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noentanto 55 Jornal Experimental do 4º período de Jornalismo - Ufes, Vitória - ES Outubro de 2011

Uma trilha para apreciar pág. 4

Cuidando de queimados pág. 8

O mundo dos autistas pág. 12

Fiéis ao time pág. 16

opção pela

liberdade pág. 10


Opinião

no entanto...

I

D

nfância: tempo de brincar com os amigos, liberdade e falta de compromissos; do começo dos estudos e da vida em pequena escala, seja na escola, família ou bairro. Mas, como já diria o outro, os tempos mudam – e cada vez mais rápido. Eden Wood tem 6 anos, mora nos Estados Unidos, é loira, magra e possui um rosto digno das bonecas Barbie. Mas está longe de ser uma criança comum. É modelo e cantora, já ganhou mais de 300 concursos de beleza infantil, participou do famoso reality show estadunidense de Misses Mirins Toddlers & Tiaras e tem chocado o mundo com suas performances provocantes em diversos eventos de moda e beleza, como na semana de moda de Nova York, quando desfilou para a marca de sapatos Ciccibella. Com roupas insinuantes, Eden se mostrou desinibida para sua pouca idade, ao dançar e rebolar no palco. Eden, pelo jeito, já alcançou um posto no mundo dos famosos que muitos, mesmo com muito mais idade que ela, nunca sequer chegaram perto. No entanto, a questão que fica é se o que deveria haver de criança em Eden não acabou ficando para trás.

e que adianta um médico na prisão, por ter cometido um pequeno delito, enquanto pacientes fazem fila nas portas dos hospitais? Criada em 1984, as penas alternativas têm apresentado bons resultados. O Espírito Santo é um dos três estados a melhor aplicá-la, mas o sistema já começa a apontar falhas. Nossa matéria de capa fala sobre isso. Conferimos também a primeira trilha feita entre o Parque do Mulembá e o Morro da Fonte Grande, com o intuito de mostrar as belezas pouco conhecidas de Vitória e Vila Velha. Em outra matéria, tratamos de um tipo diferente de percurso: o que torcedores do Corinthians enfrentam para assistir a uma partida do time. Contamos novamente com as belas ilustrações de Jess Melo, estudante de Artes Visuais cujos desenhos na primeira edição foram muito elogiados. Não hesitamos, por isso, em convidá-la novamente para ilustrar nossa capa. Ela mais uma vez nos surpreendeu com sua originalidade.

Kauê Scarim

Na coxia do jornalismo

“F

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azer a matéria parecia algo complicado por duas questões: acordar cedo e percorrer 5km com algumas subidas. Eu e Viviane nos candidatamos prontamente, por curiosidade e aventura. Estávamos lá pontualmente às 7h da manhã de sábado. Assim, acompanhamos todos os desdobramentos, desde a chegada das pessoas – inclusive das que viraram fontes – ao percurso dos trechos da Trilha do Divisor. O lugar é encantador e merece ser contemplado por todos que tenham um espírito de aventura e vontade de apreciar belas paisagens. Ao final da trilha, um lanche natural repleto de frutas e o som ao vivo completaram a caminhada. Ao final, acordar cedo foi apenas um detalhe esquecido diante de uma trilha tão incrível.

hospital, naturalmente, tem uma energia um pouco pesada. Fazer a matéria no Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Dório Silva pode parecer penoso. De certa maneira, é verdade. Como o CTQ só tem internados queimados graves, a maioria dos pacientes que vimos apresentavam os corpos inteiros enfaixados e algumas amputações. Porém, o alto-astral de quem trabalha com isso diariamente deixa o ambiente mais leve. Por mais que conhecer como funciona o tratamento impressione, saber a motivação dos que lá trabalham também impressiona - mas de maneira positiva. O carinho e a dedicação que os profissionais nos passaram são confortantes e essa foi a maior lição que tivemos.

Izabelly Possatto

Esther Radaelli

Reportagem

Diagramação

Edição

Any Cometti Esther Radaelli Daiane Delpupo Daniely Borges Fábio Andrade Inglydy Rodrigues Isabella Mariano Izabelly Possatto Jéssica Romanha Karolina Lopes Leonardo Ribeiro Maíra Mendonça Rafael Freitas Viviane Machado

Esther Radaelli Daiane Delpupo Inglydy Rodrigues Isabella Mariano Izabelly Possatto Jéssica Romanha Maíra Mendonça Thaiana Gomes Rafael Freitas Rhayan Lemes Viviane Machado

Fábio Andrade Henrique Mantovanelli Leone Oliveira Paula Tessarolo

Projeto Gráfico Esther Radaelli Isabella Mariano

no entanto...

caminhos

Gráfica

Professora Orientadora Daniela Caniçali

Ilustrações Jess Melo Camilla Corrêa

Gráfica Universitária

Tiragem 800 exemplares

expediente O No entanto é um jornal laboratório produzido pelos alunos do 4º período do curso de Comunicação Social - Jornalismo, da Universidade Federal do Espírito Santo. Av: Fernando Ferrari , 514, Goiabeiras /Vitória-ES CEP: 29075-910

Sugestões? jornalnoentanto@gmail.com Curtiu? facebook.com/noentanto Outubro de 2011


Dono de banca de revista em Jardim da Penha aposta no gosto e conhecimento cultural para atrair a clientela

Na banca da

esquina por Daiane Delpupo Jéssica Romanha

S

orriso estampado no rosto e bom papo parecem ser regra entre comerciantes. Para conquistar o público, eles apostam, geralmente, no bom humor e na atenção dada aos clientes. Mas a aposta de Oldair Lana Christ vai além do carisma: o jovem de 38 anos levou um pouco da própria personalidade para seu comércio, deixando a Banca da Carol com a sua cara. Não é em qualquer esquina que encontramos, além dos tradicionais jornais e revistas, um rico acervo de CDs, DVDs e discos de vinil. Oldair é dono da Banca da Carol há 12 anos - que já tinha esse nome antes da compra, mas ganhou maior sentido ao nascer sua filha Caroline há 8 anos. Para abrir a banca, ele desistiu de uma lanchonete e não se arrepende. “Banca e lanchonete são comércios parecidos, mas na banca você tem a possibilidade de saciar a fome de cultura, e isso é muito mais prazeroso”. Apaixonado por cinema e música - influências de seu pai e sua mãe, respectivamente - Oldair conta que desde criança teve contato com o rádio, que sempre tocava em sua casa. Quanto aos filmes, ele via de faroestes a Charles Chaplin. Foi por essas paixões que ele agregou alguns CDs ao seu comércio - na maioria clássicos de sua preferência, como Alceu Valença e Dire Straits. Tempos depois, decidiu levar os filmes dos quais gostava para vender, como o “De porta em porta” e “Tapete vermelho”. “O negócio foi dando tão certo, que quando eu vi já estava emprestando filme por alguns trocados. Aí decidi começar com a locação”. A Banca da Carol fica na esquina da Rua Francisco Eugênio Mussiello com a Avenida Luiz Manoel Vellozo, próxima à “praça do Epa”, em Jardim da Penha, Vitória. O ambiente é tranqüilo, sendo até possível ouvir o cantarolar dos pássaros e desfrutar da sombra de um ipê rosa.

