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O ENTANTO , Jornal experimental do curso de jornalismo da Ufes. Outubro 2012

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Uma hist贸ria de amor, um circo e dois filhos


Uma luta contra o tempo O semestre 2012/1 começou com a premissa de ser vital para nós, estudantes do 4º período de jornalismo, pois nos deparamos com um jornal para fazer e com a oportunidade de, pela primeira vez, nos tornarmos repórteres, pauteiros, editores e fotógrafos. Eis que no meio do semestre surge a greve nacional dos docentes das universidades federais. Após os quatro meses da paralisação, tentamos voltar ao ritmo intenso. Prazos ainda mais curtos, reformulação de ideias e a tentativa de lutar contra o tempo fizeram com que a nossa “redação” virasse de cabeça para baixo. No entanto, a vontade de comunicar falou mais forte e nos reerguemos: finalizamos a edição 59. E ela veio com matérias de amor, de esperança, de perseverança e que nos enchem de orgulho de morarmos em terras capixabas. Trouxemos informação e inspiração para a vida. Tudo para cumprir o dever que nos foi confiado: comunicar.

SILVA

10. Operartes Som por trás das grades

14. Universidade

Lúcio resolveu fazer músicas com o que tinha em mãos: uma facilidade multi-instrumental, a vontade de experimentar e um nome: Silva

Novos bairros universitários

3. Música A carreira musical de Lúcio Silva

6. Circo Miúdo A história de uma família circense

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4. R.U. Preço pequeno, fila grande

A nós, aspirantes de jornalistas, só nos resta agradecer a todos que participaram desse processo criativo: os que fizeram; o que, pacientemente, nos orientou; e a todos vocês que possuem na mão o nosso trabalho.

12. Galpão de artes 30 anos de problemas

Muito obrigada a todos e uma boa leitura. As editoras

Letícia Comério e Magalli Souza Lima

Quem faz O No entanto é o jornal experimental do curso de Comunicação Social com habilitação em jornalismo, da Universidade Federal do Espírito Santo, Ufes. Feito por alunos do 4° período. Av, Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras/Vitória, ES.

Professor Orientador Victor Gentilli

Edição Jéssica Lopes Rebel - Mariana Salomão Raquel Henrique - Samylla Estofel Tamires Mazin

Equipe Andressa Andrade - Cecília Moronari Cristian Favaro - Edberg França Gilberto Medeiros - Ismael Inoch Jéssica Lopes Rebel - Karina Mauro Karoline Lyrio - Lais Lorenzoni Letícia Comério - Luiz Zardini Jr. Magalli Souza Lima - Mariana Bolsoni Mariana Massariol - Mariana Salomão Paula Gama - Paula Tessarolo Raquel Henrique - Samylla Estofel Tamires Mazin - Vanessa Ferrari Viviann Barcelos.

m dos EPs nacionais mais comentados da internet em 2011 se chama “Silva”. Nome simples e comum, mas que nada tem de simplista. Lúcio da Silva Souza, um rapaz de 23 anos, capixaba e com formação incompleta em violino pela Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames) é o dono desse projeto, composto apenas por cinco belíssimas canções, que se apresentam inteiramente convidativas ao futuro musical desse jovem artista. O que chama a atenção é a criatividade e o particularismo do EP, com quase todos os instrumentos gravados por ele. A presença de clássicos como o piano e o violino, combinados à bateria de diversos timbres, à guitarra e elementos mais modernos como o sintetizador e efeitos no microfone, criam um som ainda sem definição. “Gravei os instrumentos que eu podia tocar, exceto pelo trompete da música “12 de Maio”, que convidei um amigo para gravar. Escolhi fazer assim, mesmo dando mais trabalho, porque queria fazer sem pressa e testar várias ideias e timbres até alcançar um resultado bom”, explica o cantor. Disponibilizar o EP para download foi uma ideia que não surgiu acompanhada de grandes pretensões, a

intenção era apenas apresentar o próprio trabalho às pessoas, mas o resultado ecoou longe. “Eu já pensava em disponibilizá-lo na internet, mas não fazia ideia do que aconteceria, já que nunca havia lançado um trabalho meu. Não consigo acompanhar todas as críticas, mas tenho amigos que me mostram ou comentam algumas coisas. Eu realmente não esperava essa reação e fiquei bem feliz por isso”.

(MG) e o Eletronika (BA). Também apresentou-se ao lado de grandes artistas como Marcelo Jeneci, Marcelo Camelo e Karina Bhur. Recebeu indicação para o Prêmio Multishow de Música Brasileira, na categoria de artista revelação do ano de 2012 e, como já esperado, lançou o aguardado primeiro CD, intitulado Claridão, álbum que reúne 12 faixas, incluindo as cinco músicas do EP.

O multi-instrumentalismo não surgiu por acaso, Lúcio cresceu com forte influência musical da família, com um tio pianista e um avô que sempre incentivou a carreira. Mas, a vontade de levar a música a sério veio mais tarde: “Comecei na música bem cedo e sempre me envolvi em bandas de amigos da escola, orquestras e outros projetos que me fizeram aprender muito. Só quando fiz 18 anos é que comecei a pensar em fazer minhas próprias músicas e só fui desenvolver isso quando fiz 20 anos. Acho que isso me fez gostar de trabalhar ainda mais”.

Youtube.com/listentosilva

Poucos meses após o lançamento do EP, a repercussão surgiu em forma de reconhecimento, principalmente fora do Estado. Silva foi convidado para tocar em grandes festivais como o Sónar (SP), Tudo é Jazz

Então, confira o trabalho dele:

Facebook.com/listentosilva soundcloud.com/silvasilva

O que é um EP? Abreviação de Extended Play. Uma gravação que é longa demais para ser considerada um compacto ou single e muito curta para ser classificada como álbum. Os EPs hoje funcionam como uma espécie de prévias de CD e costumam ser lançados virtualmente.

