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AMINHAECONOMIA Sexta-feira / 31 de Maio de 2013 / Negócios

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CELINA PEREIRA

A partir de uma conversa com LÚCIA CRESPO MIGUEL BALTAZAR

Eu não tinha nada meu, não sabia nada de mim Ela queria saber por que tinha olhos verdes. A mãe, olhos avelã, respondia que o avô era um madeirense branco, cabelo liso, olhos azuis, e que o pai do pai tinha ascendentes fulas. Lá em casa, havia uma contadeira, a Ti Júlia. “Sapatinho delicá/ licá, licá/ Odjo pa céu/ Olá’l, olá’l”. Celina Pereira é obra da mestiçagem. Da crioulidade, da lusofonia. Testemunhou-a no Fórum da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento, organizado pelo Projecto Sustentar. Falou sobre a identidade da morna, do muito que há para escavar. A cantora e educadora Celina Pereira pertence a duas ilhas de Cabo-Verde, Boavista e São Vicente. Nelas, ouvia a voz do Blimundo, um boi que fazia estremecer o mundo. Ou do gato que via os navios a aportar. Ela é assim, feita de contos e lengalengas.

Blimundo eraumboitão forte que, cadavez que mugia, o mundo estremecia.OBlimundoé,emtermosmetafóricos,aquelavozquetodosprecisamos vestir. Asuahistóriarepresentaalibertação do povo cabo-verdiano daescravatura. Cabo Verde, sobretudo aIlhade Santiago, foi um entreposto de escravos,umaformadeeconomiaquenósqueremosbanirdanossaconversae do nosso universo, mas que existiu. Isto que eu trago naminhacabeça, opano,estábaseadonumgráficogeométricoquefazpartedosdesenhostradicionais cabo-verdianos, de SantaCatarina, e que eramoedade trocanacomercializaçãodosescravos.Enósguardamosestepanodeobra,estepanobicho,comosímbolonacionalde resistênciae de liberdade.

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ue os meus irmãos tivemos umacontadeirade histórias, aTiJúlia, elaeranossavizinha,umasenhoracomproblemasdesubsistência.Aminhamãeiabuscá-lae,dando-lhedejantar,elavinhacontar-noshistórias,enóssentávamo-nosàportadecasa, nostrêsdegrausàentrada.FoiaprimeiravezqueouviahistóriadoBlimundo.Eahistóriadeumgatoqueelatinhaemcasa,quefalavaquandosubiaaotelhadoevia,ládecima, os navios aportados que traziamaçúcar, feijão, bolachas, milho, farinha... Oprimeirocontoqueescrevi,quandooTravadinhamorreu,foiàvoltadaTiJúlia,ela é assimummarco; diz-se que nós somos nós e anossamemóriae é assimo serhumano, éeleeasuamemória.Pediram-meparaescreverumacoisasobreoTravadinhaeapareceu-me aTiJúlia. O Travadinhatocavacoisas paraelaouvir, fi-los encontrarem-se.

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choquetenhoandadoàprocurademimprópriaporquesouumaex-colonizada,ninguém me ensinou nada de mim, na escola eu aprendi o Rio Minho, que nasce nos Montes Cantábricos, temasuafoz emCaminha, passaporMelgaço... Eunão tinha

nadameu, não sabianadade mim e, quando criança, perguntavamuitas coisas àminha mãe, lembro-me de elafalarde contradanças, de mazurcas, de cantigas de roda: “Pirulito que bate, que bate/Pirulito que jábateu/Quemgostade mimé ela/Quemgostadela soueu/Q’ondemieranove/Mieraflordepônapeite/Agoramiêbêdje/Miêbassorade barrê quintal /Quando eu eranovo/a/Eu eraflor de se pôr ao peito/Agoraque sou velho/Sou vassouraparavarrer o quintal”. Háumaviagem das canções. Vêm do Cancioneiro Popular Português, entraram por viadareligião, passaram pelaescola, foram andando até chegaremamimcomroupagemcabo-verdiana, aculturadas. Estamisturaécrioulidade.Éinterculturalidadequenãoérenegada,maséprecisoempurrare mostrarque elaexiste. As escolas, emCabo Verde, jádeveriamter, no seuensino,esteladodasnossasraízes.Aindanãoaprendemosaconhecermo-nosporqueanossaauto-estimanão foiestimuladaao ponto de acharmos que somos bons. orriao ano de 96 quando largueiaTAP, os passageiros e os aviões, euerahospedeirade terrae resolvi partirparaoutras coisas que me estavam afervilharnacabeça. JátinhaeditadoomeuLP“Estória,Estória...NoArquipélagodasMaravilhas”efui convidadaparaintegrarumgrupo de educadores numprogramainterculturalbaseado

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Celina Pereira ( parte 1) para o Negócios de 31 de Maio de 2013  

Celina Pereira no iFórum da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento | 21 de Maio de 2013 | ISEG | Projecto Sustentar | www.s...

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