Foto: Astrid Malacarne

Lá encontramos de música erudita a documentários e filmes clássicos. O gosto de Oldair atrai gente que se aproxima para conhecer e acaba se tornando clientela fiel. Para João Luís Santos, 34 anos, amigo e funcionário de Oldair há cinco, o sucesso da banca está no conhecimento do patrão e no seu bom gosto cultural: “aqui, pitacos e sugestões são dados com prazer”. Oldair explica que procura sempre ouvir as indicações dos clientes: “faço pesquisa em sites, assisto filmes, leio revistas para locadoras e fico atento aos comentários nas ruas”. Assim, ele forma sua opinião e ajuda os clientes na escolha dos filmes e CDs. “Se chegam aqui e pedem algum produto que não tenho, não hesito em ir atrás para conseguir”. Agitado, ele elege a persistência e a ousadia como suas características principais. “Oportunidades me fascinam, eu gosto de arriscar, tentar e não desistir”. De cabelos compridos e presos, pele clara e face expressiva, vestindo sempre bermuda e tênis, Oldair revela um estilo despojado. Zenith Rosa, 49 anos, estudante, locou este ano cerca de 150 filmes com Oldair - muitos deles, seguindo as sugestões do comerciante. “Ele tem um excelente gosto pra filmes e música. Mas não é só isso. Ele tem também muitas raridades, a banca funciona como um sebo”. Para o dentista Fabrício Margotto Matos, 47 anos, amigo e cliente fiel há dez - Oldair foi inteligente ao unir o gosto de estar em contato com o público com o gosto por cultura. “Acredito que a preferência dele por música e cinema e a atenção que ele dá é que alavanca seu comércio”. A banca de Oldair, definitivamente, não é apenas mais uma banca de esquina. É uma banca de revistas, CDs, DVDs, doces e cultura, conduzida por um rapaz apaixonado por seu trabalho.

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Foto: Daniela Caniçali

r o s i v i d o d a h l i r t na Trilha para caminhada em Vitória liga os parques municipais de Mulembá e da Fonte Grande com vista privilegiada por todo o trajeto

O

relógio marcava 6h50 da manhã de sábado, 21 de setembro, quando as primeiras pessoas chegaram à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do bairro Joana D’Arc para a Caminhada Ecológica na Trilha do Divisor. Essa trilha foi criada com o intuito de ligar os Parques Naturais Municipais do Vale do Mulembá e Tabuazeiro ao de Fonte Grande e recebe esse nome porque está localizada nos divisores de águas do Maciço Central. A região é uma unidade de conservação ambiental de uso sustentável, ou seja, pode sofrer interferência humana. Os mirantes dos parques são dotados de uma visão privilegiada das cidades de Vitória e Vila Velha. O caminho tem cerca de cinco quilômetros de extensão, com subidas e descidas íngremes e trechos que podem trazer dificuldade. O início do percurso As mais de 200 pessoas que compareceram foram divididas em grupos de cerca de 15, acompanhados por dois guias: um a frente e outro ao final, para que ninguém se perdesse. Por volta das 8h os primeiros grupos fizeram um alongamento e logo depois, sob um céu nublado e com a escolta da guarda municipal, os trilheiros partiram. Um dos guias, Rubens Libardi, 22 anos, conta que realizaram o percurso no dia anterior a

por Izabelly Possatto Viviane Machado

fim de marcar o caminho e instalar pontos de desistência para quem não aguentasse o percurso. A primeira parada foi em um desvio da trilha principal, na área onde as paneleiras de Goiabeiras retiram sua matéria-prima, o barro. Apesar de ser uma região de importância histórica e ambiental, o local apresenta acúmulo de lixo, como copos descartáveis e garrafas plásticas. O motorista José Bonifácio, 41 anos, conta que esperava um ambiente menos poluído e mais preservado. “Acho que essa trilha é importante para criar o hábito nos moradores de Vitória de preservar os ambientes naturais”. Chamava a atenção a vegetação seca e regiões queimadas. O caminho passa por algumas propriedades privadas com cercas de arame farpado e, algumas vezes, gado pastando. À medida que a subida ficava íngreme e estreita, mais verde se via e menor a interferência humana se mostrava. Nestes trechos, cordas presas às árvores auxiliavam quem tivesse dificuldades para subir. No Mirante do Parque Municipal de Tabuazeiro, a vista da Pedra dos Olhos pode ser apreciada e contrastada com o bairro. Em meio ao vento e ao clima ameno, as pausas para fotos eram frequentes. Brincadeiras acompanhavam o grupo no percurso, além da implicância com os escorregões e a falta de preparo físico de alguns.


A caminhada continua Após duas horas de caminhada, uma parada para o lanche. A pausa permitiu a contemplação da paisagem do Mirante do Divisor ao topo da propriedade da família Gasparini. Ali era possível apreciar a foz do rio Santa Maria da Vitória, os montes Moxuara e Mestre Álvaro, a Estação Ecológica Ilha do Lameirão e a área urbana das cidades de Vila Velha e Vitória. A seguir, um trecho de mata fechada, em que se sentia os aromas de um ambiente natural pouco visitado. Os participantes desfrutaram de mais algumas paradas: o Mirante do Gravatá, o Mirante do Divisor, e a Caverna do Morcego. Próximo à caverna, plantas com grandes folhas atraíam a atenção. Sueli Fernandes, 38 anos, destacou esse trecho como seu favorito de toda caminhada. “Nunca imaginei que nessa região tivesse algo tão belo”. Uma rua de paralelepípedos completava o caminho até o Parque da Fonte Grande, que já estava próximo. O cansaço era evidente, mas ninguém pensou em desistir. Para os estudantes Eduardo Zanotti, Tiago Vendramel e Pedro Henrique Rossoni, 14 anos, o trajeto foi exaustivo. Eles esperavam que fosse mais plano e menos escorregadio, mas as dificuldades não os impediram de terminar o percurso. A chegada Uma mesa repleta de frutas e uma banda tocando clássicos da música brasileira aguardava os participantes ao fim da trilha. Teve até quem arriscasse alguns passos de dança. E havia ainda os mirantes do Parque Estadual da Fonte Grande: um convite para apreciar a vista no ponto mais alto de Vitória - 308 metros de altitude. Para ir embora, a disposição e a paciência contavam mais do que o cansaço. “Ações assim deveriam acontecer sempre. A proposta é fazer também um corredor ecológico ligando Tabuazeiro à Fonte Grande. A região está em estudo e em processo de sinalização”, conta Renato Fiorotti, 23 anos, estudante de engenharia ambiental e membro da organização dessa caminhada inaugural.

Informações: Interessados em percorrer a Trilha do Divisor devem agendar com a Secretaria do Meio Ambiente de Vitória pelo telefone: 3382-5366. É importante levar água e comidas leves para as cerca de três horas de percurso.

Fotos: Izabelly Possatto


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micro, com

macro

importância

por Maíra Mendonça Viviane Machado

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Invisíveis a olho nu, as microalgas são importantes não apenas como fontes produtoras de oxigênio, mas também como potenciais produtores de biodiesel

lém de sua relevância enquanto agentes ecológicos, as microalgas começam a se destacar economicamente, devido à possibilidade de serem utilizadas como matériaprima para a produção de biodiesel. De acordo com a professora do departamento de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e doutora em biologia aquática, Valéria Oliveira Fernandes, 46 anos, “essa possibilidade existe, pois muitas espécies de microalgas produzem lipídios naturalmente, como uma substância reserva de energia. São esses os lipídios que pretendemos extrair e avaliar para produção do biocombustível”. Segundo Valéria, o biodiesel refere-se a um combustível renovável e biodegradável, obtido comumente a partir da reação química de lipídios, óleos ou gorduras, de origem animal ou vegetal. Ele pode ser usado puro ou misturado com o petrodiesel (combustível diesel derivado de petróleo). “No Brasil, existem inúmeras pesquisas que buscam a produção de biodiesel a partir de plantas oleaginosas em geral, como mamona , pinhão manso, canola, girassol e dendê”, afirma a professora. Para Edson dos Santos Rangel, 21 anos, estudante do 5° período de Biologia da Ufes e participante do projeto “Microalgas”, esses organismos são uma boa opção para a fabricação do combustível, visto que sua reprodução não necessita de uma área tão extensa quanto a das plantas e pode ser realizada em qualquer lugar (desde que hajam condições de luz, temperatura e ambiente adequadas). Além disso, sua procriação é rápida. O estudo também inclui uma proposta que visa o reaproveitamento da biomassa (restos orgânicos das microalgas utilizadas no processo) para produzir farinha