Diagramação Cristian Favaro - Letícia Comério Magalli Souza Lima - Karoline Lyrio

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Mil exemplares - Gráfica Universitária Foto de capa: Laís Lorenzoni

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Ilustração: Karol Lyrio

Eduardo Bravin

No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

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SOM POR TRÁS DAS GRADES Raquel Henrique

Presos da Grande Vitória cantam, encenam e encantam através do projeto Libertarte e renovam a esperança de que é possível mudar

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uz, câmera, canção. Dois mil aplausos. Os cantores, amadores, não acreditaram naquela cena. A plateia, que lotava o templo de uma igreja evangélica em Vila Velha, se emocionou e ovacionou o coral e o teatro dos 70 presos do Presídio Semiaberto do Xuri. “A mão suou, a perna tremeu. Aquele tanto de flashes... O que senti no momento foi inexplicável. Nunca imaginei que, dentro da cadeia, pudesse chegar a esse nível”, conta Bruno Muniz, interno de 30 anos.

Libertarte da Fundação Operartes chegou ao presídio do Xuri, em Vila Velha, e já está mudando a história dos presos. Ao saber que o diretor do presídio queria um projeto artístico com os internos, a musicista e assistente social Adalgisa

habilidade artística com a profissão; unir duas coisas que entendo como vocação”, declara.

Cedida pelo Operartes

A estudante de artes cênicas Gabriela Saadi, de 23 anos, coordena o grupo de teatro. Os presos fazem aulas de consciência corporal, postura cênica, expressão corporal e mímica. A professora afirma que eles mudam o jeito de se comportar e até de falar. “A consciência corporal traz uma mudança natural, gradativa. Eles passam a andar e E ele não foi o únia falar diferente. co a compartilhar Isso é nítido”, afirdesse sentimento. ma Gabriela. “O “Fiquei meio mais legal é que tonto, meio pereles falam que se dido. Primeiro de sentem livres. É o chegar lá, sem almomento em que gema, com todo Apresentação dos presos na Missão Praia da Costa, em Vila Velha. esquecem que esaquele aparato. tão na prisão”. E Quando o agente fez sinal pra mim, pen- Rosa elaborou um projeto. Casada com o trabalho não é pouco. O grupo apresei: “pô, num tô fazendo nada”. E vi que o cantor lírico Lício Bruno (professor sentou O Menestrel, um monólogo de ele fazia um sinal com o dedo pra cima. do Conservatório Brasileiro de Música Shakespeare, com o texto original. Tudo Quando olhei, na galeria, toda minha e ganhador de mais de dez prêmios na- de cor. família estava ali pra me assistir”, relata cionais e internacionais como cantor de outro interno, Ormantiezer Fragoso, de óperas), ela, também cantora, decidiu enO nascimento de um sonho 35 anos. carar o desafio de ensinar os presidiários a cantar. “Desde minha formação em Mas o pai desse sonho é outro. Simpático Faz quase um ano e meio que o projeto serviço social, vinha tentando unir minha e sério, estatura mediana, de voz firme e

que impõe respeito, o diretor da Penitenciária Semiaberta de Vila Velha (PSVV), Marcelo Gouvea, sabe que o projeto não é um investimento em vão. Hoje, à frente dos 940 internos da unidade, diz que “acreditar no ser humano é interessante”, e que “com oportunidade dá para mudar”. E se embasa em algo que ouviu de um professor e que se aplica perfeitamente: “Hoje o preso está contido. Amanhã ele está contigo. Trate-o como um animal, e você terá um animal lá fora”. Após passar um mês estudando o sistema penitenciário americano no Colorado, EUA, Marcelo tentou implementar projetos diferenciados no sistema prisional do ES. “Queria um teatro, algo desse tipo”, conta, e chegou a procurar instituições do Estado que pudessem ajudá-lo nisso. Mas foi uma igreja que apresentou o projeto que mais casava com sua ideia. Quem ajudou a ideia de Marcelo chegar ao conhecimento da Adalgisa, foi o empresário Célio Toniato membro da mesma igreja onde a musicista é membro. Responsável pelo transporte da equipe até o presídio, conheceu o diretor há sete anos, quando teve seu primeiro contato com o sistema penitenciário, no presídio da Glória. A pedido da Secretaria de Justiça, Toniato profissionalizava os internos ensinando-os a fabricar caixões. Há dois anos ele emprega presos do regime semi-aberto em sua fábrica, e durante esse período, aproximadamente oitenta deles passaram por lá. O curioso é que no primeiro momento os presos não se interessaram pelo projeto. Só quando a Adalgisa apresentou a ideia para cem internos, através de vídeos de corais e peças teatrais, foi que conseguiram 86 inscritos. Aí nascia, em maio de 2011, o Libertarte. Ensaiando as terças e quintas, em paralelo, grupos do coral e do teatro vão se descobrindo com talentos até então inexplorados. Dois meses depois de iniciados os ensaios, chega o dia que marcaria a vida dos pre-

sos envolvidos. Com uma mega operação, típica de filmes, quarenta agentes penitenciários, distribuídos em carros caracterizados e a paisana, acompanharam dois ônibus, com um total de setenta presos, para se apresentar na Missão Evangélica Praia da Costa. As duas apresentações em agosto do ano passado, para um público médio de 1.200 pessoas por culto, mexeram com a autoimagem, e até com a família desses presos. E em 2012 a dose se repetiu. Mais uma apresentação em setembro desse ano viria a consolidar o sucesso do projeto.

sentando aos pais um professor. Dá pra acreditar?”, lembrou Marcelo. A igreja chegou a pagar passagem e hospedagem para parentes de outros Estados e do interior assistirem a apresentação.

