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ENTREVISTA CEDIDA A DIEGO VIANA JORNAL VALOR ECONÔMICO 1- Da perspectiva da criação colaborativa, a fronteira entre leitor e escritor se tornou muito mais ambígua. Como se encaixa a crítica nesse universo de limites liquefeitos? Resposta: A criação colaborativa pode adquirir diversos perfis em termos de interação e muitas vezes ela na verdade não funciona como seria, por exemplo, numa oficina de criação e presença. Na criação on line há pseudos colaborações como no caso do livro do Mário Prata, escrito on line, onde o link do leitor levava a etiqueta “Palpite”. Outras vezes, podemos cair num certo samba do crioulo doido. 2- Como a sra. diz, “se o indivíduo não consegue desenvolver mecanismos de coletar e transformar dados e fatos em informação, da nada vale ele ter acesso a miríades de fontes desses dados”. Quer dizer, então, que a enxurrada de textos e opiniões sufoca o (digamos assim) vigor crítico dos leitores, que não buscam mais situar e interpretar aquilo que lhes chega? Resposta: Minha afirmação não diz respeito apenas aos textos de crítica. O processo de comunicação pode emitir apenas sinais, informações e efetivamente comunicar quando implica numa transformação do leitor. 3- A sra. menciona também o fato de que a velocidade das mutações da subjetividade contemporânea pode produzir um “presenteísmo hedonista”, em que os valores constitutivos de uma solidariedade são postos em questão. Certas obras de literatura contemporânea, a sra. indica, refletem isso, como os livros de JG Noll. O que pode a crítica diante dessa perspectiva? Resposta: Não me lembro de haver relacionado com Gilberto Noll a expressão presenteísmo hedonista, mas certa desarticulação minimalista que suprime toda reflexão psicossocial e isto referente a livros como, xxxx do verão e o Hotel Atlântica. 4- Fala-se muito no caráter imediato da leitura digital, nos comentários que se sucedem e se perdem quase instantaneamente e assim por diante. Não faz falta a perspectiva histórica sobre as obras e as leituras? É possível viver sem isso? Resposta: A leitura digital obviamente implica num modo de funcionamento que traz consigo certa superficialidade, rapidez e desmemoria. A complementação do livro impresso seria adequada para manter a perspectiva histórica. Quanto a possibilidade de viver esta com ou sem tal perspectiva dependerá do tipo de leitor e escolha de leitura.


5- Pode-se falar em “crítica amadora” para discussões e postagens online sobre obras literárias, ou mais vale pensar nelas como conversas superficiais e inconsequentes? Resposta: Vivemos uma época em que em diversos campos do saber e do fazer multiplicamse as possibilidades de intervenção. Os jornalistas amadores disto dão exemplo e por que não os críticos. O exercício da expressão estética só pode ser visto como colaboração valiosa. 6- A crítica tem entre suas funções revelar, no interior do texto, aquilo que uma leitura “linear” não mostra, e só alguém com referências e formação teórica pode escavar. Uma vez que um tal crítico é posto de lado, como se chega a esses níveis de leitura? Resposta: A produção da literatura contemporânea tem na questão da crítica um ponto recorrente na sua produção, justamente porque os critérios e padrões estão num de seus momentos de mudança. Os críticos embora não estejam na moda, não sairão da pauta. No contemporâneo parece haver receio de julgar. Não é ............... 7- Outra coisa que o crítico faz, no longo prazo, é estabelecer um cânon: escreve-se muito mais sobre determinadas obras e determinados autores que outros, recomendam-se, debatemse etc. Como se dará o processo de hierarquização das obras na ausência dessa figura? Resposta: Os cânones que estão em crise vão sendo substituídos por processos que supõem votações on line, formações de comissões interdisciplinares etc. 8- Habermas fala do café como um espaço público onde se debatem arte e literatura. Mas esse espaço não é assim tão público. Em todo caso, a crítica que se fazia nos jornais também era pública, mas nem tanto, e assim por diante. Como fica o espaço público de debate hoje, quando nem se frequentam mais cafés, nem se publicam críticas em jornais? Resposta: O conceito de espaço público, obviamente, vem mudando. Se não existem cafés, existem inúmeras salas onde o assunto é discutido. Se as críticas não são frequentes nos jornais, elas crescem em números na Internet. Temos de redefinir o espaço público. 9- Diz-se também que, com o formalismo, o estruturalismo e o derridianismo, a crítica perdeu o poder de avaliar o papel social e histórico dos textos, concentrando-se no texto “enquanto texto”. Pode-se atribuir a isso um certo desencanto com a crítica? Resposta: Me parece que não é obrigatório encarar formalismo, estruturalismo ou derrenialismo, como toda possibilidade de leitura. São métodos sofisticados de visualizar a linguagem, mas permitem que se faça uma outra leitura superposta. 10- Houve um tempo em que o crítico tinha uma grande autoridade, no sentido de que podia “determinar” a sorte de um livro e de um autor com uma crítica somente (Barbara Heliodora, no teatro, pensa até hoje que pode e deve fazer isso). Essa autoridade está morta hoje ou foi deslocada para outro personagem?


Resposta: O tempo do crítico com poder de veto já passou, bem como os excessos da linguagem acadêmica. Hoje o diálogo entre diferentes recepções da crítica é frequente e positivo, evitando sempre que possível a formação de igrejas. É interessante que cada autor busque várias opiniões sobre seu próprio livro. Penso que muito do modismo contemporâneo de termos não correspondem à realidade. 11- O autor sempre dialogou com seu leitor projetado ou suposto. Hoje, é possível ter essa resposta, esse “feedback” instantaneamente, enquanto se escreve. Isso certamente deve impactar a escrita, mas será que não torna o autor refém de opiniões volúveis? Resposta: Certamente o feedback é muito útil para a crônica, onde melhor se exerce a interatividade entre autor e leitor. Não penso que não estivesse no desejo do autor referir-se aos grandes romances do século XIX, mas a narrativas do contemporâneo em que o romance é frequentemente inferior ao conto, muito fragmentário e por vezes apelativo em direção a outros campos do saber. 12- A sra. cita um trecho de JP Cuenca em que ele diz que “a gente faz crônica e conto, mas não tem conteúdo para escrever um romance”. Essa confissão denota, talvez, que a possibilidade de escrever obras grandiosas, universais e complexas como, digamos, os romances de Tolstoi, está definitivamente no passado? Resposta:


A crítica dos comuns (sobre crítica e narrativa contemporânea incluindo as periferias)