderia ter sido se esse Príncipe Perfeito não tivesse morrido como morreu, aos 40 anos de idade, e tivesse tido tempo para solidificar a sua política de modernidade…). O que foi, foi. E, se foi, era porque tinha de ser… (e a hipotética alternativa era menos procedente e menos própria e provável para o país e a sociedade em causa…). O que é preciso é compreender a mecânica do processo, e tirar lições para o Futuro. É para isso que deveria servir a História. O Império do Índico que cresceu à volta do que Vitorino Magalhães Godinho chamaria o "complexo histórico-geográfico" da Rota do Cabo foi um Império baseado na pimenta comprada com capitais estrangeiros (a ruinosa "Política de Transporte", segundo António Sérgio), baseado no centralismo estatizado e sediado em Lisboa — controlado feudalmente pelo Rei de Lisboa. A primeira coisa que o Rei D.Manuel fez, em 1499, foi pôr a funcionar a feitoria da Flandres como sendo o verdadeiro fim das rotas comerciais ultramarinas portuguesas. E foi aí que realmente vieram a acabar as riquezas do Oriente. Lisboa nunca viria a ser aquilo que Fernand Braudel chamaria uma "cidade-mundo". Portugal nunca viria a ser mais do que uma "semi-periferia" dessa "economia-mundo europeia" que então estava em expansão para mais tarde se vir a tornar numa economia mundial, segundo Immanuel Wallerstein. Tudo viria a acabar — os Portugueses nos meados do século XVI já estavam em crise (como mostrou Magalhães Godinho), e nos fins do século XVI estariam com dificuldades insuperáveis, e em ruptura completa (além do mais, surgiram então nos espaços ultramarinos novos competidores como os Holandeses). Quando tudo isso acabou, quando o "Estado da Índia" explodiu para dentro e se desmoronou, quando falhou a própria solução de recurso então ensaiada (a união política e a aliança com os Castelhanos e com a sua prata americana…) o que é que veio ao de cima? O que é que verdadeiramente ficou, e veio depois ser o novo ponto de partida? O que é que floresceu e veio a ser o Império seguinte? Foi o Brasil e o Atlântico Sul… os interesses luso-brasileiros e luso-afro-brasileiros. As teses de Jaime Cortesão articulam-se todas. A colonização do Brasil nos séculos XVI-XVII (que ele


depois estudou melhor do que ninguém) é directamente decorrente desse especial dinamismo "democrático" do Portugal Norte e Centro-Litoral, e dos seus recursos demográficos, económicos e sociais. Foi sobretudo gente dessas zonas que construiu o Brasil. Os comércios brasileiros foram feitos por pequenos e médios meios de negócios, pequenos e médios navios, pequenos e médios portos, locais que hoje em dia são quase insignificantes, mas que na altura eram portos onde se construíam navios, e de onde continuamente partiam esses navios. Atouguia da Baleia (depois Peniche), Salir do Porto (e depois São Martinho), Pederneira (depois Nazaré), Buarcos (apesar das perseguições da Inquisição), Mira, Ílhavo e Aveiro (esta última com um grande florescimento, embora mais tarde decaísse, devido ao assoreamento da barra), a cidade do Porto (desde sempre importante o "Porto de Portugal"), e Matosinhos, e Vila do Conde, e mais ainda Viana (Viana da Foz do Lima, hoje em dia chamada Viana do Castelo) e Caminha, foram os centros deste dinamismo democrático das populações e do comércio, da burguesia portuguesa que contribuiu para a formação do Brasil. Claro que o Brasil se formou sob o controlo e a coordenação oficial da Coroa portuguesa, mas formou-se como algo dinamicamente vivo, devido à iniciativa privada (e por isso a influência cultural portuguesa no Brasil foi tão funda, e ficou para sempre). Porque, de facto, mais do que o Estado português, mais do que o Rei de Lisboa, o que aí se instalou foram as populações portuguesas, que aí fizeram a sua nova casa, e aí criaram um novo País. Populações que, não por acaso, eram sobretudo populações do Litoral Norte e Centro de Portugal. Há todo um dinamismo do litoral Norte e Centro de Portugal. Jaime Cortesão teve uma enorme sensibilidade para compreender isto. Foi, também neste aspecto — podemos dizê-lo — um homem que uniu a História e a Vida. Teve uma compreensão do Passado como deve ser compreendido: com raízes que chegam ao Presente, e apontado para o Futuro. E foi um homem da Beira — da Beira Litoral. Um homem da terra. Na sua obra, mostrou-nos a importância histórica destas áreas regionais — importância que têm tendência a esquecer os historiadores que vêem tudo pela óptica das grandezas de Lisboa… anacronicamente esquecendo que essas grandezas datam somente dos últimos séculos, correspondem a um processo em marcha, que se está a avolumar (e, de facto, está-o cada vez mais…), mas que, no passado, não era tão esmagador como é agora… No "tempo dos Descobrimentos" não era assim… Começou a sê-lo depois, no século XVI, no tempo da Rota do Cabo, da Índia, e da Dinastia Manuelina… e foi a partir daí que nunca mais parou. Como disse Sá de Miranda nos seus célebres versos: (…) Não me temo de Castela / donde guerra inda não soa / Mas temo-me de Lisboa / que ao cheiro desta canela / o reino nos despovoa (…) É entrada pelos portos / no Reino clara peçonha / sem que remédio se ponha (…). Os historiadores que vêem tudo, anacronicamente, pela óptica das "grandezas de Lisboa" — e até, antes disso (pior ainda…), pelos "pioneirismos do Algarve"… — deveriam meditar um pouco sobre a razão por que, até para estudarem a sua Lisboa do século XVI… têm que recorrer sobretudo ao livro escrito por… João Brandão de Buarcos… (filho do tal Duarte Brandão que, como vimos num capítulo anterior, era com certeza originário do Porto… e havia enriquecido nos comércios setentrionais e atlânticos… e por isso foi depois muito estimado pelo Rei D.João II… e até se dava ao luxo de desdenhar das prosápias dos nobres…). No tempo dos Descobrimentos, no século XV, essa macrocefalia nacional ainda não era assim… (e portanto nada tem de surpreendente que os homens que fizeram esses Descobrimentos possam ter vindo sobretudo do Centro e do Norte… do Litoral Noroeste… (e já vimos que, com certeza, vieram…). Isto têm tendência a esquecer muitos dos historiadores que têm tratado destas matérias. As populações efectivamente ligadas às actividades marítimas — particularmente as comunidades piscatórias — foram decisivas no processo


