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AUTÓMATO vivo A vida, um artefacto natural

Exposição e textos

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AUTĂ“MATO vivo A vida, um artefacto natural

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Curadoria Manuel Valente Alves Adelino Cardoso

22 DE NOVEMBRO DE 2014 A 27 DE FEVEREIRO DE 2015


Índice

EXPOSIÇÃO Plano da exposição 8 Natureza, corpo, vida, artifício 11 Adelino Cardoso, Manuel Valente Alves

TEXTOS Materialidades naturais e saberes médicos 45 Manuel Silvério Marques Automaton, or the human dream on life and freedom 51 Guido Giglioni The invention of the concept of “organism” 59 François Duchesneau Os Monstros e a Criatividade da Natureza 65 Palmira Fontes da Costa O humano e o pós-humano: a última fronteira 71 Viriato Soromenho-Marques

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EXPOSIÇ ÃO


Desenho de vista ampliada de um piolho, composição feita a partir da ilustração do livro Micrografia (1665) de Robert Hooke. Scheme XXXV


Na transição do século XVII ao XVIII, há toda uma corrente médico­­-filosófica que concebe o organismo como uma máquina apta a executar por si, mecânica e automaticamente, o conjunto das operações vitais. Tal concepção, inspirada no funcionamento dos “autómatos espirituais”, revelou-se profundamente inovadora, mas não isenta de problemas. A Exposição “O Autómato vivo” visa aprofundar a fecundidade e as dificuldades intrínsecas à noção de vida como o mais belo dos artifícios, cruzando conceitos-chave da filosofia natural dessa época com uma selecção de objectos tecno-científicos e peças de zoologia, mineralogia e botânica do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa. A estas peças juntam-se uma escultura em mármore, duas obras de arte fotográficas e uma instalação de bioarte, com o objectivo de promover a reflexão crítica em torno de novos desenvolvimentos da temática na era da informatização do corpo.


Plano da exposição – Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa Sala Branca Edmée Marques

1. Exemplares de zoologia: aves, mamíferos, répteis, peixes, borboletas e insectos, com dimensões variáveis, col. MUNHAC– Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa. 2. Exemplares de botânica: raízes, folhas e caules apresentados em frascos, com dimensões variáveis, col. MUNHAC– Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa. 3. Exemplares de mineralogia: rochas, fósseis e modelos, com dimensões variáveis, col. MUNHAC – Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa. 4. Instrumentos técnico-científicos (século XIX): microscópio, balança de precisão, ampulheta, telescópio e alambique, com dimensões variáveis, col. MUNHAC– Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa. 5. Objectos de design gráfico concebidos para a exposição: nove telas impressas com desenhos de Robert Hooke, retiradas do livro Micrographia (1665) e textos dos curadores, com as dimensões 416 x 380 cm (1x), 285x150 cm (1x) e 380 x150 cm (7x). 6. Obras de arte: a) Ícaro (1987), escultura em mármore de José Esteves, com as dimensões 200 x 50 cm, col. privada; b) Caminhar #1 e #2, duas fotografias de Manuel Valente Alves (2001), com as dimensões 118x118 cm cada, col. do autor; c) Retrato Proteico (2002), instalação de bioarte de Marta de Menezes, com dimensões variáveis, col. MEIAC– Museo Extremeño e Iberamericano de Arte Contemporâneo, Badajoz.

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Exemplar de Crenilabrus melops (Linnaeus, 1758) [actualmente válido como Symphodus melops, da família Labridae], capturado na costa de Viana do Castelo em 1908. Bodião-vulgar. Col. de Peixes do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa

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Natureza, corpo, vida, artifício Adelino Cardoso Manuel Valente Alves Juntamente com o Colóquio Internacional “Natureza, Medicina e Sensibilidade Moderna”, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian nos dias 19 a 21 de Novembro de 2014, a exposição “O autómato vivo. A vida, um artifício natural?”, culmina as múltiplas iniciativas empreendidas no âmbito do projecto de investigação “O conceito de natureza no pensamento médico-filosófico na transição do século XVII ao XVIII”, financiado pela Fundação para a Ciência e para a Tecnologia. Esta exposição visa aprofundar a fecundidade e as dificuldades intrínsecas à noção de vida como o mais belo dos artifícios, cruzando conceitos-chave da filosofia natural dos séculos XVII e XVIII com uma selecção de objectos tecno-científicos e peças de zoologia, mineralogia e botânica do Museu Nacional de História Natural e da Ciência. A estas peças juntam-se uma escultura em mármore, Ícaro (1987) de José Esteves, duas obras de arte fotográficas, da série Caminhar (2001) de Manuel Valente Alves, e uma instalação de bioarte, Retrato Proteico (2002) de Marta de Menezes, com o objectivo de criar um espaço de reflexão crítica em torno de novos desenvolvimentos da temática na era da informatização do corpo. A investigação da natureza (physis) está no cerne do modelo de racionalidade instaurado pelos filósofos, astrónomos, matemáticos e médicos gregos, a partir do século VI a. C. Pela sua abrangência, o conceito de natureza revela-se altamente complexo, designando

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simultaneamente a ordem invariável do cosmos e o princípio de geração e desenvolvimento das coisas singulares. A vida surgiu às mais representativas escolas gregas como o modelo da ordem natural devido à regularidade dos processos biológicos e à espontaneidade e finalidade intrínseca dos actos vitais. O naturalismo do renascimento, no século XVI, realçou esta tendência, em especial exaltando a perfeição, beleza e proporção do corpo humano, que é assumido como a expressão suprema do universo, do qual é arquétipo e símbolo. Isso está muito patente na obra inaugural da medicina moderna, De humani corporis fabrica (1543), de Andreas Vesálio, onde a natureza é concebida como produção do artista supremo (summus opifex), sendo a sua obra mais admirável o corpo humano, frequentemente designado como artifício (artificium), quer dizer, o produto de uma arte. Por exemplo, a “estrutura admirável do ouvido” é comparada com os instrumentos musicais, para evidenciar que as produções naturais são muito mais finamente trabalhadas do que aquelas que são produzidas pela arte humana. É interessante ver que este monumento da ciência moderna é também uma obra de arte. De facto as suas magníficas ilustrações, atribuídas ao pintor Jan van Calcar, são representadas com base em modelos artísticos – a Vénus de Milo esventrada, o Doríforo de Policleto esfolado, os esqueletos em pose viva, as paisagens arcadianas que lhes servem de fundo – que lhes conferem uma surpreendente expressividade. Mas não esqueçamos que no final do século XV, cerca de meio século antes de Vesálio publicar a sua obra-prima, um artista, Leonardo da Vinci, antecipava muito do que, do ponto de vista científico, iria acontecer nos séculos seguintes. Com efeito, Leonardo foi o verdadeiro fundador da cultura visual da Medicina. Ele revolucionou os modos de ver a natureza e o corpo humano, quer do seu interior (dissecado) quer do seu exterior (vivo), desenhando planos sequenciais do corpo estático

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Desenho de vista ampliada de aglomerados de pequenas estrelas descobertos pelo telescópio, ilustração do livro Micrografia (1665) de Robert Hooke. Scheme XXXVIII

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e do corpo em movimento de um modo absolutamente inédito, com uma verosimilhança, um sentido de rigor e expressão nunca antes vistos. Muito antes da Revolução Científica e do aparecimento do mecanicismo, Leonardo deu-se conta, através da observação e da experimentação, da verdadeira mecânica da natureza, abordando-a em todas as suas dimensões: estática, cinemática e dinâmica. Os seus desenhos científicos, libertos de alegorias e outras estratégias ligadas à representação artística, levaram-no a criar obras de arte únicas e a descobrir e a inventar, por analogia com a natureza, um grande número de mecanismos, verdadeiros prodígios da engenharia, que anunciam o futuro tecnológico: pontes móveis, guindastes, máquinas voadoras... Na transição do século XVII ao XVIII, a natureza reforça a sua função explicativa, em parte graças às novas tecnologias – como o microscópio, que permite ver a estrutura ínfima e complexa dos organismos, o universo micro, e o telescópio, que permite observar as estrelas e os planetas, a orgânica do universo. No entanto, a potência de agir da natureza torna-se objecto de controvérsia. Na sua versão hegemónica, o mecanicismo, a natureza é investida de um suplemento de ordem e regularidade: ela é um mecanismo perfeito, mas sem espontaneidade e dinamismo intrínseco. No entanto, a explicação mecanicista revela-se insuficiente, nomeadamente para explicar os fenómenos próprios da vida. Um organismo vivo pode ser inteiramente reduzido a um simples mecanismo? É um mecanismo especial? É uma estrutura original, distinta de todo e qualquer mecanismo? Foi principalmente no âmbito da medicina que o debate entre mecanicismo e vitalismo assumiu maiores proporções. De facto, considerada sob o ponto de vista médico, a natureza revela-se mais complexa, variável e contingente do que num plano estritamente mecânico. A descoberta da célula, em 1838, e os progressos ulteriores das ciências biológicas, nomeadamente com o desenvolvimento da medicina

