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João Barcellos

O BRASIL DOS TROPEIROS & ESTRADAS REAIS

[Das palestras para grupos de estudos e professorado, em Cotia, Araçariguama, Porto Feliz, Sorocaba, Viamão, Curitiba, Santos, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraty, entre 1991 e 2012. Inclui os anexos “Mas, antes da Estrada Real e de Paraty...”, Viola Braguesa & Sertão, “Um Tropeiro Chamado Paulino de Oliveira Nascimento Filho”, “Cotia & Tropeirismo Na Odisséia Nipo-Cotiana”, de 2006, e a novela “Cavalariço”.]


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B218b Barcellos, João O Brasil dos tropeiros & estradas reais / João Barcellos. - 1ª. ed. - São Paulo : EDICON, 2013. 96 p. : il. ; 21 cm. ISBN 978-85-290-0910-0 1. Tropeiros – Brasil –História. 2. Estrada Real. I. Título. 13-06165 CDD: 981 CDU: 94(81)

Agradecimentos Associação Cultural das Tradições Tropeiras de Iperó e Região Aziz Nacib Ab´Sáber [i.m.] Centro de Memória da Fazenda Nacional Ipanema Cristina Fowler Décio Lemos Leite Johanne Liffey Kiyomi Kato Paulino de Oliveira Nascimento Filho e Família Rosana Rocha


ÍNDICE

Apresentação A Importância Dos Estudos De João Barcellos Para Uma Melhor Compreensão Da Luso-Brasilidade

Parte Primeira 12345-

Mercado Estancieiro Estâncias, Charqueada & Muares O Sul do Brasil Antes dos Casais Açorianos Os Muares ao Deus-Dará Viamão: O Corredor que Une o Brasil

Parte Segunda 678910-

A Fé que Assenta os Portugueses e Faz o Brasil Entre a Viamão e a Estrada Real Estrada Real Uma Ação Geopolítica de Administrador Genial A Economia Tropeira e o Nascimento da Nação

Anexos Mas, antes da Estrada Real e de Paraty... Viola Braguesa & Sertão Um Tropeiro Chamado Paulino de Oliveira Nascimento Filho Cotia & Tropeirismo Na Odisseia Nipo-Cotiana Cavalariço novela


APRESENTAÇÃO A Importância Dos Estudos De João Barcellos Para Uma Melhor Compreensão Da Luso-Brasilidade

Os campos de observação que temos em relação à história que nos fez e, obviamente, faz-nos ser pessoa brasileira, nem sempre são campos abertos ao olhar comum. O povo sabe que carrega uma herança sociopolítica e econômica, mas não enxerga a fonte, vive-a somente. Já o estrangeiro não tem como entender a economia brasileira: é quase um tabu. Como consegue esse povo viver entre tantas diferenças e desigualdades?, tantos impostos e inflações?... A resposta está em vários estudos historiográficos do luso-brasileiro João Barcellos. Ele vai à fonte histórica dos documentos que relatam o que foi a façanha do Porto das Naus construído pelo Bacharel da Cananeia antes da frota cabralina surgir na Bahia, em 1500, para dar posse oficial à “ilha brasil” descoberta pelo capitão Sanches Brandão, em 1342, e assim denominada pelo rei Afonso IV em carta e mapa embarcados para o papa Clemente VI, em 1343; e depois, a façanha de Braz Cubas nos sertões além da Serra do Mar que abre caminho para o mais formidável desbravador, mercador e político do Século XVI paulista – o ´velho´ Afonso Sardinha, que faz do Piabiyu (ou Peabiru) guarani a trilha de escambos pela qual se instala uma economia informal que, desde então, é a ´cara´ do Brasil. Só se entende o Brasil social, político e econômico, quando se tange este manancial de dados historiográficos que nos levam a situar a ´nacionalidade brasileira´ no oeste paulista: aqui assentou a raça, aqui se expandiu a raça, aqui se construiu o ideal municipal e republicano tendo a Villa de Nª Sª do Monte Serrat (instalada no Cerro Ybiraçoiaba) como foco irradiador do que já havia acontecido em S. Vicente, Santos e Sam Paolo dos Campos de Piratinin – e, por aqui serpenteou o tropeirismo a consolidar aquela economia informal mas, logo, a ensejar uma primeira bolsa mercantil. Em seus estudos sobre o tropeirismo, João Barcellos aborda o notável Luís Antônio de Sousa Botelho e Mourão, morgado e governador, para dizer-nos que o Brasil continental de hoje tem lastro na sua atividade politica, militar e administrativa. Falar de tropeirismo é escancarar as entranhas de um Brasil que nele renasceu social e economicamente e nele se fez nação. Maria do Carmo Arruda Professora e Microempresária Florianópolis – SC, 2012.


PARTE PRIMEIRA

vejo o guarani d´olho no vento o coração na batida d´água sob os pés sei agora onde pôr os meus pés sei agora que caminho tenho a desbravar e tomo alento que o mundo novo me seja a contento vou na fé do guarani piabiyu adentro


1 Mercado Estancieiro Isto aqui é “a passagem de Laguna para a Colônia de Sacramento”, diz-se no início do Século 18, lá no que pode se afirmar ser “o rancho fundo da capitania paulista”. A afirmação deve-se ao amplo mercado estancieiro montado pelos padres da Sociedade de Jesus [SJ], ao longo do Século 17, tanto nas partes do Uruguai quanto nas da Argentina, e mais particularmente nas grandes fazendas além de Buenos Aires, onde criam de tudo e se fazem especialistas na reprodução de muares... O animal de carga mais adequado aos duros caminhos da malha guarani do Piabiyu e de outros em picadas abertas pelos próprios jesuítas de braço dado com colonos portugueses e, em alguns casos ao longo do Rio da Prata, com castelhanos.


[Mapa desenhado pelo engº-militar José Custódio de Sá e Faria]

Para a Coroa portuguesa torna-se importante anotar e levar em conta a percepção política e administrativa de vários governadores, que diz da necessidade urgente de povoar a região da Laguna e das imediações de Sacramento; e, por volta de 1670, a Coroa faz recrutamento no arquipélago dos Açores com a promessa de “dar a Casais Açorianos que vão a povoar o sul do Brasil terras e outras facilidades”. Ilha do Faial, vila da Horta. Corre o ano 1677. No alvorecer do dia 20 de Março acontece o marco histórico que remata a ligação entre Portugal e o Brasil: casais, num


total de 219 pessoas, embarcam no navio “Jesus, Maria e José” com destino ao Grão Pará. A tentação é grande para os casais açorianos que vivem apertados com pouca terra. A visão de grandes terras oficialmente dadas é a mola que catapulta a gente habituada à árdua azáfama insular. E depois, no período de um século, a partir de 1748, chegam ao sul do Brasil cerca de 2300 pessoas, e, entretanto, das promessas de terras e facilidades, nada, o que obriga a gente açoriana a lutar bravamente para se estabelecer entre a gente gaúcha e as propriedades jesuíticas.

O assentamento agropecuário da gente açoriana cria uma dificuldade mercantil para os padres jesuítas, habituados a ser a voz única no mando da região, e é quando novas estâncias surgem a partir dos fogos açorianos para formarem um cinturão português diante das Missões [aldeias-estâncias formadas e administradas pelos padres], que são o eixo das negociações jesuíticas e das pretensões políticas da Coroa castelhana, de olho, principalmente, na estratégica Colônia de Sacramento. Por isto, entre Laguna e Sacramento tem início uma atividade que, se ainda não é tropeira, indicia a prática da utilização de muares no transporte de cargas e gentes pelos difíceis caminhos. Como primeiros fregueses na praça de muares, os casais açorianos estabelecem uma atividade que mobiliza todo o sul e em distâncias curtas.


2 Estâncias, Charqueada & Muares. São várias as fazendas jesuíticas que produzem muares na Argentina. É uma produção que industrializa, de imediato, ambas as margens do Rio da Prata, e os muares já trotam entre a mobilidade econômica que alavanca o progresso sulista da Capitania paulista, da mesma maneira que os caixeiros-viajantes de Affonso Sardinha [o Velho] e do padre-banqueiro Pompeo de Almeida faziam negócio, a pé e em canoas, entre Piratininga, Buenos Aires e Asunción, e também para Goyaz pela trilha da serrania de Wotucatu depois das sorocas no entorno do Cerro Ybiraçoiaba. E agora, são várias as fazendas açorianas que progridem entre as velhas trilhas sulistas.

Os muares enchem a pança jesuítica e, com os casais açorianos, favorecem o abastecimento de várias vilas. O que para os padres é um rendimento entre os próprios negócios passa a ser uma fonte de renda para o novo Portugal que se ergue no sul do Brasil. Agora, os casais açorianos e os muares são parte da ocupação na Linha de Tordesilhas que vai impedir o avanço castelhano em terras lusas. Os muitos galpões abertos nas pradarias para salgar a carne exposta para desidratação [´charque´] recebem muares, o veículo ideal para enfrentar longas e penosas jornadas de ligação terrestre.


3 O sul do Brasil antes dos Casais Açorianos

Um dos personagens que marcam a vida cotidiana no Brasil-colônia é o carroceiro, importante no papel logístico da atividade doméstica e comercial, entre cariocas, paulistas, nortistas e sulistas. As juntas de bois e cangas, o cochicho [lampião] e o chiado das rodas do carro, são imagem perpetuada na memória dos portugueses que fazem o assentamento colonial na Insulla Brasil. Os castelhanos incorporam o cavalo à cena sul-americana, mas é o boi que puxa a carroça e faz movimentar o engenho d´açúcar nas unidades rudimentares da roça familiar.

O cavalo não é adestrado para a dura tarefa de carregar e transportar, e só passa a ter esta função no início do Século 18... O famoso poeta Baptista Cepellos, também bacharel de Direito e capitão da Força Pública de São Paulo [2º Regimento], no final do Século 19, exerce a função de carroceiro no trecho de Cotia a São Paulo, levando principalmente casais em lua de mel. Assim como sapateiro e alfaiate, o carroceiro é ofício muito respeitado na sociedade. Os ´comboios´ de carroças passam a ser uma imagem mais visível em toda a colônia durante o setecentos e o cavalo, então, além de ser o animal ´chic´ da tourada e da cavalgada, é também o animal de carga e do manejo [vaqueirada] do gado.


escutei o judeu bacharel na cananeia observei o ´velho´ capitão afonso no jerybatiba e eu que portugal sou fixei-me na terra batida após a caranguejada fiz-me tropeiro e logo tomei da terra a boa geleia que o mundo novo me seja berço e mortalha estou na fé e na glória que não escangalha

A demanda de entradas que levem às riquezas do Potosí desloca centenas de aventureiros de Portugal e de Espanha para o Rio da Prata, e, ao mesmo tempo, urge estabelecer outras vilas. Assim, Buenos Aires surge em 1580, e como eixo de defesa estratégica na ótica castelhana. É no entorno de Buenos Aires que os jesuítas castelhanos expandem a sua genialidade mercantil e agropecuária. Os portugueses não podem atrasar o passo e erguem a Colônia do Sacramento, em 1680, e, logo, as vilas de Paranaguá [1648], São Francisco [1658], Desterro [1675] e Laguna [1676], bases fortificadas de apoio logístico a ações diversas.

Este é o ambiente de guerra luso-castelhana e de aventuras quiméricas que os Casais Açorianos encontram no entorno dos seus fogos precários e, apesar de oficiais, a perigo. O esforço de adaptação das gentes açorianas entre os vários conflitos dos interesses das coroas ibéricas leva-as a uma jornada gloriosa de resistência e de assentamento. Da ocupação açoriana do solo ao sul da Capitania paulista é que o Brasil-colônia ganha fôlego político para reivindicar o que de seu é, pois, “o que está povoado pela gente lusa está demarcado por ela mesma, e isto é Portugal”, afirmam. Aos castelhanos restam as arruaças e elas continuam. No meio de tanto alvoroço beligerante e político os Casais Açorianos passam a ser a estância que mata a fome à gente sulista. Antigos marinheiros tornam-se agricultores e aprendem ´na marra´ como curtir uma boa carne, maturar um bom queijo e como levar ao forno uma massa para o pão nosso de cada dia. As tradições açorianas são visíveis já nas festas populares sulistas e a sua fé religiosa também se faz notar. É a presença portuguesa em nova maresia nas pradarias e estâncias sulistas.


4 Os Muares ao Deus-Dará Nas suas idas e vindas pelo território de ambos os lados do Rio da Prata, principalmente em Corrientes, os padres jesuítas deixam muitos muares soltos nas pradarias.

A produção dos muares é tal que nem as estâncias jesuíticas têm capacidade para guardá-los. É preciso evacuar. É preciso vender. E há mais escambo [troca de bens] do que venda propriamente dita, o que para os padres dá na mesma. Em muitos fogos açorianos os muares [mulas, burros] já são parte da paisagem familiar, de sorte que a maioria das cabeças são capturadas ainda a volante e guardadas quase como troféus da caça. Sem o saberem, os padres jesuítas dão uma contribuição notável para o progresso econômico sulista que tem base no fácil transporte de víveres no lombo dos muares... Deixados “ao deus-dará”, segundo a velha expressão portuguesa, os muares tornam-se vitais para a sobrevivência portuguesa e, em particular, dos Casais Açorianos.


5 Viamão: o corredor que une o Brasil. 1725. O açoriano Cosme da Silveira embarca na frota de João de Magalhães. Destino: Viamão. Entre muitos outros, eis um açoriano que se integra notavelmente ao embiente humano e físico do sul brasileiro e, aqui, estabelece pouso, produção agricola, enquanto lança um olhar aos caminhos possíveis para alargar a atividade. Então, a localidade de Viamão é uma vila portuguesa com gentes também da província do Alentejo e, diz-se, por isto, que Viamão é um nome abrasileirado de Viamonte [região alentejana]. Enquanto isso, o ambiente bélico entre ibéricos continua em ponto de bala, e de tal sorte que Viamão recebe o governo da Capitania quando o governador portenho Pedro de Ceballos invade, em 1766, a cidade de Rio Grande. A municipalidade de Viamão é ´capital´ até 1773, quando o governo sulista se transfere para Porto dos Casais, que ora conhecemos como Porto Alegre.