É claro que no início tudo parecia uma loucura. Mas “deu muito certo”, como afirmam todos os envolvidos na façanha. E não foi só o grupo que teve a percepção de que foi uma ação acertada. A mídia também achou, e noticiou. O projeto foi matéria de 3 minutos no Jornal Nacional, na Globo News, e no Jornal A Gazeta. Quando perguntado soTestemunhos de transformação bre a repercussão que o Libertarte teve, o diretor do Xuri foi direto: “De verdade? A “Aquele foi um dia de restituição para ideia não é aparecer. É mexer com esses minha família. Meus pais e irmãos esta- homens. É dar a eles a oportunidade de vam lá, e meu relacionamento com meu conhecer algo diferente, de ser alguém. pai mudou a partir de então. Ele começou Eles crescem como gente”, garante Mara me visitar, e passou a confiar em mim”, celo. relata Thiago Maurício, ex-interno de 26 anos, que já trabalhou como marceneiro Quem concorda é o pianista do coral, Tiago Melo, 31, que tem DVD gravaem grandes lojas de móveis de Vitória. Também para Ormantiezer foi um dia do, como pianista, com um grande coro sem igual. “Eu criei uma nova imagem de Vitória. “Prefiro tocar ali, naquele para o meu filho, de 11 anos. Ele não me tecladinho, do que em um piano de cauvê mais como criminoso. Agora tá me da, como os que já toquei para públicos vendo como um ídolo, alguém que está que sequer prestavam atenção. Ali, a tentando acertar o erro que fez. Isso pra música tem o poder de transformação, mim foi o mais importante”, declara. e eu acredito nisso”, afirma. Ele lembra “Meu filho até melhorou na escola, e momentos que o emocionaram no Liberhoje me pergunta quando vou apresen- tate, como tocar para o Ministro do STF, tar na rua outra vez”, completa, dizendo Gilmar Mendes, em sua vinda ao Estado, que depois do Libertarte se viu “como hu- e participar da festa do Dia das Crianmano” de novo, e conseguiu coisas que ças, quando os presos cantaram e encenão imaginava, nos seis anos que cumpre naram para os próprios filhos. pena. Além das saídas para Missão, o LiberOs presos receberam lanche, e como tarte fez mais três apresentações em eles próprios relataram, “foram muito 2011: num concurso literário, num evento bem recebidos”. Depois da apresentação, de educação, e no encontro da pastoral tiveram ainda um tempo com suas famí- carcerária. Parte do sonho dos idealizalias, num espaço reservado na igreja. In- dores, e certamente também dos presos, ternos que não viam familiares há mais vem se cumprindo. Mas ainda há muito de quatro, seis anos, puderam estar ali, por fazer. E nada disso teria importânjuntos, ao menos por alguns instantes. cia, nada aproveitaria, se não resultasse Alguns conheceram filhos pequenos nesse em declarações como a do interno Bruno. dia. “Eles me chamavam para apresentar “É uma sensação de acordar atrás das às suas famílias. “– Mãe, olha aqui meu grades, mas alegre, sabe, dona? Olhar o diretor”. Como se fosse um aluno apre- “chapão” e pensar que através da música me sinto livre”.

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No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

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Respeitável público, a história do circo miúdo De repente começou o show da Fernanda Porto. “E aí vi aquele palhaço todo estiloso, contemporâneo, fugindo as roupas tradicionais, dançando na perna de pau aquela música toda moderninha” Lais Lorenzoni

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cordava entre cinco e seis da manhã. Colocava o uniforme, tomava o café e seguia para o curso preparatório para sargento no Rio de Janeiro, o famoso Tamandaré. Deborah Schulz era incentivada pela família a seguir carreira militar, como o fizeram alguns de seus ascendentes.

Lais Lorenzoni

Em toda aquela objetividade do militarismo, existia uma ponta de felicidade nas manhãs de quarta-feira: a disciplina de literatura. Todavia, o que encantava mesmo não era o conteúdo em si, e sim quem direcionava a matéria. O professor, além de lecionar, era ator. As aulas eram conduzidas com maestria, perscrutando-se as fantasias da Rainha Louca, as aventuras de Napoleão, as amarguras das personagens de Machado de Assis e muitas outras peripécias que só a arte da palavra pode proporcionar.

Foto: Laís Lorenzoni

Deborah já havia começado um curso de teatro na escola de Belas Artes Liceu de Artes e Ofícios – LAO, na Central do Brasil. As lições literárias, plenas de sonhos e imaginação, instigavam-lhe uma vontade contida, porém profunda, de se tornar uma atriz. Um dia, a coragem bateu à porta e a aluna do curso técnico em processamento de dados foi tentar o Tablado (famoso curso no Rio de Janeiro, próximo ao complexo da Rede Globo). Nessa época, já conseguira o apoio de sua mãe, Maria da Penha. Não foi fácil abrir a porta de casa e dizer: “– Mãe, eu quero fazer teatro”. Foi preciso peito para mergulhar em seu sonho. No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