para gado e ração para animais domésticos, além de servir para enriquecer alimentos como barras de cereal. Segundo Bruno Repossi, 21 anos, estudante de Biologia e bolsista do projeto, “cada microalga, dependendo de seu tipo e das condições ambientais em que se encontra - luminosidade, temperatura e quantidade de nutrientes - é capaz de produzir de 30 a 80% de óleo em proporção de sua massa seca total”. Entretanto, para produzir cerca de 1 miligrama (ml) de óleo é necessário uma grande quantidade desses seres microscópicos. “Por isso, uma das dificuldades que o projeto enfrenta é a falta de infraestrutura, ou seja, a carência de um espaço físico maior para o cultivo desses microorganismos”. Todo esse processo ainda esbarra em outro empecilho que é o alto custo. Atualmente o preço médio do biodiesel na região Sudeste é de R$2,28. De acordo com a professora Valéria, “calcula-se que o preço do litro de biodiesel feito a partir das microalgas chegaria a quase R$10. Nesse sentido, o grande desafio do projeto é avaliar não só a possibilidade de produção de combustível através das algas, mas também, como tornar essa alternativa economicamente viável”. A importância das microalgas vai além da produção de oxigênio e de biodiesel. O Laboratório de Taxonomia e Ecologia de Algas Continentais (LATEAC) - que reúne um grupo de 15 pesquisadores de Ciências Biológicas - utiliza esses microorganismos como indicadores da qualidade da água de lagos, represas, rios e lagoas. Valéria explica que “através da presença e da quantidade de cada espécie de microalgas, aliados a alterações em sua cor e forma, é possível entender as condições ambientais dos ecossistemas sem a necessidade da utilização de dispositivos tecnológicos caros”.

O que são microalgas? As microalgas são organismos microscópicos fotossintetizantes (produzem seu alimento a partir de fotossíntese) que vivem principalmente na água, mas também podem ser encontradas em outros lugares, como troncos e folhas de árvores, terra, muros úmidos e paredes de aquário. Elas são grandes fontes de oxigênio, uma vez que possuem a mesma capacidade de produção do gás que as folhas das árvores. Existem em grande quantidade e consomem menos gases.


A pesquisa Em dezembro de 2010, foi aprovado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) o projeto “Biodiesel: pesquisa, desenvolvimento e inovação em tecnologia para a produção e uso de biodieseis derivados de óleos de microalgas”. A pesquisa possui o prazo de três anos de duração e reúne 11 pesquisadores (biólogos, químicos e engenheiros químicos e agrônomos) espalhados por várias regiões do Brasil. O objetivo é descobrir qual tipo de microalga produz mais óleo, verificar sua qualidade e encontrar uma maneira de estimular esse microorganismo a produzir fluido em maiores quantidades.

Fotos: Maíra Mendonça e Viviane Machado

Estudos com microalgas na lagoa da Ufes Há 10 anos a professora Valéria, junto com alunos do curso de Ciências Biológicas, utiliza as microalgas como biossensores na lagoa da Ufes. Todos os anos os sinais ambientais são detectados por um acompanhamento temporal, realizado por meio da coleta desses organismos presentes na água. “A qualidade da água da lagoa está, paulatinamente, melhorando. Antes havia uma proliferação de microalgas com deformidades e baixa biodiversidade, detectada pelo domínio de algumas espécies de algas, que se adaptavam a água poluída, em detrimento de outras. Hoje as deformidades são menos detectadas e a biodiversidade aumentou”, conta Valéria. O último trabalho realizado na lagoa da Ufes venceu o prêmio de melhor apresentação em painel no XIII Congresso Brasileiro de Limnologia, que aconteceu em Natal (RN), em setembro de 2011, e reuniu pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

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Mais que um trabalho Trabalhar com queimados pode parecer desgastante. Mas para as funcionárias do Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) é uma realização

por Esther Radaelli Maíra Mendonça Ilustração: Camilla Corrêa

O

Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Dr. Dório Silva (HDDS), localizado em Laranjeiras, na Serra, é referência em todo o Espírito Santo desde sua fundação, em 1990. Referência consolidada ao longo dos anos, não pela aquisição de materiais de última geração, mas sim pela qualidade do atendimento de quem lá trabalha. No CTQ, a humanidade faz a diferença. O Dório Silva, no quesito aparência, não se enquadra no que esperamos de um hospital. De apenas um pavimento, seus prédios estão espalhados por todo o terreno. Para chegar ao CTQ, temos que passar por uma porta monitorada por um segurança e, depois transpassar um longo corredor. Placas com setas coloridas auxiliam no caminho. Após uma porta branca, entramos em um modesto corredor verde pálido. No centro da parede, em frente a um balcão, um pequeno quadro de giz indica o nome dos pacientes distribuídos nos seis leitos do local e o daqueles em situações mais estáveis, que vão lá diariamente dar continuidade ao tratamento. No plantão, enfrentando uma escala de 12/36 horas (12 horas de trabalho direto, 36 horas de descanso), estão seis funcionários, entre enfermeiros e técnicos de enfermagem, além de uma fisioterapeuta e uma chefe de enfermagem, que ficam no hospital das 7h às 13h. Existem também três cirurgiões plásticos e dois anestesistas disponíveis 24 horas por dia, e um anestesista que acompanha os banhos pela manhã. Um lugar que tinha tudo para ter um aspecto triste e frio, mostra-se feliz e acolhedor. Durante nossa breve estadia, um dos pacientes chega de maca e os maqueiros que o levavam diziam, sorrindo, que ele gostaria de ver o jogo do Brasil que seria transmitido à noite. Os pacientes não são reconhecidos apenas pelos números de suas fichas: são chamados por nome, sobrenome ou, quem sabe, apelidos. O CTQ atende pessoas acima de 11 anos, somente em estado grave. Por isso, o local também é Centro de Tratamento Intensivo (CTI). Os demais pacientes são levados para a enfermaria de cirurgia plástica e só retornam ao CTQ para tomar banho e fazer curativos. Cuidar de pessoas queimadas requer um tratamento diferenciado, que envolve não só esforço físico, mas também esforço mental. Os profissionais do CTQ falam sobre o seu cotidiano.

ra de tantas pessoas” ho el m a ra pa os m uí ver que contrib “O mais gratificante é magem, trabalha os, técnica de enfer Gisele Rodrigues, 33 an Q. há um ano e meio no CT

a senmarcou. Foi quando um Houve um caso que me a neta, um choque elétrico e su hora, a dona Elza, sofreu também. -la e acabou se ferindo lvá sa tar ten foi , da an Am serviço social jovem, faz faculdade de Amanda é uma moça está consetebraço direito. Mas ela an o tar pu am e qu e tev e s conversar e ltou aqui, nós pudemo guindo se adaptar, já vo fizemos amizade.

mirim, , de Cachoeiro de Itape go dri Ro o , nte cie pa Outro ao hospital e por eletricidade, voltou que havia se queimado balho não uma de nós. Nosso tra da ca ra pa a ros a um trouxe do trabalho so, ou pela dificuldade é fácil. Não é só pelo pe . Mas, o um desgaste psicológico em si, mas há também a melhora de que contribuímos para mais gratificante é ver tantas pessoas.


