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A PERIFERIA POP NA IDADE MÍDIA “Consciência social logo será uma marca de calça jeans, não significa nada, pode estar na prateleira de um supermercado ao lado da mostarda”. Luiz Felipe Pondé

Se considerarmos a sequência de etiquetas que se colaram ao contemporâneo, nenhuma delas suplanta, no momento, a da “expressão pop”.1 Ser ou não ser pop é uma opção que vem à cena constantemente na produção da cultura em suas diversas dimensões. “O forte do candidato é seu currículo ou seu desempenho midiático”? “O pensamento é pop ou ocupa a Casa do Saber”? Richard Hamilton2 foi conhecido como o pai da pop art e Andy Warhol, seu grande divulgador. O caminho aberto é trilhado hoje pela representação do quotidiano com festa, muito brilho, performance e desempenho, visando produzir identidades diferenciadas. Por paradoxal que pareça, o pop caracteriza o produto, seja ele pessoas, coisas ou eventos, pela hibridação, buscando surpresas e espantos. A cultura pop, de um modo geral, é feita a partir de remixes, como Andy Warhol já fazia questão de nos mostrar. A estética pop alcança o Padre Marcelo e sua religiosidade musical, e mesmo Deus pode ser adjetivado por meio da retórica pop que atinge agora a periferia em manchetes e matérias: “Colando os cacos da cidade partida”; 3 “Filho do Deus cristão é ´bady boy` tatuado”;4 “Casa grande senzala & Coleções de Maria Bonita”;5 “Transfavela: a rota proibida que agora cumpre seu papel”;6 “Ao som de hip hop, socialites aplaudem moda de Paula Raia”; 7 “Favelas viram as grandes estrelas”;8 “O Rio é uma suruba étnica”.9 Até o crítico esloveno Slavoj Zizek recebe numa matéria intitulada “Radical pop”,10 o título de Elvis Presley da crítica cultural. O espírito crítico 1

Ver sobre o assunto VELASCO, Tiago. Novas dimensões da cultura pop. Introdução Nizia Villaça. Rio de Janeiro: Luminária / Multifoco, 2011. 2 MARTÍ, Silas. “Richard Hamilton, pai da arte pop, morre aos 89”. In: Folha de S. Paulo, 14 de setembro de 2011, p. A15. Mundo. 3 ROCHA, Carla et. alli. “Colando os cacos da cidade partida”. In: O Globo, 12 de agosto de 2009, p. 12. Rio. 4 BALLOUSSIER, Anna Virgínia. “Filho do Deus cristão é ´bad boy` tatuado. In: Folha de S. Paulo, 9 de outubro de 2011, p. E3. Ilustrada. 5 WHITEMAN, Vivian. “Casa grande senzala & Coleções de Maria Bonita”. In: Folha de S. Paulo. 17 de junho de 2011, p. C7. Cotidiano. 6 GOULART, Gustavo. “Transfavela: a rota proibida que agora cumpre seu papel”. In: O Globo, 15 de novembro de 2010, p. 15. Rio. 7 LEMOS, Nina. “Ao som de hip hop, socialites aplaudem moda de Paula Raia”. In: Folha de S. Paulo. 17 de junho de 2011, p. C7. Cotidiano. 8 GALDO, Rafael. “Favelas viram as grandes estrelas”. In: O Globo, 14 de fevereiro de 2010, p. 18. Rio. 9 SANTOS, Joaquim Ferreira dos. “O Rio é uma suruba étnica”. In: O Globo, 4 de outubro de 2008, p. 3. Segundo Caderno. 10 TOLEDO JR, Joaquim. “Radical pop”. In: Folha de S. Paulo, 15 de maio de 2011, p. 7. Ilustríssima.


