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O solene e infndo gesto do silêncio que nos fala por dentro por Marta Fernandes

A arte fotográfca interessa-nos, de maneira especial, enquanto exercício do(s) olhar(es), concretizado no amplo potencial refexivo decorrente de um encontro-diálogo, mediado pela foto, entre fotógrafo e intérprete. Nessa conjunção de olhares, que assenta fundamentalmente na proposta imagética do fotógrafo e na capacidade de refexão do observador, cujo maior ou menor grau de disponibilidade contemplativa desencadeará uma recriação, uma fotografa-outra, encontrase muitas vezes latente uma intencionalidade por trás da criação, de abri-la curiosa e generosamente à interpretação! O autor deixa a foto partir do seu lugar originário de sentido apenas ao seu alcance (o “eu”) permitindo que a mundividência do intérprete, num processo de remontagem via introspecção, complemente a obra, ou como aludimos, recrie, a renove mediante uma parceria cúmplice entre fotógrafo e intérprete, culminando no surgimento de um “nós”. Porventura, na linha do que perflhamos, essa será a fnalidade última do objecto artistico, in casu no âmbito da fotografa, desprender-se do criador e libertar-se na sua vocação dialogante de ampliar o acto criativo e fazê-lo (re)viver no observador. Fazer a fotografa “acontecer”, como diria Roland Barthes, naquele que mais do que olhá-la, a toma para si. Todavia, nem todos os artistas correspondem em ânimo e receptividade a esta (re)construção parceira, tampouco têm os observadores menos experimentados, e sob a sujeição ruidosa de uma “hiperlotação” imagética desencadeada no consumismo desenfreado da sociedade contemporânea, a habilidade para um exercício que deles requer a pausa da qual incessantemente são despojados. Por conseguinte cremos não haver na linguagem fotográfca (o mesmo será válido para a expressão artística em geral) uma interpretação que se possa indubitavelmente afrmar como correcta ou acertada, antes uma diversidade inesgotável de perspectivas face a uma mesma fotografa. Em consequência, uma foto tem inerente um potencial de renascimento a cada novo observador, a cada olhar que lhe é lançado. Evidentemente que aquele olhar pode aproximar-se mais ou menos da intenção e/ou mensagem visadas pelo artista, mas é inevitável a benigna contaminação da foto com a experiência de vida de quem a contempla, com os seus anseios, frustrações, traumas, ambições, sonhos! O observador interfere no sentido inicial que o criador atribuira à foto e simultaneamente enriquece-a porque cada novo intérprete a singulariza. Haverá aqui um risco de deturpação do intuito inicial do artista? Não se perflharmos, como vimos insistindo, a ligação de autor e intérprete a partir de um plano colaborativo não concorrente. Deste modo, uma específca fotografa sendo sempre a mesma é afnal sempre outra, procedendo desse processo dinâmico de interacção de olhares. Ora, ao entrarmos no espaço de “She Looks into me” o processo que tentamos descrever parece-nos elevado à sua potência máxima! No discurso fotográfco com que Nuno Moreira nos vem interpelando, em trabalhos prévios dos quais destacariamos “ZONA”, vislumbra-se o entrecruzar de outras linguagens afectas à poesia e cinema e que aderem àquele processo interactivo que tentamos enunciar, mediante o qual o olhar do fotógrafo é convite e desafo ao observador. Desde as primeiras fotografas de “She looks into me” constatamos que nos situamos no pleno domínio da sugestão, assenhorando-se esta, página a

