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{2colchetes}


a b f m n n

l e x i a p e d r a r u n a m a r i l i p e b r a r i a n a p i e a t á l i a d e l i n a t o r

z t i d

z o l i i n s t t o a d e f i o l r e s

{2colchetes} apropriações do espaço público p a r a f i n s c u l t u r a i s projeto interdisciplinar h i s t ó r i a e s o c i o l o g i a e s c o l a m a i o

c o m u n i t á r i a d e 2 0 1 2


criação | direção | redação | revisão | edição | distribuição todos os possíveis –ãos de uma revista: nós por nós mesmos


SOBRE A LEY DE MURPHY

- uma revista e tudo o que pode dar errado –   a ideia parecia instigante. uma publicação nossa e só nossa. uns papéis em branco dedicados

exclusivamente

ao

desabafo,

às

descobertas, ao acaso, ao que quiséssemos. um pouco de vice, de amarello, de serrote, de modo, de +soma, mas d o s n o s s o s

do nosso jeito. j e i t o s .

em momento algum – e que fique bem claro -, nos enganamos que seria fácil. e, de fato, não foi. os planos eram lindos, mas tendiam à utopia. conseguir arrancar algumas palavras do felipe morozini, nós, uns meros adolescentes de 16, 17 anos?! onde já se viu? trocar mensagens com carlos dias, quêêê?

até

parece.

o

editor

da

efêmero

concreto pedir email pessoal e parabenizar pela para

iniciativa? aham, vai lá. ingressar ao grupo baixo

vocês

tão

achando

que

são

convite centro? quem?

uma revista sem vergonha de suas erratas.


j u s t i f i c a t i v a s revista abrangência total liberdade de formatação de expressão como grupo individualmente divulgação a revista como um espaço público? autonomia de nós com nós mesmo de nós com os outros dos outros em diante exploração visual tema interesse pessoal “use a cidade antes que ela te use” – os gêmeos expansão da visão alheia calma, as coisas não precisam ser do jeito que são um incentivo à curiosidade ao desconhecido tudo o que já rola por aí e você está perdendo respeito à não-definição de nada, à não-conclusão nome colchetes para intervir no texto alheio texto -> revista intervir no alheio -> apropriar-se do público


OS /BAILe sobre como fomos barrados no lançamento de uma revista arte

que -

se

propõe

espaço

a

discutir

público

-

a

relação

cidadão.

AMB. INT. NOITE sinuca,

fotos,

banco

de

estamos

prestes

a

madeira.

entra X. -

começar

o

lançamento. queiram se dirigir à entrada, por favor, para pegar as comandas. os três dirigem-se à entrada. entra /. - documentos. silêncio. - vocês são de menor? - sim. - a casa não aceita de menor. AMB. EXT. NOITE e disseram, por aí, que arte é pública.


um p o r

desabafo

b r u n a

m a r t i n s

como seria bom andar pela cidade e respirar arte. andar pelas ruas e se sentir acolhida por elas. passear pelas calçadas e saber que está usando, participando. existir para ser, criar, mudar, transformar o que está dentro para fora e trazer o de fora para dentro. não ser mais um entre sete bilhões. ser realmente um e n t r e s e t e b i l h õ e s . temos que começar realmente a sentir o que está ao redor. sentir o ar, as paredes. temos que ser da cidade e a cidade tem que ser nossa. de todas as formas possíveis e imagináveis, sem preconceito, sem pensar, só sentir. fazendo um trabalho voluntário, por exemplo, pintando paredes de favelas, como na ong cores pra vida, que faz um maravilhoso trabalho socioambiental, trazendo mais cor e alegria para os moradores de favelas, que são frequentemente marginalizados e esquecidos. até mesmo participando ativamente da cidade a partir de programas como o programa vocacional, administrado pela prefeitura de são paulo, que promove eventos culturais como teatro, dança, música, artes visuais. seja, desfrute, deixe sua marca no mundo, antes que tudo pare.