Dessa circunstância inusitada ganha Viamão uma estrutura urbana e comercial que lhe permite ser o eixo político e progressivo da região. E torna-se uma feira quase permanente nas idas e vindas dos muares carregados de charque e também de couro, um dos produtos bem em conta na região e na comercialização feita entre as gentes de Laguna e os velhos fregueses de São Paulo. A comercialização indica e registra rotas diversas que, sendo umas trilhas da malha piabiyuana e outras jesuíticas e bandeirísticas, fazem desencadear uma


espécie de eldorado mercantil no lombo dos muares. Ao que se pode chamar de rotas da vida que sobrevive em cada pessoa aventureira ou tropeira. Tropeiro é gente forte. A carne salgada e desfiada [charque] vai muito bem com arroz e feijão e, logo, com uns goles de chimarrão. Assim se alimenta o tropeiro que, às vezes, imita o bandeirante e tira do alforge um virado paulista – aquele feijão cozido e refogado na gordura e depois embolado com farinha de mandioca, linguiça, torresmo, costela de porco, couve e ovo frito – o mais ´caipira´ dos pratos de campanha sertaneja, porque tem o ´toque´ da mandioca. E isto está e é vivido nos caminhos que saem de Viamão. Eis o Caminho de Viamão... até Vacari, e depois por Lages, Curitibanos, Papanduva, Rio Negro, Campo do Tenente, Lapa, Palmeira, Ponta Grossa, Castro, Piraí do Sul, Jaguaraíva e Itararé com chegada à feira de Sorocaba. O percurso fica a ser conhecido como Rota dos Tropeiros a partir da Bacia do Paraná e logo se populariza entre os brasileiros do sul e do sudeste. Além de Caminho de Viamão, o percurso també é conhecido por Estrada da Mata e Caminho do Sul.


PARTE SEGUNDA

dos cânticos da ilha atlântica trago-vos o sopro e neste sertão de muares ao deus dará sou porto novo que em fim de jornada outro portugal dará das rezas e do boi fujão eu trato mas sinto nação outra em novo sopro já nem sei quem sou e percebo-me solto no mundo de brasileiro trajo para ser novo e desta fé abuso


6 A fé que arrancha portugueses e faz o Brasil.

Muito além dos propósitos imperiais e mercantis da Igreja católica, a fé dos povos portugueses instala na colônia tropical uma alma abnegada e a lutar por direitos à terra e à vida. A determinação que já fizera surgir as comunidades da Madeira e dos Açores manifesta-se no sul brasileiro, com a mesma intensidade, entre rendas de bilro e tapeçarias de tear sob o cheiro bom da comida à base de peixe, ou a dança de pau de fita, e, ainda, na ousadia de pegar o boi solto nos campos e ruas. A grande Festa do Divino ecoa rapidamente por todo o sul e sudeste e alegra as comunidades cristãs.

Em cada família arranchada, em fogos ou em estâncias, é forte a tradição das raízes sociais e culturais, e se faz presente nas cavalgadas e nas rotas tropeiras: a fé não é apenas um íntimo altar que em cada pessoa se ergue a Deus, é o ato solidário dos Casais Açorianos que incorpora o espírito português de fazer no Brasil outro Portugal, e assim vai, e assim é.


7 Entre a Viamão e a Estrada Real

[as distâncias entre Viamão e o mundo]

Com a chegada da Corte portuguesa ao Brasil, em fuga diante das ameaças de Napoleão Bonaparte, o Rio de Janeiro aperalta-se e conquista uma urbanidade ao estilo lisboeta. Entretanto, é preciso ligar o Rio de Janeiro aos pontos principais da produção das riquezas; para solucionar o caso, a Coroa luso-brasileira manda que se abram Estradas Reais, já agora a aproveitar as trilhas de escoamento de víveres e de pedras preciosas, do centro-oeste ao sudeste e sul.

[as malhas do Piabiyu/Peabiru aproveitadas na Rota da Viamão e na Estrada Real]


Deste aproveitamento logístico, ganha mais uma vez Viamão. A principal Estrada Real desemboca na capital tropeira depois de 1.400 km a cortar os sertões.

Das velhas trilhas nomeia-se o Caminho Velho e das novas o Caminho Novo.

Os caminhos ligam os sertões dos aventureiros, tropeiros e bandeirantes, ao Rio da Prata e ao Rio Paraguai, com parte da ligação pelo Rio Anhamby, que também deságua no próprio sertão e ainda cruza o Jerybatiba, além daqueles caminhos que do centro-oeste vão dar a Paraty.


8 Estrada Real Toda a via terrestre a ligar as vilas principais do Brasil-colônia e disponível para o negócio político e mercantil, local e internacional, é Caminho Oficial, i.e., autorizado pela Coroa. É a Estrada Real. E fora dela só existe atividade: de roubo e de contrabando. A utilização de vias não oficiais é chamada descaminho. Assim, as Ordenações do Reino determinam, assim é feito. No reaproveitamento logístico dos povos nativos são fundados, ou refundados, o Caminho da Bahia [chamado Caminho da Bahia ou Caminho dos Currais do Sertão e suas variantes, a ligar a Capitania da Bahia às Minas]. O Caminho do Rio de Janeiro [ou Caminho Velho do Rio de Janeiro e, logo, Estrada Real e suas variantes, a ligar a Capitania do Rio de Janeiro às Minas]. O Caminho dos Diamantes [com a descoberta de diamantes, entre 1725 e 1735, é aberto novo caminho, ao qual se unem a picada de Goyaz e, depois, a do Mato Grosso]. O Caminho de São Paulo [das expedições ditas bandeiras]. Os paulistas, mais mamelucos (mestiços de portugueses com nativas), têm o conhecimento, não apenas das velhas trilhas (o Piabiyu), mas também das técnicas de sobrevivência nos sertões.

Que caminhos são estes? O Caminho dos Paulistas [ou Caminho Geral do Sertão, a ligar a capitania às Minas. Percorrem a trilha dos Goyanazes a partir do vale do Rio Paraíba do Sul pela passagem da Garganta do Embaú, na Serra da Mantiqueira, e dirigem-se ao sertão das minas].


Os Caminhos do Rio de Janeiro [malha de caminhos denominada Estrada Real]. Eis as variantes: o Caminho Velho [de Paraty a Vila Rica (Ouro Preto), por cerca de 1.200 quilômetros, percorridos em 95 dias de viagem]; o Caminho Novo [da baía da Guanabara ao Caminho Velho em Ouro Branco (Vila Rica / Ouro Preto. É aberto por Garcia Rodrigues Pais, em 1707, como alternativa ao Caminho Velho evitando a rota marítima entre Paraty e o Rio de Janeiro. Tem início nos portinhos do Rio Iguaçu (ou do rio Pilar / Duque de Caxias), segue pelos portos fluviais até a vila de Xerém, Tinguá, Santana das Palmeiras até Paty do Alferes, para logo descer ao Paraíba do Sul e logo passar a Ouro Branco (Vale do Paraíba). Uma variante do Caminho Novo é o Caminho do Proença [por Petrópolis e Santana de Cebolas]; a Estrada Real [une as freguesias de Santo Antônio de Jacutinga e Nossa Senhora Conceição de Mariapicú, a ligar com a Estrada Real na baixada fluminense].


E é preciso controlar, fiscalizar a Estrada Real... As riquezas que se extraem das minas do centro-oeste levam a Coroa a apertar a vigilância e impedir o roubo e o contrabando [de que fazem parte: civis, militares e religiosos, e mesmo fidalgos, pois, a ganância, não escolhe ofícios nem brasão nem fé]. E em pontos estratégicos da Estrada Real instalam-se as Casas da Fundição para o Registro das peças, sob a guarda dos destacamentos de cavalaria denominados Dragões das Minas.

9 Uma Ação Geopolítica de Administrador Genial Mas, o Tropeirismo foi um acaso? Não. Foi gerado na sequência das ações geopolíticas de um administrador e militar chamado Luís Antônio de Sousa Botelho e Mourão – o 4º Morgado de Mateus [Casa de Vila Real, Trás-os-Montes] e Governador da Capitania de São Paulo.

Ao chegar à Villa e capital de Capitania dita Sam Paolo dos Campos de Piratinin, o morgado-governador tem nas mãos povos dispersos, interesses diversos e um continente de terras cobiçado pelos castelhanos. Só uma solução administrativa pode ser gerada: municipalizar as regiões com vários fogos num mesmo raio de ação


agropecuária, piscatória ou mineira, tratar da infraestrutura administrativa de sustento, transfornar as sesmarias (leia-se latifúndios) jesuíticos em áreas de aproveitamento público e cuidar militarmente da defesa do território continental, de norte a oeste e de sul a centro-este. Não à toa, o morgado e governador é chamado de “povoador” por muitos estudiosos, e eu entre eles, porque a sua ação é, então, decisiva para o assentamento geossocial do luso-brasileiro, mas a saber, já aí, de um sentimento de brasileiro nato. Se existiu um ´grito´ libertador para a raça brasileira ele partiu das entranhas de um governador que lhe deu a oportunidade de se perceber povo em terra própria a partir, principalmente, do oeste paulista. O movimento econômico do Tropeirismo acontece como sequência das ações de povoamento e municipalismo entre o oeste e o sul da Capitania paulista. A estrutura republicana montada..., apesar da monarquia imperial, é o foco da sustentação para o nascimento, após a odisseia de Afonso Sardinha (o Velho) no Cerro Ybiraçoiaba, de uma indústria (algodoeira e têxtil) e de uma agropecuária que põe a Capitania como eixo do Brasil moderno. É a era do ouro verde, a riqueza que se extrai da terra e faz dela a mina única que sustenta a humanidade.

10 A Economia Tropeira e o Nascimento da Nação Na época em que as pedras preciosas deixam de ser o foco econômico da colônia, os europeus e os mamelucos que constroem o Brasil viram-se para a única área mercantil possível: a agropecuária, a pesca, a caça e, para não esquecerem que ainda estão entre povos nativos, a extração da erva-mate. As áreas administrativas da Capitania paulista são um vasto território e as vilas principais, incluindo a capital, não possuem infraestrutura viária nem sanitária: a soma é um aldeamento que desconhece quaisquer modernismos em urbanidade. Foi o que observou o Morgado de Mateus, no Séc. 18, pelo que se conhece da leitura das investigações historiográficas. As sesmarias de gente poderosa e dos padres jesuítas emperram quaisquer tentativas de progresso urbano e de comunicação terrestre entre os povos dispersos. Tudo é tratado mercantilmente no Séc. 18 como se o Séc. 16 do desbravador Afonso Sardinha (o Velho) não fosse já passado. Por causa dessa visão e ação de economia liberal dos paulistas vai o Morgado de Mateus e Governador paulista tratar de tudo na mesma base: cria a ruptura fundiária no foco sesmeiro jesuítico, obriga os grandes proprietários de terra a produzirem e abre espaço político para unir os povos dispersos em torno da construção de vilas que vão abastecer a Capitania e dar alento a novas indústrias. O surgimento do Tropeirismo, logo depois do novo trato fundiário, faz a ligação entre os povoados da Capitania paulista e instala um ciclo mercantil que gera uma economia que vai além da sobrevivência – é uma economia de plataforma nacional e continental.


Se durante o Séc. 16 a colônia é ´obra´ do luso-judeu que aqui reencontra a sua ´nação´ e incentiva as gentes de outra fé a fazerem o mesmo, o Séc. 19 é ´obra´ de tropas e de tropeiros que ligam todos a tudo como se a colônia fosse (e o é) uma feira única – sim, aquela feira única que os primeiros desbravadores haviam instalado ao longo do Piabiyu guarani. E agora, além de Asunción e Buenos Ayres, a ´feira´ tem também a região platina de Corrientes no mapa, pois, é a região que os jesuítas haviam transformado em incubadora de muares.

do cavalo que a amazona monta contra o vento emana a poesia que me traz paz e alegria do muar que trota a carregar o mundo novo da charquearia eis me gente afeita à terra que dá farto alimento monto tropa e faço o brasil pelo sertão adentro tenho fé no que sou e sempre livre estou amigo do vento

Eis que a tropa e a feira de muares é uma mercearia onde circulam ideias políticas, religiosas e comerciais, e mais do que isso, transforma-se de ponto regional em plataforma econômica a gerar um ideal nacionalista.


ANEXOS

Mas, antes da Estrada Real e de Paraty... Viola Braguesa & Sertão e de Paraty... um tropeiro chamado Paulino de Oliveira Nascimento Filho

Cotia & Tropeirismo Na Odisséia Nipo-Cotiana

Cavalariço

novela


Mas, antes da Estrada Real e de Paraty...

Quando vos digo que tudo que é Brasil começa na velha Villa Piratininga (ou, se quiserem, na Capitania de S. Vicente alargada ao oeste do planalto piratiningo) e, na maior parte das vezes, tem fim aí mesmo, para logo ressurgir em força maior, digo-o pela força documental, i.e., pela observância da realidade geossocial, logo, historiográfica. Eis que antes da Estrada Real com início no Rio de Janeiro e porto principal em Paraty, as margens do Rio Jerybatiba (ou Pinheiros) são a sustentação do assentamento português e mameluco (luso-americano) e já no avanço para o grandioso e enigmático Anhamby (pelo portinho de Carapocuyba), paralelamente às entradas no Piabiyu – o sertão dos guaranis – até à esquina chamada Koty, de onde pouca gente se aventurava a avançar; entre a Fazenda Ybitátá, do sesmeiro e desbravador Afonso Sardinha [o Velho] e o sertam do carijó pulsa a sensação de que o Novo Mundo vai acontecer logo que o Piabiyu seja adentrado. Outro rio, o Tamanduathey [nasce na Serra do Mar, em Mauá, e deságua no Anhamby já perto da Vila de Sam Paolo dos Campu de Piratinin], tem importância fundamental no mesmo assentamento, porque nele também flutuam, em imitação à dinâmica fluvial das


canoas na comunicação entre os povos nativos, batelões e barcos que abastecem a Villa.

[Esquema do Tamanduathey na várzea e foto de portinho, em 1891, de Marc Ferrez.]

No interesse da sobrevivência é que surge um estradão que liga o Ybirapuera à descida da serra e nele os europeus constroem currais que são ao mesmo tempo pouso e passagem, pelo que em tal estratégia mercantil (escambo, venda, etc.) a via fica conhecida como Estrada do Curral Pequeno. Antes do estradão, um fio d´água dito Córrego da Coruja, limita a imensidão da sesmaria do ´velho´ Sardinha sinalizando o vale do Jerybatiba no encontro com o Anhamby, e é deste ponto que vai surgir a Estrada das Boiadas a rasgar o Ybitátá até à Lapa para formar o maior centro mercantil da Villa jesuítica e da Capitania.

Esta apreciação situa-se entre os Séculos 16 e 18 para iluminar um painel histórico do pioneirismo que foi a instalação da economia liberal ao longo do velho Piabiyu, desde o Bacharel da Cananéia ao ´velho´ Sardinha.