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pagina, do nosso percurso exploratório! Por isso, mais importante do que aquilo que é mostrado expressa e deliberadamente na foto é aquilo que não é visível na mesma. É, assim, ampla a margem de manobra oferecida ao intérprete para encontrar o seu singular caminho nas fotos ao longo do livro, e que incita a uma viagem nas paisagens interiores, sob a pele, sendo aliás a pele um elemento fgurativo constante no trajecto proposto. Destacamos a diferenciada dimensão das fotos porque nos parece estimular a adaptação do olhar a um ritmo emanado por aquelas capaz de abrandar, aquando da contemplação, o tempo real e provocar descoincidência, não longe do encantatório, entre aquele e o tempo das fotos que se vão sucedendo, acentuando a presença de um mundo paralelo que parece destacar-se da fotografa e que exclusivamente se desvelará, em toda a sua plenitude, na presença do(s) intérprete(s). Para aquela envolvente manifestação rítmica contribui o facto de diversas fotografas surgirem em jeito de sequência, recordando-nos planos cinematográfcos, reforçando o seu movimento próprio. Desde logo, o título do livro remetendo para poema de Paul Éluard que consta no início, parece também ele acompanhar aquele singular ritmo que evidenciamos, reconfgurador da convenção do tempo quando o observador se embrenha nas fotos. Aqui, é (novamente) a sugestão ampla que aquele poema oferece que impele à interacção entre palavra e fotografa, que sem fricção pactuam de um andamento em que cada verso e fotografa se envolvem simbioticamente. O poema de Éluard, distanciando-se de uma interpretação fechada e literal, consente que os versos se assumam como intervalos que se repercutem, depois, nas fotos, salientando a relação de reciprocidade entre o poema e a fotografa. Além do mais, se atentarmos ao título do livro -“She looks into me”- imediatamente distancia-nos do espaço superfcial em que, em regra, nos movemos, já que os vocábulos “into me” ao invés de “to me” propõe-nos a visitação de uma interioridade profunda. Há um olhar que nos fta (para) dentro e não meramente na aparência exterior! Aí se inicia o percurso exploratório proposto pelo fotógrafo. Remetendo para o que se disse sobre a intertextualidade caracterizadora do trabalho fotográfco de Nuno Moreira, as palavras oferecem-nos indícios bussolares, talvez mesmo uma chave para facilitar o acesso do observador a imergir nesse mundo (ou mundos), evocação da invisibilidade a resgatar! Insistentemente deparamo-nos com fotos mostrando olhos cerrados, vendados, reportando a um “ver para dentro” (consonante com o título do livro), busca pela visão original, pelo seu útero. A ambiência que denotamos cuidadosamente construída nas fotos eleva-se nas imagens que se insinuam arquetípicas, esboçando uma paisagem sonial, recordando o trabalho anterior do fotógrafo que em “ZONA” nos apresentava elementos simbólicos como por exemplo a fotografa de uma chave sobre a mão iniciadora da obra. Agora, em “She looks into me” a “chave”, numa perspectiva de continuidade e não disrupção face ao livro precedente, pode bem ser o poema que abre (em toda a sua extensão de potencial) o livro refectindo, reiteramos, a interpenetração de discursos. Outros signos que as fotografas vão acolhendo parecem-nos matrizes para prosseguirmos viagem, repletos de dualidade situando-se, pois, na região do ambíguo, retomando simbologia que já conhecíamos de “ZONA”, especialmente as fores secas (que, não por acaso, encerram ambas as obras); também o corpo/pele/mãos, fragmentos que intercomunicam à medida que cada foto os vai apresentando e que têm a virtualidade de alterar/moldar o espaço onde estão situados, assim como de rearranjar o espaço pessoalíssimo de quem as observa.