R O L N I K R A Q U E L

no caso de são paulo, o d e s a f i o d a nossa cultura é ocupar a cidade permanentemente, de forma segura e heterogênea. a arte, com sua capacidade de deslocar sentidos, produz reflexão, r e b e l d i a , t r a n s f o r m a ç ã o . mas essa capacidade de promover mudanças de fato na cultura urbana só é possível se não estiver confinada a um único evento, em um único dia. uma política permanente que abra espaço para a ocupação artística da cidade é que seria de fato uma grande virada cultural.


R A Q U E L R O L N I K

quando a rua vira palco, o transeunte – que não vive a rua, apenas passa por ela – de repente vira ator, protagonista e, portanto, cidadão. por sua vez, a cidade também se transforma: de lugar puramente de circulação e consumo a espaço público, polis. quem já foi gritar n a s r u a s s a b e que a sensação é indescritível: o tempo para, criando uma espécie de vácuo onde tudo é possível. claro, de vez em quando, as buzinas, e/ ou a polícia, nos lembram que aquele era só um momento, que não podia nem devia durar para sempre. e parece que tudo volta ao normal... será?


PEDRINHAS COLORIDAS por mariana piedade


andei. andei muito. puxa, mas como andei pelas ruas de lyon, na frança. fui caminhando com uma missão já em mãos: achar os traços de grafite que descrevessem a cidade; quando, na verdade, deveria ter ido à busca de sabe-se-lá-eu-o-quê. mas tal atitude serviu para provar o que concluí no final daquele dia: não achei grafite algum. chegou uma hora em que sentia falta até dos clássicos xingamentos esculachados... e a única coisa eu que via eram fachadas quase que cem por cento tombadas; intocadas. uma decepção. de início. até que, lá pelas seis da tarde, fui até o metro para retornar ao hotel onde estava hospedada, e lá dentro me deparei com algo incomum aos meus olhos de turista: um grande grupo de pessoas, dentre risadas e mais risadas, terminava de montar um mosaico que formava cenas de filmes e produções clássicas do cinema francês... e bom, não sei se vocês sabem, mas lyon é marcada pelo cinema, graças a usina lumière que foram instaladas na região nos início do século xx. aquilo soou como um estalo, que me fez sentir pela primeira vez o que de fato se tratava o nosso projeto: cultura; um tom de voz único dos moradores de uma cidade. e ela estava lá. em cada pedrinha que iam colando. puxa, não era tinta na parede! eram pedrinhas coloridas! já tinha visto isso por aqui? lá tinha por todos os lugares. depois daquilo, comecei a prestar mais atenção... tinha passado o dia inteiro ignorando milhares de mosaicos pela cidade. sentia como se um cego conseguisse enxergar mais do que eu. vi como havia sido ludibriada pela comum ideia de uma cultura mundial padronizada. e com isso eu digo, meus amigos: acreditem ou não, ainda há barreiras e identidades. amém.


bora o q ue rola de bom por aí. e o q ue você pode fazer pra rolar de bom por aí.

por alexia pedrazzoli, filipe britto e natália del fiol.


CHOQUE CULTURAL pioneira no brasil na integração entre arte urbana, de rua, e o espaço formal das paredes de u m a g a l e r i a d e a r t e . uma nova proposta de galeria. d e d e n t r o p r a f o r a , d e f o r a p r a d e n t r o . os espaços interno e externo n ã o s e c o n t r a p õ e m , m a s s e c o m p l e m e n t a m . a união entre o comerciável, a educação artística e compromisso sociocultural, além das possibilidades de trocas entre o público e os artistas expostos. um verdadeiro espaço de p r o d u ç ã o c u l t u r a l . desde sua fundação em 2003, já se apresentaram mais de duzentos artistas brasileiros e f o r a m t r a z i d o s m a i s d e c i n q u e n t a artistas internacionais.