Bom, a primeira meta já estava cumprida, passar para o curso do Tablado. Agora faltava conseguir um meio de arcar com as despesas que isso requereria. “Balas, doces, cigarros! Venham todos!”, trabalhar de bomboniere em um bingo foi à maneira encontrada pela estudante carioca para arrecadar dinheiro e investir em seu sonho dramatúrgico. Felizmente, mais tarde, uma proposta de bolsa surgiu, concedida por Maria Clara Machado. Logo depois, tentou o curso técnico em teatro, no qual foi admitida. Primeiro dia de aula na Escola Técnica de Teatro Martins Pena. Aquela ansiedade comum de todo calouro – grande, porém passageira, logo se dissipava por entre os corredores movimentados daquela instituição, que, por todos os cantos, exalava arte. Na mesma época, Deborah teve dois filhos: Jasmim e Yan. Devido à violência no Rio de Janeiro, a carioca achou melhor viver com as crianças em um lugar mais tranquilo. A família seguiu destino para Mato Grosso do Sul. Já adaptados à nova vida, Deborah começou a lecionar no Espaço Cultural Entre Artes. Também trabalhou na reserva indígena local. O Mato Grosso do Sul trouxe muitas conquistas para a carreira de Deborah: duas premiações como atriz, uma por melhor espetáculo, texto e direções, por júri popular em 2000 e 2001. Além disso, recebeu uma menção honrosa por contribuir com a cultura do Estado. Não tão distante dali, um jovem ator chamado Shita Yamashita também se especializava

nas habilidades circenses. Morava em Campinas e conseguiu uma oportunidade de trabalhar em Florianópolis; depois no Uruguai, e foi viajando, de país em país, pela América Latina, sobrevivendo apenas de teatro e malabares nos semáforos das grandes capitais. Shita esteve envolvido com as artes desde muito novo. Aos sete anos, sua mãe o matriculou em uma escolinha de teatro. Quando adolescente, em uma fase punk, montou uma banda chamada “Lamentos da dor adquirida”, na qual tocava com alguns amigos por hobby. Uma hora foi necessário escolher entre o teatro e a música. Shita e Everaldo Cândido venderam as guitarras, a bateria e o baixo e formaram o grupo de teatro “Proscenium”. O conjunto rendeu um premio de melhor ator para Shita no Mapa Cultural Paulista. Em 2003, a rota de Shita seguia a Mato Grosso do Sul e, logo depois, ao Uruguai. Era mês de julho e, como em todo ano na cidade de Bonito, ocorria o Festival de Inverno. Neste ano, Deborah e sua amiga Manoela iriam assistir aos espetáculos, dos quais Shita se apresentaria em um. As duas amigas, animadas, fotografavam todos os shows do evento. “De repente começou o show da Fernanda Porto. E aí vi aquele palhaço todo estiloso, contemporâneo, fugindo às roupas tradicionais, dançando na perna de pau aquela música toda moderninha”. Tudo estava muito bem, até que um grupo de homens socou a bolsa de Deborah de baixo para cima e suas coisas se perderam no ar daquela

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Foto: Laís Lorenzoni

O Novo Acordo Ortográfico passa a valer a partir de 2013. Como está o seu português? No dia 31 de dezembro deste ano, chega ao fim o prazo de adaptação e utilização facultativa do Novo Acordo Ortográfico. A partir do dia 1º de janeiro de 2013, as novas regras serão oficiais e passarão a ser exigidas em redações e comunicados oficiais, publicações de livros, vestibulares e concursos públicos Luiz Zardini Jr.

Lais Lorenzoni

O artista Shita em performance no Centro de Vitória

noite. Em meio à confusão, o palhaço, que estava suspenso nas pernas de pau, conseguiu resgatar uma carteira e devolvê-la às moças. O artista era o próprio Shita e, ali, nas arquibancadas do Festival de Inverno da cidade de Bonito, começava uma nova história na vida dos dois. Apaixonaram-se. No fim do mesmo ano, em outubro, decidiram morar juntos. Um novo ciclo se iniciava. E a família, agora com um membro a mais, decidiu mudar para Florianópolis. Lá, após arrendarem um antigo camping, realizaram o primeiro evento artístico, denominado “Pão e Circo”. Logo depois, fizeram seis edições do evento “Sound Circus”, em que, em uma das edições, a cantora portorriquenha Mimi Mauro, indicada ao Grammy, pegou o microfone e realizou um show junto à batida do DJ. Foi a partir daí que surgiu a idéia de sempre promoverem apresentações inesperadas ao público, tal como, enquanto a música tocava, entrar um grupo fazendo malabares com fogo, ou um grupo de dança, desfile de moda alternativa, apresentações de teatro etc. Entretanto, como diz a sabedoria popular, tudo o que é bom dura pouco. Foi chegada a hora de partir. A família seguiria agora para o interior de São Paulo, a uma pequena cidade chamada Valinhos.

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Já instalados, após o envio de um projeto circense para a secretaria de cultura da cida-

de desde a época em que se mudaram para Florianópolis, foram convidados a participar do projeto “Lona Viva”. O projeto consistia em oficinas de técnicas circenses e teatrais nos bairros das cidades, com uma apresentação para os moradores locais ao final. Enquanto isso, a primeira filha de Deborah, Jasmim, desde cedo demonstrando interesse pelas atividades profissionais de Shita e da mãe, começava a investir em sua carreira artística. A jovem já havia estudado técnicas circenses na escola Beteseda, em Florianópolis e teve aulas com o grupo carioca Afro Reggae. Além disso, começava a ter lições de ginástica artística em Valinhos. A vida dos integrantes dessa pequena família estava muito boa, mas ainda faltava algo: existia a saudade de morar próximo ao mar. Começar um novo destino exigia alguns sacrifícios; foi preciso vender o Fusca da família, a fim de se mudar para Vitória, Espírito Santo. Um dos primeiros locais de trabalho foi a escola Recanto Criativo. Sem carro, Shita levava Deborah e o cenário das apresentações na garupa de uma bicicleta. Hoje, a diretora da escola diz orgulhosa: “Me emociono vendo vocês chegando nessa Kombi novinha. Lembro-me de quando vinham trabalhar em uma bicicleta velha, isso há quase três anos” .