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Deste modo, são fotografas que apontam, numa leitura global da obra, para um local fronteiriço, de limbo, gerado na sugestão simbólica e animado pela(s) sombra(s), lugar do qual o onírico toma a sua parte, entremeio de realidade e sonho, itinerário que somos convocados a prosseguir ao longo da sucessão de fotografas e, simultaneamente, cada fotografa vai revelando uma pegada, vai-nos percorrendo por dentro, evocando perguntas que sabemos sem resposta defnitiva porque defnitividade não é, afnal, coadunável com a fotografa de Nuno Moreira. Fotos que vão deixando vestígios para o observador reunir a pouco e pouco, nesse itinerário onde impera a sugestão. É para esse espaço de fronteira, eventualmente vizinho do momento do despertar que cada intérprete é transportado. Fruto de uma harmonização imagética que se destaca a fotografa anterior já nos prepara para a seguinte, e cada novo indício vai “trabalhando por dentro” aquele que observa, gerando-se uma invulgar reacção sensorial, porque pressentimos a iminência de materialização daqueles gestos que nos são dados a observar directamente em algumas fotos, todavia, sem perder na concordância etérea que vincula todas as fotografas. Fixando-nos, ora, na capa do livro a atracção pela sua luz envolvente porque branda, delicadamente suave e apaziguadora, contribui para o destaque da presença de uma criança e de uma fgura feminina, representadas numa postura de verticalidade, diríamos de ascensão, na qual a criança parece acolhedoramente abrigar essa fgura feminina ou eventual prolongamento desta. Talvez estejamos perante o evocar do regresso à Origem (por exemplo, atentemos na foto da cicatriz umbilical da criança), ao estado da infância como possibilidade de encontro com o fulgor do inconsciente, da inelutabilidade da sua presença mas quase imperceptível no rumuroso quotidiano. Nesta senda, invertem-se, então, os papéis: é a criança, na sua (aparente) fragilidade que salvaguarda o adulto, permitindo-lhe reencontrar-se com a sua essência. O que nos leva a crer que as fotografas vão indicando que a recuperação da genuinidade (dormente) residirá na suprema inconsciência da infância. Porém, será a criança representada (que na capa não vemos a face mas pela posição corporal adivinhamos adormecida) é um ser autónomo ou antes imanência daquela fgura feminina já adulta, sua reminiscência passada, para lá de qualquer restrição de género que a realidade possa impor, quando nos situamos num mundo paralelo participante do oniríco?! Perguntas que cada observador vai descobrindo em si por intermédio das fotos, onde as questões suplantam em importância qualquer ensaio de resposta. Outro aspecto a salientar e mais uma vez em coerência com a linguagem que o artista vem desenvolvendo, as fotos de “She looks into me” são ocupadas pelo apelo ao (do) silêncio, como intervalo (uma vez mais) enquanto compasso de espera face ao real impregnado de ruído; uma espacialidade silente onde o corpo é também ele um lugar dentro do espaço, características que novamente já ressaltavam de “ZONA”. No entanto, distintivamente daquele trabalho, não existe apenas uma fgura-personagem, no seu confnamento, espaço do corpo dentro de outro espaço, ainda que o confronto com a duplicidade esteja também presente. As fotos de “She looks into me” incitam-nos a percorrer um trajecto que se conforma na ciclicidade, no devir, a metamorfose do ser humano, que sendo sempre o mesmo nunca é o mesmo ao longo da vida! É desta (aparente) contradição que, curiosamente, emana o equilíbrio do discurso fotográfco, sendo a escuridão templo para o recolhimento naquele reverencial silêncio no qual vão sobressaindo os gestos e movimentos do ser humano fotografado, como se lhes concedesse a tais gestos quotidianos (alguns pelo hábito maquinais) uma particular consagração para além do mundano e trivial, e dessa forma, solenizando3


os. Por isso, a fotografa de “She looks into me” descobre a solenidade daqueles actos, para lá do visível, buscando o âmago dos mesmos superando a mundanidade que na superfície os retém. Temos vindo, ao longo desta refexão, a tentar sustentar uma linha de continuidade entre este trabalho e o anterior –“ZONA”-. Contudo, é-nos perceptível, no mais recente trabalho de Nuno Moreira, elemento que não integra o livro anterior: a alteridade! Decorre que “She looks into me” acrescenta, então, esse elemento que passa pela distinção de um sujeito face aos demais, a procura pelo outro, pelo que é diferente, o chamamento da necessidade vital do encontro, sem nunca apoucar aquilo que cada sujeito tem de incomunicável. Fotografas que reconhecem aquela incomunicabilidade inerente entre os seres humanos, a impossibilidade de nos comunicarmos por completo ao(s) outro(s) mas ainda assim buscarmos nos outros refúgio. Neste seguimento, realçam o toque entre seres humanos, aquela imprecindibilidade de encontro com o outro para além do eu, chegar até àquele que nos toca e por nós é tocado. Fotos que também não olvidam o facto do ser humano pela distinção daquilo que não é determinar aquilo que é. Não estamos, como em “ZONA”, na presença de uma única fgura-personagem na sua interioridade plúrima debatendo-se num espaço exíguo e frugal. Neste “novo” espaço habitam várias fguras-personagens, sobressaindo entre elas uma fgura feminina- uma espécie de protagonista/anftriã que, aliás, se nos apresenta na primeira fotografa do livro, de queixo apoiado sobre a mão, ftando-nos directamente na sua multiplicidade, na suas possibilidades de ser- e não ser- (ou serão as nossas?). Depois, atendendo à tripartição do livro, aos seus ciclos ( “Being”, “Becoming” e “Unbeing”) aquela personagem vai-se revelando em acções/tarefas que o ininterrupto silêncio, como que comprometido numa missão redentora, fltra a banalidade que contêm. Para além da criança, destacamos ainda uma fgura masculina que reconhecemos pelo fato que enverga, exibindo um gesto pejado de banal, remetendonos para o que parece movimento defensivo no modo como agarra o casaco. Conforme vimos descrevendo, fotografa que desapropria ou destitui a banalidade dos gesto quotidianos do ser humano e os reabilita pela solenidade que deles consegue extrair. Curiosamente, “She looks into me” enquanto morada do silêncio que vai desvelando, constitui-se, na nossa perspectiva, como manifestação de resistência, face àquilo que inicialmente acentuamos, a uma hodiernidade sufocada pelo ruído, cacafonia também das imagens, na qual tudo pode ser visto mas na realidade nunca olhado, e por isso, na apressada rotina de ver já nada há por descobrir. Este livro é antítese do tempo coectâneo que nos retira o prazer paciente da revelação, daquilo que está encoberto, que nos afasta do processo da aletheia enquanto iluminação epifánica do ser humano, que desnuda as frágeis certezas da racionalidade cartesiana! Visão e audição interligam-se neste livro e conduzem-nos a esse território longínquo dessa turbulência incessante do quotidiano, território que se encontra dentro de cada um de nós. Regressamos à pergunta omnipresente em todas as fotografas, a propósito da identidade “daquela que nos olha (por) dentro” que cremos poder ser, metaforicamente, Vida e Morte em simultâneo, em unicidade, não enquanto antagonistas tradicionais, antes dialogantes, sendo a dualidade antitética que artifcialmente lhes foi send imposta na cultura ocidental rejeitada no trilho que estas fotografas nos vão deixando. Nomeadamente, realçando Vida e Morte em unidade, não apenas o nascimento e morte físicos sobretudo o que se situa, ou o que tem lugar, no meio desses dois