E naquele instante em que os sulistas da Capitania organizam as invernadas da vacaria (estâncias) e depois sobem da Capela Grande Viamão o velho sertão guarani até ao entorno histórico do Cerro Ybiraçoiaba, onde levantam faxinais [Campo Largo, Iperó, Sorocaba, etc.], a Villa Piratininga já não é jesuítica, mas o ponto nevrálgico, a par de Sant´Anna de Parnaíba, do progresso que irá desencadear um Brasil em afirmação nacional. O que se denomina Estrada Real é uma consequência da dinâmica militar, econômica e social da Capitania paulista a partir principalmente do seu governador Luís Antônio de Sousa Botelho e Mourão [o Morgado de Mateus], pois, com as minas d´ouro e pedras preciosas no centro-oeste e mais a norte, já nas raias cariocas, o Império tem que assumir responsabilidades públicas e o faz defendendo-se com impostos e vias de escoamento com postos d´atalaia militar, entre o Rio de Janeiro e os portos próprios, e do Arraial do Padre Faria [ou Ouro Preto] a Paraty, e desta vila e porto de mar para a Europa e para a Capitania paulista. Se todas as vias têm importância, e têm!, a ligação das estradas boiadeiras é a que mais importância tem pela comunicação, o escambo e o mercantilismo que gerou, particularmente do entorno do Cerro Ybiraçoiaba para o sul e o centro-oeste, a emoção do ser e estar Brasileiro. [Ilustrações: da Web com livre acesso autoral.]


Viola Braguesa & Sertão a alma popular rasgada nas cordas

As violas portuguesas, junto com o tambor e a gaita-de-fole, fizeram a festa alémmar... É verdade. Mas foi a viola braguesa o instrumento que se multiplicou no Brasil a partir do momento em que os padres jesuítas a integraram nos atos litúrgicos em meio à catequese cristã. O que é uma viola? É um cordofone dedilhado com câmera de ressonância em forma de oito e respectivo conjunto de cordas. A viola chegou a Portugal no Séc. 16 vinda da Espanha com a designação vihuela sendo já utilizada no campo do acompanhamento dramático por Gil Vicente. A viola difere do violão [ou guitarra], porque este é a viola de dez cordas. E assim como a vihuela, a viola passou a ser adaptada aos costumes musicais das regiões portuguesas para apresentações palacianas, religiosas e populares. Na região Braga, província do Minho, o instrumento tomou a designação de viola braguesa e foi com ela que os padres jesuítas chegaram ao Brasil. Para o professor de música e ceramista João Macedo Correia “[...] a viola braguesa adaptou-se muito bem ao costume minhoto de tocar rasgado, como que para levar a alma no ritmo do choro ou da alegria” [in “Redacção Acerca Da Viola Braguesa”, João Carlos Macedo; Barcelos-Portugal, 1970]. Pela facilidade de afinação e adaptação a viola braguesa passou dos padres jesuítas para as mãos dos sertanejos e comitivas tropeiras para logo se transformar na viola caipira e construir o som de um Brasil culturalmente próprio em pleno Séc. 18. Hoje “a viola caipira faz no Brasil o mesmo que a viola braguesa faz em Portugal: é a alma do povo em ação pela construção permanente de uma memória local e nacional” [in “Da viola à independência”, ensaio; João Barcellos, Cotia-Br., 1981]. Em qualquer rancho ´fundo´, em qualquer comitiva tropeira ou em qualquer festa popular nos sertões do Brasil, a viola braguesa faz-se ouvir na viola caipira que nos fala de raízes.


um tropeiro chamado PAULINO DE OLIVEIRA NASCIMENTO FILHO

Cumprir aquilo que foi apalavrado e conduzir a vida respeitando os princípios morais da família são valores que algumas pessoas não abrem mão. Paulino de Oliveira Nascimento Filho é um amante das cavalgadas e vê nessa prática uma forma de, a cada empreitada, encarar um novo desafio e, principalmente, estar junto dos amigos e se aproximar da natureza. “A honra da palavra mediava a maioria dos negócios feitos nas cavalgadas, compadres e novos tropeiros se respeitavam e aprendiam a superar os obstáculos das viagens. Muitas histórias foram contadas pelo meu pai a respeito das dificuldades, das aventuras e, principalmente, das amizades: e assim como aconteceu na sua geração, em nossas cavalgadas preservamos esses valores – e a nossa referência é a família. Compartilhamos experiências, dividimos alimentos e nos divertimos com as histórias pitorescas dos amigos”, diz Paulino. Para ele, “[...] as associações que congregam as pessoas apaixonadas pela tradição tropeira e as cavalgadas são muito importantes, porque mantêm vivos os valores da superação e da amizade”. Empresário de sucesso, Paulino de Oliveira Nascimento Filho nasceu em 1945, na Fazenda Nascimento formada num sítio entre Cotia e Caucaia do Alto, de um lado, e o Ribeirão da Vargem Grande, pelo centro. Filho do brasileiro Paulino de Oliveira Nascimento e da portuguesa Ana Macieira Oliveira, ele de 1904 e ela de 1910, casados durante as investidas da gauchada em São Paulo, em 1932, o empresário


reside na região onde nasceu e aqui mantém a maioria de seus negócios. Outra parte da família também reside na famosa Fazenda Nascimento, sede da celebrada Festa de Nª Sª de Fátima, que atrai centenas de famílias todos os anos.

[Paulino de Oliveira Nascimento Filho com Comitiva Tropeira. Da esquerda para a direita: Joaquim, Dino, Paulino, Tino e Batoré.]

Aos 4 anos de idade acompanhava o pai e aos 9 estabelecia a ligação entre os sítios levando o cavalo até o pai, principalmente quando ele ia para a caça em plena madrugada. Logo depois, numa cavalgada tropeira de Cotia que atravessava Araçariguama teve o seu batismo: ao levar o cavalo a beber num lago, ele escorregou e levou o cavaleiro junto. “É isso aí, garoto, é o teu batismo!”, gritou a comitiva. Na verdade “eu já nasci cavalgando”, gosta de dizer, porque o pai sempre andava a cavalo de um lado para outro e o levava ainda bem jovem, “no tempo em que o arroz era a mistura” preciosa que havia no prato da maioria das famílias, às vezes “com a farinha que se ia buscar no moinho da tia Maria”. Entretanto, nas romarias e com 9 anos de idade, tinha “sempre por perto o Zé do Pedrinho e o Leonel, os anjos da guarda”. As tropas que chegavam de Sorocaba tinham pouso junto da Fazenda Zacarias, no Portão, e as que saiam de Cotia faziam pouso no Sítio Bonfiglioli para logo seguirem rumo à Capital paulista por estradões que, em muitos trechos, acompanham a antiga Estrada São Paulo - Paraná e que hoje é a moderna Rodovia Raposo Tavares e o Rodoanel. Eram tropas de gente abnegada e cuja honradez estava acima de quaisquer apelos mercantis que não fossem os do trato apalavrado: palavra dada, negócio fechado.


De tal ambiente familiar e tropeiro se fez a personalidade de Paulino de Oliveira Nascimento Filho que, se em parte continua o empreendimento do pai, é também homem de outros negócios, com a particularidade de ter assimilado a honradez e a ousadia de ser e estar tropeiro e se engajar em cavalgadas associativas pelo resgate do espírito solidário e bom das famílias que se preservam e levam a história regional a todo o Brasil. E é um ato de fé. Primeiro, pela coragem de acreditar em si mesmo diante das dificuldades (que surgem para toda a pessoa empreendedora), segundo, porque da Palavra de Jesus ele tira a essência que se faz Luz para novos caminhos de Vida. Ora, o tropeiro é isto mesmo: gente de paz e gente de fé. O filósofo espanhol Miguel Unamuno ensinava que o caminho se faz andando e o poeta Fernando Pessoa assinalou que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Eis a essência da fé que faz uma pessoa ser e estar tropeira. Num ato de ousadia própria e intransferível, Paulino de Oliveira Nascimento Filho fez-se batizar na nascente do Rio Cotia para celebrar o todo espiritual que a Palavra de Jesus lhe oferece: “Eu quis viver o que a Bíblia e a minha Família ensinaram, e ensinam, porque o batizado é a iniciação de uma vida e deve ser feito de consciência limpa e própria”. Nesta cavalgada alquímica, porque religiosa na profundidade do ato, está também o ousado e honrado tropeiro que se ilumina pela fé. Um exemplo de religiosidade pura que não é raro se encontrar entre as comitivas familiares que constroem o tropeirismo de hoje. No contraponto, “[...] o que vemos hoje é uma sociedade sem valores na qual o supérfluo supera a moralidade: uma sociedade que desconhece a sua história..., esta mesma que vê com desdém as comitivas tropeiras que levam o Brasil profundo ao Brasil sem educação espiritual. E não é saudosismo ser tropeiro, é viver uma história que nos dá paz de espírito e nos ilumina pelo caminho do bem”, diz Paulino, ele mesmo um estudioso das tradições tropeiras. Ao tempo do “soltar a carga no pouso”, não muito distante do tempo dos “faxinais erguidos no sertão do oeste paulista”, passava-se a noite colocando o pelego e o baixeiro para fazer a cama, e, às vezes, sem café da manhã garantido. Agora, “em muitas cavalgadas tropeiras nem sempre se encontram pousos adequados e, então, a fome bate forte: por isso, estar na tropa não é para qualquer pessoa”. Na vivência de ambientes fora da comodidade urbana, mas principalmente no seio da fauna e da flora que fazem a alma respirar livremente, Paulino revê, por um lado, a dificuldade das jornadas tropeiras do pai, e por outro lado, é ele mesmo a reinventar a vida que escolheu para viver. Determinado no que faz enquanto empreendedor, sonhador quanto baste no tempo que vive e homem de palavra dada, eis o tropeiro Paulino de Oliveira Nascimento Filho.


Cotia & Tropeirismo Na Odisséia Nipo-Cotiana desenvolvimento agropecuário & hortifrutigranjeiro

A historiografia registra Cotia como um dos pontos de encontro de Tropas e, antes das Tropas, de colonos portugueses e castelhanos que na região dão continuidade ao ciclo agropecuário aberto por Afonso Sardinha [o Velho] na via oeste do Piabiyu, entre Butantã e Carapicuíba, ainda no Séc. XVI – e a região passa a ser, entre os sertões carapicuibano e itapecericano, com o Rio Cotia e a exuberante Floresta de Morro Grande pelo meio, um dos mais importantes celeiros de abastecimento à Villa piratininga, como nos diz o Morgado de Matheus, capitão-general da Capitania no Séc. XVIII. Já no Séc. XX, e a aproveitar os erros técnicos de agronomia daquele ciclo agropecuário colonial, os japoneses da Cooperativa Agrícola transformam Cotia na trilha hortifrutigranjeira de maior porte no Brasil e o primeiro grande ponto de agronegócio da América.

1 A Bússola Aquífera Os colonos portugueses e castelhanos dos Sécs XVI e XVII não prestam atenção na sinalização aqüífera que o Piabiyu [Caminho do Peru // Caminho do Sul – trilha ancestral e continental da Nação guarani] lhes oferece, e raramente analisam os quês


da ramificação do próprio Piabiyu entre o planalto da Villa piratininga e o resto da América do Sul. O que os nativos guaranis escondem? Nada. São os colonos que não entendem a sua sobrevivência: o Piabiyu assenta sobre um lençol d´água subterrânea continental – o Aqüífero Guarani é a bússola natural dos povos nativos que percorrem o caminho ancestral.

2 Entre a Tropa & o Tropeirismo A atenção dos colonos, do ´500´ e do ´600´, está voltada não para a riqueza agronômica da terra, mas para a riqueza das pedras preciosas [ouro, prata, diamante...], e a sua ação agropecuária é, então, de subsistência e de apoio aos comboios que fazem as entradas sertão adentro, ou como bandeira [terra firme] ou como monção [fluvial]. Na época, utiliza-se a denominação portuguesa comboio para sinalizar um grupo de pessoas que parte em busca de algo. A designação tropa surge com a logística castelhana que vai buscar esse nome ao vocábulo germânico trupp, e só no final do Séc. XVII é que, e com os castelhanos [é o súdito de Castela que domina a arte da criação de cavalos e de muares a partir de Buenos Aires, depois que os jesuítas iniciaram tal tarefa fundamental nessa região] homens, cavalos e mulas, enfrentam os caminhos das ramificações do Piabiyu, do Rio Grande até Sorocaba e daqui para a Villa piratininga, para depois alcançar o traçado do Rio de Janeiro, quando o negócio assim o exige. Os portugueses aprendem rápido com os castelhanos. O primeiro grande tropeiro é Cristóvão Pereira que, 1731, deixa o sul e conduz tropa de 800 animais passando por São Paulo com destino a Minas. No meio do caminho entre o norte e o sul, Sorocaba vem a ser escolhida como ponto de registro ideal para as tropas e aí se inicia a grande feira tropeira, a primeira bolsa de valores do agronegócio. Também a meio caminho entre Sorocaba e São Paulo, a velha Koty guarani fica como ponto de apoio logístico às tropas que sobem e descem o Piabiyu. A velha aldeia faz jus à sua destinação nativa: ponto de encontro; e é na bifurcação do Ribeirão da Vargem Grande para a serrania de São Roque e as várzeas de Ibiuna que o tropeiro refaz também a jornada lenta e penosa dos velhos pioneiros e bandeirantes. Ainda com os castelhanos, os portugueses aprendem que não basta “deixar gado cavalar e bovino ao deus-dará”, pois, “animais e peões exigem o mínimo de conforto”. Daqui surgem os grandes ranchos à semelhança das estâncias estabelecidas na Argentina, no Paraguai, no Desterro e no Rio Grande – uma tradição milenar do Povo Basco, que vem a tornar-se, nos Pampas, a tradição gaúcha. Assim, grandes ranchos são estabelecidos, por exemplo, em Cubatão, em Cotia, em São Roque, Campo Largo, Iperó, Araçariguama e na serra de Botucatu. Ressalte-se que no caso das regiões no entorno do Cerro Ybiraçoiaba os tropeiros imitam os povos nativos e buscam espaços limitados por diversos leitos d´água...,


é que o tropeirismo substitui a precária demanda metalúrgica que outrora fez do cerro a Vila de Nª Sª do Monte Serrat e o primeiro polo industrial das Américas. Os espaços tornam-se logo faxinais e para tal infraestrutura geossocial nasce uma oferta de serviços que garante uma economia liberal de sustentação regional, assim como havia acontecido na primeira ocupação do Piabiyu em meados do Século 16.

3 Tropeiros de Cotia [Koty, Cuty, Cutia, Cotia]

A historiografia registra que em Cotia existem agropecuários que não ficam só no “a ver passar a tropa”... Aprendem o que é a Tropa, vão à feira tropeira sorocabana e aí observam como se desenvolve o negócio. Lá por 1807, o cutiano [natural da Cutia] Antônio Manuel Borba inclui numa tropa alheia, na qual aluga espaço, três bestas para serem negociadas. Anos depois, em 1828, o cotiano [Cutia passa a ser designada por Cotia] José Maria Oliveira César possui tropa no caminho de Santos e ganha 400 mil-réis por ano. No mesmo ano, 1828, o cotiano José Joaquim, “exposto na casa do vigário João Gonçalves de Lima, 32 anos, é negociante tropeiro de animais do sul”. É em tal registro da Cotia do Séc. XIX que surge pela primeira vez escrita, oficialmente, a designação tropeiro de animais.

