Page 1

João Barcellos

ARAÇARIGUAMA do Ouro ao Aço

inclui o anexo

Affonso Sardinha (o Velho) Na Base Cronológica Da Conquista D´Oeste Paulista Na Via Do Ouro

2ª Edição, Revisada e Ampliada / 2017


Índice

Agradecimentos & Um Poema........................................................... Abertura Com novo Estudo Sobre Ibituruna................................................... Araçariguama / do Ouro ao Aço........................................................

Anexos Affonso Sardinha (o Velho) na Base Cronológica da Conquista d´Oeste Paulista na Via do Ouro.................................................................................. Os Enganos Sobre ´o Velho´ Affonso Sardinha............................. Sta Bárbara e os Mineiros da Colonização na América & Atos Devocionais nos Sertões da Terra dos Brazis.................. IBITURUNA / Gente Guarani No Caminho Continental Dos Paulistas (Analisando estudos de João Barcellos sobre a ´gente ibituruna´) Hino de Araçariguama....................................................................... Legislativo & Executivo de Araçariguama....................................... Via do Ouro Teatro em 1 Ato de Epopéia Colonial & Minerária Vida & Obra de Affonso Sardinha - o Velho


Em homenagem aos amigos e mestres Manuel Reis, presidente do Centro de Estudos do Humanismo Crítico [CEHC, Guimarães / Pt], e Aziz Ab´Sáber, geógrafo uspiano [Brasil], à minha filha Johanne Liffey pelas pacientes pesquisas feitas em Londres, e o carinhoso abraço cultural, à turma do Grupo Granja (hoje, Grupo de Debates Noética) pelo incentivo ao investimento em uma vida dedicada à Cultura, particularmente à luso-brasileira, à turma do grupo filosófico Eintritt Frei [Berlin/De], e à artista e pesquisadora Marília Gruenwaldt [São Paulo /Br], à Família Aymar e a todas as pessoas que acreditam ser a preservação da História comunitária o elo fundamental para o desenvolvimento humano próprio e o da Nação...!

*

Certam & Mynas d´Ouro a galgar as entranhas do mátrio chão em que o brasil se fez percebo-me nos certõens y mattos que do piabiyu e da carapocuyba iam a sant´anna e de lá a ibituruna e daí a araritaguaba tomo o ar das poeiras que deu ao velho sardinha ilusões e certezas para a conquista de uma nova nação perceber a terra dos americanos como nação dos brasis em comunidade nova é ter a certeza dos certõens que a fizeram e das minas d´ouro e dos milhões de dinheiros e muito poder na luso-paulista geração João Barcellos “canpos de paneiíbo a oeste da villa piratinin”, 1991. certõens = sertões

*


ABERTURA

Do Povo Ibituruna Ao Guarani Em Geral Uma nova leitura Luso-Guarani para a diversidade racial e mística no Brasil João Barcellos

Fala-se amiúde, entre historiadores (e mais entre acadêmicos), dos povos de Língua guarani entre as áreas litorâneas do sul e sudeste da “ilha de brasil”, nos Sécs. 16 e 17. Se fosse essa a realidade geossocial guarani na “ilha” descoberta em 1342 pelo capitão Sancho Brandão e nomeada “brasil” pelo rei Afonso IV, em 1433, em carta ao papa Clemente VI [Arquivo Segreto Vaticano], como se pode, hoje, afirmar isso diante de outra realidade?... Ora, os povos guaranis Karai-yo e Ibituruna estavam espalhados, e sedentários, entre Meiembipe [hoje, Santa Catarina] e os Certõens de Cataguaz [hoje, Minas Gerais] passando pelos certõens a oeste de Piratininga e, ainda, a norte e acima da Foz do Ryo Siará [hoje, Fortaleza], i.e., de Koty a Koty, de Caucaia a Caucaia e de Ibituruna a Ibituruna..., sendo o povo Ibituruna um ramal do tronco m´byã a configurar como guardião do piabiyu, o [seu] caminho ancestral e continental que virou estrada geral para os colonos. Entre os Anos 40 e 80 do quinhentos, tantos os portugueses ´caranguejos´ (do litoral) como os portugueses de serr´acima ´arranham´ a Língua guarani e já fazem do Tupi-Guarani uma língua geral como estratégia de defesa e de sobrevivência, pelo que a raça mameluca, que continua e expande o ´outro´ Portugal ultramarino, logo enquadra a “ ilha” como espaço continental. No instante em que o povo ibituruna se permite mostrar as pedras brilhantes que os portugueses buscam, no oeste


piratiningo e nos certõens cataguazes, e até as negras [ferrite no Ybiraçoiaba], o continente transforma-se em um eldorado entre os complexos serranos de Paranapiacaba e Jaguamimbaba passando por Ibituruna e Jaraguá, e logo tomar o norte pela Mantiqueira – precisamente o Piabiyu e o que viria a ser a Estrada Geral dos Paulista. Não por acaso, o povo ibituruna e o guarani em geral são as gentes que os portugueses mais querem, ora como escravas ora como parceiras, porque é gente guerreira com fé e organização logística própria. O que já havia sido provado por Cosme Fernandes (o Bacharel) no lagamar da Ilha Comprida e, depois, na construção do Porto das Naus, em Gohayó, mais tarde Villa de S. Vicente e, ao mesmo tempo, por João Ramalho no planalto de Piratininga.

Deve-se acrescentar que é no entorno da atividade rural latifundiária e eclesiástica dos padres jesuítas, sob orientação de Manoel da Nóbrega, que surge o ideal de um império teocrático jesuítico, projeto de poder temporal que só poderia ter sucesso no ambiente geossocial guarani, e é uma rota de expansão que os portugueses seguem e apoiam, principalmente o político, banqueiro, escravocrata e minerador Affonso Sardinha (o Velho), que detém Ybitátá e o portinho de Carapocuyba para logo alcançar o Pico do Jaraguá e abrir as ´portas´ para ´bandeiras´ de cerco e aprisionamento de nativos: as mesmas ´bandeiras´ (de Raposo Tavares, por exemplo) que servem para destruir o projeto jesuítico no Guairá e no Tapes impondo a política ultramarina da Coroa portuguesa e do Papado católico; de tal modo que a última ´bandeira´ de Raposo Tavares é um projeto secreto de 1640 entregue pessoalmente pelo rei português e nele o bandeirante registrou, em caminhada espetacular, de sul ao norte, o tamanho continental da “ilha” de Brasil.

Ibituruna & Mina d´Ouro Expostas aos prospectores de minas as cavernas e riachos do eldorado, a Capitania de S. Vicente abre leilões para exploração de ouro e prata, quando o ´velho´ Sardinha faz a


aquisição das lavras de Ybiraçoiaba (ferro), Ibituruna (ouro) e Jaraguá (ouro e prata), além de Jaguamimbaba, uma serra que mais abastecia de caça e água os habitantes da Villa jesuítica, além de ser o eixo logístico entre o norte e o sul, os mattos y certõens e o litoral. E é no “mar de morros” de Ibituruna [do guarani, q.s. terra/serra negra], como gostava de descrever o geógrafo Aziz Ab´Sáber, adentrando as margens do Anhamby, que Sardinha – e lembro que é o pai e não o filho (o mameluco, conforme descrito nas atas da Vereança paulistana e no regimento da Capitania vicentina – instala o arraial aurífero e registra a primeira mina d´ouro continuamente explorada no Brasil das gentes da Capitania vicentina. O arraial logo fica conhecido como mina d´ouro do ibituruna e nele o empreendedor instala capela celebrando Sta Bárbara, protetora dos mineiros. Obs.: É este arraial que dá origem à Fazenda Araçariguama ao tempo de Pompeo de Almeida, no Séc. 17 e já depois da morte de Sardinha em sua fazenda-arraial no Pico do Jaraguá, em 1614; Pompeo instala na fazenda um oratório jesuítico, o que nada tem a ver com quaisquer atividades fundiárias, rurais ou eclesiásticas na região do Ibituruna [ver mapa geral das sesmarias].

E assim é que a Coroa sem Trono (Portugal está em interregno político e sob mando d´alcova da Espanha, i.e., os reinóis mandam segundo regras sexuais e se um lado fica sem ´varão´ é tomado pelo outro) vem a ter conhecimento de que a “llha” é um continente e um eldorado, sendo Affonso Sardinha (o Velho) celebrado como o primeiro grande creso do ultramar ibérico a sul da linha equatoriana e tendo a mina


d´ouro de Ibituruna, no sítio ou morro dos araçarys, como foco primeiro desse empreendimento. Das gentes ibiturunas ao largo de Meiembipe às dos certõens Cataguazes passando pela do sítio dos araçarys, estabelece-se a compreensão para se definir, e o faço, uma historiografia luso-guarani que lançou as bases para um Brasil de diversidade racial e mística. BARCELLOS, João _ palestras acerca de “Gente Ibituruna, Piabiyu, Affonso Sardinha (o Velho) & Mina d´Ouro de Ibituruna, 2017.


ARAÇ ARIGUAM A

do Ouro ao Aço

“Ver, ouvir e não calar. Eis o sentido preci[o]so da Antropologia Cultural. E quando assim ela o é, a Comunidade percebe-se na Nação e esta no Mundo, humanamente objectivo, porque ambas estão educacionalmente assentes no acto de Cultura que lhes dá forma social...” MACEDO, J. C. poeta/jornalista. Guimarães/Pt, 1981.

Enquanto nas encostas da Serra do Mar dominam os Tupis, sempre em guerra com os Tupinambás, e quase todos a praticarem antropofagia para celebrar a conquista do nome e a valentia do guerreiro abatido, os Guaranis da Língua M´Byã, mais conhecidos como Karai-yos [ou Caeós], vivem na beira-mar e entre a boca-de-sertão do Piabiyu, com as suas Koty [ponto-de-encontro], que são a gente ibituruna, migrando entre o planalto e o sul, em Sta Catalina [depois Sta Catarina] e no Paraguay, e têm pontos de contato com os Kaingángs, de Língua Jê. Entre o Pico do Jaraguá e o Morro ou Serra do Vuturuna [Ibituruna, do guarani m´byano, q.s., serra negra] porque são terras altas, raros Kaingángs dominam, e vivem nas montanhas para terem o mínimo contato com os outros nativos e, mais tarde, com os europeus. Menos sedentários, agricultores, oleiros, como os Kaingángs, que também têm culto próprio aos mortos, é dos Tupiniquins e dos Guaranis que mais existem dados arqueológicos sobre o fluxo migratório do Piabiyu [Caminho Feito a Pé], embora dos Karai-Yos [guaranis m´byanos] tenhamos a noção da profundidade espiritual que lhes foi [e ainda é] muita cara: a busca pela terra sem males, ato místico extensivo aos grupos tupis-guaranis e incas. Degredados e cristãos-novos fugidos são os primeiros europeus a terem contato direto com os povos da floresta americana a que se chamou Brasil, pela abundância do paubrasil. São esses homens que iniciam o primeiro grande ciclo colonizador: o ciclo do cunhadismo. Os colonos casam com filhas de caciques e daí vem o início de uma raça euro-americana: o mameluco. Do cunhadismo ao mameluco criam-se as raízes sociais que, logo cruzadas com o negro africano escravizado, originam o luso-afro-americano, ou brasileiro. Aqui começa a independência mental do Brasil... Mesmo atuando em nome de “el-rey de Portugal”, colonos e bandeirantes configuram, entre os Sécs XVI e XVII, a formação de uma nova Nação, principalmente entre os certõens y mattos guaranis do Piabiyu e a floresta e cerro d´Ybiraçoiaba beijada pelo Anhamby. E se João Ramalho, na


Serra do Mar, e o Bacharel de Cananéia, no litoral, tornam-se imperadores do primeiro meio século luso-americano do Brasil, certo é que, antes de findar o Quinhentos, quando Braz Cubas busca na Cahativa e na Jaguamimbaba ouro em riachos, surge quase magicamente um Affonso Sardinha (o Velho) que, de Santos, chega à Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga e ganha tal espaço social e econômico que logo é vereador, almotacel, e até capitão geral das gentes paulistanas em defesa da vila... É com este Affonso Sardinha, em sociedade com Clemente Álvares, que se inicia, entre o Pico do Jaraguá, Guaru, Cubatão, Ybiraçoiaba e Ibituruna, o primeiro ciclo da siderurgia na América. O poder deste comerciante, político e minerador, é tal, que se dá ao luxo de negociar, ao mesmo tempo, com a Coroa lusa e os corsários da Coroa inglesa, mesmo quando alega, em 1576, não ter “húas botas para vir a Camara”, sendo vereador...!

*

Enquanto que mais ao sul e ao centro do Novo Mundo os castelhanos estabelecem bases político-administrativas do seu Estado, e logo surge a Universidade do México, que publica o seu 1º livro em 1539, e o Peru recebe a tecnologia da Imprensa em 1584, os portugueses preocupam-se em somente ocupar o Brasil, ou, como dizem/escrevem os jesuítas, as terras dos brazis, pelo que em São Paulo, por exemplo, a Faculdade de Direito só é instalada em 1827, e a primeira Universidade [a de São Paulo] é instalada em 1934...!, uma vez que as escolas jesuíticas o eram para a catequese e expansão da ideologia dessa corporação milico-mística que, na maioria das ocasiões da sua própria expansão confrontou-se com mineradores e bandeirantes, apesar do apoio luso-paulista do velho Affonso... Este é o traço geral antropológico, colonial e cultural, que domina o primeiro meio século “português” e “castelhano” na Serra do Mar e nos certõens y mattos que a continuam pelo Piabiyu e outros caminhos nativos como os fluviais e as trilhas do Vale do Tietê. Um período que tem continuidade por cerca de três séculos no Brasil e que dá origem, também, aos banqueiros-latifundiários que, não sendo bandeirantes, financiam o “acto de bandeirar” por procuração, como fazem os Chassim e os Pompeu d´Araçariguama e, muito antes deles, Affonso Sardinha, também tendo Ibituruna como um dos eixos da sua atividade. *

Quando, neste período colonial, os padres jesuítas da facção portuguesa, ligada aos Pires, aos Almeida, aos Prado, aos Taques, aos Bicudos e aos Borba Gato, entre outras famílias, inimigas ideológicas dos Camargo, Godoy e Bueno, famílias castelhanas, instalam fazendas agropecuárias aproveitando a agricultura de subsistência dos nativos e suas aldeias, ou abrem novos núcleos, a Villa de Sam Paolo dos Campi de Piratinin perde espaço econômico para regiões de economia emergente como Paneiíbo [Sant´Ana de Parnaíba] e Ybiraçoiaba, Arassaryguaba, Koty [Cotia] e Tapiipissapé [ou Itapecerica, Tapecerica], Bariri [ou M´Baroeri, ou ainda “maguoeiri”, como está grafado nas atas da Câmara paulistana, território de “negros carijós e peis larguos”] entre outras, que aproveitam o fluxo do Ciclo do Ouro, primeiro, e o Ciclo Bandeirista, em seguida. Assim foi e em 1605 fica tão despovoada a Villa Piratininga que nem se tem notícia de reuniões da Vereança...


A riqueza das famílias da elite colonial mede-se pelo poder de ´fábrica´ para montar capelas e catolicizar os locais. Um dos exemplos coevos é Arassaryguaba [hoje, Araçariguama, ou, simplificando, Araça] onde, a par das atividades econômico-jesuíticas, o minerador, aventureiro, e depois “ilustre reinol”, Affonso Sardinha, manda erguer Capela em honra de Sta Bárbara, padroeira dos mineiros e dos militares, como já o fizera na Carapocuyba. Em pleno desenvolvimento do bandeirismo e da preação de nativos, outras famílias seguem-lhe o gesto colonial-religioso.


Sobre Os Sardinha Cerca de 1589, um colono chamado Affonso Sardinha arrenda à Coroa terras cujo substrato geológico é ferrífero a oeste da Sam Paolo dos Campos de Piratininga e indo tanto pelo Piabiyu, no sertão dos guaranis karai-yo, do tronco linguístico m´byano, como pelo Vale d´Anhamby ou Tietê, onde encontra a gente d´ibituruna, primeiro, no morro do mesmo nome e, logo, no ybiraçoiaba. É o Cerro d´Ybiraçoiaba, território que divide os interesses sociais e tribais de vários povos nativos. Quem é Affonso Sardinha e como ele chega a tal ponto da terra dos brazis...? Não existe documentação sobre a chegada à Vila de Santos deste português que carrega o sobrenome Sardinha [alcunha ancestral no Alentejo, sul português, a identificar família judaica convertida]; presume-se que se estabelece na região na década de 60, do Quinhentos, uma vez que na de 70 é já, além de colono, homem público e vereador paulistano, inclusive, Juiz de Pesos e Medidas [Almotacel]...

Este português, que algumas vezes ocupou cargos importantes no Império luso, é conhecedor da administração pública, da mineração e da siderurgia. No início da década de 70 aparece a negociar com cargas marítimas, ainda em Santos, e instala depois, em São Paulo, armazéns de açúcar, adquirindo ainda casas que aluga a padres, colonos e aventureiros. No final do Quinhentos é tão poderoso que manda comprar negros na África para os vender aos colonos, e é um dos negociantes que envia regularmente mercadorias para Lisboa e Porto. Por outro lado, financia empreendimentos rurais e de extração de metais [ferro, prata e ouro], e nessa atividade conhece Clemente Álvares, que tem uma forja artesanal no Byrapoera e dele faz seu sócio. Nos anais da Vereança paulista, Affonso Sardinha (o Velho) toma posse como Almotacel, em 1575, e entre 1572 e 1610 surge como Vereador. Cerca de 1585 dá apoio


direto a Grupo de Salteo chefiado pelo capitão Jerônymo Leitão que pretende arrasar os guaranis karai-yos, no território do Paranaguá. A sua importância colonial está no auge, e é nomeado em 1592 para comandar outro grupo e dar fim às ações de guerrilha dos mesmos nativos. Logo, é nomeado Capitão da Gente de São Paulo em defesa da Vila, cargo que desempenha até cerca de 1595 [cargo que não é hereditário, ao contrário do que afirmam alguns historiadores brasileiros]. Entre 1580 e 90, trava uma dura batalha com os nativos do pico do Jaraguá, o que retarda por muitos anos o início da mineração de ouro no Itaí [rio da pedra]. E é às margens deste rio que vem a estabelecer mais uma fazenda... Homem poderoso, política e economicamente, instala dois pequenos fornos, do tipo Forno Catalão, no ribeirão do Ferro, Vale do Rio das Furnas, e processa nas jazidas de magnetita esse tipo de ferro, o que dá início ao Ciclo Paulista e Americano da Mineração. Está entre nativos, pois, como já havia descrito Hans Staden, ao norte do Trópico de Capricórnio estão Tupinambás, e entre os paralelos 20 e 24 Sul, estão os Tupiniquins. Salvo raras escaramuças, Affonso Sardinha não tem problemas com os nativos do Rio dos Arassarys, os guaranis ibiturunas. Assim, ao contrário dos nativos do Jaraguá, que não dão tréguas aos colonos e mineradores, no Vale do Rio das Furnas o trabalho corre segundo o hábito colonial. Embora sempre próximo à administração pública, e quase sempre no Poder, ele não deixa de ser o negociante e o traficante de influências; e fica conhecido também por assinar com o desenho de uma cruz de 3 hastes, isoladamente, ou entre o nome Affonso e o sobrenome Sardinha. É casado com Maria Gonçalves, mas os filhos que gera são frutos de ligações passageiras com mulheres nativas. Um desses filhos é Affonso Sardinha (o Moço), como ele mesmo diz no seu testamento. Pois, o Moço, mameluco, i.e., filho de branco com nativa, no caso guarani, acompanha o Velho na maioria dos empreendimentos* e raramente atuam separados. Transcrito em 1592, o primeiro testamento de o Velho não chega a ser executado, porque o Moço morre em 1604, e o Velho em 1616, na sua fazenda no Jaraguá, rodeado de uma fortuna imensa e com a glória da mineração de ferro e de ouro, em Ybiraçoiaba, no Jaraguá, no Guarú, em Jabuamimbaba, em 1589-90, e no Morro Ybituruna, cerca de 1594 a 1606, e onde, em 4 de Dezembro de 1605 levanta Capela de Sta Bárbara. * “[...] Regimento do capitão Diogo Gonçalves Lasso que lhe concedeu o senhor governador Dom Francisco de Sousa [...], que pessoa alguma possa por ora ir às minas já descobertas nem trate de descobrir outras salvo Affonso Sardinha o velho e Affonso Sardinha o moço [...]” – Regimento Geral da Câmara Municipal de S. Paulo, 10.Set.1601 / Vol I, 1583-1636.

A grande atividade colonial e mineradora da Família Sardinha e do sócio Clemente Álvares faz com que toda a região da Floresta y Cerro d´Ybiraçoiaba [do Tupi, q.s. Rio Sem Valor] passe a ser explorada abrindo mais um foco de interesse que liga todas as localidades do eixo e torna Parnaíba, mais tarde Sant´Ana de Parnaíba, uma vila de suma importância na colônia. E se em Araçoiaba [do Tupi Ybiraçoiaba, q.s., Onde o Sol se Esconde] está o foco de um sonho para processamento industrial de ferro, entre Vuturuna [Ibituruna, do guarani, q.s. Morro Negro], Arassary´í guaba [do Tupi-Guarani, q.s. Lugar e/ou Rio dos Arassary] e Jaraguá [do Tupi, q.s. Senhor do Vale] está a linha aurífera que, a partir de 1605, expande os interesses coloniais e gera o Ciclo Bandeirista. Entretanto, não se pode considerar os Sardinha como bandeirantes, pois que o pai e o filho atuam como comerciantes e colonos, além de caçadores que querem como troféu a liberdade que os nativos querem preservar. Neste contexto histórico, os Sardinha geram a primeira e principal historiografia da colonização sistemática das


regiões a oeste da Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga, e interferem, inclusive, em aldeamentos nativos como Cubatão, Carapocuyba, Koty [através das fazenda Ybitátá e Carapocuyba], Quitaúna, Itapevi, Jaraguá, M´Baroery, M´Boy, Byturuna [depois, Arassaryguaba], Tapiipisape, Ybiraçoiaba, e outras, com o que estabelecem, também, um anel de segurança em defesa dos jesuítas e da Vila paulistana, uma das razões que leva o Velho a doar as suas riquezas à Societas Jesu [SJ]. Eis a realidade social, política e econômica, da Família Sardinha, entre os Sécs. XVI e XVII – a primeira grande e poderosa família de colonos-mineradores do Império Português na “terra dos brazis”.