Logo depois, foram contratados pela escola Pio XII para ministrar aulas de teatro, local onde, até hoje, trabalham. A jovem Jasmim também continuou seguindo a carreira de ginasta no Espírito Santo, conquistando premiações. O grupo ganhou um título: Circo Miúdo. Shita já usava esse nome em um e-mail de trabalho desde 2003, porque, há muitos anos trabalhava vendendo malabares debaixo de um guarda sol customizado – estilo lona de circo. Já que a família também era pequena, o nome soou muito adequado, e assim, batizaram o grupo. Hoje, o Circo Miúdo trabalha por meio de contratações para eventos, casas de festas, aniversários, shows, projetos artísticos financiados pelo governo, além de projetos autônomos. Em 2011, Deborah recebeu menção honrosa pela câmara municipal de Vitória com o espetáculo “Vai, Vai, Vai começar a Brincadeira”, por contribuir com a cultura capixaba.

Para saber mais, visite o site: www.circomiudo.com.br

No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

Para a professora de português e mestranda em Linguística pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Karine Silveira, os brasileiros ainda tem muitas dúvidas sobre as novas regras, mas ressalta que é responsabilidade de cada um de nós reservar um tempo para estudar sobre o assunto. “Além disso, para quem já não está mais na escola ou na faculdade, seria interessante que a mídia reforçasse sempre as mudanças por meio de propagandas, folhetos informativos e debates com professores de português”, ressaltou a professora, que também falou sobre os impactos da mudança nesta entrevista. Confira: • Quais são os principais impactos causados na população com o Novo Acordo Ortográfico? Acredito que os impactos aconteceram e estão acontecendo no ensino e nas publicações. Na educação porque precisamos fazer com que os alunos percebam as diferenças e entendam as mudanças. Já nas publicações, principalmente as de livros, porque é preciso atualizar as versões antigas, o que acaba acarretando custos financeiros para as editoras. • Os brasileiros estão sendo bem preparados para assimilar as mudanças? Tenho visto uma grande preocupação das pessoas em entenderem as novas regras, mas são as escolas, cursinhos e universidades os responsáveis pela preparação de grande parte da sociedade.

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Há, ainda, a preocupação da mídia em informar sobre as mudanças, o que eu acho muito importante. • As mudanças podem tornar o português ainda mais complexo? Não. O que tenho percebido são dificuldades de compreensão das novas regras, mas não a ponto de tornar a Língua Portuguesa mais difícil. • A prerrogativa do governo ao assinar o acordo com países que constituem a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), e que utilizam o português como idioma oficial, foi a de aproximar e tornar única as regras para o idioma. Você acredita que essas medidas irão funcionar? Bom, acredito que existiam outras mudanças mais significativas a serem feitas, por isso não sei se esse novo acordo irá ser tão eficaz para aproximar os países de Língua Portuguesa. • Você concorda com as mudanças do novo acordo? Quais delas podem causar maiores dificuldades no dia a dia? Não concordo nem discordo. Volto a reforçar que existiam outras mudanças que também poderiam ser feitas, como questões de ortografia. No entanto, é o uso do hífen que já está causando muita dificuldade.

Google

C

om a nova reforma ortográfica, todos os países que falam o português passarão a escrevê-lo da mesma forma. Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, Portugal, Timor Leste e São Tomé e Príncipe são os países de língua portuguesa que assinaram o Novo Acordo Ortográfico e que se dispuseram a implantar as novas mudanças. No Brasil, as novas regras geraram muitas dúvidas entre os estudantes e provocaram uma série de discussões entre professores e pesquisadores.

• O prazo de adaptação e o uso facultativo das novas regras iniciado em 1º de janeiro de 2009 e que chega ao fim no dia 31 de dezembro deste ano foi adequado? Sim, foi adequado para as publicações que circulam na sociedade. Porém, acredito que levará mais algum tempo até que todos compreendam o Novo Acordo, principalmente as pessoas mais velhas, que estavam acostumadas com as regras antigas, pois as crianças, em fase de alfabetização, já iniciarão a aprendizagem da Língua Portuguesa escrita baseada no Novo Acordo.

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Dez mil clientes Laís

todo mês

Lor ni enzo

Preço baixo é o maior atrativo do

O custo da refeição é R$ 5,56

A diretora do Departamento de Gestão de Restaurantes, Amélia Lopes Lima, contou que parte dos usuários que fazem parte da comunidade acadêmica reclamam da frequência ao restaurante de clientes extra-campus. “Nos chegam reclamações de que as filas aumentaram”, afirmou. Ela também contou que o custo de uma refeição é de R$ 5,56. Amélia comanda o departamento que administra as unidades dos restaurantes de Goiabeiras, Maruípe, Alegre e a recém-inaugurada em São Mateus. Trabalha na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) desde 1992, assumiu a gestão dos restaurantes em 2008 e nos contou, na entrevista a seguir, detalhes de um cotidiano que se inicia às 6h e se estende até 20h30. Quantas refeições são servidas por dia? No restaurante de Goiabeiras servimos almoço e jantar e a média é de cinco mil.

Mas nós produzimos para Maruípe, pois lá não tem cozinha, e são mais 900 refeições e uma equipe de 13 pessoas que são levados para Maruípe todos os dias para atender os usuários de lá (somente almoço, não servimos jantar). Quantas pessoas trabalham para atender esses quase seis mil usuários todos os dias? Essa equipe de 13 pessoas que atende lá em Maruípe faz parte de um grupo de 144 funcionários. São 121 terceirizados e 23 funcionários da Ufes. Há três turnos de trabalho, que começa às 6h e só acaba às 20h30. O RU atende a quantos usuários de fora do campus? Cerca de 550 usuários são visitantes. Aqui em Goiabeiras chega a 10% do total diário, cerca de quinhentas refeições. Cresceu muito rápido, pois até 2011, apenas 4% eram visitantes.