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experimental por Claude Bernard e a descoberta do mecanismo de selecção natural por Darwin, já na segunda metade desse século, encontraram respostas para muitas questões altamente intrigantes, mas, ao fazê-lo, não deixaram de suscitar novas perplexidades. A descoberta da estrutura em hélice das moléculas do ADN em 1953 e o aparecimento da medicina molecular, da engenharia genética, da clonagem humana e da sequenciação do genoma humano, iniciada em 1990 e concluída em 2007, lançaram novos desafios que põem em causa o conceito de humano, ao ampliarem a capacidade de transformar o corpo. Com o aparecimento da engenharia biológica, “o homem transforma-se em objecto directo, tanto como em sujeito da mestria da engenharia”, nos termos de Hans Jonas. Tal representa uma ruptura metafísica com consequências impossíveis de determinar, que por seu turno levanta uma nova questão: a oposição entre reversibilidade e irreversibilidade. Enquanto na construção mecânica tudo é reversível (os erros podem corrigir-se facilmente), na engenharia biológica as suas acções são irreversíveis. Como adverte Jonas, a ciência e a técnica, ao aumentarem o poder do homem sobre a natureza, também aumentam “o poder do homem sobre o próprio homem, como a sujeição dos homens ao poder de outros homens, para já não falar da sua sujeição comum aos desejos e dependências criados pela tecnologia”.

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Desenho de vista ampliada de uma pulga, ilustração do livro Micrografia (1665) de Robert Hooke. Scheme XXXIV

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Autómato Até ao século XVII, o pensamento médico-filosófico considerava a vida como o resultado da actividade da alma, que tinha a função básica de animar o corpo. No Tratado do Homem (1662), Descartes rompe com esta tradição, inaugurando uma nova forma de conceber o ser vivo e em especial o homem como uma máquina apta a executar por si, mecânica e automaticamente, o conjunto das operações vitais, nomeadamente mover-se, respirar, alimentar-se, reproduzir-se. Ora, se a compreensão do vivo como uma máquina natural resolve um problema, ao prescindir da alma como princípio das operações vitais, cria vários outros: um autómato vivo é um tipo especial de máquina? Como é que se distingue uma máquina natural de uma máquina produzida pelo homem? Que problemas levanta um corpo que é hoje, simultaneamente, sujeito e objecto directo da engenharia biológica?

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Desenho de vista de uma alga, ilustração do livro Micrografia (1665) de Robert Hooke. Scheme IX

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Singularidades Ordem e regularidade são indícios muito fortes de que um determinado fenómeno é natural. Todavia, os fenómenos e inclusive os seres raros e singulares, como os monstros e prodígios, são um dado incontornável e que faz pensar. Qual a sua relação com a natureza? São criações da própria natureza ou anomalias que desafiam a ordem universal? A questão do insólito foi tratada a várias vozes e em diferentes tons: a posição assumida pelos autores que versaram sobre o tema evidencia estratégias de olhar contrastantes. O aspecto mais relevante da filosofia natural dos séculos XVII e XVIII reside, porventura, no esforço de integrar as aparentes deformidades no seio de uma natureza uniforme nos seus princípios e vária nos seus efeitos. As práticas eugénicas dos séculos XIX e XX e, mais recentemente, os desenvolvimentos da genómica e da engenharia molecular vêm pôr em causa todo esse esforço, ao reduzir a margem de variação e contingência da formação e desenvolvimento dos indivíduos.

