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CAPÍTULO 7

Nixdorf ou “Como é que eu vim parar aqui”? 1ª edição, Julho/2009. 2ª Edição Maio/2013 Por: Mima Pumpkin Revisão: Noemi R. Bragança Publicado em série no site Mima Pumpkin http://mimapumpkin.com Contato: info@mimapumpkin.com Copyright © 2013 por Mima Pumpkin. Todos os direitos reservados


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Capítulo 7 Espelho, espelho meu — Eu me sinto estranha. Isso é a vida real? De acordo com a lei da relatividade, o mundo estava de cabeça para baixo. Minhas pernas habilmente erguidas para o alto, sobre o encosto do sofá, minha cabeça pendendo rente ao chão, os braços livres cedendo à gravidade, a TV no teto, o lustre fingindo ser um abajur. Tinha sido ideia da Naná. Alguma revista feminina que prometia algum resultado mirabolante se permanecêssemos nessa posição durante cinquenta minutos ou até os dedos dos pés começarem a ter um leve tom arroxeado. Não lembro se o objetivo era rejuvenescimento ou perder a habilidade de andar, porque, como todos sabem, ter pés é tão last year. — Isso é realmente necessário? — eu perguntei, enquanto tentava ler, assim, invertida, a pergunta em alemão que aparecia no programa de perguntas e respostas na televisão. — Claro! No dia do seu aniversário de vinte e um anos você tem que estar uma diva e não reclame! — determinou


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minha xará, contorcendo os lábios num bico estilo Jolie. Naná tinha voz de locutora de rádio e o entusiasmo de uma adolescente. A combinação desses dois atributos resultava num poder mortal de persuasão. Um dia, você acorda tranquilamente pensando só em tomar café e ler um jornal, no segundo seguinte, ela te convence a colocar o café no rosto (“faz bem pros olhos!”) e tirar fotos embrulhada no jornal. A programação do dia era simples. Depois de virarmos divas, é claro, toda a família sairia para comer algo típico alemão, de preferência sushi no Nordsee, um restaurante que se orgulha de servir basicamente peixe. Depois, voltaríamos para casa, pois estava frio demais para ficar do lado de fora, e comeríamos bolo de chocolate, para nos consolar pelo fato de que eu estava velha. Meus pés já tinham passado da fase de formigar há uma meia hora, agora eu tinha a ligeira impressão que eles flutuavam sobre o ar como algas marinhas no oceano e já não mais pertenciam a mim. Eu os olhava hipnotizada enquanto eles galgavam degraus invisíveis em direção ao lustre. — OK, acho que já ficamos tempo suficiente — Naná anunciou, se colocando de pé com uma cambalhota torta.


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Levantei e, enquanto saltava para despertar minha metade inferior, olhei com expectativa para ela. — E aí, estou rejuvenescida? Funcionou? — sorri, correndo sem sair do lugar. — Ah, sim. Seu rosto está com um blush natural, está bonito. — Mesmo? — meu sorriso alargou. Fui até o espelho no corredor ao lado. Murchei. — Eu não vejo nada. — Ah... — Naná fez seu bico Jolie — Acho que já passou o efeito.

Vinte e um anos. Eu tenho vinte e um anos. Nada de pânico. Não havia motivo para pânico. E daí que tudo que vivi até agora foi deixado para trás? E daí mesmo? E daí que todos os meus amigos e parentes estão longe? Francamente, é só saudade. E daí que todas as minhas lembranças, todos os meus lugares favoritos, todas as coisas que eu gosto, tudo que eu já vi, conheci e toquei, sem contar minha formação universitária, ficaram para trás e não valem mais nada? Realmente, não vejo sentido nesse melodrama, Natty. É ridículo. Desabafa e põe um basta nessa chateação. Oh céus, eu ficaria muito menos