Há reações contrárias por parte dos alunos? Os nossos usuários reclamam, dizem que aumentou a fila. Outros acham que os visitantes não têm esse direito. Mas as unidades do RU seguem as normas estabelecidas pelo Conselho Universitário. E ele permite o atendimento aos visitantes, assim como é o órgão que determina o preço. Qual é o custo de produção de uma refeição? O custo médio de uma refeição foi de R$ 5,56 no mês de março. A refeição é subsidiada pelo Plano Nacional de Assistência Estudantil, que tem verbas direcionadas para alimentação. Por isso, conseguimos praticar três faixas de preço: alunos pagam 75 centavos e R$ 1,50. Servidores, R$ 1,50. Visitantes. R$ 4,50. E há alunos que são isentos.

Restaurante Universitário Filhos criados com picolé Gilberto Medeiros

A

lmoçar no Restaurante Universitário (RU) é hábito diário para cerca de cinco mil pessoas que circulam pelo campus de Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Desse total, 90%

são membros da comunidade acadêmica, como professores, pesquisadores e alunos. O preço baixo da refeição atrai outros quinhentos fregueses cotidianos para o RU, a maioria estudantes secundaristas de Jardim da Penha. Mas também há trabalhadores que escolhem o RU e, ao final do mês, são dez mil extra-campus que ajudam a aumentar a fila e equilibrar o caixa, conforme revela a diretora do Departamento de Gestão de Restaurantes, Amélia Lopes Lima.

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Laís Lorenzoni

Além de vivenciar por algumas horas o ambiente universitário, Maísa Souza, de 17 anos, disse que almoça no RU por dois motivos. “É mais barato e mais prático”, afirmou. Ela é aluna do terceiro ano do Darwin, curso pré-vestibular próximo à Ufes e, sobre a comida em si, disse gostar. “Não tem nada de especial, mas eu gosto”. Maísa confessa, no entanto, que tem mais uma vantagem. “Minha mãe queria que eu comesse num lugar barato, e aqui dá

para eu ficar com um pouco do dinheiro do troco”, revelou, sorrindo. Apesar de estimulado pelo baixo preço, Athos Couto, 17, também aluno do terceiro ano do Darwin, reclama da fila para comprar o tíquete. “A gente não pode comprar o cartão”, lamentou. Ele foi orientado por seu pai a comer no RU. “Nós temos restaurante lá dentro do colégio, mas é muito caro. Aqui pago menos de cinco reais, lá é quase 20”, calculou. “A comida aqui é boa e economizo o dinheiro da minha família”. Os clientes extra-campus têm origens até aparentemente inusitadas, como a técnica pedagógica Luciene Viana, servidora da Secretaria de Educação de Sooretama, dis�tante 154 quilômetros de Vitória. Mas ela explica: “muitas vezes nós temos de vir até a Secretaria de Estado de Educação (Sedu), aí eu aproveito e sempre almoço aqui na Ufes. A comida é ótima, o preço é bom e a cozinha tem higiene”, elogiou, admitindo que o valor é o principal atrativo.

No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

Sônia serve alunos há trinta anos

A comunidade extra-campus que gira em torno do Restaurante Universitário não se restringe àqueles que vêm aqui para comer. Local de circulação diária de cerca de cinco mil pessoas, o RU é ponto estratégico para quem quer ver e ser visto. Não raro encontrarmos ali panfletagem de festas, livreiros e muita articulação política para ocupação das estruturas de poder constituídas nos campi. Muitos são os vendedores ambulantes que se revezam na passarela do RU, como o trio de hippies acomodados na saída do restaurante para oferecer artesanato, ou as meninas que vendem doces caseiros para reforçar o orçamento. Mas a história que salta aos olhos é contada por Jorge Silva Gonçalves, vendedor de picolé em Goiabeiras há 26 anos. “Eu criei um casal de filhos com o dinheiro que ganhei vendendo picolés aqui na Ufes”, ressaltou. “Hoje meus filhos já são adultos, independentes, mas tudo que dei para eles consegui vendendo picolés aqui durante a semana e na praia sábado e domingo”, disse. Apesar da perseverança no ponto de venda, Jorge revelou que os tempos difíceis na economia também atingiram o refrescante mercado de picolés. “Está ficando difícil. Vendo em média 170 picolés por dia na Ufes, no máximo 200. Mas até 2008, vendia 350 todo dia e chegava a 400 nos dias de maior calor”, calculou.

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Sônia Silva Pereira, 60, está entre os funcionários mais antigos do RU. Ela serve refeições aos alunos desde 1982 e faz parte da equipe de 144 profissionais envolvidos no atendimento de cerca de seis mil pessoas, todos os dias, nas unidades do RU dos campi de Goiabeiras e Maruípe. Sônia contou que, mesmo após anos de formados, alguns alunos a reconhecem e fazem questão de falar com ela para matar as saudades. Como quando foi ao médico agendar uma cirurgia.

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“Ele veio brincando comigo e me deu um susto quando falou assim: – Tia! Não vou operar a senhora não porque botava pouca carne no meu bandejão! – depois ele começou a rir e eu descobri que o médico era um exaluno. No final da consulta, ele ainda me levou até a portaria quando fui embora”, contou. “Trabalhar aqui é gratificante. A gente convive com quem está começando a vida, depois eles viram os doutores, os políticos. Já vivi muitas coisas boas aqui, mas também sempre teve muito aluno atentado. Uma vez eles soltaram um leitãozinho no restaurante”, recordou. “Quando tinha protesto, eles batiam as bandejas e faziam muito barulho. Mas eu só não gosto quando as crianças falam mal da comida”, completou.