FESTIVAL BAIXO CENTRO “as ruas são feitas para dançar”. esse é o lema. fora isso, vale tudo. uma organização totalmente independente, f i n a n c i a d a v i a c r o w d f u n d i n g . um movimento colaborativo, horizontal, independente e autogestionado no baixo centro de são paulo. pela ressignificação da região ao redor do minhocão. uma ocupação civil que pretende fissurar, hackear e disputar as ruas. “estão tod@s convidad@s a intervir: com o corpo, a voz, as ideias”.

do dia 23 de março a primeiro de abril, a cidade presenciou mais de cento e vinte e v e n t o s c u l t u r a i s p ú b l i c o s .


VOODOOHOP

uma festa itinerante clandestina pelo centro de são paulo, divulgada quase que exclusivamente pelo boca a boca das redes sociais. todos são convidados, mas só entra quem tem nome na lista. p a g a m e i a q u e m estiver fantasiado, p a g a n a d a q u e m tiver ido de bicicleta. tudo começou em um bar na rua augusta e, hoje, o grupo expandiu sua proposta para construções abandonadas ou quaisquer espaços públicos. mais do que apenas música e bebidas alcoolicas, a festa luta contra o encaretamento da noite paulistana e as recentes leis da moral e dos bons costumes. trata-se, quase, de um movimento de resistência.


MATILHA CULTURAL

um lugar engajado. s o c i a l m e n t e . a m b i e n t a l m e n t e . a r t i s t i c a m e n t e . um incentivo à produção de cultura independente. centro de convergência de i d e i a s e a ç õ e s comunitárias. pela construção de uma sociedade conscientemente livre. composto por galeria, café bistrot, arena e cinema. palco de grandes e pequenos eventos, mostras de produções visuais, shows, estúdio de gravação, exibição de produções c i n e m a t o g r á f i c a s independentes e acesso do público do centro da cidade a festivais e mostras da sétima arte. rua rego freitas, 542. s ã o p a u l o .


SARAU ARTE VIVA em campinas, uma cidade com fama universitária e contestada por falta de opções culturais, surge, no final de 2011, o movimento arte viva, a fim de ser exemplar para i n i c i a t i v a s artísticas em territórios urbanos p ú b l i c o s , n a tentativa de trazer para a cidade novos ares culturais. o movimento, desde então, já organizou sete saraus no c e n t r o d e convivência e vem apresentando, para o público campineiro, o enorme potencial artístico da cidade.


FORA DO EIXO surgiu da tentativa de produzir bandas novas e pouco conhecidas das regiões centrooeste, norte e sul, c r i t i c a n d o o movimento musical concentrado no eixo são paulo – rio de janeiro. atualmente, a rede produtora está presente em 25 estados brasileiros e em outras quatro cidades da américa latina, difundindo n o v a m ú s i c a através de eventos colaborativos e d e u m e n o r m e banco de dados disponível online.


sĂŁo paulo p o r n i n a

trĂŞmula t o r r e s


abre aspas p o r

n i n a

t o r r e s


a r e c e i t a é relativamente simples. três perguntas toscamente amplas e genéricas. total liberdade para resposta. um discreto, mas sincero “obrigada por, no mínimo, ler até aqui” ao final do texto de apresentação. mande para todas os seus ídolos. todos os caras que você aplaude de pé. que inspiram e expiram a vontade de poder ser diferente. não espere muita coisa de volta, o que vier de resposta é lucro. o que não vier, pois bem, acontece. uma reflexão posterior. um colchete. sobre a graça de obter resposta de dois dos mais renomados artistas brasileiros e nem sequer uma palavra de pequenos coletivos ou i n t e r v e n t o r e s i n i c i a n t e s . o que vem primeiro: a fama ou a simpatia?