“[...] e talvez se tenha iniciado, com o político e comerciante, e depois minerador de ferro e d´ouro, Affonso Sardinha – o Velho, o que se pode chamar de confraria ou comunidade bandeirista, porque é ele um dos primeiros a (quase) exigir da Coroa negócios para escravatura de povos negros, quando já tinha a seu serviço, sob escravidão, milhares de ´peças´ americanas. É justo, portanto, que se fale de um confraria ou comunidade bandeirista, mesmo não sendo ele ´o´ bandeirante, até por que é ele, em nome da defesa da Vila paulistana e jesuítica, que chefia várias ´entradas´ no certam do Piabiyu e do Anhamby. E tão logo inicia as atividades mineradoras (ferro e ouro) nos cerros d´Ibituruna e d´Ybiraçoiaba, torna-se também um dos primeiros senhores de escravos negros d´Angola... na Via do Ouro!” [Abdullah & Barcellos, 2000]

O Caso d´o Velho “Durante quatro séculos ele foi considerado um simples analfabeto, que assinava com uma cruz de 3 hastes, e raros pesquisadores perceberam a sua importância na História política, econômica e militar [ou bandeirística], que faria do Oeste paulista o berço de uma nova Comunidade nacional: o Brasil. É muito difícil falar do Brasil sem falar da expansão jesuítica para o sul da Capitania de S. Vicente a partir do oeste da Villa Piratinin, por isso, também é difícil não reconhecer em Affonso Sardinha (o Velho), um dos principais pilares da política paulistana e vicentina [vereador e almotacel], da economia [dono de fazendas, imóveis, minas, e do primeiro trapiche de cana d´açúcar da Villa] e da atividade militar [financiou e participou de entradas contra os karai-yos guaranis do sertão do Piabiyu, e foi nomeado, pela Vereança, Capitão das Gentes de São Paulo].


Entre os anos 1572 e 1610, Affonso Sardinha (o Velho) só não está no Poder quando assume trabalhos mercantis e siderúrgicos, além das suas negociatas com os corsários ingleses, e é ele um dos principais financiadores de instituições e construções católicas, assim como da expansão da Companhia de Jesus. Nos seus trabalhos foi quase sempre acompanhado pelo filho mameluco Affonso (o Moço), mais um ´cabo´ de ordens do que um filho, pois, antes de morrer em 1604 numa operação paramilitar no sertão, já representava o Velho até na compra de minas descobertas nos leilões oficiais, porque a Coroa lusa havia ´terceirizado´ esse trabalho. Mas é o próprio o Velho quem administra a sociedade com o prático minerador Clemente Álvares e até com aval da Capitania, já que praticamente o Velho comprou os favores do governador Sousa, que retribuiu com uma ´provisão´ declarando tudo o que é mina descoberta e a descobrir é ´propriedade´ dos Sardinha... Um dos erros mais evidentes dos pesquisadores é a confusão que geraram em torno da posse das minas de ferro e ouro, principalmente as de Jaraguá, Ybiraçoiaba [Iperó] e Ibituruna [Vuturuna, núcleo histórico de Araçariguama]. Como foi feita a confusão? Muitos atribuíram ao mameluco o Moço parte das operações siderúrgicas; não levaram em conta que só o Velho poderia ter trazido da Europa os conhecimentos de mineração que veio a repassar, de Guaru [Guarulhos] a Ibituruna, e que só o Velho tinha ´cabedais´ para comprar terrenos, armas, escravos e minas, tendo sido, inclusive, um dos primeiros compradores de negros de Angola... Foi por isso que alguns pesquisadores menos atentos ao conteúdo histórico dos documentos existentes, deram o Velho como analfabeto e o Moço como comprador/fundador das minas de Ibituruna e Ybiraçoiaba. Além disso, não interpretaram a sociedade com Clemente Álvares como uma ação característica do empreendedor judeu que era o Velho. A leitura do “Registo de minas de quelemente alvares”, desconsiderando-se os erros do escrivão, responde à incompetência desses pesquisadores: “Aos dezasseis dias do mes de dezembro do ano de mil e seissentos e seis anos nesta vila de S. Paulo capitania de S. V.te [...] apareceu clemente alveres morador nesta vila pr ele foi dito aos ditos ofisiais e declarado de como vinha manifestar sertas minas que tinha descuberto [...] jaraguá, [...] jaraguamirim [...], e no sertão de sayda do nosso mato no canpo do caminho de ybituruna [...]”. Eis parte da ata do “Anno de 1606” da Câmara de São Paulo tendo Domingos Rodrigues como Juiz [in Atas da Câmara, Vol. 2]. Clemente Álvares acompanhou os Sardinha, pai e mameluco, em várias empreitadas mercantis e paramilitares, assim como as do capitão-mor Belchior Dias Carneiro, e qualquer relato dele diante da Vereança que não correspondesse à verdade teria tido a oposição imediata do poderoso Affonso Sardinha (o Velho). Com relação à Mina do Ibituruna [Vuturuna], núcleo formador da vila de Araçariguama nos tempos áureos da região parnaibana dos Chassim e dos Pompeu de Almeida, é esse núcleo o marco-zero histórico da região na historiografia colonial.

O “Analfabeto” Afonso É comum entre alguns pesquisadores, registrarem somente o que interessa às suas teses e não ao conjunto da Comunidade nacional no que à História diz respeito. O caso de terem considerado Affonso Sardinha (o Velho) como analfabeto, sob o argumento de que ele assinava as atas da Vereança com uma cruz de 3 hastes, mostra como é possível sujar a história de uma pessoa cuja importância não se quer mostrar. Na verdade, o Velho


assinava as atas com o sinal que era a cruz de 3 hastes (aliás, uma projeção tosca da lâmpada menorah), mas, quando ele era a autoridade única, como nos casos em que foi almotacel [juiz de pesos e medidas], ele assinava o nome colocando entre o nome Affonso e o sobrenome Sardinha a mesma cruz de 3 hastes. O que se passou nestes últimos quatro séculos? Com a pressa de darem “um fora” no temível e sanguinário (que o foi, sim) e todo-poderoso Capitam Affonso, os pesquisadores esqueceram (?!) de ler, com a lente da Sabedoria, as velhas atas quinhentistas da Vereança paulistana. Regiões como Araçariguama, Ybiraçoiaba [hoje, integrado a Iperó], Sorocaba e Carapicuíba, por exemplo, tiveram no espírito empreendedor e sertanista do Capitam Affonso, o seu ponto de partida colonial. Este é um breve reparo entre os muitos que devem ser feitos na História do Brasil a partir do contexto colonial luso-brasileiro”. [Barcellos, 2007]

E, por esta historiografia, não é possível falar de regiões como Ibituruna, Ybiraçoiaba, Carapocuyba e Sorocaba, sem se fazer uma longa viagem de conhecimento às atividades da Família Sardinha, particularmente entre os anos 1589 e 1605. Até por que deve-se a Affonso Sardinha (o Velho) a formação do núcleo populacional luso-católico que originou as futuras vilas de Araçariguama, Iperó, Ybiraçoiaba e Carapicuíba, conforme era praxe da colonização luso-católica, i.e., a povoação começa com o Arraial e, posteriormente, define-se marco-zero com a Capela e Pelourinho. Sendo que já no arraial ferrífero d´Ybiraçoiaba a Família Sardinha e o governador Francisco de Souza instalaram a Villa de Nª Sª do Monte Serrat e Pelourinho...


Menorah, sinal de Affonso Sardinha (o Velho), ata da Câmara de Vereadores de São Paulo

Sobre Gente Ibituruna Um povo de fala guarani m´biana e dito ibituruna [= habitante de serra negra] expandiu-se pelos sertões do sul para o norte, ou melhor..., da região meiembipe [hoje, Estado de Santa Catarina] para dos campos de cataguaz passando pelo paranapanema e a jaguamimbaba e com um ponto sedentário no sítio dos araçarys, o qual ficou conhecido por ibituruna.


Essa expansão sertanista – diferente da expansão litorânea, e também de sul para norte, feita pela gente karai-yó, da mesma linhagem linguística guarani – colocou a gente ibituruna na condição de guardiã do piabiyu, o caminho místico e continental que, ´achado´ pelos portugueses de serr´acima, transformou-se na estrada geral dos paulistas e alinhou as entradas coloniais ditas ´bandeiras´. Um velho mapa sesmeiro exibindo a Fazenda Araçariguama [da Cia de Jesus], nos dá a leitura quase precisa do poder fundiário que teve Affonso Sardinha (o Velho) ao assumir as regiões de carapocuyba, ybitátá, jaraguá, ibituruna e ybiraçoiaba, poder esse que ele passou para a `companhia jesuítica´ em seu último testamento, logo, o que se tem não é uma ´fazenda jesuítica´ ao tempo da mineração naquelas regiões, mas uma geopolítica gizada e praticada pelo ´velho´ Sardinha. E, por isso mesmo, tais espaços mantiveram as denominações nativas originais, sendo a gente ibituruna foi o elo principal do ´velho´ Sardinha na expansão de uma economia liberal entre a Villa jesuítica de Sam Paolo, Buenos Ayres e Asunción, via piabiyu. Eis a geopolítica que determinou o jeito militar e minerador de Affonso Sardinha (o Velho) na conquista de entradas para os certõens guaranis sob o olhar da gente ibituruna. Uma história em resgate constante...

Sobre Os Jesuítas Quando, em 1759, os padres da Societas Jesu, ou Jesuítas, são expulsos das colônias luso-vaticanas, uma decisão de Sebastião José de Carvalho, o Marquês de Pombal, chefe do Governo luso, a companhia possui 25 residências, 36 missões e 17 colégios/seminários, a par de inúmeras escolas de ensino primário espalhadas pelo Brasil, além de um imenso latifúndio de produção agrícola e de muares. Depois de M´Baroeri e Carapocuyba, uma das regiões em que se instalam tardiamente os padres jesuítas é Araçariguama, por doação da Fazenda dos Pompeu de Almeida à companhia, pouco antes da expulsão. É um registro breve, mas a região passa a integrar o ciclo de expansão jesuítica na colônia. A Fazenda Araçariguama, adquirida pelos Pompeu de Almeida, é um dos primeiros núcleos agropecuários instalados na região pelos colonos que acompanham a mineração de ferro e de ouro, pois, sabe-se, entre Ibituruna e Ybiraçoiaba cresce uma agricultura de sustentação aos mineiros e aos bandeirantes entre criação de cavalos e plantio de algodão. Logo, Arassaryguaba não é terreiro jesuítico primevo, i.e., não faz parte das primeiras entradas agro-místicas da companhia, pelo que o fato registra se na historiografia setecentista e não na da fundação do primeiro arraial mineiro quinhentista. Lusos e paulistas como Affonso Sardinha e o Pe Pompeu de Almeida, ambos poderosos e banqueiros dos empreendimentos que geraram o Brasil a partir do oeste paulista, tendo o segundo dado continuidade ao trabalho do primeiro a partir de um ponto comum [a Mina d´Ouro no Ibituruna], e ligados a mulheres tupi-guaranis em aventuras sexuais, foram pomposamente enterrados na Capela jesuítica da Villa de Sam Paolo dos Campos de Piratininga, o que deixa claro que os dois “cresos d´Ibituruna” estiveram na base da expansão da Societas Jesu [SJ].


Se se confrontar o mapa do Séc. 18 da Sesmaria de 12 de Outubro de 1580 com a realidade política e fundiária da época percebe-se que a Fazenda Araçariguama [que foi arraial mineiro de Affonso Sardinha e assim continuou com Pompeu de Almeida que a transformou, ainda, em grande ponto agropecuário] passa a ser designada como Fazenda Araçariguama da Cia de Jesus, precisamente porque a fazenda tem capela jesuítica e é doada pelo padre Almeida àquela companhia mística.

“Com o estabelecimento da Sesmaria de 12 de Outubro de 1580, assinada pelo capitão-mor Jerônymo Leitão, da Capitania vicentina, todas as aldeias e fazendas-aldeias, de Ybitátá a Jandira, M´Baroeri e Quitaúna, passando pela Acutia/Koty e Carapocuyba, indo a São Roque e Araçariguama, têm essa data como registro oficial, pois, até então eram meros certõens y mattos y minas de exploração privada sob concessão da Coroa, sendo que a própria sesmaria foi uma canetada política para proteger os colonos e os padres portugueses da presença espanhola” João Barcellos, no Instituto Geográfico paulista, 2011.


Arassary´i Guaba ARAÇARIGUAMA Tábua Historiográfica Esta tábua historiográfica está assente em dados históricos registrados nas Cartas Jesuíticas, nos Inventários e Testamentos dos Colonos Lusos e Luso-Brasileiros [Sécs XVI a XVIII], nos ensaios e livros de estudos de Taunay, Taques, Cortesão, Novaes, Albuquerque, Barcellos, Simonsen, Sampaio, e outros, e dos dados existentes nos museus e bibliotecas nacionais de Portugal [Lisboa e Évora], Brasil [São Paulo e Rio de Janeiro] e Espanha [Sevilha], além da Biblioteca da Câmara Municipal de São Paulo e do Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo.

1552 Affonso Sardinha dá notícia à Capitania de S. Vicente de querer explorar o ferro além do planalto da Serra do Mar, o que logo é comunicado à Corte lusa, após ter dado sociedade ao prático Clemente Álvares, que tem “oficina & forja” no Byrapoera, já depois das primeiras tentativas de mineração de ouro em Guaru e em Cubatão.

Jaraguá [Pico do Jaraguá] do Tupi, q.s. "senhor do vale". Aqui se estabelece Affonso Sardinha; e ´faísca´ ouro no Itaí, no pico, por volta de 1580. Mas tem de se haver com os nativos Tupiniquins e Guaranis que dominam a região e com os quais trava algumas guerras, o que faz esperar a mineração por cerca de 10 anos. Antes dele, já o reinol Braz Cubas havia tentado extrair ouro na região.

Afonso de Taunay descreve assim o velho Sardinha:

"Grande comerciante e capitalista, grande proprietário e lavrador, minerava no Jaraguá, fabricava e exportava muita marmelada, a ponto de poder fornecer, de uma remessa, cem caixotes, e negociava grandes partidas de farinha, sal e açúcar. De Buenos Aires recebia lãs e peles remetidas pelo correspondente Antônio Rodrigues de Barros. Oito peles vendera em São Paulo por 26 cruzados: 10$000. Traficava escravos,


vendendo índios moços a 3$000 por cabeça, até para o Rio da Prata. De lá encomendava diversos gêneros, como rendas, papel, medicamentos, facas fabricadas na Alemanha. Como capitalista, emprestava a pessoas de São Paulo e Santos, São Vicente e Rio de Janeiro" [apud Barcellos, 1991].

Sesmaria dos Índios das Aldeias do Pinheiros e Ururay 1580

Embora existindo já a Aldeia de Arassary´i-guaba, no arraial aurífero d´Ibituruna, ela é incorporada à Sesmaria dos Índios das Aldeias do Pinheiros e Ururay, por Carta de Data, em 12 de Outubro, assinada pelo capitão Jerônymo Leitão, da Capitania de S. Vicente, que administra a região de entre S. Vicente, São Paulo dos Campos de Piratininga e Santa Catarina. A “[...] canetada política e administrativa incorpora aos Bens da Coroa o território que os colonos têm como seu, mas estes aceitam o acto pelo facto de estarem, assim, seguros de quaisquer investidas dos castelhanos, que acabam de tomar o Trono luso” [Macedo, 1976]. Na mesma sesmaria são incorporadas as aldeias nativas Bariri, Itapevi [ou Koty], M´Boy, Pirapora, Paneiíbo, Cajamar, Carapocuyba, e outras, pelo que essa Carta de Data de 12.10.1580 [1] é a certidão da incorporação desses territórios na Coroa portuguesa.

A sesmaria, de 6 léguas de terras em quadra [6.600 m x 132 m / Quadra de Sesmaria 8.712 km2]

é, na realidade, uma Carta de Data dupla, pois, o capitão Leitão faz a doação [2] pela mesma medida aos do Pinheiros e aos de Ururay, de que resulta um vasto território. [1] Sesmaria de 12 de Outubro de 1580 [Reg. Geral, Vol I, p.354]. Doação feita “Aos índios de Pinheiros e aos de S. Miguel de Ururaí”, pelo que a administração da Villa Piratininga estendia-se desde a Fazenda Carapocuyba e a Fazenda Ybitátá, por Pinheiros até Ururay, i.e., uma região vastíssima que ia do Rio Pinheiros, alcançava o Cutia e ia encontrar nos sertões o Tietê na altura dos campos parnaibanos de Byraçoiaba e Ibituruna, o que correspondia, em parte, ao império rural e minerário de Affonso Sardinha (o Velho). A ´carta´ foi solicitada pelos padres jesuítas que tinham grande interesse na defesa dos bens da Família Sardinha... [2] Cartório da Provedoria da Fazenda de S. Paulo; Livro 2º de Sesmarias Antigas.

Notas Légua de Sesmaria em Quadra: 6.600 m x 132 m Quadra de Sesmaria 871.2 km2 / = 871.200 m2, No caso da Sesmaria de 1580, temos 6 léguas x 871.2 km2, o que dá um território de mais de 5.000 km2


Fontes Arquivo do Estado de São Paulo; Arquivo “Grupo Granja”, notas de Tereza de Oliveira e João Barcellos; Jornal “Gazeta de Cotia”, artigos de W. Paioli e João Barcellos, Cotia/SP; CORPUS, Jornal d´Artes; "Medidas Lineares e de Superfície" – in Moura Filho, J., Elementos de Cartografia Técnica e Histórica, Volume 1, Belém, Pará, 1993.

1590 Affonso Sardinha - o Velho, compra em leilão licença para explorar mina de ouro em cavas na encosta do Morro do Ibituruna.

Ibituruna tem estrutura de formação metálica e, cerca de 1590, aí trabalha Affonso Sardinha um bom potencial metalúrgico e aurífero. Quando os antigos falam do Ibuturuna/Vutúna, ou simplesmente Minas d´Ibituruna, falam de uma região dominada pela gente guarani ibituruna [q.s. habitante de serra negra] com várias minas incluindo a de ouro no Rio dos Arassarys, e, já no Séc. XIX, a Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo respeita esse ´olhar cartográfico´ e coloca o “M. Bituruna” como referência da região de “Açariguama”. Das explorações da Família Sardinha – pai e filho – fica o universo colonial a saber das enormes possibilidades de mineração entre a Serra do Itaberaba e São Roque e entre o Pico do Jaraguá e Ibituruna. Vencida que foi a resistência de algumas comunidades nativas, a mineração abre o caminho tanto para a missão jesuítico-católica como para o bandeirismo. É Affonso Sardinha quem vem a explorar a Mina d´Ouro do Ibituruna [Vuturuna], adquirindo a necessária autorização reinol para pagamento dos quintos; a descoberta dos primeiros veios auríferos na região foi resultado de explorações feitas na região pelo capitão-mor Belchior Dias Carneiro, também acompanhado de Clemente Álvares, o que se pode verificar pelo seu inventário e testamento, aberto em 1607, em Parnaíba: “Capitão-mor Belchior Dias Carneiro foi casado com Hilária Luiz Grou f.a de Domingos Luiz Grou e de Margarida Fernandes [...]. Foi o descobridor das minas de ouro do Vuturuna, perto de Parnahiba. Falleceu em 1607 no sertão em descobrimento de metaes”. É descoberta a primeira jazida de ouro perto do Pico do Jaraguá, onde antes Sardinha havia também trabalhado o ferro margeando sempre o Rio Anhamby [do Tupi, q.s. "caudal volumoso"].

Data de Minas A descoberta de uma mina [ouro, ferro, prata, diamante, etc.] não dá o direito imediato à sua exploração. Embora a Coroa lusa esteja conscientemente, mas pela negativa..., longe da evolução que é o


caminhar a desbravar a floresta e os rios do Novo Mundo, e nem cuida de explorar ela própria as jazidas encontradas, os descobridores têm o dever de comunicar o evento a quem de direito na Capitania; logo os guarda-mores são incumbidos de organizar o leilão e a destinação desse território cobiçado, mas leva a melhor o empreendedor que se apresenta com maiores recursos humanos, i.e., com mais e melhores escravos, pois que a geotecnologia quinhentista e seiscentista está mais na mão-de-obra do que no aparato. É assim que Affonso Sardinha (o Velho) adquire os direitos de exploração, por exemplo, da Mina de Ouro do Ibituruna, no Rio dos Arassarys, região parnaibana da Capitania de S. Vicente, sendo que o capitão-mor Carneiro ainda lhe fica a dever alguns cabedais, como é noticiado no testamento deste. Quem descobre uma região de mineração tem o direito a escolher a sua data, i.e., a propriedade dentro das fronteiras locais, de maneira que a Coroa também escolhe uma data para si, e que logo vai leiloar.