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o CTQ.. agem d m r e f n a de e havia do me enador iei n porque d ic a r , o u o in o d Q o c n “ , d a s sei: chor ar e a . Quan 45 ano Eu pen para cá gurado ria cuid Bravo, e u im u a .O lo q V e in . b i s m e o o R ad em dia gué Qf T in im je C n e o o u h e Marisé q u s o q o ado quand . Ele ar com e vem enores) trabalh te queim e do qu s, desde t n m o a n r n ie s e e c a e r s a e 1 ia o p if r 2 d e er. muito d gou um que qu dos em aqui há m com e a a e a r h o c n e is C li lh o . o p ia a c t e a u b n d Tra onseg culda última estesia sei ratame a na fa e não c s da an ão, pen rreira, a oca, o t t lá im a io p n s c é e d s E é d é a . r la p h m e e ía min iência sia (re . Eu sa . Naqu que faz analge a exper u disso echado abia o a f s o v g o o a t e ã r r m r n a o a u tido um para t u nc ava e e m um q o e não pecífico a me e e it s r h r e o a n g s v r a , s a s o b e t c f e r e a fi s tro o pro av rande e ara den sentia d o havia ão tom g p ã n s le o n e e e it t t . o u ” n n is ç s pacie come tido m , nós s pacie imado rível, po odor fé levar o m lado uer. No om que q u era hor e c m u i e u q e m m d r a é é s a b h u o m g lh m a ,a tin , tínham nde nin is traba iente ta roteção s gritav o o a c s e p t a r is m n p a m a ja ie e r o lh c s u a ar e Para pele e e traba aria. P . Os pa me form enferm tem qu e. Sem algesia o s n a s d o a e d n d c a n o e m r u a r t e “q eg muita eira, s os den o apod r. está ch tivesse mangu pele nã e morre s curativ a a r a o Quem o o s m ã e b o ç u u c m q m e m a inf para quei, e icômio do, fazía água neles co zer isso e ter um Só eu fi m man a d . u f o queima m r e p is a a u a r e g q t a m t n pacie rto e jo hamos aguen qui era rata. O do qua co não utro, tín e isso a id o in s u c e q o s d , d s a o s o c rp s, que ,m mo meiras mos lou stesista i, e o co r gritáva a e u e r f n é in n a e e e im u q ientes eis ad ade d , os pac achava os em s perativ o o s o m o d is imunid a c r n d é u a s ício do m . Ante . Com Nesse in ntes bém. To eimado elhorou m u a m q t o a ir s pacie ã d a o ç a s , a c s u e a a d it t r s entos a is e p a es vontad s anest eus ferim . tesistas pital. urado e s s o s g e d o e u n h u a a a q d s in m u a vez a isso TQ foi a chega inha trê do que pos, um relação m isso, o C , às vezes eu t a. Com li d m id r o ir is t c o lo n a p o ente d se o De or acid tranquil roduçã p te mais riam se is r p e a a a r u r p o q u m p d a is á a t a o dia era vida es ganhav o queim oje em anho, p a h o, que b s m h s r s o n o a a c a n , m m b o do , bem e iam to éstica, trabalh fugiam s estão Joaquim nte de quando cia dom le o e n e ; m id s lê a c a á r v io a g o e em v a g e t e tricidad pergun ura com mos é d reção. A casos d le d e c e s a e b r o s e o c im m a p e e e r it mu duras por qu . Receb os que geram queima o João, suicídio dos cas i m u e o ia q d c r a , a io d o a iv Am ancisc um tentat s leitos o e o Fr . Existe stão no d s ambém e t e o r , t e lf o n t e A o n ic e elétr fogo; o s tratam ão altamente o mom e outro enos. N atearam d nte is s e m e t u n q m e e b em cê se se fissiona difer o o a r v u e , p t r s n s e e e t u d r pacien pletam ida. Me o. morado os seus s é com utra fer trabalh o n o d e o r a d e d e u a t im lt alq ue su Minha aciden to de q vê o re rata qu m faz. t n e ê e e u c s q o m v o a é t O tra , eu uando de com r, Deus cado. Q ra faze cionário iferente e a n r d p u f o á lo r d d o e a c o t em lqu proto que nã ue ele t . dão con de qua q a O e o d . o r s a ã lh a o z t a d li n id b a to rea balha de tra Digo e idar, cu capacit iro dia não tra Irmão? u me sin o é cuidar, cu e , E ? e . t e im a n r ã d e p r M a e jetiv realiz tar dif em. No : Filho? nico ob . Se tra daqui b o is gosta ã a m m m ia ir Nosso ú a le s eles ãe, seu óloga r que e e é que , sua m familia ma psic o u o lh é fi m e vontad u t m gica se ó ue spital s r psicoló de i como o o gunto q u r h d q e a o a p e é e is t lh cien es, po r física ormida tar o pa pacient uer def ue a do s q s o lq d a o u s d que tra q o r , que ele tro . Pio é n s t icólog e o s a d p m o i r . s a u fi o o cham bém comig stão aq , eu pre os tam vezes a uanto e s vezes q À n . e o it e Nós som diatria e só ás u Porqu uda m daqui. na pe dele m m a e a id s v o a que fica and depois tem qu al, mas m r que sen o n gente é para a aqui... fiquem

s , jamai formar

“Nossa maior recompensa é quando os pacientes vão embora” Ana Maria Murta, 50 anos. É técnica de enfermagem há dois anos. Entrou como voluntária e em fevereiro deste ano foi contratada. É muito bom trabalhar aqui. Trato os pacientes com muito carinho, é como se fossem meus parentes. A dor que sentem é muito forte. Seria fácil fazer um curativo e enfaixar o ferimento sem limpá-lo, mas não posso fazer isso. Tenho que fazer raspagem e limpar o local para que ele não infeccione. Sempre digo aos pacientes: vai doer,

**Os nomes dos pacientes são fictícios para preservar sua privacidade.

mas é para o seu bem, vou limpar bem devagar. A nossa maior recompensa é quando os pacientes vão embora. Há uns quatro meses eu estava dando banho em um paciente que estava em coma e entubado. Quando terminei e o coloquei na cama ele abriu os olhos. Não pude me conter. As lágrimas desceram.


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quando prender não é a

Solução por Fábio Andrade Leonardo Ribeiro

C

Espírito Santo é referência na aplicação de penas alternativas, mas precisa reformular o sistema

amila [nome fictício], 34 anos, ficou desempregada e sem muitas opções. Decidiu, então, ganhar dinheiro vendendo DVDs piratas na feira, como muitos. Ela não via problema nisso, mas a Justiça sim. Camila foi autuada pela polícia e julgada. Apesar de ser o destino comum a quem desobedece às leis, ela não foi parar na penitenciária, mas sim condenada a prestar 730 horas de serviços públicos. A pena alternativa é um recurso cada vez mais usado pela justiça no país. Implantadas no Brasil em 1984, ela surgiu com a reforma do Código Penal, prometendo desafogar as penitenciárias e diminuir a reincidência. Nos últimos 27 anos, no Espírito Santo, o número de pessoas julgadas a penas alternativas cresceu vertiginosamente. Poucos reincidiram. O Espírito Santo é referência na aplicação e fiscalização de penas alternativas, sendo reconhecido pelo Ministério da Justiça como um dos três melhores estados do Brasil nessa prática. Desde 2001, a Vara de Execução de Penas e Medidas Alternativas de Vitória (Vepema) é responsável por toda a Grande Vitória. Na época da inauguração, eram apenas 900 processos em penas alternativas no Espírito Santo. Agora, já são 20 mil só no interior do estado e 17 mil na Grande Vitória. Um deles é o de Camila, que cumpre sua pena trabalhando como auxiliar administrativa em uma repartição pública. Ao avaliar sua situação, ela fica satisfeita por não ter sido detida, mas se queixa de sua condenação: “Não sabia que vender DVDs piratas era errado. Pensava que só cometia crime quem fabricava”. Camila garante que não repetirá o erro. “Não quero correr o risco de ser condenada novamente. São 730 horas de serviço. Poderia estar trabalhando ou convivendo com meus filhos”.