f e l i p e m o roz i n i a

a r t e

c o m o

c o n s e q u ĂŞ n c i a


felipe morozini precisa falar. cansou de ser moderno. sonha ao sol. pede um mundo por vez e, o q u e s e n t e , sente grande. basta procurar por seu nome por aí e verás quanto é o sujeito. fotógrafo, designer, decorador, i n t e r v e n t o r , sonhador, criador. colaborou com meio mundo por aí e não há quem se dedique às artes brasileiras e não o cite como exemplo. de fato, é tanta coisa que já foi feita que escolher amostras de seu trabalho não é nada simples. tão distintos entre si e tão geniais.


jardim

suspenso

da

babilônia.

de todos suas contribuições a são paulo, a mais premiada foi quase impedida pela polícia. na tentativa de resignificar o que é, por muitos, considerado o maior erro urbanístico da cidade, morozini transformou, num domingo de manhã, junto com um grupo de amigos, o famoso minhocão num jardim.


fora isso, cenas urbanas curiosíssimas são fotografas d a s a c a d a d e s e u apartamento, e m p l e n a a v e n i d a s ã o j o ã o . u m l u g a r a o s o l . rostos famosos e não-famosos com reflexo da c i d a d e d e são paulo. d r e a m e r s . f r a s e s c u r i o s a s espalhadas pelos tantos c a n t o s d a c i d a d e . eu preciso f a l a r .


o que te faz intervir no espaço urbano? a vontade de dialogar com a cidade, f a z e r p a r t e d e u m t o d o . como você avalia d a s g r a n d e infelizmente ele é políticas públicas. em detrimento de

o espaço público s c i d a d e s ? pouco explorado por priorizam-se prédios praças e parques.

a té q u e p o n to a a r te p o d e i n te r v i r n o c o t i d i a n o u r b a n o ? ela tem que ser real. honesta. tem que nascer de uma vontade legítima de dialogar com a cidade, sem pretensão de fazer arte.


e f e m e r o c o n c r e t o um olho para questões urbanas outro para questões artísticas


oi, nina. tudo bem? meu nome é thiago rosenberg e sou o editor da revista efêmero concreto. r e c e b i s u a s perguntas. aí vão as respostas. boa sorte com o seu projeto e bem-vinda ao mundo do jornalismo! e mande uma cópia da sua revista pra g e n t e , h e i n ! e

assim

foi.

efêmero concreto, a tal revista que se propõe a discutir a relação arte espaço público - c i d a d ã o . tudo bem, tudo bem. e s t ã o m a i s que perdoados. d e v e r d a d e , o b r i g a d a .


o que faz vocês intervirem no espaço urbano? nós não intervimos diretamente no espaço urbano. quando muito, agimos como catalisadores, entrando em contato com determinados artistas e oferecendo algum suporte para que eles realizem suas próprias intervenções – que, por sua vez, dão origem às reportagens publicadas na seção “em obras” da revista. não atuamos, portanto, como um coletivo artístico: nossa meta principal é – tendo um olho voltado para as questões urbanas e outro para as questões da arte – pensar a cidade, propor discussões, gerar debates e narrar histórias que nos ajudem a entender o que é – ou o que poderia ser – esse espaço urbano.


sim, transformar a cidade também é um objetivo, mas, antes de apostar numa transformação – por mais urgente que ela seja –, precisamos compreender a fundo aquilo que queremos modificar. como você avalia o espaço público d a s g r.   a n d e s c i d a d e s ? é cada vez mais complicado, ainda mais nas grandes cidades, distinguir o que é público e o que é privado. e, além do mais, cada cidade tem suas especificidades. então acredito que não exista uma resposta precisa para essa pergunta – se é que existe uma resposta precisa para qualquer pergunta! em todo caso, somos uns curiosos, e não uns especialistas, em relação aos temas tratados pela efêmero concreto. em vez de avaliar, produzimos a revista. quem sabe um dia ela sirva de base para alguma a v a l i a ç ã o n e s s e s e n t i d o . até q ue ponto a arte pode inter vir n o c o t i d i a n o u r b a n o ? talvez seja melhor perguntar até que ponto determinada cidade está disposta a se deixar intervir pela arte. não vamos jogar toda essa responsabilidade apenas nas costas da arte, não é mesmo? ela é capaz – até que ponto, não sabemos – de intervir no cotidiano urbano, mas cabe sobretudo às pessoas a tarefa de modificar o seu dia a dia. um livro pode transformar a cabeça de muita gente. mas, para que isso ocorra, essa gente deve, antes, s e d i s p o r a a b r i r o l i v r o .