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frustrada se aqui ao menos tivesse brigadeiro para afogar minhas mágoas! Brigadeiro, beijinho, coxinha, empada, pastel, rissole. Sim, tudo isso. Meu nariz começou a sangrar, mas eu já estava genuinamente ficando acostumada com isso. Não, não é o que você está pensando. Eu não era espancada por velhinhas alemãs todos os dias. São as letrinhas pequenas que eles esquecem de avisar quando estamos para mudar para um lugar de clima frio. As minhas mucosas nasais estavam totalmente destruídas pelo ar ressecado pelos aquecedores dos ambientes internos e o ar ressecado do ar abaixo de zero. Mesmo minha pele e meus cabelos nunca mais seriam os mesmos. A água do chuveiro e das torneiras era possuída por uma entidade diabólica chamada Kalk que deixava manchas esbranquiçadas nas pias e nos boxes. Essa mesma entidade era a responsável pelo grande tormento de toda alma feminina na Alemanha. E isso esclareceu um grande mistério para mim. As grandes marcas de cosméticos vêm da Europa, embora a mulher brasileira seja essencialmente mais vaidosa e, diga-se de passagem, de longe, a maior consumidora. É que, na Alemanha, hidratante não é vaidade, é artigo de


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primeira necessidade. As que não utilizavam da variedade cosmética provavelmente acabavam como a senhora assustadora que me bateu. A lembrança dos sulcos labirínticos na pele me causava calafrios. Ainda temendo a teoria da máquina do tempo, o vislumbre sombrio me impulsionava a me render cada vez mais às inspirações deslumbradas de Naná. E foi com ela que pela primeira vez fui apresentada ao paraíso dos cosméticos em conta: a drogaria DM. — Probieren … — eu procurava no dicionário o significado da palavra com o máximo de velocidade que podia para confirmar aquilo que eu já suspeitava. — Quer dizer que você pode experimentar? Olhei emocionada para os longos corredores de cremes hidrantantes, específicos para cada parte do corpo, perfumes, maquiagens e outras coisas que nem sabíamos que existiam e que, a partir de agora, nunca mais poderíamos viver sem. Eu sentia que minha voz ficava cada vez mais aguda conforme eu recitava as marcas à vista, tão conhecidas e tão almejadas no Brasil. E tão baratas! Eu me enganei, a Alemanha não era o inferno, era o paraíso! (Na época, eu ainda não sabia que as


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águas amargas que nos banhavam equilibravam as forças do mal e do bem no quesito beleza). — Como é cabelo encaracolado em alemão? — Naná quase gritava, parecendo tão emocionada quanto eu. Ela corria de corredor em corredor, como uma versão feliz e feminina do diabo da Tazmânia. Meu dicionário de bolso não continha as especificidades dos invencionismos cosméticos, então tínhamos que recorrer ao nosso último recurso: perguntar para uma funcionária. — Shampoo — comecei. Essa era uma palavra que eu tinha certeza que era internacional. Olhei para Naná. Naná olhou para a funcionária. — Shampoo … hair... — continuou Naná, apontando para o próprio cabelo, desenhando um redemoinho no ar com o indicador. Seu cabelo, normalmente cheio de cachinhos, estava perfeccionisticamente alisado naquele dia, portanto, o recurso visual estava indisponível. Após alguns minutos de pantomima for dummies, a compreensão pareceu atingir o rosto da semipaciente funcionária.


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— Achso! Lockiges Haar! — ela sorriu, começando a andar em direção a um corredor e acenando para que seguíssemos. Eu alternava entre olhar para Naná e para a funcionária, me certificando que aquele palavreado não significava na verdade “Vocês são loucas, venham comigo para serem internadas”. *** Estávamos deslumbrantes quando descemos na praça principal em Frankensdorf. Botas de cano alto, skinny jeans dois tamanhos acima para comportar as grossas calças de lã por baixo, sobretudo de uma espécie de couro aveludado, cachecol de cores vibrantes, gorrinho com ar blasé, maquiagem copiada de mais uma revista da Naná e um sorriso nascido de um surto de otimismo inesperado. Eu tinha vinte e um anos e estava nascendo agora, com amigos para fazer, planos para desenvolver, um futuro diante de mim! Eu me sentia como as palavras daquela música em inglês que tocara ao fundo no shopping no fim da tarde:

Hoje é onde o seu livro começa O resto ainda não está escrito.


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Capítulo 1 – Era uma vez... Brincadeirinha! Entendeu a piada? Entendeu?


Nixdorf - Capítulo 7