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Desenho de vista ampliada de uma alga, ilustração do livro Micrografia (1665) de Robert Hooke. Scheme IX

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Arte Até finais do século XVIII, a medicina apresenta-se como uma arte de aperfeiçoar o corpo humano, restabelecendo a boa harmonia entre os vários elementos que o constituem. A função própria do médico seria a de um auxiliar da natureza, sem qualquer pretensão de domínio sobre ela. Não obstante, o acto médico não deixou nunca de implicar, em maior ou menor escala, a manipulação da natureza e do corpo humano. O desenvolvimento técnico-científico e a filosofia natural dos séculos XVII e XVIII ampliam e legitimam a capacidade de transformar o corpo e, no limite, modificar “as componentes mais elementares e biofísicas da nossa identidade”, como bem diz Viriato Soromenho Marques. Trata-se de aperfeiçoar o humano, respeitando as tradicionais fronteiras entre a natureza e a cultura, de fundir a cultura e a natureza, como sugere a instalação artística Retrato Proteico (2007), ou de o desnaturar, como sugere o conceito de pós-humanidade? As potencialidades abertas pela engenharia genética e pela biologia sintética nas últimas décadas permitem criar novas formas identitárias para o ser humano, que reforçam a acuidade dos problemas éticos em jogo.

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Desenho de vista ampliada de mofo azul, ilustração do livro Micrografia (1665) de Robert Hooke. Scheme XII

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Natureza O conceito de natureza (physis) é fundador do modelo de racionalidade inaugurado pelos Gregos. Natural designa aquilo que ocorre intrínseca e ordenadamente, fugindo à imposição do destino e ao arbítrio dos deuses. Daí que natural seja frequentemente tomado como sinónimo de inteligível, aquilo que pode ser explicado sem apelo ao sobrenatural. A fórmula de Francisco Sanches, filósofo e médico português do século XVI, “Vou seguir a mera natureza com a razão” condensa todo o programa da racionalidade moderna, assente na relevância concedida à natureza como guia do pensamento e da acção. No entanto, o corpo que se move contra a corrente de um curso de água, das fotografias artísticas da série Caminhar  (2001), parece querer contrariar a sua natureza, seguir um sentido anti-natural. Para surpresa dos espíritos mais geométricos, quanto mais se descobrem os segredos da natureza, mais ela se revela complexa, fina, subtil e mesmo paradoxal, disponível para as mais variadas ligações, mesmo aparentemente anti-naturais.

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Desenho de vista ampliada de faíscas em sílex, ilustração do livro Micrografia (1665) de Robert Hooke. Scheme VII

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Simples – Composto Na transição do século XVII ao XVIII, filósofos e médicos dividem-se a respeito da constituição do corpo humano. Para a tradição, que continuava a vigorar nas Universidades, o corpo era uma mistura bem proporcionada dos quatro humores: sangue, linfa, bílis negra e bílis amarela. Tal explicação enfrenta doravante a oposição daqueles que assumem que o corpo é formado por elementos homogéneos, de cuja composição resulta o todo. H. Boerhaave, o mais influente professor de Medicina da primeira metade do século XVIII, empenha-se na procura dessas “partículas ínfimas, muito semelhantes”. Trata-se de um programa de investigação de que resultará, no século XIX, a descoberta da célula. O princípio que comanda este programa é o de que há tanta ordem na parte como no todo: isomorfismo da parte e do todo, salvaguardadas as devidas proporções. A célula é um organismo? E que dizer de uma simples proteína?