1591 Instaladas forjas catalãs em Ybiraçoiaba, onde anteriormente haviam sido identificado substrato geológico ferrífero (magnetita); aqui, Affonso Sardinha transformase no primeiro siderúrgico das Américas. 1597 Família Sardinha tenta, em Araçoiaba [Ibyraçoiaba], produzir ferro em larga escala. Regiões como Arassary´i guaba, entre o eixo Ybiraçoiaba-Ibituruna, Jaraguá, Carapocuyba e Araritaguaba, Quitaúna e M´Baroeri e Koty e Jandira, são de existência nativa anterior a 1500, ou não seriam incorporadas à Sesmaria de 12 de Outubro de 1580 como núcleos-base de novas povoações: por isso, mais tarde, Arassariguama passa a ser Paróquia colada à Paróquia de Nª Sª do Monte Serrat da Acutia no início do Séc. XVIII, uma vez que esta é registrada como um dos caminhos da Sé. Na época, tanto a construção da fábrica da capela como da fazenda é obra de reinóis, com os capelães que acompanham os poderosos, pelo que esses eventos raramente são registrados nos tombos da Igreja católica, que o faz a partir do Séc. XVIII. No ´eixo´ das primeiras minerações está também o Saboó [do tupi-guarani Sao´og, q.s., vegetação rala] – e, não por acaso, outro morro cujos habitantes guardam velhas lendas nativas, perto de Arassary´i guaba. Uma das passagens comerciais e de contrabando entre Koty e Arassaryguaba é a picada da Parada de Maracanduba, perto das Quatro Encruzilhadas e do Ribeirão da Vargem Grande, e onde mais tarde, no Setecentos, é construída uma rica fazenda também denominada “maracanduba”.


Mina d´ouro, capela, cruzeiro no “Byturuna”, e o ´velho´ Sardinha. Borrão do poeta e jornalista J. C. Macedo ao ler as informações acerca de Affonso Sardinha (o Velho) em documentos na Torre do Tombo, na Lisboa de 1975.


Sobre O Nome

Arassary´i-Guaba

“O nome Arassary´i Guaba, também grafado em documentos antigos Sariguama, vem do tupi Arassary, q.s., tucanos [uma variedade de]: logo, acrescentando o gama/guaba/gaba, q.s., seio ou lugar, temos a origem ou terra dos arassarys. Em relação ao nome Araçariguama é forçoso lembrar também a existência de várias aldeias guaranis Arassa´í / Arassary´i [q.s. rio do arassary], uma vez que a interpretação primária e descuidada dos sertanejos e bandeirantes, e muitas vezes dos padres e amanuenses, deu origem a nomes que não os corretos criando corruptelas, da mesma maneira... vejase o caso de Ibutúruna/Vuturuna/Búturuna, que é Ibituruna, ou o de Araçoiaba, que é Ybiraçoiaba [...]. Também, não podemos esquecer a palavra m´byana Yvytyryguara, q.s., Morador da Serra, muito bem lembrada pelo Mestre JB, aliás, a que melhor se aplica, sócio-geograficamente, ao histórico de Arassaryguaba... ” [Novaes, 2003]. Deve-se acrescentar que era hábito escrever guama em vez de gama, e gama em vez de guaba/gaba, como se pode aferir em atas da vereança paulistana no registro, entre outros, do nome fº guama, q.s. francisco gama. É por isso que em alguns documentos também aparece grafado sarigama em vez de Araçariguama.

Arassary ave em extinção

“[...] a bela e pequerrucha ave denominada arassary é simplesmente exuberante, com o seu bico longo e leve..., e leve, devido ao tecido ósseo e esponjoso que o constitui. De hábito gregário, alimenta-se de frutas, mas também captura ovos e filhotes de ninhos alheios. A ave arassary, embora seja do mesmo tipo, difere do tucano, porque não é ave de briga. A fêmea choca sozinha durante cerca de três semanas e os filhotes abandonam a asa da mãe aos vinte e cinco dias, para, dez dias depois, já se alimentarem sozinhos [...]”. // OLIVEIRA, Tereza de – in “Exuberância Arassary”, palestra p/ Grupo Granja, São Paulo / Br, 1998. Obs.: Na Língua Tupi-Guarani, o sufixo í ou y, no final de substantivos, designa normalmente o rio (de). Na imensa rede hidrográfica brasileira, os nomes nativos prevalecem. Basta segui-los alfabeticamente, esquecendo muitos, mas citando os mais conhecidos como em Acaraí, rio dos acarás; Andaraí, rio dos morcegos; Anhembi, rio dos nambús; Apiaí, rio dos meninos; Araguari, rio das araras; Arassary´i, rio dos tucanos; Arapeí, rio das baratas; Avaí, rio do homem..., etc [anotação de vários pesquisadores]. A partir da instalação do Parque Histórico da Mina de Ouro, em 2005, o prefeito Carlos Aymar deu implemento a um projeto de incentivo à reprodução local dos Arassarys, mas a urbanização intensa da famosa região do Ybituruna, e a desfiguração do antigo habitat dificultam o processo. A ave mais conhecida na região é o Arassary Banana.


O arassary, um tipo de tucano mais pequeno, é reconhecido com facilidade pelo bico grande. Come frutas e carne. Faz um voo raso com bater de asas compassado.

Presente tanto nas regiões do Rio de Janeiro como nas de São Paulo, o arassary deu nome a aldeias de nativos como Araratiguaba [Porto Feliz] e Araçariguama – esta, a partir do Rio dos Arassarys, no Ibituruna, onde se Instalou o arraial da mina d´ouro.


Ouro & Religião em Arassary´i Guaba

1587-1605

Com a febre do ouro chegam à região do Ibituruna aventureiros-faíscadores, mas também artesãos da mineração com experiência adquirida em Guaru e em Cubatão. A população é tanta que Affonso Sardinha custeia a construção de uma Capela em honra de Sta Bárbara, a padroeira dos mineiros... e dos militares, porque os bandeirantes chegam logo, mesmo tendo arraiais em Jandira, Paneiíbo, Carapocuyba, Quitaúna, M´Baroeri e Koty. Enquanto isso, já a Família Sardinha explora o ferro no Cerro d´Ybiraçoiaba com a instalação de fornos catalães, sendo que cerca de 1601, 1602, o ´velho´ faz doação de um forno ao governador Francisco de Souza que, pelo curso historiográfico dos documentos e atas da vereança paulistana, serve para dar início a mineração ferrífera em St Amaro do Byrapoera. A capela é inaugurada em 1605. Pela familiaridade que tinha com os jesuítas, o velho Sardinha só poderia dar fim à ´fábrica´ da Capela de Sta Bárbara no dia dedicado à sua devoção: 4 de Dezembro.

Instalação de Capela

“O poder de um bandeirante, de um senhor de terras, ou de um fidalgo, é medido, no tempo colonial, pela sua capacidade de dar início a uma nova aldeia, i.e., dando materiais para a fábrica da capela [construção, ornamentos e peças sacras], além de custear a permanência de um padre. Essa capela, no entanto, sinaliza um território religioso independente, e só quando da visitação de um poderoso da Igreja [bispo ou auxiliar] ela se tornava parte dos ´caminhos da Sé´, o q.s., integrante física do Catolicismo*. Assim é que, por ex., Araçariguama está, até o Séc. XVIII, como capela ´colada´ à de Cotia, que até o Séc. XVII também era ´independente´ por ter tido fábrica


paga pelo bandeirante Fernão Dias Paes e pelo nobre cavaleiro Vaz-Guassu” [Barcellos, 1991].

* A ´fábrica´ da Capela de Sta Bárbara é o marco-zero do povoamento luso-católico de Arassaryguaba, logo, a sua fundação tem a data da abertura da capela: 4 de Dezembro de 1605. Deve-se a Affonso Sardinha - o Velho a instalação do primeiro arraial mineiro d´Ibituruna com capela no Sítio dos Arassarys [Arassaryguaba], o que, colonialmente, determina o início cronológico de uma povoação.

A Imagem de Santa Bárbara no sul americano * A imagem de santa Bárbara chegou ao Brasil e depois à Argentina, Uruguay, Peru e outras paradas, com os padres jesuítas em 1554, e com o minerador e capitalista Affonso Sardinha, também vereador na Villa de Piratininga, foi levada para as serras e para as minas, e em especial no Morro do Ibituruna, que é hoje Araçariguama, onde Sardinha fez capela para a santa um ano após a morte do filho, o Moço, em 1604, e inaugurou o arraial no início de dezembro de 1605. A igreja católica não se refere ao arraial de Santa Bárbara porque o capelão era de obediência única ao senhor de terras, mas não nega nem o arraial nem a santa.


* Palestra do Prof. Dr. Figuera de Novaes [[1907-2004, Quito-Equador], artista plástico, pesquisador e ex-padre católico, no encontro do Grupo Granja, de 1998, em São Paulo. [A anotação da palestra foi feita pela artista plástica e cofundadora do GG, Tereza de Oliveira] Obs.: Até aos Anos 40 do Séc. XX ainda foi possível um raro acesso a inventário/testamento de Affonso Sardinha (o Velho), particularmente por parte de religiosos católicos, mas “a partir do final dos Anos 50 deixou-se de ouvir falar de documentos relativos ao velho Sardinha” [segundo Tereza de Oliveira] e os arquivos brasileiros também possuem raras peças lítero-históricas do Séc XVI, particularmente em São Paulo, onde os desvios de documentos minerário-bandeirísticos e arte sacra foram de grande vulto.

1625 O fluxo de mineiros, colonos e bandeirantes, é grande. Uma das razões está no percurso feito pela maioria, que margeia a mata ciliar dos rios, e sendo Araçariguama uma das localidades do entorno relativo ao Rio Tietê [Anhamby], ela ganha interesse maior entre a agricultura e a mineração.

1640 / 41 Da Rixa Ideológica Pires-Camargos à Decadência da Região Parnaíbana “...e veio a disputa entre os Pires e os Camargo, via Fernando de Camargo [o "Tigre"]) e Pedro Taques, iniciada no largo da Matriz de São Paulo. Uma rixa política entre Portugal [os Pires] e Castela [os Camargos], com alguns Buenos pela margem. Pedro Taques é assassinado o que dá origem a uma guerra civil. Por causa disso, várias famílias abastadas deixam São Paulo e partem para Atibaia, Koty e Parnaíba, entre outras localidades. Com a Dinastia Filipina [1580-1640] fora do Trono luso, os Camargo ainda dominam política e administrativamente São Paulo, e muitas das famílias e notáveis Pires, com laços de parentesco com Pedro Taques, partem também com o irmão, o capitão Guilherme Pompeu Almeida, fixando residência nas terras de Paneiíbo [q.s., lugar de muitas ilhas]. Parnaíba vive uma época de riquezas e paz. Nas regiões parnaíbanas, entre os Sécs XVII e XVIII, existe mineração, plantação de mandioca para fabrico de farinha, algodão, cana e trigo, viação de cavalos e gado leiteiro, além de vinhas em Araçariguama que davam bom vinho. Com a inauguração do Ciclo do Café e com o acesso difícil e uma logística de apoio ainda pior, Sant´Ana de Parnaíba começa a ficar isolada dos acontecimentos que alteram e modernizam o Brasil econômico. Ainda mais distante de Parnaíba, e apesar de poder ser alcançada também pelo Piabiyu, Araçariguama paga muito caro o desvio dos interesses mercantis. Só no final Séc. XX as indústrias de mineração apostam novamente na região da antiga Fazenda Araçariguama...” [Barcellos, 1991].


1640 Com a técnica da Taipa de Pilão, é construída a Capela em honra de Nª Sª da Penha. O local escolhido é aquele em que Rodrigo Bicudo Chassim inicia mais um aldeamento.

Sobre a Família Chassim Tem arraial em “Araçá”. Ela é originária dos judeus de Chassim, em Trás-os-Montos, nordeste português, e vem a ter ligações muito fortes com outras famílias sertanistas, bandeirantes e mineradoras, além da Godoy e da Bicudo: e, em Minas Gerais, estabelece-se a Família Chassim-Drummond que, mais tarde, terá mais geração com o poeta Carlos Drummond de Andrade, e, também, no Rio de Janeiro, a do compositor Tom Jobim*. A Capela de Nª Sª da Penha é ´fabricada´ no lugar onde Rodrigo Bicudo Chassim, senhor de uma sesmaria local, dá inicio à aldeia que substitui o arraial mineiro do ´velho´ Affonso Sardinha, e é denominada Araçariguama. Após reformas estruturais, em 1772 e 1833, e depois em 1997, a igreja sofreu alterações arquitetônicas, embora resguardando as características principais. Com a nova capela, aberta em 6 de Dezembro de 1640, criou-se um tipo festivo de ´dia da cidade´, mas Araçariguama só vem a ser desanexada de Sant´Anna do Parnaíba em 1701..., como ensina o arcebispo Duarte Leopoldo e Silva [em seu livro de 1916]. * Segundo pesquisas de Pedro Wilson Carrano Albuquerque, para “Usina de Letras”, Rodrigo Bicudo Chassim é penta-avô do compositor Tom Jobim, sendo Manoel Monteiro Chassim, nascido em ´Araça´, tetravô do poeta Drummond [in “Encontro com os Ancestrais”].

1650/53 É construída, em parte da Fazenda Araçariguama, adquirida pelo capitão-mor Guilherme Pompeo de Almeida, pai do padre do mesmo nome, a Capela de Nª Sª da Conceição. A capela tem ´fábrica´ junto do Ribeirão do Colégio, sendo que a denominação “colégio” sinaliza a capela jesuítica montada na própria fazenda...


“Tinha, na entrada de sua fazenda da Araçariguama, um pórtico, do qual até as casas mediava um plano de 500 passos, todo murado, cujo terreno servia de pátio à igreja ou capela da Conceição. Neste portão ficavam todos os criados dos hóspedes, que ali se apeavam, largando esporas e outros trastes com que vinham de cavalo, e tudo ficava entregue a criados, escravos, que para este político ministério os tinha bem disciplinados.” In Capítulos de História Colonial. Cap IX ´O Sertão´. Capistrano de Abreu

Obs.: Os padres jesuítas nunca tiveram em Araçariguama um “grande colégio”, como dizem alguns ´historiadores´, mas sim o aproveitamento de parte da capela do capitão-mor, e por isso, assim como na velha Acutia, não existem vestígios arquitetônicos jesuíticos. Na verdade, a região de Paneíbo [mais tarde Sant´Anna de Parnaíba] tem sob a sua administração política o grande espaço d´além Anhamby, i.e., da vila Parnaíba ao sítio das sorocas de Nª Sª da Ponte passando pelo Ibiturura já denominado Arassaryguama, sendo que os únicos jesuítas por aqui, e de fato, são os Almeida, pai e filho.

1653 É construída, na estrada de acesso a Pirapora, a Capela de Nª Sª da Piedade. O evento acontece nas terras de Francisco Rodrigues Penteado (o Velho) e não tem, ao contrário de algumas crônicas, a ´mão´ itapecericana do pe Belchior Pontes [com 10 anos de idade, na época] nem da Família Pompeo de Almeida. Obs.: 1 Por não considerar a existência da Capela de Sta Bárbara no arraial mineiro de Affonso Sardinha (o Velho), o arcebispo Duarte Leopoldo e Silva cita Francisco Rodrigues Penteado como tendo a “primazia da fundação de Araçariguama”. Na verdade, esse Penteado funda a povoação, ao largo do Ibituruna, em 1653, que origina Araçariguama na continuidade do povoado luso-católico que em 1605 o velho Sardinha instituiu na mina d´ouro. Ou seja: a leitura do arcebispo passa unicamente pelos registros do tombo eclesiástico, e não pelos da história das gentes que das/nas aldeias dos povos nativos deu início à odisséia colonial. 2 No mesmo trabalho lítero-eclesiástico, o arcebispo [a]nota, sobre o capitão-mor Guilherme Pompeu de Almeida, que do “...seu testamento constam diversos legados á matriz e á capella de Voturúna...”, o que demonstra que a Capela de Sta Bárbara não é citada porque, apesar de ter capelão para os ofícios, não tem “provisão de vigário” oficial nem registro no tombo eclesiástico, iniciado só no início do Séc. XVIII.

Criação De Eqüinos em Araçariguama

Nesta época dos Pompeu de Almeida e dos Godoy, também a Família Góis tem na região de Araçariguama abastada criação, sendo os Góis os melhores criadores de cavalos [Ellis, 1944], atividade ainda pouco comum nas fazendas a oeste da Capitania de S. Vicente. O produtor Manuel Góis Raposo é, em 1671, um inovador nesse campo e faz de Araçariguama o primeiro grande momento da produção de equinos no Brasil.


É a partir de Araçariguama que o cavalo ganha dimensão na importância colonial e militar da colonização, e dá à região mais um foco de atividade econômica que chama outros poderosos para o convívio rural. Entretanto, no período do governador Morgado de Matheus [1765-1775] é que a região ganha mais dimensão econômica na sua produção de equinos a par da atividade algodoeira: período de instalação do espírito industrial e urbano no Brasil. Obs.: O cavalo [26 animais] chegou às Américas com Cabeça de Vaca, no Séc. XVI, e quando Cortez faz a invasão do México tem uma cavalaria de 30 unidades preparadas em Cuba, lembrando aqui as anotações de Aluísio de Almeida no seu “Vida e Morte do Tropeiro”. Assim, tanto o cavalo como a mula, demoraram a ter espaço na sociedade colonial luso-brasileira, apesar dos criadouros jesuíticos em Buenos Aires e Córdoba, e apesar de Affonso Sardinha... É tão importante a região araçariguamana que o autor citado lembra o seguinte: “O pouso num grande rancho reino, desses que havia por exemplo em Araçariguama e no Cubatão de Santos, era festivo. Porque se encontravam outros tropeiros” [idem, ibidem]. Ou seja, Araçariguama tem uma importância de estratégia logística e econômica entre o Séc. XVII e o Séc. XVIII, entre o ouro e o tropeirismo, pelo que a criação de cavalos obedeceu a uma necessidade econômica pouco conhecida dos historiadores, no que diz respeito a esta região. E agora, no Século 21, a Tradição Equina d´Araçariguama continua sob um aspecto científico no âmbito do Instituto Butantan: na Fazenda São Joaquim são criados cavalos para o programa de produção de soros.

1688 O pe [presbítero] Guilherme Pompeo de Almeida manda construir, no Sítio dos Barboza, capela em honra de Nª Sª da Conceição devido à demanda das atividades religiosas dos administradores e dos escravos das fazendas da família.

O pe e banqueiro Pompeo de Almeida é um dos detentores das riquezas auríferas do Morro do Vuturuna e o mesmo que atua, por encomenda, por Sabará e por Cuiabá. No território cuiabano manda também erguer capela, em honra de St Antônio, cerca de 1720, ou 30, que fica conhecida como Igreja de St Antônio do Pompeo. Alguns pesquisadores confundem-no com o sertanista José Pompeu, morto durante a Guerra dos Emboabas. É este padre e banqueiro que inicia o ciclo das peregrinações no sertão quando organiza uma campanha entre Araçariguama e S. Vicente. O seu poder é tal que


impera isolado na sua fortaleza murada no sertão parnaibano. Só não imita por completo o velho Affonso Sardinha porque não é sertanista nem minerador. Cabe aqui uma observação: por decisão do pai, o capitão-mor, em escritura de 1687, o filho padre deveria ser “o administrador da capella de nª sª da conceição”. Assim, o padre continua a fé devocional da família à santa que Martim Affonso trouxe para S. Paulo.

Como curiosidade historiográfica, [a]note-se: os “grandes” que fazem arraial familiar e econômico na “Araçá” Seiscentista e Setecentista, como os Bicudo Chassin e os Pompeo de Almeida, também o fazem nas partes de sanroquenses das cangueras no rumo litoral, e nas partes de Minas Gerais e Cuiabá, e certo é que R. B. Chassin, no Setecentos, torna-se juiz ordinário e ouvidor entre os cuiabanos. Deste famoso Chassin, deve-se recordar que, em Minas Gerais, em 1711, monta um comando de 200 homens para combater a invasão francesa que ocorre no Rio de Janeiro.

1700 Ainda é o Ciclo do Ouro que determina a vivência brasileira, e isso tem um custo alto para as vilas e cidades que ficam longe das minas. “No ano 2 do setecentos, o governador-geral do Brasil, Rodrigo Costa, manda missiva ao rei Pedro II reclamando que a situação é de ruína social e econômica, que as capitanias se acham quase desertas porque seus moradores ´esquecendo-se totalmente da conservação das próprias vidas e segurança dos seus mesmos domínios´, migram em direção às áreas de garimpo. E são todas as pessoas, o que inclui muitos religiosos pouco afetos ao viver místico. Os religiosos, de várias ordens, são forçados a se retirarem das minas no ano 30 [...] Só nos territórios tupiniquins, velhos logradouros nativos de tupinambás e guaranis, como Ybiraçoiaba e Arassaryguaba, por exemplo, crescem desassombradamente para depois, findo o ciclo do ouro, retornarem ao estilo campesino [...] Isso fez rarear o ciclo migratório entre cidades interioranas cujos percursos tinham ida e volta de Koty a Araçariguama passando por Maracanduba, por um lado, e ItapeviCarapocuyba, por outro... Assim, além da rixa Pires-Camargo, quando se altera o ciclo econômico, do ouro para o café, a região do eixo bandeirista Parnaíba-Koty fica isolada, e isso também é determinante para que os Camargo, estrategicamente, esvaziem a Koty carapocuybana para erguerem outra no lado itapecericano” [Barcellos, 1993]. Um pormenor geo-católico chama a atenção quando se fala da velha Koty [depois grafada como Acutia, como se pode verificar em documentos oficiais dos Sécs. XVII e XVIII] e de Arassaryguaba: entre os caminhos da Sé, a Freguesia de Nª Sª do Monte Serrat da Acutia, não mais a aldeia guarani carapocuybana do Caiapiã, onde Fernão Dias Paes – o Moço instalou a primeira Capela beneditina, mas a aldeia camargoniana do sertão itapecericano, para ali levada em 1703, é uma freguesia tida como ponto de encontro eclesiástico, aliás, a condizer com o significado gurarani m´byano do nome Koty [= Ponto de Encontro], e que tem divisa com Arassaryguaba... Então, quando se fala de linhas de contrabando e de políticas regionais, entre as duas regiões, fala-se também de linhas religiosas – a saber:


“Araçariguama com Acutia: do lado do Coronel Domingos Rodrigues da Fonseca em São Roque, vulgo Peratinga, irá em linha que correndo em figura reta irá terminar no sítio do Paiol; todo o território que ficou da parte daquém pertencerá à freguesia de Acutia exclusive o sítio do dito Domingos Rodrigues e o Paiol e da parte dalém pertencerá a Araçariguama, inclusive, a ela o sítio do sobredito Domingos Rodrigues exclusive o do Paiol que pertence a Parnahyba como acima ficou dito. E acontecendo ficar sem freguesia a capela de São Roque que por ora está anexa a Araçariguama, terá a divisão entre Acutia e a freguesia de São Roque uma linha que saindo do sítio de Jorge Garcia, exclusive, correndo pelo monte das Pitas venha acabar no sítio de Manoel Pereira e daí correndo a mesma linha irá a demandar a estrada de Apereatuba e terminará até o ribeirão Uma que é pólo onde termina a freguesia de Sorocaba; todo o território da parte dalém desta linha será o território de São Roque exclusive o sítio do dito Manoel Pereira e daquém pertencerá o terreno a Acutia inclusive a ela o sobredito sítio de Manoel Pereira”

[in Tombo de Araçariguama: 1747 / 1859, p.13 e Auto de Delimitação da Paróquia de São Roque: 1766 / 1768, p.3; v. “Os Municípios Paulistas”, de Eugênio Edgar, Vol.1, 1925, pp.597 e 598.]


