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CENTRO DE ESTUDOS DO HUMANISMO CRÍTICO Portugal & América Latina

Grupo de Debates NOÉTICA

A PALAVRA QUE NOS É ROTA Ou: a filosofia que se faz caminhando na história da vida!

Palavras Essenciais Volume 14 / 2017


Índice Expansão Ultramarina / João Barcellos Idade Cabocla / Painel Noética Apecatu: O Bom Caminho / Pedro Fabiano A Mulher No Quatrocentos Português / Céline Abdullah Arte Gráfica. Cinema / Carlota M. Moreyra Questões Acadêmicas & Ousadias / Mary O´Connor Keynes e o Keinesianismo / Manuel Reis Economia Liberal Piabiyuana Sob Um Olhar Keynesiano / Tereza Nuñez Palestras Acerca Da Jaguamimbaba / João Barcellos Villa de Barcellos & Eu [do Rio Cávado ao Rio Negro] / J. C. Macedo O Fado: Dança & Canção / Mário G. de Castro Feijó: Alma Mater Brasileira / Mariana d´Almeida y Piñon Sebastianismo / Tereza Nuñez & João Barcellos Acutia, Caucaia, Itapema & Ibituruna / João Barcellos Paranapiacaba _ Da Tapioca Ao Café / Pedro Fabiano

Obs.: 1) alguns textos conservam a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico por decisão de quem os escreveu. 2) Imagens dos autores e imagens ponçadas da web.


Expansão Ultramarina

- A filosofia pedro-joanina de Avis e o escravo como moeda de troca no reinado da Casa bragantina - As minas d´ouro e prata e o Outro Portugal

João Barcellos

Parte Primeira Observada a pujança aurífera da colônia já ao tempo de Cosme Fernandes (o Bacharel de Cananeia, no largo espaço do lagamar de Ilha Comprida), quando homens seus e guaranis fizeram cata d´ouro no Vale do Ribeira subindo a Serra da Paranapiacaba, a mesma serrania começou a ser tomada por fogos e pequenos arraiais – e, logo, na outra banda, ao largo de Gohayó e do Porto das Naus, subindo pelo Cubatão, os portugueses dão continuidade à mesma odisseia até chegarem ao planalto de Piratininga e adentrarem a Serra da Jaguamimbaba sob a atalaia dos nativos do Jaraguá... Os dois momentos são o primeiro passo da expansão ultramarina portuguesa serr´acima e, nele, a perspectiva de um Outro Portugal, aquel´Outro que não pôde ser ´feito´ na costa africana devido à forte organização tribal...

1 Na chegada da armada de Martin Afonso de Souza e também de Braz Cubas é que Portugal inicia o segundo passo: derrota os castelhanos e o Bacharel na Guerra d´Iguape, instala a primeira Casa de Vereança sob os auspícios republicanos e recolhe


as informações acerca das preciosidades da terra que, na narrativa nativa, não passam de pedras que brilham e nada acrescentam à [sua] vivência florestal e ribeirinha. Vive-se, então, os anos 30 do Séc. 16 sob a régia autoridade da Casa de Bragança, que continua o espírito manuelino de colonizar para ´engordar´ o poder da fidalguia e do clero católico. Mas, por que falar da Casa bragantina? Ora, é a fidalguia latifundiária dos brangatinos que, no reinado de Manuel I, retoma as rédeas do Trono português e esmaga o ciclo de políticas públicas do período pedrojoanino. O que é o período pedro-joanino? Quando o rei João inaugura, no Séc. 15, a Dinastia de Avis, abre espaço para políticas republicanas, de tal sorte que o filho Duarte vem logo a ser um rei intelectual e, a seu lado, o infante Pedro percorre o mesmo caminho, toma a Europa como seu quintal de aprendizado e, em Veneza, conhece o fra Mauro, um religioso da Ordo Sancti Benedicti Camaldulensis e especialista em astrologia e cartografia, então a terminar um mapamúndi já com indicações das viagens oceânicas dos chineses nos anos 20 desse mesmo século. O infante Pedro, duque de Coimbra, vem a ser empossado como regente na minoridade do príncipe Afonso e, e seu nome, celebra as Ordenações Afonsinas; em meio a tudo isso, Pedro incrementa estudos e contratações para ampliar a presença naval portuguesa na costa da África. Paralelamente, o irmão Henrique tem uma participação reinol mais (desastrosa e) cavaleirosa e vive dos ganhos das transações mercantis como chefe da Ordem (templária) dos Cavaleiros de Cristo, aliada dos bragantinos. Toda a expansão além-mar de então passa pelo crivo de Pedro e ação decorre mais no modo científico e mercantil, ainda sem uma perspectiva de colonização. Entretanto, é nessa regência que os portugueses apreendem algo diferente entre as tribos africanas: o escravo como moeda de troca. Uma moeda que começa a ser jogada nas feitorias do Golfo Guineense de onde, mais tarde, sairia Cosme Fernandes, bacharel de Salamanca, para ser (e por decisão própria) o marco humano do ponto sul da Linha de Tordesilhas. Morto na batalha d´Alfarrobeira pela fidalguia latifundiária bragantina, Pedro deixa para o neto e rei João II a incumbência de lançar Portugal na rota da Índia segundo um plano traçado tendo o mapa de fra Mauro como fonte primária, e é o que João II faz finalizando a ´obra´ no Tratado de Tordesilhas; mas, também João II é morto por envenenamento e a Casa de Bragança reencontra o poder através de um desprezível Manuel I, o gastador e fiel extremista católico, vassalo pleno do papado romano que se derrete de alegria diante dos genocídios praticados por Vaso da Gama contra os ´infiéis´ orientais. Por este quadro é que denomino aquela época republicana como Período PedroJoanino... 2 O espírito manuelino faz Portugal retroceder socialmente e impõe a Sancta Inquizição como senha para os povos; centenas de cientistas, intelectuais e artistas abandonam Portugal e outros são desterrados entre degredados; a fidalguia acompanha o clero estupidamente atrasado e que ainda percorre as ruas de Lisboa e Porto instigando as gentes a não se lavarem para não perderem a alma (...?!). E então, as gentes desterradas (expulsas) e degredadas (aprisionadas) que chegam ao Brasil são na maioria gente de bem e judeus ibéricos, logo, e temos Cosme Fernandes e Affonso Sardinha (o Velho) como exemplos, os primeiros 60 anos da ocupação (ainda não a colonização) do litoral brasileiro são uma ocupação judaica e judaizante que promove o


empreendedorismo e a vivência economicamente liberal tendo portugueses alinhados nesse querer um ´outro´ Portugal. Por causa desse alinhamento socioeconômico é que as gentes vicentinas [Capitania de S. Vicente instalada na velha Gohayó e no Porto das Naus] e já as mamelucas – as gentes mamelucas são a geração brasileira nascida nos assentamentos de Cosme Fernandes e de João Ramalho, no litoral e no planalto da serra do mar] se acham livres para viver o que são e onde estão, longe dos quereres reinóis; e assim é que nos anos 80 desse século surge o ser-estar paulista de olhar republicano e que torce o nariz para os reinóis, mesmo que a concordar com a administração, ela mesma a permitir um liberalismo raro, pois, sem tal espírito a paupérrima situação das gentes vicentinas seria bem pior. Com o fervor empreendedor de Braz Cubas e de Affonso Sardinha (o Velho), que têm o apoio tácito, político e mercantil, do capitão Jerônymo Leitão, as gentes do planalto piratiningo percebem que há, sim, espaço para um ´outro´ Portugal. 3 É a época em que se torna claro que não haverá assentamento colonial forte o suficiente sem mão-de-obra escrava: cabe ao político, militar, minerador e capitalista Affonso Sardinha (o Velho) adquirir um navio e entregá-lo ao sobrinho Gregório para buscar negros entre as tribos de N´Gola (Angola) que já faziam o tráfico entre elas: o primeiro navio negreiro com peças de N´Gola é o do ´velho´ Sardinha. No desembarque no cais da Villa de Santos cada ´peça´ tem um valor (retiradas as taxas devidas à Capitania e à Igreja) repassado pelos mercadores. Assim, os portugueses ultramarinos aprendem que o escravo negro é a mais valorizada moeda de troca que ´engrandece´ o poder dos soba-reis das tribos africanas. A história deve ler lida à luz da sua época e percebida em suas características sociopolíticas, ou não se terá um painel fiel aos acontecimentos. A história dos portugueses de serr´acima, pelas serras de Paranapiacaba e Cubatão no encontro com a Jaguamimbaba, é uma história de odisseias entre ódios e amores, mas, principalmente, a história do empreendedorismo que fez da Sam Paolo dos Campi de Piratininga o eixo do Brasil.

Parte Segunda 4 Adentrando os ´certõens, mattos & minas´ ao longo do Piabiyu guarani, depois de alcançado o Pico do Jaraguá e de se minerar ouro no Byturuna e ferro no Ybiraçoiaba, aquel´outro Portugal – e não se pode esquecer que os germânicos Hans Staden cartografou a costa como inimigo capturado por nativos e Ulrich Schmidel percorreu o Piabiyu, de Asunción e Buenos Ayres até Sam Paolo dos Campi de Piratininga, em meio a tal odisseia portuguesa –, eis que o Século 16 é um espectro sociopolítico e econômico de diversa ambientação que gera gente rica e gente pobre (ou: os homens bons e a arraia-miúda). As gentes que principalmente embarcaram nos cais do norte de Portugal carreiam o sentimento que se tem como “nada poderá ser pior”, mas, sempre pode ser pior... Dessa existência paupérrima emerge um misticismo cantado na ´terrinha´ em trovas do sapateiro Bandarra (Gonçalo Anes, de Trancoso): isto é maior do que nós, e se estamos à espera do rei Sebastião, tudo o que fazemos é uma oração para se fazer o quinto


império e nele nos banharmos em alegria. Sim, as gentes lusas acreditam que no meio do obscurantismo reinol que deu o Trono aos espanhóis existe um espaço de fé sebastianista que levará à redenção de Portugal, tal e qual um fado/destino alquimicamente assegurado. 5 Embarcados nesse projeto alquímico que é a quint´essência imperial portuguesa além-mar, personagens como o capitão Jerônimo Leitão proporcionam aos ´homens bons´ do ´novo mundo´ latifúndios sesmeiros que permitem demonstrar a possibilidade messiânica do ´quinto império´. Entretanto, é a Societas Jesu quem melhor se apropria desse messianismo e desencadeia, a partir da Sam Paolo dos Campi de Piratininga, um projeto de império teocrático com apoio financeiro de ´homens bons´ como Affonso Sardinha (o Velho); os padres jesuítas chefiados por Manoel da Nóbrega adentram mais de uma dezena de aldeias nativas ao redor do planalto e tomam-nas para formar um anel de proteção ao Colégio-Igreja piratiningo, e principalmente para não perderem a água que da Jaguamimbaba lhes mata a sede. Obviamente, o projeto não agrada ao Papado da cristandade e logo nas primeiras ações de expansão pelos ´certõens´ os jesuítas são um dos alvos do colono português abastado. Assim é que entre a agropecuária e a mineração, as capitanias vicentina e paulista formam o esteio de um Brasil que já é nação na perspectiva do ser-estar brasileiro incorporado pela gente mameluca, caiçara e cafuza. Perde-se então o sentido ultramarino da expansão em torno de ´outro´ Portugal para se atender à demanda sociopolítica de uma nação que emerge do bojo caraveleiro – demanda logo sentida com a ação do Bacharel na formação de Gohayó e do Porto das Naus... /// Uma anotação bibliográfica final: a leitura de livros como “A Maldição da Memória do Infante Dom Pedro e as Origens dos Descobrimentos Portugueses”, de Alfredo Pinheiro Marques, “Os Descobrimentos Portugueses”, de Jaime Cortesão, “História Verdadeira De Uma Viagem Curiosa...”, de Ulrich Schmidel, e “História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América, Desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas Terras de Hessen até os Dois Últimos Anos, Visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a Conheceu por Experiência Própria e agora a Traz a Público com essa Impressão”, de Hans Staden, entre outros, é uma obrigação para se entender Portugal e o Brasil.


IDADE CABOCLA Gente Mameluca, Caiçara & Cafuza Ou: o outro Portugal ultramarino.

[Do monumento aos bandeirantes ´o nascimento do caboclo´, Sant´Anna de Parnaíba]

PAINEL NOÉTICA Johanne Liffey, J. C. Macedo, Céline Abdullah, João Barcellos e Fê Marques


De um encontro de temas no Grupo de Debates Noética celebrando o Brasil caboclo Coordenação: Profª Fê Marques _ Cotia/SP-Br., 2017

O instante em que se escuta “Gente é gente, e pronto!”, soa como um grito de libertação a puxar uma antropologia de naturalíssima essência humana, e mesmo a não admitir quaisquer aporias, ou seja, o que é, é!, e pronto. E vem isto a propósito da “...generosa confusão de gentes e crenças que forma a continental nação brasileira” [Macedo, 1985]. Por ser um painel de falas e de comportamentos diversos sob a ´capa´ da Língua portuguesa, “o Brasil é um quase padrão de aldeias pacificadas pelo ideal ultramarino português, conceito abençoado pela cristandade, e esta, a abrigar o gentio com um sincretismo doloroso, mas objetivo, necessário” [idem]. “Captar o som e a imagem da pluralidade racial é buscar o alicerce social da comunidade nacional, uma vez que não existe raça pura a partir dos primeiros conflitos geo-sociais que promoveram o conceito de hierarquia e posse” [Paioli, Ab´Sáber e Barcellos, 1992], como se sabe pela antropologia investigativa. “É pela História que toda a Vida humana começa e é experienciada: a nossa origem, lendas, mitos, tradições (fundadas ou não…), as próprias ciências, que, mediante as tecnologias nos levam a modificar os processos, os meios e os instrumentos com os quais actuamos. Por isso, a História é assaz importante… e quem a ignora ou despreza, ou conhece apenas pela rama, superficialmente, acaba por ser suicidado, por culpa própria” [Reis, 2016]. Esta lição é o suficiente para se refletir seriamente acerca do ´outro´ Portugal ultramarino e a diversidade de gentes por ele criada. Para onde quer que se olhe no Brasil surgem pessoas negras, mulatas, brancas, mestiças, a começar por esta – a gente mameluca, geradora da gente brasileira ao tempo de João Ramalho e de Cosme Fernandes (o Bacharel)... e não se sabe se naquele ano de 1342 o capitão Sancho Brandão deixou ´sementes´ além do Ryo Siará...; depois, a mameluca e a nativa com a gente negra gerou a caiçara, e logo a cafuza, da mistura entre nativos e africanos. Ora, e eis o Brasil multirracial. Estas misturas raciais são também identificadas em geral pela designação de caboclo. Assim, estamos diante de uma complexa sociedade cujos pilares étnicos se originaram na escravidão de nativos tupis, guaranis, e africanos, mas somente a gente portuguesa teve acesso ao poder de administrar essa base para depois ser vencida no processo político que, inexoravelmente, levaria à liberdade cabocla, embora se adivinhasse o processo em curso já no pico da colonização. Da linha de ação vivencial da gente caiçara no lagamar até à da gente mameluca nas linhas serrana e planaltina, a gente portuguesa transformou a exótica “ilha de brasil” em um paraíso escravocrata que resistiu por três séculos [Séc.16 ao Séc.19] às demandas étnicas por liberdade própria, mesmo percebendo-se que a colônia tinha só como fronteira uma cerca de galhos d´árvore – aliás, de onde vem a designação ´caiçara´: ´ka´aysara´ (do tupi) – e nessa precariedade tenha sobrevivido e ainda levantado uma nação sem o querer.


A importância destas etnias, nascidas na fogueira do cunhadismo [troca de favores por sexo, entre colonos brancos e chefes tribais guaranis e tupis] e da tomada sexual [o assentamento e a expansão do sangue vencedor no ventre das mulheres das comunidades vencidas], verifica-se na ascensão política que acontece no Séc. 18 e no pico da riqueza diamantina, quando o caboclo vai estudar em Paris e Coimbra e retorna bacharel com um olhar diferenciado dos avós e dos pais: ´Sou caboclo, sim, mas esta terra é minha e dela farei nação!´, escutou-se então, amiúde e ao pé d´orelha. O que foram etnias de ascensão ultramarina para a gente portuguesa, é para a gente brasileira o esteio sociocultural da Nação que se intui e se faz realidade no desejo de liberdade, apesar da omissão política da segunda geração, já que a primeira teve de batalhar para sobreviver na precariedade social do assentamento colonial. E, pode-se dizer, “[...] nunca tanto o cidadão anónimo se viu afastado e repelido” na “confusão universal de Pessoas e Coisas” [Reis, 1993]. Ora, “a existência de uma classe que nada possui senão a capacidade de trabalho é uma condição prévia necessária ao capital” [idem] ou, nesse caso, ao “assentamento colonial de uma nação que se expande e quer trabalho d´outrém e quer mulheres nativas para melhor se instalar e dominar” [Barcellos, 2013]. Desde que os mongóis cercaram e dominaram a ´rota da seda´ chinesa, ação que pode ser considerada a mãe de todas as guerras e do colonialismo, “a política do poder dominante nunca se distancia da tomada sexual” [Liffey & Marques, 2016] necessária à expansão miscigenada ou geração do outro lado dessa dominação. A gente mameluca tem, sim, importância fundamental quando vista como um dos pilares, primeiro, do ´outro´ Portugal d´além-mar, ou ultramarino, segundo, raça nova a serviço de quem a gerou... Aqui, urge lembrar que “o termo árabe ´mamluk´/ ´mamalik´ (singular e plural) se traduz criado(s) ou escravo(s), e que este tipo de raça foi lançada como criadagem doméstica e até como massa para linha de guerra pelos abássidas de Bagdad e pelos otomanos/curdos, e se foram escravos também foram senhores como aconteceu no Egito. Assim, entre a África e América (neste caso a ´portuguesa´) temos a ´gente mameluca´, como gosta de dizer João Barcellos, e adotamos o termo, definida como pilar civilizacional” [Abdullah, 2016]. Estamos, pois, longe do branqueamento histórico feito por Freyre [1933] – e, felizmente, um fracassado branqueamento literário e político, porque as pessoas são o que são na sua raiz sociocultural, como nos diz também Holanda [1936] e o relemos em Prado Júnior [1945], assim como em Barcellos [2017] e em Reis [1993]. Por outro lado, o tempo messiânico/sebastianista que rondou a lusofonia entre os Sécs. 16 e 20 ajudou a fundamentar teses, como a freyriana, para levar a pensar, no todo, que [...] um universalismo português-cristão deveria surgir d´além-mar de entre as raças geradas para levantar essa bandeira ´contra os canhões´ de infiéis..., como se a antropologia pudesse ignorar a questão socioeconômica de quem faz/gera a riqueza. Já, no mesmo campo, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva ´puxaram´ o tema para um cais lógico a embarcar o culto ao Saber e contra a Ignorância” [Barcellos, 2016], mesmo sem deixarem de remar na maré da licença poética e filosófica. Neste ambiente geossocial e político pode-se dizer que existe uma idade cabocla a determinar o ser-estar da gente brasileira porque entre a miscigenação social e o sincretismo místico das gentes ´embarcadas´ na expansão ultramarina portuguesa forjou-se uma identidade plural: identidade que não ´branqueou´ por completo as comunidades e ainda possibilitou o diálogo, que permite a atual colcha de retalhos socioculturais dito Brasil.


Notas & Bibliografia Obs.1 / Conservamos a ortografia original portuguesa e contra o acordo ortográfico por opção dos autores. Obs.2 / Acerca da expressão ‘caboclo’ o investigador Câmara Cascudo diz que é ‘caboco’ e nada tem a ver com ‘kari´boca’ [filho e homem branco], mas, Almeida Navarro, um aplicado estudioso do Tupi, afirma e comprova que ‘kuribka’ designa ‘filho de índio com negra africana, e que num segundo momento histórico passou a designar ‘filho de nativa e português’. Na verdade, a afirmação categórica e irrefutável de Navarro ajusta-se à historiografia geral da colonização e é a mais aceitável. Obs.3 / Nas coletâneas PALAVRAS ESSENCIAIS e DEBATES PARALELOS, o CEHC (Centro de Estudos do Humanismo Crítico / Portugal) e o Grupo de Debates Noética (Brasil), e ao longo de 12 volumes cada, vêm expressando notória preocupação com a falta de interesse generalizado com a formação racial, logo, sociocultural, do Brasil. Ignorar este assunto é ignorar a Nação como um todo. Obs.4 / Na primavera tropical brasileira de 1992, a redação do jornal ‘Treze Listras’, na cidade de Cotia, na Grande São Paulo, recebeu o historiador João Barcellos e o geólogo e cientista Aziz Ab’Sáber para uma conversa com coordenação do jornalista Waldemar Paioli. Foi um dos seis encontros registrados por Barcellos e cujos conteúdos são base de muitas observações geossociais e filosóficas tratadas pelo próprio Barcellos em seus livro e palestras. Obs.5 / cada vez mais torna-se necessário um ponto de vista de humanismo crítico na apreciação dos fundamentos pedagógicos que chegam às novas gerações por meios didáticos que não alcançam a raiz histórica. //// AS MÁSCARAS DE DEUS _ Manuel Reis. Estante Editora / Portugal, 1993. A EMANCIPAÇÃO MAMELUCA _ João Barcellos. Ensaio/Palestra. Rio de Janeiro, Paraty e Fortaleza, 2013. CASA GRANDE E SENZALA _ Gilberto Freyre. Brasil, 1933. GENTE MAMELUCA _ Céline Abdullah. Ensaio. Moçambique, 2016. HISTÓRIA ECONÔMICA DO BRASIL _ Caio Prado Júnior. Brasil, 1945. MENS@GENS POLÍTICAS & FILOSÓFICAS _ João Barcellos. Ed Edicon + CEHC & G. D. Noética, 2016. NÃO EXISTE RAÇA PURA _ Waldemar Paioli, Aziz Ab´Sáber e João Barcellos. Das “Conversas na Redação do jornal Tezes Listras” - Cotia/SP, 1992. NOVA HUMANIDADE, NOVA SOCIEDADE _ Manuel Reis. Ensaio filosófico. Ed Edicon _ Grupo de Debates Noética (Brasil) + Centro de Estudos do Humanismo Crítico (Portugal), 2016. Obs.: aproveitamos aqui parte do discurso do autor na apresentação do livro [São Paulo, Br., 2016]. PÁO VERMELHO, BRASIL _ João Barcellos. Ed Edicon + CEHC & G. D. Noética, 2017. PODER POLÍTICO & SEXO _ Johanne Liffey & Fê Marques. Ensaio/Palestra, 2016. RAIZES DO BRASIL _ Sérgio Buarque de Holanda. Ed José Olympio. Brasil, 1936. UMA NAÇÃO LUSO-AMERICANA _ J. C. Macedo. Artigo. Lisboa/Pt, 1985.


APECATU: O BOM CAMINHO OU, A JORNADA DE JOÃO RAMALHO DE SANTO ANDRÉ DA BORDA DO CAMPO PARA MOGI DE BRAZ CUBAS

Pedro Fabiano

Já se ouvia algumas aves gorjearem, mas apenas a luz da lua prateava as copas das ibirás da caetê de então (hoje resumida a uma ínfima fração denominada Mata Atlântica), quando o Ramalhudo rumava decidido pelas trilhas impressas por pés gentios, que traçaram os caminhos pelas Bordas dos Campos de Serra Acima. Mascando o fumo enrolado há poucas semanas pelas mãos das cunhãs da Villa de Santo André, Ramalho cismava como os acontecimentos recentes mudaram o rumo de sua vida na Terra dos Papagaios, na qual aportara a sua revelia há mais de 70 anos... eram muitas as pedrinhas acumuladas em suas porungas à guisa de calendário... mas João Belbode Maldonado, o Ramalhudo de Vouzela – retirado de sua então Catarina às vésperas de dar a luz ao primeiro rebento do jovem casal lusitano – seguia no alto de sua vivência avançada. O Alcaide já sem seu povo, pois sua gente havia tempo na Villa de Piratininga. Já sem sua Potira, que jazia sob o manacá florido, batizada que fora de Izabel pelos jesuítas, ao menos mantiveram o sentido de flor que seu nome – muitas vezes erroneamente grafado como Bartira – significava e se justificava pela beleza que o havia encantado dias após de seu degredo, lá pelos anos de 1490.


Os mesmos jesuítas que, atendendo aos achaques de Mem de Sá, terceiro governador geral da nação em gestação, um fidalgo descendente de influentes da Casa Real, de família estabelecida em Barcelos, o excomungaram por amancebar-se, como se nestas paragens isto fosse um crime e não uma cultura herdada dos nativos. Mas pelas capoeiras do vasto Paranapiacaba, mantinha-se o antigo Guarda-Mor de todas estas terras, em seu apecatu, o bom caminho que o levaria à gleba do patrício Braz Cubas, estabelecido e respeitado em sua próspera fazenda em Mogi das Cruzes. O sol já despontava esfumando as brumas que engendravam por entre a verdíssima mata. Ramalho caminhava com o neto Sebastião, fiel companhia de suas derradeiras jornadas. Sebastião, mameluco como diziam então, seria a segunda geração de kuribokas (termo mais tarde destorcido para caboclo) pioneiros no Novo Mundo, mal sabia que esta história seria escrita em tortuosas linhas, estabelecendo fatos e datas ao sabor dos interesses diversos. Mas ia pari passu com o avô que há pouco na villa de São Paulo de Piratininga havia lavrado seu testamento, comprovando seu valor quando o povo de lá clamou a Ramalho que fosse o seu vereador, mas este declinou, já sem fé. Mogi (Moji) terra com topônimo dado pelos nativos por serpentear como no senso do termo “rio das cobras”, sendo esta região o berço do Tietê, o “rio verdadeiro” em bom Tupy, seria o túmulo de Ramalho em sua solidão por não acatar as exigências dos tardios chegados, em seus caprichos; na fiúza de uma ordem que não condizia com os costumes da terra.