4 do ciclo agropecuário-tropeiro ao agronegócio nipo-brasileiro Com o grande ciclo tropeiro-mineração (Sécs. XVI a XIX) esgotado economicamente, os ciclos cafeeiro e industrial passam a dominar a Sociedade brasileira; mas um grande acontecimento, ainda no Séc. XIX, no ano 1888, determina uma alteração estrutural e mental na antiga colônia portuguesa: a Abolição da Escravatura. Com isso, o ciclo cafeeiro-industrial precisa de mão-de-obra e contrato com direitos assegurados, e, principalmente, de pessoas qualificadas tecnicamente, tanto na área rural quanto na industrial.


O novo evento sócio-profissional proporciona a contratação de pessoas de outros países: do Japão, no início do Séc. XX [ano 1906], a Companhia Imperial de Emigração nipônica envia ao Brasil os técnicos Ryu Myzuno e Teijiro Suzuki para verificarem as áreas rurais de fixação dos novos colonos em São Paulo. E logo, em 1907, o Estado paulista assina acordo para receber 3.000 emigrantes do Japão até 1910. Uma das regiões incluídas no roteiro daqueles técnicos é Cotia, a oeste da Capital e entrada do velho sertão do Piabiyu, de tradição agrária e piscatória do Povo Guarani.

A Mina De Ouro Verde Entre 1908 e 1910, japoneses reúnem-se na região de Cotia e iniciam a plantação de hortigranjeiros, mas com especial atenção para a batata. Desde os tempos das Entradas e Bandeiras, a região de Cotia é considerada “de terra fraca para a lavoura”, mas os japoneses descobrem que a terra foi mal tratada nos tempos coloniais e fazem do velho Piabiyu (que o Império português havia fechado à circulação de bens e de pessoas, no Séc. XVI) uma mina de ouro verde... Daqui vai surgir a primeira cooperativa agrícola das Américas – a CAC.

Cinturão Verde & Cooperativismo Com as atividades rurais dos japoneses, forma-se entre Cotia [e as suas regiões de Caucaia do Alto e Vargem Grande] e Ibiuna o primeiro Cinturão Verde da Grande São Paulo, popularizado como Cinturão Caipira, tendo a CAC como polo centralizador.

1927 [20 de Dezembro] Decididos a tomarem conta dos próprios negócios, os agricultores japoneses assentados no bairro Moinho Velho, em Cotia, organizam-se e fundam a Cooperativa Agrícola Cotia [CAC].

Desde a fundação da CAC o Brasil não é mais o mesmo: respira o progresso através da própria terra. O povo brasileiro aprende, com os japoneses, que a terra é um bem


natural que deve ser acarinhado e preservado. A terra não pode ser reserva econômica, mas polo de sustentação adequadamente gerenciado para o bem comum. O que os japoneses, e já agora, os nipo-brasileiros, têm a ver com o (não tão) velho tropeirismo? Tudo. Isto mesmo: tudo. A saber: habituado a uma sobrevivência de agricultura arcaica, mas com técnicas de adaptação sofisticadas, o japonês vê no traçado do Piabiyu aquilo que portugueses e castelhanos acharam por ´bem´ ignorar: a raiz aqüífera de veio continental que levava os guaranis aos extremos sul-americanos tendo sempre como se alimentar e orientar. A orientação está sob os pés, sob a terra batida. Então, frutas-raízes podem ser plantadas e puxarem outras culturas no traçado sudeste das tropas de muares, e onde os bandeirantes aproveitaram para formar locais de abrigo, que, em alguns casos, viraram aldeias enquanto as aldeias nativas viraram vilas. O cara nipônico vê a terra como um diamante bruto a ser lapidado e, aprofundandose na sua luminosidade de húmus e água, encontra nos velhos locais o traçado ideal para estabelecer a vida – a vida que só o alimento bem cultivado assegura ao ser humano. Tal sabedoria coloca o japonês na rota dos guaranis, por isso, a CAC estabelece pontos de agronegócio em toda a linha que serviu o tropeirismo, de São Paulo a Sorocaba passando pelo Paraná e o Rio Grande do Sul. O sucesso da CAC só se entende quando se percebe a importância fundamental que o Piabiyu volta a ter na economia do Brasil [do escambo à mineração e preação, do povoamento ao tropeirismo] e aqui se acha, também de novo, a velha Cotia e aquela bifurcação piabiyuana e estratégica do Ribeirão da Vargem Grande.

5 A Finalizar

A primeira terra americana a receber o cavalo foi Cuba, em 1493. Já o Brasil vem a receber esse animal de extrema importância para o desenvolvimento econômico, em geral, quase um século depois com o castelhano Cabeça de Vaca: em 1541 desembarca com 26 cavalos e éguas. E, mais de um século depois, e porque a mula é o animal de carga que melhor se adapta aos acidentes geográficos brasileiros,


principalmente no percurso do Piabiyu, é que o cavalo ganha espaço econômico entre as estâncias sulistas e os ranchos paulistas, paranaenses e mineiros. Além do Cerro Ybiraçoiaba e do ferro, da Araçariguama do ouro e do algodão, Cotia é uma das regiões que se adapta ao ciclo econômico do tropeirismo e dá, assim, continuidade à sua vocação para entroncamento de serviços agropecuários e logísticos, sempre na rota das comitivas. Através da leitura dos percursos da Família Nascimento e da Família Lemos Leite, em Cotia, e que são dois exemplos entre outros, verifica-se que o trajeto original das tropas é o mesmo utilizado pelos empreendedores rurais que carregam as suas partidas de lenhas e mantimentos para a Capital paulista, com pouso no Portão, uns, e pouco no Bonfiglioli outros, até à parada em Pinheiros para redirecionamento às regiões da Capital. Do inventário (partilha) de Benedicto Lemos Leite sabe-se que nos Anos 50 do Séc. 20 tanto o escambo como a venda de gado bovino tinham tanta importância mercantil quanto o escambo e a venda de burros, e que mesmo com tal importância também no comércio de carnes a região cotiana não conseguiu durante muito tempo instalações para abate de animais, o que obrigou os locais a fazerem registro em outras cidades para legalizar o abate clandestino. Na trajetória agropecuária e tropeira de Cotia no traçado do Piabiyu está a essência histórica que a coloca entre as regiões que ajudaram a formar o Brasil a partir do oeste da Villa piratininga. E depois, com os japoneses, o Brasil conquista a sua primeira modernidade econômica através da CAC tendo o nome Cotia projeção nacional e mundial.


CAVALARIÇO Uma Novela Do Sonho Que Sonhado Se Faz

[Cavalo e Cavalariço. Giorgio de Chirico]

O diálogo acerca do bem fazer é um ato que nos leva a repensar outros atos para aprimorarmos a vivência no cotidiano da humanidade. O sonho é um ato próprio da humanidade mas nem sempre tem o tamanho que desenhamos no inconsciente, por isso falamos de um sonho a ser sonhado para se viver. Esta novela que vos conto é um diálogo e nela vos digo que a palavra é, ainda, a fonte da solidariedade – e, sempre, o traço que carreia o amor. E vai em três partes para que se possa tomar aquele cafezinho ou aquele trago de boa pinga, talvez um chã, nê... João Barcellos, 2013


1 A manhã é primaveril e entre a névoa vislumbra-se um horizonte recortado por uma linha de montes. O frio torna-se quase fio de navalha no ritmo inconstante do vento. É a natureza a dizer de si ao mundo humano, despertando-o. O menino Etxaberri esfrega as mãos no casaco de lã grossa. Ele não cansa de olhar o horizonte. Todas as manhãs, após dar um trato no cavalo da família, deixa a cocheira, pula para a pedra grande que guarda o rancho e olha o dia colhendo o mundo. Só quando escuta Vem, o leite tá pronto! é que deixa o arenito e corre para junto da mãe. E ela, dona Nayara, serve o café da manhã: pão que ela mesma preparou, leite e queijo de cabra. Oh, Nández, vem para a mesa..., e logo surge na cozinha o marido e pai ainda a esfregar uma pequena toalha no rosto onde a lâmina acabou de cortar a barba. Ótimo estudante, Etxaberri é um menino de 11 anos que vê no pai o futuro que quer para si. Pá, o Osírio vomitou durante a noite. Temos que diminuir o leite da ração! anuncia, com certo receio que se percebe no tom da voz. O casal troca olhares. O cavalo Osírio é o diamante da família, e por isso é tratado somente por um cavalariço que nasceu na arte da cocheira: o próprio Etxaberri. Pode ser, mas toma atenção para ele não beber na lagoa, só n´água corrente do riacho, adverte. Nayara sabe que o recado é também para ela. Durante a manhã, após o trato d´estribeiro, o menino vai para a escola enquanto ela cuida do cavalo e dos afazeres rurais, porque ele, o pai, sai a vender o pão e o queijo do rancho montado numa velha bicicleta, e outras vezes é o camponês nas suas tarefas. Ei, ó Xavi...!, gritam colegas da turma da escola. Falar o nome Etxaberri é complicado e o menino virou Xavi até para a professora. Jovem, a professora percebeu um talento incomum no menino para as coisas da natureza e o trato com animais, mas especialmente no trato com cavalos. Numa tarde de sábado, após a reunião com os pais de todas as crianças, chamou Hernández e Nayara de lado: O vosso menino parece que nasceu para ser capataz de haras..., disse, e viu nos olhares do casal que não estava errada. Depois que fugimos da guerra civil, lá..., a da Espanha, montamos o rancho que temos aqui, e este Brasil ora é a nossa terra e por isso demos ao menino nome Etxaberri (que em basco quer dizer Casa Nova), mas sabemos que não temos condições de mandá-lo estudar fora. Eh, ele vai ser o estribeiro e o camponês que o pai é, pôs ele um ponto final na conversa. Talvez, talvez, mas ele é um menino que não desiste da vida!, rematou Nayara para alegria da professora. Olá, Etxaberri. E como vai o grande Osírio?, saúda a professora já com uma pergunta de saída. Antes de ajeitar a bola que recebeu e dar-lhe o retorno aguardado pelos colegas, o menino sorri: Osíris, quer dizer, o matador de lobos, está meio bobo, em baixa, mas vai recuperar, que ele tem ´loba´ pra cobrir amanhã, responde, e deixa a professora um tanto atordoada e com um súbito vermelhão no rosto de marfim emoldurado por cabelos castanhos soltos no vento. E pontapeia a bola tão aguardada do outro lado. Não foi a primeira, e sabe, não foi a última vez que olhou para o filho sentado na pedra e extasiado pelo som cósmico que lhe sussurra outros mundos, outra vida. É o que pensa Hernández ao carregar a bicicleta. Na noite fria ficou de conversa com Nayara entre os estalos da madeira que queimava no fogão e uns goles de pinga com trocas amorosas na serenidade de cinquentões que sabem viver. Sabiam da alma grande do menino. Nem vendendo o Osírio teremos como pagar um estudo melhor para o nosso filho...Bah!, lamentaram. Mas ele sabe que tem de respeitar o sonho do filho. Devagar, o ciclista rural desce agora a trilha para vender os seus produtos em duas vilas.


Hernández é um legítimo camponês e estribeiro de Bilbao. A boina preta sinaliza-o onde quer que vá. Lá vem o basco!, dizem. Pouco antes da guerra civil ele conquistara, pelo saber adquirido, o posto de treinador, mas não deixou de frequentar a cocheira um só dia. Um cavalo conquistador é a imagem do cavalariço sonhador, gravou numa prancha. Sabia que sem estribeiro eficiente não há treinador que aguente nem cavaleiro vencedor, porque está no cavalo bem educado a meta da vitória. Na fazenda refugiaram-se várias famílias com a permissão do proprietário da coudelaria e encontrou entre elas a mulher que o fez cair de joelhos: Nayara. Ela mesma uma amazona excelente e tratadora de grande habilidade, embora que sem habilitação veterinária, mas também com mão cheia na cozinha do rancho. Era famosa aquela Nayara. Diziam ser ela a dádiva divina das coudelarias. E então? Quando os seus olhares se cruzaram num fim de tarde em que os aviões militares de Hitler ameaçavam despejar bombas de Franco para acabar com a resistência basca, ele fez o que nunca havia imaginado. Nayara, eu tenho algum dinheiro, vamos para o Brasil e viver uma vida nova?!, perguntou. Ela estava só e quis viver. Sim, lá teremos como trabalhar em paz. Uma tia minha está lá e vive a tradição basca entre os... ai, como é que é... entre os gaúchos, no sul..., e nove dias depois um jovem casal enamorado deixava a Espanha que sangrava, não em praça de touros, mas entre os seus povos, e fazia-se ao mar para uma travessia sem volta. Nayara e Hernández juntaram os trapinhos em Santos, mas logo zarparam para as terras gaúchas de Porto Alegre, o velho Porto dos Casais iniciado pelos açorianos. Para ele, o sonho de viver realizando é a única meta possível. Viver a vida no abraço e no beijo de Nayara foi um milagre inigualável. Ela não é modelo de beleza, mas a sua graça no andar e o olhar profundamente negro entre as madeixas da mesma cor fizeram o basco esbelto e de olhar terno esverdeado se ´enforcar´ só pela imaginação de a ter nos braços. Em pouco tempo o casal adquiriu um rancho perto de Viamão e entregou-se de corpo e alma a refazer a vida como se fosse uma cavalgada amorosa entre as tarefas nas tropas pelo escambo de prazeres. A chegada do menino iluminou o casal no momento em que a casa ficava pronta e puderam pensar no cantinho dele. Eh, vai se chamar Etxaberri!, disse ela. E o sonho continuou ao perceberem que a paixão e a dedicação do menino pela arte equestre e a razão de ser do cavalariço era uma benção autêntica. A aquisição de Osírio rematou o espaço da felicidade ao preparar o menino para a doma e a equitação. Mas, entretanto, Osírio revelou-se algo mais e o casal quis aproveitar as suas capacidades... do vento escuto o cântico das entranhas sei de um eu pelo vento sei de um eu além de mim em divino cântico pela vida sou romântico no vento sou o sonho de outro eu

É no que pensa Hernández enquanto tenta vender toda a produção semanal de pão e queijo do rancho. No fim da tarde encontra a professora num vilarejo. Com sinceridade jovial ela retoma o assunto do menino inteligente cujo talento deve ser aproveitado, e ele diz que sim, que eu e Nayara estamos a pensar no futuro dele, mas ele deve fazer acontecer o próprio futuro, e vê que no olhar da moça passa um instante de fúria e sorri: sabe, professora, ensinamos o nosso filho a caminhar com o próprio pensamento e virá o dia em que ele dirá ao que veio... é assim com os bascos e é assim com os brasileiros. Veja, aqui de Viamão saiu o movimento tropeiro que fez mudar o Brasil e


até o modo de pensar dos brasileiros, e foi obra de quem pensou e fez, não ficou esperando acontecer. A jovem parece estar calma. Está bem, senhor Hernández, mas não deixe de apoiar a decisão que ele tomar, quando a tomar... Passar bem. Vemonos no sábado, diz. Ele olha para as cestas da bicicleta, sabe que a venda ficou pela metade. Que a vida está difícil até para comprar mantimentos e o queijo parece ser, agora, coisa para gente abastada. Professora!, ó Professora!, leve isto e faça amanhã um lanche especial com as crianças!, grita, enquanto se aproxima dela. Fico-lhe muito agradecida, diz ela. Percebe que a venda não foi lá essas coisas e entende que ele o faz não para agradá-la, mas para mostrar que entendeu o recado.