1713

Doação Da Fazenda Araçariguama Aos Padres Jesuítas O testamento do Pe Guilherme Pompeo de Almeida, herdeiro do capitão-mor, seu pai, foi aberto em 1713 e nele consta, o seguinte: “Declaro que é minha herdeira universal a minha Capela de Nª Sª da Conceição, que erigi em meu Sítio e Fazenda de Araçariguama, porquanto tenho revogado a doação, que havia feito à minha Capela velha de Ibituruna. Constituo por administrador dos bens, doados à minha capela nova, ao Colégio dos Padres da Companhia de Jesus da Vila de S. Paulo, para que administrem os bens conforme fôr mais conveniente ao serviço de Deus, e que o dito Colégio logre e tenha o jus de todos os bens.” A abertura do testamento mostra que alguns historiadores estão certos quando anotam o seguinte: a doação da Fazenda Araçariguama aos Padres Jesuítas deu-se em 18 de Maio de 1697. É que o próprio doador faz anotar a anterioridade em seu testamento – a saber: “[...] porquanto tenho revogado a doação que havia feito à minha Capela velha de Ibituruna”. Tal anotação é importante, e saiba-se que “[...] a anotação notarial do pe Pompeo de Almeida evoca um outro dado historiográfico que João Barcellos há alguns anos defende: foram os Pompeu de Almeida que, no Séc. XVII, adquiriram da família de Clemente Álvares a Mina e a Capela deixadas no Vuturuna por Affonso Sardinha (o Velho), e ali continuaram explorações auríferas...”, segundo análise da profª Mariana d´Almeida y Piñon acerca do assunto.

Interpretar a Fundação Colonial das Aldeias Capela de Sta Bárbara do Byturuna, de 1605, é o marco-zero do arraial mineiro onde vem a surgir Arassaryguaba.

A maioria das aldeias nativas, entre 1554 e 1610, torna-se propriedade de colonos portugueses. Mas, também, da Sociedade jesuítica. Colonos e padres disputam espaços


e, principalmente, mão-de-obra. As aldeias que surgem na passagem das bandeiras, ou na torna-viagem, são, de fato, as novas comunidades. É isto que permite ao historiador afirmar que regiões como Ibituruna, Koty, Araritiguaba, Ybiraçoiaba, M´Baroery, Quitaúna, M´Boy, Guaru, Carapocuyba, Tapeceryca, etc., são regiões há muito estabelecidas pelos povos sul-americanos. Na verdade, a gente nativa “foge dos conventos” porque não se sente em casa, não está na sua aldeia. Por outro lado, não se pode esquecer que Affonso Sardinha manda ´construir´ capela no Ibituruna, como já havia feito em Carapocuyba, onde mantém vasta fazenda, em lavoura e em escravaria, nativa e africana. Ou seja: os momentos fundadores das aldeias colonizadas são diversos. Só muitos anos depois dos Sardinha é que Carapocuyba ganha vida de vilarejo. Também por tais fatos históricos é que

a Capela de Sta Bárbara d´Ybituruna, de 1605, é o marco-zero do arraial mineiro onde vem a surgir Arassaryguaba.

1721 a 1743 O Governador Rodrigo César, determina: “Quem tiver em seu serviço índios ou índias que pertençam à administração dos conventos [carmelitas, franciscanos e beneditinos], que os devolvam dentre de 48 horas”. Como os nativos saem dos conventos sem controle, logo se embebedam na primeira “venda” que encontram..., assim, “índio, índia, bastardo, cariboca, pertencendo às aldeias de Tapeceryca, M´Boy, Araçariguama, S. José e Carapecuyba, que fôsse encontrado fora de sua sede seria preso”, e o mesmo aconteceria a qualquer pessoa que lhes desse abrigo, como relata Cassiano Ricardo na sua monumental obra Marcha Para Oeste.


1727 Francisco de Godoy Moreira, em 22 de Novembro, toma posse da administração dos bens de Nª Sª da Conceição do Vuturuna. Os Godoy são uma importante família ligada aos interesses castelhanos, logo, aliada, dos Camargo, nas contendas com os Pires e os Jesuítas.

Pompeo de Almeida & Godoi Moreira Sobre a administração de bens eclesiásticos, que primeiro são pertença dos colonoslatifundiários e depois integrados à Igreja católica, eis uma informação histórica sobre Araçariguama: “Em distancia de legoa, e meia para a parte do poente está a Capella denominada velha de Nossa Senhora da Conceição de Yvuturúna, que he o seo orago, erecta, segundo a Escriptura de dotte, em 1687 pelo capitão Mor Guilherme Pompeo de Almeyda, Administrador, e por seo fallecimento o seu genro o Capitão Antonio de Godoi Moreira, e delle correndo linha recta por seos herdeiros, e, presentemente se acha a posse desta Administração hum netto do ditto Capitão – Manoel Vieira Raposo. O Campo, o Sittio de terras lavradias he o seu dotte: e tão bem forão deichados – Duzentos mil reis – para a festividade de Nossa Senhora da Conceição anualmente. Existem as terras, o Sitio da morada do Administrador a vista da mesma Capella como tão bem 400$000 a juros havendo acréscimo do antigo Capital; porem pela falta de contribuição a annos na pessoa do Thenente Francisco Bueno Garcia dos juros de 20$000 o administrador se tem servido do outro para poder cumprir a Festividade annual. Está provida do necessário para a celebração do Santo Sacrifício. Foi, e he da Jurisdição Secular” [in Livro do Tombo da Paróquia de Parnaíba, fl 120, na Cúria Metropolitana de São Paulo].

Uma informação demonstrativa da importância secular dos atos religiosos de colonos e bandeirantes, e que são a base social-administrativa das novas aldeias e daquelas tomadas aos nativos. A aldeia do Rio dos Arassarys, no Ibituruna, por exemplo, vem depois a tomar corpo urbano com o nome Araçariguama, a lembrar a origem nativa.

Manoel Corrêa Penteado Nascido na Vila de São Paulo, é morador em Araçariguama, adquire riqueza com a exploração de ouro nas Minas Gerais, e é proprietário de grande fazenda de cultura em Araçariguama, termo de Parnaíba, onde teve as rédeas do governo e foi pessoa de autoridade e veneração. Casado com Beatriz de Barros, filha do capitão Pedro Vaz


de Barros e de Maria Leite de Mesquita. Morre em 1745 deixando 6 filhos: José de Barros Penteado, que se forma padre, Fernão Paes de Barros, capitão, Manoel Corrêa de Barros, Anna Pires, Maria Leite da Escada, Maria Dias de Barros e Luzia Leme Penteado. Dos filhos do grande feudal-colonialista é o pe José o mais famoso, porque se envolve também nos negócios da mineração, em Mato Grosso, aonde vem a falecer, e deixa os chamados “legados pios” [uma das maiores fortunas da época] aos seus sobrinhos. 1764 O mestre-de-campo, ou coronel, Agostinho Delgado Arouche, pai do Marechal Rendon [José Arouche de Toledo Rendon] tem residência em Araçariguama por ser o Guardador-Mor das Minas de Parnaíba, e a partir da qual faz as suas inspeções. 1776 Engº Militar Desenha Arassaryguaba No Tempo Do Morgado De Matheus E Do Tratado De Madrid Desenhos, feitos com objetivos militares, fornecem dados preciosos sobre vilas, povoações e aldeias existentes no Vale do Tietê, que dava acesso fluvial a Cuiabá. Os desenhos deixados pelo eng° militar português José Custódio de Sá e Faria referem-se a aldeias como M´baroeri, Arassaryguaba, e vilas como Itu e Porto Feliz [freguesia de Araritaguaba]. O acervo de desenhos é parte integrante do diário de viagem de José Custódio de Sá e Faria, de 1774 a 1776.

1783 Fiação De Tecidos em Araçariguama Sorocaba é, além da sua Feira de Gado, grande fabricante de panos, mas essa atividade de Fiação de Tecidos expande-se para as regiões vizinhas, como as “vilas de Parnaíba, Itu e freguesia de Araçariguama [...], no caminho para o porto de Cuiabá”, conforme analisa Sérgio Buarque de Holanda no seu ensaio sociológico Caminhos e Fronteiras. Na verdade, Araçariguama é um ponto estratégico entre a Vila de Parnaíba [no Seiscentos, autêntica capital do Interior] e Sorocaba, e por isso é escolhida para ser o primeiro portal interiorano, com uma grande produção rural, que abastece quem demanda o Paraná e Sta Catarina antes do embarque definitivo em Araritaguaba, florescente reduto do Rio Tietê. Tanto a Fiação de Tecidos como a Produção Agrícola são, em ´Arassary´, e até finais do Séc. XVIII, ramos de atividade de grande importância econômica, local e regional.

Nesta época, Araçariguama é um pouso tão importante como o de Rio Feio [Porongaba], de onde se chega também ao Paranapanema.


1791 O Barão de Campinas nasce em Araçariguama

“... e em Araçariguama [terra de Sant´Ana de Parnaíba, na Capitania de S. Vicente], nasce Bento Manoel de Barros em 21 de março de 1791, tendo como pai Francisco Xavier de Barros e mãe Ana Joaquina Moraes. Mais tarde, em Itu, casa-se (em 1810) com Escolástica Francisca Bueno, gerando 7 filhos: Francisco Antônio (Capitão Chico), Escolástica, Pedro Antônio, Anna, Esperança, Elias e Antônio. Vem a falecer em 1873 deixando um bom legado patrimonial e social... e político, pois, deve-se considerar a sua atuação como suplente de juiz de paz e como delegado de polícia em Limeira, além de inspetor de estradas, nos anos 40 do Oitocentos, ao ajudar a cidade a tornar-se um marco para o desenvolvimento da Província de São Paulo...” [Barcellos, 1991].

1819 José Bonifácio de Andrade e Silva percorre a mesma rota de Affonso Sardinha & Sá e Faria "Nossas terras estão ermas, e as poucas, que temos roteado, são mal cultivadas, porque o são por braços indolentes e forçados; nossas numerosas minas, por falta de trabalhadores ativos e instruídos, estão desconhecidas, ou mal aproveitadas; nossas preciosas matas vão desaparecendo, vítimas do fogo e do machado destruidor da ignorância e do egoísmo; nossos montes e encostas vão de escalvando diariamente, e com o andar do tempo faltarão as chuvas fecundantes que favoreçam a vegetação e


alimentem nossas fontes e rios, sem o que o nosso belo Brasil em menos de dois séculos ficará reduzido aos páramos e desertos áridos da Líbia" [Dolhnikoff, 1988]. “Pode-se dizer que a expedição científica bonifaciana é um reencontro do cientista e do político com a Sociedade Brasileira de São Paulo. O seu relato, impresso sob o título Digressão Econômico-Metalúrgica Pelas Serras E Campos Do Interior Da Bela E Bárbara Província De São Paulo, em 1820, o estado calamitoso em que as famílias bandeiristas deixaram as áreas de mineração e o abandono de muitas aldeias que nasceram em torno das minas, como Arassaryguama e Ybiraçoiaba. Na expedição, José Bonifácio registra, em São Roque e Sorocaba, xistos e grés, em Pirapora e Vuturuna, hematita e magnetita, em Sto Amaro e Jaraguá, minérios de ferro e grés recortados de betas auríferas, etc., etc., tendo dificuldade para interpretar a quase humilhante condição de abandono em que encontra tais áreas. Talvez perceba, agora, o quão distante está a Coroa bragantina [que tanto defende] das realidades sócio-econômicas do Brasil...” [Barcellos, 1991]. Isto estabelece que o primeiro grande estudo geo-minerário feito no Brasil aconteceu no esforço de Affonso Sardinha (o Velho), como assinala a própria Associação Mundial do Aço, a qual diz ser aquele minerador-forjador o ´pai´ da Siderurgia americana.

1844 Aos 12 de Fevereiro [Lei nº. 10], Araçariguama é desanexada de Sant´Anna do Parnaíba e incorporada à Vila de São Roque, como Freguesia. 1846 O imperador Pedro II visita a região minerária de São Roque / Sorocaba visitando minas e a Real Fábrica de Ferro de S. João do [rio] Ipanema. 1870 Pedro II concede o título de Barão de Campinas ao filho de “Araçá” Bento Manoel de Barros, residente em Limeira. 1874 Feito o Censo da População de São Paulo, verifica-se que a região de São Roque [São Roque & Araçariguama], que é Paróquia, tem já uma população razoável, e que Araçariguama, ou Nª Sª da Penha de Araçariguama, abriga 1271 pessoas livres e 353 escravos. Aos 16 de Abril [Lei nº. 43], Araçariguama desmembra-se de São Roque e ganha emancipação política-administrativa. 1889 Ao refazer o percurso do engº militar português Sá e Faria [Séc. XVIII], a Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo [CGG], que operou entre 1886 e 1904, situa no mapa do oeste da Cidade paulistana o “M. Buturuna” como marco-zero de “Açariguama”.

1916 Araçariguama Na História Eclesiástica Duarte Leopoldo e Silva, arcebispo de São Paulo, um dos visitadores das igrejas de Araçariguama, escreve e publica uma série de anotações sobre a fundação de diversas paróquias do Estado paulista. Do livro Notas de História Ecclesiástica é extraído um opúsculo intitulado As Capellas de Araçariguâma e seus Fundadores.


O livro é importante também na correção de dados históricos e desautoriza até a estória contada por outros religiosos sobre a região. Obs.: À parte o interesse do citado arcebispo, é óbvio que Ibituruna/Araçariguama é uma região catolicizada a partir dos arraiais mineiros do velho Affonso Sardinha, sendo a Capela de Sta Bárbara, de 1605, a referência.

1926-1934 Retorno & Fim Da Mineração A empresa Saint George Gold Mine, obtém direito de exploração da Mina do Ouro de Araçariguama, de onde extrai cerca de 45 kg de minério por mês. É construída a sede da Casa da Fazenda São José, hoje sede da Fundação Antonio Antonieta Cintra Gordinho, na municipalidade de Araçariguama, contribuindo para uma parceria de alto nível cultural e social.

Fazenda São José

A Casa da Fazenda São José, sob gerência da Fundação Antonieta Cintra Gordinho, é um marco do período da exploração do ouro em Araçariguama, entre os Anos 20 e 30 do Novecentos, porque o empreendimento reativou a mineração na região. Na Fazenda São José pode-se observar ainda a estrutura arquitetônica; no entorno da mina, estão os dutos e as construções de apoio à logística interna da mineração, e a pequena instalação hidrelétrica. Toda a estrutura física da fazenda assenta no modelo inglês, na época, exportado para todo o mundo. A casa da fazenda é uma peça arquitetônica que conserva os traços do Séc. XX e é, hoje, um ponto de encontro cultural para as gentes de Araçariguama, do Brasil e do Mundo. Por decreto, em 1934, o Presidente da República Getulio Vargas decide lacrar a Mina do Ouro de Araçariguama; e, no mesmo ano, por decreto estadual, Araçariguama é reduzida à condição de Distrito de Paz de São Roque.

1962 É construída a Rodovia Castelo Branco. Denominada “Auto-Estrada do Oeste”, que tem por objetivo abrir um novo caminho em direção a Mato Grosso e Paraná. O evento de grande envergadura rodoviária permite mais desenvolvimento para Araçariguama. 1975 O poeta português J. C. Macedo, em Coimbra e Lisboa, faz estudos sobre O ciclo aurífero nos sertões da Capitania de S. Vicente, onde Affonso Sardinha


tornou-se rei e senhor, a partir de documentos relativos ao Judaísmo luso que fez o Brasil entre Cananéia e a Mina d´Ouro de Ibituruna, com um esboço a carvão dessa mina com a capela e a cruz no terreiro, embora tenha grafado “mina Byraçoiaba” em vez de “mina Byturuna”. Pela primeira vez é tornado público, em Portugal (Coimbra e Guimarães), um estudo histórico e pictórico sobre Affonso Sardinha, a Capela de Sta Bárbara e a Mina d´Ouro, embora restrito ao meio militar. Neste ano, faz um esboço de desenho dando um rosto ao então desconhecido luso-paulista da Família Sardinha. 1991 O mesmo intelectual faz um esboço/borrão, a carvão, dos Percursos e minerações de Affonso Sardinha (o Velho).

O Recomeço da Comunidade Municipalista Os emancipadores, capitaneados por Severino Alves Filho (Paraíba), levam Araçariguama a reconquistar a autonomia política-administrativa. Um plebiscito, realizado em 19 de Maio, faz com que o Governo estadual promulgue a Lei Estadual de nº. 7.665/91 ratificando a condição municipal da localidade. 1992 No dia 3 de Outubro é eleito Severino Alves Filho [Paraíba] para o cargo de Prefeito Municipal.

Distrito Minerário de Araçariguama Um Caso que Renovou o Conceito Municipalista de Uso do Solo e Ocupação para Extração Industrial de Recursos Naturais

Nascida do antigo arraial da Mina de Ouro d´Ibituruna, com Capela de Sta Bárbara erguida por Affonso Sardinha (o Velho), em 1605, Araçariguama é uma região de mineração por natureza. Os políticos locais, depois do Caso 1934, optaram por lutar pela história que lhes fazia jus no campo minerário e, em 1996, avançaram com a proposta de criação do Distrito Minerário de Araçariguama no sentido de sediar empresas de mineração. Mas, o Estado paulista não estava preparado para avaliar uma proposta desse tipo e o Conselho Estadual do Meio Ambiente – CONSEMA teve que remediar a situação com a criação interna de uma Câmara Técnica Para Apreciação de Empreendimentos de Mineração. Entre questões políticas locais e estaduais e incompreensões sobre a necessidade de aproveitamento lógico e enquadrado da região mineraria, o CONSEMA acatou o parecer favorável da Câmara Técnica e, em 9 de Abril de 1996 as instâncias estaduais criaram o Distrito Minerário de Araçariguama... O movimento é chefiado por Severino Alves Filho [Paraíba] e a ele deve Araçariguama uma parte da sua história moderna. Estão criadas as condições para um novo ciclo de desenvolvimento: Araçariguama, do Ouro ao Aço.


Área Histórica & Museu da Mina de Araçariguama 2000 Sabendo da importância histórica da Mina de Ouro, o prefeito Carlos Aymar Srur Bechara encontra-a praticamente soterrada por um lixão, junto com a Capela de Sta Bárbara, que os britânicos [do Canadá] haviam transformado em Casa-de-Força, e manda limpar o local para, com apoio da Fundação Antonieta Gordinho, estabelecer a Área Histórica & Museu da Mina de Araçariguama. “... E o fato demonstra, mais uma vez, que as palavras tristes e profundas do cientista José Bonifácio de Andrada e Silva, quanto ao abandono dos bens arquitetônico-históricos do Brasil, não ecoaram de maneira a sensibilizar os governos pela constituição de políticas públicas direcionadas à preservação da História do Brasil, e que só [o que por um lado é lamentável] a ação isolada de alguns raros governantes do Poder Municipal permite que a História resista, apesar da depredação política...

Araçariguama em mapa de 1949


Redescoberta da capela e mina + Reconstrução

Hoje, quando as novas gerações brasileiras entram naquele pedaço da Mina d´Ouro, que foi uma das primeiras a serem exploradas na Capitania de S. Vicente, por Affonso Sardinha, reencontram o Ciclo do Ouro. Resta ao Povo d´Araçariguama, seguir o exemplo de alguns políticos locais e ousados, e tomar a atitude certa para a proteção desse parque público... que ainda não nos disse tudo!” BARCELLOS, João – in “Conversas Sobre Os Bens Histórico-Culturais”, palestra sob os auspícios de CORPUS – Jornal d´Artes, Letras & Beleza, Granja Viana / Cotia – SP, 2006.

2004 Recuperação da Imagem de Sta Bárbara

No início de 2004 é recuperada a imagem de Sta Bárbara que havia desaparecido da capela da Mina de Ouro, quando os mineradores da empresa Saint George Gold Mine ali


se instalaram. A imagem estava na Vargem Grande Paulista, o que demonstra, também, que a região fez parte do roteiro de contrabando de arte sacra, além do ouro araçariguamano, via Parada da Maracanduba. Restaurada, a imagem de Sta Bárbara foi recolocada na Capela junto da Mina. Obs.: Existem grandes lacunas historiográficas no setecentos e no oitocentos, porque Araçariguama vive, nesses períodos, fases sócio-econômicas de abandono e de disputas político-administrativas; e, tal como a Mina de Ouro, quase é riscada da História!

2005

4 Séculos Do Núcleo Gerador De Araçariguama No dia 4 de Dezembro de 2005, 4 séculos depois de Affonso Sardinha ter inaugurado a Capela de Sta Bárbara, no dia que lhe é dedicado, a prefeitura municipal reinaugura, com pompa e circunstância, o arraial que o grande desbravador, minerador, banqueiro e político luso-paulista havia desenvolvido..., agora como Parque da Mina de Ouro, naquele que hoje é chamado “Morro do Cantagalo”, mas que no Seiscentos [e até o final do Oitocentos] é a região d´Ibituruna. Com a presença de representantes da Família Real Brasileira, a municipalidade institucionaliza a data fundadora da atual Araçariguama e devolve a história ao Povo da região.