c a r lo s d e s c u l p a ,

f u g i

d o

dias

a s s u n t o !


tudo começou com uma parede amarela. papéis e mais papéis e cadernos e coisas. tudo meio rabiscado, meio colado sem jeito, lado a lado, metros após metros. autor da obra: carlos dias. foi meu primeiro estalo de que as coisas poderiam ser diferentes. carlinhos, desde então, tornou-se minha referência e inspiração constante. com o tempo, descobri sua importância nacional. de fato, é um dos mais renomados n o m e s d a a r t e r u a , a r t e s u j a , contemporânea, pop, barulhenta. uma arte ao seu alcance, “que qualquer pessoa possa sentir, mesmo antes de precisar entender”. um verdadeiro mito do rolê artístico brasileiro. todos, de alguma maneira, o conhecem. todos, de alguma maneira, o admiram.

carlinhos, sua não-resposta a tempo, incrivelmente, me fez admirá-lo ainda mais. juro.


oi nina , tudo bem? vou responder sim-muito legal o seu interesse! claro que li ate o fim! hahaha essa semana respondo com calma suas perguntas ta?? por eqto cai olhando meu flickr-ta tudo misturado entre as coisas que faco e gosto! http://www.flickr.com/photos/ aoseualcance/ tao separadas aqui as perguntas e te respondo logo! so nao da pra para agora ness momento! abs olha so, vendo suas fotos vi algumas coisas de fotografia analogica...da uma olhada na pagoian da minha mae ( dsclpa fugi do assunto !!) https://www.facebook.com/ namarthalab até o encerramento desta edição, o artista não voltou a se manifestar.


Debates em estĂŠtica urbana com pedro britto | por filipe britto


pedro britto

é formado em arquitetura na usp - são carlos e hoje, com 47 anos, leciona na ufba (universidade federal da bahia, em salvador), onde se envolveu na criação e desenvolvimento do corpocidade, projeto fruto da união entre os núcleos acadêmicos de dança e arquitetura da capital baiana. em 2008, participou do kocainn, projeto do corpocidade em território alemão, e, desde então, tem atuado em várias intervenções urbanas relativas ao evento, que ocorre anualmente em salvador ou no rio de janeiro.


o que é o corpocidade e como surgiu? corpocidade é uma plataforma de estudos acadêmicos sobre questões relativas ao urbanismo e às políticas públicas que são interferentes com a escala do corpo. muitos autores vêm estabelecendo esta escala de estudo como cada vez mais importante no mundo contemporâneo, porque trata de aspectos do cotidiano e da pessoa, diferentemente dos planejamentos urbanos que tratam da produção do lucro e da especulação imobiliária, por exemplo. cidades têm sido projetadas e planejadas cada vez mais para as empresas lucrativas e para os carros, em detrimento das ações culturais e sociais, que são aquelas onde mais aparece o corpo e a pessoa. ele - o corpocidade - surgiu pela associação de duas pesquisadoras, fabiana britto, da área da dança, e paola berenstein, da área do urbanismo, que vinham já pesquisando isoladamente as relações do corpo e da cidade sob estes aspectos, do urbanismo e da arte pública. descobriram uma grande complementaridade e afinidade que vem rendendo diversos campos de estudo e trabalho no brasil e fora dele, justamente a partir da ideia de corpocidade.