chamado dos "Descobrimentos", quer no tempo do Infante D.Pedro, quer no tempo do seu neto Rei D.João II. Curiosamente, o Infante D.Pedro, o verdadeiro aristocrata do seu tempo — o grande Senhor e o Duque esclarecido que havia viajado por Veneza e por outras cidades estrangeiras — foi o político decisivo na instalação das comunidades de pescadores de influência nórdica (tal como antes já o tinham começado a ser os Reis D.Dinis e D.Afonso IV, e mesmo depois o seu pai D.João I). O Regente Duque de Coimbra instalou e protegeu estas comunidades de gente trabalhadora pela mesma razão por que protegeu todas as outras actividades económicas úteis e criadoras de progresso e de bem-estar social, no esforço de modernização de Portugal em que se empenhou. Claro que foi por isso que os pescadores de Buarcos o vieram a acompanhar, tão massivamente, na batalha em que seria assassinado (tinham uma dívida de gratidão perante ele, e assim a pagaram, tentando defendê-lo). Claro que foi por isso que os territórios do litoral do Ducado de Coimbra vieram para futuro a manter-se sempre como autênticos viveiros e pólos intermédios do processo de expansão da influência marítima nórdica. Por isso, ao longo da História de Portugal, Aveiro continuou a ser tão importante em tudo o que tem a ver com actividades marítimas e comerciais… E, por isso, para sempre, Ílhavo continuou a ser tão importante na expansão dos pescadores para Portugal inteiro… Repetimos: a pesca e os pescadores têm sido extraordinariamente menosprezados na historiografia portuguesa. Os historiadores portugueses parecem não ter percebido que não foi por acaso que, no mesmo dia e hora em que se assinou o célebre Tratado de Tordesilhas (o primeiro), para dividir o Mundo entre Castela e Portugal… assinou-se um segundo Tratado de Tordesilhas (menos célebre…), para regulamentar questões de pescas! Não foi por acaso… Isto tem sido menosprezado e esquecido, pela mesma razão por que essas mesmas populações e actividades económicas têm sido também, elas mesmas, desprezadas e abandonadas à sua sorte — desde que triunfaram a macrocefalia lisboeta e as erradas políticas económicas da Rota do Cabo e da pimenta da Índia. A macrocefalia lisboeta tem asfixiado e devorado Portugal. Poder-se-á dizer que é típico dos países pequenos o crescimento desmesurado da capital e o consequente atraso do resto do território. Mas, em Portugal, devido à História portuguesa sempre virada para o ultramar (para os sucessivos Impérios Ultramarinos… desde o tempo da Rota do Cabo…), esta macrocefalia da capital veio a atingir nos séculos XVI-XVIII extremos de abuso, que nunca chegaram depois a ser corrigidos nos séculos seguintes, até à actualidade. No século passado foi dita a frase célebre Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. E parece que infelizmente isso ainda vai continuando a ser verdade — verdade numa realidade estrutural, demográfica, económica e social, que não mudou (e que até se está a acentuar!), e verdade no espírito de alguns que julgam ser esta uma situação natural, correcta e aceitável. Não é natural, nem correcta, nem aceitável. E não é benéfica para ninguém — incluindo talvez, e sobretudo, a própria cidade de Lisboa (e quem lá vive). A História portuguesa fez-se com grandes assimetrias e com grandes manipulações — sem dúvida por causa dos resultados das expansões ultramarinas e coloniais. Estas, da maneira errada como foram efectuadas, levaram ao bloqueio do desenvolvimento da própria metrópole portuguesa. O mesmo aconteceu com a Historiografia… e a maior de todas as manipulações historiográficas foi a criação do mito do Infante D.Henrique e a maldição da memória do Infante D.Pedro… (…) Vamos dar mais um exemplo da maneira como estes Comemoradores agem como se ainda estivéssemos na época salazarista… e, no seu pequeno mundo de luxos, exposições e viagens, congressos e discursos, vernissages, catálogos milionários de exposições luxuosas, ignoram aquilo que é o mundo real… — e ignoram as coisas e