No rancho, Etxaberri escova o altivo e belo Osírio. Quando os pais compraram o rancho o cavalo não era parte do lote; ele já estava há vários meses a trotar uma vida selvagem e a brigar por comida com outros animais. Olhem, um autêntico Osírio, observou Nayara ao se deparar com o belo e, então, maltratado cavalo. Ele se desvencilhava da presença de cães vadios e famintos que acharam no rancho um novo covil. Sim, e este Osírio é bom. Tratado vai ser uma estampa!, disse Hernández. O casal ficou tão feliz com a presença do cavalo que decidiu adquiri-lo com pagamento em oito parcelas. Um prazer e um sacrifício. O menino verifica que o cavalo deixou de vomitar, não está mais mole. Eh, Osírio, tu vai hoje montar égua pra tu ficar feliz..., murmura ele acarinhando o focinho. Ele sempre nota na coelhada, na vacada, na galinhada, na porcada, na cachorrada, denominações dadas à monta animal pelas crianças, que o macho vive uma calmaria, um êxtase, após o esforço de se doar à fêmea. Hum, não é bem assim com o macho da casa..., sabe pelos sons da repetição do ato sexual no quarto ao lado do seu, e pelo sorriso de dona Nayara no café da manhã também sabe que ela gosta de ficar em êxtase. Os animais fazem cobertura para se reproduzirem, e nós também, mas nós gostamos de... gostamos de curtir o prazer do amor, que é o que tu vais aprender quando conheceres a mulher da tua vida!, explicou a mãe a um filho para quem o sexo animal não é segredo, mas vive, com a sua geração, o tabu do sexo humano. Vê que o pai chegou da venda mais cedo e está nas contas com a mãe. Parece que o dinheiro está curto, mas também sabe que a mãe e o pai nunca discutem. É a vida que escolheram. A vida que ele mesmo quer escolher. Eu quero ser mestre de doma e equitação, respondera um dia a uma pergunta feita pela professora a toda a turma. No mesmo dia – dia de redação para aprimorar a percepção da vida pela escrita, Etxaberri registrara que o sonho bem sonhado é uma lição que leva a gente a realizálo não importa quantos e quais os obstáculos, e eu sonho o meu sonho todos os dias na escola e no rancho, uma escrita que deixara a professora tão entusiasmada que a leu para a turma. Um sucesso. Etxaberri virou o intelectual da escola. Nayara e Hernández ficaram extasiados com a notícia. O nosso menino é um prodígio, mas sabiam das dificuldades a enfrentar para alimentar aquele talento. A alma do casal doía a cada novo sucesso do filho. Nayara, minha vida, eu não sei como vamos fazer, mas acho que vou aceitar o convite de cavalariço na estância. Serão dois dias por semana e nem é tão longe daqui, só duas horas de bicicleta, murmura. Ela aguentou até onde poderia aguentar para segurar o pai-herói junto do filho, mas a precariedade econômica exige mais


sacrifícios. Se tem que ser, será, Nández!, diz. A voz entrega toda a emoção de um não engasgado no coração de mãe e de esposa. Mas tens que te poupar, porque será também ferrageamento e casqueamento além da doma, lembra ela. Uma hora depois, Osírio cobre uma égua no sítio de um camponês amigo da família basca. Conversa puxa conversa, o camponês anuncia que está por aqui um veterinário português que paga muito bem por sémen de garanhão campeão. E ocê sabe, ó Hernández, o teu Osírio ganhou algumas corridas aqui, faz uns três anos..., mas mesmo tendo verificado que o perfil de Osírio não era de um cavalo comum, Hernández nem desconfiara que tinha adquirido um campeão da velha família estancieira ora nas ruas da amargura. Vender sémen de campeão?!... E onde está esse ´gajo´?..., quer saber. O basco pensou rapidamente. A poucos metros, Etxaberri é pura felicidade afagando um Osírio que acabara de se mostrar um garanhão na cobertura. Já sabia que portugueses e franceses faziam inseminação de sémen e pagavam muito bem por sémen campeão. O português é um cinquentão animado, conversador. Estou aqui há pouco tempo, nunca vi este garanhão, mas já escutei falar de um tal Osírio, sim..., diz ele ao ver Osírio. Está absolutamente encantado. Este é o cavalo campeão que foi deixado ao deus-dará no rancho que Hernández comprou. Lembra que eu falei pra ocê, doutor?!, é o à parte do camponês. Hernández sente que alguém puxa o casaco. Pai, nós não vamos vender o Osírio...?!, é um Etxaberri, inquieto. Não há dinheiro que leve o nosso Osírio, filho, mas ele é um campeão que pode gerar outros osírios!, e explica ao menino a importância do sémen de um garanhão campeão. Na explicação vê que o camponês concorda com tudo. E eu espero que o vosso Osírio me dê pelo menos um, escutam. E se der, ocê tá levando um filhote campeão de graça!, nê..., responde o basco, mas sem exaltação, sem repúdio, pois, o camponês sempre foi e é um vizinho de boa amizade. Eh, mas o filhote só será campeão se eu o ensinar a ser garanhão!, diz Etxaberri. A tirada faz o português rir. Ah, então és tu o menino-cavalariço que quer ser mestre de doma e equitação, hein! A professorinha contou-me o teu sonho, rapaz. Pois, se o teu pai quiser fazer negócio, tu poderás ir para uma escola equestre lá em Portugal e, é claro, voltar para ser mestre aqui..., comenta. Mas remata: Ó, meu caro Hernández, a minha palavra é trato feito e só trabalho deste jeito. Eu já tenho informações precisas acerca do teu Osírio e vou colher amostras do sémen só por segurança, e se for o que eu penso, o sémen muda a tua vida e o teu filho vai estudar em Portugal... E é um comentário e uma decisão que emociona até o rude camponês. Esta família basca é gente boa, doutor, é gente que merece, diz. Hernández vive dois milagres em sua vida: ter conhecido e ter conseguido Nayara. Tudo o resto é para ele uma dádiva divina, e mesmo Etxaberri. E agora Osírio. E lembra o pão e o queijo que oferecera à professora. Agora sabe que ela está hospedada na mesma pensão em que está o veterinário. Ah, meu caro Hernández, prepare uma partida daquele queijo de cabra que você deu para a professorinha que... eu vou comprar, escutou, enquanto recebia uma palmada nas costas. Percebe que não é por acaso que o filho adora a professora: ela é a melhor fã dele. Alimenta-lhe o sonho de ser alguém. Diga-me, Hernández, como vocês conseguiram resgatar o garanhão da vida selvagem?, quer saber o português. A minha Nayara não é veterinária de, como dizem?, de canudo, mas cresceu e foi educada por um casal de veterinários em Bilbao, então, juntamos isso à minha experiência de estribeiro e pronto, aí está o Osírio, forte e garanhão, e agora, deixe-me dizer, sob o trato de um menino-cavalariço quase mestre e aos 11 anos um menino de mãos calejadas!, explica, e acha um bom momento para homenagear o filho.


* O veterinário português é um estudioso da coisa tropeira e equestre. Em visita às regiões argentinas de Córdoba e Corrientes, quis se inteirar do estancieiro jesuítico, primeiro nos ranchos e aldeias de Santo Ignacio, Caroya, La Candelaria, Jesús María, Santa Catalina e Alta Gracía, todas no entorno de Córdoba e algumas quase sem vestígios arqueológicos, mas com bons registros documentais, e depois a imensidão interiorana de Corrientes. E aqui foi berçário de mulas e jumentos que ajudaram a ligar a economia sul-americana, escutara de um guia. Durante mais de uma semana pesquisou documentos ligados às missiones jesuíticas e ao tropeirismo. E havia muito a pesquisar. A história vai além das estorietas contada por guias de turismo, dizia para si. Desta região de Corrientes saíram tropas de mulas xucras para serem amansadas entre Viamão e Sorocaba e, antes da abertura da feira de lá, ainda recebiam tratos de cavalariços experientes, nos faxinais de Campo Largo e Bacaetava, os dois nas imediações do Morro Araçoiaba (aquele, o da mina de ferro), para serem vendidas a preço bom e trabalharem pesado nos estradões das minas d´ouro, lá de Ouro Preto até ao porto de Paraty... Ah, meu senhor, e isto foi possível porque anos antes o seu ´patrício´ Morgado de Mateus, deu trato de civilização com certa urbanidade povoadora à Capitania paulista.

Huuumm, e outra coisa (pode, pode anotar nesse seu caderninho), já que estou com as mãos nas rédeas: os padres jesuítas eram práticos da vida, e não meros religiosos, por isso contratavam colonos bascos experientes no trato de cavalos, daí parte da tradição gaúcha ser uma tradição basca..., escutou. Era um fim de manhã, domingo, e ele tinha-se juntado a uma excursão de brasileiros que percorria os arredores de Corrientes. Fotograva e anotava o que lhe parecia mais importante quando, num daqueles instantes que fazem a vida ser vivida com prazer, uma jovem quis dar-lhe umas dicas desconhecidas dos guias. De estatura mediana, cabelos castanhos e olhar doce, ela apresentou-se: Eu sou Mariana, professora de primeiras letras lá num lugarejo de Viamão. Simplesmente encantado com a jovialidade e a sabedoria de Mariana, ele respondeu: Pois então, menina, tu acabas de me dar uma boa informação acerca do morgado que comandou a Capitania paulista e, sabes..., disso eu só tinha ouvido umas notas. Olha, felizes as crianças que tu educas. A partir dali formaram um par inseparável. Mas, dize-me, ó menina, como sabes acerca dos bascos, ´coisa´ tão escassa de informações por aqui?..., quis saber. Com um sorriso de mil encantos no rosto, Mariana explicou-lhe que tinha um aluno chamado Etxaberri, obviamente..., filho de bascos, um menino que aos onze anos é já um mestre cavalariço e faz redações maravilhosas sobre a arte equestre e a história dos bascos no Novo Mundo. E logo, Viamão ficou no roteiro imediato do veterinário português. Numa parada de boteco para refrescar e descansar ela quis saber algo que até ali não fora dito: A propósito, eu não gosto de conversar com desconhecidos... E o português, quase engasgando com a alegre ironia, disse: Ai, ai, ai, minha menina, mil


perdões. Pegou na mão dela, beijou-a delicadamente e apresentou-se como Alexandre, veterinário e biólogo, ao teu dispor! Eu gostaria de saber, e você sabe, o que é essa história das estátuas equestres, que esoterismo as envolve?... A fala da moça é suave, uma brisa. Até uma aluna já me questionou..., prosseguiu. Curiosa, a menina. Pois bem, falar de cavalos quer dizer observar o que o intelectual e rei Duarte I, de Portugal, dizia ser a arte de bem cavalgar a toda a sela. Mas também existe uma simbologia própria relativa a quem monta – a saber (e ele aponta o indicador direito para um cavalo que pasta perto deles): a estatuária equestre homenageia cavaleiros e amazonas dando significação artística ao tipo de vida e de morte: a) as quatro patas do cavalo no solo, significa que a perssoa morreu de causa natural; b) uma das patas no ar, ela morreu em ação; c) as duas patas levantadas, ela morreu em batalha. Portanto, minha menina, não tem aqui esoterismo algum, mas uma significação funcional na estética funerária da estatuária, uma espécie de mortalha a levar para a eternidade uma determinada pessoa.

flores cruzam essências animais montam posses humanos amam e cruzam preferências a posse do amanhã é a flor que hoje s´eterniza

Na distração de Alexandre, a professora leu de relance um poemeto em papel avulso que deslizou do caderninho de anotações. Gostei..., disse, o rosto numa chama só. Ai, menina, faço poesia até a dormir!, atirou ele, brincalhão, ao perceber o desconforto dela. Pega o papel e relê o poema num quase murmúrio. Escrevi isto no intervalo de um congresso em Casablanca sobre inseminação artificial, revelou. Ela apoiou os cotovelos na mesa e o seu rosto delicado ficou entre as mãos. Alexandre olhou aquele movimento gracioso a pedir mais e não resistiu: Olha, menina, diz-se que um monge italiano, um tal Lázaro Spallanzani, fez a primeira fecundação de fêmea levando a ela (logo, sem o contato do macho) o sémen colhido: era de um cão, e a cadela pariu três filhotes. Isso foi em 1779 e provou que era possível essa transferência sem danos à saúde animal. Mas pouca gente diz a verdade histórica, pois, foram os árabes, lá por mil trezentos e troca o passo que iniciaram o processo para aprimorar a linhagem do que hoje é o cavalo puro sangue árabe... Fixou o rosto dela e atirou: E que tal uma limonada?! E ela pareceu despertar de um sonho encantado...

*

Nayara prepara a janta. Os seus homens vão chegar com aquele apetite de serr´acima quais tropeiros no limiar da trilha. Não tanto quanto Hernández, que só acredita no que ele diz ser a Palavra de Jesus, ela faz da Bíblia o seu livro de cabeceira e do Salmo 141:5 a sua oração: Fira-me o justo com amor leal e me repreenda, mas não perfume a minha cabeça o óleo do ímpio, pois a minha oração é contra as práticas dos malfeitores. Sempre que os seus homens saem do rancho não


se envergonha de dizer que quase chora de medo e de saudade. A minha família é o meu altar, gravou ela na superfície de um pão com ervas doces, feito para a primeira noite de fim de ano celebrada com Etxaberri. Eis que chegam..., suspira. Pai e filho correm para a cocheira com Osírio. Cai uma chuva pesada e fria e o horizonte é breu. As notícias não podem ser melhores, mas de entre elas Nayara seleciona uma para comentar: Se esse cientista português quer ajudar mesmo, ele pode apoiar a instalação de uma escola equestre aqui mesmo, no anexo que ainda está desocupado... A determinação com que coloca a questão faz Etxaberri sorrir de alegria com a ideia, mas para Hernández soa como uma imposição que poderá criar problemas. Sim, eu sei, eu sei, que nós podemos montar uma escola aqui – uma escola particular, mas também sei (e nós sabemos, bah) que os estudos do nosso menino não podem ficar por aqui... Ele abre os braços, puxa-a para um abraço carinhoso, e continua a dizer que por aqui também existem boas universidades, porque cavalariço Etxaberri já o é, e então, podemos propor ao doutor Alexandre que faça a melhor venda com o sémen de Osírio e nós mesmos tratamos do futuro escolar do nosso menino! Ela aninha a cabeça no ombro dele. O casal está em paz e a perspectiva de uma viagem longa para o menino fica descartada com a solução achada. Ah, e tu sabes que o doutor Alexandre já sabia de Etxaberri?, atira ele. Nayara fica perplexa. E como ele, que só agora chegou por aqui, sabe do nosso menino?... O casal percebe que Etxaberri se mexe, coloca os talheres na mesa. Ele conheceu a professora Mariana na viagem que ela fez à Argentina e, aí, pelo que ela me disse, aí foi que ela falou de mim para o doutor veterinário..., revela ele, olhar fixo no casal. Pelos vistos, o nosso Etxaberri é internacional. Bah!...,atira Nayara, que o abraça orgulhosamente.