o que foi o kocainn e como foi sua experiência na alemanha? o kocainn foi um desdobramento do primeiro corpocidade (2008), quando estiveram em salvador seis estudantes de pós-graduação em arte-pública, alunos da tradicional escola de arquitetura e urbanismo bauhaus, localizada na alemanha. na ocasião, houve uma ótima interação entre estes e o grupo de estudantes brasileiros que estava organizando o corpocidade, e fez sentido a ideia de montarmos um projeto de continuidade desta interação em solo alemão. a experiência consistiu na ocupação de um pequeno quiosque de arte contemporânea - uma estrutura parecida com a de uma banca de jornal, localizada num cruzamento central da cidade de weimar (que é onde está a sede da bauhaus). nós construímos com andaimes e materiais reciclados duas edificações em torno do quiosque e nos propomos a estabelecer ali um centro de convivência ininterrupta por 24 dias, 24 horas/dia. era um espaço aberto para ações públicas as mais variadas: aconteceram aulas abertas, exposições, festas, apresentações de grupos de música e dança, projeção de filmes, experiências culinárias, show de mágica, feiras de trocas físicas e virtuais... enfim, qualquer um poderia propor alguma ação ou evento para acontecer ali. nós, do grupo organizador, tínhamos uma escala de plantão, mantendo sempre no mínimo duas pessoas permanentemente na instalação. também era um lugar para simplesmente você ir tomar um café, jogar um xadrez ou um baralho, deitar numa rede e ler alguma coisa, escutar uma música brasileira. foi uma experiência incrível de ocupação do espaço público e uma demonstração maravilhosa da civilidade das pessoas daquela cidade. também foi um trabalho que integrou a mostra comemorativa dos 70 anos de existência da bauhaus e que se desdobrou em livros e estudos acadêmicos de urbanismo e de arte pública.


cite uma intervenção urbana que te chamou a atenção e comente sobre ela. no corpocidade 1 (já houve três) teve uma que eu achei linda, que consistiu em colocar um gigantesco varal de roupas sobre o famoso dique do tororó, localizado em uma área bem urbana de salvador. esta intervenção foi proposta pelo artista luciano cuquinha e ele já fez isso em diversos lugares, como a avenida paulista, por exemplo. no caso do tororó foi particularmente interessante por várias razões: ficou lindo; aquelas águas eram tradicionalmente o lugar de trabalho das lavadeiras e isso gerou muitas remiscências por aqui; criou uma série de problemas com órgãos públicos que me rendeu uma odisséia burocrática para resolver e também um artigo acadêmico que publiquei num congresso sobre espaço público (posso mandar depois se quiserem); foi um prazer enorme conhecer e trabalhar com o cuquinha, e muitas histórias mais dos desdobramentos daquilo.


qual é, para você, a importância de uma intervenção artística no espaço público? como arquiteto, urbanista, professor e pessoa interessada em arte contemporânea, é importante este tipo de manifestação, sobretudo por questionar a noção de espaço público num momento em que este está sendo sistematicamente diminuído, atacado e sublimado da experiência urbana impossível não considerar brasileira. mas a arte também acontece a serviço dos que atacam o espaço e é um perigo achar que ela referendará qualquer tipo de ideologia e prática. muitas intervenções acontecem de uma forma que interfere acintosamente na vida das pessoas e é bem desagradável isso. outras nos obrigam a tomar uma posição sobre elas, e isso também é desagradável, pois cada um deve ter preservado o seu direito de querer ou não interagir com o que acontece. eu, particularmente, gosto daquelas mais sutis e menos convocatórias à posicionamentos ou interações, como as que o grupo poro desenvolve a partir de belo horizonte.


até que ponto pode-se intervir no cotidiano urbano e no espaço público? já ocorreu algum conflito ou desentendimento em alguma intervenção? esta é uma questão que envolve muitas considerações para tentar ser completamente respondida, e vou começar a responder levantando também outras perguntas: que formas sobram para intervirmos no espaço público se ele é privatizado, policiado, vigiado por câmeras, cheio de normas de conduta e restrições? a quem pertence este espaço e para que ele serve? se a arte não for para as ruas e encontrar as pessoas comuns o que sobrará para ela de espaço experimental? as galerias frequentadas pela elite? os museus caindo aos pedaços e cheios de velharias? bem, se o espaço é público ele é um espaço político e é nele que a arte deve comparecer porque ela também é uma ação política, importante para formação da cidadania e a noção de pertencimento de um povo. muitas intervenções jogam com a graça e a ironia de forma a questionar várias relações do espaço, desvelando para as pessoas outros modos de vida, outras formas de existência e suscitando emoções as vezes realmente comoventes. o monumento ou a estátua também são intervenções públicas e remetem outros significados considerados importantes para a vida citadina, como patriotismo, civismo, lembrança de fatos ou