O Alcaide-Mor de Santo André da Borda do Campo, que tanto ajudara os recémchegados com seu domínio da língua Tupy, seu prestígio junto aos nativos, seu conhecimento da região hostil aos novatos. O então Guarda-Mor dos Campos de Piratininga, título recebido do reinol Martim Afonso de Sousa, que oficializou seu povoado, foi incansável em sua missão de proteger os patrícios que vinham aos borbotões a cata do material na Terra dos Papagaios, sem, no entanto, desprezar sua nova gente, bronzeados pelo sol da terra ora penhorada. Em sua mente, qual um vento leve, passavam os fatos que há tantas pedrinhas se desvelaram pela sua existência longa e significativa. Num derradeiro devaneio sob o céu azul de sua querência, lembrou-se das linhas rabiscadas por bacharel: TUPY Madrugada clara – Mairarê Lua linda no céu – Airequecê Espalha luz na mata – Caeté E beija a flor d’água – Irupê


E o sol nascendo – Guaraciema Tinge tudo de amarelo – Ajubá Alegrando a garça branca – Acará Elevando ao deus do amor – Rudá E o menino correndo – Curumim Espantando a ave d’árvore – Acamim Para saborear o manjar – Aipim Procurando no céu o deus – Jacamim E tudo sossega na oca – Castelo Se sentindo um abaeté – Senhor Admirando o poraraba – Belo Na certeza do seu perudá – Amor

Pedro Fabiano é Andreense e tem consciência da importância que as Terras de Ramalho tiveram e têm na formação do Povo da Terra Brasilis. Há muito busca com avidez os cascalhos que a história espalhou pelos trechos das Bordas dos Campos de Piratininga. Nascido em Santo André, debutou em ofícios nas Escolas de Roberto Simonsen em São Bernardo do Campo e Brás na São Paulo de Piratininga. Graduou-se em Braz Cubas, Mogi das Cruzes. Lecionou em São Caetano do Sul (a então Tijucuçu colonial). Prestou consultorias em Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e Mauá. Pintou telas de Paranapiacaba (em Tupy: Lugar de onde se vê o mar – língua inteligente que reúne uma locução complexa numa palavra única) e do Colégio Clerical de Mogi. Assim, a vida alinhava os retalhos, caprichosa chuleia as expectativas, melhora as bordas, caseia para prender melhor as partes, enfim deixa aglutinar as cousas... generosa, permite coser os fatos e lugares, vestindo a indumentária da História.


A Mulher No Quatrocentos Português

Céline Abdullah

Escrevo estas linhas, que espero ´bem traçadas´, depois de ler o cântico poético de J. C. Macedo dedicado ao rei João II e sua amada Ana de Mendonça. Já tinha lido o livro A Maldição do Infante Dom Pedro, do incansável pesquisador e notável professor Alfredo Pinheiro Marques. E voltei a ele ao ler Uma Pomba Entre Águias & Gaivotas... Na capacidade literária que J. C. Macedo tem de reduzir quase tudo ao mínimo de palavras, posso dizer que ele enquadrou aquele mundo feminino do Quatrocentos no perigoso romance entre o príncipe-rei João II e a nobre Ana, e, ao fazê-lo, nomeou a Mulher portuguesa – essa identificação que João Barcellos tanto aprecia na escrita de Gil Vicente, no ensaio que lhe dedicou no livro Teatro – 3 peças de 1 ato, publicado no Brasil em 2003. E isso, apesar de Gil ser um homem de mão mais da rainha do que do rei, tanto que o seu anti-semitismo (e apesar da Inquisição) chocava com a política moderada e republicana de João II, e foi muito bem vista e aceita por Manuel I, um político de ambições unicamente feudais e católico-inquisitoriais com as quais haveria de quase destruir aquele Portugal imaginado pelo infante Pedro e construído pelo seu neto e rei João II. Não é fácil dar identidade à Mulher quando se abrem os livros de História em qualquer parte do mundo. O citado professor Alfredo Pinheiro Marques o faz magnificamente na sua obra em torno da “saga pedro-joanina” (aplicando, aqui, um termo que J. C. Macedo vem utilizando para a época em questão), e até no facto de nos fazer perceber “quão importante foi a decisão do infante Henrique em não se casar – fosse ou não fosse homossexual... – e adoptar o infante Fernando, irmão do rei Afonso V, depois que deixou morrer o seu irmão mais novo Fernando na praça de Tanger, assim como viria a estar presente no assassinato do seu irmão mais velho, o infante e regente Pedro; ou seja, aquele obscuro senhor feudal viveu unicamente para ser o que foi e ainda roubar a vida dos seus irmãos, além de lhe terem dado, na época manuelina, o ´direito´ póstumo de ´alma dos Descobrimentos´, como que mais uma pá de hipocrisia nas tumbas de Pedro


e de João. Ora, que Mulher gostaria de viver com um homem, assim mesmo, com ´h´, que vivia da morte dos seus próximos? Tudo indica que a actividade henriquina o foi somente para a possibilidade de ser rei com apoio da poderosíssima Ordem templária de Cristo. Ou não...?!”, isto, na interpretação de João Barcellos, numa das suas palestras sobre ´O Sexo No Poder Colonial´ e já à luz da Obra do professor Alfredo Pinheiro Marques. Pois, muito bem... A nobre Leonor, prometida a João II logo no seu nascimento, para segurança consanguínea das linhagens no Poder, seria de facto a rainha, mas já no tempo do infante-regente Pedro não foram as nobres da primeira linha a enfrentarem as sombras políticas do Poder, e sim, aquelas que haviam percebido a importância de uma sociedade moderada e progressista, tanto que foi no seio dessa ousadia feminina que o príncipe João encontro o amor. Leia-se o encanto da poética que se segue...

Uma Pomba Entre Águias & Gaivotas J. C. Macedo Uma balada para rei Dom João II & Ana de Mendonça

I o príncipe que o era mais pelo avô dito o da benfeitoria e morto na guerra civil em alfarrobeira cresceu na materna memória d´alfarrobeira para vingar aquele homem morto pois sabia que era o que era pelo avô o das sete partidas entre as mulheres que da batalha e da queda choraram foi o príncipe educado e pela filha de uma delas se fez homem a gerar amor e ali estava “o homem” a ser tão odiado e tão respeitado pela fidalga inimiga e rainha de castela e o era pelas sete partidas andava o rei mui ocupado por terra de savana africana e nem os inimigos da bragantina casa deram conta as mulheres que haviam estado na regência davam conta do príncipe que na coimbrã casa dava apoio aos aflitos d´alfarrobeira fieis daquele que os respeitava como gente da terra o das sete partidas o das sete partidas que não interrompeu o ciclo feudal do rei queria a res publica no respeito à humanidade e foi só regente quando como águia e gaivota poderia em acção


nova ter dado rumos outros à usurpada nação na sua balança a harmonia deveria ser a base para a nova idade e sem ela ninguém poderia fazer-se perfeito rei

II nos casórios arranjados ia a definhar portugal se em espanha nada para portugal e se em portugal d´atalaia ficava a espanha que o trono do inimigo era coisa boa de se tomar e entre tais absurdas e tradicionais coisas da coroa o príncipe se fez cavaleiro e tomou mulher mas amor era alfaia que não conhecia tradições mas era do desejo foral tentação para outras sete partidas não tinha o príncipe o vasto saber do notável e viajado avô apeado n´alfarrobeira mas era já águia que sabia da gaivota o comércio e a ciência de navegar e como nem poderia se ele um alfenim logo fez-se ao mundo dos prazeres com uma pomba em real jardim porque o comércio do casório e dos feudos poderia deixá-lo tão néscio quanto aquele falso navegador que era seu tio-avô e ele preferia o das sete partidas e ele era já e também o das sete partidas ganhara da pomba querida as graças d´amor e viveu essa alegria em filho guerreiro que se não poderia ser um dia um perfeito rei seria alguém muito querido de portugal aquela pomba viera d´águias e gaivotas alegrar a alma do príncipe real e nessa harmonia herdada do avô d´alfarrobeira ele fez-se lei pois se tinha o rei a alegria d´amor e paz também o povo a teria

Obs: 1-

2-

Esta poesia, de que só estavam escritos os poemas 4 e 5, datados de 1982, e rabiscados no verso de dois velhos bilhetes de autocarro da linha Guimarães-Porto, foi terminada em 2004, à luz do livro “A Maldição Da Memória Do Infante Dom Pedro E As Origens Dos Descobrimentos Portugueses”, Figueira da Foz / Pt, 1994-95, a cujo autor, professor Alfredo Pinheiro Marques, o dedico. Escrever sobre o Infante Dom Pedro e sobre o rei Dom João II é uma odisséia sem fim, e a cada dia o Povo Português sabe mais um pouco dessa família real que ousou enfrentar o ultramontano conceito feudal de ´nação sem povo´. Resgatar a memória dos notáveis Dom Pedro e Dom João II é acto que deve ser de toda a Nação Portuguesa,

Transcrevo também as duas observações de rodapé pela importância que têm no esclarecimento da motivação que levou o Autor a terminar o poema muitos anos depois. Já no estudo As “Memórias Gloriosas” e o Inglório Esquecimento: Na(rra)ção e Canonização nos Lusíadas, de Camões, e no Sepúlveda, de Corte-Real, do professor Hélio J. S. Alves [in Palavras Essenciais, 1ª e 2ª Edições, Brasil, 2003; Ed Edicon c/ CEHC & GG] , que mereceu uma leitura muito esclarecedora do filósofo Manuel Reis, assim como o fez em relação aos estudos de Alfredo Pinheiro Marques, percebe-se que a Mulher quer, finalmente, dizer quem e o que foi, tanto na era quatrocentista como na quinhentista, pois que, como diria a professora Christina Ramalho, existe sim A Presença das Mulheres Nas Epopéias De Autoria Masculina [e-book, terranovacomunic.com.br / 2004], e se era facto na dramaturgia vicentina, mais facto é


agora com os estudos citados e que dão a Mulher como fonte e como foco da Política e da Sociedade portuguesas. E não apenas as de Aljubarrota e do Minho, não, também aquelas que seguraram o leme da Nação enquanto os seus homens, entre as pescas e as expedições marítimas pedro-joaninas, davam a Portugal um lugar no Mundo. Ao ler o poema de J. C. Macedo emocionei-me. Canta-se o Portugal das estórias, e até já se canta a crónica de Mendes Pinto pela veracidade nela deixada, mas ainda é raro cantar a História das sombras posicionadas pela Política. Mais raro, ainda, é cantar o Ódio que uniu – e como une, sempre – jovens que se descobriram amarrados societariamente a um trono, e nele, ou por ele, a uma Mulher, a um Homem, e porque não puderam ser o que deveriam ser, buscaram entre outras pessoas o Amor. Foi o Amor que uniu João e Ana, e foi o Ódio, que já levara Pedro, e que levaria precocemente João II o maior estadista da Europa quatrocentista – aquele a quem a luso-castelhana e dita católica Izabel chamava ´el Hombre´! Uma Pomba Entre Águias & Gaivotas é um hino de louvor à saga de Pedro, o infanteregente das ´7 partidas´, continuada em João, o neto e ´príncipe perfeito´. Mas, também, uma leitura que nos remete à profundidade da História para nunca esquecermos que a Mulher é parte e, muitas vezes, o ponto de equilíbrio. ABDULLAH, Céline / Profª e Bioquímica. Moçambique


Arte Gráfica. Cinema.

Carlota Maria Moreyra

“Não é preciso ir além de um estúdio para se definir Cinema: é uma Arte Gráfica, porque Registo de Imagens e Sons sobre um substrato... Daí, Cinematografia...” MACEDO, J. C. – in ´Cinema é Arte Multi-Funcional´, Palestra; encontro de cineclubes, Lisboa/Pt, 1979; ´informe digital´, internet, 2001.

A idéia de um filme sugere, quase sempre, um registro gráfico, porque é o olhar e é o pensamento humano que estabelecem, primeiro, o conceito áudio-visual, segundo, é sobre esse cenário idealizado que se rascunha o cenário físico, ou se dá forma gráfica para um roteiro fílmico. O meu conhecimento sobre Cinematografia vem da minha curiosidade sobre o jeitinho artesão de preparar os desenhos para um pequeno filme comercial de Desenho Animado. Enquanto cursei Artes Gráficas sempre encontrei em mim, em dados momentos, aquela curiosidade cinéfila, e por causa dela fiz um estágio, no Rio de Janeiro: entrei em um Estúdio de Desenho Animado. E querem saber? Foi muito importante para a minha formação de profissional gráfica ter aprendido a Arte de Criar Cinema Animado, porque a Cinematografia interage com todas as outras Artes e Ciências, já que aplica, ou adapta, todas as Tecnologias para um melhor aproveitamento visual e sonoro em todos os segmentos da sua produção industrial. Um dia disseram-me: “Lê a definição gráfica de Cinema que está na internet”. E eu li. E acho que o poeta português J. C. Macedo tem toda a razão ao definir, enquanto


cineclubista, o Cinema como Arte Gráfica. Ao conhecer o poeta-cinéfilo, mais tarde, ganhei uma visão cultural bem mais ampla sobre Cinematografia. E, retornando (não, não é assim...). E ´voltando à vaca fria´, como ele dizia, a Arte Gráfica é tão importante no Cinema que já é difícil não encontrar desenvolvimentos gráficos na filmografia atual, até por que já se utiliza mais câmera digital na tomada de cenas, além de um sem número de segmentos gráfico-eletrônicos para a construção de efeitos especiais. Por exemplo, o Cinema Animado atual já pôs de lado a velha roupagem tipo disneylândia e incorpora uma filmografia cheia de tecnologia; e nem dá para comparar ´Branca de Neve...´ com ´Garfield´ ou ´Shrek, embora ´Procurando Nemo´ já tenha alguma influência das novas tecnologias. Depois que as novas tecnologias assumiram os espaços de criação nos estúdios cinematográficos, vive-se uma certa nostalgia – que ainda não é ´museológica´, é bom dizer!... - em relação ao que era produzido até final do Séc. XX; e “o Séc. XXI está a provar a importância do Cine-Clube como associativismo cultural incentivador da Cinematografia, digital e/ou celulóica. As tecnologias agregadas pelos estúdios levam aos Cine-Clubes as novas gerações, e, com elas, eis que o Cine-clubismo renasce...”, diz o poeta-cinéfilo citado (in ´Uma Nova Geração Cine-Clubista´, artigo, revista ´En Vivo y Arte´, p.14, Barcelona/Esp., 2002). E concordo, sim. Lá pelos Anos 60 do século passado, ver algo tecnologicamente diferente, na área artística, era tão raro e bizarro (por isso mesmo), que “o diferente era heresia cultural” (idem). A disposição (e disponibilidade, a partir da escola) das novas gerações para a Cultura Tecnológica tem um sabor de conquista dos próprios pais, porque, parece que nascem teclando o computador e escrevendo novas cinematografias – e, não se pode esquecer: esta Cultura Tecnológica Aplicada Ao Cinema está criando empresários bem-sucedidos na faixa etária dos 21 anos, o que era inconcebível há 15 anos atrás! Perguntaram-me se têm bagagem cultural para isso, e eu já respondi: podem não ter a cultura geral dos velhos cine-clubistas, e é difícil, mas eles são participantes da sua própria jornada de vida. Isso foi negado aos nossos pais, castrados política e religiosamente. Não que a juventude de hoje não o seja (talvez o seja mais...), mas as novas tecnologias dão-lhes um leque de opções que existem só na sua geração, tecnologias-conceitos que a Política e o Misticismo não podem combater... E a Cinematografia tem, é verdade, um amplo campo de influência no meio da geração digital. Verificar como é possível contornar o obstáculo da Ideologia-tecnológica, ou seja, da Tecnologia a serviço do Poder, é um alívio, mas é possível abrir mais caminhos e, mais uma vez, a Cinematografia digital cria novos conceitos com velocidade tal que o Poder gananciosamente religioso e consumista não pode acompanhar, porque o Poder não tem consigo a Juventude. É nisto que J. C. Macedo tem razão: “o Cine-Clube é (ainda) uma arma cultural do contra-Poder”. Liberdade. Quando a Arte Gráfica está presente percebe-se a Liberdade, percebe-se a Resistência, social e cultural, às escravaturas de todas as artimanhas, e quando essa Liberdade e essa Resistência passam para o esboço digital ou celulóico da Cinematografia elas chamam as novas gerações para mais uma nova caminhada no compasso da Cultura Tecnológica. Mas é preciso que as novas gerações tenham Consciência sócio-cultural... Sim, é. Mas, deixem as novas gerações buscar, primeiro, o seu espaço na Vida. Depois, oriente-se sem controlar, pois, é o controle que cria o desvio... O nosso viver um é Cinema Animado, é só deixá-lo respirar, viver!

MOREYRA, Carlota Maria / Professora de Artes Gráficas.


Keynes e o Keinesianismo Brazil: Wake Up Sleeping Giant!

Manuel Reis

Painel Noética acerca do ensaio Keynes e o Keynesianismo do filósofo Manuel Reis Coordenação do Painel: Profª Fê Marques

A oportunidade de observação filosófica no âmbito do humanismo crítico que é a irresponsabilidade das elites políticas do Brasil e a demanda por humanitarismo diante de milhões de refugiados das guerras regionais, fez o filósofo Manuel Reis reencontrar John Maynard Keynes para nos mostrar que toda a crise tem uma saída... E assim, o Grupo de Debates Noética, ligado ao Centro de Estudos do Humanismo Crítico, resolveu promover um bate-papo socioeconômico para perceber o sentido keynesiano das palavras de Reis.


“Quando o poeta J. C. Macedo diz que o Brasil é uma república de tradição monárquica e por isso não colhe os frutos da sua independência enquanto nação livre, ele nos dá uma lição de história e, ao mesmo tempo, aponta uma solução – e digo: quando o Brasil se tornar uma república autêntica poderá ser, pelas riquezas naturais que possui, a nação mais poderosa entre as nações”, anota Mariana d´Almeida y Piñon. A verdade é que “...no núcleo migratório e colonial que formou o Brasil está a essência da mentalidade que move as elites absolutamente imperiais e corruptas, e é aqui, também, que reside o remédio: a cidadania brasileira terá que se rever politicamente para abrir a nova frente social e econômica no molde da democracia representativa, simplificando o Estado obeso e gastador, cortando desperdícios orçamentais com programas inócuos disfarçados de ong´s e grupos sociais que não passam de guerrilha política sustentada pelo erário público. A chamada crise brasileira lembra a crise judeopalestina e as dissidências teológicas entre muçulmanos: faça-se a guerra e espalhese o terror para que tudo fique na mesma. Ou, como dizia o príncipe Gatopardo, mudemos tudo para que tudo fique como está. E se do oriente médio temos como resultado imediato uma onda de refugiados a bater nas fronteiras europeias, no Brasil vive-se a demanda do Poder pelo Poder em que o ´comunismo de Lula e Dilma vira neocapitalista e corruptor´ e a oposição, sempre com o ´rei na barriga´, iça a ponte do castelo só para ver a queda...”, diz João Barcellos. No texto de Reis está Brazil: Wake Up Sleeping Giant! [Brasil: Acorda Gigante Adormecido!], a bandeira que a sociedade local nunca empunhou. Como dizia o nosso saudoso companheiro Carlos Firmino, “...o Brasil nunca se disse Brasil, agiu sempre como Brazil, ou seja, debaixo do mando das potências coloniais. Quando o presidente Jango foi visitar Kennedy, o norte-americano levou-o a visitar parte do armamento nuclear, e isso foi a senha para Jango escapar e permitir o golpe militar de 1964. Agora, com Lula e Dilma, o Brasil continua Brazil e o povo como escravo das políticas que fomentam somente o Poder enquanto Poder, logo (e lembro aqui o poeta J. C. Macedo), só o sistema bancário ganha, como nos tempos dos cavaleiros templários que inventaram o sistema e por ele foram sacrificados em prol do Vaticano e da Monarquia francesa e outras. Também, não podemos esquecer a lição de Barcellos: O que é hoje a União Europeia tem lastro na Liga Hanseática, assim, tudo é pensado e feito no espírito colonial que rouba a nacionalidade dos outros povos. Ou seja: o Brasil precisa adotar a sua própria nacionalidade”. A professora porteña Marta Novaes, acrescenta ao que eu disse citando Firmino: “Os americanos, com o aplauso da ONU (e até da fundação Nobel), permitiram que Kissinger devastasse o Vietnam e o Cambodja e ainda levasse o seu espírito letal para o Chile (leia-se 11 de Setembro de 1973, coisa que ninguém lembra...), o mesmo espírito de Kennedy em relação ao ´seu´ Brazil, catolicamente alinhadinho, e agora temos os mesmos EUA a defender Bashar al-Assad que, de Damasco, comanda mais um genocídio, enquanto a Líbia se desmorona entre facções tribais e, do outro lado, a Grécia, assim como Portugal e Espanha, barganham benesses para sobreviverem no contexto da Comunidade Europeia . Não sei se o espectro keynesiano que o notável Manuel Reis nos traz como possível saída para as crises atuais (guerras locais patrocinadas pelas politicas coloniais do eixo angloamericano, a grande emigração, a decadência ideológica da esquerda bolchevista, etc.) é uma saída que possa ser alavancada pela ONU, porque a ONU é tão responsável quanto o eixo anglo-americano. Já no campo econômico, concordando com Barcellos, revivemos a dinâmica das teses tayloristas (Frederick Taylor) pelas quais os trabalhadores serão sempre dentes de uma engrenagem dominada pela elite política”. Johanne Liffey lê um trecho do texto de Reis: A Economia política estruturada em 2 Planos ou mundividências substantivamente distintas: o dos Objectos ou Mercadorias, onde o Lucro pode reinar com legitimidade; o dos Sujeitos Humanos, enquanto


Indivíduos-Pessoas livres e responsáveis, onde o Lucro foi vetado. E diz: “Eis aqui a questão do tal espectro keynesiano: tanto Lula quanto Dilma, no Brasil, copiaram Vladimir Putin e a sua política populista e bolchevista e deu no que deu – o fracasso social e econômico. Não adianta estruturar campanhas sociais e esquecer o resto da nação, até por que para acordar gigantes adormecidos como a Rússia e o Brasil é preciso refundar o umbigo nacionalista em torno dos povos atuais, o que significa operar com liberdade e transparência nos campos político e econômico. Ou, e assim interpreto o filósofo Reis, a Nação se diz por si mesma a encarar o Mundo, e então resolve os seus problemas estruturais, ou continuará à mercê do querer transnacional das políticas coloniais”. “A defesa da economia de mercado não implica uma teoria de justiça social antiredistributiva”, lembra Mário G. de Castro, que continua: “Na verdade, Lula tentou reescrever o Estado Social interpretando Keynes, mas o fez buscando recursos na corrupção de empresas estatais (leia-se Petrobrás e o Caso Petrolão), no que Dilma Rousseff deu continuidade, como se não bastasse o recado das punições geradas no Mensalão, um ano antes, e não se faz revolução socioeconômica com corrupção”. Logo, João Barcellos anota: “A preocupação da Marta Novaes é a minha, em relação à ONU, e acredito que também a de Reis, porque, e já se dizia no Governo Kennedy, a ONU é o braço diplomático dos EUA. Diante da atual onda de refugiados sírios, líbios, iraquianos, etc., o que se verifica é uma onda paralela de corrupção letalmente criminosa e um espírito de limpeza étnica, como aconteceu na Guerra dos Balcãs (Bósnia e Kosovo) sob as barbas da ONU, mas também, hoje, a mesma hipocrisia diplomática verifica-se diante das ações do Boko Haram e do Estado Islâmico (este, dissidente da Al-Qaeda); isto tudo, porque a corrupção domina a política que contamina a diplomacia, local e mundialmente. E então, não é de estranhar que países dominados por elites de mente colonial, como o Brasil e a Rússia, os governos disfarcem a corrupção com programas sociais e grandes eventos esportivos, mas, a corrupção tem limites, porque os recursos roubados não têm retorno – e, como diz o ladrão d´esquina, aí a casa cai... Sim, é aqui que entra a solução keynesiana que Reis põe em pauta: tratar a Nação como um Todo social na perspectiva de rendas equilibradas e uma justiça social que admita os erros na busca da harmonia política e econômica, o que impediria a formação de grupos de terrorismo d´Estado como o que Lula e Dilma montaram no Brasil, e Putin montou na Rússia. A defesa da economia de mercado não é um desastre, pois, a humanidade evolui no contexto mercantil do escambo, e o escambo só não é terra de ninguém quando sujeito a regras claras entre as partes...”. Ao tocar no assunto terra de ninguém o Barcellos levou Marta Novaes a declarar: “Pode se até dizer que o ensaio Keynes e o Keynesianismo levanta a ponta da terra-deninguém, porque Keynes previa as consequências (e Reis também, em vários dos seus livros) da corrupção no trato das políticas públicas – a corrupção governamental que gera terrorismo d´Estado, é verdade, o terror nas mensagens de ´ou está comigo ou não terá emprego, não terá comida´, como faz Cristina Kirchner, na Argentina, fez Lula no Brasil, e Dilma continua a estratégia. É a ilusão do Poder enquanto altar político. A economia de mercado não gera corrupção, ela tem regras, o que gera corrupção é o ideal absolutista de estar Poder pelo Poder (lembro outra vez Barcellos) arrasando a economia de uma Nação e arrastando-a para a crise financeira e social. Este ensaio de Reis é uma oportunidade preciosa para se debater a questão, porque ela está em Portugal, na Grécia, no Brasil, na Síria, nos EUA, na Rússia, em todo o lugar onde a humanidade se manifeste”. /// Setembro de 2015


PREFÁCIO Foi através de escritos e sugestões orais de Membros ilustres do Grupo de Debates ‘Noética’ e da Editora EDICON, sediados na Grande São Paulo (Brasil), que chegámos à conclusão, em Julho de 2015, de que se impunha, Hoje, e cada vez mais no Futuro, a promoção e a recuperação do KEYNESIANISMO, em ordem à re-instauração de Sociedades Humanas dignas e justas (tão depressa quanto possível). Este movimento de ansiedade e de carências de toda a sorte, que se tornou diluviano, ao longo de uma ‘Great Depression’ muito mais dura e longa (desde 2007/8 até ao presente…) que a da 1ª metade do séc. XX, e que, agora, nos últimos três anos, se avolumou e compli-cou, com os caudais de Migrantes e Refugiados de guerra ou de estados falidos, a baterem à porta da Casa Europeia, em busca de algum acolhimento, ‒ esse movimento está atingindo o Grau do mais elementar e letal DESESPERO… Nada mais se resolve-rá, mediante a Guerra, a Violência e a Hegemonia a qualquer preço!... O Ocidente perdeu o próprio ‘direito’ à Guerra Justa! Ora, é neste contexto que o Keynesianismo pode apresentar-se (a partir das instâncias da O.N.U.) como a estrela polar a rebrilhar na Noite escura do Mundo, desafecto das tradicionais ideologias, que têm mascarado a Realidade societária da Espécie Humana. Ele poderia constituir o caminho certo e o advento necessário e indispensável para a construção do vero e autêntico Socialismo. O Brasil ‒ esse País continente! ‒ jovem vivaço, inteligente e amoroso, que se prepara para aceder à ‘maioridade’ kantiana, é, sintomaticamente, o 1º no acrónimo corrente dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Irá ele recusar a Bandeira (da Restauração das Sociedades humanas nacionais), enquanto País primeiro na fila/sigla dos Países emergentes?!... BRAZIL: WAKE UP, SLEEPING GIANT!...