2 Duas semanas depois de o doutor recolher amostras de sangue e de sémen de Osíris ele almoça com a família basca. É um encontro de felicidade. O português corre a região com uma charrete alugada ao dono da estalagem, mas agora é o som de um cavalo que se escuta. Ó de casa! Ó senhor Hernández!, grita um homem jovem e forte, de terno e gravata com uma pasta de couro debaixo do braço esquerdo. A família basca leva um susto. Eu sou Hernández. O que os traz aqui?, quer saber o basco. Atrás, Nayara pressente que a felicidade está em perigo. Passa a mão nas costas do marido. Sou oficial de justiça e trago uma liminar que impede a venda de sémen do cavalo da Família Nuñez... Nayara não contém a emoção e perde os sentidos. Uma vida de luta para construir uma família com honradez e Hernández vê a sua companheira tombar, e o seu menino a abraçá-la, solidário, com a ajuda do português. Com habilidade, o doutor Alexandre recupera Nayara e senta-a numa das cadeiras da varanda. Etxaberri, vai chamar o vizinho!, diz Hernández. Ó senhor Hernández, eu só entrego a documentação que o senhor tem de assinar..., esclarece o oficial; ele atua numa região em que oficiais de justiça são recebidos às vezes com muito chumbo quente. Sim, eu sei. Mas antes de assinar quero que o meu vizinho, que testemunhou a compra do cavalo, possa ler também a intimação, diz.


Na varanda, Nayara é a imagem da desolação. Compramos este rancho com assinaturas no cartório, mas compramos o Osírio só quando o vimos aqui, perdido, maltratado, e, sabe, doutor, foi trato de palavra com pagamento parcelado em dinheiro, balbucia ela. A notícia da aquisição do sémen deve ter chegado aos ouvidos do antigo proprietário que, com certeza, quer uma parte, mesmo que indevida!, comenta Alexandre. Oi, oi pra todo o mundo!, cumprimenta o camponês vizinho. Ei, ei Leopoldo, como tu estás?, dirige-se ao oficial logo que o reconhece. Olá, senhor Castro... Caramba, eu estava vindo e matutando que o caminho não me era desconhecido. E a dona Laura, como vai? A conversa familiar entre os dois pacifica o ambiente. Ora, ó dona Nayara, ele é afilhado da minha Laura... Bem, mas vamos lá ver o que se passa? O que um oficial de justiça quer com gente de bem, como nós?! O oficial entrega o documento que o doutor Alexandre pega. Através da justiça o antigo proprietário do rancho se diz dono de direito do cavalo cujo sémen não pode ser vendido sem a sua autorização, diz ele. Pelo que dona Nayara me disse, o cavalo foi pago em parcelas por trato de palavra... Deixe-me ver quem faz a interdição, e Castro pega o documento. Ora, só poderia ser. Não é o velho Nuñez, é a filha que foi nascer portenha e nunca colocou os pés por aqui... Quer dinheiro pra s´embonecar a fidalguinha pó d´arroz! Meu amigo Castro, eu só venho trazer..., recomeça o oficial. Ai, eu sei, mas esta interdição não tem razão de ser!, exalta-se Castro. Ora, dona Nayara, meu amigo Hernández, vamos provar que o Osírio lhes pertence... Na varanda, Nayara está no abraço de um Etxaberri carinhoso, emocionado, mas não chorão. Ele tem vontade de correr para a cocheira e sequestrar Osírio para longe da confusão armada. No entanto, estar junto da mãe amada é mais importante. Como a compra foi feita na palavra como vamos comprovar que pagamos pelo cavalo?, questiona ela à guisa de busca de alternativa. Eu acredito que deve haver margem para se defenderem uma vez que não é o antigo proprietário que pede a interdição, mas terão que buscar um bom advogado!, remata o oficial já com a assinatura de Hernández no documento. Enquanto o homem do judiciário se afasta do rancho, o português vê que o Brasil não é diferente de Portugal nem de outros países, porque o trato apalavrado não tem mais importância. Ou o negócio está no papel ou não vale.

* Em casa do camponês Castro, dona Laura ficara muito agitada ao saber que um oficial de justiça veio buscar o Osírio, nas palavras inocentes de Etxaberri. Quando o seu marido Castro saiu correndo com o menino, ela foi para o quarto. Essa gentalha argentina não vai emporcalhar este solo outra vez!, determinou-se. Num murmúrio, ela quase canta [...] pois vazios vieram ao mundo e vazios procuram deixar o mundo, uma parte do versículo 130:28, no qual Tomé lembra Jesus. Ela é uma idosa que só aprendeu a ler e escrever muito tarde, já com a vacaria recolhida e à luz de lampião. Vivera uma vida de angústias até conhecer Castro e ele quis e a fez esposa letrada e sabedora das coisas do mundo, como escutava dele, um autodidata orgulhoso. Herdeira dos primeiros açorianos que de entre a Lagoa de Patos e o Porto dos Casais deu vida aos projetos do Morgado de Mateus, ela não assina, ela se diz vida. Só me faltou ir com Anita batalhar com o Garibaldi, gosta de dizer. Um dia, com uma


irmã mais velha, aventurou-se em Viamão num emprego de chefe de cozinha. Outro dia, de passagem pela estalagem, o fazendeiro Nuñez olhou aquela mulher de olhos verdes, pele amorenada, cabelos pretos e longos armados na nuca, e quis a sua dinâmica de chefia para comandar a criadagem do rancho. Não sei quanto tu ganhas aqui, moça, mas pago o dobro para tu pores a minha criadagem na linha!, propôs. E então, trato feito, que vou agora mesmo!, aceitou ela, farta da miséria que ganhava na estalagem. A adaptação ao rancho foi coisa de dias e logo a criadagem dos Nuñez estava a fazer o que deveria fazer. Durona e bonita, Laura tornou-se funcionária de confiança também de Rosa, a esposa do fazendeiro, e ajudou-a no parto da filha no solar da família em Buenos Aires. Mas não suportava o filho do casal, um brutamontes metido a fidalgo. Ao fim do primeiro ano, Laura conseguiu enviar a irmã para Lisboa a realizar um sonho: fazer um curso de enfermagem com a ajuda financeira de dona Rosa. Até que num outro dia surgiu Castro... Tinha por dona Rosa um apreço de filha e doeu-lhe saber que não voltaria ao Brasil. Minha filha será inteiramente portenha!, havia decidido. Rosa quis que Laura se mudasse para a outra banda do Rio da Prata, mas o marido fechou qualquer tipo de negociação. Laura foi contratada para tomar conta da criadagem do rancho e assim será!, disse. A partir daquele momento, Nuñez envolveu-a nos negócios diretos, pois, preferia ir pescar e caçar. Assinei como testemunha o negócio do rancho porque vi naquele casal basco gente boa e honesta, trabalhadora. Não, essa gentalha não vai emporcalhar esta família bonita!, disse para os seus botões.

*

O português sabe que a interdição inibe os seus projetos quanto a Osírio e, de repente, lembra-se: Olhem, quanto a advogado não terão problema, e eu vou-me inteirar com um juiz que conheço em Porto Alegre como é este tipo de processo, diz. Hernández não entende a facilidade com que o veterinário e cientista conduz o problema. Espere. Espere. Aonde vamos buscar dinheiro para um advogado...?! Sem deixar de abraçar a mãe, Etxaberri sente um sopro d´alma e quase cai deixando todos aflitos. É a professora. Sim, é a professora. O doutor sabe que ela também é advogada, bah!... Sim, sim, é verdade. E ela só não exerce porque não quer. Prefere ser pedagoga. Mas se ela for tão boa advogada como é professora, teremos chimarrão d´erva boa pra beber..., comenta Castro. Não, corta Alexandre, ela já exerceu e ganhou todos os processos em que se envolveu! Todos ficam a olhar para o português. Ele entende e explica: Conheci a professora em Corrientes e desde então fazemos um par que investiga pormenores da história tropeira e, também, foi ela que me apresentou a Castro... ...e?..., é Castro que quer saber mais. Mas escuta: É só... Todos riem. O ambiente na casa dos bascos retorna à normalidade com Nayara a recompor a mesa. Castro fica para aquele cafezinho tropeiro que dona Nayara faz. O assunto recente passa a ser tratado como mais um entre os obstáculos a vencer. Entretanto, Castro não desiste. É só, mesmo..., e escuta do cinquentão português: Se ela, a Mariana, quiser viver em Portugal, vai fazer de mim um homem muito feliz, pá, mas só depois de resolver este caso!


3 Enquanto bebe um gole de vinho das bandas de Bento Gonçalves, o oficial Leopoldo observa uma mulher jovem que se afasta do centro de Viamão. Bah, mas como não pensei nisto antes?!..., berra, e pousa o copo com tal violência que o resto do vinho escapa e se espalha pelo balcão de madeira. Minutos antes encontrara Mariana, não como professora, mas como advogada em busca de uma defesa inteligente e honesta para o Caso Osírio, como já é chamado o processo. É difícil trabalhar juridicamente sem documentos, mais difícil ainda é provar a inocência e a honradez de alguém por aproximação de diálogos, e sendo que o caso envolve a possibilidade (sim, é uma possibilidade...) de muito dinheiro, a justiça pode até arquivar tudo por falta de consistência, embora a honradez faça ver que a justiça está a praticar uma injustiça ao ser absolutamente cartorial, ouviu dela. Mariana resistiu a pegar o processo, mas não quis magoar a esperança e o sonho que o olhar do menino Etxaberri lhe direcionava. Ai, que os velhos deuses bascos me protejam e que Jesus me ilumine!, disse. A seu lado tinha o braço amigo de Alexandre, que lhe fizera o pedido. Por que é que o Osírio não foi averbado ao documento da compra do rancho?, lamentava-se diante do documento sempre que o olhava. E como é que acharam o proprietário se era dona Laura que fazia a ligação até no pagamento de taxas municipais na ausência dele?..., e tal interrogação deixava-a inquieta. Ei, compadre. Ei, surtou?!..., quer saber o empregado do bar, aturdido por uma cena que nunca imaginara ver. Um oficial de justiça surtando... Nada disso. Bah!, acabo de ter uma ideia!, responde, e sai mesmo sem pagar a bebida. Doutora, ó doutora Mariana!, grita, e já no rastro dela. Ai, senhor Leopoldo, o que aconteceu? O senhor está bem?!, diz ela a entrar numa rua estreita. A minha madrinha, dona Laura. Sim, é, sim, sim, dona Laura, pode ter algum papel que relacione tudo..., diz ele atropelando as palavras. Mariana olha-o de alto a baixo. Tu pensou rápido, hein! Eu também estava me questionando sobre dona Laura, porque ela tratava também das taxas antes de a família Nuñez meter no meio um advogado pra fazer tudo, diz. Ai, ainda bem que não estou errado. O rapaz do bar pensou que eu tinha surtado..., recompõe-se ele. Leopoldo faz um gesto convidando-a para o bar. Não é o café de Dona Nayara, sabe, mas é um cafezinho que sabe a tropeiro um tanto desleixado..., ela escuta e deixa-se conduzir com a mão no braço dele. Professorinha, a senhora ia embora sem passar por aqui...?!, insinua o rapaz do bar a mostrar um bom relacionamento de freguesia. Cafezinho com leite..., e vê que ela aceita com um sorriso. Ah, professorinha, e diga ao seu amigo doutor, o lusitano, sabe..., que aqui é o ponto e não na pousada!, remata à guisa de recado à freguesia ocasional. Ai meu rapaz, chega de encher a paciência da doutora que temos outras coisas a conversar por aqui. Ah, e me traz o irmão gêmeo daquele copo..., avisa Leopoldo. Huuumm, num surtou, mas tá que tá só pela companhia de dona Mariana!, ironiza. E ela ri. Ah, Leopoldo..., porque o Nuñez foi embora?, quer saber. Bah, mas isso é assunto público: o filho dele meteu-se em jogatina, a perseguir as mulheres dos outros, e uma noite apareceu enforcado. Com a mulher e a filha em Buenos Aires, o velho não aguentou e foi-se!, esclarece. Entre goles de café com leite e vinho tinto eis que Mariana e Leopoldo acertam num ponto: dona Laura é a única possibilidade de a família basca não perder o processo. No mesmo dia, o veterinário e cientista Alexandre está no rancho e é só prosa com Nayara e Hernández.


Quando foi ao rancho para recolher amostras de sangue e sémen de Osírio, reparou num anexo que mais lhe pareceu uma casa abandonada de arranchado. Uma limpeza e uma reforma mínima dariam para fazer ali um laboratório. E que vai ser feito da casa abandonada?, perguntou a Etxaberri. Ó doutor, a professora não lhe disse? É ali que eu quero abrir a escola de doma..., escutou. Vamos dar olhada?..., insinuou. Com telhado de duas águas e cinco cômodos, varanda na entrada e área de serviços atrás, a casa é perfeita para uma pequena escola por ter uma sala de jantar ampla e..., Olha, ó Etxaberri, já sei o que se pode fazer aqui: uma escola equestre e um laboratório veterinário! É o que repete agora para o casal basco. Vocês cedem-me a casa e o acesso ao rancho e eu monto a escola equestre junto com o laboratório veterinário, sendo que da receita do laboratório vocês recebem 5%, por semestre, no período de dois anos, propôs. A proposta é uma tentação e Nayara sorri. O doutor é uma benção para o nosso menino e para nós. É claro que vamos aceitar qualquer proposta, o que interessa é fazer rancho produzir o que pode e, no caso do laboratório, não conheço nada por aqui..., comenta ela. Ah, o nosso vizinho, o Castro, pode ajudar, remata Hernández. Decidem dar uma espiada na casa. Uma construção de madeira muito bem arquitetada e com janelas amplas. Poeira e teias d´aranha cobrem utensílios domésticos quebrados e abandonados. Olhem, deixaram até retratos... E, é pá...!, exclama Alexandre. Retira uma enorme teia d´aranha e sopra para tirar o pó de uma pintura. Este aqui é o oficial Leopoldo?!..., pergunta, quase incrédulo. Parece, sim. Mas não pode ser, porque ele deve ter uns trinta anos de idade, e isso é pintura de gente muito rica, afidalgada, diz Hernández. Olhem, pelo que me falou o senhor Castro, ele foi encontrado abandonado na estrada e quem ficou com ele foi dona Laura, por caridade, e que na época trabalhava na casa dos Nuñez. O menino foi educado por ela e depois enviado, através de freiras, para uma casa educacional de Porto Alegre porque ela não tinha recursos financeiros. Por isso, até hoje ele é o afilhado de dona Laura, comenta Nayara. Mesmo assim, estão impressionados com a semelhança entre a pessoa retratada com tinta a óleo sobre tela e o oficial Leopoldo. Pois é..., pondera Alexandre, e foi a dona Laura que ficou este tempo todo a responder pelo rancho e, ela mesma, testemunhou a venda feita com o advogado dos Nuñez. Ela deve ter sido uma empregada muito chegada à família, remata em jeito de possível questionamento. E o senhor Castro também fez trabalhos de roça e de doma para essa família, e foi quando conheceu dona Laura, que chefiava a criadagem. Ele disse-me que foi amor à primeira vista, mas que o velho Nuñez não gostou, embora tivesse que ´engolir´ o sapo amoroso. Quando o velho decidiu retornar a Buenos Aires ela ficou responsável pela propriedade para acerto de contas correntes e o advogado tratou da papelada cartorial para a venda, informa Nayara. Ao lado, Hernández só escuta. Quando deixam a casa, Nayara questiona: Estás tão silencioso, Nández? E ele não responde, continua a caminhar em passos curtos e seguros. Ele tem uma pulga atrás da orelha, dona Nayara. Está como eu, pois, falta alguma coisa para fechar esta história..., intromete-se Alexandre.