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materiais como gesso, cimento e madeira”, afirma o professor. Além disso, todo início de semestre, Marcos realiza um mutirão de limpeza. “O Galpão também tem sido utilizado como depósito de máquinas, equipamentos e sobras de materiais de outros cursos. Infelizmente nem tudo pode ser jogado no lixo, pois parte dos materiais sucateados que estão aqui, mesmo quebrados ou velhos, são patrimônio da universidade”.

Um galpão de problemas Problemas na estrutura, equipamentos quebrados e falta de segurança são alguns dos obstáculos encontrados pelos estudantes do curso de Artes da Ufes

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Insegurança O professor da disciplina de Escultura, Marcos Martins, um dos responsáveis pelo Galpão, conta que o local é inseguro e já foi alvo de ladrões. “No início do ano, um de nossos armários foi arrombado. Nele estavam guardados os equipamentos que são utilizados por alunos e professores na execução de trabalhos e projetos aqui dentro. No arrombamento, o equipamento de solda, um dos mais caros, foi levado. As janelas não têm grades e não existe iluminação na área externa, o que facilita a ação de ladrões durante a noite”, lamenta.

Na disciplina de Escultura, os alunos trabalham com diversos tipos de materiais, como gesso, argila, cimento e metais como o ferro e o cobre. Ao executarem suas atividades, os alunos não recebem nenhum equipamento de segurança. Desta forma, ficam expostos aos diversos riscos, como poeira e partículas que podem atingir os olhos, sem nenhuma Marcos conta que comprou com recursos próprios uma nova máquina de solda proteção individual ou coletiva.

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para que os alunos pudessem realizar as atividades previstas para o semestre e enumerou uma série de problemas que dificultam o dia a dia de quem precisa utilizar o local. “Das quatro pias existentes no local, apenas uma está funcionando, isso porque estão entupidas ou sem torneiras. Dos seis ventiladores instalados, cinco estão quebrados por falta de manutenção”. A situação também se repete em relação aos fornos: dos quatro existentes no local, apenas um funciona. O restante está à espera de reparos.

disse Benedicto, consciente do risco que corre nessas situações. Autonomia financeira O chefe e professor do Departamento de Artes, Ricardo Maurício, sabe da existência dos problemas no Galpão e queixa-se da lentidão administrativa e da burocracia na hora de resolver os problemas. “De fato, os problemas do galpão não são poucos nem simples. Remontam à sua construção, repleta de equívocos. Infelizmente o Departamento não tem autonomia financeira para tomar qualquer iniciativa, seja relativamente a estes problemas do galpão, seja em relação a qualquer outro. Dependemos em tudo, diretamente, de instâncias superiores da Ufes”, disse. Além disso, o chefe do Departamento informou que o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), não permite que os recursos financeiros repassados pelo Governo Federal sejam aplicados na reforma e manutenção de estruturas e instalações já existentes na Ufes. “Novos prédios são construídos e os já existentes necessitam de reformas urgentes. Muito pouco pode ser feito e a situação do Galpão é realmente desanimadora.” Enquanto as melhorias não acontecem, professores, alunos e servidores precisam trabalhar e estudar de maneira precária, improvisada e sem segurança.

Luiz Zardini Jr.

Luiz Zardini Jr. s estudantes do curso de Artes da Ufes, contam com um espaço destinado às aulas práticas da disciplina de Escultura que alunos e professores conhecem como Galpão de Artes. O local foi construído há 30 anos e fica localizado bem próximo ao Cemuni II.

O assistente lamenta que o espaço, tão importante para diversos cursos da instituição, tenha sido esquecido e conta que um dos principais problemas enfrentados por alunos e servidores é o calor. “O ambiente é muito quente. Nossos ventiladores estão quebrados e o sistema exaustão eólica, não funciona direito”. Ele aponta para o telhado de zinco, que recobre todo espaço do Galpão, como um dos responsáveis pelo forte calor. “Mesmo tendo um pé direito alto, aqui esquenta muito por causa do telhado de zinco”, explica.

Descaso O assistente do galpão, Benedicto Ruy Simões, informa que o local nunca recebeu nenhum tipo de manutenção. Ele trabalha desde 1977 na Ufes e conhece bem de perto as dificuldades que alunos e professores enfrentam. “Temos um forno que quebrou e, há cinco anos, estamos aguardando manutenção. Sem ele os alunos deixam de fazer uma série de No galpão, existe um espaço reservado atividades importantes, como derreter o às atividades de marcenaria, que fica nos fundos. Lá, estão os equipamentos cobre, o bronze e finalizar esculturas.” destinados aos trabalhos com madeira, Benedicto ajuda os alunos a desen- como a lixadeira e a serra de bancada. volverem seus trabalhos, executando Para utilizá-los, os operadores precisam atividades de operação de equipamentos ser treinados, pois tratam-se de máquido local. Nesses 35 anos de trabalho, já nas perigosas, que não podem ser aciopresenciou casos de estudantes que se nados por qualquer pessoa. Sempre que cortaram, prenderem dedos e cabelo nas um aluno precisa fazer um trabalho que máquinas. “Sempre oriento os alunos so- envolva a utilização destes, o assistente bre a maneira como os equipamentos de- entra em ação. Como na área da marcevem ser utilizados, mas incidentes assim naria não existe iluminação, o trabalho acontecem. Quando vejo alguma aluna exige atenção redobrada. “As lâmpadas se aproximando das máquinas com o ca- estão queimadas e quando escurece, fica belo solto, aviso do risco de prenderem difícil. Executar esse trabalho é perigoso o cabelo nas peças.” Apesar das dificul- e precisamos de uma boa iluminação”,

Luiz Zardini Jr.