A Vepema atende a 5 mil condenados por mês e encabeça o título de referência em penas alternativas do estado. Segundo Carlos Eduardo Ribeiro Lemos, juiz titular do órgão, isso se deve à estrutura diferenciada criada pelo Judiciário. “Vários estados hoje copiam o modelo de monitoramento que é feito aqui”. O exemplo, inclusive, atravessou o Atlântico. Em maio, autoridades do governo de Moçambique vieram conhecer as penas alternativas aplicadas no estado e estão começando a implantá-las no país africano. São muitos os benefícios trazidos à sociedade por esse método. “Além de economizar dinheiro público, a pena alternativa deixa de colocar alguém na prisão e dá uma função ao condenado”, afirma o juiz. Todos os crimes com pena de até quatro anos são passíveis de penas alternativas - exceto aqueles que tenham violência envolvida ou em que o indivíduo seja reincidente. Os mais comuns no estado são os de uso de drogas, pequenos furtos e crimes de trânsito. O que também caracteriza as penas alternativas é o acompanhamento psicológico, considerado importante por Sônia Cavassani, assistente social e coordenadora do Serviço Social e Psicológico da Vepema. Ela explica que o serviço prestado sempre é compatível com o que o apenado sabe fazer. “Nós adequamos a pena ao perfil de cada um. Vemos o lugar onde mora, horário de trabalho e situação financeira. Ajudamos no modo de cumprir a pena”. Alguns, entretanto, preferem não cumprir a pena perto de casa. Também há casos de pessoas que não querem fazer o serviço de acordo com a área de atuação. Um advogado, por exemplo, pode não querer que os profissionais de seu meio saibam que ele está cumprindo pena. Muda-se de área então: se ele souber tocar violão, vai dar aula de violão.


Muitos apenados assumem a pena de forma negativa, como obrigação. “Mas se formos pensar, a gente não trabalha por obrigação? Mesmo que você goste do seu trabalho, em algum momento vai ser penoso exercê-lo”, argumenta Sônia. Há ainda aqueles que preferem ir presos a cumprir a pena alternativa - geralmente são pessoas com dependência química. “Mas esses não são nem um por cento do total”. A maioria reage bem à situação. Muitos conseguem o primeiro emprego formal depois de cumprida a pena. “Maqueiros de hospital, em muitos casos, são cumpridores de penas e alguns são efetivados”, ilustra Sônia. Uma das maiores finalidades dos serviços prestados é fazer o apenado se sentir útil. Não é adequado que uma instituição ofereça pouco trabalho ao apenado. “Quanto mais comprometimento ele tiver, menor é a chance de ocorrer irregularidades”. Sônia alerta para uma frequente má interpretação das pessoas e da imprensa. “Muitos têm uma ideia errada sobre as penas alternativas, dizendo que elas põem ‘médicos para varrer pátio’. Para que eu vou colocar uma mão-de-obra especializada para varrer chão se há lugares que precisam de médico para atender crianças e idosos? A pena alternativa tem caráter pedagógico. É uma prestação de serviço à comunidade. Não é só uma pena, é uma forma de inclusão”. Entretanto, em meio a tantos benefícios à comunidade e ao apenado, há ainda o que melhorar no sistema de penas alternativas: a Vepema está sobrecarregada. “Hoje o juiz tem que fazer uma audiência coletiva com cem pessoas de uma só vez”, diz Sônia. Carlos compartilha da mesma opinião: “o volume de casos tem se tornado um problema sério para a qualidade do nosso trabalho. Isso atrapalha o acompanhamento e a fiscalização também”. O volume cresceu porque os juízes vêm recorrendo mais às penas alternativas. Porém, a estrutura e o número de servidores não estão acompanhando esse crescimento. Apenas a Vepema trabalha com todos os processos da Grande Vitória (17 mil). Sônia alerta para um perigo: “a pena de presídio está falida. Criaram a pena alternativa e ela já está sendo sucateada também. Se continuar assim, em breve os apenados vão fingir que cumprem a pena e nós vamos fingir que fiscalizamos”. Ilustração: Jess Melo


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Uma causa

especial

por Isabella Mariano Karolina Lopes

Para falar a língua deles, é preciso entrar em seu mundo. Buscam mais a felicidade do que a cura. Uns não conseguem olhar em seus olhos. Outros não passam sem te cumprimentar. Esses são eles: os autistas

ainda ir ao banheiro ou tomar banho sem a ajuda de Às 6h, Breno acorda, para estar na escola às 7h, onde outra pessoa. fica até 12h45. Almoça por volta das 13h e, em seguida, Essa falta de autonomia é comum aos autistas, assiste um pouco de televisão. Simula engarrafamentos mesmo que alguns desenvolvam capacidades com seus carrinhos de brinquedo, gosta de gibis da extraordinárias. Levado ao extremo, esse sintoma Turma da Mônica, de guias de estradas e de ficar na casa pode descrever a chamada “Síndrome de Savant”. De do avô, enquanto espera a mãe retornar do trabalho. À acordo com o médico Roney de Oliveira, doutor em noite, ele janta, usa o computador e, quando o relógio transtornos cognitivos, a síndrome é rara e caracteriza aponta 22h, dorme. Essa é a rotina do filho de Renata aqueles que são gênios em apenas uma função. “Alguns Gasparini Aguirre, 44. Um menino de 12 anos, alegre, têm memória fotográfica, sensível e autista. outros habilidade musical Mãe de primeira viagem, Breno, 12 anos. Um menino alegre, ou matemática”, explicou Renata lutou para obter o sensível e autista. o médico. O caso do filho diagnóstico do filho – problema de Renata é outro. Sua comum entre os pais ou disfunção é classificada responsáveis. Após muitas visitas como “Síndrome de a neurologistas e a pediatras Asperger”, uma desordem de Vitória, Renata foi a um que não apresenta atraso psiquiatra do Rio de Janeiro. Ela e o filho fizeram diversas no desenvolvimento viagens para realizar as consultas. cognitivo ou da linguagem. Todos os meses ela precisava Isto é, Breno sabe ler, contribuir com entrevistas sobre escrever e falar. Em geral, o comportamento da criança. os autistas apresentam Na época, ele era muito novo alterações na comunicação e ainda não sabia falar, o que e na socialização. Mas cada comprometia algumas respostas. um desenvolve sintomas Após um ano de idas e diferentes, o que faz vindas, Renata estava cansada. com que o autismo seja O esgotamento não era só considerado uma síndrome, físico e mental, mas também podendo variar o grau. financeiro. Foi quando decidiu pressionar o médico e não demorou muito para Tratamento receber o diagnóstico. Hoje, com o conhecimento que Não há cura para o autismo. Ou, de uma forma mais tem, ela acredita que não deveria ter esperado tanto. otimista: ainda não há cura. Hoje existem tratamentos São diversas as causas desse atraso: a negligência do que conseguem, em alguns casos, fazer com que o médico, a falta de informação de quem faz a consulta ou paciente seja integrado à sociedade. “A ideia é permitir mesmo a falta de profissionais capacitados. Nessa época que ele tenha outras rotas mentais para executar Breno estava com três anos e aprendia a ler sozinho, aquilo que, pelo caminho comum, não conseguiria”, juntando as letras que via em outdoors e panfletos. explica o médico. Assim, compreende-se a importância Esse desempenho excepcional em áreas específicas é dada ao acompanhamento médico, auxiliado pela chamado de “ilhas de inteligência”. Mas, apesar de ter fonoaudiologia, neuropediatria e terapia ocupacional. aprendido a ler sozinho e de ter memorizado o nome Mas nem todos consideram essa a melhor forma de de todos os países e de suas capitais, ele não sabe lidar com o autismo. Renata, por exemplo, abriu mão


desses acompanhamentos. “Eu o tirei de tudo, porque conheci um psiquiatra que disse que a única coisa que eu deveria fazer com meu filho era torná-lo feliz”. Hoje, Breno estuda em uma escola regular e particular. Lá, ele tem acesso a uma estagiária de Pedagogia que também o ajuda duas vezes na semana a realizar as tarefas de casa. Ele também faz acompanhamento com um psiquiatra, que analisa seu comportamento e se a medicação tem surtido efeito. Mas não importa a escolha, todas geram gastos. As consultas são caras e muito se gasta até a obtenção do diagnóstico. A mensalidade de uma escola particular, com atendimento especial, é mais cara do que a de um aluno sem deficiência. Babás, medicamentos e exames são outras despesas de quem lida com uma criança autista. O Sistema Único de Saúde (SUS) e as escolas estaduais nem sempre estão preparadas para atender a essa demanda, apesar de ser um direito garantido na constituição.