John Maynard Keynes (1883-1946) OBRAS

Este economista de excelência e humanista crítico viveu a sua vida adulta e de uma maturidade exemplar, durante a 1ª metade do conturbado séc. XX, e quanto ele pôde aprender e assimilar sobre todos os problemas implicados nas experiências psicosociais e/ou humanas em torno dos Fenómenos básico-estruturais da Guerra e da Paz, nas Sociedades (ditas) humanas!... Homem adulto, laureado em Cambridge, assistiu, como tal, à 1ª e à 2ª Guerras Mundiais: censurou vigorosamente o Tratado de Versalhes, que pôs termo à Iª Guerra Mundial; assessorou, enquanto Conselheiro


prínceps, o Governo britânico, no período entre as duas Guerras, com particular relevo para o triénio da ‘Great Depression’ (1929-1932); e, nas oitavas da IIª Guerra Mundial, ele foi o Grande Inspirador e Conselheiro para a configuração do Plano Marshall, que veio a socorrer e a ajudar a erguerem-se os Estados/Nações ocidentais (e não só…), demolidos e arrasados pela hecatombe da IIª Guerra mundial. ‒‛The Economic Consequences of the Peace’ (1919). Aí, verbera Keynes, num estilo vigoroso, as disposições económicas, de cariz geométrico, do Tratado de Versailles. Entendia, essencialmente, o Autor que o Tratado havia sido baseado nas ‘contas aritméticas do merceeiro’, ‒ como nós diríamos, hoje, (numa época em que a Regra e a Medida são ditadas pela cartilha do Neoliberalismo globalizado), num tempo e atmosfera ideológica em que o vezo/vício da Modernidade ocidental vai para as bitolas extremadas da religião laica do Objectivo-Objectualismo. O Livro mencionado de Keynes tem a noção precisa, advinda de um ‘saber de experiência feito’, das diferenças abissais, em termos psico-sócio-humanos, entre o que é a Vida humana em Guerra e o que é a Vida humana em Paz. O Autor situa-se, portanto, num universo diametralmente oposto e substantivamente diferente ao de Clausewittz, condensado no axioma supra-referenciado do General Prussiano. ‒ ‘The General Theory of Employment, Interest and Money’ (1936). Esta Obra constitui uma Epítome criticista e uma vera revolução no Pensamento Económico clássico tradicional da Modernidade ocidental: em tal horizonte, substantivamente inovador, pode bem dizer-se, com justiça, desta Obra, que ela fundou e continua a fundar (enquanto não se descobrir, na Praxis societária, o que é o vero e autêntico Socialismo, como antítese resultante da superação dialéctico-histórica, do Capitalismo historicista e marcado pelo catecismo do Objectivo-Objectualismo), o que, levianamente, se tem chamado Keynesianismo, ‒ cuja doutrina e orientação devem ser assumidas, substantivamente, de modo adequado, num Processo sócio-histórico que se deseja criticista, ou seja, não estigmatizado pelas ideológicas canhestras do ‘eterno retorno’ da História, onde não há lugar para as veras Revoluções Sociais. Estamos a significar e a exigir, teoreticamente, no último segmento do nosso discurso neste §, que, no meio-ambiente ideológico-cultural, dos últimos 25 anos, marcados pela doutrina do Neoliberalismo capitalista em transe de globalização, o Keynesianismo autêntico, recuperado em moldes actualizados para as Sociedades hodiernas, será, certamente, na Praxis societária, a Solução Alternativa rumo a uma Mundialização verdadeiramente respeitadora dos Humanos e da Humanidade, e contra uma Globalização desumanizada, puramente tecnicista e materialista, destituída de qualquer Norte, em termos Psico-Sócio-Antropológicos, ‒ até porque, reconhecidamente incapaz de e-frentar com êxito a problemática das Alterações Climáticas, o que ela (a má Globalização…) está preparando é o Apocalipse das próprias Sociedades humanas, qua tais. Quanto ao Socialismo, devia já ser sabido que ‘o Convencional’… não passou de ‘Capitalismo monopolista de Estado’ (J.K. Galbraith dixit); e que as condições psico-sócio--históricas ainda não estão reunidas, em escala geral e universal, para a edificação do vero e autêntico Socialismo (construído a partir de Sujeitos Livres e Responsáveis, substantivamente desalienados). Na verdade, a Solução do vero e autêntico Socialismo requer a entrada em cena da gramática do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, contra o tradicional ‘Homo Sapiens tout court’. Ora isto só se dará, em termos histórico-culturais, mediante a Educação e a Formação Humanas, através de Sistemas educativos substantivos, balizados e orientados pelo novo padrão evolucionário antropológico.


‒ ‘A Tracto on Monetary Reform’: no centro deste Estudo, uma Questão curiosa, paradoxalmente não destituída de sentido e bom senso crítico, ‒ a de suspender ou manter o padrão ouro tradicional. Ora, foi justamente em nome da defesa e promoção da gramática da Cooperação (pacífica) entre as Nações/Estados, ‒ exactamente o contrário de uma concorrência capitalista desenfreada e selvagem, que vai desaguar, ipso facto (Clausewittz dixerit…) nas rivalidades estruturais e na fatal declaração de guerra ‒, que o Autor chegou a preconizar o abandono do padrão matricial (internacional) do ouro. O Ouro (e o seu preço consensualmente comum…) era uma ‘res supostamente naturalis’ e, enquanto tal podia constituir, através de um câmbio de moedas invariável, o centro de gravitação da circulação internacional das diferentes moedas nacionais. Superstição?!... De certo modo, sim; mas positiva e eficaz para dirimir conflitos de soberanias!... Desta sorte, poderiam evitar-se hierarquias malsãs entre os Estados e hegemonias irracionais ou sem fundamento razoável. O entendimento de J. M. Keynes não foi esse, então, no período entre as duas Guerras. Ele preconizava, então, o fim do padrão/ouro, enquanto estalão de medida entre as moedas. Essa opção de Keynes poderá, hoje, ser entendida, e até criticada, como um caminho aberto ao positivismo jurídico-legalista, sans ambages, no Comércio Internacional. E, em termos sócio-históricos, podemos muito bem entender e assumir a suspensão do padrão/ouro, com tal significado semântico-político negativo, se tivermos em conta a sua suspensão de facto, por Richard Nixon, em 1971. Pretendia o Presidente norte-americano começar a abrir, então, as auto-estradas para a circulação internacional/global das mercadorias e da Moeda norte-americana, por parte das Multi-transnacionais dos USA que estavam a dar os primeiros passos, nessa altura. Esta questão do manter ou suspender o padrão/ouro é, na verdade, extremamente delicada, nas consequências que pode acarretar. E, em qualquer dos casos, deveria sempre ser discutida e deliberada no Conselho de Segurança da O.N.U., em última instância. De contrário, as Sociedades nacionais estarão sempre sob a espada do apotegma de Clausewitts: ‘A guerra é a continuação da economia política por outros meios’!... ‒ A sua Obra prínceps ‘Treatise on Money…’ (já citada) preparou e arquitectou a plena integração da sua teoria da Moeda na Economia política geral; e é nessa órbita que ela tem de ser avaliada e julgada. E foi, precisamente, ao propor e preconizar, com denodo, a estabilidade monetária, como princípio básico de um Comércio internacional justo, que o Autor veio a propor a criação, para os devidos efeitos, de um Fundo Monetário Internacional (F.M.I.). Este Instituto veio, de facto, a ser integrado, com toda a coerência, na Gramática expressa na Carta das Nações Unidas, em Outubro de 1945. Um caso sintomático e curioso, quanto baste, para se tomar o pulso dos conselhos e advertências de Keynes, no concernente ao alcance das Questões Monetárias: lobrigava ele que o próprio ‘desvio inflacionista’ (quando sistémico e não puramente eventual…) pode constituir sintomas (não declarados ou encobertos) próbélicos, na tessitura da vida quotidiana de uma Sociedade, em tempo considerado como de paz. O Autor fez saber isso na obra ‘How to Pay for the War’.

A REVOLUÇÃO KEYNESIANA ● Alguns traços fundamentais da Revolução Keynesiana no funcionamento e na estrutura da Economia Política. No processo histórico das Civilizações, actuando em torno do seu Filão central evolutivo que, desde há ca. de dois milénios e meio, atribuiu a hegemonia à Civilização Ocidental, tornou-se manifesto e óbvio que os Países mais


industrializados do Ocidente fossem os primeiros a colher os benefícios (enquadramentos e orientações) da chamada Revolução keynesiana. O mesmo havia acontecido com o Movimento do Marxismo, um século antes. Em termos de pinceladas gerais, poder-se-iam arrolar algumas categorias (lógico-societárias) como as que se seguem: • A ‘Revolução keynesiana’ procede à síntese dialéctica real (não aparente…) entre (em termos criticistas) o capital selvagem dos detentores hegemónicos dos meios de produção e o trabalho servilizado dos operários fabris ou industriais. • O plano/programa é simples e elementar e tem de proceder da Acção dos Governos das Nações, no exercício legítimo da soberania: impõe-se, em primeiro lugar, a obrigação (moral e política) de pôr em funcionamento todos os meios eficazes e legítimos para conseguir o pleno emprego da mão-de-obra disponível; isso mesmo é substantivamente conseguido através de uma redistribuição dos rendimentos à escala da Nação/Estado. Pressupõe e implica este processus, muito elementar e basicamente, que o poder de compra dos consumidores (reais) deverá crescer proporcionalmente ao desenvolvimento dos meios de produção. • Na perequação da Economia política, o rendimento nacional deve ser a determinante do nível de emprego, à escala da Sociedade nacional. Como se opera isso? Ele depende, realmente, da procura efectiva, ‒ a qual, por sua vez, se manifesta na saudável disposição psicológica para o consumo, na eficácia marginal do capital e na conservação dinâmica da poupança. • Num tal enquadramento, o Lucro deixou de ser a mola propulsora da ganância crápula (clássico-tradicional) para o enriquecimento rápido (tantas vezes por meios ilícitos…); e passou a ser constituído, formalmente, pela soma que o capitalista recebeu para renunciar à liquidez. Nesta perspectiva, o próprio Lucro tem, em si mesmo, uma função social reconhecida colectivamente, no processo da Produção e seu desenvolvimento evolutivo. O processus económico-social, assim concebido e posto em marcha, impede, por definição, o movimento de autonomização e de hegemonia (absoluta) da Finança sobre a Economia política. Assim, o que é essencial, numa Economia política saudável, é mesmo a estimulação da Procura efectiva, mediante políticas orçamentais e fiscais adequadas. Esta política foi prosseguida, durante os chamados ‘Trinta Gloriosos’ (1945-1975), em vários países da Europa e dos USA, a partir dos anos ’40, e atingiu o seu apogeu nos USA, nos anos ’60. • Entendido, negativamente, como renúncia à liquidez, o Lucro do capitalista deixou de ser, no horizonte de Keynes, o ídolo/dinheiro, objecto fulcral de todas as ganâncias, paixões, adorações (cf. Ex.32,1-6, o primeiro texto da Bíblia sobre a crítica e a condenação da Idolatria); ao mesmo tempo, o Lucro passou a ser, positivamente, uma espécie de ‘pagamento q.b. do capitalista’, a soma que o capitalista recebe, como fim de promover e incrementar a ‘máquina’ da produção económica (a que ele preside), asse-gurando, para benefício de todos, o seu funcionamento, mesmo naquelas situações ou estádios do Desenvolvimento sócio-económico, em que o crescimento (in infinitum) deixou de fazer sentido, uma vez que se chegou, cientificamente, à conclusão de que os recursos da Natureza e do universo societário dos Humanos são, inquestionavelmente, limitados (Clube de Roma dixit, em 1967). A percepção anterior e tradicional do carácter ilimitado desses Recursos estava na dependência das ideologias religiosas, designadamente, na dependência do mistagógico Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo; era o resultado do Monismo epistémico, para o qual contribuiu, na Idade Moderna, o famigerado Mecanicismo cartesiano; é, ainda, o produto da separação do que se tem chamado as Humanidades, por um lado, e por outro, as Ciências, onde se conta, sem caracterização específica, a


Economia política. No fundo, tudo isso é o resultado da nossa Menoridade e da nossa santa Ignorância. • Na verdade, o Sistema ‘capitalista’ de Keynes foi, de tal maneira e a uma escala tão alargada, joeirado e purificado (na sua Arquitectura tradicional, objectivo-objectualista, nas suas gorduras e protuberâncias, nos seus penduricalhos carnavalescos…), expulsando toda a ganga dos tradicionais institutos selvagens de egoísmo e dominação (colonial/imperialista), que a nova ‘conspersio’ do Sistema ‘capitalista’ keynesiano pode, justamente, considerar-se uma boa Síntese (resultado de uma boa Aufhebung histórica) de Capitalismo (tal como o Ocidente o conheceu e pôs em marcha, nos cinco séculos da Idade Moderna) e daqueles parâmetros essenciais de uma Economia política verdadeiramente socialista. • Efectivamente, a ‘Revolução keynesiana’ (que emergiu a partir da Praxis e da Experiência histórica, vivida no período entre as duas Guerras Mundiais do séc. XX), como motor crítico e orientação na Economia política, configurou-se (pela negativa e pela positiva) nos antípodas do Neoliberalismo capitalista globalizante, que os Países capitalistas industrializados do Ocidente (arrastando também os do Oriente…) conseguiram pôr em marcha nos últimos trinta anos (desde o momento em que eles puseram termo ao período, celebrado social e humanitariamente, dos chamados ‘Trinta Glo-riosos’). Mais precisamente, a partir de 1989 e 1991, com a ‘Queda do Muro de Berlim’ e o ‘Colapso da U.R.S.S.’. É, historicamente, paradoxal e sintomático que estes dois Factos histórico-societários tenham posto fim a um período que, simultaneamente, foi apelidado, na história política, como da ‘Guerra Fria’!... ‘Trinta Gloriosos’ = ‘Guerra Fria’… A ironia farsesca do ‘historicismo’, que não conhece a Contradição!... • Na pauta (ético-moral) de análise e avaliação dos factos histórico-civilizacionais, que diferença substantiva haverá entre o paradoxo dessa contradição palmar e as recentes tentativas do ISIL/DAESH (no Médio Oriente), que acredita poder erigir um Estado (um novo Califado corânico…), na base da violência e dos massacres bélicos mais desbragados e brutais, aureolados por um fanatismo religioso sem nome possível, porque totalmente fora da sua época histórica?!... É claro que há diferenças, tais como as diferenças entre a ‘Civilização’ e a Barbárie… Mas não podemos ignorar que há, de facto, semelhanças substantivas: as que estabeleceram a Força e a Guerra em 1º plano; e a Amizade e a Paz, em 2º plano; as que consideram e admitem a Violência e a Guerra como meios legítimos, para construir Sociedades de Amizade (e Cooperação) e Paz. Foi nesse ambiente ideológico (temporalmente comum), que, desde 1985 a 1991, os Estados/Nações do Ocidente, ditos ‘livres’ (cuja liberdade não extrapola a situação estrutural/societária de clausura: é isto o ‘livre arbítrio’!...) nada fizeram ‒ bem pelo contrário… ‒ para ajudar Mikhail Gorbatchov (o Amigo Gorby sempre bem intencionado, ajudado por poucos e desajudado por muitos!...) a encontrar o seu bem justificado sucesso, para as suas propostas políticas da Perestroika e da Glasnost. Como animais famintos por mais espaço e mais território, os Estados ocidentais tudo empreenderam e apostaram para reduzir e condenar todas essas tentativas a um rotundo Fracasso; tudo fizeram para aproveitar a oportunidade de alcançar a definitiva e absoluta Hegemonia sobre todo o Mundo, acicatando, mesmo depois do fim da ‘Guerra Fria’, conflitos e guerras regionais de menor intensidade. Em resumo, poder-seia dizer: o ideário keynesiano da COOPORAÇÃO entre os Estados/Nações foi sistemicamente adiado para as calendas gregas… foi e tem continuado a ser sistemicamente estilhaçado, em nome da Concorrência (comercial…) d’abord e, sempre, em nome da vitória dos mais fortes e poderosos. A isto, pois, se chegou: Sociedades estruturalmente contraditórias e dilaceradas, cujo único denominador comum é o da instintual Sobrevivência… à espera do Apocalipse final!... E o filósofo nipo-norte-americano, Francis Fukuyama, a perorar do Alto do seu Olimpo especulativo,


na obra: ‘O Fim da História e o Último Homem (1991). Uns Estados desfazem-se… outros encontram-se, a partir das ruínas e cinzas dos anteriores, em suposta fase de construção, a golpes de bombas e baionetas, sustentadas por um fanatismo religioso, ‒ o mais cretino e porco do mundo, porque inteiramente fora da sua época!... Ainda não perdeu a sua semântica acertada e ‘justa’ q.b. o axioma latino tradicional: ‘Veritas filia temporis’. • ‘Low animal spirits’!... Era o conhecido parergo de Keynes, que ele estava pronto a brandir, como reprovação e censura, v.g., aquando da assinatura do Tratado de Versalhes (1919), que submeteu inadequadamente a Alemanha vencida aos Aliados; aquando dos desmandos especulativo-financeiros, ocorridos durante a ‘Great Depression’ (1929-32); e, em suma, generalizando, sempre que em tempo de paz aparente se está cozinhando e preparando uma guerra, ou no fim de uma guerra, não se procura instaurar uma nova Idade de Paz duradoura e substantiva. Não esquecer que a Filosofia da História e das Sociedades nos debita um Díptico com dois axiomas reciprocamente opostos: a) ‘Opus Justitiae Pax’; B) ‘Si vis Pacem para Bellum’. O grande Segredo de J.M. Keynes consistiu, fundamentalmente, em conjuntar, articular todas as partes, que eram pertinentes e necessárias/indispensáveis na Totalidade (Bio-Psico-Sócio-Antropológica). Ele é justamente o contrário da metodologia moderna/cartesiana. (O Programa do Método científico de R. Descartes, como é sabido, é o de dividir o Todo nas suas partes… ficou, assim, ‘tout en miettes’!...). • J.M. Keynes (ao arrepio de toda a Tradição ideológico-cultural Maior, na Cultura Ocidental, ao longo de dois milénios e meio, é um pensador criticista, que adoptou o Hilemorfismo Aristotélico (a Filosofia da união indissolúvel de matéria e forma, espírito e corpo, na concepção certa e inquestionável dos Seres humanos). Ele está, pois, nos antípodas do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo, ‒ o qual continua a balizar e a orientar, tanto a mundividência dos ocidentais, como a estruturação das suas Sociedades. Ele é, por conseguinte, em toda a sua Obra de economista insigne, um pensador hilemorfista, na base de toda a sua construção: se não positiva e expressamente, de modo positivo e sempre implicitado. Ora, é justamente esta atitude e actuação criticistas que, sistematicamente, têm sido esquecidas e ignoradas por quase todos os economistas do Mundo modernizado. São os vícios próprios da Modernidade, instaurada e estigmatizada pelo Mecanicismo cartesiano. Por isso, a própria Globalização em pauta e perspectiva é errada e falsa, porque desviada da sua fons et origo: o Psico-Sócio-Ânthropos integral. • Capitalistas bons e capitalistas maus?!... Sim, sem dúvida… e adiante-se já que o dilema não tem nada de maniqueísta; tem, isso sim, é de Ética e Moral! Keynes ‒ como já se pôde lobrigar ‒ deixou, nos seus escritos, claramente implicitada ou pressuposta uma tal distinção classificativa. Os maus ‒ como já se percebeu ‒ são os foncièrement egoístas, os avarentos e os crápulas, naquele estilo horroroso do clássico rei Midas da Antiguidade clássica. Os bons são, obviamente, os que, de bom grado, renunciaram à liquidez e investiram o seu capital na inovação tecnológica progressiva e adequada, na promoção, o mais eficaz possível, dos seus meios de produção; ou, em períodos de grandes mudanças estruturais, tudo fizeram para promover e apoiar instituições de formação e de produção económica de novos bens e serviços. Um dos grandes Erros estruturais da Modernidade consiste, precisamente, em considerar neutras e imparciais, isentas, pois, de julgamento/juízo ético e moral, certas Áreas da vida corrente em Sociedade, a começar nas da Economia política e a acabar nas da Estética e das Artes. Nada é isento e neutro, no Grande Universo da Humanitas. Por que têm as Sociedades humanas, ao longo da História das Civilizações, caído no báratro dessa religião laica do Objectivo-Objectualismo?! Os resultados estão à vista: Em vez da Liberdade Responsável, o que os Poderes Estabelecidos puseram em


marcha foi o stingy ‘Livre Arbítrio’ (a ‘lei do pêndulo’ das Sociedades/Rebanho). Dizemos que a Escravatura foi, definitivamente, abolida na 2ª metade do séc. XIX. Todavia, desde a Antiguidade clássica, e mesmo ao longo da Modernidade ocidental, supostamente emancipatória, ela foi-se, muito simplesmente, metamorfoseando, tomando, afinal, novas formas, como as do operário e do empregado, ‒ o proletariado, em geral, em linguagem marxiana. • Por que se continua a promover, hodiernamente, à escala global, o que se tem chamado ‘democracia dos mercados de capitais’? Porque as finanças foram cindidas e separadas da Economia política; porque continua a imperar, na praxis societária, a moderna religião laica do Objectivo-Objectualismo; porque prosseguem as desumanas Sociedades/Rebanho; porque a Espécie, qua tal, ainda não acedeu, em termos antro-pogenésicos, à Liberdade Responsável primacial e primordial. Eis por que o vero e autêntico Socialismo ainda não pôde entrar em cena, na História da Humanidade (a uma escala generalizadamente institucional): Os Sujeitos humanos ainda não usufruem de pleno direito a Liberdade Responsável primacial e primordial tanto na apropriação das suas vidas individuais como na contribuição positiva e fecunda para a Organização e Funcionamento de Sociedades humanas justas e boas. Ora, os caminhos certos, para alcançar o vero e autêntico Socialismo, poderão ser abertos e desobstruídos mediante a instauração do Projecto de Keynes e medidas keynesianas… Aí mesmo, poderão lobrigar-se as razões e os fundamentos por que a gestão dos Mercados (autónomos) de capitais através das Bolsas e a famigerada ‘demo-cracia dos Mercados de capitais’ constituem aberrações e cretinices de todo o tamanho. São realidades absurdas, que só exprimem e denotam a pesporrência e a dominação das elites sobre as massas, dos governantes sobre os governados… dos que mandam e imperam no mundo e dos que têm de limitar-se a executar e a obedecer às ordens dos Superiores!...

OVER KEYNESIANISM (Vd. programa da BBC, passado na RAI/Scuola em 15.8.2015)

● John Maynard Keynes (1888-1946) aprendeu, longe lateque (sempre aberto ao futuro, com fina Sensibilidade e Racionalidade desempoeirada), com Karl Marx e Friedrich Hayek, dois economistas com mundividências diametralmente opostas. Notáveis são os seus livros sobre a Moeda e as Consequências do Viver em Paz, elaborados com o intuito ‒ dir-se-ia ‒ de dar uma resposta cabal e objectiva aos erros e heresias de Carl von Clausewittz. Com efeito, esses dois Livros afinaram, nele, o imperativo categórico de centrar a sua reflexão e orientação crítica, como bom economista, sobre a Economia política, a consequente produção de bens úteis e necessários à vida das So-ciedades humanas, sua recta distribuição e consumo. Eles configuram-se, pois, nos antípodas do que hoje dá pelo nome de Economicismo, i.e., Finança d’abord, ‒ a prática hodierna corrente nos economistas neoliberais. Na verdade, estes abastardaram a Ciência da Economia política, reduzindo-a às contas esmifradas da aritmética do ‘merceeiro’ da aldeia!... Esta corrente historicista, que pensa e pratica a História, segundo a religião laica do Objectivo-Objectualismo, e que nunca atribuiu às ciências psico-sociais e/ou humanas o estatuto de ciência de corpo inteiro, viu-se obrigada a seguir a cartilha do mais estrito Monismo Epistémico, considerando e pressupondo a Psico-Sócio-História dentro do prisma (cíclico) do ‘Eterno Retorno’. Uma situação histórica, prenhe de semântica em tal horizonte: Tenha-se em conta o que se tem passado (‘tratos de polé’…) entre a ‘Troika’ por parte da U.E. e a