personagens históricos, então a arte pública está relacionada com isso, com a construção da memória e cultura de um povo, e a cidade é o principal lugar para isso. quanto aos conflitos, é claro que sim, muitos já ocorreram, principalmente quando os artistas julgam algum lugar ou grupo de pessoas equivocadamente e executam alguma ação que vai contra algum princípio ou significado pré-estabelecido, criando uma situação de grande inconformidade e contrariedade. outro conflito comum é com relação às estruturas de vigilância e poder, que sempre procuram inibir manifestações públicas em geral e artísticas em particular. o espaço público é o espaço da disputa na cidade, disputa inclusive pelo próprio espaço, e por isso o conflito é inerente a ele. acho que um dos papeis da intervenção é justamente preservar esta característica do espaço público, porque o espaço que é todo normatizado e controlado é um espaço morto, sem vida pública, sem criação e, claro, sem arte nenhuma.


vistas por

filipe

britto

e

nina

torres


18:37 p o r

n i n a

t o r r e s

semáforo vermelho. olho para um lado, olho para outro. abro a janela e estufo o peito: aaah, são paulo! desvio o olhar pra esquerda. “vida sem saída”. e s t á v a m o s t o d o s . jovem, não mais que 34 anos, batom vermelho na mão e olhar aflito no retrovisor. espremia os lábios compulsivamente, vasculhava a bolsa, olhava pra fora, olhava pra dentro. pegava o celular e discava. seria o namorado, a melhor amiga? a melhor amiga, com certeza. xingava qualquer coisa, esboçava algumas quase-lágrimas, nervosa como quem se preparasse pro primeiro encontro. isso, devia estar atrasada pro p r i m e i r o e n c o n t r o .


rapaz cheiroso, honda civic, pinta de galã, batucava no volante o hit do rádio. ensaiava um sorriso assim, querendo ser natural, mas só querendo. olhava pra cima, verificava as horas, tentava algum contato com a jovem do batom vermelho, aumentava o som. senhor em seus oitenta, numa brasília quem sabe um dia amarela, olhos cansados, pele delicada e expressão sincera. fumante loira compulsiva, primeira bituca, segunda bituca, terceira bituca. jogava-as pela janela na tentativa do vento levar mágoas e o chocolate no banco do passageiro trazer dias melhores. no asfalto, menino franzino empurrava o trabalho do dia. uns cinquenta quilos em alumínios e uns cinquenta quilos em carne e osso. na calçada, dois judeus de passos sincronizados e cabeças baixas. mais à frente, alguma fila no cachorro-quente. a mulher gorda dava um tapinha nas costas do empresário de espinhas e aparelho nos dentes e comentava sobre o resultado do corinthians x palmeiras da noite anterior. “que golaço, hein?”. “ôô!”, retrucava o dono da banca de jornal. olho para um lado, olho para outro. estufo o peito: aaah, são paulo! fito o semáforo pela enésima vez: vermelho.


Agenda Cultural  

semana de ciências sociais da usp “saber(es) em questão: as relações entre produção de conhecimento, poder e política" de vinte e oito de maio a p r i m e i r o d e j u n h o t e c , d e f i e c h u até dezesseis de junho n a c h o q u e c u l t u r a l festa junina no minhocão “alguém pode imaginar uma festa junina mais paulistana do que um arraial no minhocão?” p r i m e i r o d e j u l h o organização por baixo centro

   



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