Mineração: Do Séc XVI ao XXI. Se dos Sardinhas, dos Godoy, dos Chassins e dos Pompeos dos Sécs XVI-XVII logrou a região de Araçariguama extrair riqueza aurífera e, com isso, relativo bem-estar econômico e social para as suas poucas elites, também é verdade que a região caiu logo no ostracismo interiorano para só voltar a respirar economicamente no Séc. XXI. Por outro lado, a mineração das areias dos rios e ribeiros para a indústria imobiliária desorganiza ecologicamente a região, enquanto que a mesma recebe plantas industriais sofisticadas para outras áreas de mineração e/ou beneficiamento de metais, como a da Gerdau, o que faz renascer a esperança de desenvolvimento e felicidade. Percebe-se que Araçariguama continua a sua vocação: a mineração. Quatro séculos depois da exploração aurífera acima da Serra do Mar e pelo sertão piabiyuano, como pela estrada fluvial chamada Tietê, a região de Araçariguama é um rincão industrial e histórico.

2005 / 2007


O escritor, jornalista cultural e pesquisador de história luso-brasileiro João Barcellos faz conferências para estudantes e professores na cidade, a convite da Secretaria Municipal de Cultura, e sensibiliza a comunidade para uma “revisão consciente e ética da História de Araçariguama em torno do encontro cultural com a realidade histórica”, e faz ecoar em outros países [Portugal, Alemanha, Irlanda, Espanha e Inglaterra] o “resgate histórico de Affonso Sardinha, pioneiro da siderurgia nas Américas”. A Secretaria Municipal de Cultura providencia eventos permanentes de conscientização histórico-cultural sobre a importância de Araçariguama no contexto lusopaulista e brasileiro, entre os Sécs XVI e XVIII, o que contribui para um olhar diferente dos jovens de todas idades da região, que agora podem acompanhar melhor a lógica pública da ação político-administrativa. Em todos os campos da atividade pública, da Saúde ao Esporte, da Educação à Cultura, da Assistência Social à Segurança, do Transporte ao Turismo, Araçariguama opta pela inovação em busca da felicidade conseguida com o progresso sustentado nas realidades comunitárias de Araçariguama, e o sucesso leva à construção dos monumentos a Affonso Sardinha e Santos Dumont, do artista Lúcio Bittencourt, e ao Parque Santos Dumont com a instalação de um Cine-Avião, no aproveitamento de uma antiga aeronave de carreira para multiuso artístico-cultural. Os atos do Executivo são acompanhados pelo Legislativo havendo um equilíbrio político na região. Para rematar o trabalho de resgate da História de Araçariguama, o escritor e pesquisador João Barcellos é convidado pelo Executivo a preparar um livro com as pesquisas já elaboradas, desde 1991, e cede os direitos autorais em homenagem ao município. No livro Araçariguama / do Ouro ao Aço, o escritor estabelece a primeira cronologia da história colonial e minerária de Affonso Sardinha, que servirá de base de dados para a maioria dos historiadores e para os arquivos institucionais, e nela derruba velhos equívocos através de documentos oficiais. Obs.: Parte do contexto histórico de Araçariguama / do Ouro ao Aço foi retirado do romance histórico Gente da Terra, do mesmo autor [iniciado em 1991 e terminado em 2007], que tem a odisséia do ´velho´ Affonso Sardinha como tema central e Araçariguama é uma das regiões citadas.

Séc. XXI 400 anos depois... Araçariguama vive um momento de turismo histórico importante, junto com as outras cidades que formam o núcleo urbano e industrial em torno do Vale do Tietê e num raio de 100 km: Santana do Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva, Itu, Salto, Araritaguaba [Porto Feliz] e Tietê, ou seja, o Roteiro dos Bandeirantes.


A par do Roteiro dos Bandeirantes, que é uma questão histórica e turística, Araçariguama recebe a sede da ViaOeste, concessionária das rodovias Raposo Tavares e Castello Branco. O alargamento e modernização dessas importantes vias de comunicação terrestre facilitam o fator logístico das grandes indústrias de mineração e de serviços, e, tal como Affonso Sardinha (o Velho) havia perspectivado, no tempo em que o Tropeiro era a locomotiva do Brasil, eis que Araçariguama continua uma “mina d´ouro”...

Araçariguama [Arassary-guaba ou Arassary´í]

Dados Gerais: 695 m de altitude, ca. de 15.515 habitantes para uma área de 146,7 km² [TSE, 2016].


Notas Araçoiaba – do Tupi, Ybiraçoiaba, q.s., Onde o Sol se Esconde. Bacharel de Cananéia – [ou Mestre Cosme], o cristão-novo Cosme Fernandes Pessoa, largado em Cananéia pela expedição de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio [VARNHAGEN, 1854]. Fábrica – Equipamentos de construção, acabamento e objetos de decoração e/ou trabalho. Emboabas - Portugueses e outros que circulavam entre os territórios de garimpo. Mameluco – Filho[a] de nativa com branco. Reinóis – Indivíduos e famílias ligadas por linhagem, política ou ação mercantil, à Casa Real. Sesmaria – Terra doada pela Casa Real portuguesa a quem a trabalhasse. A lei foi criada no Séc. XIV e reeditado no Séc. XVI enquanto política fundiária colonial para fixar reinos. A ação sesmeira era feita por Carta de Data, i.e., ofício régio. No caso da doação de terras para habitação, ou “chãos para fogo de família”, a Câmara Municipal decidia como e a quem fazer a doação. A medida da Sesmaria é 6.600 m x 132 m / Quadra de Sesmaria 871.2 km2. Sta Catalina – Assim, em 1527, Sebastião Caboto, nomeou a ilha dos “careós”, ou dos “patos”. Catalina era o nome da sua esposa [Catalina Medrano]. Mais tarde, Catalina virou Catarina, Ilha de Sta Catarina. Taipa de Pilão – A estrutura de Taipa de Pilão é feita comprimindo-se a terra dentro de formas de madeira [Taipal], i.e., entre duas pranchas compostas de tábuas emendadas no topo, que se mantêm de pé, mas afastadas entre si por meio de travessas e de escoras. O conceito foi copiado pelos portugueses que haviam batalhado na África, segundo anotações do poeta e jornalista J. C. Macedo [Coimbra/Pt, 1975]. Ururay – hoje, S. Miguel Paulista. Ipanema – Ypanen, do Tupi, q.s. Rio Sem Valor.

Bibliografia Apontamentos Históricos... [Tomos 1 e 2] AZEVEDO MARQUES, Manoel Eufrázio de. Martins Ed, 1950 – São Paulo. Arquivo Histórico Ultramarino. Lisboa/Pt. Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo As Capellas de Araçariguama e seus Fundadores. LEOPOLDO E SILVA, Duarte. 1916. Atas da Câmara de São Paulo, Vols 1, 2 e 3. Atas do Grupo Granja. Grupo multinacional de observação filosófica e histórica. A Confraria Plural Das Raças Na Singularidade das Bandeiras. Ensaio. ABDULLAH, Céline & BARCELLOS, João; 2000. A Engenharia Militar Portuguesa Na Construção Do Brasil. Serviço de Publicações do Estado-Maior do Exército de Portugal, Lisboa/Pt - 1965. Affonso Sardinha, o Velho senhor paulistano. BARCELLOS, João. Artigo, Gazeta de Cotia, Fev., 2007. Antropologia do Brasil: mito, história, etnicidade. CUNHA, Manoela Carneiro; ed Brasiliense / Edusp Br.,1986. As Canetadas Políticas & Administrativas Dos Colonos Lusos Na Terra Dos Brazis. MACEDO, J. C.; ensaio. Coimbra/Pt, 1976. Breve Corografia Da Colonização Da Insulla Brasil. Ensaio. MACEDO, J. C.; 1988, Rio de Janeiro – Br. Caminhos e Fronteiras. HOLANDA, Sérgio Buarque de. São Paulo / Br., 1956. Caracterização mineralógico-química e petrográfica, por microscopia óptica, microssonda eletrônica e microscopia eletrônica de varredura, de uma amostra de rocha procedente da região do Morro Doce SP. São Paulo: IPT. 1982. 10p. (IPT. Relatório 16 563). Cartas Jesuíticas. Biblioteca de Évora, Portugal/Pt. Cartas Jesuíticas / Vols I, II e III. Ed Itatiaia e Edusp, Br., 1988. Corpus – Jornal d´Artes, Letras & Beleza. Cotia/SP, ediç lusófona, ano 2006. Da Mineração & Dos Sonhos Perdidos: o Brasil ao ´deus dará´ com cerca de meio milhão de pessoas sobrevivendo precariamente nos garimpos. Confª, Santos/SP, Br – 1991, BARCELLOS, João. Evidências do Guaraní antigo para uma Hierarquia das Categorias Lexicais. D. M. Grannier-Rodrigues; Boletim da Associação Brasileira de Lingüística 20:55-59, 1997. Fonologia e morfologia da língua Kaingáng: o dialeto de São Paulo comparado com o do Paraná. CALVANTE, M. P., Tese de doutorado, UNICAMP, Campinas, 1987. Gente da Terra. Romance histórico com base na odisséia de Afonso Sardinha - o Velho. BARCELLOS, João. TN Comunic, Edicon & CEHC [Portugal & Brasil, 2007]. História da Companhia de Jesus no Brasil – Tomo VI, Livro IV, Cap.VII, pp 370-371.


História de Sorocaba [da Prefeitura Municipal. Web]. História de Carapicuíba [da Prefeitura Municipal. Web]. História de Araçoiaba da Serra [da Prefeitura Municipal. Web]. História Econômica Do Brasil. Estudos. SIMONSEN, Roberto C.; Companhia Editora Nacional História Econômica Do Brasil. Estudos. Ed Brasiliense, Br – 1945. PRADO JÚNIOR, Caio. História Geral Do Brasil. 2 Vols; 1854. VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. Kaingáng: confronto cultural e identidade étnica. LEITE, A. G. O. (Org.) Piracicaba: Unimed, 1994. Kaingángs & Guaranis m´byanos No Piabiyu: artigo, BARCELLOS, João – 1993. Mapa de jazidas e ocorrências minerais do Estado de São Paulo. São Paulo: Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo. Monografias 4, Publicação 1171), 1983. Marcha Para Oeste. RICARDO, Cassiano – Livraria José Olympio & USP, São Paulo – 1970. Morgado de Matheus. Ensaio, Ed Edicon, São Paulo – Br, 2004 – 2ª Ediç. BARCELLOS, João. Nasalização em Três Níveis em Guaraní Antigo. Anais da 54ª Reunião Anual da SPBC, p.507, Recife, 1993. Náufragos, Traficantes e Degredados. Col Terra Brasilis. Vol. II. BUENO, Eduardo. Ed Objetiva, RJ/Br, 1998. Nobiliarquia Paulistana / História e Genealogia. TAQUES, Pedro [1713-1777]. Notas da História Eclesiástica / As Capellas de Araçariguâma e seus Fundadores. SILVA, Duarte Leopoldo e [arcebispo de São Paulo], 72 pp, 1916. Observações Sobre Os Estudos Do Mestre João Barcellos Acerca Do Piabiyu: NOVAES, Figuera de – jornal Jeroglífo, p.7, Buenos Aires / Arg., 2003. Ocorrências minerais do Estado de São Paulo. São Paulo: Secretaria da Agricultura. KNECHT, T. 1950. 144p. (v. 1: municípios de São Paulo, Santana de Parnaíba, Barueri, Franco da Rocha, Guarulhos, Mogi das Cruzes, Suzano e Poá), 1950. O EPOS BANDEIRANTE E SÃO PAULO VILA E CIDADE. [Ensaios Paulistanos, 1958]. Afonso E Taunay. Os Sardinha E Os Pompeu de Almeida. PIÑON, Mariana d´Almeida y, “análise à historiografia de Arassaryguama com base nas pesquisas de João Barcellos”; conferência áudiovisual, TN Comunic & Grupo Granja, Fevereiro de 2006. Os Primeiros Tronos Paulistas. ELLIS JUNIOR, Alfredo. São Paulo / Br., 1944 O Tupi Na Geografia Nacional. SAMPAIO, Theodoro. Ed Nacional, 1987. Piabiyu. BARCELLOS, João, Ed Edicon c/ Grupo Granja e CEHC [Guimarães/Pt], 2004. Projetos para o Brasil–José Bonifácio de Andrada e Silva. DOLHNIKOFF, Miriam (org.), Companhia das Letras, São Paulo, 1988. Registro Geral da Câmara Municipal de S. Paulo. Vol I, 1583-1636. Sobrados e Mucambos: Decadência do Patriarcado Rural... Estudos. FREYRE, Gilberto; Livraria José Olympio, RJ-1951. Vida e Morte do Tropeiro. ALMEIDA, Aluísio de. Martins/Edusp. SP-1981.

Imprensa CORPUS Jornal d´Artes, Letras & Beleza [Brasil & Portugal] Gazeta de Cotia [São Paulo / Br] Tempo de Educar [Lisboa/Pt] Science and Education Journal [Dublin/Ie] Cult Journal [Houston/USA] Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Araçariguama [Moacir Souza].

Ilustrações Desenhos de Fábio Santos Borrões de J. C. Macedo [Lisboa e Coimbra, Pt - 1975 e 1991] Fotos das esculturas metálicas ´Affonso Sardinha´ e ´Tropeiro´, do artista Lúcio Bittencourt. [bittencas@ig.com.br / Mogi das Cruzes / SP-Br] Fotos do ´Acervo João Barcellos´ e Prefeitura Municipal de Araçariguama


ANEXO

Affonso Sardinha (o Velho) Na Base Cronológica Da Conquista D´Oeste Paulista

Affonso Sardinha foi “[...] o primeiro brasileiro que se ocupou do estudo da constituição geológica e mineralógica de sua pátria” Theodoro Sampaio

“Affonso Sardinha fez a primeira tentativa para a fabricação


de ferro em solo americano” Associação Mundial de Produtores de Aço

Rústica e de pura sobrevivência, a economia quinhentista e seiscentista no planalto piratiningo tem base na bravura, às vezes sanguinária, dos colonos portugueses, até por que, alcançado o topo da Serra do Mar, não têm outra alternativa que não seja o avanço sobre as aldeias tupis e guaranis que encontram no planalto e nos sertões do Piabiyu de Ybiraçoiaba. É por isso que entre Santos, S. Vicente e Piratinin [antes da Sam Paolo dos Campos de Piratinin], nasce um complexo familiar de oficinas de artesanato de peças para a sobrevivência dos colonos. Entretanto, e “até à chegada dos jesuítas, em 1554, a principal actividade dos colonos é a de embucharem as mulheres nativas, de preferência filhas de chefes tribais, a exemplo do Bacharel de Cananéia [Cosme Fernandes], e de Ramalho, logo seguidos por Affonso Sardinha e outros cristãos-novos fugidos da Inquisição católica ibérica, pois, no seu entender, é preciso marcar presença sanguínea” [Macedo, 1976]. Um dos mais poderosos colonos de entre os Sécs XVI e XVII é o político, para-militar, mercador e minerador Affonso Sardinha, que “negociava com o Reino, a Bahia, o Rio de Janeiro, Buenos Aires e Angola, fabricando e exportando marmelada. Posteriormente, outro creso da época, o famoso Padre Guilherme Pompeu de Almeida, igualmente produziu milhares de caixinhas de marmelada, que mandava vender em Minas Gerais” [Taunay, 1958]. E pode-se dizer que o grande ciclo luso-paulista se inicia com a abertura de uma nova picada na Serra do Mar, entre S. Vicente e o planalto, na qual já trabalha também o destemido Affonso Sardinha, a colaborar com os jesuítas: é o Caminho de Anchieta. Instalados na Piratininga, por ordem do padre Manoel da Nóbrega, os jesuítas recebem um apoio de grande relevância: o suporte de Affonso Sardinha, que o dá a outras congregações vaticanas, numa espécie de “mão aberta” incomum, mas que é para ele mesmo de grande valia logística no sonho de chegar às minas dos metais preciosos que tanto escuta nos falares dos nativos. Assim, a expansão jesuítica na Capitania de S. Vicente é feita a par da expansão dos negócios da Família Sardinha, principalmente a de mineração em sociedade com Clemente Álvares, pois, no final do Séc. XVI, Afonso já põe o filho mameluco, dito o Moço, a representá-lo em algumas empreitadas e o acompanha – aliás, a quem repassa a arte da mineração contrariando os seus pares da Câmara municipal paulistana, que haviam determinado que os colonos não poderiam ensinar aos mamelucos [filhos de brancos com nativas] as artes de fabricar peças metálicas, para que essas não chegassem às mãos dos escravos... Da sua Fazenda Ybitátá à Fazenda Carapocuyba, passando pela Fazenda Jaraguá e o Arraial-Fazenda da Mina de Ouro do Ibituruna, além dos arraiais mineiros de Cubatão e de Ybiraçoiaba, Affonso Sardinha, a par da sua atividade de banqueiro [que financia e vive de rendas, a grande atividade judaica] e vereador, é um autêntico imperador nos sertões do Piabiyu [Ybitátá e Carapocuyba] e d´Ybiraçoiaba, e é dele a maioria das casas alugadas a padres e oficiais do reino em Santos e S. Paulo... Obviamente, esse português não chegou pobre à colônia, mas fez dobrar muitas vezes os seus cabedais a ponto de se tornar rei e senhor e exigir abertura política na metrópole para comprar escravos negros d´Angola, enquanto envia anualmente para Lisboa mercadorias em nome da Coroa! Este é o senhor Affonso Sardinha, uma das principais referências da história lusobrasileira no que ao estabelecimento do Brasil diz respeito, nas partes dos certõens y mattos y minnas da Capitania vicentina, e mais propriamente no oeste da Villa piratininga


e desta até Ybiraçoiaba, no que se abriu o caminho para Araritaguaba, o porto [feliz] onde acontecem depois as monções destinadas ao Brasil continental.

1535 a 1555 Atua em S. Vicente e em Santos e faz negócios, inclusive, com os corsários ingleses que, por duas vezes, atacam e saqueiam Santos, principalmente com Cavendish. É dono de navios em Santos, segundo documentos históricos da Torre do Tombo, em Lisboa, o que demonstra: 1º, que o judeu Gregório Francisco, seu sobrinho, fazia a linha Angola – S. Vicente não como dono de navios negreiros, mas como sócio ou capitão a serviço de Affonso Sardinha, e 2º, que este desembarcou na “terra dos brazis” para ser desde logo um poderoso colono nas artes de financiar e viver de rendas, o que faz jus ao histórico de judaísmo convertido ao cristianismo da Família Sardinha da província do Alentejo, no sul português. 1555 No dia 9 de Julho casa com Maria Gonçalves, em São Paulo. Irmã de Braz Gonçalves (o Velho), ela vai ter muita influência na ascensão política e econômica do Capitam Affonso. Atua com os jesuítas na construção do Caminho de Anchieta, paralelo ao Caminho dos Tupiniquins, na Serra do Mar. A nova picada serve os interesses coloniais dos portugueses, mas também a visão sulista dos jesuítas preocupados com a própria expansão territorial ao longo da Linha de Tordesilhas, já um enfeite diplomático. 1557 Recebe a vasta Fazenda Ybitátá em troca da construção de uma ponte no Jeribatyba para escoamento de mantimentos essenciais à Villa e na sesmaria está a Aldeia Carapocuyba na qual instala Fazenda & Capela, tornando-se assim o fundador da Carapocuyba luso-católica. Na região carapocuybana ele trata apenas de atividades rural e escravagista para alimentar as suas gentes e sustentar a azáfama da semeadura e colheita e mineração, respectivamente. Amigo e financiador dos padres jesuítas, assim como de várias capelas de outras irmandades católicas, faz circular escravos nativos [tupinambás e karai-yos] entre as aldeias que circundam a Villa Piratininga em defesa paramilitar da mesma, porque a maioria dos ataques surge do certam y mattos do Piabiyu, pela região da Koty guarani, fechada por decreto imperial à circulação de gentes e bens.

1570 Tem fazenda de cana d´açúcar em Santos (além de ser sócio na usina d´açúcar do capitam Leitão no velho Porto das Naus, em Gohayó, ou S. Vicente, além de outros negócios a beirar a Aldeia M´Baroeri), e monta em São Paulo, sob os auspícios dos padres jesuítas, o primeiro trapiche [depósito e balcão] de açúcar e pinga da Villa. Tanto no litoral como no planalto tem casas que arrenda a padres e aos primeiros advogados que chegam à colônia. É o judeu por excelência que vive de empreendimentos e de renda. Nos anos 70 é o colono mais poderoso da Capitania de S. Vicente acima da Serra do Mar e dá-se ao luxo de financiar a expansão dos jesuítas para o sul, a partir do oeste paulista.


Conhece o prático-minerador Clemente Álvares e estabelece sociedade com ele, pela qual financia a busca de novas minas de ferro, prata e ouro.

1580 A Importante Sesmaria de 12 de Outubro Sabendo da existência de ouro no Pico do Jaraguá, tenta a mineração, mas é impedido pelos nativos, e só depois de 10 anos de guerra consegue a extração do metal precioso, além de instalar no local um arraial-fazenda. A pedido dos jesuítas e de políticos poderosos como Affonso Sardinha (o Velho), e principalmente do amigo Anchieta, o capitão Jerônymo Leitão, da Capitania vicentina, determina a doação de uma Sesmaria aos Índios do Pinheiros e de S. Miguel de Ururay, em 12 de Outubro de 1580. A canetada político-administrativa visa assegurar os direitos dos jesuítas e dos colonos luso-paulistas em termos de terras, negócio rural e minerário, quando a Espanha toma para si os destinos de Portugal. A sesmaria dupla, a formar um feudo enorme, tem base nas fazendas de Ybitátá e Carapocuyba e daí toma os cursos do Jeribatyba [rio Pinheiros] ou do Anhemby [rio Tietê], dependendo da jornada a empreender. A sesmaria-dupla é um território com mais de 5.000 km2 e as aldeias nativas, ainda sem capela, ficam enquadradas assim no mapa colonial português... apesar de Castela!