as pessoas que… mais do que quaisquer outras… têm a ver com os Descobrimentos… Referimo-nos à maneira como têm ignorado os pescadores… e a sua História… e o seu largo mundo de miséria e de azul. As comunidades piscatórias, tal como outras comunidades tradicionais dotadas de identidade própria (e que, todas juntas, constituiriam a identidade nacional deste país), estão a desaparecer — como neve diante do sol! — esmagadas sob o peso da miséria de sempre, hoje agravada pela aculturação desnorteante, semeada pelas imbecilidades cultas e televisionáveis, que tudo massificam, e aos jovens não deixam outro caminho senão o do desenraizamento. Como podem ser feitas Comemorações dos "Descobrimentos" ignorando totalmente os pescadores… que são quem verdadeiramente anda no mar (e sempre andou!), e quem verdadeiramente fez os "Descobrimentos" todos?! Os pescadores ainda hoje existem — embora cada vez tenham menos peixe para pescar… — e os políticos e os historiadores só dão conta disso pela televisão: no Inverno os naufrágios, tal como no Verão os incêndios florestais. É a lei da natureza: a nossa natureza portuguesa. Até hoje — em mais de sete anos de Comemorações… — os Comemoradores profissionais portugueses da Comissão dos Descobrimentos (quantos, e quais?), ano após ano, mês após mês (ganhando quanto por mês…?), não dedicaram à História das Pescas e aos pescadores praticamente uma só palavra… um só livro… uma só revista… uma só exposição (mesmo que não fosse daquelas luxuosas, sobre Arte… que gostam tanto de fazer…)… um só discurso… uma só viagem (que tal uma visita dos Comissários respectivos a Peniche, à Nazaré ou a Buarcos…)… um só congresso… um só catálogo… uma só linha sequer… Perante isto, ficamos envergonhado só de ouvir "Descobrimentos"… Para classificar o que estudamos, preferimos usar outras palavras, como História Marítima, ou História das Navegações, ou dos Encontros Ultramarinos, ou seja lá o que for! O autor destas linhas trabalhou nesta área historiográfica nos últimos quatorze anos; tem publicados nove ou dez livros (e mais de setenta artigos); os seus livros iniciais (e bases de dados) foram prefaciados pelos maiores mestres do seu tempo, Vitorino Magalhães Godinho, Luís de Albuquerque, e Charles Ralph Boxer; é o autor do Guia de História dos Descobrimentos, publicado há alguns anos pela Biblioteca Nacional deste país; é o autor e director da base de dados bibliográfica produzida sobre esta área científica (base de dados que hoje está disponibilizada para o mundo inteiro através da rede Internet). Mas, por isso mesmo, o signatário não pode deixar de manifestar a sua perplexidade, a sua decepção e o seu embaraço. Actualmente, envergonha-se de ser considerado um "historiador dos Descobrimentos"! Envergonha-se só de ouvir essa palavra "Descobrimentos" — à custa da qual têm sido satisfeitos tantos interesses oportunísticos e epocais (e continuam a satisfazer-se!). Essa palavra "mágica" em Portugal: sinónimo de folclore e de política (e não de historiografia séria) — sempre luxuosamente oficiada e trombeteada, enquanto a verdadeira investigação histórica sobre os temas da navegação e da presença portuguesa no mundo tem sido desprezada, e mesmo silenciada (e continua a sê-lo!). A palavra "Descobrimentos", por tais usos comemorativos e políticos, está tão gasta que, quando a ouvem, as pessoas de bem mudam logo de canal! Ou desligam! Como se se tratasse de uma indecência, ou de publicidade televisiva! Esta palavra tem sido tão desprestigiada — por Comissários e comemoradores profissionais (que fazem quaisquer fretes ao serviço do Poder do momento, seja ele qual for), por políticos em baixa de prestígio (que precisam de mitos como o fabricado acerca do Infante D.Henrique, para se legitimarem com a História), por catedráticos pára-quedistas (castamente doutorados em bogalhos, e que querem pontificar sobre alhos, e ganhar algum dinheirinho) — que já ninguém de bom senso acredita. Quem for honesto, e bem informado, desconfia imediatamente, quando ouve esta "palavra mágica portuguesa" (mas que a poucos cidadãos portugueses tem dado de comer…).