Grécia (em risco de ter de sair do Eurogrupo) perante o seu terceiro Resgate, assinado (compulsivamente…) em Agosto (1ª quinzena) de 2015. Ora, na História do Ocidente, ao longo de 3 milénios, as Dívidas soberanas nunca foram pagas segundo o esquema ‘forreta’ das ‘contas do merceeiro’. (Vd., por todos os loci, Num. cap.25, e Deut., cap. 15). • O seu Saber (‘saber de experiência feito’) e formação académica, como Economista, foi, com efeito, a própria história que os pôs à prova de fogo: Foi Keynes quem relançou a boa e justa Orientação das economias inglesa e norte-americana, logo a seguir à ‘Great Depression’ (1929-32); foi ele que esteve nas origens do enquadramento e balizamento do Plano Marshall, nas oitavas da IIª Guerra Mundial, com o objectivo de relançar e pôr a funcionar e a crescer as sociedades nacionais arruinadas pela Guerra, muito especialmente na Europa e na América do Norte. Os seus segredos/chave nucleares podem resumir-se no seguinte: A) Demandar o que a gíria científica denominou, a bissectriz entre o ‘capitalismo’ e o ‘socialismo convencional’. É nesta óptica que se pode dizer, muito bem, que ele salvou o Capitalismo dos capitalistas (que o haviam assassinado…): (Joseph Stiglitz dixit). B) Ter na devida conta o que ele chamou de ‘low animal spirits’, os quais operam e actuam, muito especialmente, nos períodos históricos ‘spensierati’ de paz continuada (… sempre segundo o velho catecismo: ‘Si vis pacem, para bellum’!...). Pelo que a este factor diz respeito, poderá muito bem dizer-se que o intelectual economista de Bloomsbury e da Univ. de Cambridge prestou, estruturalmente, atenção aos actores/Sujeitos reais da Economia política, à sua psico-sociologia, aos diferentes modos de agir e viver, desde logo, consoante se está em tempo de guerra ou em tempo de paz continuada. Ele não se deixou ficar confinado na ‘gaiola dourada’ dos objectos e produtos separados, segundo a cartilha do economicismo e do mecanicismo cartesiano. No concernente ao factor enunciado em A), J.M.K. distanciou-se, clara e decisivamente, das doutrinas tradicionais e correntes, ao longo do séc. XX, sobre a problemática do capitalismo e do socialismo. Ele era, de facto, um espírito moderno, mas crítico, de resto, como o havia sido K. Marx; como o foi John Kenneth Galbraith que, na década de ’60 do séc. XX, no seu celebrado Livro ‘O Novo Estado Industrial’, teve a coragem (dissidente da doxa dogmatizada) de concluir e demonstrar, na sua argumentação, que, afinal, o proclamado modelo do Socialismo soviético, instaurado pela ‘Revolução de Outubro’ de 1917, não era socialismo nenhum: tão-só, e muito simplesmente, ‘capitalismo monopolista de Estado’. Convirá, aqui recordar, e nunca esquecer, que, na gramática societária de Keynes, há um Primeiro Princípio a ter em conta: as Relações entre Povos ou Estados/ /Nações, uns com os outros, devem processar-se, em termos ético-políticos, num Esquema de Cooperação e Entre-Ajuda; não num quadro de Egoísmos fonciers e de Concorrência desenfreada, alimentando, reciprocamente, rivalidades malsãs, que só poderão promover o clima (ideológico) de guerra e hegemonia de uns sobre os outros. • Os clichés (ideológicos) sobre capitalismo e socialismo, erguidos e balizados pela Modernidade Ocidental, segundo o catecismo do Objectivo-Objectualismo (como é caracterizado no CEHC) podem ser formulados e expressos pelas noções/definições clássico-tradicionais, enunciadas, v.g., por S.L. Case e D.J. Hall, no glossário do seu livro, que dá pelo título: ‘A Social and Economic History of Britain’ (second Edition: 17001976) (1st edition: 1971): Aí se pode ler o seguinte sobre Capitalismo: “The use of private capital, to finance the means of production. The profits from such privately owned businesses are taken by the private individuals, who own them or a share of them and is, therefore, the opposite of public or collective ownership” (p.145). Sobre Socialismo pode ler-se: “The collective


ownership, by the community, of the means of production (land, factories, mines, etc.), the means of distribution (road, rail and air transport, shops, etc.), and the means of exchange (the banks). Profits from this collective ownership are used by the state, to finance community services (health schemes, pensions, etc.)” (p.146). Ora ‒ como se pode dar conta, criticamente, abrindo simplesmente os olhos para a história das Sociedades, ao longo do séc. XX ‒, o Socialismo, calibrado segundo essa definição, a própria História já demonstrou que ele não pode funcionar senão no Quadro (enclausurado) de uma Ordem societária regida por uma política ditatorial, diametralmente contrária às mais elementares Regras da Democracia e da Ordem social democrática. De igual modo, e simetricamente, o Capitalismo, acima balizado, não é, por sua vez, compatível com a gramática social da ordem Democrática… Eis por que todas as pretensões históricas para pôr de pé o exercício do Quadro de compatibilidade societária de Capitalismo e Democracia têm sido mal sucedidas e fracassadas. Assim, pode e deve concluir-se que os dois Sistemas referidos (que tiveram lugar no universo da Economia política) só aparentemente são opostos: com efeito, a sua aparente oposição simétrica explica-se, perfeitamente, porque ambos os Sistemas são configurados e estruturados, no hemisfério dos Objectos-Objectivo-Objectuais. ‒ Quer tudo isto dizer, em última instância, que o próprio Modelo/Padrão da História, praticado pelos académicos no Ocidente, é historicista (seja ele hegeliano ou marxista), por estrutura arquitectural, e, portanto, cíclico, segundo o catecismo nietzscheano do ‘eterno retorno’. Assim, por conseguinte, o vero e autêntico Socialismo só pode ser, efectivamente, pensado e construído a partir dos Sujeitos humanos individuais-pessoais, livres e responsáveis, no Quadro de uma Ordem Societária, vera e genuinamente Democrática. Uma tal noção de Socialismo ainda não foi historicamente experienciada em larga escala societária; ainda não foi sequer possível percepcioná-la adequadamente, uma vez que as Sociedades humanas continuam a sobreviver (na 2ª década do séc. XXI) no horizonte ‘fatídico’ da Cultura do Poder-Dominação d’abord (que teve o seu início nos pródromos do Processo civilizatório machista e paternalista, desde ca. de 3.500 a.E.c., justamente nessa espécie de ‘Golpe de Estado’, que pôs termo à anterior Era da GILANIA). • Hoje, em termos culturais (novos modos de usos e de categorias mentais…), já nos encontramos dentro da época, que o CEHC tem designado por PósModernidade positiva e crítica. O que implica, primeiro, a necessidade incontornável de proceder ao Balanço crítico da Idade Moderna ocidental; e, em segundo lugar, a necessidade instante de edificar, sem subterfúgios, simulacros ou enganos, uma Economia política capaz de integrar os Sujeitos humanos qua tais, no horizonte de uma vera e honesta Gramática social de Democracia. Basta já de enredos e trapaças malsinados, de modos dolosos e de estruturais dominações ideológico-culturais. Ora, J.M. KEYNES é um dos raros intelectuais do Ocidente, originais e autênticos, que, sem porventura o saber, pôs em movimento, nas áreas da Educação, da Economia e da Políteia, todo um Processo de transição (necessário e inadiável) entre a Modernidade ocidental (estruturalmente contraditória…) e o que nós chamamos a Pós-Modernidade positiva e crítica. Para ele, as soluções da Austeridade (Austeritas sola), sobremaneira em tempos de Crise, só agravam, no Sistema económico, as situações de pobreza e carências de toda a sorte… elas nunca poderão, portanto, constituir uma Solução positiva e eficaz; elas levam, consigo, o estigma da submissão forçada (pessoas = ‘cabeças de rebanho’…), onde as pessoas são confrontadas com as obrigações dos sacrifícios impostos, como expiação, por Agentes externos. Além de uma desumanidade, tais caminhos constituem uma aberração, um absurdo, para qualquer Inteligência séria e honesta!...


• Em 2015, os britânicos comemoraram o 70º aniversário da 1ª Vitória do Labour, que afastou Churchill do Poder. “A proposta era simples: se todas as energias e re-cursos de um país puderam ser mobilizados para vencer uma guerra, seria possível fazer o mesmo para garantir educação, habitação e emprego a todos. Contrariando as profe-cias de Hayek, que tão ferozmente se opôs ao programa trabalhista, o reforço do papel económico e social do Estado foi, nas décadas seguintes, o sustentáculo das democra-cias na Europa”. (Daniel Oliveira, in, ‘Expresso’, 15.8.2015, p.33). Que se está passan-do com o 3º Resgate da Grécia, por parte da Alemanha e da U.E.?... Depois da derrota do nazismo, “o que sobra da Europa é este título de jornal: ‘Alemanha ganhou €100 mil milhões com a crise da Grécia’. A União Europeia tornou-se um instrumento de domi-nação e o europeísmo que sobra é antieuropeísta” (idem, ibidem). Em suma, uma Europa amordaçada/amortalhada, enleada em contradições estruturais, que não foi capaz de enfrentar e resolver evolucionariamente, e a quem faltam, essencialmente, na Actualidade, Imaginação, Sensibilidade e Racionalidade adequadas, para, simplesmente, continuar a Viver, de acordo com o estatuto histórico que ganhou (e foi, de algum modo, reconhecido pelas outras civilizações…), enquanto protagonista, no Processo Civilizatório da Humanidade.

COMPLEMENTO/SUPLEMENTO ‒A‒ Continuação da Escravatura (moderna)… ou Libertação definitiva ?!... • A hipoteca, o handicap das Sociedades (nacionais ou internacionais) modernas continua a consistir no mantenimento da antiga Escravatura sob formas modernaças e edulcoradas de Escravatura, tais como a simples condição do operário/proletário e de outras classes proletarizadas (por crises económicas ou de soberania dos Estados), as hierarquias rígidas, a admissão fácil e banal dos ideários imperialistas, o estatuto tradicional, conservado, da própria ‘propriedade privada’, o vezo e a tendência objectiva-objectual para conquistar ou manter a Dominação, a qualquer preço (nesta categoria, cabe perfeitamente a concorrência económica selvagem). Artigo notável e de antologia, o texto de Ricardo Marques, titulado ‘Escravos da Memória’ (in ‘Expresso’/Rev., 15.8.2015, pp.46-51). Na verdade, os Seres humanos são 4/10 de Imaginação; 3/10 de Sensibilidade; e 3/10 de Inteligência/Racionalidade. Em jeito de um Blitz de fulgurância realista, o Autor inscreveu na janela do seu trabalho: “A descoberta de um navio português, que naufragou em 1794 a caminho do Brasil, com centenas de escravos a bordo, confronta-nos com um passado que parece esquecido e de que raramente falamos” (ibi, p.47). Na verdade, o que mais pode (activa ou passivamente) humilhar e levar ao esquecimento (‘salvífico’…) um ser humano, é precisamente a condição de escravatura, infligida ao outro ou outros, a sua redução a puro objecto, coisa de traficar, vender e comprar, como qualquer mercadoria indiferenciada. Foi exactamente, durante os sécs. XV e XVI, na época dos primeiros descobrimentos e conquistas transoceânicos de novas terras e seus habitantes indígenas, que teve o seu início a nova praxis societária de ‘filhar’ escravos nativos, que eram aproveitados para a execução de ‘mão-de-obra servil’. Isto mesmo acontece, com tonalidades paradoxais, quando o ‘Velho Mundo’ europeu/ocidental estava a vangloriar-


se de ter acabado com a ‘servidão’ do feudalismo medieval!... A meio do 5º século da Modernidade, o Ocidente (Velho e Novo Mundos) (= séc. XIX), celebrou, feliz, com leis e festas a acompanhar, o fim da Escravatura (antiga e moderna). Afinal um discurso que não passou de ‘flatus vocis’: palavras vazias, atiradas ao vento, para ludibriar e enganar quem as diz e quem as ouve ou lê. Como diria o Marquês de Lampedusa: ‘Muda-se alguma coisa, para que tudo se possa conservar na mesma’!... Ora, foi precisamente na adopção legal primigénia e sem discussão (oficial) jurídica do trabalho escravo, que teve a sua origem o que K. Marx chamou a moderna ‘Acumulação Primitiva do Capital’. Foi nesse processus histórico que ela teve a sua origem em termos absolutos. Eis por que, na incontornável luta de classes polarizada entre o Capital e o Trabalho, o Marxismo e outros movimentos sociais revolucionários sempre promoveram e incrementaram o Sindicalismo e as Organizações sindicais dos Trabalhadores. Escreve Ricardo Marques (ibi, p.57): “Entre os sécs. XV (os primeiros escravos chegaram a Portugal em 1444) e o XIX, foram transportados mais de 11 milhões de africanos para a Europa e para as Américas, a maior parte a partir da costa ocidental de África. Como se toda a actual população portuguesa fosse enfiada em barcos de madeira e enviada através do Atlântico. ‘O que me fascina’, admite Alexandre Monteiro, ‘é perceber como e porquê esta migração forçada mais não foi do que uma variante, à escala planetária, de um comércio extremamente antigo, firmemente caucionado pela lei, pela religião e pelos costumes, comércio esse em que europeus, árabes e africanos detinham fortes interesses políticos e económicos. E perceber também como nenhuma nação ou povo pode moralmente alegar nunca ter lucrado com o tráfico de escravos’ ”. Sobre as circunstâncias sócio-históricas do naufrágio do navio ‘São José’, em 1794, escreveu o Autor do Artigo, citando o arqueólogo Alexandre Monteiro (ibi, pp. 4950): “‘O episódio do ‘São José’ ocorre num mundo em mudança, com o Ocidente a encarar o problema do tráfico de escravos de forma diferente. Se na Europa Ocidental, o antiescravismo continua a ser observado sob uma perspectiva essencialmente iluminista, de toleracionismo, na Grã-Bretanha a ideologia abolicionista propõe uma visão globalizante, universal e coerente, apontando para um mundo melhor, para uma América mais livre, uma África civilizável e uma Europa mais rica graças à criação de um novo mercado africano’, explica Alexandre Monteiro. ‘De tudo isto, contudo, Portugal se alheava, como se continua a alhear, ‒ até porque esta é uma história que, em Portugal, só começa a contar depois do 25 de Abril, com os trabalhos de Valentim Alexandre, António Carreira, José Capela [pseudónimo do nosso querido Amigo José Soares Martins] e, posteriormente, João Pedro Marques’ ”. Como eram alojados e arrumados os escravos nos navios ‘negreiros’? No porão, e quando era preciso também no convés, ficavam assim distribuídos: “Cada escravo era obrigado a ficar deitado com a cabeça no meio das pernas do que lhe ficava atrás, e assim de uma extremidade à outra do navio” (idem, ibi, p.50). R. Marques trouxe à colação Sílvia Rodriguez Maeso (investigadora do C.E.S. da Univ. de Coimbra e co-autora, com Mara Araújo, de um artigo titulado ‘A institucionalização do silêncio: a escravatura nos manuais de história portugueses’, onde se defende a tese de que não é possível conceber o mundo em que vivemos ignorando o período da escravatura. A seguir, o depoimento de S.R.M.: ‘A descoberta de um navio como este é importante, na medida em que abre uma discussão sobre a centralidade do processo de escravização na formação dos Estados europeus, da ordem política internacional desde o séc. XVI e das identidades colectivas, tendo a raça e as formas de administração política ou governação racistas como elementos fundamentais’.


“‘No fundo, o mundo é o que é, porque foi o que foi. Por muito que se insista naquilo a que a socióloga chama ‘uma narrativa da abolição’. ‘Todos os países gostam de narrar o seu pioneirismo neste processo e de ressaltar figuras históricas, como o marquês de Pombal ou William Wilberforce, em Inglaterra, como se o processo de luta anticolonial e antiescravização não tivesse estado presente desde o começo do processo histórico, como se os escravizados não existissem politicamente e só através das figuras do protector branco’, precisa”. (Ibi, p.51). R.M. evoca ainda o discurso de Sílvia Maeso, para escrftever o seguinte (ibidem): “‘O processo de escravização, com todas as suas dimensões jurídico-legais e económicas, foi fundamental na formação das estruturas políticas dos Estados e na nossa cultura política, que é racista. Isto não é uma questão linear ou de procurar explicações simplistas de causa-efeito entre a escravização racial e como o racismo molda a vida das nossas instituições e o quotidiano das nossas relações sociais, mas sim, que sem discutir esta relação histórica a nossa compreensão do passado e dos seus legados na actualidade é inadequada’”. Ainda um naco do depoimento de Sílvia Maeso, citado por R.M. (ibidem), sobre o Museum of London Docklands: Ele “‘oferece uma visão histórica adequada e crítica sobre o papel central da escravização, no processo de formação da sociedade britânica, da chamada Revolução industrial, e na acumulação de riqueza e sua repercussão na ci-dade de Londres’”. É, não obstante, necessário e indispensável, na análise e no balanço críticos do Processo histórico da Escravatura (antiga e moderna) recuar e alargar mais a investigação, no concernente às suas causas e efeitos civilizacionais e culturais, como tem ensinado o C.E.H.C.: ‒ a Cultura do Poder-Dominação d’abord, que teve a sua origem em 3.500 a.E.c., aquando da instauração do Processo civilizatório machista/ /patriarcal, acompanhado da implantação das Divindades Uranianas; ‒ o Monismo epistemológico; ‒ a religião laica do Objectivo-Objectualismo; ‒ o ‘livre arbítrio’ e a recusa radical da Liberdade Responsável; ‒ o vero e autêntico Socialismo como sonho/projecto de realização impossível… E nas origens de todo este Processo histórico desencaminhado, a opção feita, no processus da Bio-Antropogénese, no sentido da adopção do padrão expresso no ‘Homo Sapiens tout court’, configurado nos antípodas do ‘Homo Sapiens//Sapiens’, ‒ o único padrão capaz de integrar, em harmonia (natural/ /cultural) os dois Fenómenos da Cultura da Espécie: a Liberdade e o Poder. ‒B‒ Entrevista com a Jovem Deputada, Mariana Mortágua: Excerptos e Reflexões (cf. ‘Expresso’/Rev.’, 22.8.2015, pp.26-31, assinada por Cristina Margato)

● Em torno do ‘B.I.’: Militante de base do Bloco de Esquerda, com assento no Parlamento português, ela chegou ao exercício das funções de Deputada, mediante a operação de substituição da dissidente Ana Drago, em Setembro de 2013. A sua Identidade psicosócio-cultural pode ser expressa e condensada na fórmula pronunciada nesta Entrevista: ‘Não me basta sair do mundo e deixar o mundo a funcionar como ele é’! (ibi, p.27). Um vero teste de Personalidade, q.b..


Ela tornou-se bem conhecida e notada, através dos media (TV e redes sociais da Net), como uma Voz personalizada na Ass. Nacional lusa, em virtude do bom desempenho das suas funções (integrada no Bloco de Esquerda) na Comissão de Inquérito Parlamentar ao Caso BES, enquanto protagonista e porta-voz desse Grupo parlamentar pluri-partidário. A sua Identidade psico-sócio-cultural pode ser esquematizada e resumida pelo que, na Entrevista, disse ter aprendido da mãe e do pai. O controlo emocional, aprendeu-o com a mãe: “A minha mãe sempre me disse o seguinte, e repetiu-o vezes sem conta: ‘Se perdes a calma, perdes a razão. Podes ter toda a razão do mundo, mas se não exerces a tua opinião da melhor forma, podes perdê-la só pelo modo como o fazes’. Essa ideia tem-me acompanhado ao longo do tempo e é-me muito útil” (p.27). Quanto ao pai (Camilo Mortágua, resistente actuante à ditadura salazarista, com uma boa folha de serviços: assalto ao paquete ‘Santa Maria’, desvio de um avião da TAP, Ocupação da Herdade Torre Bela…), ela limita-se a afirmar: “Não há um momento preciso. Isso foi crescendo comigo. Há muitas histórias que só conheço mais tarde, com o tempo” (ibidem). Mas houve vontade e tempo, para dizer acerca dos dois, a propósito das músicas do Zeca Afonso, amigo do pai, que eram ouvidas frequentemente lá em casa: “Já não o conheci. Mas havia alguma música e, sobretudo, muitos convívios, amigos, guitarras, conversas… E isso foi uma parte importante do meu crescimento. Os meus pais sempre rejeitaram a existência de áreas para crianças, e criaram um espaço em que todos são bem-vindos e podem contribuir e conversar” (ibidem). Mariana Mortágua mostrou bem, ao longo das respostas dadas, que determinadas acções, que envolveram coragem e risco, puderam ‘garantir-nos que a luta política vale a pena’, mesmo que a grande maioria da população se mantenha silenciosa e calada… Todavia, os tempos de hoje são diferentes, como o entendeu bem a entrevistada, nesta resposta extensa (ibi, p.28): “Naquela altura não havia luta pacífica. Tenho muita dificuldade em apelidar as acções em que o meu pai esteve envolvido como violentas. A maior parte das armas era de plástico, e o objectivo nunca foi matar pessoas. Houve um caso em que uma pessoa ficou ferida. Depois, tenho enraizada uma formação de Esquerda, feita no Bloco de Esquerda, de liberdade e pacifismo. Rejeito a Violência como princípio. A violência não é justificável, a não ser ‒ e ainda assim com muitos condicionalismos ‒ quando as formas de acção pacíficas estão esgotadas. Violência só gera violência. Temos sempre de relativizar as coisas de acordo com o espaço onde vivemos”. A propósito do livro que, aos 22 anos, publicou de parceria com Francisco Louçã, e que fora, então, pretexto para ser acoimada de delfim do Secretário-Geral do Bloco de Esquerda, ela disse uma vez por todas: “Mas a minha relação com Francisco Louçã sempre foi muito equilibrada, de igual para igual, distanciada dessa figura paternal. Espero que essa ideia se tenha desvanecido ao longo do tempo” (ibidem). Interrogada sobre se a quantidade e o ritmo de trabalho são os mesmos para todos os Deputados do Bloco, Mariana Mortágua respondeu: “Não. Mas num partido como o Bloco, que tem oito deputados, e apesar disso é dos partidos mais produtivos, essas pessoas trabalham muito mais do que num partido, onde o trabalho pode ser diluído por 60, 70 ou 80 deputados; e mesmo nesses partidos haverá quem trabalhe imenso. Trabalho não falta. No Bloco, o trabalho não é uma opção. Todos os deputados trabalham muitíssimo, e só assim é possível” (ibidem). Sobre os erros que se cometem e as mensagens que não são passadas, precisamente por não se ter utilizado a palavra adequada. Se a conversa ficou gravada na cabeça, ela não obteve o entendimento apropriado. A conclusão da Deputada: “Em política, é importante passar as mensagens, de forma a que as pessoas percebam.


Preocupa--me pensar que estou a dizer coisas que as pessoas não entendem. Se num espaço polí-tico não se entende o que é debatido, como é que se exerce o direito democrático?” (Ibidem). Mariana Mortágua tem o cuidado e o saber, de experiência feito, de não se deixar iludir pelas vestimentas do Discurso e pela superficialidade uniforme do que é dito. E, desassombrada, lavra o protesto psicológico ad hominem: “A partir do momento em que há uma estratégia clara, que me impede de aceder aos factos, resta-me denunciar essa estratégia. Ninguém acredita que um homem como Zeinal Bava não soubesse como é que as decisões eram tomadas, tal como ninguém acredita que Ricardo Salgado não soubesse nada do que se estava a passar” (ibi, p.29). A Deputada também já se deu conta (para as denunciar…) de que há Regras de ‘civilidade’ diferenciadas, para homens e para mulheres; e tem consciência de que esta é uma cartilha política incontornável… “Quando eles são aguerridos, elas são histéricas. Espera-se que as mulheres falem sempre de forma calma, dócil e contida, e aos homens permite-se que se exaltem, que falem mais alto e de modo mais agressivo. O que me é exigido em termos de razoabilidade e de calma não é exigido à maior parte dos homens. É a forma como o mundo se organiza” (ibidem). ‒ Ao mesmo tempo, ela soube, para sua conformação identitária, assimilar bem a Lição que o seu pai, Camilo Mortágua, lhe deixou: ‘a certeza de que passo a passo se derrota um regime’ (ibidem). • Sobre Convicções e Princípios Políticos (in actu signato e in actu exercito). Se a perspectiva evolucionista/dinâmica é positiva e fecunda, pela razão elementar de ser contrária à falaciosa visão dualista/metafísica do Mundo, por outro lado, é preciso tomar consciência de que esse novo horizonte nos impõe uma estrénua e consistente luta contínua, sem dar tréguas aos adversários. Mariana aprendeu isso do pai. Ela vive o problema, aqui, em Portugal, que o Siriza encontrou na Grécia. Perante o ‘colosso’ da Zona Euro, um Partido democrático, que, num regime democrático, chegou ao Poder, depara com a impotência para solucionar o Problema Fundamental… A hegemonia popular já não conta nestes regimes, que se dizem democráticos!... Por isso, ela desabafou, na Entrevista, como se segue: “Sempre achei que só era possível mudar a relação de Poder na Europa, havendo respeito por um governo eleito, e nunca pensei que esse respeito pudesse ser quebrado. Nunca pensei que houvesse coragem, que o autoritarismo fosse tanto, que a sociedade europeia estivesse preparada para aceitar uma instituição que fosse contra um governo eleito. Sempre acreditei que o valor da Democracia era mais alto” (ibi, p.30). Sobre o que se havia passado com o programa do Governo de Passos Coelho, lo-go nos inícios confrontado com a ‘Troika’, Mariana sabe que o Primeiro-Ministro ‘não queria negociar’; estava, afinal, ‘de acordo com a imposição desta política europeia de austeridade, que não serve para sair da crise’, uma vez que ‘só aprofunda o regime de acumulação de riqueza dos mercados financeiros’ (ibidem). Ela sabe, igualmente, que os Mercados (financeiros) não têm rosto, uma vez que ‘as pessoas não têm noção de como é fácil, legítimo e aceitável fugir aos impostos nos grandes negócios, em Portugal e no mundo’ (ibidem). O Grande Problema é sempre o de saber (por parte do Povo eleitor!...) quem é quem, na formação dos governos. “Quando falamos de governantes ‒ diz ela ‒, falamos dos grandes escritórios de advogados, que muitas vezes são também governantes, falamos de gente que vem das grandes empresas. Nos grandes partidos, e ainda mais nos que acham que a economia de mercado é o modelo maravilha da organização da sociedade, esses governantes não são cooptados pelos interesses financeiros. Eles fazem parte da mesma estrutura ideológica” (ibidem).