1585 Faz parte da expedição do capitão Jerônymo Leitão para combater os nativos karai-yos. Ele e o capitão entendem-se muito bem econômica, social e politicamente. 1587 Em parte da Serra do Cubatão faz mineração de ouro e de ferro. Com indicações dos escravos nativos, parte com o filho [´o mameluco´, ou ´o Moço´] e Clemente Álvares para a região do certam e sorocas do Cerro d Ybiraçoiaba onde requere autorização para explorar a região ferrífera; aqui vem a instalar fornos do tipo catalão para a iniciar a primeira produção industrial siderúrgica do continente americano. 1590 Apesar de existirem ações minerárias na Aldeia Guaru, na Serra de Jaguamimbaba, é ele quem opera ali a maior exploração de ouro. Manda vir de Angola a primeira leva de escravos para as minas de ferro e de ouro. A encomenda é feita ao mercador de escravos judeu Gregório Francisco, seu sobrinho, com navio de carreira entre Angola e São Vicente. Envia regular e anualmente mercadorias para Lisboa em nome da Coroa. É o colono mais poderoso da Villa e do sertão paulista. 1591 Sob indicações dos nativos guaranis, nos campos de sorocas, o capitão Belchior Carneiro encontra veios auríferos no Morro d´Ibituruna. Como a Coroa lusa, desde 1580 em mãos dos castelhanos, não faz mineração própria, as minas achadas vão a leilão oficial, e aí Affonso Sardinha arremata a Mina dos Arassarys, no Ibituruna, iniciando a mineração com o filho e com Clemente Álvares. 1592


Faz o seu primeiro testamento [13 de Novembro], junto com a esposa Maria Gonçalves [casados em São Paulo, a 9 de Julho de 1555] no qual descreve uma grande fazenda sita na região da Parnaíba, que é a do Ibituruna, mais tarde adquirida pela Família Pompeu de Almeida e depois doada aos jesuítas. No registro, o casal fala das várias capelas e igrejas que mandou ´fabricar´, ou subsidiou, e nisso mostraram que não tinham santos de devoção própria, mas que essa era uma atividade puramente social que lhes encobria a identidade judaica.

Affonso Sardinha Indicado como Capitam das Gentes de São Paulo na Câmara Municipal paulistana

No ano de 1592, diante do perigo de mais ataques de povos nativos à Villa Piratinin, os vereadores solicitaram ao capitão Jerônymo Leitão, da Capitania de São Vicente, providências urgentes. Devido à demora das mesmas, e porque Leitão estava em guerra contra os nativos nas bandas do sertão da Parnaíba, aconteceu um fato político de grandeza social e paramilitar: “[...] Aos dous dias do mes de maio do dito anno os offiçiais da camara se ajuntarão nela e ai aprezentou affonso sardinha hua provizão de capitão da gente desta villa e seus termos e requereo aos ditos offiçiais q a mãdasen registar e elles asentarão q se esperase pelo snõr capitão q estava de caminho [...]”. Amado e odiado ao mesmo tempo, enquanto banqueiro e sertanista destemido, Affonso Sardinha é, na última década do Quinhentos, a pessoa mais indicada para resolver a problemática da defesa da Villa. Ele é a essência da “piratinin villa do sertam, onde só segue adiante quem comanda e não é comandado [non ducor, duco]”. Ele sabe disso e apresenta-se no Conselho com uma proposta de defesa. Sabe, também, que nenhum outro poderoso luso-paulista tem a autonomia financeira que lhe dá a liberdade autocrática de decidir por si mesmo [bem no conceito creso das políticas privadas que se fazem pelas públicas]: ele e só ele é a salvação das gentes da villa, e as gentes também sabem disso. Os vereadores não querem fazer o registro da petição de Affonso Sardinha de imediato, mas é o povo que pressiona e, tendo em vista a ´voz de deus´, escrevem na mesma ata: “[...] pois afonso sardinha era home pª isso como o dizia a maior parte deste povo [...]”. Sem dúvida, o velho senhor luso-paulista enfrenta oposições, tanto de políticos como de outros sertanistas, mas ele é o mais livre dos poderosos locais... e o mais poderoso, tanto que é “dono de navios em Santos”, como está nos documentos “Papeis do Brasil” guardados na Torre do Tombo, em Lisboa.


Obs As atas da Vereança paulistana mostram outra verdade histórica: ao contrário do que afirmam alguns historiadores [?] e até um dicionarista, o mameluco Affonso Sardinha (o Moço) jamais poderia ter usurpado o lugar de o Velho, porque o regimento impedia que mamelucos tivessem acesso a cargos institucionais, quanto mais a comando em armas...! Por outro lado, o Registro Geral demonstra que quem recebeu o título de ´capitão´ foi o Velho e não o Moço, o que derruba qualquer tipo de estória sobre o assunto... No testamento, redigido antes da sua partida para o sertão, e que passou para o Cartório da Tesouraria da Fazenda de São Paulo, no Séc. XIX, o Velho fala das suas coisas, do seu cargo de Capitão e do filho mameluco, o que põe um ponto final na questão.

Após o agito político na Vereança, em 2 de Maio de 1592, é ratificada a decisão popular em favor do político, desbravador e banqueiro, em 20 de Setembro: “Traslado de uma provisão de Affonso Sardinha de capitão desta villa de São Paulo. [...] Jorge Corrêa capitão e lugar tenente [...] faço saber [...] que havendo respeito aos muitos serviços que Affonso Sardinha tem feito a esta capitania e pela confiança que delle tenho hei por bem de o encarregar de capitão da gente da villa de São Paulo e seus termos [...]”. E ainda no mesmo ano: “[...] mando o capitão Affonso Sardinha que em meu nome vá ao sertão [...]”. E o próprio Sardinha, em cédula testamentária habitual na pré-campanha sertanista de uma entrada de guerra: “[...] esta cedula de testamento e mando cerrado virem, como no anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1592, aos 13 dias do mez de novembro, n'esta villa de S. Paulo do Campo, Capitania de S. Vicente do Brasil etc. Eu Affonso Sardinha, na dita villa morador e capitão da gente de guerra, pelo governador Lopo de Souza [...]”

Obviamente, que esse Affonso Sardinha de muitos serviços a favor da Capitania só poderia ser o Velho...! Aliás, nesse período, ele também é vereador! Os vereadores não iriam oferecer o Poder a um mameluco e o Povo, esse, a conhecer um Sardinha, só poderia ser o pai Afonso. E nas Atas, como no Regimento, pode-se ler perfeitamente que o Velho é e está Poder, sendo que o Moço é notícia uma única vez e se registra que “[...] afonso sardinha o moço hera ido ao sertão e levou em sua companhia outros mâsebes e mais de çem índios xpãos”. Assim, está claro que nos últimos 100 ou 150 anos quiseram fazer esquecer Affonso Sardinha (o Velho) dando falsa identidade política e colonial ao filho... Por que o pai era judeu convertido? Se assim foi/é, o filho, mameluco, serviu como argamassa para emparedar ´o judeu´, como fizeram para calar a odisséia colonial de outro judeu: o Bacharel de Cananéia...


1604 Affonso Sardinha (o Moço) faz testamento no sertão e fala que são suas as minas e que tem 80.000 cruzados em ouro guardados em botelhas de barro... O jovem mameluco morre em confronto com os nativos neste mesmo ano e deixa mulher e duas crianças [Luiza e Pedro], além de um testamento ridículo. * A cédula testamentária d´o Moço é uma piada histórica, uma vez que ele foi contemplado com tapera e 300 cruzados pelo pai, em 1592, sendo que tudo isso pertencia a Maria Gonçalves enquanto o Velho estivesse vivo. Entre os vários testamentos feitos no sertão, de o Moço, redigido pelo pe João Álvares é um acontecimento histriônico, e tanto assim que, lavrado, é registrado no Cartório de Órfãos de São Paulo.

1605 Com o arraial mineiro do Byturuna dando ouro em pequena escala, mas uma grande fortuna, transforma o arraial em fazenda; e, em 4 de Dezembro de 1605, depois da morte [1604] do filho, instala a Capela de Sta Bárbara, tornando-se o fundador luso-católico de mais um povoado colonial que teria continuação com outras capelas, outras devoções, outros pontos geográficos, e até outros focos de interesse comercial, rural e logístico, sendo particularmente um eixo para o desenvolvimento do jeito de ´bandeirar´ que, a algumas milhas dali, a partir de Araritaguaba [o ´porto feliz´ dos povos da outra banda, ou goayazes], faria acontecer o Brasil continental! Obs A instalação da Capela de Sta Bárbara é da tradição dos mineradores e militares, como dos sertanistas, e no caso da MinaArraial do Ibiuruna, no Arassary´i, a história de Affonso Sardinha (o Velho) foi passada oralmente, como já havia acontecido com a Capela ´fabricada´ na Carapocuyba, logo, a História não descarta a Tradição a incorpora-a como registro imaterial pela certeza de que os atos existiram e a arqueologia os mostra, tanto no Parque da Mina de Ouro d´Araçariguama como na Aldeia de Carapicuíba, por exemplo, povoados luso-católicos a partir das ações sertanistas e minerárias do velho Sardinha.

1606

Affonso Sardinha vende a mina, o arraial e a capela d´Ibituruna, ao sócio-artesão Clemente Álvares, que repassa a informação à Câmara de São Paulo, onde é vereador. A translação é tão verdadeira quanto a declaração do próprio vereador Álvares no plenário do Conselho paulistano. 1615 No dia 9 de Julho, com a esposa Maria Gonçalves, e por estarem casados há mais de 60 anos [o que mostra que ele deve ter chegado ao Brasil, fugido da Inquisição, cerca de 1530], faz a doação de todos os seus bens móveis e de raiz, com as terras de Carapocuyba, ao Colégio de Santo Inácio da Villa de Piratinin, mesmo tendo a neta Luiza e o neto Pedro, filhos de ´o Moço´, como continuação da sua família. 1616 Morre na sua fazenda no Pico do Jaraguá sendo depois velado e enterrado pelos jesuítas na capela jesuítica da Villa. A pedra tumular veio a ser encontrada em 16 de Setembro de 1881. Netos e bisnetos continuam a saga dos Sardinha nas regiões de Mogi das Cruzes, São Paulo, Sant´Anna de Parnaíba e Sorocaba. A neta Luiza casa com um cristão-novo e homem poderoso do reino e vai viver no Rio de Janeiro, e Gaspar Sardinha, bisneto, continua a atividade sesmeira de o Velho em várias ações registradas em inventários.


Entretanto, nenhum outro Sardinha consegue alcançar o poder político e financeiro que o Velho possuiu. * No seu livro “Apontamentos Históricos...”, Marques de Azevedo, apesar de ter tido contato direto com os testamentos da Família Sardinha, anota um erro comum: confunde o Moço com o Velho e diz que aquele morreu na Fazenda do Jaraguá...

Político, Juiz & Capitão // Vereador nos anos de 1572, 1576, 1592, 1596 [substituindo Antonio Rodrigues] e 1610. No ano 1608 entrou na disputa eleitoral, mas não conseguiu ser eleito. Almotacel no ano 1575. Juiz-Presidente no ano 1587. Capitão das Gentes de São Paulo [Indicado em 1592 pelos “ofisiais da camara” sob pressão popular. A indicação é ratificada no mesmo ano pela Capitania de S. Vicente]. Notas - mâsebes mancebos / xpãos cristãos [de xpto = cristo] / çem cem / negros carijós os nativos guaranis escravizados eram chamados de ´negros´ / peis larguos nativos Pés Largos de linguagem guarani m´byana / maguoeiri baroeri

Os Enganos Sobre ´o Velho´ Affonso Sardinha A pior ação que é feita contra os documentos históricos é quando quem investiga rejeita partes do trabalho que lhe parecem excessivos, ou para a tese em construção ou para um ensaio ou um pequeno texto de jornal. Dois mestres brasileiros merecem-me a melhor atenção: Theodoro Sampaio, autor do inigualável “O Tupi Na Geografia Nacional”, e Cassiano Ricardo, autor da excelente narrativa memorial “Marcha Para o Oeste” [2 volumes]. Os dois, cuja obra deveria ser obrigatória no Ensino Médio, são exemplos da “pesquisa histórica que deve ser feita em profundidade, mesmo quando o alvo é um dado superficial”. Muitos historiadores consagrados do Brasil e de Portugal investiga[ra]m milhares e milhares de documentos em ambos os países, e também na Espanha, como eu mesmo o fiz, mas pode se verificar que, na generalidade, as suas obras são “empréstimos” para preencher os parâmetros oficiais do Ensino, logo, sem a intenção primeira de transformar esse trabalho em peça didático-pedagógica para a Verdade histórica. Ora, o problema não é só brasileiro... Entretanto, a superficialidade é um mal tão grande que cria a mediocridade! Por isso, raros são os professores que conhecem a História do Brasil, e pior, das regiões em que lecionam e nas quais deve[ria]m estar integrados socialmente. E então, volto ao Affonso Sardinha (o Velho). Um dos principais erros sobre essa figura histórica paulistana foi mesclar o Pai e o Filho [Affonso Sardinha - o Moço, ou Mameluco] enquanto homens públicos, quando só o Pai teve a ver com a maioria dos eventos que financiou ou de que participou, como explico no artigo “Affonso Sardinha – o Velho senhor paulistano”. Esse engodo chegou à Câmara Municipal de São Paulo muitos e muitos anos depois, quando a Vereança resolveu dar o nome “Afonso Sardinha” a uma rua da Cidade.


No famoso “Diccionário Histórico, Topographico, Ethnographico Illustrado do Município de São Paulo”, Tomo I, de Affonso de Freitas, e publicado em 1930 pela Graphica Paulista Editora, o autor, em vez de verificar o Caso Affonso Sardinha nas Atas daquela Casa, preferiu dar à estampa o que a Vereança havia registrado para aquele Topônimo. Ora, no mínimo, Affonso de Freitas deveria ter feito uma onomástica, até porque uma simples leitura das Atas legislativas do Séc. XVI lhe dariam a luz necessária para não escrever o que publicou. No caso de cidades como Carapicuíba e Araçariguama, por exemplo, existe um acerto de contas com a História, uma vez que elas tiveram os seus núcleos coloniais iniciados a partir da fazenda-e-capela e mina-e-capela de Affonso Sardinha (o Velho). E na “história” de Carapicuíba ainda se diz, oficialmente, que ele [o Velho] “deu início à construção de uma capela, por volta de 1590. Porém, frustrado em seus intentos, resolveu voltar para a Europa”. Quando os professores e os políticos não se interessam pela verdade histórica que lhes é raiz, o que resta é nada...! Outro livro em destaque, não por erros, mas por lapso de leitura comparada, é “Apontamentos Históricos, Geográficos, Biográficos, Estatísticos e Noticiosos da Província de São Paulo, seguidos de cronologia dos acontecimentos mais notáveis desde a fundação da Capitania de São Vicente até o ano de 1876. Tomos I e II”. Martins Ed., SP1952, de Manoel Eufrázio de Azevedo Marques, uma das grandes referências do 4º Centenário da Villa Piratininga. A família Azevedo Marques teve, no Séc. XIX, dois membros como diretores do Cartório da Tesouraria da Fazenda de São Paulo, que guardava os principais inventários e testamentos do Séc. XVI, entre eles os da Família Sardinha; eram Joaquim Cândido e José Xavier, através dos quais Manoel Eufrázio teve acesso irrestrito a farta documentação histórica, além de que ele mesmo foi escrivão no Cartório de Órfãos de São Paulo. Em “Apontamentos...”, é desconsiderada na maioria dos assuntos a tradição da Oralidade que, entre 1515 e 1650, foi responsável pelo registro imaterial dos bens históricos paulistas, como o caso das povoações que surgiram da tomada dos aldeamentos nativos [Carapocuyba, Koty, Tapiipissapé, Ybituruna, etc.] e se expandiram mais tarde, até com outros nomes, como Itapecerica da Serra [Tapiipissapé], Koty [Acutia, Cuty, Cotia] e Ibituruna/Araçariguama [Arassary´i Guaba]; e dessa Oralidade “...o saber transmitido entre gerações das Capelas ou Alminhas instaladas nas encruzilhadas e nos caminhos dos sertanistas e bandeirantes, como as minúsculas ´alminhas´ de Nª Sª do Rosário e de Sta Bárbara, e. no caso de Sta Bárbara, as ´alminhas´ deixadas por Affonso Sardinha nas trilhas que ligavam as suas fazendas [Ybitátá, Ibituruna, Jaraguá, Carapocuyba] entre o Piabiyu e as sorocas d´Ybiraçoiaba”, como lembra o Prof. Dr. e expadre Figuera de Novaes. A par disso, e no assunto que diz respeito à Família Sardinha, eis que Azevedo Marques também peca por confundir o Velho com o Moço: primeiro, afirma que o Velho foi “eleito” Capitão das Gentes de São Paulo pela Câmara Municipal, o que é errado, pois a Vereança aceitou uma provisão dele para o indicar Capitão, e isso só veio a acontecer meses depois com a aprovação da Capitania de S. Vicente; segundo, confunde o filho com o pai ao citar um texto de Pedro Taques [da “Nobiliarquia...] que afirma ter sido o Moço “o primeiro descobridor das minas”, o que é falso, e que ele, na mina de Jaraguá minerou “e ahi falleceu”, o que também é falso, pois, quem morreu na Fazenda do Jaraguá foi o Velho, em 1616, enquanto o Moço foi morto em 1604 no sertão; e terceiro, volta a confundir o pai com o filho na leitura errônea das atas da Vereança paulista para afirmar que ele, o Moço, foi “capitão da gente de São Paulo no ano de 1592”. O certo é que através desse “Diccionário” e das “Anotações” muitas gerações foram levadas ao erro histórico. Aqui fica, portanto, o dado: a História é feita de Documentos, mas é preciso que estes sejam lidos com os olhos da Verdade.


Sta Bárbara e os Mineiros da Colonização na América Teólogo e Prof. Figuera de Novaes Valparaíso, Chile - 1945

Quem foi Bárbara? Ela foi colocada na era colonial portuguesa e castelhana como protetora dos mineiros e dos militares, e no Brasil foi ainda a imagem que marcou as primeiras explorações de ferro, ouro e prata nos campos da Villa de Piratininga nos sertões a oeste. A capela de Sta Bárbara, no Morro do Ibuturuna, por exemplo, é o marcozero do povoado. Mas vamos à história de Bárbara, e depois à questão do homem mais poderoso das Américas, entre 1580 e 1610, um português de família judaica há muito convertida ao catolicismo... A história mais conhecida de Bárbara é a seguinte: nasceu no início do Séc. IV em Nicomédia, atual Ismite, cidade da antiga Bitínia, na Ásia Menor, junto ao Mar de Mármara. Bárbara era uma jovem muito bela, filha de Dióscoro, homem rico e poderoso, adorador dos deuses grego-romanos. Ele queria para ar sua filha um bom casamento, e dele uma vantajosa aliança, e por ter de viajar, encerrou-a numa torre, mandando construir ali um balneário com duas janelas. Bárbara entrou em profunda meditação e acabou por se converter à fé cristã, então proibida no país e já motivadora de perseguições. Na ausência do seu pai, Bárbara mandou abrir no seu balneário uma terceira janela para poder receber uma luz divina. Iluminada pela Santíssima Trindade desenhou uma cruz com o dedo, no mármore do balneário, que ali ficou gravada e que, segundo relatos, teve efeitos milagrosos para os que, mais tarde, a tocaram. Depois, mandou destruir os ídolos pagãos que seu pai ali tinha. Quando Dióscoro regressou da viagem, interrogou sua filha, que explicou o que tinha feito e informou seu pai que recusava qualquer casamento, pois já se tinha destinado a Jesus Cristo. Furioso, ele desembainhou a espada para a castigar, o que fez com que Bárbara fugisse e se ocultasse no interior de um rochedo que, segundo a lenda, se terá aberto para a esconder. Numa versão da Idade Média, que situa a história lendária de Bárbara perto de Atenas, a jovem terá sido protegida por mineiros de Laurio que a esconderam na sua mina. Denunciada por um pastor, Bárbara foi entregue a seu pai que a levou a Marciano, máxima autoridade romana da cidade, acusando-a de professar o Cristianismo. Marciano quis perdoá-la, se Bárbara aceitasse os deuses de Roma, mas a jovem terminantemente recusou. Açoitada cruelmente, Bárbara pediu sempre o auxílio a Deus, tendo Jesus aparecido assegurando-lhe que estaria sempre a seu lado, de modo que as crueldades dos tiranos nada pudessem contra ela. Aí, Bárbara sentiu-se curada e deu muitas graças a Jesus, assegurando-lhe que o seguiria para sempre. Não conseguindo demovê-la da sua fé em Jesus, Marciano, no cúmulo do furor, mandou-a decapitar. Dióscoro, seu pai, levou Bárbara ao alto de um monte onde ela se ajoelhou e pedido a Jesus que, na hora da sua iminente morte, a absolvesse de todos os seus pecados. Levada pela sua bondade, pediu que a mesma graça fosse concedida a


todos os que, em situações de morte iminente, por seu intermédio implorassem a Extrema Unção. Tendo recebido de Jesus a garantia da satisfação destes pedidos, Bárbara foi decapitada pelo seu cruel pai no dia 4 de Dezembro, dia que ficou para devoção à Santa. Continua a lenda que, entretanto, o céu escurecera, se tornara tempestuoso e que, quando Dióscoro encetou o regresso do monte, um raio o fulminou, reduzindo-o a cinzas. E assim, enquanto Bárbara terá subido ao Céu levada por anjos, Dióscoro terá descido ao Inferno para ser atormentado para sempre pelos demônios. A adoração da Sta Bárbara por parte dos mineiros, a ponto de a elegerem como Padroeira, poderá encontrar-se na sua história lendária. Para além de relações possíveis, que podem ser consideradas menores, do refúgio de Bárbara no interior da terra, quando primeiramente perseguida pelo pai, parece fora de dúvida que o motivo essencial da adoração se encontre na súplica, feita pela Santa a Jesus, para que, quando em situações de morte iminente, todos os que implorassem a Deus, por seu intermédio, a Extrema Unção, a obtivessem, ficando absolvidos de todos os seus pecados. Tais situações de morte iminente tê-las-iam sempre os mineiros diante dos olhos quando no seu trabalho no subsolo. Eis o motivo pelo qual Sta Bárbara é venerada por artilheiros, pirotécnicos, bombeiros, etc., e também por artífices de profissões relacionadas à torre, quanto à respectiva construção, como pedreiros e arquitetos. No mundo inteiro, Sta Bárbara mantém-se Padroeira dos mineiros. Na época da colonização da América, dita portuguesa, os padres jesuítas incorporaram a imagem de Sta Bárbara ao seu dia a dia de esforços sertanistas e religiosos, e foi Affonso Sardinha - o Velho, como se pode ler nas partes do seu testamento, com a mulher Maria Gonçalves, quem ergueu na Mina de Ibituruna, uma capela para Sta Bárbara no dia que lhe é consagrado, assim como ele mesmo fizera na região de Carapocuyba, em 1558-59, onde também iniciou povoado. Esse português e paulista, que faleceu em 1616, foi responsável pela disseminação do culto mineiro a Sta Bárbara no Brasil, a partir das minas a oeste da Villa que os jesuítas aí construíram em 1554. Do acervo de Marta Novaes. Buenos Aires / Argentina. [Tradução: Mariana d´Almeida y Piñon]