Legislação

Em 2008, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva instituiu o decreto n° 6.571 que regulamenta o atendimento educacional especializado. O artigo primeiro diz “A União prestará apoio técnico e financeiro aos sistemas públicos de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, na forma deste Decreto, com a finalidade de ampliar a oferta do atendimento educacional especializado aos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, matriculados na rede pública de ensino regular”. Esse é apenas um dos decretos que existe na constituição brasileira relacionado à educação especial. Existem também leis que abordam o amparo que o governo e a sociedade devem dar ao deficiente. Desde maio deste ano, tramita no senado o projeto de lei nº 168 que pretende instituir uma Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente dispõe em seu artigo quarto que é dever da família, da sociedade e do poder público assegurar André, 9 anos, em horário de recreação, brincando no computador com a cuidadora Cida.

os direitos referentes “à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”. Ainda assim, nem toda criança autista usufrui de um bom tratamento. Pensando nisso, desde 2001, a Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (Amaes) oferece apoio às famílias e busca proporcionar tratamentos terapêuticos e pedagógicos. Trata-se de uma entidade privada e sem fins lucrativos. Atualmente, a Amaes é gerida pela secretária administrativa, Graziele Malacarne, 34 anos, também mãe de uma criança autista. Hoje, a associação atende 70 crianças e é mantida por ajudas governamentais - com a cessão de professores pela Secretaria Estadual de Educação (Sedu) e com o trabalho de condenados que cumprem penas alternativas, resultado de uma parceria com a Secretaria de Justiça. A entidade também recebe doações de pais e de amigos. Segundo Graziele, outra parte significativa da renda da instituição é o bazar. “Com esses recursos, nós tratamos as crianças. Estamos tentando proporcionar um tratamento de boa qualidade”. O Brasil ainda está conhecendo o autismo. Prova disso é a criação recente de leis de amparo e a tramitação do primeiro projeto de lei direcionado aos autistas. É importante conhecer pessoas como Renata e Graziele que, mesmo sem formação específica, têm muito a dizer sobre o autismo. Renata avalia que “o que faltam são bons profissionais”. E Graziele completa: “É preciso entender e respeitar a família e o autista. Não precisam ter pena. Hoje, sei que fui escolhida por Deus”.

Símbolo mundial Este é o símbolo mundial da conscientização do autismo. Trata-se de uma fita feita com peças de quebra-cabeça, que representam o mistério e a complexidade da síndrome. As cores e formas simbolizam a diversidade tanto do autista, quanto da família que lida com a desordem.

Gustavo, 5 anos, e Laíne, 10, na sala de jogos.

Fotos: Isabella Mariano


por Any Cometti

V

Ilustrações: Jess Melo

Liberdade de não crer

No Brasil, adeptos do agnosticismo e do ateísmo se reúnem na internet na luta por tolerância e por um estado laico

ocê sabe o que é ateísmo? E agnosticismo? Conhece a diferença entre eles? Se você respondeu ‘não’ a pelo menos duas dessas perguntas, falta-lhe informação sobre essas posturas filosóficas ou modos de vida. Segundo ateus e agnósticos, uma das principais razões para o preconceito que sofrem é o desconhecimento. Apesar de muitos adeptos dizerem que há poucas diferenças entre ateus e agnósticos, o professor da Ufes Edebrande Cavalieri, 58 anos, doutor em Ciência da Religião, explica que há diferença entre eles. Ateus não acreditam em divindades, não veem a necessidade da existência de um deus. Já agnósticos não se concentram na existência ou não de deus: para eles, só pode ser conhecido o que pode ser observado, quantificado, estudado. “O agnóstico tem uma relação que sempre brota dos fatos, das experiências”. Segundo ele, a quantidade de ateus tem crescido no Brasil e isso pode ser uma reação à imposição de um deus extremamente dominador, cultuado por algumas religiões.

Entretanto, a moral social é um campo em que a intolerância, que vai além da religiosa, interfere na maneira como líderes de igrejas e fiéis interpretam as doutrinas de sua religião. “Sempre digo que defendo a construção de mais escolas decentes e de menos igrejas, o que, para mim, quer dizer mais esclarecimento e menos hipocrisia”, conta a universitária Ana Oggioni, 22 anos. Segundo ela, o preconceito contra os ateus surge, sobretudo, dos religiosos que os vêem como imorais, como pessoas que não sabem diferenciar “o certo do errado, o bom do mau”. Ana ainda não sabe definir a qual das duas filosofias pertence. “Não vejo necessidade de definição. A religião de uma pessoa é tão importante como sua cor favorita”, ironiza. Mas destaca: é algo pessoal, íntimo e formador da identidade, por isso não pode ser desconsiderado. Viver a vida sem desrespeitar o próximo é um lema do universitário Ricardo Aiolfi, 22 anos, agnóstico que possui crenças mas nunca teve a religião como priorida-


CONSTITUIÇÃO FEDERAL Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público; II - recusar fé aos documentos públicos; III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.

de. Ricardo não teve uma ligação forte com a igreja católica. Por volta de seus 15 anos, começou a questionar conceitos como inferno e pecado e, então, sentiu que precisava de uma espiritualidade própria. Para ele, o catolicismo possui discursos de fachada e bases em penitências e sacrifícios. “Não acho que você tenha que se torturar para aprender coisas boas. Se existe um deus, pra mim, ele não deveria engrandecer o sofrimento”. Ana concorda com as considerações de Ricardo sobre o catolicismo e questiona as religiões judaico-cristãs, em oposição àquelas que fazem cultos à natureza. “Vários líderes dessas religiões aumentam a ignorância das pessoas, que não são estimuladas a interpretar a Bíblia, mas sim a segui-la cegamente”. O professor Cavalieri acrescenta: “A fé deve ser criticada e deve suportar essas críticas. Se não as suportar, ela não é verdadeira”.

Pelo fim do preconceito

O campo da religião se instalou e sobreviveu nas lacunas do conhecimento humano. O professor explica que as crenças surgiram para responder perguntas que, até os dias de hoje, não têm respostas concretas. “De onde viemos?” e “Para onde vamos?” são alguns dos questionamentos que levam as pessoas a buscar a fé religiosa. Para Ricardo, o agnosticismo é um tipo de “fé racional”, em que não se crê cegamente nem no mundo concreto, científico, nem no abstrato, das crenças. Ana defende leis regulatórias para todos, uma vez que igrejas e políticos se aproveitam mutuamente para garantir seus interesses, que muitas vezes não são os interesses da população. “Da mesma forma que um católico tem o direito de ter sua cruz no tribunal, um umbandista pode ter a figura de seu orixá e o muçulmano pode levar o alcorão”. Em defesa do estado laico, não só estão de acordo Ana e Ricardo, como também milhares de brasileiros que compõem associações e organizações de ateus e agnósticos online. O paulistano Daniel Sottomaior, 40 anos, reuniu um grupo de ateus na internet para criar, em 2008, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA). Daniel, que é ateu, conta que um dos principais objetivos da

