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CAPÍTULO 6

Nixdorf ou “Como é que eu vim parar aqui”? 1ª edição, Julho/2009. 2ª Edição Maio/2013 Por: Mima Pumpkin Revisão: Noemi R. Bragança Publicado em série no site Mima Pumpkin http://mimapumpkin.com Contato: info@mimapumpkin.com Copyright © 2013 por Mima Pumpkin. Todos os direitos reservados


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Capítulo 6 Não existe príncipe encantado — Mãe, fala sério, ele tem só dezessete anos. — girei os olhos convincentemente e suspirei. Minha mãe relatava animadamente aos meus irmãos que o rapaz da internet que me convidara para a igreja, aquele tal de Daniel, tinha um quê de muito simpático. Eu já sentia os olhos provocadores queimando na minha nuca à medida que eles estabeleciam a melhor forma de humilhar e torturar a irmãzinha com a informação recém-recebida. A revelação da suposta idade pareceu detê-los por alguns momentos e isso me fez decidir permanecer firme no argumento. Na verdade, eu não sabia quantos anos o Daniel tinha. Não fazia ideia. Vê-lo em carne e osso me fez perceber que era humanamente, cientificamente e fisicamente impossível que ele só tivesse quinze anos. Mas, por outro lado, a informação de que ele ainda ia à escola e a foto de criança... Uns dezessete anos era uma boa idade, era uma idade segura. Nós poderíamos ser teoricamente amigos, ao mesmo tempo em que eu não sofreria a inconveniência da suspeita de dois


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irmãos malvados e pais superprotetores sobre mim. Sim, dezessete anos era a idade ideal para o Daniel e, portanto, dezessete anos ele teria! Não que importasse realmente quantos anos ele tinha. Ele podia muito bem ter vinte e oito ou oitenta e cinco e o resultado final seria o mesmo. Ao final do culto, o pastor se aproximou de nós e perguntou como soubemos da igreja. Ele tinha um sorriso bondoso e a aparência de um alemão, mas falava português perfeito. Cabelos e barba grisalhos, pele alva mais que a neve e olhos azuis. — O Daniel— eu disse, apontando sorridente para o rapaz que, no momento, guardava o violão dentro de uma capa escura. O sujeito em questão olhou para nós quando apontei e sorriu um meio sorriso educado. Ainda bem que ele só tem dezessete anos, suspirei aliviada por não ter motivo algum para estar nervosa. Eu odiava a sensação de que minha vida em poucos minutos tinha virado um chick flick de Sessão da Tarde e tentava restabelecer mentalmente minhas prioridades. Reclamar, criticar e ironizar. Essa é você! Mantenha o foco, Natty! Não ouse sorrir para ele, não ouse sorrir para ele...


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Eu sorri para ele. Afinal, ele era um rapazinho adorável, então eu podia muito bem ser simpática. Assim que o violão estava seguro em sua capa, Daniel se aproximou, as mãos nos bolsos, os olhos examinando cada um de nossos rostos. Aparentemente, ele não era esbanjador com os sorrisos. Agora, o semblante era sério, quase concentrado. — Obrigada pelo convite! — falei, sentindo meu entusiasmo um pouco elevado demais no tom da voz. Não houve tempo para resposta, porque meus pais resolveram fazer a presença deles notada no círculo. — Olá! — minha mãe cantou com um grande sorriso — Você que é o Daniel! É um prazer conhecê-lo. — O prazer é meu — disse ele, assentindo com o rosto para os dois, as mãos ainda dentro dos bolsos da calça. Eu não fiz mais parte da conversa, exceto pelos ocasionais sorrisos e risadas semiforçadas que tentei dar, embora eu começasse seriamente a suspeitar que estava invisível. Durante uns bons quinze minutos, eles conversaram entre si. O rapaz inquirindo respeitosamente a respeito do trivial, como nossa adaptação na Alemanha, o que achamos da reunião, nossos planos para o futuro recente, o clima, a desvalorização do dólar, a história da imigração


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brasileira para o continente europeu, as catástrofes ocasionadas pelo bater das asas das borboletas, o sentido da vida e do universo e tudo mais. Meus pais precisavam de pouco a nenhum estímulo para desatar a falar de tão felizes que estavam de serem compreendidos no próprio idioma. Depois de um tempo, as atenções dos meus pais voltaram-se para o pastor, deixando-nos, eu e o violonista, para atender a nós mesmos. Finalmente. Sorri ligeiramente sem graça e abri a boca para falar. Tarde demais. — Com licença, vou ali conversar com meus amigos — desculpou-se e já saiu. Fiquei ali de pé, com o indicador levantado, a boca semiaberta e alguma frase entalada que não chegou a se formar. Permaneci com o mesmo sorriso embaraçado minutos depois que já tinha sido deixada sozinha. — E aí, ele é bonito? — surpreendentemente a linha de ataque vinha da minha futura cunhada, noiva do Matheus, que tinha chegado nessa semana para passar um tempo conosco. Embora só a conhecesse há dois anos, já a considerava uma irmã. Todos acharam estranho e engraçado quando meu irmão começou a namorar com uma xará minha.


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A distinção entre uma e outra era feita pelo apelido. Eu era Natty, ela era Naná. Eu sabia que, partindo dela, a intenção da pergunta era inocente, mas os olhos e ouvidos ainda maliciosos dos meus irmãos sondavam à procura de material para me condenar. Ante a pergunta, percebi com o canto dos olhos, Matheus entrar em posição de ataque. Olhos arregalados, um sorriso grande e bobo e os braços cruzados diante do peito. — Na verdade, eu não reparei. Acho que sim... Sim, de fato era bonitinho para um rapazinho de dezessete anos, acho. — Não sei porque cargas d'água sentia meu rosto corar. Naná pareceu não reparar. Matheus foi sentar no sofá decepcionado. Lucas ainda sorria torto, com um jeito meio gozador. Nada disso importava. Mesmo. O fã de Meride, Daniel, viajaria para o Brasil nessa semana e não pensaríamos mais nele, com um pouco de sorte, pelo resto da vida. Eu voltaria à minha ocupação diária de reclamar, criticar e ironizar a vida. Meus irmãos voltariam a ocupação diária de cuidar da vida deles. E viveríamos felizes para sempre. Porque, como todos sabem, é assim que contos de fada terminam.

Nixdorf - Capítulo 6  

Conta a história de uma jornalista recém-formada que realiza o antigo sonho de mudar para a Alemanha com a família só para descobrir que o s...