Atos Devocionais & Colonização nos Sertões do Brasil João Barcellos Lisboa/Pt - 2001

Entrar nos arquivos da Igreja católica, em Portugal, e neles fazer uma leitura comparada com a História da Colonização Luso-Vaticana no Terra dos Brazis, é descobrir os atos devocionais que os colonos carrearam para além-mar, e, na maioria dos casos, principalmente nos do Séc. XVI, com exceção do registro das Cartas Jesuíticas, os anais da Igreja não contêm o tombo dessas informações importantes. É que a Igreja, no Brasil, deu início ao tombamento dos ´seus´ bens a partir de meados do Séc. XVII, e então, os tratos religiosos e mercantis dos capelães das ´entradas´ e das ´bandeiras´, e principalmente os das ´minas´, ficaram no registro da tradição oral, e algumas vezes surgem nas entrelinhas dos testamentos e inventários de colonos, como Affonso


Sardinha e Fernão Dias Paes - o Moço. Esse Dias Paes fundou a Capela de Nª Sª do Monte Serrat na aldeia Koty, dos guaranis m´byanos, cerca de 1640, na região do Caiapiã; o velho Sardinha fez o mesmo na aldeia de Carapocuyba, em 1590, e na região do Rio dos Arassarys, no Ibituruna, construiu capela para Sta Bárbara, em 4 de Dezembro de 1605, dia da padroeira, na boca da mina d´ouro. Entre outras devoções, aliás, nem sempre religiosas, mas coberturas ideais para identidades não católicas, como a do Dias Paes e a do Sardinha, ambos de famílias judaicas convertidas, as santas Monte Serrat e Bárbara foram base para a formação de inúmeros núcleos que deram origem a povoações, e aquele Affonso Sardinha, minerador e banqueiro português, foi responsável pela disseminação de cultos vários entre ´capelas´ e ´alminhas´ [oráculos de encruzilhadas e início de trilhas no sertão]; e além disso, foi o maior patrocinador da expansão jesuítica na Villa Piratininga e nos campos do oeste que levaram esses padres para o sul no sonho do ´império teocrático´ que tanto incomodou o Vaticano. No caso da Villa de São Roque, por exemplo, a criação deu-se com a fé de Vaz-Guassu, fidalgo luso que já em Koty havia contribuído para a ´fábrica´ da Capela de Nª Sª do Monte Serrat” [jb]

IBITURUNA Gente Guarani No Caminho Continental Dos Paulistas (Analisando estudos de João Barcellos sobre a ´gente ibituruna´)

Marta Novaes & Mariana d´Almeida y Piñon

Uma Estrada Continental O dia em que “...Fernão Dias Paes, já calejado por ter estado na primeira ´bandeira de Raposo Tavares, em 1638, decide subir a serra d´apucarana, em 1665, torna-se ele mesmo um dos grandes expedicionários da colonização; mas, é em 1674, quando reencontra a gente ibituruna nos certõens de cataguaz e lança então a fundação da primeira aldeia nessa região”, que o seu nome é registrado entre os ´grandes´ da odisseia paulista dentro da estrada continental guarani.


[gente ibituruna em meiembipe]

O reencontro com a gente ibituruna tão longe do sul mostra-lhe que o piabiyu, a estrada sagrada dos guaranis, é uma via que une não um território, mas uma crença tão forte quanto a cristã. Ele sabe, pela bandeira no sul, que pouco se pode fazer com outras tribos nativas, pouco dadas ao trabalho braçal, e que “...só interessam os povos guaranis para formar fazendas, minerar e ter capitães de mato autênticos. O que, aliás, os jesuítas já sabiam e com os guaranis quiseram erguer os pilares humanos de um império teocrático, i.e., aliando uma crença nativa ao trabalho escravo. Acrescento que os guaranis de fala m´byã [de ibi+intira+uma = inbituruna, q.s., cerro negro] denominam também os complexos serranos de além La Plata com o próprio nome, indicando com isso a continentalidade da sua existência”. O que significa este reencontro? “A gente ibituruna tem espaço maior no sul, na região de meiembipe (depois, Ilha de Santa Catarina), e serve de ponte entre as regiões de entre o Rio La Plata, para sul e para norte, sendo que para norte avança por paranapanema chegando ao planalto de piratininga onde alcança a jaguamimbaba (ou, cantareira) dando entrada para a Mantiqueira e adiante, até cunha [do português ´rocha na forma de cunha´], onde se desce para paraty. Quando o piabiyu alcança o planalto piratiningo atravessa um complexo de serrania, entre o ybiraçoiaba e Sant´Anna de Parnaíba, que recebe o nome de serra de ibituruna. Eis por que se diz, e o digo, que estrada geral dos paulistas é somente a renomeação do piabiyu continental aberto pelos guaranis e tendo a gente ibituruna como guardiã”.

Mina d´Ouro No Cerro Ibituruna

Ora, assim me salve Deos E me livre do Brasil Gil Vicente – in ´Barca do Purgatório´

Apesar das [boas] notícias que começam a chegar aos cais lisboetas e ao paço real, o Brasil do fim de ´quinhentos´ ainda é visto como ´inferno d´além´, como se lê e escuta no


teatro vicentino, e sendo Gil Vicente o mais fiel ´escudeiro´ da gente lusa, não existe margem para dúvida. Nem mesmo uma carta de Braz Cubas, de 1562, a noticiar “ouro a 30 léguas de Santos” (ou seja, na serra da Cahativa e pouca distância do Ybiraçoiaba), levantou a ´moral´ sisuda da gente que nos cais (e mais a norte do que a sul) aguardava notívias mais ´quentes´... Na segunda metade do Séc. 16 é que se tem notícias e testemunho de veios auríferos e argentos nos certõens guaranis, de entre a paranapiacaba e a jaguamimbaba passando pela ibituruna e o Jaraguá, muitas vezes com ´âncora´ em carapocuyba. É o resultado de ´entradas´ exploratórias sob orientação de tupis e guaranis depois que Cosme Fernandes e João Ramalho se acomodaram entre as tribos da região. Entretanto, “...nos riachos da Paranapiacaba e nos da Jaguamimbaba, e sempre com a gente guarani na orientação geral dos caminhos ao longo do Piabiyu, surgem os primeiros garimpos de ouro de lavagem e, logo, cavas fundas no Jaraguá e no Ibituruna. A nova realidade faz os portugueses e os caboclos (ou mamelucos, em geral) multiplicarem esforços entre a lavoura e a mineração, e aqui destacam-se Braz Cubas e Affonso Sardinha (o Velho), que arrematam autorização reinol para o início do ciclo do ouro paulista, mas é o ´velho´ Sardinha quem mais alcança sucesso, no Jaraguá e no Ibituruna”. Nota-se, então, que a Capitania de S. Vicente trata as minas como trata a lavoura: tudo sob o prisma sesmeiro, ou seja, a Coroa privilegia quem das terras e das minas sabe tratar e delas gera lucro para el-rey.

Mina D´Ibituruna & Sua Gente A mina situa-se em território dominado pela gente ibituruna, já um ramal do piabiyu, e compreende uma série de cerros (ou morros) e muitas picadas. São “contrafortes que oferecem uma paisagem belíssima e de proteção natural ao ambiente coletor dos povos da região, como diz o Prof. Ab´Sáber”, entre cerrado e mata atlântica. “Subindo o Pico de Mombaça avista-se o do Jaraguá e parte de Quitaúna e, logo, a Sam Paolo dos jesuítas, e, a sul, o do Saboó; perto, o lugar dos araçaris, depois dito ´morro do cantagalo´, em cujo sopé estão as cavas d´ouro”. Em suas pesquisas, João Barcellos lembra: “Não é por acaso que o ´velho´ Sardinha se faz ´capitam das gentes da villa´ para tomar o Pico do Jaraguá, ora, ele sabe que para avançar pelos ´mattos y certõens´ é preciso neutralizar a atalaia dos nativos naquele pico estratégico. Por isso, depois de Cosme Fernandes, Affonso Sardinha (o Velho) é a chave para se conhecer os pilares que deram origem à dinâmica paulista de forjar uma nova sociedade”. Tal é o esforço de Affonso Sardinha (o pai..., não o filho, dito ´o Moço´) na sua odisseia aurífera que chama para o arraial práticos em montanística e fundição, como Clemente Álvares. “Em meio à mineração, Sardinha percebe que a gente d´ibituruna é sedentária, planta e tece algodão, constrói redes de descanso e tem a cerâmica como indústria de alto valor. Na verdade, depois do bacharel de Cananeia (Cosme Fernandes) no litoral, é o ´velho´ Sardinha, nos ´certõens y mattos´, quem constata esta particularidade guarani para depois, adentrando o Piabiyu (de Sam Paolo a Buenos Ayres e Asunción), fazer trato mercantil com este povo e levantar aí uma economia liberal...”. Aos poucos, “a gente ibituruna mistura-se no arraial aurífero do sitio dos araçaris a gente africana e portuguesa, e é mais um núcleo de caboclagem a engrossar o caldo racial e místico”. Na mina de ouro, Affonso Sardinha (o Velho) dá início à primeira exploração contínua de que se tem notícia – e tão ´contínua´ que entre os Sécs 16 e 20 não cessa de jogar riqueza, sendo fechada para evitar contrabando e porque, nos Anos 40 do Séc. 20, a sua produção é cerca de 45 Kg/mês, pouco para assegurar o espectro mercantil mínimo – e,


por isso, é ele o primeiro colono a enviar a el-rey generosos tributos auríferos com regularidade. Embora sofrida no seu ciclo próprio de procriação, a gente ibituruna, como em geral a guarani, transforma-se em uma comunidade sul-americana de traço continental a funcionar como espelho de uma geossociedade tão mística quanto resistente entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina. Marta Novaes – Profª e Jornalista. Buenos Aires / Argentina Mariana d´Almeida y Piñon – Profª de Artes Visuais. Paris/França Grupo de Debates Noética, 2015.

Notas + Bibliografia Nota 1 – O mapa “Paraquaria vulgo Paraguai cum Adjacentibus”, é um trabalho de J. Blaeu, em Amsterdam, segundo dados fornecidos pelos padres jesuítas espanhóis, nos Anos 40 do Séc. 17. Neste mapa está focalizada a gente “ibituruna” no sul. Nota 2 – Este estudo, em cima das pesquisas e livros de João Barcellos, é uma homenagem ao trabalho peculiar deste luso-brasileiro empenhado na verdade historiográfica. Os livros “Araçariguama...” e “Gente da terra” receberam em 2007 o Prêmio Clio de História, o que mostra a importância do seu trabalho. ///// II VIAGEM À PROVINCIA DE SÃO PAULO E RESUMO DA VIAGEM AO BRASIL, PROVINCIA CISPLATINA E MISSÕES DO PARAGUAI – A. de Saint-Hilaire, 1822. A ECONOMIA LIBERAL NO SÉCULO 16 VIA PIABIYU – João Barcellos. Palestras em Buenos Aires e São Paulo, 2015. ARAÇARIGUAMA: DO OURO AO AÇO – João Barcelos. Ed Edicon / SP, 2007. GENTE DA TERRA [romance historiográfico] – João Barcelos. Ed Edicon / SP, 2007. GEOMORFOLOGIA DA REGIÃO DO JARAGUÁ, EM SÃO EM PAULO – Aziz N. Ab’Sáber, 1947. NOTICIA RACIOCINADA SOBRE AS ALDEIAS DE ÍNDIOS DA PROVINCIA DE SÃO PAULO DESDE O SEU COMEÇO ATÉ A ATUALIDADE – José J. M. de Oliveira. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, 1867. PIABIYU [o caminho ancestral dos guaranis] – João Barcellos. Ed Edicon / São Paulo, 2003.


Bandeira de Araรงariguama


O brasão, que também dá suporte à bandeira, segue os padrões institucionais contendo as datas fundamentais da localidade, a imagem do araçá, o morro d´Ibituruna de onde se extraiu ouro, o bandeirante e o jesuíta de odisseias diferenciadas mas presentes na região, culminando com a referência ao ouro e ao aço, que foram e são base da economia minerária.

Hino de Araçariguama Letra: Gaspar Baptista Lopes & Almir Coelho da Silva c/ participação de Carlos Aymar. Música: Carlinhos Macedo.

Despontando no interior paulista surge um nome que engrandece o Brasil Araçariguama cresce à nossa vista resplandece em meio a tantas outras mil esperança que renasce a cada dia com os olhos num futuro promissor pra tornar nossa cidade fonte de felicidade com trabalho, dedicação e amor Araçariguama, nosso coração sempre em nosso peito, é pura paixão de gente honesta, de respeito e de valor Araçariguama é tão bela como a flor Araçariguama, o portal do interior Cidade jovem com um futuro tão brilhante com um passado de história e tradição o teu verde é um verde cativante o teu povo é de fé e união princesinha da ´castelo´ é nossa terra cidade d´ouro nosso prazer de morar povo alegre e ordeiro tão feliz e hospitaleiro


Araçariguama sempre vou te amar Araçariguama, nosso coração sempre em nosso peito, é pura paixão de gente honesta, de respeito e de valor Araçariguama é tão bela como a flor Araçariguama, o portal do interior

[bis]

Hino de Araçariguama foi instituído por Lei Municipal [nº266] em 20 de Abril de 2001.

Legislativo & Executivo de Araçariguama

Câmara Municipal Legislaturas & Vereadores Eleitos

1ª Legislatura / 1993-1996 Ana Aparecida de Castro Marchiori, Ana Aparecida Martins Soares. Antônio Carlos Nunes, Francisco Martins Pereira, Ignácio Egydio Martins, João Antônio da Silva, João Aparecido Félix, João Pereira de Oliveira, Márcio dos Santos Reino, Mauro Bonifácio, Orlando José de Moraes, Oswaldo de Deus Correia. 2ª Legislatura / 1997-2000 Ana Aparecida de Castro Marchiori, Gilberto Brandão Fonseca, José Aparecido Félix, José Donizeti de Araújo, Leandro Amaro de Andrade, Márcio dos Santos Reino, Mauro Bonifácio, Missias dos Reis da Silva, Rodrigo de Almeida Souza. 3ª Legislatura / 2001-2004


Cláudio Antônio Martins, José Aparecido Félix, José Donizeti de Araújo, Leandro Amaro de Andrade, Liliana Medeiros de Almeida Aymar Bechara, Mauro Bonifácio, Milton Costa, Moisés Ligeiro de Souza, Moacyr de Godoy Neto, Orlando José de Moraes, Oswaldo de Deus Correia, Rodrigo de Almeida Souza. 4ª Legislatura / 2005-2008 Cláudio Antônio Martins, Franciscano Rodrigues de Sousa, Genivaldo Vidal dos Santos, José Donizeti de Araújo, Leandro Amaro da Costa, Liliana Medeiros de Almeida Aymat Bechara, Mauro Bonifácio, Missias dos Reis da Silva, Moisés Ligeiro de Souza, Oswaldo de Deus Correia, Rodrigo de Almeida Souza.

5ª Legislatura / 2009-2012 Lilli Aymar, Leandro [Leandro Amaro Andrade], Carlos do Santa Elba, Milton Borracheiro, Tio Mauro [Mauro Bonifácio], Moisés Maguila, Altair da Vidraçaria [Altair Fernandes de Oliveira], Nina, Claudio Adriani. 6ª Legislatura / 2013-2016 Leandro [Leandro Amaro Andrade], Paulo Henrique Sanches Volcov, Rodrigo [Veterinário] de Almeida Sousa, Tatu [José Aparecido Félix], Tio Mauro [Mauro Bonifácio], Alemão [Nadivan Ferreira Maia], Milton [borracheiro] da Costa, Altair da Vidraçaria [Altair Fernandes de Oliveira], Costa do Gás [José Fernandes da Costa], Tubaina [Genivaldo Vidal dos Santos], Moacyr Godoy Neto. 7ª Legislatura / 2017-2020 Fran [Franciscano Rodrigues da Silva], Baixinho [Edmilson Antônio da Silva], Jaime da Auto Escola [Jaime Rodrigues Moirinho], Paulo Henrique Sanches Volcov, Judivan [Judivan Severino de Figueirêdo], Tubaina [Genivaldo Vidal dos Santos], Fábio Aymar [Fábio Bianchi Bechara], Costa do Gás [José Fernandes da Costa], Bahia Cabeleireiro [Ademário Jesus Mendes], Moacyr Godoy Neto, Tilápia [Raimundo Aparecido Lopes Rocha].

Prefeitura Municipal Prefeitos Eleitos

1992-1996 Prefeito: Severino Alves Filho [Paraíba] Vice-prefeito: Belarmino Alves Pinto [Belo] 1997-2000 Prefeito: Moysés de Andrade Vice-prefeito: João Ferreira de Carvalho Sobrinho [Borg] 2000-2004 / 2004-2008 Prefeito: Carlos Aymar Srur Bechara Vice-prefeito: Paulo Ribas 2009-2012 Prefeito: Roque Normélio Hoffmann Vice-prefeito: Franciscano Rodrigues de Sousa


2013-2016 Prefeito: Roque Normélio Hoffmann Vice-prefeito: Franciscano Rodrigues de Sousa 2017-2020 Prefeito: Prefeita: Lili Aymar [Liliana Medeiros de Almeida Aymar Bechara] Vice-Prefeito: Joca [João Batista Damy Corrêa Junior]

Via do Ouro Teatro em 1 Ato de Epopéia Colonial & Minerária

Vida & Obra de Affonso Sardinha - o Velho


Por

João Barcellos

Tema, Personagens & Cenário. Na manhã ensolarada de 4 DE DEZEMBRO DE 1605, o vereador paulistano, minerador e desbravador sertanista AFFONSO SARDINHA está no arraial mineiro do Morro do Byturuna, onde acaba de inaugurar a CAPELA DE SANTA BÁRBARA. No ato, que é religioso e é colonial, torna-se FUNDADOR DO POVOADO DO RIO DOS ARASSARYS NO BYTURUNA. Depois das minerações em Guaru, Cubatão, Ybiraçoiaba e Pico do Jaraguá, AFFONSO SARDINHA - O VELHO conclui, no Byturuna, o ciclo colonial da VIA DO OURO nos sertões da Capitania de São Vicente, a oeste da Villa de São Paulo dos Campos de Piratininga. Frente à boca da mina d´encosta do Byturuna, e com a grande cruz de madeira e a capela de Sta Bárbara sob o olhar, AFFONSO SARDINHA, dito ´o Velho´, conversa com o seu escravo PÉS LARGOS e mostra como se fez PODEROSO & CAPITÃO DAS GENTES DE SÃO PAULO enquanto desbravava a primeira VIA DO OURO da colônia portuguesa chamada BRASIL. Algumas vezes a CONVERSA é interrompida pela IRMÃ do desbravador, que vive no Rio de Janeiro, mas que o acompanha sempre em pensamentos.


A peça tem como CENÁRIO a cópia de um desenho do poeta J. C. MACEDO, feito em Lisboa [Portugal, 1975], projetando a Cruz, a Capela e a Boca da Mina.

PARTE 1 AFFONSO SARDINHA – O VELHO

AFFONSO SARDINHA [Descalço, calças e camisa largas. Chapéu preto de abas largas e caídas. Sentado numa pedra.] A falar alto com os seus botões: Esta gente gosta é de festa. Fazem da capela nova um terreiro de festas a misturar coisas da África, de Portugal e das gentes desta América. Se bem que lá, em Portugal, tudo o que é religião vira festa, também! E hoje, até que estas gentes podem festejar: é Dia de Santa Bárbara, e neste dia abrimos Capela para ela, que é a padroeira dos militares e dos mineiros... É, que pulem, que cantem, que amanhã têm que tirar da mina d´ouro o sustento de todos nós! É..., façam festa, façam festa... Levanta a cabeça e chama: – Vem aqui, ó Pés Largos!

PÉS LARGOS [Descalço. Veste calças amarradas com pedaço de tecido. Na cabeça, outro pedaço de pano protege-o do sol.] – Chamou, sô patão?! Que mim podê fazê, patão?

AFFONSO SARDINHA – Vem acá, ó Pés Largos. Deixa essa gente na festa. Vamos conversar um pouco.