Área externa do Galpão de Artes da Ufes, próximo ao Cemuni II.

dades, Benedicto revela a satisfação que tem de trabalhar no local. “Não penso em me aposentar tão cedo. E mesmo quando eu me aposentar, pretendo continuar a trabalhar, porque não gosto e não consigo ficar parado.”

Os problemas não param por aí. “Em determinadas atividades previstas para o semestre, nossos alunos são obrigados a comprar com seus próprios recursos, Armário utilizado para guardar materiais e equipamentos que foi arrombado por ladrões No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

Um dos ventiladores utilizados no galpão e que necessita de manutenção.

Única pia em funcionamento no local.

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Novos bairros universitários Preço diferenciado atrai estudantes para regiões alternativas Ismael Inoch e Paula Tessarolo

Bairro República

continua sendo os bairros Jardim da Penha, Mata da Praia e Praia do Canto. Porém, em busca de preços mais baixos os estudantes estenderam o número de bairros universitários. “Nessa área, um A estudante Gabriela Andrade é da Bahia, aluguel com três quartos custa, em média, mas escolheu Vitória para morar. Ela faz R$ 1 mil mensais. Agora, eles procuram, faculdade em uma instituição particular também como opção, Bairro República, e encontrou uma casa no bairro Maria Goiabeiras e Jardim Camburi”, confirma Ortiz que divide com outras duas pessoas. a profissional. “A região facilita o meu acesso ao trabalho e faculdade. Não é tão perto dos dois, De acordo com ela, não são todos os mas mesmo que eu pague passagem, o proprietários que permitem a liberação preço ainda sai mais em conta do que em do imóvel para ser usado por jovens outros lugares. Pagamos R$ 700 mensais que querem montar repúblicas. “Onde por um imóvel com três quartos”, explica trabalho, a gente conversa com o dono da residência e se ele aceitar o uso para ela. essa finalidade, indicamos o apartamento A gerente de locação de uma imobiliária para esse público”, destaca a gerente. da Capital, Liziane Gasparini, explica que a preferência dos estudantes Independente do bairro escolhido, na por um imóvel com dois quartos. Pago o mesmo valor, dividido entre mais dois amigos, e moro em um apartamento com quatro quartos”, destaca ele.

Mata da Praia

hora de alugar um imóvel é necessário que o estudante fique atento a algumas dicas. Primeiro, é muito importante que o futuro inquilino visite o imóvel para ver se os quartos são bons, se o banheiro está em ordem e verificar a infraestrutura do bairro, especialmente nas questões de segurança e transporte. Avaliar todas as possibilidades junto à imobiliária antes de fechar o negócio e ter um fiador são essenciais. Sem fiador, será necessário pagar seguro-fiança. No caso de o imóvel ser alugado por mais de um estudante, no contrato deve constar os nomes de todos os pais ou responsáveis pelos jovens moradores. No final de tudo, com o contrato em mãos é chegada a hora de virar “gente grande” e dar o primeiro passo para a vida madura.

Dicas para quem vai alugar um imóvel

Goiabeiras

Estrutura: é importante visitar o imóvel, observar se os quartos são bons, se o banheiro está em ordem e verificar a infraestrutura do bairro, especialmente nas questões de segurança e transporte.

Jardim da Penha

Maruípe

Prazo: avalie todas as possibilidades junto à imobiliária antes de fechar o negócio.

Praia do Canto Santa Lúcia

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orar perto da universidade é uma mão na roda para qualquer estudante. Isso facilita o acesso, diminui custos de transporte, colabora para o cumprimento dos horários nos compromissos e evita atrasos. Na Grande Vitória, a região predileta para isso é composta por Jardim da Penha, Mata da Praia e Praia do Canto, por causa da proximidade com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

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Porém, ficar pertinho da sala de aula também gera despesas e esses bairros universitários, com caros custos de vida, passaram a ser substituídos por alternativas mais em conta. Os bairros

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Goiabeiras, Maria Ortiz, Jabour e Bairro República ficam próximos do acesso à universidade, ao norte, junto a Maruípe e Santa Lúcia, ao sul. Essas regiões passaram a ser ocupadas por repúblicas de estudantes que procuram alugueis mais baratos para aliviar o bolso no fim do mês.

ficar em Jardim da Penha, por exemplo, a gente precisaria morar com outras pessoas e optamos por não dividir com gente que não conhecemos. Pagamos R$ 550 de aluguel, dividido entre nós, e gasto de bicicleta só oito minutos para chegar à aula” destaca Michelle.

Contrato: importante ter fiador ou algum seguro garantidor do pagamento. No caso de o imóvel ser alugado por mais de um estudante, o contrato deve constar os nomes de todos os pais ou responsáveis pelos jovens moradores.

O universitário Eduardo Candeias já Para a universitária Michelle Terra, morou em cinco bairros diferentes, em Goiabeiras é um bairro com imóveis Vitória, em busca de locais próximos baratos e tão próximo da Ufes como do trabalho e da faculdade. Por último, os outros mais caros. Ela divide um o estudante escolheu o bairro Santa apartamento com uma amiga e escolheu Lúcia por encontrar nele aluguéis mais o imóvel na região porque não encontrou baratos. “Tenho um amigo que dividia nos outros bairros um aluguel mais em apartamento na Praia do Canto, do conta que pudesse pagar sozinha. “Para outro lado da rua, e pagava R$ 1 mil No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

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No Entanto, edição 59, Outubro de 2012

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Laís Lorenzoni

Laís Lorenzoni

No Entanto #59  

Segunda edição do ano de 2012 do Jornal No Entanto, produzido pela turma 2010/2

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