Assim, no dia em que o Siriza foi derrotado, perante as exigências da ‘Troika’, Mariana está cheia de razões para manifestar o seu repúdio por esta Europa: “Se isto é a Europa que me andaram a vender, eu não a quero. Não quero uma Europa em que um povo inteiro que quer mudar, e que ainda por cima tem razão quando diz que a auste-ridade não serve, é esmagado por instituições, como o Banco Central e a Comissão Europeia, que deveriam servir os interesses europeus. A Grécia deu uma lição de democracia à Europa e foi esmagada. Quem é que não acha isto assustador?” (ibidem). A militante insigne do B.E. é conhecedora de algumas novas iniciativas dissidentes do Sistema (na esteira do que chegou a ser revelado por um conselheiro de Merkel, Jeremy Rifkin), na linha das chamadas ‘economias de partilha’, que pretendem funcionar fora das lógicas de mercado ou fora da chaveta omni-abrangente do Estado; mas ela tem uma convicção criticista sobre a matéria. Entende ‒ e muito bem ‒ que “o capitalismo tem uma vertiginosa tendência para destruir tudo por onde passa, com a sua lógica de acumulação. Mas também tem uma extraordinária tendência para, uma vez destruído o que tinha para trás, encontrar novos mercados, para se reinventar, se reorganizar. Com a crise financeira, pensou-se que chegara o fim do neoliberalismo, o fim dos mercados tal como os conhecíamos, que nada nunca mais seria igual. Mas depois da crise temos um capitalismo ainda mais violento e agressivo, com características mais autoritárias. A austeridade que se escolheu cumpre os propósitos de o capitalismo chegar à educação, à saúde, à segurança social…” (ibidem). A combatente sabe que essas iniciativas das chamadas ‘economias de partilha’, além da sua escala restrita, em que sempre funcionam, não podem, de modo algum, ser despolitizadas, de contrário não subsistiriam… “até porque o mercado tem tendência para canibalizar essas formas alternativas. A questão é: será que podemos pensar numa sociedade em que coisas essenciais não tenham como objectivo a maximização do lucro? O lucro entrou e invadiu todas as esferas da nossa vida…” (ibidem). A Doutrina do C.E.H.C. tem uma Resposta crítica (global) a esta Quaetio: A) A Economia política estruturada em 2 Planos ou mundividências substantivamente distintas: o dos Objectos ou Mercadorias, onde o Lucro pode reinar com legitimidade; B) o dos Sujeitos Humanos, enquanto Indivíduos-Pessoas livres e responsáveis, onde o Lucro foi vetado ab initio. Ora, neste novo horizonte que se apregoa, o Keynesianismo pode muito bem constituir o Precursor, na medida em que juntou os meios e as medidas próprios e adequados para castrar o Capitalismo das suas ‘naturais’ selvajarias, esses vícios infernais do Lucro egoísta/egotista, tão explorados e enaltecidos pelo Neoliberalismo contemporâneo, que historicamente foi suposto ser a derradeira fase do Sistema capitalista ocidental (mundializado). ‒ Sê-lo-á?!... Ou haverá outra metamorfose?! Ao aprofundar o Tema do Lucro, dá-se conta (criticamente) de que essa ‘Mola propulsora’ não é, senão, o pretexto para introduzir uma ‘outra realidade’, ‒ a do Crescimento, que, supostamente, envolverá todo o Sistema Económico-político. E, aí chegados, dá-se, igualmente, conta (criticamente), de que mais importante e decisivo que o Crescimento (sempre mensurado em termos matemático-estatísticos, como é ordenado pela ‘Accountability’), é o Fenómeno do Desenvolvimento, que vai pôr em causa, como centro de polarização e interesses, precisamente, o Bem-Estar das Populações e das Pessoas e o seu melhoramento ou improvement. Não esquecer, aqui, o Teorema de Paulo VI, na Enc. ‘Populorum Progressio’: O Desenvolvimento é o vero nome da Paz; uma paz que é percepcionada como um processo dinâmico de uma sociedade mais humanizada, aberta a riquezas que devem ser partilhadas. Mariana Mortágua conhece, muito bem, como canta a cartilha da Economia política capitalista tradicional (alicerçada na Cultura do Poder-Condomínio): “Lucro e competição. A questão do Lucro invade a vida… Os hospitais têm de dar lucro, tudo tem


de dar lucro… Há instituições que devem prestar um melhor serviço à sociedade e que podem ser deficitárias, do ponto de vista financeiro, mas que são compensadas de outra forma pelo serviço que prestam à sociedade. O crescimento depende da forma como é medido. Se eu produzir couves no meu quintal e você ovos e trocarmos produtos, não conta para o PIB. Se houver um derrame de petróleo na costa portuguesa, vai ser escandaloso, péssimo para a biosfera, mas aumentará o PIB, porque é brutal o dinheiro gasto para limpar o derrame. A opção de crescimento tem de ser alterada. Hoje, tal como no passado, nos primórdios da economia política, o nosso objectivo de vida não pode ser apenas gerar, acumular riqueza. Mas criar bem-estar. Houve um momento em que se confundiu acumulação de riqueza com bem-estar”. O Sistema capitalista estilhaça tudo… para tudo uniformizar e poder medir homogeneamente. Por isso, a desumanizante ‘Lei do lucro d’abord’ tem de estar omnipresente, mesmo em todos os processos de mudança, induzidos por catástrofes ou malfeitorias, ou simplesmente exigidos pela melhoria de serviços ou prestações sociais!... M.M. conhece muito bem a regra de que ‘os interesses financeiros são sempre interesses de curto prazo’ (ibi, p.31). Por quê? Porque, na área das Finanças, tudo é medido e avaliado em números… o que, aí, é nomeado de produtos (ou mercadorias…) é um discurso falacioso e apenas prismático, em termos de Economia Política. Assim, como tudo é aí avaliado estatisticamente, não se dá atenção adequada ao seu significado, às suas referências à Realidade real!... Dir-se-á, pois, que o tempo e a elaboração histórica dos produtos reais não são aí avaliados e medidos… A dimensão da vida real e a prevenção do acaso não são, aí, assumidas na devida conta!... “Salgado queria dinheiro para investir no GES. Era o seu objectivo, e conseguiu-o através da PT. Zeinal Bava precisava do apoio de Ricardo Salgado para outros negócios. O resultado final foi um desastre. Mas as decisões destes dois indivíduos, naquele momento, são racionais, e este é o problema” (eadem, ibidem). “Para cada um que participa no processo, foi tomada a decisão mais racional e que, naquele momento, lhe podia maximizar o lucro…” (eadem, ibidem). É óbvio que um processus destes é suicidário, por definição. Explicação de Mariana: “Mas nenhuma destas pessoas está a olhar do ponto de vista que nós estamos, que é de cima. Nenhum está a olhar como um Estado deve olhar, que é o de quem quer gerir o bem público e o bem comum. Marx e Keynes chamaram-lhe falácia de composição. Ou seja, o que é correcto para um indivíduo é um desastre para todos, quando todos o fazem ao mesmo tempo. Na lógica dos mercados, cada um age de acordo com o seu melhor interesse, e é por isso que é preciso existir um Estado que pondere os elementos e decida sobre o bem comum” (ibidem). Não é esta a Avaliação sumativa (global) destas situações (tipificadas), por parte do CEHC: 1º: A sabedoria (cidadã), que deveria encerrar a simples existência de um Estado democrático, actuando em todas as situações, deveria, por si mesma, obrigar à boa e adequada solução de todos os problemas em causa. 2º: O Estado só continua a ser visto e a funcionar como uma ‘Divindade de Substituição’, porque o que prossegue fun-cionando na cartilha da Organização societária é o estatuto do ‘Homo Sapiens tout court’ (o padrão da Sociedade/Rebanho), não a gramática (democrática) do ‘Homo Sapiens//Sapiens’. Quanto ao caso do Estado Grego, Mortágua tem toda a razão: “Ele existe, e é possível ganhar apoio popular para ter esse governo, mas na Europa não há espaço para qualquer governo, que não sirva os interesses económicos do centro da Europa e dos mercados financeiros” (ibidem). No fundo, a Lição resultante do ‘Conflito’ entre a Héla-de e o Eurogrupo é esta: a Democracia, instalada institucionalmente a Ocidente, não é mais do que uma Falácia… a prova real disto mesmo está aí: nos milhares de refugiados (de guerra) e de migrantes, que, diariamente, batem às portas da Europa, e


não encontram sequer uma solução de sobrevivência, depois de darem o que tinham aos trafican-tes e uma grande parte deles morrer sepultada no Mediterrâneo!... Mariana sabe o que está a dizer. Na verdade, “se ainda temos algum controlo, é porque há partidos que não alinham nessa subserviência. O que a Grécia nos mostrou é que a União Europeia em que vivemos, dominada pelas instituições que conhecemos, não tolera quem pensa de modo diferente e quem queira ter políticas diferentes” (ibidem). Eis por que, o óbvio e palmar em tal situação é asseverar e concluir: “Isto quer dizer que não vivemos em democracia. O que existe é uma imposição de uma série de in-teresses” (eadem, ibidem). A situação do Eurogrupo e da U.E. deteriora-se a cada dia que passa. M.M. esboçou a via de saída: “É o projecto que o Bloco propõe e que o Syriza propõe, que é a reestruturação da dívida, a reforma fiscal, o investimento público em actividades que sejam úteis à sociedade. Isto tem de ser feito” (ibidem). Ora essa via terá de fazer pontaria em dois agenciamentos paralelos e simultâneos: a) pôr termo a essa pandemia ideológica do Neoliberalismo globalizado; b) recuperar, plenamente, os moldes económico-políticos do Keynesianismo, que foi a Bandeira triunfante do período histórico conhecido dos ‘Trinta Gloriosos’ (1945-1975). Mariana Mortágua é militante inteligente e aberta ao Diálogo, sempre necessário e fecundo entre Seres humanos de boa vontade. O seu ‘espírito de corpo’ é sensato e ro-busto, ao prestar e resumir, na entrevista, o seu depoimento como segue: “Seria impos-sível dizer as coisas com a mesma consciência e leveza se não estivesse no Bloco. Formei-me politicamente no Bloco, e se falo com convicção é porque acredito no meu partido. O Bloco de Esquerda deve ser a voz da Alternativa” (ibidem). ‒C‒ No Fio da Navalha ● No Processo de longa duração do Processo Histórico das Civilizações, em demanda de uma Civilização Humanizada, nunca foi tão importante e decisiva a chamada ‘discretio spirituum’ (discernimento dos espíritos). Chegámos a uma encruzilhada da Grande História da Humanidade, onde já não valem categorias mentais como as oposições entre matéria e espírito, entre o individual/egoísta e o colectivo (v.g., na transviada ‘planificação socialista’, com exclusão do ‘mercado’), entre o simples ‘livre arbítrio’ (próprio das ‘Sociedades-Rebanho’) e a Liberdade Responsável dos Indivíduos-Pessoas, a qual se encontra, em termos civilizatórios, numa época (como a hodierna), em curso de franca emergência. Nunca, em suma, aflorou, civilizacionalmente, com tanta força e nitidez, o Conflito fecundo entre o padrão/estatuto da Espécie ‘Sapiens//Sapiens’ e o padrão/estatuto (tradicional) da sub-espécie, que dá pelo nome do ‘Homo Sapiens tout court’. Contemporaneamente, pois, estamos vivendo uma Época de Transição evolucionária/revolucionária, cujos parâmetros e balizas têm de ser garantidos e acautelados por verdadeiras Autoridades ético-morais esclarecidas, para que a EVOLUÇÃO possa ocorrer com êxito. São as Questões primigénias do Uno e do Múltiplo, do Indivíduo e da Sociedade que estão em causa. E, neste contexto estrutural/estruturante, já não faz sentido, nem ajuda nada a uma Evolução positiva, a velha e tradicional Dicotomia ideológica da Separação (instaurada pelos filósofos da Modernidade… tais como T. Hobbes, J. Locke, J.-J. Rousseau, Stuart Mill, A. Tocqueville, etc.) entre as religiões institucionalizadas e a Sociedade politicamente organizada.


É neste horizonte criticista, que artigos de rebus oeconomicis, na colecção ‘Incentivos e Escolhas’, de Luís Cabral, sob o título ‘LIBERAL’, têm o seu lugar e pertinência propedêutica (cf. ‘Expresso’/Econ., 29.8.2015, p.30). Aí são alinhadas, em janela, duas teses que se conjugam e compreendem reciprocamente (ibidem): A) “A defesa da economia de mercado ‒ incluindo a regulação de mercados que por si só não funcionam bem ‒ é perfeitamente compatível com uma concepção ‘activista’ da justiça social”. B) “A defesa da economia de mercado não implica uma teoria de justiça social anti-redistributiva”. ‒ Como sabia, e tinha em conta, tudo isto (e muito mais…) J.M. Keynes, na sua Arquitectónica sócio-político-económica, que veio historicamente a dar pelo nome complexivo de Keynesianismo!... Escreve o nosso economista Luís Cabral (ibidem): “O ideal da igualdade de oportunidades, por mais elegante que seja a nível teórico, é claramente inatingível: em última análise, enquanto tivermos genes diferentes, será impossível garantir um ponto de partida uniforme. Muitos economistas ditos ‘liberais’, que compreenderam a eficácia da economia de mercado, defendem uma política social de cariz altamente distributivo”. Agora, muita atenção ao que escreveu o economista (ibidem): “As diferenças principais, no espectro político, encontram-se na resposta a duas perguntas. Primeiro: o que fazer quando os mercados não funcionam bem, regulá-los ou substituí-los por planeamento central (ou algo semelhante)? Segundo: como e até que ponto deve ser levado o processo de redistribuição?”. Ora, em toda a problemática abarcada por esses dois Fenómenos societários (só aparentemente contrários e contraditórios...), que são o 'free market’ e a Regulação do Estado, é preciso que os governos tenham a sabedoria de encontrar o equilíbrio tensional, o fiel da balança. O que aí funciona bem é a ‘teoria do acordeão’!... O que pressupõe e implica, desde logo: 1º Respeito pelos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos, tendo em conta, naturalmente, os seus direitos adquiridos; 2º Não misturar ou confundir áreas de política democrática, básica e substantiva, e áreas de política económica; 3º Nestas últimas áreas, ter em conta a distinção entre A) bens e serviços comuns e públicos (tais como o Direito, a Habitação, a Educação, a Saúde, a Segurança Social); b) bens, serviços e interesses, que podem perfeitamente ser arrolados na esfera particular ou privada. Por que fazem sentido (e são necessários) todos estes cuidados e cautelas, na gramática da boa e prudente Governação? Designadamente, o que acima foi subsumido (pelo leitor eventual) como ‘concessão exagerada’ à cartilha Liberal?!... Em última análise, porque está emergindo e a fazer o seu caminho o novo estatuto humano do ‘Ho-mo Sapiens//Sapiens’ (que é Realidade Individual→Social). Subsequentemente, porque uma tal percepção crítica postula que sejam respeitados os seus efeitos e consequências societários. Assim, por conseguinte, dá-se conta, perfeitamente, desta Regra elementar: Para que o Processus (singular e localmente, no geral e na sua globalidade) seja bem sucedido, é necessário e indispensável que a cartilha liberal seja balizada e controlada (desde logo na sua ‘hybris’ e desmandos selvagens…) por uma postura económica, assumida tanto à escala nacional como à escala internacional, a partir, no vértice, dos Portões abertos e atentos da O.N.U.. Na verdade, o que se deverá entender por Liberdade, num regime verdadeiramente Socialista, não é nem pode ser o ‘livre arbítrio’ tradicional, o estatuto generalizado, ainda, do ‘Rebanho humano’. Será que, agora, enquanto se esperava, globalmente, o fim e a superação desta ‘Great Depression’ de 2007 a 2015, vamos deparar com uma nova recessão internacional, resultante do arrefecimento da Economia chinesa e da ‘queda’ significativa do yuan, acompanhando os preços baixos do barril de crude, desencadeados pelo excesso de oferta do shale (petróleo de xisto) norte-americano, decorrente da nova revolução


tecnológica aí verificada?!... ‒ A situação actual, em que uma crise prolongada, à escala internacional, é encadeada por uma outra, também internacional, impõe, absoluta e urgentemente, a intervenção adequada das Nações Unidas, até para ajudar a resolver, por carambola, a tragédia internacional dos Refugiados de guerra e dos Migrantes!... Essa Intervenção é necessária e urgente, nas próprias áreas da Economia política. Como conclui António Costa Silva, no seu artigo ‘Mercado petrolífero e commodities’ (in ‘Exp.’ cit., ibi): “Não é nada que já não tivesse acontecido: basta lembrar as crises em cascata de 1998 que começaram na Ásia e depois se propagaram à Rússia e América Latina. O que temos aqui de novo é que, com a intensificação e a interdependência económica e financeira, estes ciclos são mais letais e comprimidos no tempo, mais instáveis e mais imprevisíveis. A desregulação dos mercados, o enfraquecimento dos Estados e a ausência de um modelo de governance [económica] global não ajudam, e, por isso, a economia mundial navega num mar de escolhos numa tempestade perfeita”. A esta situação, generalizada à escala global, o Papa Francisco, com justeza e adequação, (quer na Enc. ‘Lodato Si’ sobre a Temática da Ecologia, quer nos seus discursos aos povos das três nações visitadas da América Latina) chamou-lhe ‘ditadura subtil do economicismo’, ‘fumeiro do Diabo’; ‘a economia que mata’, ‘o capital erigido em ídolo’; ‘a ambição, sem freio, do dinheiro que tudo comanda’. É a ‘mundialização da indiferença’, oriunda da implícita uniformização das culturas. É urgente uma res-posta da Comunidade internacional ao ‘convite urgente [do Papa Francisco] para um novo diálogo sobre o modo como nós estamos construindo o futuro do Planeta’. É pre-ciso acabar com este ‘sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso’. Como disse Edgar Morin: a Enc. do Papa, ‘Lodato si’, constitui o último Apelo à necessidade urgente de edificar uma Nova Civilização. (Cf. ‘Le Monde Diplomatique’, Set. de 2015, p.1 e pp.8-9). ‒D‒ Do Exotérico (dualista) ao Esotérico (desocultado): Noética revelada, em termos psico-sócio-antropológicos, à escala da Grande História da Humanidade. ● Estamos, originariamente, há cerca de 5 milénios e meio, na época da instauração das religiões uranianas e da concomitante fundação do Processo histórico das primeiras civilizações agrárias, marcadas com a chancela do Patriarcado e do Machismo e do Predomínio hegemónico do Homem sobre a Mulher. Nessa galáxia, vieram, primeiro, as grandes religiões mitológicas, que se moldaram institucionalmente, constituindo-se como ‘guarda-sóis’ ou ‘guarda-chuvas’ de sociedades humanas, malorganizadas sob hierarquias rígidas e chefias guerreiras, onde a paz era vista como um simples intervalo entre duas guerras. Tinham, aí, o seu habitáculo religiões mitológicas como o Shamanismo, o Hinduísmo, o Bramanismo, o Shintoísmo. Vieram, na etapa seguinte, as três Grandes Religiões de ‘o Livro’, com as mesmas funções de presidir e fundar a organização das Sociedades. Estas (em contraste com as primeiras) pretenderam institucionalizar-se em moldes metafísicos. Advirta-se que o discurso metafísico é na Grande Hélade que tem os seus inícios, ca. de 20001500 a.E.c.; e, por volta de 1.200 a.E.c. ele veio a ser aprimorado mediante a corrente filosó-fica do Iahwèismo hebraico, que superou criticamente o tradicional Elohismo judaico. (Uma referência fundadora do Iahwèismo pode ler-se no Ex.3,14. Todas as três Grandes Religiões de ‘o Livro’ tiveram esta pretensão à Metafísica, à sua fundação na Mundividência metafísica: Judaísmo, Cristianismo e Islamis-


mo. O molde estrutural/estruturante, em que elas eram percebidas e institucionalizadas, não era outro senão o Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Saulo/Paulo. O Islão nasceu, por obra e graça de Maomé, na Arábia (Meca e Medina), nos sécs. VI/VII, co-mo resultado, psico-sócio-histórico, do Arianismo e do Nestorianismo e de outras here-sias cristãs, que vieram a ser condenadas, logo nos 4 primeiros Concílios Ecuménicos (Niceia/325, presidido pelo imperador Constantino, assessorado pelo Bispo Atanásio de Alexandria; depois, nos Concílios de Constantinopla, Éfeso, Calcedónia, etc.). A Grande Heresia, que havia constituído a primeira dissensão na história do Cristianismo, era esse ‘Impossível filosófico’ com que se tinha de designar o Dogma cristão ‘das duas naturezas e uma só pessoa’, referenciado aos dois mistérios paulinos imbricados um no outro: o da Incarnação do Filho de Deus, e o da Santíssima Trindade de Deus. Um tal discurso religioso/teológico não poderia, sequer, ter consistência substantiva para ser enunciado, fora de uma Mundividência metafísica. Eis por que as três Grandes Religiões de ‘O Livro’ obedecem à mesma Lei/Norma de génese e conformação: o molde é sempre o do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo. As Cartas de Paulo, os Evangelhos canónicos e o Apocalipse de João et alii falaram-nos de duas Vindas: a 1ª, a que foi conhecida e bem identificada na História dos Humanos e suas sociedades, a qual, segundo Paulo, constituiu a ‘fons et origo’ de toda a Teoria (teológica) da Redenção (vicária); a 2ª Vinda será a do Juízo Final, universal, em que o Cristo glorioso surgirá, em toda a sua glória, no meio da Corte celestial, para julgar todos os Humanos e celebrar o Fim da História. Ora, uma tal Doutrina teológica só pode ser sustentada na mundividência metafísica tradicional. E, aí, a própria mundividência metafísica vê-se logo confrontada com a teoria básica do Dualismo metafísico-ontológico, que logo se revela, exotericamente, como um ‘Impossível filosófico’, um absurdo, ‒ como argumentará o Filósofo Aristóteles com o seu criticamente Invicto Hilemorfismo. Nos Tempos Modernos, a meio da Modernidade, veio a Escola (filosófica) do Criticismo kantiano, que deixou como conclusão/corolário da Obra de Immanuel Kant, o livro celebrado ‘Prolegómenos a toda a Metafísica Futura’. O filósofo de Kö-nigsberg estabelecia, aí, o testamento e o funeral de toda a filosofia metafísica. Já no séc. XX (a partir da 1ª metade) surge a Escola da Desconstrução de toda a Metafísica (que atinge a sua maturidade com a Obra filosófica de Jacques Derrida) e a recondução, ipso facto, de todo o Pensamento filosófico válido e legítimo, ao que se pode chamar o HILEMORFISMO aristotélico. Assim, no horizonte criticista do Presente e do Futuro, foram irradiadas as religiões institucionalizadas, qua tais; foram eclipsadas e condenadas as doutrinas metafísicas; foram postas fora de acção, na Praxis societária e no Processo histórico, as Divindades extrínsecas e transcendentes, bem como todas as teorias/doutrinas da chamada ‘Redenção vicária/vicariante’. No Espaço-Tempo da Relatividade einsteiniana, dir-se-ia que foram criadas as condições, no horizonte da Evolução cultural da Humanidade, para o Advento das Singularidades dos Indivíduos-Pessoas, ancoradas no Fenómeno da Consciência reflexiva e crítica, onde a cada Ser humano bem formado e honesto, Deus faz a sua revelação como o ‘intimior intimo meo’ (de Aurélio Agostinho, bispo de Hipona). Ora, nesta nova galáxia criticista, o que emerge, a partir da noite dos Tempos, na Cultura do Ocidente (mundializada, justamente, no que ela encerra de Phylosophia Perennis) são dois movimentos histório-culturais, geminados, que dão pelos nomes: Socratismo (no campo do Pensamento e da Metodologia do Conhecimento); e Jesuanismo (no campo da Acção, do Justo e da Justiça). Dir-se-á, nesta perspectiva, que a Pré-história da Humanidade está a terminar, para abrir as Portas à vera e autêntica


História das Sociedades Humanas, que ainda não conhecemos: porque as sociedades ditas humanas se têm constituído segundo a cartilha do ‘Homo Sapiens tout court’, de acordo com a Pauta binária do Rebanho e do Pastor. • Umberto Eco ‒ o conhecido e celebrado filólogo e romancista italiano ‒ caracterizou a actuação do Papa Francisco, à cabeça do Catolicismo, como ‘uma reviravolta da história’. Ao abrigo do Pensamento crítico do C.E.H.C., sê-lo-á, de facto, sob uma dupla condição estratégica: A) se abrir caminho à desconstrução do Catolicismo como religião (oficial) institucionalizada; B) se começar a pôr termo ao catecismo (hegeliano e nietzscheano) da ‘história como eterno retorno’. Sem dúvida, o Papa Francisco (Giorgio Mario Bergoglio, que veio do Sul… e é o 1º papa não europeu, que ocupa o sólio pontifício, depois de treze séculos volvidos) está a procurar penetrar nas esferas nucleares do Psico-Sócio-Ânthropos (a da Individualidade e Interioridade pessoais de cada Ser humano, qua tal). É, justamente, o núcleo duro da ANTROPOLOGIA que ele traz à colação. Na Itália, as discussões e as opiniões em torno da actuação e orientação doutrinais do Papa Francisco têm-se incendiado ultimamente. Glosando o tema recorrente (numa ‘história cíclica’), ‘os Católicos e a Política’, José Tolentino Mendonça, com uma sensibilidade crítica q.b., escreveu um artigo no ‘Exp.’/Rev. de 29.8.2015, subordinado ao título: ‘Os Católicos e a Política no Tempo do Papa Francisco’. A partir do ponto da situação, configurado por U. Eco, ele tece o seguinte enquadramento (ibi, p.80): “está a esboroar-se o esquema que coloca, automaticamente, a direita como defensora do altar e a esquerda como contraposta. Disso dá conta a polémica italiana, que tem incendiado este verão, com bispos e cardeais a serem acusados de filocomunismo pela extrema direita, por questionarem a inaceitável facilidade com que, perante esta crise humanitária sem precedentes, a reacção seja ainda a da fuga a qualquer responsabilidade e a do reforço dos egoísmos mais primitivos. Um aspecto benéfico do debate tem sido, no entanto, trazer para o espaço público, sob novos pontos de análise, a discussão do velho tema ‘os católicos e a política’ ”. Ao que parece, o Criticismo de J.T. Mendonça ficou a meio caminho da Galáxia cultural-crítica, aberta pelo C.E.H.C.. Evocando, especialmente, a Exortação Apostólica ‘Evangelii Gaudium’ do Papa Bergoglio (‘O querigma possui um conteúdo inevitavelmente social: no próprio coração do Evangelho aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros’/nº 177), ‒ ele limita-se a asseverar e a concluir que “de forma insistente, a palavra do Papa Francisco tem contrariado a linha que internaliza e espiritualiza a fé, a ponto de esta ser vivida em total alheamento face à realidade social e política, pois o que interessa é uma salvação que respeita apenas ao além e não ao presente histórico” (ibidem). Numa palavra, J.T.M. ficou confinado (nas suas hipóteses e na Tese) às Forcas Caudinas do Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo e à Doutrina tradicional das Religiões institucionalizadas, que ele não ousa pôr em causa. E, deste ponto de vista particular de crítica e protesto, a Atitude do Papa Francisco, que foi capaz de abrir uma Boa Fenda contra-corrente, na História bi-milenar da Igreja, pode dizer-se que envolveu mais determinação e coragem, uma vez que a Brecha na ‘Traditio Ecclesiae’ foi na sua Pessoa e actuação que teve iniciativa e origem. Foi claramente visto e bem apreciado pelas populações, que a iniciativa de mobilizar as comunidades católicas para uma expressão, também política, do espírito e da mensagem do Evangelho de Jesus, foi do Papa Francisco que partiu (em contraste com a actuação encratista e claramente ‘dualista’ de Bento XVI). Como os dois papas anteriores fizeram, ele não se empenhou em distinguir as duas versões da ‘teologia da libertação’ na América Latina: a marxista e a não-marxista, por forma a condenar a marxista, ou as duas versões em conjunto.