PÉS LARGOS – Ma num é bão deixá a xente só na festa, patão. O sô, meu patão, ocê sabe que nêgo se esfega com xente da terra sempe que pode se esfegá! Já morreu tês nêgos e dous ôtros, num sabe... desde que nóis enfiamos eles pra tirá a pedra que brilha lá da boca do Byturuna!

AFFONSO SARDINHA – Ora, ora, ó Pés Largos. Hoje, como sempre, Santa Bárbara olha por nós e por essa gente. [Ele está com uma botelha de barro de onde bebe, em pequenos goles.]


– Como hoje é dia de festa para a nossa Santa Bárbara, toma, bebe um pouco de mate.

PÉS LARGOS – Ih, patão, mim num podê bebê erva mate. Os pade num deixa nóis bebê erva mate. Os pade falá que erva mate de nóis guarani do piabiyu é erva do táaaaall demônio, do cousa ruuiimmm que num gosta de vê nóis na terra do sem-mal!

AFONSO SARDINHA [Ele ergue a botelha.] – Meu velho e leal Pés Largos. Aqui, quem pode mandar-te para os quintos do demônio sou eu. Eu, o teu patrão. Nenhum padre tem o poder que eu tenho de matar ou deixar viver. Quem manda aqui é o dono das terras, e esse dono sou eu, raios! [Passa a botelha para o escravo.] E agora, bebe uns goles d´erva mate...

PÉS LARGOS – Ma, sô Affonso, meu patão, os pade num deixam mim nem intá na capela, lá na Piratinin, porque mim sê guarani, e os pade sabê que guarani bebe erva mate.

AFFONSO SARDINHA [Ajeita o chapéu, acomoda-se melhor na pedra, e eleva a voz.] – Raios! Olha aqui, Pés Largos, toma logo a erva mate que é uma oferenda do teu patrão Affonso Sardinha, neste dia de festa para Santa Bárbara..., ou ainda te mando embarcar para Angola, e lá... vais ficar para os negros saberem o que é um americano guarani!

PÉS LARGOS [Ele senta-se imediatamente junto de AFFONSO SARDINHA.] – Ai, meu patão, mim num vai deixá ocê aqui sozinho! Si, si, mim vai bebê erva mate, e Pés Largos tem muito gosto em bebê! [Olha para os lados, fixa a capela nova, e bebe.] Desde que nóis fomo lá a Jaraguá que Pés Largos num bebe erva mate, que faz bem e leva a tomá muiê na aldêa...

AFFONSO SARDINHA – Ah, ah, ah, aaiiiiii, ó Pés Largos, tu a mim não enganas, não. Eu sei que andas enfiado em algumas nêgas, por aí. E como tu não és nenhum mancebo, eu sei que bebes erva mate às escondidas. Ora essa, eu também bebo para não perder a força e continuar a dar a esta gente da terra o sangue português.


Os dois olham para o terreiro entre a cruz de madeira e a capela, quando as cantorias e os gritos de “Viva!” enchem o ambiente. E logo retomam o diálogo.

PÉS LARGOS – Sô Affonso, mim sabê que mandou fabicá esta capela de Santa Bárbra pra se protegê melhó que o Affonsinho, que se foi lá no sertão, no outro ano. [Ao ouvir a menção à morte de Affonso Sardinha - o Moço, o Velho tira o chapéu e escuta o resto meio pensativo.] – É, dói muito perdê um filho. Os tupinambá tomaram minha filha e mim nunca mais ver ela, num sabe! Ora, mim escutá a floresta e os rios pra escutá ela, minha filha. E ora, sô Affonso, ocê escutá Santa Bárbra aqui, no Byturuna, e ela vai falá pra ocê do Affonsinho, como a floresta e os rios falá da minha filha pra eu!

AFFONSO SARDINHA [Dá voltas ao chapéu, porfia a barba, e coloca-o na cabeça.] – É, dói muito perder um filho, ó Pés Largos. Mas, o que me doeu mais (e eu sei muito bem que tu o tinhas como se fora teu filho, também, o que eu só tenho a agradecer...), é, o que me doeu mais foi ele ter feito um testamento de sertão, antes de morrer, a dizer que tudo o que eu tenho era dele! O patife!... Pois, já falei com a minha mulher Maria Gonçalves, sabes..., e tudo o que nós temos vai para os jesuítas de São Paulo dos Campos de Piratinin. Tudo. O que eu e ela deixamos em vida para Affonsinho foi uma fortuna. Ele não poderia ter feito o que fez com aquele testamento de sertão... Uma ingratidão. Uma ingratidão!

PÉS LARGOS [Dá a botelha com a erva mate para o patrão.] – E intão, sô Affonso, mim achá que foi uma boa idéia fabicá esta capela de Santa Barbra, que ela vai protegê ocê, aqui, e Affonsinho, lá. Ai..., e toma a erva mate, toma, que vai fazê bem...

AFFONSO SARDINHA [Pega a botelha e fixa-a por instantes.] – Lá de São Vicente e de Santos até aqui, tu sabes, ó Pés Largos, foi uma vida muito rude. Eu não merecia essa ingratidão, não merecia! [Ele continua com o olhar fixado na botelha.] Às vezes eu ouço a minha irmã, que está lá no Rio, e os seus conselhos são como água benta para os meus males...


IRMÃ [Aparece em cena vestida com um manto branco e capuz.] – Ai, meu irmão. Fugimos da terrível Inquisição e embarcamos para fazermos um império nesta América, e tu és um imperador nesses sertões além da Serra do Mar, e quando os navios comandados pelo meu filho (e teu sobrinho) Gregório cruzam os mares, entre Angola e Santos, eles levam e trazem o progresso que o teu Poder alcançou para a Coroa portuguesa, mas também para o nosso Povo. E enquanto o tráfico de escravos é moeda de troca e o oiro desses sertões do Vale d´Anhamby, e os comércios do Piabiyu para Buenos Ayres, são rendas que nos ajudam a bancar os interesses da própria Coroa, maior é a certeza de que esta América é o nosso novo chão – o chão que já levou o meu sobrinho mameluco. O chão que Santa Bárbara protege e os jesuítas desbravam. E nós, meu querido irmão [ela mostra uma ampulheta do tempo], nós fazemos o tempo do Império acá, com os bens e os males que em Portugal há e que de lá embarcamos! Assim como entrou em cena, a IRMÃ some. PÉS LARGOS – Onde estais, sô Affonso? AFFONSO SARDINHA [Deixa de fixar a botelha e bebe um gole.] – Ah, sempre ouço a minha irmã quando o coração me aperta a alma. A sabedoria da mulher deve ser sempre escutada.

PÉS LARGOS – E nóis, guarani, nóis escuta a muiê, porque a muiê faz a vida e a muiê sabe todos caminho do bem. Ma, patão, ocês num gostá muito de muiê, não. Num trazê muiê lá do outro lado do mar...

AFFONSO SARDINHA – Aaaiii, ah, ah,ah... Que é que é isso, ó Pés Largos, estás a querer montar portuguesa?!... Ai, meu velho companheiro, nos primeiros tempos foi difícil trazer a mulher portuguesa acá, mas quando ela veio, ah!, quando ela veio ajudou a organizar a nossa vida. Quando eu vou para o sertão, como ora, que estou aqui no Byturuna, eu faço um testamento e um inventário que fica com a minha Maria, e eu sei que ela vai cumprir o que registei com o tabelião.

PÉS LARGOS [O escravo coça a cabeça.] – E a Poty? Sim, a guarani mãe do Affonsinho?


AFFONSO SARDINHA [O velho fixa o seu escravo e passa a botelha para ele.] – A minha Poty, que está lá na Koty, além da minha fazenda da Carapocuyba, é uma mulher maravilhosa. Sempre que posso, e tu sabes disso, vou visitar a minha Poty. É ela que me manda a erva mate que recebe lá do Prata. Queria estar mais com ela, mas a vida de vereador na Casa do Conselho lá de Piratinin obriga-me a manter distância. Eu sou um Senhor, e ela é, apesar de tudo e de me ter dado o Affonsinho, ela é uma Escrava! E eu tenho uma mulher por Lei, a minha Maria. O que vale em nossa sociedade, a nossa tribo, é a Lei que escrevemos, ó Pés Largos.

PARTE 2 UMA VIA DO OURO NO OESTE DA VILLA PIRATININ ENTRE A SERRA DO MAR E O BYTURUNA

PÉS LARGOS – É, o leilão... Aquela festa que ocês fazê nas mina? AFFONSO SARDINHA [Rindo.] – Ai, ai, ai... Não é festa, meu velho, é reunião para decidir quem paga mais para ficar com a mina. Isso é um leilão!

PÉS LARGOS – Tá bão, patão. E ocê manda nóis enfiar na boca das mina e tirá as pedra de sol e taaaaall de ferro, ma a riqueza num é de ocê, é do taaaaall rei do outro lado do mar?!

AFFONSO SARDINHA [Abre as mãos num gesto largo.] – Isso mesmo, Pés Largos. É assim: quando os tupis ou os guaranis indicam a existência de ouro em algum lugar, nós vamos lá verificar, e se é, damos notícia à Capitania que regista e manda os oficiais fazerem o leilão, porque a Coroa não explora as minas, ou seja, ela deixa que pessoas como eu, o Clemente Álvares (que ora é meu sócio), e outros, façam a compra da mina achada pagando as taxas devidas ao rei de Portugal. De tudo o que apuramos, em ouro, ferro e prata, mandamos um quinto (que é uma parte) para Portugal.

PÉS LARGOS – O taall quinto dos inferno??!!...


AFFONSO SARDINHA – Oh, raios me partam se entendo este gajo! Ó, meu velho, o quinto dos infernos é outra coisa, é só maneira de falar. Os quintos de que eu ora falo é o pagamento. Tiramos uma parte da produção de pedras de sol e essa parte é o pagamento que mandamos para o rei!

PÉS LARGOS [Depois do susto, o escravo interrompe de novo. Quer saber mais.] – Ma, nun foi así lá no Guarú, nim no Cubatão!

AFFONSO SARDINHA – É verdade. Muito boa a tua observação. É que naquele tempo a Capitania estava em organização, e na verdade, até o Caminho do padre Anchieta ainda nem estava concluído, quando eu soube do ouro no Cubatão e depois no Guarú, e aí eu fui fazer a mineração por conta e risco, como tu sabes. Agora, como nesta mina do Byturuna, que o capitão-mor Belchior Carneiro registou, eu comprei o direito de mineração em leilão oficial da Capitania, e assim mandei fazer arraial de mineiros e lavoura para sustento, e ora, acá temos capela de Santa Bárbara que dá início a um povoado, e também já temos os capitães que fazem a fiscalização das minas.

PÉS LARGOS – E lá no Jaraguá e no Cubatão, ah, e tamém no Guarú, ocê num fazê fábica de capela. Só acá no Byturuna e na Carapocuyba, patão...

AFFONSO SARDINHA [Bebe mais um gole de erva mate.] – Sim, é verdade...

Retorna à cena a IRMÃ, como que a reforçar o pensamento do irmão todo-poderoso.

IRMÃ – Nós somos a América, meu irmão querido. Nós somos a América. E tu, tu és o Senhor dos oiros e das terras. E das gentes da terra. Mas é bom que atrás da tua cruz de três hastes, na qual escondes a menorah, esteja uma mão aberta para as confrarias católicas e mais para os jesuítas, que nos protegem e sabem que terão mais de nós.


[Ela abre uma mão e mostra um pequeno sino, que faz badalar.] E a bela e sofrida Santa Bárbara é a tua protetora nesta América católica, meu irmão, por isso, na mina do Byturuna, a que mais oiro te dá, é ela que tens de celebrar e fazer celebrar. Tudo o resto, meu irmão, é lavoura e pouco oiro, à parte, sim, à parte a mineração do ferro que nos dá ferramentas!

Ela sai de cena numa meia volta com a capa esvoaçando.

AFFONSO CONTINUA: – ... É verdade. A minha irmã tinha razão quando me dizia que na mina d´ouro do Byturuna só Santa Bárbara poderia ser celebrada. Ainda agora ouvia ela no meu pensamento, com a sua voz de veludo, linda. A imagem de Santa Bárbara acompanhame desde que pus a mão na primeira pepita d´ouro no Cubatão. Lembras do capelão... o padre!, aquele que estava conosco? Ao ver as pedrinhas reluzirem como o sol berrou por Santa Bárbara... e foi faiscar ouro, também! É, e sabes?, ele voltou com algum ouro para Portugal, mas não fabricou capela alguma, agora é dono de navios. E já cruzou em Angola com o meu sobrinho Gregório... Quem diria, ó Santa Bárbara! E imagina se ele tivesse ficado com a gente, ó Pés Largos. Acá, no fim da Via do Ouro... que é o Byturuna, apesar que a tua gente fala de mais pedras do sol além de Araratiguaba!

PÉS LARGOS – Iso, patão. Pra lá dos paranás que se vai de canoas na aldêa Araratiguaba. [Pensando um pouco, fixa o patrão.] E intão, sô Affonso, só fabicá capela quando tem pedra do sol?!

AFFONSO SARDINHA [Ele dá um risada.] – Sim e não, meu velho. Olha: nós fizemos arraial acá, e então temos muita gente que é cristã, logo, devemos seguir a Lei e dar uma capela para essa gente poder celebrar a sua religião. E olha, os protestantes rezam por aí, em cavernas, como fazem também os judeus mais radicais. É... cada pessoa com a sua religião! E como temos mineiros, e sendo Santa Bárbara a protetora dos mineiros, a capela é dela. Em outros arraiais, como lá nas minas de ferro, fabricamos capela para a Senhora de Monte Serrat, em outros, para a Senhora da Conceição, e outras santas e santos. Lá no Jaraguá e lá no Ybitátá fabricamos capela dentro da Casa, então, é capela para a família do Senhor das terras e das gentes. E acá, ó Pés Largos, tenho a certeza que o arraial da mina ainda vai crescer. Olha como a família do Clemente Álvares vai a tomar tudo. Ele é um bom sócio e acho que vou passar a mina, a capela e o arraial para ele no próximo ano. É tempo de ficar mais na Vila e estar mais perto dos vereadores. Depois do meu tempo de Capitão de


Gentes de Guerra da Vila de São Paulo dos Campos de Piratinin que eu não descanso. E agora, que o meu Affonsinho é morto, o melhor é voltar a organizar a minha vida na Vila e no Jaraguá.

PÉS LARGOS – E é, lá no Senhor do Vale. Lá mim podê vê tudo. Jaraguá é iso: quem subi o pico e tomá terra é Jaraguá! E ocê, meu patão, ocê sê o único Jaraguá branco acá!

AFFONSO SARDINHA – Sim, mas para ser o Senhor do Vale eu tive que quebrar a resistência dos outros povos, os vizinhos (ou, como tu o dizes: os goayanazes, e outros). Dez anos de lutas. Ufa... Foi o Pico do Jaraguá que mais tempo tomou de mim...

Entra em cena a IRMÃ. Agita uma espada como que a abrir espaço para buscar o futuro.

IRMÃ – Olha, meu irmão, nós viemos acá para fazermos desta terra a nossa terra, e não será esta gente selvagem, que ainda se come uma à outra e come os nossos, como fizeram com o bispo Sardinha, que nada era a nós..., ora, não será esta gente selvagem que vai nos impedir de fazer deste Brasil um outro Portugal! Fizeste de ti um Jaraguá, porque Senhor já o eras. E o tempo, mais uma vez, deu-te razão e vitória. Vencer os selvagens e dar-lhes outra visão do Mundo é uma missão tão nobre quanto essa tua odisséia de desbravar os sertões da Villa Piratinin a minerar oiros e ferros e pratas. Sim, há sangue, como há escravatura, mas... se nós não formos em frente, vai correr o nosso sangue e nós seremos os escravos! Desde os teus tempos de Santos e Santo Amaro, e depois Guarú, só tiveste um período de calmaria, mas depois de ganhares o cargo de Capitão das Gentes de Guerra, na Câmara e na Capitania, só sei de ti a galgares sertões e assentares novos povoados nas aldeias conquistadas nas bocas das minas d´oiro, como essas de Jaraguá e de Byturuna. E em verdade digo-te, meu irmão: estás vivo até hoje pela guarda de Santa Bárbara. Fica ora entre o Jaraguá e o Ybitátá, pita um fumo na conversa com a Maria e o Pés Largos, a par de mais uma partida de vereador, e pronto, pois que já és Senhor há muito tempo e há muito tempo és História viva desta colônia, que quer ser mais do que colônia de Portugal... Ela agita a espada, guarda-a entre o manto e deixa a cena.

AFFONSO SARDINHA


– Eu sei, ó Pés Largos, eu sei que tu nunca me abandonarás, assim como eu não te abandonei nos meus testamentos. E onde quer que eu vá, depois de deixarmos a mina, a capela e o arraial do Byturuna para o Clemente Álvares, ah!, e até dei uma das forjas do Ybiraçoiaba para o governador Souza aumentar a produção de ferro em Sant´Amaro do Byrapoera..., pois, ó Pés Largos, eu quero que estejas comigo.

PÉS LARGOS – Sô Affonso, o sô é tão fiel como mim sê fiel a ocê! Ai..., e como mim foi fiel a Affonsinho...

AFFONSO SARDINHA – Mas ele não foi fiel a mim nem a ti! E aquele testamento dele no sertão foi um golpe do padre que estava com ele, ai..., isso eu sei, porque sozinho o Affonsinho não tinha como pensar sequer num testamento!

PÉS LARGOS [Abre os braços, depois pega na botelha e bebe mais uns goles de erva mate.] – O melhó, ora, sô Affonso, o melhó é esquecer Affonsinho. Ma, mim achá que Affonsinho enganou o pade com a história das botelhas cheias de pedra do sol escondidas mim num sabê onde... E mim achá que o pade procura inté ora! É, mim sabe que dói muito. Dói. Ma é como a minha filha: não está acá! E olhe, olhe como a xente do arraial brinca, canta e baila... Xente nossa, contente.

AFfONSO SARDINHA [Olhando o povo, ele sorri.] – É bom ver essa gente contente. É gente que trabalha com muito esforço, eu sei, mas agora tem trabalho e tem lavoura neste arraial de Santa Bárbara, nesta lonjura chamada Byturuna que era só uma mísera aldeia no sertão. E o trabalho não vai acabar tão cedo, que a mina tem muito ouro; e depois, ó Pés Largos, depois, mesmo que o ouro se acabe têm a lavoura e têm o algodão, que o algodão já é um bom negócio. É como lá na Carapocuyba... os teus só sabiam de peixe e de raízes, depois que fiz a fazenda de lavoura e pasto, ora sabem o que é vinho e carne assada... que não a deles, claro!!!..., e sabem o que é tanger e ferrar gado. E acá vai ser o mesmo. Pena que o Affonsinho não está acá para dar continuidade a isto tudo... O sangue mameluco levou-o para os abismos da guerra da afirmação na própria terra, e pronto, acabou-se na terra que o viu nascer. Mas tenho a certeza que o arraial do Byturuna ainda será maior, e que outros grandes senhores virão acá, amanhã e depois!

PARTE 3 AFFONSO SARDINHA (O VELHO): HOMEM & LENDA.


PÉS LARGOS – Inté o grande Senhô lá da Capitania respeita ocê, sô Affonso, meu patão. E nun querê os outros que o sô vá pra Câmara outra vez? Intão, iso é bão pra ocê, patão. Inté parece que ocê num existe, patão. Verdá. Verdá. Os nêgos falá de ocê como... como eles falá?... como Deus. É, que ocê é tão de poder que nem o taaaaall Deus. E é verdá, sô Affonso, tamos vêios. Tão vêios que nem sabê mais de horas nem de luas. E ocê num precisá de ir mais nas mina, não, é só falá de ocê que as xentes fica de orelha em pé!

AFFONSO SARDINHA Ó raios! Ó, Pés Largos, eu sou homem, não sou o capeta. Tenho que usar a força? Tenho! Mas é assim: ou eu faço cadáveres ou escravos, ou eles me fazem cadáver ou caldo! Não existe escolha. Tive a sorte de não virar nem uma nem outra coisa. Porque cadáver e caldo é a mesma coisa: nada. E é por isso que deves estar contente: não és cadáver nem és escravo, mas uma pessoa da minha família, que a minha Maria Gonçalves preza muito a tua presença, também. Eu sou casado com ela há 60 anos e conheço-te há mais tempo...

PÉS LARGOS – Estamos no sertão ou na vila há muitas e muitas luas, sô Affonso. Mim achá inté que as xentes vê ocê em qualqué lugar. Ah, é o isprito de Affonso Sardinha! É o isprito do patão que mata e esfola quem nun tá com ele!

AFONSO SARDINHA [Tira o chapéu e roda-o nas mãos.] – É, parece que o meu espírito anda por aí a assustar as gentes. Era o que me faltava ouvir!

De novo em cena, a IRMÃ entra com um pequeno pandeiro e faz-se ouvir.

IRMÃ – Já o velho Gil Vicente dizia que o Brasil é um castigo bom para os judeus, e nós, meu irmão, nós provamos que é uma redenção para os desbravadores. [Toca o pandeiro] Mesmo nas profundezas do esquecimento o Mundo que fala português vai ouvir falar muito de Affonso Sardinha, o Grande Senhor dos sertões e minas dos campos de Piratinin.


[Toca o pandeiro] Em verdade vos digo, gentes de Portugal e do Brasil, é Affonso Sardinha o homem que fez a Via do Ouro, ora uma lenda viva da nossa história abençoada pela Santa Bárbara acá, no Byturuna!

ELA toca o pandeiro. AFFONSO SARDINHA e PÉS LARGOS juntam-se a ELA e saúdam:

– –

Que vivam as pedras do sol! Que viva o Byturuna deste Brasil que brilha para o Mundo!

FIM Ibituruna/Araçariguama São Paulo – Brasil, 2007.

Araçariguama - do Ouro ao Aço  

inclui o anexo: Affonso Sardinha (o Velho) na Base Cronológica da Conquista D´Oeste Paulista da Via do Ouro