Page 1

Entre várias indelicadezas, as pessoas citaram falar ao celular no cinema, tocar em assuntos íntimos em locais públicos (filas, elevador), empurrar na entrada ou saída do ônibus, não respeitar a faixa de pedestres ou assentos preferenciais e ouvir palavras de baixo calão de estranhos (recorrente entre as mulheres). 1. Qual é a leitura que a senhora faz desses comportamentos? Isso pode ser considerado como falta de educação? Resposta: As ocorrências enumeradas acima correspondem a maiores e menores desvios do que seria o comportamento próprio de um cidadão que respeita a si e ao próximo. Parece que algumas delas possuem em comum uma exposição indevida de nossa intimidade, como falar alto de assuntos íntimos em lugares públicos e o desejo de aparecer. Outras correspondem ao objetivo de retirar os entraves à execução de seus desejos. O espetáculo do BBB e outros reality shows seriam exemplos emblemáticos da ampliação destas atitudes. 2. A falta de boas maneiras tem alguma relação com o nosso estilo de vida? A vida nas cidades (falta de espaço físico, correria, estresse) contribui para tais atitudes? Resposta: Certamente, o espaço público e a cidade de um modo geral tornam-se hoje assunto constante nas pautas midiáticas onde figuram de formas bastante variadas: das violências infindáveis cometidas por diferentes tipos de agentes, bem como às performances artísticas com as quais se busca restaurar áreas degradadas e criar diferenciais para o consumo. Desfilam-se grifes nas periferias e dissemina-se o funk em lugares anteriormente ocupados por produtos sofisticados. Richard Sennet e outros autores apontam a íntima conexão entre carne e pedra. O alcance dos espaços construídos vai bem além de suas estruturas visíveis na produção de sentido e subjetivação. 3. As pessoas estão confundindo cada vez mais o que é público e o que é privado? Se sim, quais as conseqüências disso? A TV (com os reality shows) e a internet (com as redes sociais), estimulam esse comportamento? Resposta: Na pergunta anterior o espaço público já é introduzido e insinuado simultaneamente um descrétido e uma ressignificação. Podemos falar também de uma substituição da cidade pela tela e os encontros nas esquinas e bares por contatos virtuais. Talvez a violência urbana explique parte desse fenômeno, talvez seja modismo nerd. De qualquer forma, as discussões se acirram em torno da importância dos espaços e dos agentes de mediação. 4. Muitas vezes, se formos analisar, aquilo de que reclamamos é algo que tambémcostumamos fazer. É mais fácil notar os deslizes dos outros do que os próprios, ou as pessoas têm essa noção e simplesmente não se importam? Resposa: É interessante observar que vivemos uma época que tem dado bastante importância aos comportamentos relativos a abusos ligados a bebida, ao incômodo causado pelo fumo, aos riscos de saúde. Sente-se uma certa fome de orientações que os


personal treiners tentam suprir. É estranho que na busca de um estilo de vida com a ajuda destes peritos, não se incluam os deslizes menores que dizem respeito ao próximo, cujo espaço se respeita sempre menos. 5. No caso, por exemplo, da vaga preferencial ou do assento preferencial: Hoje, respeita-se pela consciência de que esse é um direito, ou apenas por obrigação? E o que explica o comportamento de quem deliberadamente não respeita? Resposta: Parece que as normas comportamentais ligadas a uma etiqueta que já vem de longe são desconsideradas. Param o carro na vaga do handicapê ou do idoso, os termos para pedir licença e agradecer perdem a força e a simpatia é engolida pela competição e pelo “salve-se quem puder”. 6. Qual seria a forma de contornar isso? Através da educação em família, na escola, dos órgãos públicos (através de cartilhas de conscientização, por exemplo), ou até mesmo aulas de etiqueta? De quem é a responsabilidade maior? Resposta: São variados os discursos a respeito da educação básica. O problema é que a sociedade contemporânea e sua lógica capitalista envolve pais e filhos no afã de consumir mais e mais e, desta forma, sentirem-se cidadãos participantes, como apontam alguns autores como Canclini em “Cidadãos e consumidores”. Os pais desorientados são frequentemente julgados pelos bens possuídos, dependendo daí sua maior ou menor autoridade. Insegurança geral. 7. Há o famoso raciocínio de que o brasileiro joga lixo no chão, não respeita vaga preferencial ou fila porque tem o mau exemplo de personalidades públicas, como políticos que não respeitam a lei e também trapaceiam. Esse raciocínio faz sentido ou é uma forma de 'tirar o corpo fora'? Resposta: Por falar no poder público, sua responsabilidade no procedimento transgressivo ou mau educado da coletividade é fundamental. Como exemplo podemos citar a ineficiência dos serviços de trânsito e o aleatório de suas intervenções com o implacável castigo do cidadão cumpridor de seus deveres devido a mínimas infrações. Os exemplos de violência do poder público sobre o cidadão são inúmeros e correspondem à falta de educação diária coletiva.. Nizia Villaça: Professora Titular da Escola de Comunicação da UFRJ.

Faltam boas maneiras  

Entrevista cedida a Vanessa Prateano, Jornal Gazeta do Povo (Grupo Paranaense de Comunicação), Seção “Vida e Cidadania” – 27 de fevereiro/20...