J.T.M. não chega a enfrentar e a resolver a Questão crucial do Confronto filosófico e histórico entre Jesuanismo e Socratismo, dum lado, e Cristianismo, do outro. Por isso, ele ficou enredado nas malhas historicistas do Dualismo MetafísicoOntológico de Platão e Paulo e na sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. Embora longo, vamos transcrever o § inteiro, para o leitor perceber as malhas que o espírito imperial pode tecer sempre (ibidem): “[Como se vai processar a mobilização das comunidades católicas e para que projectos?] Por um lado, evitando os reducionismos que fazem parte do doloroso passivo histórico, que o tema ‘os católicos e a política’ nos lega: quer a redução do cristianismo a uma espécie de messianismo político, que invade e se confunde com a prática política estrita; quer a sua domesticação como religião do estado ou mero adereço cultural, que serve unicamente para fornecer um acrítico suporte ao poder, a troco de um reconhecimento que lhe garanta existência civil. O magistério do Papa Francisco ganha distância dessas tentações históricas e, à luz da Doutrina Social da Igreja, repropõe dois tópicos. Um primeiro que solicita aos cristãos, para a vida pública, não uma visão hegemónica e exclusivista, mas um espírito de abertura, de encontro e de colaboração: os cristãos tornam-se parceiros na construção do bem comum. E, neste particular, as diferenças religiosas ou entre crentes e não-crentes não devem constituir um obstáculo. Um segundo tópico é aquele que recorda o valor inalienável do exercício da dimensão profética para a vida colectiva. A dimensão profética luta por uma qualificação ética da existência, interroga, entende as vantagens de manter o espírito crítico, exerce um poder contestador que é salutar. Numa democracia há, como sabemos, também outros actores nesse campo. Mas a natureza e a memória da experiência cristã pedem-lhe aí uma inexcusável inscrição”. Será que o Sacristão pretende ensinar o ‘Padre Nosso’ ao Vigário?!... A isto, o adágio popular luso replicaria: ‘Com o teu Amo não jogues as pêras’!... Ou será que o Autor pretende salientar a Sugestão reforçada de ver uma Igreja cristã/católica, capaz de aprender algo com a sua própria história passada, nas duas vertentes: negativa e activa?!... Mesmo neste caso, não se vê como J.T.M. poderia sair do odre da Religião ca-tólica institucionalizada, para ceder à Mundividência crítica (iluminada) do Jesuanismo, na sua globalidade. De qualquer modo, é tristemente fruste e frustrada/frustrante a mensagem central inscrita no termo do Artigo: “Uma significativa mudança em curso, nesta estação eclesial, que o Papa Bergoglio agrega, é a relevância que a dimensão social da Fé passou a ter”.


Economia Liberal Piabiyuana Sob Um Olhar keynesiano Tereza Nuñez

Em uma palestra acerca da “Economia Liberal Piabiyuana” (leia-se: “escambos no Piabiyu ao tempo de Affonso Sardinha, no Séc. 16”), o historiador João Barcellos fez um paralelo com a doutrina econômica do inglês John Maynard Keynes. Mas, por que essa comparação? “Ah, os tempos são outros e três séculos a separálos, é verdade, entretanto, a atividade d´escambos com diversos produtos, incluindo o monetário, fez do ´velho´ Affonso Sardinha um poderoso aliado reinol operando uma economia liberal dentro do Estado e para o Estado a promover um progresso social, apesar de escravocrata; e já então a ter o ´ouro como lastro...”, explicou. O historiador foi mais longe: “com o Estado e para o Estado reinol, capitalistas coloniais como Affonso Sardinha criaram um mercado livre que logrou o estabelecimento gradual e certo daquele movimento a que chamo de assentamento serr´acima, sem que isso impedisse de resguardar os seus interesses diante d´El-Rey, aqui o Estado...”. E ele vai a Keynes para demonstrar que “todos os poderosos (ou, os ´homens bons´) agiram tendo como suporte principal a obtenção de sesmarias imensas, o que sinaliza, sob outro prisma, a intervenção estatal num processo socioeconômico ao qual foi o Estado chamado de emergência para assegurar o domínio além-mar”. Isso, dentro da doutrina que séculos depois Keynes iria reformular; doutrina que, por exemplo, o filósofo Manuel Reis também equaciona para demonstrar como “entre a era caraveleira e o navio a vapor o liberalismo se tornou o meio eficaz para, entre a política estatal e o empreendedorismo dos seus satélites na sociedade, validar um progresso” que, embora precário, serviu para impor uma nova civilização na e além linha equatoriana. Também, “o projeto keynesiano já tem lastro na Liga Hanseática e nas operações de capital feitas pela Ordem dos Cavaleiros Templários, de tal sorte que as feitorias lusas na Europa e no Golfo da Guiné seguem essa rota com as Ordenações Afonsinas dando autonomia a uma burguesia mercantil muito ativa e pouco dada a guerras e aventuras feudalísticas em terras d´outrém, mesmo quando esse gentio (não é gente reinol, ou ´sangue azul´) urbano acata o Estado”. Crescer e produzir era o lema hanseático no qual Keynes buscou o idealismo liberal para formatar a sua doutrina. Um pouco “antes de Keynes, o escocês Adam Smith já havia observado, e este via Liga Hanseática, que o Estado tem, sim, a sua importância, mas que a alavanca econômica para uma sociedade mais livre está na realização da sociedade como um todo e não por uma elite, no que Reis sempre tange filosoficamente a lembrar John Milton e a defesa da liberdade de pensamento, logo, de descentralização de decisões em políticas públicas, e, também, Thomas Hobbes no seu humanismo crítico”. O digno historiador Barcellos, atento leitor do mundo que o rodeia e do passado que o fez, observou “a efervescência dos escambos e da produção de alimentos e de utensílios


no Piabiyu, entre a Sam Paolo jesuítica (erguida pelo padre Manoel da Nóbrega), Buenos Ayres e Asunción, a partir dos testemunhos e inventários como o de Affonso Sardinha (o Velho), de 1550 a 1612, quando minerou ouro e prata, e ainda estabeleceu o primeiro ´yngenho de ferro´ além Equador com forjas catalãs no ´cerro d´ybiraçoiaba´”, um feito histórico para a época e a demonstrar como a produção de iniciativa privada gera riqueza sem precisar de um marco regulatório seja de que elite for, apenas incentivo. Entre a chamada ´américa espanhola e a américa portuguesa´, com a linha de Tordesilhas pelo meio, Barcellos diz que “a transformação do Piabiyu em Estrada Geral dos Paulistas foi a chave para um liberalismo econômico que ajudou a assentar o Portugal naquela ´ilha de brasil´ descoberta e nomeada em 1343 pelo rei Afonso IV em carta ao papa Clemente VI [...], mas é com a atividade capitalista e mineradora do ´velho´ Affonso Sardinha que isso toma corpo e se expande no espaço ultramarino luso”. Certo que “o conceito monetarista de domínio pelas elites foi (e é) obstáculo a um desempenho universal, tal universalidade já estava lá atrás nas operações hanseáticas e nas feitorias lusas como que marco regulatório de mercado financeiro e de moeda, apesar do ouro...e até do ´páo vermelho´ (o pau-brasil); e o que se verifica no Brasil de entre o quinhentos e o seiscentos é um olhar e uma operacionalidade de pessoas que quiseram, primeiro, serem elas mesmas, no escambo ou modo monetário, mas uma operacionalidade anda com o ranço reinol absolutista que seria logo ´higienizado´ pela burguesia urbana a respirar uma maior sociabilidade”. Irving Fisher, no início do Séc. 20, defendeu que a ação regulatória do Estado era algo necessário e não prejudicial à Sociedade e à Pessoa, mas a eugenia [pessoa bemnascida, ou educada para ser elite] por ele propalada era a base desse raciocínio antiliberal: base que se alargou ao caudilhismo fascista de nazis e soviéticos, e que os reinóis euro-católicos já disso faziam prática e tendo os impérios romano, egípcio e persa como exemplos. E na verdade “[...] a base ideológica de todo o colonialismo tem a eugenia como pedra de toque; e, nas américas espanhola e portuguesa, o caudilhismo virou coronelismo enraizado na posse sesmeira, i.e., num Estado que se dividia entre o clero e a fidalguia. Por isso, quando se compara essa época à doutrina de Keynes percebe-se melhor a ascensão dos gentios burgueses que logo criariam a ruptura como o Estado reinol absolutista sob orientação, também, de maçons liberais”. A palestra de João Barcellos, em pleno Séc. 21, abriu espaços para mais diálogos afins, e de sorte que logo-logo, surgiu a tese “Keynes e o Keinesianismo”, de Manuel Reis, que expandiu ainda mais esse diálogo. É deste humanismo crítico que a sociedade precisa para sair do aparelhamento de políticas sindicalistas que têm o caudilhismo como bandeira de ação e de desprezo pela opinião alheia...

NUÑEZ, Tereza _ Buenos Aires, Argentina.


PALESTRAS ACERCA DA

JAGUAMIMBABA Portugueses De Serr´Acima Entre a Paranapiacaba e a Jaguamimbaba Caminhando pela Estrada Geral

João Barcellos


abrindo a porteira... Observar a importância geossocial da estrada geral [dos paulistas] entre as serras que acompanham a linha litorânea na ligação aos mattos y certõens habitados por povos florestais, uns nitidamente telúricos [muiramomi] e outros civilizados em torno de mitologias próprias [guarani e tupi], é perceber a precária odisseia colonial do povo português que, na ilha do brasil, sagrou-se povo ultramarino a comprovar a sua saga africana. Ao trazer à luz este aspecto, e vos digo com clareza, o assentamento luso-cristão o foi no convívio da conquista com o sangue e o ódio, a ganância e, também, a fé por um novo portugal. Olhar o mapa desse desafio e, nele, o genocídio, não significa negar a evidência de um tempo cultural em que a escravatura era parte do cotidiano político e econômico – logo, a essência de um ser-estar social e religioso. E então, digo-vos, nessa paisagem geossocial está um povo europeu e um continente tribal; e, entre a paranapiacaba e a juagamimbaba, serras que têm no meio a sam paulo dos campi de piratininga, está a essência de uma nação nova e mameluca dita brasil. E nada é mais importante para uma nação que deter a sabedoria que a leva ao conhecimento da história própria. Que assim seja.

O Autor

1 _ os povos nativos Lá no alto da serra percebe-se o oceano atlântico: é a paranapiacaba, na linguagem tupi e guarani, linguagem de povos distintos que se confunde em muitos termos..., e, quando aportuguesados, geram expressões que os nativos também não entendem. Isto é a sul da Linha de Tordesilhas, porque a norte, avançando pelo espigão de piratininga [q.s. peixe seco], além do anhamby [q.s. rio de nambus / tipo de galinha] e do jerybatiba [q.s. rio de palmeiras], cursos d´água de ligação para a maioria dos povos nativos, chega-se a jaguamimbaba, que os portugueses de serr´acima optam por nomear como serra da cantareira, tantas foram as vezes têm de guardar água em cântaros de barro por aqui mesmo.


E daqui, onde estão os nativos muiramomi até onde vivem os guarus se vai por uma trilha serrana que continua a que da paranapiacaba (subindo a serra do mar) leva ao planalto de piratininga, entre caucaia [planta medicinal] e a koty [lugar d´encontro] até à carapocuyba [águas revoltas] – e aqui, na carapocuyba, podem colonos e nativos embarcar para terras e gentes vizinhas [goayaz / goayanazes], ou, avançar pela serra. A região da jaguamimbaba é habitada pelos guarus [pessoas pequenas e barrigudas] e mesmo tupis e guaranis dispersos. Quando a gente muiramomi saíram dos paranás [rios separados por um canal] adentraram a jaguamimbaba via portinho de carapocuyba e perceberam nos tupi-guaranis adversários que logo os denominaram como tapuia, q.s. inimigo, por serem goayanazes e de fala travada, como a de muitos povos amazônicos, não comiam raízes (mandioca) e habitavam cavernas. Perseguido e escravizado, o muiramomi é o povo mais dócil a que os colonos dão trato, pois, é gente que tem por honra virar comida para o inimigo conquistador...

2 _ a demanda por pedras preciosas Dominados os povos nativos litorâneos, os portugueses que sobem a serra do mar pela paranapiacaba, a sul, ou pelo cubatão [termo português apreendido entre africanos e q.s. rancho grande, ou fogo maior, na cordilheira/serra], a norte, em busca de pedras preciosas e, ao mesmo tempo, de terras para a lavoura, já encontram além dos conhecidos tupi-guaranis aquela gente muiramomi que desconhece a rede-dedescanso e a cerâmica e circula entre cavernas perto de riachos.


Na região exuberante e selvagem da jaguamimbaba aprendem com os guarus – mais com estes do que com outros povos – que existindo uma árvore de grande porte distribuindo-se pela mata, na verdade, um tipo de carvalho tropical [o ´euplassa cantareirae´], isso é sinal de presença pedras brilhantes [pepitas] soltas em cursos d´água, quiçá, de veios auríferos. O certo é que os portugueses adentram a jaguamimbaba em busca de ouro e ali criam fogos [assentamentos/ranchos] que permitem a exploração de novas trilhas.

3 _ o assentamento geossocial Entre a busca por pedras preciosas e o assentamento agrário, os portugueses dividem-se entre a sam paolo dos campi de piratinin e a região cabuçu [q.s. vespa de coloração negra] de guaru tendo a serrania de pirucaia [pirucaia, q.s. peixe queimado] como divisa natural e, logo, a região de mairiporã [q.s. água boa de maíra / divindade tupi], ou seja, um assentamento precário e, ao mesmo tempo, preciso, porque vai demarcando a territorialidade colonial e alargando o que já se define como estrada geral entre as serras.

É a partir da saída de sam paolo para guaru via tremembé [q.s. viscoso] que a gente portuguesa alcança a jaguamimbaba e em seu redor fomenta o assentamento de


fogos, que viram ranchos e, logo, vilas. De tal sorte que um povo numeroso que se diz tremembé e habita o sopé da serrania é o abre-alas que sinaliza as trilhas para o assentamento.

4 _ trilha de tropas e sertanistas Já a jaguamimbaba é território ocupado quando a estrada geral se torna vital para a relação mercantil entre os próprios portugueses que, de tropa em tropa, vila em vila, mina em mina, fazem uma economia liberal que assusta os reinóis nos Anos 70 do Século 16, tendo à frente Affonso Sardinha (o Velho), minerador, fazendeiro, escravagista, capitalista e político – personagem que em 1592, com o título de capitam das gentes de sam paolo toma o pico do jaraguá [jaraguá, q.s. senhor do vale] depois de ter tomado o portinho de carapocuyba e as terras de ybitátá [q.s. terra batida], minerar ouro no Ibituruna [q.s. terra preta] // nativos ibiturunas] e ferro no ybiraçoiaba [q.s. onde o sol se esconde]. 4.1 _ do piabiyu & da jaguamimbaba A presença lusa serr´acima não se dá por acaso: é com os nativos tupis e guaranis que descobrem a logística de sobrevivência dos povos florestais.

Essa logística tem na base um tronco: o piabiyu [q.s. caminho de terra amassada], uma trilha ancestral guarani que liga os continentes americanos e, na capitania vicentina, faz a ligação sul-norte com ramificações para os mattos y certõens y minas além da beira-mar. O piabiyu adentra a jaguamimbaba no sentido norte e é isso que permite uma colonização que, de serra em serra, estabelece pontos de contato fazendo do próprio piabiyu a sua estrada geral. O caminho é tão utilitário que por ele a migração dos povos nativos é feita regularmente achando-se em algumas koty [q.s. casa de encontro] reunião de diversas


etnias, tanto do sul paraguayo [dos nativos guaranis e payaguás] quanto do norte pela foz do ryo siará. 4.2 _ jaguamimbaba: celeiro do progresso na estrada geral A serra, que aos poucos mostra aos portugueses que o ouro não faísca, mas fornece uma riqueza ´verde´, transforma-se em cinturão agropecuário que abastece a sam paolo das tropas [comboios de muares carregando alimentos e vestuário e utensílios] e das bandeiras [unidades paramilitares de combate e aprisionamento], seja no sentido das vilas ou no dos arraiais mineiros. Eis porque a jaguamimbaba é parte e é essência da estrada geral que, mais tarde, no Século 16, vai ser margeada pelos caminhos reais no escoamento das pedras preciosas para o cais de paraty; também, é a mesma estrada geral que passa pelos mattos y minas do paranapanema [paranapanema, q.s. rio manso] no Século 18. Assim, a juntar o celeiro formado nas bandas do certam d´águas dito ibiuna [q.s. terra preta] e ribeirão da vargem grande e caucaia, ao da jaguamimbaba, tanto a capitania vicentina quanto a sam paolo jesuítica têm um crescimento geossocial admirável; e, logo, vilas como m´baroeri [q.s. água veloz] e quitauna [de catauna, q.s. pedra preta] e byrapoera [q.s. árvore velha], por exemplo, tornam-se pontos de contato logístico que se estende a borda do campo e a guaru, pelo lado norte, e à região das sorocas [terra rasgada] d´ybiraçoiaba, pelo lado sul.

E assim é que entre as águas guardadas em cântaros de barro e a ´cantareira´ das aves, a jaguamimbaba vira referência principal para a estrada geral.


5 _ de faiscadores às vilas uma floresta urbana exuberante e poética O tempo e o espaço demarcam jornadas e vidas, por isso, quando no Século 18 o 4º Morgado de Matheus [Luís António Mourão] chega sam paolo para chefiar a capitania paulista, o espectro político reformador pombalino [Marquês de Pombal, primeiroministro do rei José I] faz uma ruptura fundiária e transforma os latifúndios jesuíticos em novas vilas e unidades agrárias e industriais. Tal visão possibilita a preservação da jaguamimbaba e de outras áreas serranas, cujos contornos econômicos são mais eficazes como contra-ponto à atividade mercantil agropecuária e minerária. Faiscadores os há, sim, mas as vilas ganham urbanidade com a nova política pública instalada pelo Morgado de Matheus, e os mineiros buscam as suas sortes nos arraiais próprios. Os contrafortes da jaguamimbaba e da paranapiacaba, por ex., são então olhados como porteiras de reservas naturais e se protegem, também, as margens e canaviais ao longo do anhamby e do jerybatiba. E como a floresta atlântica tem relevo montanhoso grande parte foi preservada até pelo difícil acesso dos colonizadores que nela não puderam plantar fartamente. A diversidade da floresta tropical impôs-se naturalmente nas serranias, ao contrário das situadas em planícies e sorocas, onde a devastação deu origem a vilas e cidades e grandes pastos. Hoje, no Século 21, entre a paranapiacaba e a jaguamimbaba temos uma floresta urbana exuberante e poética que temos de preservar custe o que custar.

No sopé da Jaguamimbaba escutando a ´cantareira´ e em Paraty, 1996.


Ouro Na Jaguamimbaba

João Barcellos

Abrindo & Poetando as pedras que brilham não m´ofuscam o sonho me é identidade ganância não olho o que fui naquela geração e não me vejo nessa idade uns e outros lutam sofrem vãs feridas porque as pedras brilham

e tanto brilham que servem de mortalha à ganância de muitos e de sorte a poucos as pedras que brilham ferem a leveza com atos loucos e s´erguem nações na fornalha d´ímpios que brilham

nas catas d´água os olhares brilham são luzes na escuridão entre veios d´ouro tudo faísca entre as pedras que brilham


Parte 1 Ouro & Portugueses de Serr´Acima

Nos anos 80 e 90 do Século 16 os portugueses e, já então, os mamelucos, vivenciam momentos de ganância e glória pela descoberta e mineração de pedras preciosas e ferro, tanto na cata de lavagem quanto em galerias de fundos veios.

Ouro em veio de galeria e ouro-de-lavagem [ft de João Barcellos no Ibituruna e gravura de Rugendas]

Nos ´certõens y mattos´ a norte e a sul da Sam Paolo jesuítica, ainda sob jurisdição da Capitania vicentina, entre as serras de Paranapiacaba e Jaguamimbaba, gente de formação tecnóloga em Montanística [hoje, Geologia], principalmente padres e militares, seguem trilhas tradicionais dos povos Tupi e Guarani, principalmente estes, e chegam a locais que o serviço reinol demarca como propriedade da Coroa para futura exploração sob contrato específico ou no âmbito sesmeiro. Logo que Affonso Sardinha (o Velho) toma o posto de ´capitam das gentes da sam paolo´, em 1592, para tomar o Pico do Jaraguá e abrir definitivamente os caminhos para os ´mattos y certõens´, é descoberto ouro nos cursos d´água da Jaguamimbaba, serrania ligada à Mantiqueira [amanti-kir, q.s. serra que chora], e é ouro-de-aluvião, o que faz dos certõens karai-yós [ou guaranis] o primeiro grande arraial de mineração no Novo Mundo português. Só depois do ouro paulista´, no Século 17, surgem os arraiais de Cataguazes e Goyaz.


Homens como Braz Cubas e Clemente Álvares, Affonso Sardinha (o Velho) e o filho (o Moço), tornam-se tão importantes entre a linha d´água litorânea e o planalto acima da serra do mar que geram lendas, mas, na verdade, eles e outros penetram as florestas tendo uma trilha principal – o Piabiyu guarani – como guia, trilha que logo se transforma em Estrada Geral para paulistas e mamelucos. É na demanda por gentes nativas para o trabalho escravo que os portugueses alcançam lugares que os encantam: ouro em pepitas soltas nos riachos ou em veios que se aprofundam em galerias a serem ampliadas.


Braz Cubas e Affonso Sardinha (o Velho) e respectivas assinaturas

Locais como Pico do Jaraguá, Morro d´Ibituruna, Floresta da Jaguamimbaba, serranias da Paranapiacaba e Cahativa, o Rio Brízida (ou Sta Brígida, mais tarde Rio Sorocoba) e o Cerro d´Ybiraçoiaba, entre outros, são locais sinalizados pelo gentio e que os oficiais reinóis em diligência logo mapeiam para exploração em nome d´el-rey.

Parte 2 Arraiais d´Ouro & Assentamento Colonial Todo o Século 16 da presença portuguesa na Ilha do Brasil, e mais a sul, e já no âmbito da Capitania de S. Vicente, vila e capital que substitui a aldeia-cais Gohayó [o Cais das Naus] levantada por Cosme Fernandes [o Bacharel de Cananeia] com os nativos guaranis, é o período político e militar dominado por Martim Afonso de Sousa, o governador-geral que ali desembarcou em 1530 para dar início oficial à colonização. 2.1 O que se pode denominar Ciclo d´Ouro Paulista tem Affonso Sardinha (o Velho) e Braz Cubas como principais protagonistas, a par do fundidor prático Clemente Álvares, entre outros menos conhecidos nas atas da Vereança paulistana e no regimento da Capitania vicentina.

Arraial de mineração _ Paranapanema


E, mais uma vez, é a Estrada Geral guarani que dá o norte e dá o sul – a saber: descobertos os lugares do sonho aurífero e mapeados para exploração unicamente por reinóis – os ditos ´homens bons´ a serviço da Coroa portuguesa no ultramar –, os fogos de mineiros transformam-se em arraiais, e surgem a sul os arraiais de Ibituruna, do Pico do Jaraguá, do Cerro d´Ybiraçoiaba e Vale do Ribeira, e a norte, os arraiais da Jaguamimbaba, de Sant´Amaro do Byrapoera e Sant´Anna do Parnaíba, seguindo para Guaru [Ribeirão das Lavras] e, aqui mesmo, a aldeia guarau dita Caucaia, que representa a cultura guarani tal e qual a Caucaia do certam d´itapecerica e a de além ryo Siará, assim como a Ibituruna de Meiembipe se represemta na de entre Ybiraçoiaba e Jaraguá e logo no certam de Cataguazes – a rota piabiyuana guarani... São os arraiais da mineração que estabelecem as condições primárias para o desenvolvimento continental da Capitania vicentina tendo a Sam Paolo jesuítica no meio da Estrada Geral. As atividades de Braz Cubas, e mais do prático Luís Martins, que o substituiu a partir da Cahativa e do Rio Brízida (depois, Rio Sorocaba), foram ordenadas em 1560 pelo governador-geral Mem de Sá, que havia reunido as suas tropas entre Guarujá e Itapema para ir expulsar os franceses da Guanabara. O primeiro impulso reinol em prol do ouro foi dado, na verdade e na Capitania vicentina, pelo ´carioca´ Mem de Sá.

2.2. Entretanto, desde 1580 o reino de Portugal está sob jurisdição da Espanha, pois, o rei Sebastião morreu na batalha d´Alcácer-Quibir, no norte d´África, sem deixar herdeiro. É o mais longo interregno administrativo em Portugal por causa de complicações d´alcova, ou, porque elas não existiram... Governador do Brasil nomeado pelos espanhóis, Francisco de Souza, tomando consciência da situação dos arraiais informais que se alastram na região vicentina, e sendo ele do tipo ´cheguei, chegando´, ordena que Diogo Gonçalves Laço tome o posto de administrador das minas de ouro, prata e metais descobertas e por se descobrirem, tendo como homens de campo os castelhanos e oficiais do metal Miguel Azurara e Gaspar Mualho, além do português Domingos Rodrigues. 2.3 É o altivo, mas ativo governador Souza, que vai ao arraial ferrífero d´Ybiraçoiaba e por ali fica e onde manda assentar a Villa de Nª Sª do Monte Serrat [obs.: com pelourinho], ciente da importância da administração republicana e cristã. Souza chega à Sam Paolo, em 1599, anunciado por uma fanfarra militar e uma comitiva de reinóis e engenheiros montanísticos experimentados, como o italiano Baccio de Filicaya e os alemães Jacques Palte Geraldo Betting. E, no início do Século 17, o governador forma expedições para avançar nos mattos y certõens em busca de ouro e prata, e então seguem, primeiro, André de Leão (com o holandês e ´montanista´ prático Wilhelm Glimmer), e segundo, Nicolau Barreto (este, com Affonso Sardinha, o Moço, que morre em combate no ano 1604). A par das explorações minerárias, o governador Souza faz trato de equipamento especializado para fundição com o ´velho´ Affonso Sardinha [que morre no seu arraialfazenda no Pico do Jaraguá, em 1614], tendo em vista a fábrica de ferro de Sant´Amaro do Byrapoera, elabora ´bandos´ para promover a indústria e a agropecuária. É o primeiro grande elenco político-administrativo que levará a Sam Paolo dos Campi de Piratininga a ser o eixo do desenvolvimento do Brasil.