* Ai, este frio corta os meus ossos, caramba! Castro adentra a casa já a procurar um gole de café bem quente. Mas não escuta o som rural que das cordas da viola a sua Laura gosta de fazer pairar no ambiente de fim de tarde. Mais do que um ritual, o som da viola é a introdução para um chamego


entre chã e café com pão torrado e manteiga. Ei, ó minha Laura. Onde estás?, chama ele. Já meio aflito, corre ao quarto e depois ao banheiro. E nada de dona Laura. Ei, ó minha Laura. Onde estás?, repete, angustiado.

*

No momento em que Leopoldo e Mariana entravam no bar, dona Laura chegava ao cartório. Preciso que esta carta se transforme num documento com força de lei, disse para o funcionário. Ou, dize-me: eu posso utilizar a carta como documento comprobatório num processo?, questionou. O funcionário, que a conhece como madrinha de Leopoldo, estranha e, sem abrir a carta, mas a notar que o envelope está selado e datado, diz: Claro que sim, dona Laura. Olhe, o envelope está selado e tem data de carimbo de... saída de Buenos Aires e entrada em Viamão. A letra da carta é a mesma letra do endereço no envelope. Então, a carta é um documento que pode servir como peça para acusar ou para beneficiar! Ele continuou com um semblante carregado. Olhe, dona Laura, perdoe o que vou dizer, mas era só perguntar a Leopoldo, e pronto..., diz. Sim, meu rapaz, eu sei, mas isto é coisa minha..., respondeu ela com voz calma. Ao sair deu uma espiada para dentro do bar e sorriu levemente ao ver Mariana e Leopoldo numa conversa animada. Ela não notou, mas no bar havia alguém que sorriu o mesmo sorriso... Perto, apanhou a charrete e fez o cavalo trotar na direção da mata, as rédeas seguras por mãos que sabiam muito bem do manejo equestre. Eu não sei ler nem escrever, mas sei como fazer um cavalo aceitar os estribos e montá-lo, na sela ou na charrete!, disse, senhora de si, na primeira conversa que teve com Castro. E eu terei todo o prazer em ajudá-la na doma da língua portuguesa, moreninha linda!, escutara. Sempre quisera chegar ao conhecimento e aquelas palavras de Castro foram sininhos em sua alma. Naquele instante, o fazendeiro Nuñez surgiu e fez arrefecer um pouco o ambiente romântico: Ela é nossa moça da viola e a chefe da criadagem e daqui não sairá!, disse. Bah!..., atirou Castro, mas preferiu não insistir. Enquanto mantinha as rédeas seguras, dona Laura lembrava aquele instante que mudou a sua vida.

* Castro é um homem à beira da loucura. Já percorreu a casa várias vezes e revoltase contra o vazio. Sim, que a sua vida sem Laura é um vazio. Um nada. Vê a viola pousada como sempre à beira da lareira, mas não vê Laura. E tudo, para ele, é Laura. Laura, ó minha Laura... Tão apavorado ficou com a ausência dela na casa que se esqueceu de olhar no lado de fora. Súbito, um cavalo puxa uma charrete e nela vem Laura, a sua amada. Laura, ó minha Laura..., ele abre os braços numa felicidade que enche o mundo. Fui levar ao advogado dos Nuñez toda a papelada que estava comigo. Ele que trate de tudo que é dos Nuñez!, anuncia. Ela pula no abraço dele e ambos se entregam a


um amoroso reencontro. Tu nunca sais de charrete sem mim. Fiquei quase louco. Poderias ter deixado um bilhete, Laura!, diz ele, mas num tom de voz que não pune.

*

Eu nunca soube quem pagou, mas sei que os meus estudos tiveram bolsa completa até à formatura universitária. E as freirinhas não poderiam ser o meu ´pai´, e eu gostaria de saber quem foi esse ´pai´ que me abandonou na estrada. Não fosse dona Laura e eu estaria morto, revela Leopoldo. Mariana simpatiza com ele. Em várias ocasiões ele atuou como voluntário na escola doando arte. Ele mesmo construiu um teatrinho de bonecos e inventou várias histórias de tropeiros. E gosta de dedilhar a viola com canções para crianças. Começo a entender por que tanto esmero teu no apoio às crianças, diz ela. Tu lembras da Fernanda, a professora que foi para Porto Alegre?, e vendo que ele acena afirmativamente com a cabeça, continua: Olha, ela além de uma ótima educadora é uma mulher bonita e muito apaixonada... O que deixa Leopoldo meio aparvalhado. Mas ela é tão linda! Está apaixonada e não casa..., diz. Ela respira fundo, encara-o, e atira: Leopoldo, ela te ama. Para casar, ela precisa que tu a enxergues como mulher e não como um sonho! E antes que ele descubra como responder, ela remata enquanto se levanta: Fernanda vem à festinha da escola no sábado e vai adorar ouvir uma canção d´amor. Mariana despede-se e deixa o bar. Ah, dona Mariana, não esqueça aquele recadinho pro doutor português..., lembra o rapaz do balcão. Uma charrete acaba de parar junto do bar. Vamos lá, professora, que o frio inda rebenta a gente!, escutam. Mariana sempre dá um jeito de apanhar carona com alguém que sai da mata para fazer alguma compra na cidade. É um dos pequenos fazendeiros que apoiam os trabalhos escolares com objetos e merendas. Eia, Leopoldo, afina a viola pra sábado!, desafia ele. Mariana ri e sobe na charrete, mas o seu riso é mais amplo, porque percebe que Leopoldo entendeu que tem alguém para o ajudar numa vida própria e longe dos fantasmas do passado. Tá, a gente se vê na escolinha!, grita ele do bar. Leopoldo, Leopoldo!, escuta o oficial. Volta-se para o balcão e dá de cara com o dono da casa. Bah, sô Joaquim..., diz em jeito de cumprimento. Sabes, meu rapaz, mesmo que não quisesse não poderia deixar de escutar parte da tua conversa com Mariana, começa ele com um sotaque que o faz açoriano em qualquer parte do mundo, os cabelos mal cortados sob uma boina, e uma magreza que nem ele sabe como se aguenta em pé. Vem comigo!, diz. E deixa Leopoldo boquiaberto. O oficial, cliente da casa desde que passou a servir a justiça na região, nunca foi convidado a entrar no escritório de Joaquim, um escritório que é um santuário de livros e documentos históricos acerca de Viamão, como escutou certa vez da sua madrinha Laura. Após um corredor estreito e quase sem luz, entram numa saleta com as quatro paredes forradas de livros e mapas antigos. Ai, sô Joaquim...!, o oficial parece não acreditar. Num repente quer perguntar, sente-se inquieto. E como minha madrinha sabe deste paraíso cultural?, acaba por fazer a pergunta. Ora, ora, meu rapaz, Laura era a minha chefe de cozinha quando o Nuñez a descobriu, e como eu não tinha dinheiro para cobrir a oferta dele... A minha conterrânea se foi. Bem, meu rapaz, eu acredito que vives um dilema quanto a ti mesmo, por isso quero que olhes bem este retrato publicado num jornal que circulava por aqui anos atrás, e abre um jornal do tipo tabloide pondo-o em cima da pequena mesa que, com três cadeiras, é a mobília do cómodo. Leopoldo está em choque. Na quarta página do jornal está a reprodução, em preto e branco, de uma pintura que lhe parece... Ai, sô Joaquim, mas pareço eu!, diz,


trémulo. De um compartimento estreito na mesa, Joaquim pega uma garrafa de Vinho do Porto, verte o precioso líquido em dois copos pequenos. Pela alegria da vida e suas descobertas!, brinda. Enquanto isso, nervoso, Leopoldo lê a matéria referente à pintura e o faz a meia voz: O fazendeiro Juan J. Nuñez possui agora um retrato à altura da sua fidalguia portenha. O açoriano apenas observa a inquietação que toma conta do amigo e cliente. Sabes, eu apaixonei-me tanto, mas tanto, por Laura, que no dia em que o Nuñez a levou ele cortou a minh´alma. Eu nunca tive coragem de me declarar por ser bem mais velho, mas percebi que o Nuñez não levava só a cozinheira e a violeira, levava a mulher que ele mais desejou desde que a viu aqui, revela ele subitamente. E agora que tu olhas essa pintura ainda achas que foste achado abandonado e que os teus estudos foram pagos pelas freirinhas?!, indaga. Leopoldo olha-o. Não sabe nem o que dizer. O segredo da sua vida não é mais segredo, mas uma verdade. Sempre quis chamar alguém de mãe, alguém de pai. E entanto, a mãe nunca esteve longe e olhava-o, acarinhava-o como madrinha. A minha madrinha é a minha mãe..., balbucia. E bebe o Porto de um gole só. É verdade, e não te revelei isto por vingança, por tê-la perdido, mas porque sei que ela tem como provar que o cavalo campeão é do casal basco e não se mexe, ou, talvez tenha mexido os seus pauzinhos há pouco, porque a vi sair do cartório e dar uma olhada de longe em ti e na Mariana. E tu, meu rapaz, caso ela não o tenha feito, és a única pessoa que pode forçá-la a agir por uma justiça justa. E já agora, não perde a Fernanda, essa jovem é bonita e é inteligente... Ai, outra coisa: o Nuñez levou Laura, mas deixou aqui a Helena, a irmã dela, que depois foi para Porto Alegre, diz o açoriano. No instante em que Joaquim começa a pensar que Leopoldo vai desabar de emoção ele reage. Será que ela, minha madrinha, minha mãe, vive ameaçada por causa de mim?!, diz. No seu olhar esverdeado há uma luminosidade fria – ele não parece humano. Percebe que o açoriano quer ajudar e entendeu o momento como o melhor para o fazer. Se estiver ameaçada não é pelo Nuñez, mas pela filha Isabelita. Conheci essa fêmea (sim, fêmea de animal mesmo) lá em Buenos Aires, e ela é pior do que o irmão. E se ela sabe de alguma coisa a teu respeito, ai sim, Laura pode estar sob alguma ameaça, observa Joaquim. Bah, só existe uma maneira de eu saber... E eu agradeço-lhe por tudo, porque agora vou poder pôr a minha vida em dia, sô Joaquim! Mas, a terminar, meu caro, eu sei que Castro apaixonou-se por ela e lhe deu todo o amor possível. Será que ele sabe?

Olha, lê esta carta. Castro corta um pedaço de pão para acompanhar uma lasca de presunto e fica a olhar, pasmo, a carta retirada do envelope internacional e já aberta. Pela letra sabe que não é de Helena, a irmã, que preferiu ficar em Lisboa depois do curso de enfermagem. E não é escrita portuguesa, mas castelhana. Faça o contrato de compra do cavalo pela palavra e o pagamento em dinheiro e trate de tudo com o advogado doutor Marins. Isabelita.

Isabelita... mas é claro, a filha do Nuñez!, pensa. Calmo, ele entrega a carta a Laura. O seu olhar encontra o dela num pedido de esclarecimento. A sua paixão pela açoriana sempre esteve acima de tudo, mas nunca deixou de escutar as falas de maldizer que o vento lhe trazia em entradas indiretas, mas não menos cortantes. Ela foi montada pelo portenho. O menino abandonado foi (por acaso) encontrado por ela e ganhou a boa vida de um menino-rico com direito a universidade. Castro deu tudo de si para conquistar Laura, no entanto, ele mesmo percebeu que Nuñez não a deixava em paz.


Na noite que se faz escura e fria, um cavaleiro desafia o perigo e faz o cavalo galopar um espaço que lhe parece mais tempo em meio à inquietude com que domina as rédeas. Sentia no olhar de Laura uma pureza que nunca lhe permitiu indagar sobre os maldizeres. Não tinham filhos por opção. Vamos curtir a vida já que nos conhecemos quase na meia idade, decidiram. Vez por outra, ao reter a luz esverdeada do olhar de Leopoldo é que ele se inquietava um pouco. Este olhar não é o de Laura, é de alguém que não o dela, dizia para si, sempre seguro, mas não conseguia determinar a fonte. Nunca vira os olhos de Nuñez, que se apresentava publicamente com óculos escuros tipo fundo de garrafa, e também nunca perguntou – pois, a pergunta puxaria outras. Hoje, eu fui ao cartório para ver o que teria de fazer para ajudar a família basca no Caso Osírio, e esta carta, acredito, vai resolver o assunto..., diz, mas não termina. O som de um galope termina abruptamente na porta da casa e o casal percebe que o cavalo galgou a cerca próxima à porteira. Raios!, berra Castro, que corre a pegar a espingarda. Mas já escutam: Ei, senhor Castro. Ei, madrinha! O casal entreolha-se. É o Leopoldo!, ele e ela falam ao mesmo tempo. Logo ele está na porta.

Ei, matrona, por que esse olhar de ódio?!, diz Joaquim, que quase levou um susto. Diante dele está uma idosa, cabelos brancos, gorda; ela é a cozinheira com que ele abriu a casa há muitos anos., Ocê, sô Jaquim, ocê acaba de cometer uma loucura. Eu escutei, porque vi que ocê ia dizer asneiras ao menino... E se acontecer alguma coisa grave, se sô Castro levantar a mão para Laura, eu levo ocê ao tribunal!..., critica ela. Aparvalhado, sem saber o que dizer, Joaquim é a imagem da desolação. Mas, mas olhe aqui, matrona, eu só disse a verdade!, defende-se. Não e não!, o que ocê disse foi a fala do demônio ciumento, a fala da vingança contra uma mulher que nunca quis tu..., e pior: falou errado, porque tu não sabe nada, tu não sabe quem Nuñez amou, bruxo açoriano!, acusa, e deixa-o petrificado. O que eu disse a Leopoldo não é a verdade?..., balbucia. Mas tem não resposta, porque a velha cozinheira sai e bate a porta com violência.