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Desenho de vista ampliada de uma pedra de Kettering em Northampton-Shire, e de poros de corpos inanimados, ilustração do livro Micrografia (1665) de Robert Hooke. Scheme IX

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Organismo A noção de organismo é, hoje, muito precisa do ponto de vista biológico, exprimindo a unidade de um ser vivo apto a desempenhar as funções que são próprias da sua espécie. Ao mesmo tempo, o organismo é uma das grandes metáforas, cujo uso abrange os mais diversos campos. Ora, o que se revela extremamente interessante é que, na sua génese, o termo organismo tem o significado geral de uma certa modalidade de organização, como está patente naquela que é talvez a primeira ocorrência do termo, num escrito de Leibniz (1686): “A relação geral e exacta das coisas prova que todas as partes da matéria estão cheias de organismo”. A visão da natureza pela perspectiva do organismo envolve questões que não deixaram de nos inquietar: um organismo pode existir isoladamente? O que faz a sua identidade: um modo peculiar de organização, uma biografia singular?

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TEX TOS


Desenho macroscópico de planta, ilustração do livro Anatome Plantarum ... (1675) de Marcello Malpighi. Tab. I

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Materialidades naturais e saberes médicos Manuel Silvério Marques Se conseguíssemos viajar até ao século XVII, os acontecimentos e as novidades, à escala macro, meso ou microcósmica, não cessariam de provocar a maior incredulidade e justificar todo o espanto: consumados os descobrimentos ibéricos de velhos e “novos mundos”, após a Reforma de Lutero (1483‑1546), com o ocaso do século de ouro Espanhol, a imprensa dava, a todos e em vernáculo, uma bíblia nova e um veículo de disseminação de descobertas e de ideias – outros mundos –, forjavam-se a banca, os seguros e a “revolução científica”, estabeleciam-se os Impérios Marítimos holandês e britânico, e impunha-se a cosmovisão setentrional, newtoniana, utilitária, selfish, tendencialmente progressista, tolerante, e secular. Mutação comparável, no mesmo planeta mas noutro “universo”, ao ritmo frenético que nos rouba os dias, nas áreas das tecnologias de informação, dos materiais e do controlo remoto (e que permite a aportagem, num dia de Agosto de 2014, de um veículo robotizado a um pequeno cometa). Também naquela época, nos paços, casas e “armazéns” de “amadores” e mecenas, nas Universidades, nas Academias, nos clubes – um Galileu (1564-1642), um Sir William Harvey (1578-1657), um Antoni van Leeuwenhoek (1632-1723), um Boyle, etc. –, inventavam instrumentos e desenhavam e realizavam experiências, armados de telescópio, microscópio, bisturi, balança, termómetro, bomba de vácuo e… dos velhos alambiques e mênstruos alquímicos. Foi principalmente na Royal Society de Londres e na Académie des Sciences de Paris e, por outro lado, em

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Desenho de técnicas de injecção, ilustração do livro Bybel der Natuure (1737) de Jan Swammerdam et al. Table XLIX

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Hospitais e Universidades do Norte de Itália (Bolonha, Pádua, etc.), da Holanda (Leiden) e de Inglaterra que se desenvolveram as primeiras observações e pesquisas científicas modernas acerca da história natural, da fisiologia, da classificação das plantas e animais, do tratamento das doenças. Nas academias e clubes, o impulso inicial foi frequentemente fruto do fascínio pelo simples relato de maravilhas, novidades, prodígios, curiosidades, em suma, fenómenos raros ou anómalos, como um cometa ou uma monstruosidade preternatural (isto é, que violenta a ordem natural). Os espécimenes dos herbários, coleções e viagens filosóficas, as gravuras e as narrativas divulgavam-se nas páginas das revistas científicas, das gazetas e das enciclopédias e são conservados nos gabinetes de curiosidade e nos museus. Jan Swammerdam (1637‑­ -1680) genial “cocabichinhos” perfeccionista, pietista e naturalista e micro-scopista holandês de admirável perícia, chega a juntar mais de 3.000 exemplares de curiosa – entre botânica, entomologia, preparações anatómicas de invertebrados e de vertebrados –, além das belas e extraordinárias gravuras desenhadas pelo seu próprio punho, reportadas às academias e oferecidas aos (raríssimos) pares. Muitos filósofos, naturalistas, anatomistas, microscopistas, zoologistas e médicos da época Moderna e das Luzes, creio, acompanhariam Francisco Sanches (1550-1623) quando proclamava: “vou seguir a mera natureza com a razão”, concordariam com Albrecht von Haller (1708-1777) quando postulava que “a fibra está para a fisiologia assim como a linha para a geometria” e assinariam, com José Pinto de Azeredo (1764-1810), a definição de corpo animal como “máquina hidráulica, formada de sólidos e de tubos diferentes pela sua grandeza, força, elasticidade e figura”. São consistentes, são concordantes, estes enunciados? Qual o significado, origem e destino dessas algo esotéricas proposições? O intento de ‘salvar as aparências!’, ou seja, os fenómenos, levou os Antigos médicos e filósofos a recorrer a princípios que transportavam