Claro que a grande aventura planetária das navegações e da presença portuguesa no mundo — no que teve de bom e no que teve de mau — é algo que devemos reivindicar, e de que não temos que nos envergonhar. É uma aventura que nos enobrece, sobretudo por sermos um povo pequeno e pobre — porque é claro que sempre fomos um povo pequeno e pobre! — ao contrário do que é dado a entender pelos mitos e pelas falsas grandezas com que alguns oportunistas pretendem lisonjear o amor-próprio e as frustrações do vulgo (para encherem eles próprios os bolsos ao fim do mês…). A grande aventura enobrece-nos, por sermos um povo pequeno e pobre e, no entanto, apesar disso, termos sido tão influentes — para o bem e para o mal — na História do Mundo. No mal, nunca tivemos o exclusivo: a História dos Homens é (e sempre foi) uma história de infâmias (e continua a sê-lo). Por isso a História serve para Memória e Exemplo. A História serve para nos libertarmos da História. Porque, na verdade, (…) os que esquecem o Passado estão condenados a ter que o reviver (…). Como na selva amazónica, e como na Bósnia. No bem, a grandeza dos Portugueses sempre esteve na sua pequenez: na sua capacidade de conviver, ensinar e aprender com os outros — e não em quaisquer grandiosidades imperiais ou artísticas, passíveis de hoje serem comemoradas em luxuosos catálogos de exposições, em policromia, para se deleitarem elites autodesignadas de "alta cultura". A grande aventura enobrece-nos, sobretudo, pelo que — no meio das guerras, das violências, das vãs ambições e do desconcerto do mundo — conseguimos fazer de duradouro. E o que conseguimos fazer de duradouro foi, como em todas as épocas e gerações dos Homens, aquilo em que contribuímos para as Artes da Paz, coisas simples, humildes e silenciosas, realidades subterrâneas, de longa duração (as que a História "heróica" esquece): aclimatações de plantas e produtos alimentares; aculturações de homens, técnicas, e sensibilidades espirituais; avanços da agricultura e das pescas, que podem matar fomes; intercâmbios da medicina e da educação, que podem salvar vidas; desenvolvimentos das tecnologias que podem melhorar o quotidiano (e, entre essas tecnologias, os navios que podem aproximar distâncias, e os mapas que podem ensinar o mundo); florescimento da simples convivialidade que alimenta a alma. De nada valem pseudo-altas-culturas científicas, literárias ou poéticas; de nada valem universidades e academias (e dolce farniente universitário) e comissões comemorativas (e oportunismos políticos), e massificações culturais, e órgãos de comunicação social, e jornais, e televisões, e computadores, e redes digitais, e auto-estradas da comunicação. Os nossos problemas são os de sempre: como na selva amazónica, e como na Bósnia. Num país pequeno e subdesenvolvido como o nosso, é verdadeiramente obsceno que tantos problemas, incluindo alguns dos mais básicos (tantos, e tão antigos!), ainda estejam por resolver, e, ao mesmo tempo, alguns oportunistas, universitários e nãouniversitários, ganhem e gastem rios de bom dinheirinho público, para fazerem "História" e para oficiarem Comemorações pseudo-historiográficas, nos intervalos de andarem a fazer propaganda política televisiva, enquanto a verdadeira investigação historiográfica sobre os "Descobrimentos" é silenciada e impedida. Os Comemoradores esqueceram-se até agora dos pescadores (que foram os que, na época, verdadeiramente fizeram os "Descobrimentos")! Como iriam lembrar-se dos pescadores do século XV, se nem dos pescadores do século XX se lembram? São homens reais, de carne e osso (e têm mulheres e filhos), e, pura e simplesmente, ainda passam fome (…). in Alfredo Pinheiro Marques, A Maldição da Memória do Infante Dom Pedro e as Origens dos Descobrimentos Portugueses, Figueira da Foz: Centro de Estudos do Mar, 1994 [1995], "Capítulo 9 - Conclusão".