torna-se estratégico no meio do bombardeio de notícias sem direito e avesso. O Rio de Janeiro continua lindo, mas o discurso da natureza vai sendo substituído pelo da cultura pop, pela estética do mix que exacerba uma narrativa multifacetada. A coluna de Joaquim Ferreira dos Santos, em O Globo, pode ser considerada emblemática com metafóricos neons de uma nova visão carioca que se delineia a partir da variedade de tipos e casos que a compõem nos mais diversos níveis, do povo à elite, do entretenimento à cultura. A percepção de cada tipologia é um pedaço de um todo que, mesmo esfacelado, cria um espírito, uma alma. Dos restaurantes de luxo caminha-se para uma roda de samba, do Fashion Rio à Feira de São Cristóvão. Modos e modas trocam ideias. Numa coluna social, artistas de rua e anônimos se misturam aos tops da TV e do cinema. Diz o autor que enquanto a crônica é guiada pelo olho do cronista, a coluna é guiada pelas personagens que são carregados de ficção. 11 Já no livro Mixologias: comunicação e o consumo da cultura,12 a estética da espetacularização e da indústria cultural dava a impressão de que quanto mais heterodoxo fosse o mix e mais surpreendente a salada, maior a visibilidade resultante no supermercado do que denominamos Idade Mídia e sua comunicação sem fronteiras, líquida, tão diversa das muralhas e segredos medievais. O projeto sobre “Rio de Janeiro, moda e periferia”, com bolsa recebida da FAPERJ visou refletir sobre a relação mídia/periferia, de forma a sublinhar a importância do aspecto acima pautado levando a temática ao interior da periferia, interrogando sentidos, ações e representações deste espaço articulado com o motocontínuo da moda e do consumo13. As discussões percorreram encontros nacionais e internacionais, ações na comunidade do Terreirão, visitas a outras comunidades, pesquisas na internet, aulas em escolas de segundo grau utilizando vasto material que incluiu os filmes “Sou feia, mas tô na moda” de Denise Garcia; 14 “Sonhos roubados” de Sandra Werneck15 e “5x favela, agora por nós mesmos” de Carlos Diegues. 16 As aulas da 11

LIMA, Eduardo Souza. “Todo o Rio, não apenas um pedaço”. In: O Globo, 6 de julho de 2003, p. 3. Segundo Caderno. 12 VILLAÇA, Nizia. Mixologias: comunicação e o consumo da cultura. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2010. 13 BAUMAN, Zygmunt. 44cartas do mundo líquido moderno; tradução Vera Pereira. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. 14 Sou feia, mas tô na moda. Gênero: Documentário. Tempo de Duração: 61 minutos. Ano de Lançamento (Brasil): 2005. Direção, Roteiro e Produção: Denise Garcia. 15 Sonhos roubados. Gênero: Drama. Tempo de Duração: 85 minutos. Ano de Lançamento (Brasil): 2010. Direção e Produção: Sandra Werneck. 16 5x favela, agora por nós mesmos. Gênero: Drama. Tempo de Duração: 103 minutos. Ano de Lançamento (Brasil): 2010. Produção: Carlos Diegues e Renata Magalhães. Direção: Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos, Luciana Bezerra e Manaíra Carneiro.


pós-graduação sobre o assunto ajudaram bastante a discutir o “politicamente correto” nesta área e os limites de um diálogo franco com a colaboração muito interessante de um mestrando habitante da Cidade Alta e de uma doutoranda atuando nas políticas públicas da Secretaria de Governo do Rio de Janeiro. Concordando com Marteleto17, parto da premissa de que a informação não é em si mesma um instrumento de mediação dos processos de produção e transferência dos saberes. Ela se insere no contexto político das negociações e regulações em torno de significados e sentidos. Nesta linha, analisaremos vasto material levantado sobre a produção e recepção de produtos na periferia, bem como suas negociações com o centro, transações que se tornam sempre mais complexas devido à velocidade midiática que processa a desconstrução da dicotomia. A informação que engendra e estrutura a percepção sobre o tema centro/periferia e a forma como é tratada e disseminada, vem permeada de valores, crenças, normas, interpretações e reflexões que modelam uma forma de pensar e conhecer, como demonstram o registro de vários episódios que se constroem em diálogos com a opinião midiática. Na linha jornalística da narrativa caracterizada pelo mix, é fácil compreender porque a periferia está na moda, como mostra exaustivamente a produção midiática. É feita de improvisações e remakes, e isso a torna influência marcante para a criatividade contemporânea. Uma publicidade disfarçada em narrativa recobre o terreno, transformando a periferia em mercadoria. Criam-se encantos e diferenças periféricas para uso publicitário das empresas urbanas em busca de vitalidade para o consumo. “E o capitalismo criou a publicidade...”.18 Os anúncios e prospectos existem há muito tempo, pois até nas feiras medievais os charlatões já prometiam maravilhas para deslumbrar o cliente. Mas isto nada tem a ver com a publicidade que surge com a revolução industrial na metade do século XIX, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, de forma sistemática e especializada. É a industrialização da arte de vender numa economia de massa, criando a distinção que valoriza o produto. No caso da periferia que nos ocupa é nítida a invasão da linguagem publicitária que vai oscilar entre a voz de seus próprios atores e a da narrativa midiática. O produto é ambíguo e próprio deste espaço fronteiriço. Faz ou não faz parte da cidade? Será assimilado? Formarão uma só cultura e uma só geografia? 17