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Desenho de plenum vortices, ilustração do livro Principia philosophiae (1644) de René Descartes. Pr III 53.

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representações animistas e a noções vagas e abstractas, como a de forma substancial, que se revelaram incompatíveis com a visão mecanicista da natureza, comum a Robert Boyle (1627-1691), John Locke (1632-1704), Sir Isaac Newton (1642-1727) e tantos outros. O mecanicismo, cujo primeiro patrono foi René Descartes (1596-1650), consistiu na “explicação” do Universo pelos corpúsculos ínfimos, os minima naturalia, isto é, pela interação mecânica entre átomos químicos e, portanto, pelas leis da matéria em movimento. As consequentes descrições e explicações experimentais levaram ao desencantamento do mundo imediatamente percepcionado. É, todavia, significativo que, para o filósofo e matemático francês, a primeira das paixões da alma fosse a admiração; admirar, com efeito, provém de mirar, ver com interesse, “saborear com o olhar”. Num registo contrastante e porventura mais ajustado à filosofia natural moderna, o já citado Robert Boyle, químico e fundador da Royal Society de Londres, afirmava, empregando a imagem anatómica, que, para conhecer a natureza, melhor é dissecar que abstrair (melius est natura secare quam abstrahere). A ciência, incluindo a ciência médica, é indissociável de uma violência originária?

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Desenho de desenvolvimento da carcaça do manequim, ilustração do livro Encyclopédie (1751) de Diderot & d’Alembert . Planche VII

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Automaton, or the human dream on life and freedom Guido Giglioni Self-motion, elusive as it may be, has always been taken as evidence of life. That which is able to move itself is alive. As a result, the attempt to replicate life as self-motion remains one of greatest desiderata of human technology. Both mechanical and vital views of human workmanship meet on this point: regardless of whether the piece of mechanism mimics nature or it is an original product of human ingenuity, a self-moving device – an automaton – sheds much needed light of the vital processes of nature. In The Motion of Animals (701a), Aristotle referred to mechanical toys as automata, and used them as a heuristic tool to explore the notion of animal (τὸ ζῷον). In The Laws (644BC), Plato described humans as puppets fashioned by the gods. Emotions represented the threads through which we could be manipulated by superior forces. In both cases, the automaton was primarily a plaything. The semantic field of machine – μηχανή/machina – overlapped ambiguously the areas of trickery, aesthetic pleasure and engineering. From a philosophical point of view, however, Plato’s and Aristotle’s views on automata laid bare important differences about their understanding of the soul (and therefore life and matter). While Plato defined the soul as a substance capable of moving itself (Phaedrus, 245C), Aristotle confined true self-activity only to the exercise of divine thinking, seen as a perfect coincidence of thinking subject and thought object (Metaphysics, 1072B). Intelligible motion, as a union of the understanding and the understood (thinking of thinking) could only

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Desenho de analogias diagramáticas entre a alavanca e as articulações ósseas e entre elásticos e o funcionamento dos músculos ilustração do livro De moto animalium (1660) de Giovanni Alfonso Borelli. Tab. XIII