ATEA é lutar contra o preconceito. “Já houve repercussão nacional em casos de discriminação contra nordestinos, por exemplo. Com ateus, houve casos parecidos, mas nada é feito”. Além de serem submetidos a imagens e conteúdos religiosos em tribunais, casas legislativas, na constituição e até nas notas de real, os meios de comunicação não contribuem para que o preconceito contra o ateísmo seja desmistificado. Eli Vieira, 24 anos, membro da Liga Humanista Secular do Brasil (LIHS) diz que o preconceito surge, também, da opressão ao questionamento a uma doutrina ou prática religiosa. “A pessoa não é bem-vinda se suas posições filosóficas forem demonizadas e conceituadas de forma pejorativa em grupos de fé”. Mineiro residente em Porto Alegre, Eli conta que ateus e agnósticos precisam se comunicar mais e melhor com a sociedade - esse é um dos propósitos da LIHS, que surgiu em 2010 como fruto de uma união pela internet. Como um slogan da Liga, em sua logo estão as palavras Humanismo (valores morais que compõem a dignidade humana), Secularismo (conjunto de valores independentes de religiões e crenças religiosas) e Laicismo (o secularismo aplicado ao poder público, ou seja, separação de religião e Estado). Recentemente, acrescentou-se também a palavra Racionalismo, “para expressar que este debate deve ser feito pelas regras também comuns a todos: as regras da razão”. Mesmo com a quantidade de ateus declarados - segundo Cavalieri, são entre 7 e 10% no Brasil – e as ações de conscientização crescendo, a intolerância segue no mesmo ritmo. “Acredito que aqui o estado tenha que interferir. A liberdade de culto não pode admitir práticas de intolerância religiosa que culminam numa inflexibilidade moral”, enfatiza Cavalieri. Segundo Ana, “discutir religião, fazer enfrentamento direto, é burrice. Precisamos de compreensão mútua e respeito para que nossa vida em sociedade tenha mais qualidade”. Há uma moral para cada época e para cada povo, conta Cavalieri, mas “todos somos responsáveis pela formação ética da humanidade”.

CONSCIENTIZAÇÃO TAMBÉM NAS RUAS Em Julho desse ano, a capital Porto Alegre (RS) recebeu a primeira campanha de mídia sobre ateísmo. Os outdoors usados para a conscientização e pela luta contra o preconceito a ateus e agnósticos foram uma iniciativa da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos - ATEA. Segundo Daniel Sottomaior, presidente da ATEA, o objetivo da campanha é aproximar o ateísmo do dia a dia da sociedade e, assim, minimizar a discriminação.

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o time

por Rafael Freitas

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Torcedores do Corinthians, conhecidos por sua fervorosa fidelidade ao time, mostram como o futebol é capaz de mover pessoas para tão longe de suas casas apenas para assistir a uma partida de futebol

957 km de distância da sede do clube, capixabas corinthianos não medem esforços para acompanhar o time de perto ao longo de todo campeonato. Mensalmente, os membros da torcida organizada “Camisa 12 Espírito Santo” (ver box) deixam suas ocupações e seus lares para embarcar em um ônibus e viajar para onde o Corinthians estiver jogando. Em agosto deste ano, o grupo esteve em Ipatinga (MG) para um jogo contra o Atlético Mineiro. Apenas três dias depois, estavam eles na estrada de novo, a caminho de São Paulo, para um jogo contra o Figueirense, de Santa Cantarina. Desde 2010, Igor Bonella, o “Pezão”, é o presidente da Camisa 12. Ele divide a responsabilidade de organizar as caravanas com outros dois diretores. A atividade não gera qualquer tipo de renda para nenhum deles. “Não é fácil organizar as viagens. Muita gente quer ir, mas não consegue pagar e por isso acaba desmarcando em cima da hora. Preciso ficar ligando e gasto muito com telefone”. Apesar de todo o trabalho, Pezão diz que vale a pena: “depois que entro no ônibus, esqueço todos os problemas e só penso no Corinthians”. De fato, não se discute outros assuntos nas viagens. Do embarque até a chegada ao estádio só se fala de futebol. Em geral, os torcedores ficam tão ansiosos que dos cerca de 25 torcedores que saem, quase ninguém dorme - mesmo diante das 15 horas de viagem até São Paulo. A ansiedade é maior quando se é um novato. Marcos Rodolfo morou até os 11 anos em São Paulo, mas nunca havia ido a um jogo, pois os pais não permitiam. Hoje com 18 anos e morando no Espírito Santo, teve a primeira oportunidade de

acompanhar o time. “Tive que esperar esse tempo todo para ir ao estádio ver o Corinthians. Isso sempre foi meu maior sonho e todas as dificuldades valeram a pena”. Como é comum no Brasil todos os times jogarem em um mesmo final de semana, cada parada é planejada com cuidado por Pezão, para que não haja confrontos com outras torcidas na estrada. “Toda vez que saímos de casa, fazemos uma oração e quem reza para Deus, reza pela paz. Aqui, ninguém quer arrumar confusão”. Raile Rodrigues, vice-presidente da Camisa 12, conta que em Minas Gerais, em um jogo contra o Atlético Mineiro, a estratégia adotada foi a discrição. “Como se tratava da casa do adversário, desembarcamos com a camisa da organizada por baixo de uma camisa comum. Nunca se sabe como seremos recebidos, é bom observar primeiro o comportamento dos outros torcedores antes de nos manifestarmos”. Mas a tensão que se enfrenta em alguns momentos da viagem, ao mesmo tempo em que preocupa, também motiva. Quem não perde nenhuma dessas viagens é Victor Gomes, conhecido como o mais “fominha” da torcida. Um dos participantes mais antigos, ele também já fez parte da diretoria do grupo. “Ser torcedor pra mim é estar presente em todos os jogos, é representar o meu time onde quer que ele esteja. Sinto que estou fazendo parte da história do meu clube”. Em um ano, Victor esteve em sete jogos, gastou R$1.250 e rodou 11.126km - mais do que a distância de 9.000km entre o extremo norte do país, em Oiapoque (AP), ao extremo sul, no Chuí (RS).


As dificuldades

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ma das maiores dificuldades de se acompanhar os times é a distância, ainda mais em um um país com o tamanho de um continente, como o nosso. Para ir a Ipatinga (MG), os capixabas precisaram perder um dia inteiro de trabalho para chegar no horário da partida, às 21h50. E na volta, viajaram a madrugada inteira para conseguir chegar a tempo de trabalhar no dia seguinte. Outra dificuldade é o custo da viagem. Mesmo com a ajuda das torcidas organizadas - que através de seus sócios fornecem algum auxílio financeiroa viagem pode custar até R$400 reais. Preço alto para a maioria. Cleberson Evangelista é natural de Mato Grosso do Sul, a 1070 km da cidade de São Paulo, e mora no Espírito Santo há dois anos. Mas desde 1999 viaja para assistir às partidas do Corinthians. “A gente faz o que pode para assistir aos jogos”. Na arquibancada, torcedores de toda parte do país se encontram. Em São Paulo, os capixabas conheceram Ari Silva, que tinha viajado de ainda mais longe. Ele mora em Belém do Pará e enfrentou 7 horas de voo. “Tenho 27 anos e viajo há 15 para assistir aos jogos. Não me arrependo de nada.

Foram 15 anos bem vividos e graças a isso conheço o Brasil inteiro”, conta, orgulhoso. Quando começa o jogo, paulistas, paraenses, sul-mato-grossenses e capixabas entram em sintonia ao cantar as músicas do clube. Entre o começo e o fim da partida, ninguém pensa no quanto terá que viajar para voltar para casa, nem se vai trabalhar no dia seguinte ou em como pagará as contas. Todos estão com o olho na bola e com o pensamento na vitória. Após o apito final, os torcedores estão tão cansados quanto os jogadores. Alguns de tanto pular, outros da noite sem dormir, ou porque começam a pensar que no outro dia terão de trabalhar. Diferente da ida, na volta para casa todos se ajeitam em suas poltronas e tentam descansar. Mas para eles, o desgaste é ainda maior quando não conseguem uma vitória. Em solo capixaba se despedem, trocam contatos e prometem compartilhar as fotos da caravana. Alguns reclamam da grande jornada e até dizem se arrepender de terem ido - mas sempre voltam em outras oportunidades. A maioria precisa trabalhar no dia seguinte e voltar para dura realidade longe do time de coração. Foto: Esther Radaelli

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torcida organizada surgiu em setembro de 2007, com o nome de “Fiel Capixaba”. A intenção era reunir todos os corinthianos do estado para assistir aos jogos em um bar. Sem sede fixa, o grupo encontrava dificuldades para se estabelecer em um mesmo bar, mas reunia cada vez mais adeptos. Um dos pioneiros da torcida, Raile Rodrigues, viu um dia um homem com a tatuagem do Corinthians na praia e resolveu convidá-lo para ver o jogo. Tratava-se de Bruno Kori, conhecido como “23”, conselheiro da Camisa 12 em São Paulo. Bruno levou para a capital paulista a ideia de montar uma sub-sede no Espírito Santo. A ideia vingou e em 13 de setembro de 2008 foi formada a Camisa 12 Espírito Santo - o nome faz alusão à torcida, que representa o 12° jogador em campo. Atualmente a sub-sede capixaba é a única ainda ativa fora de São Paulo. Ela contribui com boa parte da venda de materiais oficiais do time e com a divulgação da torcida Camisa 12.