MARTELETO, Regina M. “Cultura, educação, distribuição social dos bens simbólicos e excedente informacional”. In: Informare. Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, jul/dez. 1995. p. 11-23. 18 MARCUSE, Groupe. De la misère humaine en milieu publicitaire: comment le monde se meurt de notre mode de vie. Paris: La Découverte / Poche, 2010.


A bolsa “Cientista do Nosso Estado” nos permitiu elaborar uma espécie de laboratório para checar caminhos/obstáculos que atravessam o entendimento da comunidade periférica, contribuindo para um desenvolvimento pró-ativo de seus atores sociais e discutindo a cultura como mola propulsora da consciência da criação de processos de solidariedade, ação comunitária, sustentabilidade e não como mero apelo à visibilidade mundial, como parece sugerir a euforia de superficialidade de algumas narrativas de nossa Idade Mídia. Muitos dos conceitos utilizados tanto pela mídia, como por textos acadêmicos e de produção cultural terminam por permanecer no nível do abstrato sem que se estabeleça uma conexão entre a teoria e a prática. Figuram como entidades milagrosas, deixando um vazio cultural ou um deslumbramento da ordem do espetáculo. Eventos culturais acontecem, mas raramente atingimos como público leitor, o tipo de relação processual que permitiu o produto final. Diante disso, o que nos interessa são as estratégias de abordagem e o processo de interação entre pesquisador, grupo social abordado e público em geral, ligando comunicação e cultura. Michel Agier 19 propõe três entradas distintas e convergentes para abordar a cidade: os saberes (a cidade dos antropólogos),

os

espaços

(organização

da

diversidade)

e

os

movimentos

(estabelecimento de novas relações). Evitamos a visão totalizante para viver as situações, o processo que se faz e desfaz, percebendo o que se perde nos espaços da “não-cidade” (desaparecimento do urbanismo de contato),20 mas também o que aí nasce. Frequentemente, como atesta Alfons Martinell Sempere, 21 com algumas exceções, existe certo divórcio entre as políticas culturais e as políticas de comunicação. Isto acontece tanto no tocante aos conteúdos e à dependência administrativa, quanto à implementação de dinâmicas que muitas vezes se opõem. Nossa abordagem pretende afirmar que os fatos e mudanças sociais precedem e deveriam determinar as políticas culturais para a comunicação. Nesta ótica, o diálogo com a periferia, seu entendimento como espaço geográfico e simbólico necessita de maior ênfase em direção ao contexto sócio-político e econômico. Estamos em busca, conforme o projeto apresentado, de uma relação mais dinâmica e intensa entre comunicação e cultura no âmbito das dinâmicas

19

AGIER, Michel. Esquisses d´une anthropologie de la ville: lieux, situations, mouvements. Belgique: Academia Bruylant, 2009. 20 CHOAY, F. Pour une anthropologie de l´espace. Paris: Seuil, 2006. p. 129-151. 21 SEMPERE, Alfons Martinell. “Ibero-América: novas fórmulas de cooperação em cultura e comunicação”. In: Revista Observatório Itaú Cultural / OIC, n. 9, jan/abr. 2010. São Paulo: Itaú Cultural. p. 31-40.