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belong to God’s mind. All the rest in the universe, including stars and planetary intelligences, was moved by something else, a principle summed up by medieval schoolmen with the adage ‘all that is moved is moved by another thing’ (quicquid movetur ab alio movetur). Plato’s definition of the soul as a self-moving entity, however, continued to exercise a powerful influence on later Platonists, followers of the Hermetic tradition and natural philosophers interested in magic, from Proclus in the fifth century AD to both Roger (1214-1294) and Francis Bacon (1561-1626). The animated statues mentioned in one of the Hermetic dialogues – Asclepius – resonated for centuries and became a topos of intellectual asceticism, technological prowess and religious devotion. The legend went that Albert the Great (1193-1280) built a talking head of bronze. In the same category of magical and religious automata one should put the Golem of Jewish folklore and its later re-enactment with Mary Shelley’s Frankenstein. In the Renaissance, thanks to the recovery of ideas from major Hellenistic theorists and experimenters in the fields of mechanics and pneumatics, such as Ctesibius (c. 285-c. 222 BC), Archimedes (c. 287c. 212 BC) and Hero of Alexandria (10 c.-70 c. AD), and intense study of pseudo-Aristotle’s Mechanics, a new interest in machines developed. Girolamo Cardano (1501-1576), a renowned Renaissance physician, devoted one of the books in his popular De subtilitate (1550) to an accurate survey of major mechanical contrivances, some of them in use in his own time. He is after all still today remembered for a particular gadget he invented, the ‘cardan joint’, which allows free motion in the various parts of the mechanism. Renaissance interest in machines was also fostered by economic changes, technological progress, military requirements and maritime expansion. On the philosophical front, between the fourteenth and the eighteenth centuries, a momentous shift in categories and methods took place, a shift that reflected the

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changes occurring in material reality. The classical representation of the universe as a sublime instantiation of vital mechanics (epitomized in the celebrated phrase machina mundi) mutated into the idea of a rigorously materialistic system based on a new physics of motion. In pre-modern cosmic machinery, celestial bodies were depicted as paragons of animal life; in the modern clockwork universe, a rigorously kinematic view of motion reduced life to a set of mechanical relations. In mid seventeenth century, René Descartes (1596-1650) delivered the most powerful and stringent account of the new machina mundi, such that every single thing and event in the material cosmos could be explained as episodes of matter in motion. The relationship between nature and art, which for millennia had rested on the assumption that human technology was an imitation of natural productivity, was radically turned upside down. The principle underlying natural and human art was now the same, and natural beings could be seen as automata, like Aristotle’s toys, Plato’s puppets, Asclepius’s animated statues and Albert’s talking heads. The difference was that plants and animals were more sophisticated automata than any self-moving device built by humans. This view became quite popular during the eighteenth century. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), who distanced himself from the extremes of both mechanical materialism à la Hobbes and animism à la Stahl, thought nevertheless that matter was structured and artful in all its parts. And when Jacques de Vaucanson (1709-1782) built his famous duck, which was able not only to move but even to digest food, it seemed that increasingly more elaborate hydraulic and pneumatic machines could fulfil the Promethean dream of replicating life through mechanical means. The great contribution of the early modern period to the discussion about automata was therefore the reversal of the time-honoured analogy between nature and art. After Descartes had equated nature with

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Desenho de pato mecânico, feito a partir de autómato construído em 1739 por Jacques de Vaucanson

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mechanism, self-motion lost its original link with spontaneous activity and became a purely mechanical process, while nature could be explained as a succession of physical actions ruled by a causal nexus. A consequence, perhaps unintended, of the mechanization of nature was the expectation that perhaps even the exercise of freedom – be that self-determination or absolute unconscious spontaneity – could be mechanized. To this very day, the possibility of a mechanical reproduction of free actions remains an abhorrent idea, a favourite subject for dystopian scenarios, in which robots and computers will turn on us, coercing our decisions and harming our lives. The most recent incarnation of the automaton is therefore automation, where mechanical efficiency dovetails with economic profit. This goes well beyond the rosiest prospects of early modern mechanical philosophers. After all, Descartes had unambiguously stated that the human mind had nothing in common with a mechanical contrivance. While non-human animals and human bodies could be seen as automata, the human will and its trains of thoughts remained unconditionally free and refractory to control. Baruch Spinoza (1632-1677), who rejected Cartesian dualism as incoherent and adopted Bacon’s notion of machina intellectus as a tool for thinking, extended the automaton model to the explanation of the understanding, both as a ‘mode’ (the human soul) and an ‘attribute’ (Deus sive natura). In the unfinished Emendation of the Intellect, he compared human minds to ‘spiritual’ automata, for, within the general development of the one substance (i.e., God), the interdependent succession of thoughts (ordo et connexio idearum) reflected the causal order of material phenomena (ordo et connexio rerum). He also pointed out how the most recent discoveries in anatomy had demonstrated that many operations were performed by our bodies in a purely mechanical fashion with no need to resort to the soul and its array of vital and sentient faculties. As a result of the growing success of the