Parte 3 Jaguamimbaba _ a mãe dos arraiais d´ouro

Jaguamimbaba: trilha e vila na serra

É verdade. Um século antes do surgimento do fenômeno conhecido como ´minas gerais´ e que vai gerar a capitania com tal designação a partir das ´terras y gentios de cataguaz´, é a serrania da Jaguamimbaba que acolhe os portugueses e mamelucos que lhe buscam nas entranhas o geo-produto tão desejado: o ouro. Eis que a Jaguamimbaba, entre as passadas ágeis da onça parda e a ´cantareira´ da passarada, e no intercâmbio entre gente Muiramomi e Guaru, torna-se o objeto do desejo para quem ousa avançar na demanda da paisagem aurífera e argentumiana, quiçá, diamantina... Passada a odisseia de subir a serra, ora a norte por Cubatão, ora a sul por Paranapiacaba, tudo parece mais fácil tanto para os práticos d´yngenho de ferro quanto para os sábios tecnólogos montanísticos que haviam desembarcado com Martim Afonso de Souza anos antes e que fizeram do Vale do Ribeira e do Cubatão sítios experimentais ao saberem que o Bacharel Cosme Fernandes (de Cananeia) já do ouro e da prata tinha ciência via guaranis. Palestra / Pico do Jaraguá, 1996


VILLA DE BARCELLOS Do Rio Cรกvado Ao Rio Negro Joรฃo Barcellos

Villas de Barcellos, no Cรกvado e no Rio Negro


Introdução O ambiente político em meados do Séc. XVIII, quer em Portugal quer no Brasil, é uma novela diplomática cujos contornos se encontram em actos de maçons nos “[...] bastidores políticos da Europa que os ingleses querem para si, mas a cobiçar ainda, como os holandeses, o vasto território colonial português na Floresta Amazônica” [Liffey, 1972-73], e actos de maçons explicitados em vasta correspondência portuguesa, inglesa, castelhana e francesa coeva. Sobre esta correspondência ainda existe muita carta para pesquisar, e isso é notório, como “[...] é notório o desinteresse académico neste tipo objectivo social e pedagógico” [Macedo, 1973], porque não existe interesse em dizer da História como ele é e foi... como, por exemplo, a participação activa e humilhante do Conde bragantino de Barcelos no assassinato do infante-regente Pedro, e da própria Casa de Bragança no do seu neto e rei João II, e como já no início dos Anos 60 um missionário dizia, “ainda veremos Águias e Gaivotas a fazerem um novo Portugal, aquele que foi enterrado em Alfarrobeira” [1]. Quando, em encontros clandestinos no litoral da Costa Verde minhota, fiz a “Breve palestra entre anarquistas, a partir da História de Barcellos e do barcelense Manoel José, que encontrou ouro no Arraial do Rio das Mortes, nas Minas Gerais, embora do Brasil tivesse já ´amplo´ conhecimento através d´A Selva, do ferreira de Castro...” [2], tive a sorte de ter conhecido uma artista plástica brasileira que me falou “da luso-brasilidade dos bandeirantes e dos colonos-mineradores que já viam, lá na frente do imenso continente amazónico, o esboço da raça brasileira” [Costa, 1972], e foi quando eu soube que “a Amazônia teve como primeira capital uma Villa chamada Barcellos”. A partir daí o meu interesse pela História, que já era grande por causa do conflito das casas de Avis e Bragança, passou ter um foco chamado “Barcellos: o maior Concelho português e o maior Município brasileiro, e o segundo do mundo”. E beijando as duas Barcellos dois rios, o Cávado e o Rio Negro, separados pelo Oceano Atlântico. O Autor

1 Da Idéia De Res Publica Da Casa De Coimbra Ao Desassossego Feudal Da Casa De Bragança

Villa de Barcellos, Séc. 15 [gravura]

Entre os caminhos ibéricos da galega Santiago de Compostela, a região banhada pelo Rio Cávado passa a ser denominada Barcellos [de Barc + Ellus, q.s. Barca Pequena] por ser um dos portos fluviais de chegada e partida dos peregrinos católicos de entre o


Minho e a Galiza. Os registos arqueológicos apontam para uma ocupação romana, e a planta urbana da villa apresenta-se assim mesmo, mas deve-se considerar que a passagem de tribos celtas [principalmente visigodos] e muçulmanas, antes e depois dos romanos, significa que já existia uma primitiva vila nas margens do rio. Estratégica, a vila deve ter servido de pouso e de abastecimento para todo o tipo de viajantes no velho território galego, e já com trabalhos cerâmicos, o que é comum às povoações ribeirinhas ibéricas. E é esta região que o rei Afonso Henriques chama de “minha villa”, em documentos datados de meados do Séc. XII, pois que antes havia sido conquistada pelos reis de Leão, quando da reconquista católica da Península Ibérica. Já no Séc. XIII, a vila chama-se Santa Maria de Barcellos, e em 1298 o rei Dinis dá-lhe as regalias administrativas de Condado, e tem como primeiro conde, o fidalgo João Afonso Telo de Menezes. Neste condado, vamos encontrar um 8º Conde de Barcellos, Afonso [o filho bastardo do rei João], também o 1º Duque de Bragança, e que vem a iniciar na vila as obras do Palácio dos Duques de Bragança, destruído no terramoto de 1755. Pela transferência da Casa bragantina, de Chaves para Barcellos, é que se percebe como as gentes da vila têm de lutar ao lado dos seus senhores feudais contra as políticas de abertura política da Casa coimbrã – parte da Casa de Aviz, e onde, no Séc. XV, tem início aquele olhar marítimo na percepção mundana e política do infanteregente Pedro, Conde de Coimbra. Precisamente aquele olhar que o leva a pôr nas Ordenações Afonsinas um conceito de Res Publica que faz tremer os feudais bragantinos e os bispos católicos – e estes, que acusam a óptica progressista pela ponta da espada, fazem um acto de esmagamento político e social e convocam uma cruzada lusa contra esse primeiro grande estadista português. Resultado: o Portugal progressista é derrotado e deixado para as aves de rapina no campo de Alfarrobeira. Aliados dos feudais bragantinos e dos bispos católicos, a Ordem templária de Cristo, dirigida pelo infante Henrique [irmão de Pedro], e todas as casa feudais. Portugal só retornará ao espírito republicano e às navegações no período do rei João II... neto de Pedro!

2 João II: O Espírito Republicano Com o espírito republicano do avô, João II põe os portugueses a par de si mesmos e da aventura que dos portos litorâneos do centro e do norte, e numa afirmação galegoportuguesa de suma importância para os anos vindouros; traçado o Plano da Índia a partir do Mapa de Fra Mauro, que Pedro havia mandado traçar, Portugal faz do Mar a sua obra maior – obra na qual está muita gente de Barcellos, e de toda a região do Minho. Esquecer o desastre político de Alfarrobeira é um motivo forte para as gentes de Barcellos, que são “bragantinas por circunstâncias alheias”, e a villa-condado & porto fluvial ganha a chance de ser e estar Portugal. Deste novo olhar, ainda no Séc. XV, que na verdade é um retorno àquele processo fluvial da barc ellus do Séc. XII, na sua primitiva condição de villa anfitriã do mundo, é que Barcellos traja as cores do bravo rosto português... quer em Portugal quer no Brasil. 3 Villa de Barcellos: Do Cávado Ao Rio Negro A travessia quinhentista e seiscentista dos mares, leva portugueses e galegos aos rincões do Novo Mundo, e entre eles muita gente da Villa Barcellos.


Por todas as capitanias hereditárias do Brasil espalham-se barcelenses, mas é nos portos, marítimos e fluviais, que as gentes de Barcellos encontram a sua alma mundana, até por que respiram – como diriam os professores Alfredo Pinheiro Marques e Jaime Cortesão – de porto em porto a construção desse Outro Portugal ultramarino [Barcellos, 1990]; mas há quem vá ao sertam, quer pelo velho Piabiyu guarani, quer pelo Vale do Tietê, para galgar, de um lado, os paranás até à Amazônia, e do outro, as Gerais. Entre outros, nas Gerais, eis que um Manoel José encontra ouro no Tejuco, e é um barcelense que, entre 1704 e 1707, faz fortuna e por aqui fica..., ou seja, aquele Outro Portugal começa a ter um nome: Brasil. O nome Barcellos, grafado com ll ou com l, expande-se de tal maneira pelo continente, entre colonizadores, nativos e escravos, que se torna comum a muitas famílias brasileiras. Se nas regiões paulistas o sertam é o destino da maioria dos barcelenses, no Rio de Janeiro o cenário não é diferente, mas aí até o Conde Barcellos tem terras próprias, como “o Morro da Rocinha, mais tarde ocupado por todo o tipo de retirantes e transformado em favela, um quilombo moderno [3]. Já na Amazônia e no Pará, o nome Barcellos surge através de colonos, sim, mas as regiões que recebem o mesmo nome da villa-condado do Cávado é porque um serviço oficial de nomeações o exige, pois que desde os Anos 40 do Séc. XVIII é exigido dar nome de vilas e cidades portuguesas às povoações a fundar nos novos territórios do Império, e por isso, surgem Alcântara, Oeiras, Olivença, Coimbra, Queluz, Bragança, Belém, Altamira, Santarém, etc e etc..., e, na região amazônica do Rio Negro é dado o nome de Villa de Barcellos à velha aldeia Mariúra, dos nativos Manaus.

[Barcellos / Amazonas – Brasil]

Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal, solicita a criação da Capitania de São José do Rio Negro que logo é chefiada por Manuel da


Gama Lobo d´Almada, e é este fidalgo, nascido na África, que cria sobre a aldeia nativa Mariúra a capital, em 6 de maio de 1758: Villa de Barcellos.

Mapa de Barcellos no Rio Negro e Canoa-Artilheira ali construída para defender a Amazônia no Séc 18.

Importante porto fluvial, pela sua posição estratégica no Rio Negro, Mariúra/Barcellos passa a ser uma capital conhecida e reconhecida por todos os colonos e aventureiros, mas, principalmente, é o ponto de onde saem as linhas mestras da administração imperial que transformam, humana e economicamente, a região amazônica. A Finalizar Este muito breve ensaio esconde muitas pesquisas que, obviamente, não cabem num artigo de jornalista cultural. Mas é, quiçá, uma janela aberta para outros olhares...

J. C. Macedo


Notas [1] J. C. Macedo pertenceu ao “Grupo Façanhudos”, organizado por um missionário e que tinha as dependências [umas vezes a Sacristia, outras a Torre dos Sinos] da Matriz como sede; o grupo, infanto-juvenil, participava de brincadeiras, jogos lúdico-pedagógicos, acampamentos, e muita conversa sobre História e Sociedade. O termo “pombas e águias” era utilizado pelo missionário para figurar gente do bem e gente do mal, respectivamente. [2] Manoel José, natural de Barcellos, chegou a Minas Gerais para ganhar fortuna, e ele encontrou ouro na encosta sul da Serra do Lenheiro, no Tejuco, nos primeiros anos do Setecentos; o Tejuco deu origem ao Arraial Novo do Rio das Mortes e, mais tarde, a São João d´El-Rey. [3] O romancista e pesquisador João Barcellos diz que “na favela Rocinha, o ponto principal é o Bairro Barcelos, o que mostra uma preocupação com a origem histórica colonial do morro”. Alfarrobeira: Região de Vila Franca de Xira, perto de Lisboa. Batalha que colocou as casas de Avis e de Bragança em confronto directo. A batalha aconteceu em 20 de Maio de 1449. Barcellos / Portugal: cortada pelo Rio Cávado, é uma região com 378,9 km2 e tem 89 freguesias [o maior de Portugal]. Tem parque industrial, uma boa produção rural e na área artesanal [cerâmica] destaca-se o famoso Galo de Barcelos. Barcellos / Brasil: na margem direita do Rio Negro é o maior município do Estado do Amazonas, com uma área territorial de 89.572 km², está localizado a 396 km em linha reta de Manaus e 496 km por via fluvial. Grande produtora de peixes ornamentais. /// Na instalação da Capitania de São José do Rio Negro [Carta Régia, de 03.3.1755 do rei José I], o capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado, elevou a Aldeia de Mariuá à categoria de Villa com foros de marco-zero da Capitania, sendo primeiro governador Joaquim de Melo e Póvoas, a partir de 06.5.1758. A nova villa passou a ser denominada Barcellos, em homenagem a cidade portuguesa, obedecendo às normas do Diretório dos Índios, i.e., os nomes das povoações nativas devem ser alterados para nomes portugueses. Entretanto, entre ocas [palhoças] de nativos e as capelas da cristandade, foram levantados o hospital, o colégio e, logo, a casa da guarda. Para evitar alagadiços entre a floresta a área ribeirinha, Mendonça Furtado mandou erguer pontes e aterros. Enfim, a villa ganhou urbanidade... No ano de 1791, o governador Manoel da Gama Lobo D’Almada transferiu a sede da Capitania para o Lugar da Barra do Rio Negro [hoje, Manaus], por estar estrategicamente melhor localizada, mas, em 1799, Barcellos voltou a sediar a Capitania que, em 1806, foi definitivamente transferida para o Lugar da Barra.

Em Portugal: CONCELHO = Município. FREGUESIA = Bairro. DISTRITO = Capital administrativa de uma Província, que engloba os Concelhos. Paranás: canais fluviais. Páramo: deserto. Piabiyu: do Guarani m´byano, q.s. Caminho do Peru. Rio Cávado: Norte de Portugal, com nascente na Serra do Larouco, a c. De 1250 m de altitude; passa por Braga, Barcelos, e depois de um percurso de 118 kms tem foz no Oceano Atlântico junto a Esposende. A capacidade total dos recursos hídricos da Bacia do Cavado é de cerca de 1180 hm3, quase 30% do total existente em Portugal. Rio Negro: nasce na região pré-andina da Colômbia e corre ao encontro do Solimões, logo abaixo de Manaus, para formar o Amazonas. Em seu curso, percorre 1700 quilômetros. Da nascente à foz, a viagem dura um mês e meio. Na longa jornada, a água carrega folhas e outras matérias orgânicas que a tingem de âmbar.

Bibliografia A CRIAÇÃO DA AMÉRICA FEUDAL. Ensaio. João Barcellos & Tereza de Oliveira. Rio de Janeiro / Br., 1996. A MALDIÇÃO DA MEMÓRIA DO INFANTE DOM PEDRO E AS ORIGENS DOS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES. Estudos. Alfredo Pinheiro Marques. Centro de Estudos do Mar, Buarcos/Pt, 1994. CAUSAS DA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL E DA FORMAÇÃO PORTUGUESA DO BRASIL. In “Os Factores Democráticos Na Formação De Portugal”. Jaime Cortesão. Lisboa/Pt, 1978.


DE QUANTOS BRASIS É FEITO O OLHAR OCEÂNICO PORTUGUÊS?. “Breve palestra entre anarquistas, a partir da História de Barcelos e do barcelense Manoel José, que encontrou ouro no Arraial do Rio das Mortes, nas Minas Gerais”. J. C. Macedo, Apúlia e Esposende / Pt, 1973. ÉLITISME ET ABONDANCE: BRESIL. Essai. Tereza de Oliveira. Paris/Fr., 1967. IMAGENS DE VILAS E CIDADES DO BRASIL COLONIAL. Registro Histórico. Nestor G. Reis. Edusp, São Paulo / Br., 2001. MITO-HISTÓRIA & ÉPICA. Vários Autores. CEMAR, CEHC, GG, c/ Ed Edicon, São Paulo / Br., 2004. MORGADO DE MATHEUS / Um Fidalgo Português Na Casa Bandeirante. Ensaio. João Barcellos, 1ª Ediç, 1993; 2ª Ediç, 2004 [Prêmio Clio de História], Ed Edicon / Br. O OUTRO PORTUGAL / Questões Históricas. Crônica. João Barcellos. Jornal Jeroglífo, Buenos Aires, Argentina, 1990. OS PORTUGUESES CRIARAM NO BRASIL UM OUTRO PORTUGAL. Artigo. Izabel Rodrigues da Costa, artista plástica brasileira, do Rio de Janeiro. A artista, em viagem pelo norte de Portugal, conheceu o poeta J. C Macedo em Guimarães, e escreveu um pequeno artigo que ele utilizou em diversos encontros minho-galaicos, mas também em encontros de anarquistas sobre “A reciprocidade ideológica dos fascismos estabelecidos em Portugal e no Brasil”. As informações da artista foram de muita valia para o poeta quando ele foi conhecer o Brasil e a Argentina, em 1987. THE U.K. AND THE MANSORY IN BRAZIL. Pamphlet. Hanne Liffey, Dublin/Ie – 1972; Braga/Pt – 1973.


FADO Dança & Canção Dos terreiros afro-brasileiros para as adegas lisboetas com passagem pela boêmia coimbrã.

Mário G. de Castro

1 Fado. Já se disse tudo sobre o Fado? É sabido que a história oficial e as estórias que cercam o Fado, enquanto canção urbana lisboeta, e enquanto ritmo da balada coimbrã, são páginas e falares que negam a sua autenticidade... que passa pelos terreiros onde Chiquinha Gonzaga se inspirou para dar forma e imortalizar a modinha brasileira. No seu ensaio O Violão Instrumental Brasileiro: 1904-1924, o pesquisador brasileiro Sérgio Estephan lembra[-nos] que “Embora inicialmente recriminadas, as manifestações festivas e religiosas trazidas da África foram atraindo paulatinamente parte da população branca e mestiça, e, consequentemente, aspectos da sua musicalidade. A viola de arame, por exemplo [...] Muito popular em Portugal, em que recebe a denominação de viola braguesa, foi trazida para o Brasil por intermédio dos jesuítas que a utilizavam na catequese [Mário de Andrade, in Dicionário Musical Brasileiro]. No início do século XIX foi perdendo espaço para o violão, como instrumento das baixas camadas urbanas, e nas áreas rurais foi cultivado com a denominação de viola caipira. Esta lenta mescla étnica e cultural foi responsável pelas primeiras criações, em meados do século XVIII, oriundas desta combinação afro-européia: a fofa, o lundu e o fado [José Ramos Tinhorão]”. Quanto ao Fado, continua Stephan, “[...] aparece tanto como música quanto como dança. Como característica de sua instrumentação, uma simples viola serve melhor do que instrumento algum para o efeito [Manuel Antônio de Almeida, in Memórias de um Sargento de Milícias]. Quanto à dança, existem referências ao dançarino [ou dançarinos,


já que é descrita também como dança coletiva], homem ou mulher, que dá estalos com dedos e bate palmas [idem]”. O trabalho de Sérgio Estephan acerca d´O Violão Instrumental Brasileiro, infelizmente ainda não publicado, é uma obra muito bem conseguida e as suas referências documentais não deixam dúvidas quanto à seriedade acadêmica. No que tange ao Fado, ele é mais um pesquisador a dizer[-nos] que a História da “canção nacional portuguesa” é outra e tem origem, sim, nos terreiros afro-brasileiros, e... “era tão caracteristicamente erótica a representação festiva da turma fadista, no Brasil, que lembrava os bacanais das antigas caravanas artísticas de Grécia e de Roma, o que demonstra que só o ritmo afro-brasileira poderia produzir o Fado, como canção e como dança, algo artístico muito diferente da coisa lisboeta e coimbrã...”, como escreveu o jornalista cultural J. C. Macedo [Jeroglífo. Buenos Aires / Arg., 1989]. 2 O notável pesquisador João Barcellos anotou em suas andanças lusófonas que “[...] a umbigada (aquele dançar de africanos com os sexos na dinâmica da provocação para vida, e tão somente para a vida) é um ritmo e é um gesticular que celebra a vivência da alegria no terreiro, entre os deuses d´África e a cultura santista da cristandade que substitui o paganismo romano e o celta. Um ritmo tão frenético quando o ´malhão´ do folclore luso, entretanto..., se se juntar à celebração rítmica africana a modorra da marujada desembarcada no cais da velha Lisboa em véspera de levantar âncora, eis que surge o cântico da saudade no timbre árabe. As mutações culturais vividas pela velha Lisboa caraveleira produziram miscigenações sócio-raciais no ir e vir de gentes de um ultramar pujante. Excluir a hipótese de ser aquele ´fado´, sim..., para o afrobrasileiro o fado é a umbigada, parte da origem do fado português é negar a história da reciprocidade natural no âmbito do colonialismo”. Por outro lado, acrescenta ele: “[...] o trânsito acadêmico que em Coimbra produziu bacharéis para a Sam Paolo dos Campi de Piratininga e Ouro Preto teve no seu pico social a relevante particularidade de misturar o ´brasileiro´ mameluco com o ´português´ autêntico originando uma balada sócio-cultural que, juntada à festa da marujada na Lisboa dos cais e das tavernas, realçou o ritmo e o cântico luso-afro-brasileiro nos meandros urbanos do fado”. Certa vez, em Cotia (a velha Koty dos guaranis, no Piabiyu), ele lembrou-me do ´trânsito´ ultramarino de Nossa Senhora da Ponte. Vamos lá: “[...] O primeiro condado do reino de Portugal, iniciado em Guimarães, foi fixado na Villa de Barcellos, sendo a designação ´barcellos´ originária do termo ´barca celli´, do latim ´barca pequena´, pois, na entrada da villa havia um cais para as barcas dos peregrinos que iam para Sant´Iago de Compostela. Banhada pelo Rio Cávado, a Villa de Barcellos é famosa por se ter originado ali a Lenda do Galo [um galego foi salvo da forca pelo canto de um galo], e o galo é hoje parte da iconografia de Portugal no mundo. O nome ´barcellos´ também serviu para batizar a primeira capital da Amazônia, no Rio Negro, e hoje ainda o maior município do Brasil. Consagrando a cristandade, que desde o rei primeiro Afonso Henriques é parte do ser-estar português, sobre o cais barcelense o povo montou um oráculo de oração à mãe de Jesus que ficou conhecido como capela de Nª Sª da Ponte. Eis a origem da denominação do Sítio Nª Sª da Ponte, que surgiu logo após o fim da Villa de Nª Sª do Monte Serrat criada em pleno arraial mineiro do Cerro Ybiraçoiaba, ao tempo do Governador Francisco de Souza e de Affonso Sardinha (o Velho); e, por isso, é que o Sítio Nª Sª da Ponte, nas sorocas além da mina de ferro, é parte da história ybiraçoiabana, onde nasceu Sorocaba. Isto mesmo: quase como o fado umbigueiro do afro-brasileiros cujo ritmo foi do terreiro carioca para a taverna lisboeta e a boêmia coimbrã. Tal aspecto da colonização luso-católica mostra como o colonizador pode ficar refém na própria ação...”. A anotação de João Barcellos é um afresco historiográfico que


abre mais espaço para o diálogo sobre o assunto e, como ele mesmo diz, “a filosofia luso-católica da expansão ultramarina no modo colonial manuelino, i.e., fazer outro Portugal além”. 3 O trato da história é documental, primeiro, na sua garimpagem arqueológica e bibliotecária, e, segundo, um afazer de aproximações para unir linhas de pesquisa e dados obtidos. No caso do Fado existem mais observações do que documentação, mas a forma como Macedo e Barcellos o trazem à conversa historiográfica permite balizar rotas que se unem em tal achamento sócio-cultural. E eu, que por várias vezes percorri os terreiros do Rio de Janeiro e as tavernas dos cais de Lisboa, reencontrei não vestígios, mas a certeza documentada em gestos e ritmos sobre o Fado que se dança e canta: um Fado luso-afro-brasileiro com tom árabe que me deixou sempre, e deixa, com aquele gostinho de quero mais e mais. Em seu Linguagem, Poesia, Música, o filósofo luso Manuel Reis, de tantas parcerias lítero-lusófonas com Macedo e Barcellos, foi ao fundo do poço cultural e legou-nos a sabedoria que nos permite reencontrar aquelas linhas de pesquisa tão essenciais até para a filosofia que nos faz estar por aqui... Assim, sinto-me à vontade para registrar este comentário em jeito de crônica para falar um pouco sobre o Fado que tanto nos toca ao longo das costas atlânticas. CASTRO, Mário Gonçalves de Foto-Jornalista e Serigrafista. Rio de Janeiro


FEIJÓ Alma Mater Brasileira

MAyP

“A consagrar Pessoas como formadoras do Brasil-Nação, deve-se pensar em Diogo Feijó e em Bárbara Alencar, por exemplo, e mais aquele do que esta, pela virtude que teve de declarar a Independência do Brasil nas Cortes lisboetas – e, depois, eleito Regente, estabelecer os princípios do Estado Brasileiro contra a mente reinol e feudal do auto-proclamado ‘patriarca’ Bonifácio...!” BARCELLOS, João – palestra; Rio de Janeiro / Br., 1993.

Feijó – Antônio Diogo Feijó [1784-1843] -, padre secular, filho do padre Félix Antônio Feijó, no relacionamento deste com Maria Joaquina de Carvalho, da Família Camargo, residente em Cotia, vila da Grande São Paulo, mas nascido [ou deixado/exposto] na casa do padre Fernando Lopes de Camargo, na São Paulo dos Campos de Piratininga. Foi batizado como “filho de pais incógnitos, exposto na casa do Reverendíssimo Fernando Lopes de Camargo”, como se lê na sua certidão. Nas vilas periféricas de São Paulo era tido como “professor” e como cidadão que “vive de esmolar” – tal era a sua situação social e financeira, logo, nada daquilo a que alguns estoriadores da escrita oficial querem “ensinar” como “influente político do círculo da aristocracia rural”...


