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O EDITORIAL Álvaro Ramos, Fevereiro 2016 PT - O que te levou a seres fotógrafo? Nada em concreto, pois trata-se de uma construção que foi acontecendo progressivamente. Sempre usei diferentes formas de expressão criativa: escrita, desenho, pintura, instalação… Mas nunca me senti confortável com a forma que as ideias ganhavam. Com a fotografia, e mais especificamente com o formato livro, sinto que consigo chegar mais próximo da ideia original e manter-me fiel ao que me interessa explorar, que é algo sempre mais evocativo e próximo do literário. As fotografias são habitualmente o culminar de um processo de escrita, leituras e ensaios. No fundo, a fotografia é para mim mais coerente com a visão e com a ideia original que tenho. Quando se pensa em fotografia habitualmente pensa-se apenas numa imagem, ou conjunto de imagens, paradas no tempo, mas no meu ver os trabalhos que faço não são somente fotografia, são mais um campo de estudo onde me dou a liberdade de investigar, experimentar e divagar sobre questões que coloco a mim mesmo e que espero que possam ser partilhadas por quem ao acaso descobre o meu trabalho. A realidade é que fotografo muito pouco comparado com tudo o resto que vou fazendo. - Quais foram os locais (momentos) onde gostaste mais de fotografar? E porquê? A fotografia possibilita algo muito bonito: olhar para as coisas de uma maneira fresca e nova. Sempre que pego numa câmara, e não o faço muito frequentemente, tento estar consciente disto, que o que vou ver tem de me fascinar, posso não compreender naquela altura porquê mas apenas se me fascinar ou houver algo indecifrável apenas assim vale a pena pressionar no obturador. Constato também que isto explica o porquê de não gostar de todo de tirar fotografias noutras ocasiões. Se sentir que não estou para aí virado, não vou obviamente pegar numa câmara para fotografar, tento manter-me coerente e respeitar este principio pois tenho respeito pelo meio que estou a utilizar e para mim não é um instrumento de entretenimento ou caça. Nem sequer é um meio que use de forma comercial, pois não vivo da fotografia. Para mim a fotografia serve única e exclusivamente para dar forma a ideias. Não quero com isto dizer que o momento de fotografar seja um momento sério, quero antes dizer que fotografo sempre com intuito e com a cabeça repleta de pensamentos. - O que motivou a criação do livro ZONA? O que motivou a feitura do livro foi a necessidade de tentar materializar um conjunto de ideias em algo concreto, ou pelo menos palpável. O que me interessa é a ideia, trabalhar com ideias. E isso é algo que leva tempo e precisa de ser nutrido. Para mim o processo de trabalhar numa série de fotos implica dedicação e um certo grau de espaço e intimidade. Tenho de me aproximar de um conjunto de questões e querer trabalhar com elas durante um longo tempo. Estas questões têm de


continuar a ecoar em mim durante tempo suficiente para que eu entenda que talvez continuem em ecoar durante mais tempo do que somente a execução do projecto. Se assim for, sinto que merecem sair do estúdio e entrar em diálogo com mais observadores. Esta série vem na sequência de tentar trabalhar de forma imagética com o invisível, com questões relacionadas com o campo do imaterial. E eu queria abordar estas questões de uma forma muito concreta e real, e foi isso que motivou a feitura das fotos e consequentemente do livro. É um trabalho ambíguo e aberto a muitas interpretações. - Onde te inspiras? Principalmente no singular e no absurdo… Inspira-me ouvir ou ver algo com fundo de verdade e ser surpreendido, como é o caso do Herberto Hélder que tenho andado a ler estes dias. Inspira-me aquilo que é difícil por natureza: difícil de obter, difícil de encontrar, difícil de compreender. Sempre fui assim, desde criança, gosto do que não é fácil.

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O Editorial fev2016  

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