Leopoldo!, exclama Laura abrindo a porta. Ele olha para o casal com um olhar cansado, e mais parece um menino que busca colo depois de brincar na noite fria. Castro pega o próprio copo com pinga e dá para ele. Uuuhh... Leopoldo bebe de um gole. Madrinha, senhor Castro, precisamos ter uma conversa sobre mim, agora!, diz. Castro espanta-se ao observar que Laura é a serenidade em pessoa. Percebe que ela é dona de alguma informação sobre a vida de Leopoldo, mas neste instante sabe que não é a informação que muita gentinha gostaria que fosse. Ela o recebe como um filho, é a verdade, mas não o seu filho e sim o afilhado que ajudou a criar. Castro corta


pedaços de queijo e algumas lascas de presunto, enche três copos com pinga e mel. O casal e o visitante sentam-se junto do fogão a lenha que é também a lareira. Madrinha, coisa de uma hora atrás o Joaquim mostrou-me uma pintura do Nuñez e essa pintura, publicada num jornal, sou eu... E sem o deixar continuar, calma, Laura diz: Verdade, meu menino. É ele e és tu. O sorriso e a serenidade de Laura desarmam Castro e Leopoldo quanto a quaisquer conjecturas. Diante do olhar de Leopoldo o velho Castro abre os braços e bebe um gole. Com o olhar pede para Leopoldo fazer o mesmo. Ambos ficam no aguardo das palavras de Laura. A tua história, Leopoldo, é uma daquelas histórias de era uma vez..., começa ela. Um dia, eu tive que chamar aqui o meu irmão do meio, que vivia lá na ilha do Faial, perto do Monte da Guia, e ele veio. Eu estava tão assustada com as investidas do filho do Nuñez, pois, queria ele me montar de qualquer jeito!, que só o meu irmão, homenzarrão, poderia dar-lhe um susto definitivo. Verdade, pois eu pensei que seria assim e assim foi. Logo na chegada dele, o rapaz ficou assustado e o meu irmão conquistou a mulherada do rancho, e ela interrompe para comer um pouco de queijo, a madeira crepitando no fogo. Eu não cheguei a conhecê-lo, diz Castro. Ao lado, Leopoldo começa a perceber que a sua história é fruto de um amor impossível. Mas não entre o Nuñez e a madrinha Laura. E escutam: A mulherada apaixonou-se pelo Zé, o meu irmão, mas uma em especial disse-me, em segredo, que ele não retornaria aos Açores sem a fazer feliz. Uma mulher encantadora, bonita, que nem o marido nem o filho deixavam sair do rancho. Nuñez tomou-a quanto ela tinha quatorze anos, linda, mas menina. Não sei como ela se arranjou, mas sei que ela e o Zé viveram algumas horas de prazer, isso eu sei, e também sei qual foi a consequência, porque alguns meses depois ajudei a inventar uma doença para ela ficar um bom tempo em Porto Alegre... Laura foca o seu olhar no de Leopoldo. Vê que ele está perturbado, mas feliz por saber quem é. E no olhar de Castro uma felicidade imensa. Ela mesma sabe dos mexericos que correm como vento louco quando ela se faz presente em Viamão e o que isso pode ´estragar´ no bom coração dele. E entanto, preferiu acreditar puramente no amor que ele lhe dedica. É verdade, Leopoldo, tu és um Nuñez por parte dela, a tua mãe, e foi por isso que quando ela engravidou de Isabelita teve que ir para Buenos Aires... Mesmo assim, o herdeiro dos Nuñez, e eu não sei como, soube de um meio irmão e ficou loucamente furioso, quis matar a mãe, ameaçou o pai, e ela nunca mais saiu da Argentina, e, recentemente, Isabelita trancafiou a mãe em casa e herdou as dores do irmão tomando conta de tudo. No meio disto tudo, eu tive uma ajuda preciosa da ´matrona´, a cozinheira do Joaquim, pois que ela conhecia meio mundo – sem ela talvez o filho do Nuñez tivesse alcançado Leopoldo e afogado ele, revela. Leopoldo lembra agora que a matrona sempre prepara para ele uma refeição especial, como se ele fosse o único cliente da casa. Uma refeição regada com olhar materno, vigilante. E minha mãe, e meu pai?, quer saber. Ela morreu na prisão familiar e ele está louco por te conhecer. Só mantive o segredo, com a ´matrona´ (a gente chama ela de matrona pelo tamanho, mas ela é Maria Correia, de família caiçara e tropeira, que veio de Paraty para Viamão), bem, um segredo que deveria continuar por causa de Isabelita, uma jovem muito violenta e vingadora. Laura parece ter posto um ponto final no assunto, e Leopoldo percebe a intenção. Ela deixa-o pegar as mãos e sente o beijo leve e quente de um homem maravilhado com a própria história. Era uma vez..., diz ele, contada pela senhora, minha madrinha e mãe, a minha história é um


livro de contos. Bah, e quando terminar o Caso Osírio eu vou a Faial, e vocês os dois vão comigo! São cinco horas da manhã quando Leopoldo entra na cozinha que Maria Correia, a matrona, comanda em casa de Joaquim. Ela está na expectativa, mas corre, lenta e pesada, para o abraço que ele lhe oferece. Agora eu sei por que tanto amor nas minhas refeições, matrona!, diz. Sabe, meu menino, eu tinha a certeza que um dia tu ias saber de tudo, ela tira uma caixinha do bolso do aventual, e nem dormi hoje, porque pensei sô Jaquim tinha feito uma besteira... Ai, inda bem que Deus é pai e tu, meu menino, tens juízo, remata. Leopoldo abre a caixinha de prata e puxa uma correntinha de ouro que segura um medalhão... É a santa da devoção de tua mãe, a Nossa Senhora de Monte Serrat. As gentes acham que ela é argentina, mas não, a tua mãe era uma bondosa senhora que nasceu em Barcelona, lá na Espanha, escuta. E por que me deixas-te dizer ao menino aquelas asneiras todas se sabias de tudo, matrona?!, é Joaquim, que surge na cozinha, ainda sem a barba cortada. Porque tu, sô Jaquim, precisava era uma porrada por ser tão estúpido e ter deixado Laura ir embora. Eh, porque ela até gostava de tu, mas tu foi muito covarde... Ah, sabe duma coisa? Mulher nenhuma gosta d´ome covarde!, termina ela deixando Joaquim pregado no chão e sob o olhar do resto do pessoal. Ora, ora, o meu amigo Joaquim era um jovem e não sabia nem como falar com aquela bonitona chamada Laura. Veja, matrona, eu quase perdi a linda Fernanda da mesma maneira – aliás, nem sei ainda como vou falar com ela, mas vou dar um jeito..., atalha Leopoldo com um jeitinho de vamos deixar as coisas como estão. E na cozinha, numa mesa ao canto, os três devoram pão quente com manteiga e presunto, café e leite.

No rancho do casal basco faz frio, mas a chuva parou de cair. Perto da casa, Etxaberri brinca com um dos cachorros quando vê que alguém atravessa a porteira. Olá, senhor Leopoldo. Olha, que medalha bonita. Ah, é a senhora de Monte Serrat, que eu já vi retratos delas lá na escola!, diz Etxaberri. Ao se aproximar viu a vistosa medalhinha de ouro que ele exibe pendurada no pescoço e aproximou-se mais ainda para ter a certeza de ser o que imaginara. E então, vamos mesmo ficar sem o Osírio?, quer saber. E ele, que agora não está na pele de oficial de justiça, mas na pele formal de um Nuñez, anuncia, quando Nayara e Hernández surgem na varanda: Sei que sou filho da senhora Nuñez com o irmão de Laura e venho dizer-lhes que o Caso Osírio termina aqui e que o cavalo é vosso – mais, é o meu presente para Etxaberri e o doutor Alexandre. O casal basco entreolha-se. É inacreditável que nada seja do que era e é dito. Que a imagem de pessoas seja destruída por meras suposições. Olha como o amor consegue evitar uma desgraça familiar!, comenta Nayara na surdina e com o pensamento em dona Laura e Castro. E então, bah..., vamos fazer a escola! Vamos fazer a escola!, grita o menino, que corre para o abraço dos pais. Eu tenho que ir, pois tenho algumas formalidades a serem tratadas no cartório. Vão falar com a minha madrinha Laura que ela tem um documento que prova a compra do


cavalo feita por vocês, sim, uma ordem escrita e assinada pela filha do velho Nuñez, diz Leopoldo que logo faz o cavalo dar meia volta na direção de Viamão.

E esta história que vos trouxe pode parecer real, mas não tem a ver com pessoas reais, é fruto da poética da vida, sua linha novelística, e do ato d´amar que sempre é possível em meio ao turbilhão de coisas más que as pessoas de bem enfrentam todos os dias. Comecei a delinear a novela quando fui entrevistar o empresário e tropeiro Paulino de O. Nascimento Filho e vi os seus cavalariços darem trato num dos cavalos... O resto, bem, o resto foi a junção de estórias e histórias, uma leva a outra e assim vai o mundo...


Bibliografia ALMEIDA, Aluízio [ou: Pe. Luiz Castanho de Almeida] – ACHEGAS À HISTÓRIA DE SOROCABA. São Paulo, 1939. – VIDA E MORTE DO TROPEIRO. Ed Martins & EDUSP, São Paulo / Br., 1981. ANTONIL, André João – CULTURA E OPULÊNCIA DO BRASIL POR SUAS DROGAS E MINAS... Officina Real, Lisboa, 1711. BACH, Arnoldo Monteiro – PORCADEIROS. Gráfica Editora Palloti. BARCELLOS João – DAS TROPAS DE MUARES À ESTRADA REAL. Palestra. Sorocaba/Br., 1994. – A IMPORTANTE BIFURCAÇÃO DITA RIBEIRÃO DA VARGEM GRANDE NA ESTRATÉGIA DE ABASTECER A CAPITAL PAULISTA. Palestra. Vargem Grande Paulista / Br., 1993. – A IMPORTÂNCIA TROPEIRA NO ASSENTAMENTO DO IMPÉRIO BRASILEIRO DEPOIS DO PIABIYU. Palestra. Cotia, Araçariguama e Sant´Anna de Parnaíba / Br., 2001. – OS CASAIS AÇORIANOS ENTRE JESUÍTAS ESTANCIEIROS E OS CAMINHOS DOS GUARANIS. O FOCO TROPEIRO. Palestra. Lisboa/Pt., 2001. – PIABIYU / o caminho ancestral dos guaranis. São Paulo, 2006. Ed Edicon & TerraNova Comunic. CALAES, Gilberto Dias & FERREIRA, Gilson Ezequiel – A ESTRADA REAL E A TRANSFERÊNCIA DA CORTE PORTUGUESA. Ediç CETEM, MCT, CNPq, CYTED, 2009. FLORES, Moacyr – TROPEIRISMO NO BRASIL. Ed Nova Dimensão, Porto Alegre / Br., 1998. FORTES, João Borges [general] – OS CASAIS AÇORIANOS / PRESENÇA LUSA NA FORMAÇÃO SULRIOGRANDENSE. Martins Ribeiro Editor, 1978. GIL, Tiago Luís – COISAS DO CAMINHO / TROPEIROS E SEUS NEGÓCIOS DO VIAMÃO À SOROCABA [17801810]. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Br., 2009. HOLANDA, Sérgio Buarque de – MONÇÕES. Ediç Casa do Estudante do Brasil, 1945. MACEDO, J. C. – OS CASAIS AÇORIANOS NA FORMAÇÃO SULISTA DO BRASIL. Palestra. Florianópolis/Br., 1991. – JOSÉ CUSTÓDIO DE SÁ E FARIA / ENGENHEIRO-MILITAR E DESBRAVADOR DA URBANIDADE COM O MORGADO DE MATHEUS & GOVERNADOR DE RIO GRANDE DE SÃO PEDRO. Palestra. Embu e Sant´Anna de Parnaíba / Br., 1994. – UMA ANÁLISE AO FILME ´A MISSÃO´ [ROLAND JOFFÉ, 1986] NA ÓPTICA DO GENIO MERCANTIL JESUÍTICO. Artigo. Jornal ´Treze Listras´, Cotia/Br., 1991. MARCONDES, Renato Leite, & SUPRINYAK, Carlos Eduardo – MOVIMENTO DE TROPAS NO CENTRO-SUL DA COLÔNIA: ASPECTOS ESTRUTURAIS DO MERCADO DE ANIMAIS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVIII. Estudos Históricos, Vol. 40, pp.47-69. Rio de Janeiro / Br., 2005. MOREIRA, Sando César – O LEGADO DA CULTURA TROPEIRA. 2010. RIBEIRO, José Hamilton – OS TROPEIROS. 2006. TOLEDO, Francisco Sodero – ASPEREZA DO CAMINHO DO OURO. Revista UNIVAP, v. 1, p. 1-78. São José dos Campos / Br., 2005.

Instituições Consultadas / Dados & Mapas Arquivo da Torre do Tombo [ATT/BN], Ofícios da Chancelaria. Lisboa/Pt.; Arquivo Histórico Ultramarino / Projeto Resgate [Doc´s da Capitania de São Paulo. Vários e Coleção Mendes Gouveia; Doc´s da Capitania de Santa Catarina; Doc´s da Capitania do Rio Grande de São Pedro. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro [consultas eletrônicas]; Centro de Estudos do Tropeirismo [Sorocaba/Br.]; Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina; Grupo de Debates Noética. Alguns dos mapas foram pinçados da importante tese acadêmica “Coisas Do Caminho / Tropeiros e seus Negócios do Viamão à Sorocaba [1780-1810]”, de Tiago Luís Gil; outros mapas e fotos são do arquivo particular de João Barcellos, ou de fontes eletrônicas de consulta pública. Obs.: algumas fotos do autor foram capt[ur]adas no espaço temático rural-tropeiro do “Pet Zoo” do Tijuco Preto, outras, na Fazenda Nacional de Ipanema (antigo Cerro Ybiraçoiaba) onde está instalada também a Associação Cultural de Tradições Tropeiras de Iperó [actti], além de peças do Acervo Tropeiro de Paulino de Oliveira Nascimento Filho e documentos cartoriais do Acervo de Décio Lemos Leite. /////// Centro de Estudos do Humanismo Crítico / CEHC Portugal & América Latina TerraNova Comunic / CEHC Grupo de Debates NOÉTICA AUTOR Correspondência: Cx. Postal 16 06717-970 Cotia-SP Brasil

O Brasil dos Tropeiros & Estradas Reais  

João Barcellos

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