Para se formar e estabelecer como padre secular, ofício que abundava no BrasilColônia, Feijó teve que abominar a sua condição de filho de pais incógnitos e garantir que não seguiria esse caminho. No arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo podese verificar que Feijó foi consagrado padre em 14 de Janeiro de 1804 e, aí, passou a viver “de suas ordens”. As dificuldades de Diogo Antônio Feijó continuaram e complicaram-se quando iniciou uma campanha contra o celibato instituído pela Igreja católica. Era “...o presbítero liberal, cuja raiz sócio-teológica estava em si mesmo, ou seja, era filho de padre e aprendeu a não negar publicamente que tinha uma mãe cotiana dos Camargo, e se na sua sagração eclesiástica tivera que esquecer mãe e pai, o seu questionamento sobre o celibato, junto do Vaticano, não era uma vingança, mas um reconhecimento do ministério religioso familiarmente agregado e reprodutor... Filhos de padres é ‘algo’ que não falta, principalmente no espaço católico!”, como disse o poeta e pesquisador João Barcellos em palestra [Cotia/SP-Br., 17 de Agosto de 1994; na época, dirigente municipal de Cultura naquela cidade paulista]. Um outro complicador que o acompanhava era social, melhor dizendo, racial: além de filho de pais incógnitos, na versão oficial e pública, Feijó era “mulato, filho do cruzamento de gente negra com gente branca, como é histórica e popularmente conhecida a questão da formação do Brasileiro afro-descendente” [idem]. E nem como presbítero um mulato alcançaria notoriedade. E como ele, mas famoso, era frei Jesuíno do Monte Carmelo, de quem se tornou amigo e disso fez fonte de inspiração. Percebeu, então, entre os ofícios religiosos que celebrava, a importância dos círculos políticos regionais. Muito ligado a Itu e a Campinas, embora tenha passado algum tempo da infância em Cotia, pelo que se sabe da Memória Oral [que raramente entra na História]. Defensor do fim-da-Escravatura, adepto do Religioso-com-e-em-Família, Diogo Antônio Feijó foi eleito, mesmo assim, deputado pela Província de São Paulo – e, nessa condição, é que “...nas Cortes lisboetas, em 25 de Abril de 1822, veio a declarar a urgência da Independência políticoadministrativa do Brasil... Foi o primeiro e único Grito Brasileiro de Independência Institucional, e no covil das feras coloniais, e o suficiente para levantar o espectro da Nação Brasileira que uns queriam só como Coroa bragantina, no caso de Bonifácio, e, muitos, como Zumbi, Tiradentes, Bárbara Alencar, Feijó, etc., livre de Portugal, em definitivo” [ibidem]. Afro-brasileiro, mas Brasileiro nato, Feijó tornou-se a ‘alma mater’ da Independência do Brasil. Ao apresentar a sua conferência “Bonifácio – Princípio & Fim Do Império BragantinoBrasileiro”, em Fevereiro de 2005, João Barcellos disse que “...o Liberalismo do presbítero e maçon e político [deputado, ministro e regente], Feijó, passa por ser a primeira grande oposição ao reinol José Bonifácio, que se diz, ou faz dizer, ‘patriarca da Independência’ – mas, ‘independência’ dos coloniais e sanguinários bragantinos, não Independência Brasileira. E, no entanto, nem nesse episódio histórico os brasileiros percebem o engodo ideológico fabricado por Bonifácio e os seus irmãos, e fica o mito do ‘patriarca’ a desenhar para a posteridade a barbárie das estorietas que enchem os manuais escolares”. É verdade. Bonifácio foi sempre testa-de-ferro da Coroa bragantino-brasileira, e Feijó foi sempre o político eleito, mulato e pobre, e, pasme-se quem ainda não o sabe..., Regente eleito..., para governar enquanto Dom Pedro II curtia a meninice! Uma das primeiras ‘rodadas’ de conversações sociais e históricas, do Grupo Granja, fundado em 1996, em São Paulo, foi sobre “O Brasil-Colônia Nos Seus Passos Emancipatórios”, coordenado pela artista plástica Tereza de Oliveira [1914-1998]. E ela mesma defendia: “...e quando o João Barcellos tece considerações sobre a personalidade do Regente Feijó, no seu livro ‘COTIA...’, editado em 1993, ele já nos lança a chama da visibilidade política que era a História verdadeiramente brasileira nos


atos institucionais de Feijó, e até na melancolia social do poeta Baptista Cepellos, este, um brasileiro de Cotia, desprezado pelas elites por ser pobre e provinciano”. É nesse olhar de Pessoa Emancipada, para o Bem ou para o Mal, que João Barcellos foca o perfil reinol e feudal de Bonifácio na sua citada conferência, só que, agora, ele desconstrói o Mito bonifaciano e nos faz encarar a realidade política, religiosa e social, da Independência brasileira. A importância do ato político-administrativo de Diogo Antônio Feijó na instalação e defesa do Estado Brasileiro, ainda no âmbito da Monarquia feudal, foi tal que, em pleno Senado, ele defendeu o Poder Local como foco vital para a Independência: “[...] a necessidade de unidade da legislação e da justiça; mas, tantas vezes não se tem destruído esse argumento, mostrando que sempre houve e há de haver diversidade de legislação em cada província e até em cada município? As justiças não estão divididas pela mesma Constituição, que determina que haja nas províncias relações para julgar em segunda e última instancia? O mesmo poder Legislativo não está dividido em três corporações, a saber: Assembléia Geral, Assembléias Provinciais e Câmaras Municipais? E que mal resulta de tudo isto à união, ao interesse geral do Império? Nenhum” [in ‘Anais do Senado’, Brasil/Br., 1913; t. II]. Aqui está “o olhar do político que se faz diante dos problemas da terra, e não do próprio umbigo” [OLIVEIRA, Tereza – op. cit.], o ato do Brasileiro que entende estar na descentralização político-administrativa a verdadeira Independência de uma Nação que se quer como Estado de Direito. E, nisto, não restam dúvidas que, enquanto deputado, senador, ministro e regente, Diogo Antônio Feijó foi a ‘alma mater’ do Brasil-Nação!

Itu/SP-Br., Fevereiro de 2005. PIÑON, Mariana d’Almeida y – professora de artes visuais, Paris/Fr.


SEBASTIANISMO do Conselheiro ao Contestado passando por Vieira e Pessoa e Agostinho

Tereza Nuñez & João Barcellos

Este estudo foi feito a 4 mãos entre mensagens eletrônicas (e-mails), de março a junho de 2017, no âmbito do Grupo de Debates Noética, filiado ao Centro de Estudos do Humanismo Crítico.

O ambiente de comunicação oral predomina no Século 16 em toda a Península Ibérica, e mais em Portugal, onde a cristandade impõe o silêncio cultural para que o ´sangue azul´ continue sendo o pilar das dinastias que aqui se levantam entre interregnos d´alcova e aquele sangue que, afinal, espirra vermelho...! A teatralidade popular tem expansão na retórica acadêmica, porque esta está sempre em atraso na relação com os acontecimentos sociopolíticos europeus e, já então, muito mais em relação aos orientais, porque da Estrada da Seda não surgem somente finos panos, também complexos sistemas educacionais que se interligam com o pensamento greco-romano. O barroquismo que sitia a sociedade portuguesa esvazia até o mercantilismo da classe média ligada aos têxteis, à metalurgia, à construção naval, aos coureiros e à agropecuária, gente de recursos que já envia os filhos à universidade para serem ´doutores´ ou, no caso de primogênito, para o seminário, pois, um padre na família sempre ´alivia´ os pecados da carne e da ganância. A partir do rei Diniz surge uma


sequência de reinóis ilustrados, mas é com o duque de Coimbra e regente Pedro, filho de João I, que a Coroa portuguesa estabelece definitivamente vínculos socioculturais com as civilizações mais avançadas, o que resulta em políticas públicas mais ajustadas e posições fortes contra o fomento de guerras [leia-se a ´Carta de Brugges´ enviada por Pedro a Duarte, o irmão-rei], uma vez que o clero e a nobreza têm, ainda, a guerra e a conquista de terras [aos ´infiéis´] como política primária. De tal sorte que, em 1443, o próprio Pedro – este Pedro é o mesmo que após o seu assassinato em Alfarrobeira, ficou conhecido na Europa como ´Infante das 7 Partidas´ nas páginas da literatura de cordel – funda em Coimbra, seu ducado, uma Universidade à semelhança das academias de Veneza, Londres, Salamanca, querendo dar uma alternativa pedagógica à retórica medievalista e conventual. Com a sua morte, a Universidade do Duque de Coimbra foi simplesmente esmagada pelos latifundiários e o clero retrógrado. Restou dela a Lápide da Sabedoria trazida a público pelo Prof. Alfredo Pinheiro Marques e traduzida pelo filósofo Manuel Reis, e nela lemos: Amigo, segue-me, e não te deixarei viver na servidão nem morrer na pobreza; porque a Experiência me gerou e a Memória me deu à luz. Os Gregos chamam-me Sophia; e eu Sabedoria. Odeio os homens estúpidos, e as suas obras ignorantes [sic], ou na quais não se encontra qualquer utilidade [sic].

Diante desta lição de republicanismo e de humanismo crítico a reação da nobreza e do clero estupidamente ignorantes foi imediata tão logo a oportunidade surgiu: derrubar aquela ´coisa´ e cercar Coimbra contra ideias que incitassem a busca pelo Saber. Dentro deste ambiente, a população portuguesa e os povos administrados pela nobreza e o clero mergulham num cotidiano obscuro e dado a todo o tipo de misticismo.

Momento Primeiro O messianismo é uma manifestação tão antiga quanto a forma[ta]ção tribal da civilização e faz parte da na[rra]ção que afirma uma identidade teocrática própria, porém, similar a outras tanto no plural como no singular. Para as tribos/nações ocidentais o marco-zero teocrático situa-se entre as tribos judaicas unidas na ´torah´ pelos genocídios praticados ao tempo do rei David – David eliminou todos os chefes


tribais que opuseram ao estado-igreja do deus único e a ele mesmo –, um conceito carreado desde o Egito; entretanto, uma unidade que sofre a grave ruptura ideológica com um judeu chamado Jesus, chefe [ou ´cristo´] do grupo teológico Nazàri, na oposição aos chefes mercantis do estado-igreja, e de tal ruptura Jesus continua o ideal messiânico em que Paulo/Saulo funda o cristianismo e, mais tarde, Maomet funda o islamismo. Se o messianismo é ponto de ligação entre estas religiões [do ´livro´, por se originarem da ´torah´], a cristã distancia-se das outras por não aceitar a escravidão social e sexual, apesar de alguns ´reinados´ papais terem adotado essa linha. Por isso, é o conceito de universalidade [ou catolicismo] da Palavra Jesuana que vai prevalecer nas cartas de Paulo/Saulo e promover uma igreja aliada aos poderes políticos. Quando a marinha mercante lusa, ao tempo dos reis Dinis e Afonso IV, ainda no Séc. 14, se faz ao mar de longo, toda a embarcação de maior porte leva entre a marujada um capelão cristão, o que se passa também nas frotas castelhanas. Esta verdade histórica é reforçada com o rei luso João II e com a castelhana Isabel nas tratativas políticas incluídas no Tratado de Tordesilhas, no Séc. 15, quando, com papado católico no meio, dividiram o mundo descoberto e a descobrir além da ponta africana de Cabo Verde. E é assim que o messianismo embarca na odisseia caraveleira e desembarca na ´ilha de brasil´, como Afonso IV designou, em 1342, a terra encontrada pelo seu capitão mercante Sancho Brandão, e que, em 1500, é oficialmente declarada terra d´el-rey de Portugal com marco depositado por Pedro Álvares Cabral a caminho da Índia.

Momento Segundo Na ação caraveleira não está somente a pessoa portuguesa aliada à cristandade, está também o messianismo judeo-islâmico, porque parte dos técnicos navais e astrônomos são galegos, bascos, árabes (judeus, ou não), italianos, alemães – e, logo, também o protestantismo, que não nega o ideal messiânico. No encontro com a África, os portugueses apenas assimilam a civilização que ali floresce entre nações tribais com línguas próprias, mas encontram na escravatura uma moeda de troca que desconhecem e fazem desembarcar, também, na ´ilha de brasil´. Logo, tudo é feito sob os auspícios do messianismo no assentamento de ´outro portugal´, pois, expandir a pátria lusa é expandir a fé messiânica. Entre africanos, a ação não pode ser colonial, e sim mercantil e de evangelização – o que, no fundo, não passa de colonização teológica –, e mesmo assim Portugal consegue impor a sua administração em alguns espaços precisamente através das linhas escravagistas locais; já na designada América, portugueses e castelhanos movem-se no entorno da linha tordesilhana e a ´ilha de brasil´ passa a ser, a partir dos Anos 30 do quinhentos, o grande continente ultramarino da Coroa lusa, mesmo que ainda em colonização de serr´acima, tanto a norte como a sul.

Momento Terceiro Na colonização de serr´acima, o judeo-cristianismo e o protestantismo dispõem-se em comunidades que na maioria das vezes se confundem e por duas razões: a) a miscigenação (primeiro ibero-americana e depois luso-afro-brasileira) que lança a raça mameluca, e b) a precariedade do cotidiano de sobrevivência em meio a gentes tribais perdidas na floresta desde a formação continental promovida pelas rupturas geológicas. Neste quadro, o elemento islâmico chega com os povos africanos escravizados pelas


próprias gentes e vendidos a colonos como Affonso Sardinha (o Velho) no cais da Villa de Santos. Entretanto, o islamismo estende-se mais a norte com o protestantismo, aquém e além da Foz do Ryo Siará. Entre a exploração de minas de ouro, prata e ferro, e logo, de diamantes, o ´outro´ Portugal torna-se uma potência econômica, mas aquele ranço de baixa pobreza e de obscurantismo místico perdura entre a gente lusa que o passa à gente mameluca, logo, criam-se espaços para o surgimento de ´messias nos certõens y mattos y minnas´ ao longo da linha tordesilhana, ambiente provocado pelas trovas do sapateiro Gonçalo Annes [o ´bandarra´], em Trancoso, no interior serrano português, que cantam o retorno do rei Sebastião, morto em Alcácer-Quibir, agora poeticamente designado ´o encoberto´ que chegará para fazer de Portugal o ´quinto império´ do Mundo. A mensagem messiânica penetra o inconsciente da gente lusa e logo surgem os ´messias´ travestidos de ´el-rey sebastião´ a reclamar a essência divina do reinado luso. Obviamente, a mensagem atinge o gentio e a intelectualidade em doses diferenciadas, mas atinge e demarca resistências místicas principalmente no ultramar.

Momento Quarto

“Com furor, Passará o mar salgado Em um cavalo enfreado, E não sellado...” [Das Trovas do Bandarra, 1540]

As trovas do ´bandarra´ continuam, de certa maneira, uma linha dramatizada por Gil Vicente, o mais convincente dos intelectuais portugueses que expressam o ser-estar luso, mas tem somente foco na modorra obscurantista de uma nobreza e de um clero que é “...brado / Já assoma a sua bandeira...”, para identificar a na[rra]ção do algo perdido que precisa ser ´achado´ e nele se reviver. Eis o ambiente literário que passa pela oralidade trovadoresca e gera um messianismo ibérico e ultramarino. E logo na passagem do século, em pleno ciclo bandeirístico – a expansão nos sertões com companhias paramilitares chefiadas por reinóis abastados e incluindo capitães´ mamelucos –, o jesuíta Antônio Vieira, formado em colégio baiano, refunda o conceito messiânico do sapateiro de Trancoso e avança com uma retórica de ´poder mundial via Portugal´, o que, tal como as trovas do ´bandarra´, agrada sobretudo a judeus e pouco a cristãos, pelo que ele quase segue o caminho da fogueira inquisitorial, como quase aconteceu com o visionário sapateiro... É mais com a pregação de Vieira do que com as trovas de ´bandarra´ que o messiânico ´sebastianismo´ alcança a intelectualidade lusa – uma intelectualidade que se recusa a acreditar, em pleno Séc. 20, na realidade daquele ontem que não gera um amanhã, porque a retórica mística é ela mesma a sua realidade – e, então, vamos ler em Fernando Pessoa e em Agostinho da Silva aquilo que Gil Vicente descartou como evidência de um Portugal além de Portugal, i.e., o que somos hoje tem um lastro no ontem, mas o amanhã é um afazer possível, como nos lembra Jorge Luís Borges, talvez o mais ´português´ dos latino-americanos. O ´palco´ vicentino escancarou o modo de ser português no qual bebeu em parte o ´bandarra´, enquanto Vieira e Pessoa e


Agostinho degustaram a essência mística de uma barca cujo fado o é na própria língua portuguesa.

Momento Quinto “O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão.” [Frase de Antônio Conselheiro, 1891]

As ´iluminuras´ político-existencialistas do Séc. 19 exibem um Brasil de na[rra]ção própria, apesar da Língua portuguesa. Em trova do ´bandarra´ podemos ler “Vejo, mas não sei se vejo, O certo he, que me cheira...”, numa alusão ao eterno tom provocador da cultura oral que é a alma de muitos povos; um ´diz-se que´ oculto, mas que pelo cheiro se identifica. Implantado o Império brasileiro pela Casa bragantina o ato não é pacífico e ao norte se levantam políticos e religiosos republicanos, e é ao norte e já na República brasileira que surge um sebastianismo de monárquico cheiro: nos atos do ´monge´ Antônio Conselheiro a comunidade de Canudos transforma-se em reduto místico para uma batalha perdida; e, logo, a sul, nas sempre confusas ´modernidades´ impostas de cima para baixo, o monge italiano João d´Agostini chefia rebeldes urbanos no que se diz ser a Guerra do Contestado: é guerra de conflitos gerados pela falta de pagamento de indenização de terras ocupadas para a ferrovia, mas ganha o espaço ´divino´ com a presença do monge italiano... Entretanto, outros dois ´monges´ surgem continuando a obra do primeiro, mas na história fica o João, o ´santo monge João´ como bandeira do movimento messiânico em meio ao oportunismo temporal que tais políticas promovem. Todas as ações messiânicas vêm de um esoterismo apocalíptico conhecido em todas as eras históricas, mas variando de ´palco´ religioso conforme o povo que o tange – ou, “de quem tomei / minha teima”, como canta o ´bandarra´. É a utopia de um reino de felicidade, mas que a humanidade se nega a enxergar em si mesma. E, na ´ilha de brasil´ do quinhentos, os portugueses escutaram e perceberam essa utopia messiânica no Piabiyu do povo guarani, a rota de uma oralidade mística muito bem aproveita pelos jesuítas para a catequização sertão adentro. Ou seja: até nas civilizações perdidas nas matas atlânticas o messianismo [e o sebastianismo] é um imagético estar. São Paulo / Br., Buenos Aires / Arg., 2017

Anotações Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro [Brasil, 1830-1897] – chefe de uma comunidade mística em Canudos, na Bahia. António Vieira [Portugal e Brasil, 1608-1697] – padre jesuíta, filósofo e escritor. Fernando António Nogueira Pessoa [Portugal, 1888-1935] – poeta, escritor, publicitário, astrólogo, crítico literário, empresário, tradutor, correspondente comercial, filósofo e comentarista político. George Agostinho Baptista da Silva [Portugal, 1906-1994] – filósofo, poeta e ensaísta; fundador do conceito “universidade pública e federal” no Brasil. Gonçalo Annes Bandarra [Portugal, 1500-1556] – sapateiro e profeta.


Acutia, Caucaia, Itapema & Ibituruna Sítios Piabiyuanos da Estrada Geral a Ligar a ´Ilha de Brasil” nos Sécs 16 e 17 João Barcellos

Questão Primeira O assentamento português serr´acima verifica-se já ao tempo de Cosme Fernandes, o judeu ibérico e bacharel de Salamanca que, cerca de 1494, é ouvidor na Feitoria de S. Tomé (golfo guineense), e resolve ser o marco vivo do ponto sul da Linha de Tordesilhas e fixa vivência no lagamar de Ilha Comprida [do guarani = maratayma] para depois, com uma tribo guarani, erguer a aldeia Gohayó e o Porto das Naus, complexo transformado em Villa e Capitania de S. Vicente após a Guerra d´Iguape, na qual Portugal derrotou Espanha e isolou o Bacharel; e, ao mesmo tempo, já no planalto piratiningo, com João Ramalho, outro cristão-novo plenamente aculturado entre os nativos tupis e guaranis. Acerca destes dois personagens da história ibero-americana sabemos que em 15 de janeiro de 1528, o navegador Diego Garcia, atracando no Porto das Naus, registra estar conhecendo um tal Bacharel de Cananeia, ou rei branco, a viver entre mais de um milhar de guaranis, com meia dúzia de mulheres, muitos genros, duas centenas de escravos, por ali há mais de 30 anos; acerca de João Ramalho, o aventureiro Ulrich Schmidel [o mesmo que percorreu o Piabiyu desde Asunción até Gohayó passando pela Sam Paolo jesuítica), em livro publicado ainda no Séc. 16, diz ser ele um português a viver entre nativos e, com estes, a caçar outros nativos no sertão. O que Fernandes e Ramalho têm em comum? A imediata integração com as culturas nativas, sendo que Fernandes se fez ´senhor da costa´ e Ramalho tornou-se parte da gente nativa. É nos 30 anos como ´senhor da costa´ que gente sua inicia a escalada da serra, primeiro pela Paranapiacaba e depois por Cubatão até à Jaguamimbaba [hoje,


Cantareira], em busca do Piabiyu, o caminho sagrado dos guaranis, pois, já nos ribeirões locais vão faiscando pequenas pepitas d´ouro, e o mesmo acontece no leito do rio Jurubatuba no sopé de Cubatão, que também pertence ao complexo paranapiacabano. Assim, alcançar o Piabiyu [outros pesquisadores escrevem e falam Peabiru] é a primeira grande jornada de serr´acima protagonizada pelos portugueses. O que é o Piabiyu? É o caminho continental feito amassando a trilha no caminhar (daí ´piabiyu´, segundo caciques guaranis e tupis, 2011] com cerca de 1,60 m de largura [8 palmos] e mais de 3.000 km em extensão. E não é somente uma questão logística: o Piabiyu é a ligação mística [caminho de gente de bem, caminho do sem-mal, etc.] entre os povos do tronco linguístico Guarani espalhados entre Peru, Brasil, Bolívia e Paraguai, além de parte da Argentina, sendo que sob ele se estende o maior aquífero d´agua potável na Terra, hoje (e não por acaso) conhecido como Aquífero Guarani. Como é a odisseia? Deixando para trás o lagamar da Ilha Comprida, no topo da trilha serrana os portugueses encontram a aldeia guarani Caucaia e dela seguem até o Ribeirão da Vargem Grande, onde pegam caminho para os certõens d´água ditos Ibiuna ou para a serra até alcançar o Cerro d´Ybiraçoiaba, ou, ainda e para norte, alcançar a Koty e o portinho de Carapocuyba, a ´esquina´ de entrada para o planalto de Piratininga, e de lá para Guaru via Jaguamimbaba até outra aldeia dita Caucaia. Esta aldeia segunda Caucaia é que dá assentamento aos portugueses que sobem pelo Cubatão. E existe uma ´cabotagem guarani´... Temos o termo cabotagem como expressão das viagens do navegador quinhentista Cabotto entre vários cais ao longo da costa brasileira, mas, antes dele, e ao tempo do Bacharel de Cananeia, já este conhece as viagens dos guaranis de cais em cais, e temos o exemplo dos lugares costeiros ditos ´itapema´[q.s. ´entre pedras´] em Meiembipe e ao norte de Goihayó / Porto das Naus, assim como a mesma designação em lugares no nordeste.


Entretanto, de Caucaia a Caucaia temos já uma estrada geral que os guaranis têm como Piabiyu: sabe-se que de Ibituruna do sul (a região de Meiembipe) à Ibituruna de entre Ybiraçoiaba e Carapocuyba se chega ao planalto piratiningo, também se alcança outra Ibituruna nos certõens de Cataguaz, e , logo, outra Caucaia além da foz do Ryo Siará; ora, se temos também uma ligação costeira entre as Itapemas... Então, vê-se: o PIabiyu não começa ou acaba no planalto de Piratininga, é na verdade um caminho geral que liga o Brasil de norte a sul pelas aldeias guaranis e segue, a sul, pelos pampas a dar abrigo e saber e logística a muitos outros povos.

Outro pormenor geográfico: os guaranis têm Acutia [ou Koty, depende da grafia utilizada por padres e amanuenses] na região de Meiembipe e outra na margem do Anhamby [rio Tietê] com ligação terrestre ao Jeribatyba [rio Pinheiros]. A ligação entre as Koty forma um eixo logístico primário se lembrarmos que Koty significa ´a casa de´ ou ´ponto de encontro´, e então, só se pode interpretar todas a outras localidades guaranis como ´estrada geral´ dita Piabiyu pelos nativos. Questão Segunda Quase toda a papelada acadêmica que temos acerca do assunto raramente apresenta a gente guarani serr´acima, é gente ´carangueja´, e só. O que se passa? Não são as academias que fazem história, são os povos que geram acontecimentos e neles o progresso humano, sendo aqui a academia/universidade um polo de melhoria cientifica e pedagógica, quando assim age..., e é raro. No caso da gente guarani a academia aceitou o conceito jesuítico ´povos do sertão de falar tupi-guarani´ e tendo essa falar gerado uma língua comum a colonos e nativos, nos Sécs 16 e 17, e ela mesma foi minguando conforme os tupis e os guaranis iam sendo exterminados, de tal modo que estudar gente ´extinta´ nem valia a pena. O certo é que


se os tupis se ´foram´, mesmo, a gente guarani sobrevive com territorialidade e língua, e só isto explica a densidade de nativos na Capitania vicentina e ao longo da costa até e além ryo Siará em pleno bandeirismo [ação bélica de cerco, captura e escravatura, além da demanda de pedras preciosas].

[a grande densidade de nativos nos sertões da Capitania vicentina]

A norte do ryo Siará e em plena Amazônia outras tribos e outras línguas demonstram que a ´insula de Brasil´ é mesmo uma ´ilha´ de culturas, mas o eixo tupi-guarani permitiu, via Piabiyu, a ascensão e o assentamento de Portugal naquela logística nativa. E assim, trazer à ´praça´ um estudo diferenciado acerca desta questão é mostrar o quanto a história é dinâmica entre o ontem e o hoje.

Entre acutias, caucaias, itapemas e ibiturunas – 2017.


PARANAPIACABA DA TAPIOCA AO CAFÉ A PORTA DE ENTRADA DO NOVO MUNDO

Pedro Fabiano

O cambuci pendia no galho baixo, tão gentilmente oferecido que o curumim não resiste em apanhá-lo.

Esta singela imagem iria se perpetrar por alguns séculos naquela úmida e rica mata da Serra do Mar. Assim se desfiava a linha tênue do tempo. Assim escorria lentamente a vida pela serra da qual se mirava imponente mar, pelo qual os intrépidos navegadores chegavam ao então novo e desconhecido mundo. Paranapiacaba contemplava, impávida, o desenrolar da história. Em suas matas generosas que permitiam ao povo de Tupã degustar o manjar da fruta sobre a tapioca ainda cálida, agora se alinham trilhos de ferro que sustentariam pesadíssimos vagões repletos do rico "ouro verde".


Em sua saga, Paranapiacaba placidamente assentada no estertor da transição do planalto para desfiladeiro íngreme, sedimenta seu papel testemunhal na história lusosilvícola-colonial-migratória. O café por ela escoa. Barão de Mauá, um eminente homem de negócios, amoldado pelo tino britânico, regozijava-se do feito hercúleo logrado a êxito. Banhara aquelas terras os suores afros, a remoer seu banzo, ora em sucessão pelas lágrimas das saudades europeias que só a boa língua lusitana permite exprimir. Da itálica península acorriam pálidas faces, cálidas esperanças, válidas conjecturas pela fortuna do Mundo Novo. Por ali alçavam os comboios de sonhos, de mãos calejadas, de línguas diversas e argumentos convergentes.

Ao fim ao cabo, o mesmo objetivo, trilhado ao ritmo sincopado do bater das rodas de ferro pelo Planalto Paulista, bandeira das treze listas, que fora empunhada por destemidos braços, pelas entradas que incursionavam sertão a dentro, sobrepujando as Tordesilhas imaginárias. Agora eram outras as monções, seriam diferentes catequeses, aguardavam singulares lavouras do fruto doce que Palheta trouxera em seu bojo de sargento-mor, dando à pretérita Terra Brasilis o tesouro maior de então. Lavrando o eito, virando a terra, sangrando as mãos... lá se vão os sonhos e vêm os incontestes. E pela linha férrea de Paranapiacaba a riqueza escoa ao Porto de Santos, ligando o noviço ao ancestral, moldando a língua aos novos termos, em locuções tresloucadas como “locobreque”. E assim se perpetua a contemporânea vila laboral dos ingleses ferroviários, onde o baixo e o alto em pacífica convivência se complementam. Onde o Tempo está finamente confinado, na redoma de alva cerração, qual pandora do Bem.

A Palavra que nos é Rota  

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