de desenvolvimento, como aponta Martín-Barbero.22 Não se passa por um passo de mágica de uma performance de tipo periférica a espetáculos na mídia nacional e internacional. O trabalho interno de produção cultural e artística precisa solidificar-se em ações solidárias que gerem sustentabilidade para que concomitantemente a comunicação produza efeitos. São fundamentais as três dimensões da comunicação da sustentabilidade: informação, mudança e processo, sendo que este último deve equilibrar os pilares econômico, social e ambiental.23 A centralidade assumida pela mídia nas sociedades obriga o jornalismo e os jornalistas a um compromisso indelegável com o desenvolvimento social e humano. Nossa preocupação a propósito da cobertura das comunidades periféricas pela mídia é o deslocamento da agenda setting das questões ligadas ao desenvolvimento humano, processo de inclusão e exclusão para a narrativa pop de cenas periféricas que não refletem este público, seja como assunto, seja como recepção. No primeiro capítulo “Vivências urbanas: uma aproximação”, apresentamos nosso objetivo e metodologia para a abordagem do tema, tomando por base a complexidade da relação corpo, cidade, identidade e diferença e apontamos um conjunto de disciplinas cujo cruzamento permite pensar a questão social e seus processos de visibilidade, alienação ou apropriação. Tenta-se aí delinear uma metodologia que congregue no esforço de leitura, a epistemologia da comunicação, os estudos culturais e a antropologia do consumo e urbana. Tais disciplinas se cruzarão no enfoque dos capítulos seguintes. No segundo capítulo, contemplamos a relação das políticas públicas dedicadas ao tema e discutimos a concepção de cultura que circula implícita no entendimento do que seja hoje compreendido por estas políticas. Seus interesses parecem privilegiar a questão do reconhecimento da diversidade mais do que as lutas pelos direitos sociais e civis redistribuídos. Traça-se roteiro que explicita o aparecimento e expansão dos novos atores sociais, de sua diversidade a partir do paradigma comunicacional que, segundo Mattelart,24 nasce inspirado pela uniformidade e universalidade, caminhando em direção a importância da diversidade nos processos de mundialização, globalização e novos 22

MARTÍN-BARBERO, Jésus. “La comunicación y la cultura en la cooperación al desarrollo”. In: BUSTAMANTE, E. (Ed.). La cooperación cultura-comunicación en Iberoamérica. Madri: Agencia Española de Cooperación Internacional al Desarrollo, 2007. Disponível em: www.aecid.es/web/es/cooperacion/coop_cultural/documentos/monografias. 23 Ver Guia de Comunicação e Sustentabilidade. Rio de Janeiro: Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável / Câmara Temática de Comunicação e Educação do CEBDS. 24 MATTELART, Armand. A invenção da comunicação; tradução Maria Carvalho. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.


movimentos sociais pós-coloniais. O par identidade e diferença será mobilizador dos processos periféricos, promovendo negociações, resistências e linhas de fugas ao pensamento hegemônico. O terceiro capítulo é dedicado propriamente à questão da favela, sua remoção, urbanização, repaginação, incluindo aí a periferia sulamericana, sobretudo, com a discussão dos conceitos de hibridez e subalternidade. O quarto capítulo é ocupado pela dinâmica corpo, moda e espaço, pensando os processos de subjetivação a partir da importância do simbólico que se soma ao espaço geográfico na dinâmica do capitalismo cognitivo. Em “As duas margens do Rio e a ponte da passarela”, quinto capítulo, analisamos a relação comunicação, identidade e consumo focando os discursos que construíram e constróem nossa cidade entre a paranóia e a maravilha, ambas alimentadas pela publicidade, alternando desejo e medo nos devires urbanos. Enfrentamentos e desfronteirizações desfilam entre centro e periferia, no sexto capítulo, sugestivamente intitulado “Sai da frente que quero passar: enfrentamentos e desfronteirizações”. Exclusões e inclusões traçam coreografias, ganham espaços, criam guetos explicitando os discursos de poder e controle no embate dos níveis sociais e culturais. O sétimo capítulo “Quintal do Mar: a cara do Terreirão” descreve a experi��ncia do contato com a comunidade do Terreirão, tentando perceber algumas de suas características, histórias e dinâmicas, tendo em vista o par campo e cidade que trafega em bicicletas neste lugar polifônico que nos faz crer numa futura inclusão nos espaços da cidade. O “Superpop periférico na Idade Mídia” encerra o volume com comentários e análises sobre a estrutura da comunicação dedicada a favela e a periferia, suas expressões recorrentes, seus álibis, suas generalizações marcadas pelo discurso hiperbólico, da alegria/criatividade e da violência/dor.


A PERIFERIA POP NA IDADE MÍDIA