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Vai por Daniely Borges

descer? Os ascensoristas têm muitas histórias para contar, porém essa profissão tende a desaparecer

Uma colecionadora de histórias. Esta é a definição de Ana Cristina Peçanha, a Tia Ana, há mais de 25 anos ascensorista do edifício Trade Center, no Centro de Vitória. O modo simpático com o qual ela recepciona os passageiros do elevador faz com que muitos, mesmo com aparelhos mais novos disponíveis, prefiram viajar ao seu lado no mais antigo. Apesar disso, sua profissão é mais uma que vem sendo engolida pelas novas tecnologias. A diretora do SindiCondomínios, Neuza Lima Manoel, é ascensorista há 27 anos, e diz que no estado há atualmente menos de 100 profissionais na área. Desses, cerca de 70 são sindicalizados. E são poucos os condomínios que, ao instalar elevadores automáticos e dispensar a mão-de-obra destes profissionais, os auxiliam a se inserir em outras profissões. Sendo uma grata exceção, com instalação dos novos elevadores prevista para fevereiro de 2012, a admi-nistração do Trade Center irá custear curso profissionalizante de porteiro à sua equipe de cinco ascensoristas.

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Apesar dessa perspectiva, Tia Ana e Neuza, que trabalham no mesmo prédio, mantêm o bom humor. Dentre muitas histórias, Neuza lembra com carinho do casal que se apaixonou nas idas e vindas do elevador que ela “pilotava”. “Ele era do 12º andar e ela trabalhava no 16º. Todos os dias eles se encontravam aqui. Como eram tímidos, pediram minha ajuda. Fui cupido desse namoro e fiquei feliz quando, anos depois, ele apareceu aqui me dizendo que os dois se casaram e estavam felizes”. Mas nem só de amor se passam as 6 horas diárias dentro do elevador. Tia Ana conta que um dos episódios mais

inusitados nestes 25 anos de ascensorista foi quando faltou energia no prédio e ela ficou presa no elevador com um rapaz claustrofóbico. Ele ficou tão nervoso que tirou a roupa e começou a gritar pedindo socorro. “Menina do céu, tomei um susto quando vi aquela situação! Estava tudo escuro, eu pedia para ele ter calma porque tudo se resolveria”. “É necessário levar essa jornada com bom humor”, Neuza responde quando perguntada sobre os contras do dia a dia de um ascensorista. Segundo ela, os engraçadinhos também marcam presença. “Quando alguém solta um ‘pum’, não tem jeito. No andar seguinte, seguro a porta, deixo arejar um pouco e ainda aviso ‘Vamos esperar um pouquinho porque tá difícil respirar aqui’”. O convívio diário faz com que esses profissionais sejam vistos com carinho pelos condôminos. Tia Ana e Neuza gostam do que fazem e sabem que o progresso é inevitável. Mas, o bom humor e a simpatia delas irão certamente fazer falta quando a tecnologia invadir de vez os elevadores.


Sem tempo de parar O período de ócio, fundamental para a criação e o desenvolver de pensamentos críticos, é considerado como preguiça ou como tempo não útil para o sistema vigente por Inglydy Rodrigues Izabelly Possato

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Como trabalho, estudo, obrigações e lazer estão embutidos nas tarefas diárias, o homem muitas vezes tem dificuldades para organizar e gerenciar seu tempo. Algumas pessoas percebem tantos benefícios

em trabalhar que acabam com uma agenda preenchida sem espaço para o ócio. É o caso da jornalista Andréia Pegoretti, 38 anos, que afirma gostar da jornada que leva, trabalhando em três empregos diferentes e sem tempo livre entre as ocupações. Ela afirma que assim é possível construir um nome no mercado, manter o currículo sempre atualizado, ter boas referências e lucrar. É uma rotina realizada por escolha pessoal e que, segundo Andréia, vale a pena, ao menos momentaneamente. Maria José Paixão Fernandes, 48 anos, trabalha oito horas diárias como administradora de uma empresa e complementa sua rotina como professora de uma faculdade privada da capital. Ao todo são cerca de 11 horas de trabalho por dia. Em seu tempo livre, ela pratica ginástica três vezes por semana, e relata livrarse até do celular nesse momento. Nos dias em que consegue estar em casa mais cedo, Maria José cuida da casa e do jardim, atividades que lhe dão prazer, ainda que consideradas afazeres. Ela também busca a internet para descansar e gosta de decorar seu lar: uma forma de nunca se ver parada. Para o professor do departamento de Psicologia, Paulo Castelar, 52 anos, um dos problemas mais inquietantes é a ausência do relacionamento interpessoal. Os indivíduos se ocupam com um turbilhão de coisas e se esquecem de separar um tempo para o contato com as outras pessoas - que não seja por meio de redes sociais ou pelas muitas tecnologias existentes. Isso resulta na perda da afinidade social. Para Castelar, “o ócio é a capacidade de humanização”, meio pelo qual as pessoas podem desfrutar de momentos de lazer e questionar a sociedade em que vivem.

Deixo de pensar, mergulho no silêncio, e a verdade me é revelada.”

Carência de fazer nada

“Penso 99 vezes e nada descubro.

Albert Einstein

m dos mais brilhantes exemplos para identificar a importância do lazer e sua eficácia para o bem estar do homem é a origem da Teoria da Gravidade Universal, de Issac Newton. Ela surgiu em um dia de descanso embaixo de uma macieira, lugar onde o cientista desfrutava seu período de ócio. De acordo com as leis trabalhistas, a jornada de trabalho não deve ser superior a oito horas diárias. Entretanto, nunca se descansou tão pouco como na sociedade vigente. Isso se deve a diversos fatores, dentre os quais o desejo de acúmulo do capital, a aspiração por grandes cargos nas corporações, a obrigação da sustentação de um status, a competitividade e as novas tecnologias. Sergio Schweder, 56 anos, professor e coordenador do curso de Filosofia da Ufes, afirma que o ócio pode ser um modo de vida. Entretanto, no sistema econômico atual, ele não é bem visto pela sociedade. Desde pequenas, as crianças aprendem que devem ter condições financeiras para participar da vida funcional adulta. Tudo isso leva as pessoas a ocuparem seu tempo com ações que lhes proporcionem “objetos de desejo” e se esquecem de separar um período para ir ao cinema, ler um livro, ficar em casa ou simplesmente não fazer nada. O professor também relata que “para as pessoas que vivem o consumo, o consumo é o próprio lazer”, uma vez que no momento em que estão estressadas ou depressivas, comprar coisas ou meramente ir ao shopping é o alivio que as torna parte deste sistema. Tudo de uma forma tão peculiar que as pessoas, muitas vezes, nem percebem. Para Schweder, a maneira mais eficaz de equilibrar o trabalho e o lazer é as pessoas começarem a se perguntar o que fazem no mundo e qual o sentido de suas vidas. Por meio dessas indagações é possível observar que contribuem para o funcionamento, como engrenagem, da maquina que movimenta todo o mundo: o modelo capitalista.

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A pena alternativa tem caráter pedagógico. Não é só uma pena, é uma forma de inclusão e um serviço à comunidade

NO ENTANTO #55  

Jornal laboratório produzido pelos alunos do 4º período de Jornalismo da Ufes. Semestre: 2011/2

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