O que é o Mar

Português…?

Nestes dias é que se percebe PORQUÊ… (até os "intelectuais" que estão sentados nas suas secretárias, com um paninho nos joelhos, a escrever sobre mar e "Descobrimentos", e sobre navegações ou pescadores, se assistirem ao boletim meteorológico nas suas televisões, conseguem perceber porquê…). O "Mar Portuguez" – a experiência náutica, o desenvolvimento comercial-marítimo, a familiaridade com o oceano, os descobrimentos geográficos dos famosos séculos XVXVI (e as tecnologias de arquitectura naval tradicional em madeira, de marinharia, náutica astronómica, pilotagem, e cartografia, desses mesmos descobrimentos geográficos), e, depois da decadência de tudo isso, a emigração pobre para o mundo todo, e a colonização interna, ainda mais pobre, dos areais desertos dos litorais metropolitanos portugueses nos séculos XVII-XX –, em tudo o que esse "Mar Portuguez" significa, tem a sua origem no NORTE E CENTRO DE PORTUGAL… no verdadeiro Portugal marítimo (em termos históricos, dos séculos passados)… O Noroeste Litoral... onde estão, sempre estiveram, e ainda hoje continuam a estar, os verdadeiros centros de gravidade (geograficamente, demograficamente, socialmente) de todas essas dinâmicas realidades marítimas, económicas e sociais portuguesas… E a razão é simples: para Portugueses – tal como, de resto, para Galegos, para Cantábricos, para Bascos (quer espanhóis, quer franceses), para Bretões, para Britânicos, para Irlandeses, para Escandinavos – É O MAR MAU QUE FAZ OS NAVEGADORES BONS… ("quem navega no Mar de Biscaia navega em qualquer mar do mundo"… e o Atlântico Norte é o pior mar do mundo… [pior, pior, só lá para o Cabo Horn, ou coisa que o valha… mas aí não vive nem navega ninguém habitualmente…). Os descobrimentos geográficos portugueses dos séculos XV-XVI não foram feitos a partir do Algarve, e pelos respectivos navegadores ditos "henriquinos" ([!] que nunca existiram…), tal como em Portugal a historiografia oficial portuguesa sempre anedoticamente repetiu, e ainda hoje não se cansa de repetir... A "mentira inverosímil" [sic] (assim chamada, desde há mais de vinte anos, por Alfredo Pinheiro Marques)... A anedótica mentira política (repetida, levada a sério, trombeteada, e massificada, pelos "historiadores" pagos com o bom dinheirinho público de um pequeno e pobre país, sempre desde 1495 infelizmente insustentável... e cuja população sempre desde 1500 teve que fugir para a emigração…). A mentira inverosímil que já vinha dos séculos passados (do tempo da Dinastia manuelina de Viseu [século XVI] e da Dinastia bastarda de Bragança [séculos XVII-XX]...), e a que depois o Doutor Oliveira Salazar (UC), no século XX, se limitou a dar a formulação canónica definitiva... ("em gesso transformado em pedra e cal"…). As navegações e comércios e descobrimentos geográficos foram feitos sim, nesses séculos, a partir das comunidades marítimas, portuárias e tecnológicas de Portugal (e Galiza...) – i.e. do Norte e Centro, onde estavam aqueles que eram capazes de o fazer, e, por isso, o fizeram: os Portugueses... (se os Islâmicos e mouriscos do Algarve tivessem sido capazes de o fazer, teria sido séculos antes disso, no seu período de maior prosperidade e esplendor do Al Andaluz, e a verdade é que não foram…). Nestes dias é que se percebe porquê… Basta ver o boletim meteorológico… (os "intelectuais" e os "historiadores"... "henriquistas", "islamistas", etc…. deviam estar mais atentos ao boletim meteorológico e ao ar livre…).

"HISTÓRIA, MEMÓRIA E EXEMPLO DO PASSADO, PARA LIBERTAÇÃO DO FUTURO"


"(…) Os que não conseguem lembrar o Passado estão condenados a ter que o repetir” – George Santayana, 1905 "(…) Que os homens não aprendem muito com as lições da História é a mais importante de todas as lições que a História tem para ensinar” – Aldous Huxley, 1959

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