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momentos basilares, enaltecendo esse intervalo (sempre o elogio aos espaços intervalares) entre o ser e o não-ser, pela já abordada solenidade que as fotos vão atribuindo aos actos mais triviais! Com efeito, estas são fotografas da (ou na) intermitência, por um lado, apontando para o que sucede desapercebido a uma visão em rebuliço, como o desdobramento incessante, por um lado da vida que se metamorfoseia em várias vidas (nunca percamos de vista os ciclos que tripartem a obra), uma existência em expansão, e, por outro lado, de várias desaparições, das plúrimas mortes diárias, os fns e os começos, os gestos que se desvanecem depois do seu apogeu. Vida e morte , quer literal ou fgurativamente, que se pertencem, só conjugadas se podem apreender, sem jamais deixarem-se apreender por completo. Nascente destas fotos estará neste paradoxo da condição humana. Ressalta, portanto, a vida conjugada com a morte, sendo esta o sentido ultimo daquela, o que indiciam as fotos que se vão sucedendo, nas quais o constante e interrogativo silêncio que as acompanha e vai ligando é também condição para um entendimento holístico da existência humana. Fotos que alcançam pausar o ritmo do movimento incativável, pelo apego à encenação do mesmo, e novamente uma contradição, através desse simulacro fazer emergir o âmago, a essência. Eis que nos recordamos de uma passagem de “A Queda” de Camus: «Vê-se mais claro, por vezes, naquele que mente do que no que fala verdade. A verdade cega, como a luz. A mentira, pelo contrário, é um belo crepúsculo que realça cada objecto.» É, afnal, a constatação do absurdo inerente à condição humana que espoleta a tensão que igual e inevitavelmente emana de cada foto. A quietude quase que conseguimos tocá-la em cada foto, a sequência tripartida de momentos como que nos sujeita a percepcionar um mundo paralelo, resgatando uma imobilidade talvez ancestral, retendo o movimento, abrandando o ritmo – há um ritmo próprio que a cada nova foto nos é apresentado, nunca imposto. Ainda de referir que a noção de expansão da obra e novamente de metamorfose está patente no anexo da poesia de Adolfo Luxúria Canibal que enquanto exercício de interpretação, ao ser lido em conjunto com as fotos faz (re)nascer um livro novo, aqui pelo cruzamento de linguagens e refexo também do que dissemos a propósito da dinâmica entre autor-intérprete. Pelo que fomos expondo, “She Looks into me” é composto por fotografas que se envolvem de uma súbtil poeticidade, constituindo-se, em grande medida, como experiência visual sempre em aberto, aguardando um novo olhar que o renove, que o multiplique ad infnitum a cada novo olhar, porque na senda de Valery um poema nunca é terminado, assim como cada foto de Nuno Moreira aguarda ser retomada! Marta Fernandes, Setembro de 2018

marta_fernandes157@hotmail.com

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O solene e infindo gesto do silêncio...  

She Looks into me - por Marta Fernandes

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