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automaton model in the fields of philosophy and science, the sphere of the involuntary and unconscious operations expanded exponentially. Habit became the most veritable automaton, capable of subduing even the most recalcitrant and riotous powers of nature. Today, research programmes in the field of artificial intelligence, a contemporary variation on the theme of the automaton, are predicated on a vision of the universe as relentlessly computational. Since ancient Greece, the automaton has brought to the fore the interplay of life, knowledge and self-determination. Now as before, behind the automaton we look for the dream of perpetual motion, fully developed awareness and uninterrupted freedom.

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Desenho microscópico de planta, ilustração do livro Anatome Plantarum ... (1675) de Marcello Malpighi. Tab. III

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The invention of the concept of “organism” François Duchesneau The term “organism” in its current meaning of “living individual whose formation, organization and functions obey specific laws” arose when biology developed as an autonomous scientific discipline at the beginning of the nineteenth century. For instance, Theodor Schwann, who invented the cell theory in 1838, set up a correspondence between cells as the true units of living bodies and the constitution of organisms as an outcome of cell life. Along these lines, one of his followers, Ernst Wilhelm von Brücke defined cells themselves as “elementary organisms” (1861). At any event, biology can be considered as the science that studies organisms, their composition, their properties, their life cycles and their evolution at all levels, including that of their micro-components. An organism is any unitary organic body, or integrative assembly of organic bodies, or sub-unit thereof, that displays vital functions. And thus biological individuality symbolized by “organism” has served as the main target of investigations in the life sciences from the 1800s to the present days. But “organism” might not have become the core concept of biology, if it had not been previously invented and given a significant, though somewhat different, meaning. Our best guess about the origin of the concept is that it came to the fore when mid-seventeenth century physicians and natural philosophers developed a new analytic approach to living beings. In the Discours de la méthode (1637), René Descartes had likened animals to natural automata, which, although infinitely

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more complex than any man-made machines, were ruled over by the same mechanical laws that applied to all bodies in nature. Later naturalists, like Nicolas Steno, Marcello Malpighi, Jan Swammerdam, Antoni van Leeuwenhoek, proceeded to empirically unveil the inner composition and functioning of what they considered to be divinely-framed “machines of nature”. They resorted to the use of microscopes and of host of other analytic techniques, involving dissection, staining, tissue preparation, chemical reactions, and they practiced what came to be called subtle anatomy (anatomia subtilis). As a consequence, they viewed the living “machine of nature” as composed of tinier organic machines, which in turn would result from further combinations of even tinier organic machines, etc. on an indefinitely decreasing scale. What characterizes a machine is both that it is a mechanical assemblage of parts, and that it has been designed to fulfill an end. In a man-made machine the instrumental end it fulfills has been pre-set for it from the outside by an engineer or craftsman. In a machine of nature, the end appears immanent to it, for it seems to form, preserve, repair itself, and accomplish all its functions by an endogenous power of its own. Organs and micro-organs are by definition instruments. But to what kind of mechanism should we appeal to account for organic bodies, their genesis and endogenous instrumental operations? Recent researches have shown that the concept of “organism” came to be used among physicians and natural philosophers at the end of the seventeenth century to characterize that special kind of mechanism that would be responsible for the vital processes in living beings. The term was used by Georg Ernst Stahl in his dissertation De intestinis (1684) to mean the property of an organ according to which its composition and structure enable it to fulfill an instrumental end that can be identified to its function. But, from that period on, two opposite theses were

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proposed concerning whether the natural causes implied in organism of living beings were the same as, or different from, those implied in the mechanism of inorganic beings. The partisans of the first option, namely Stahl and his followers believed that mechanism by itself could not explain the formation, preservation and functional processes in the organic body. Ruled by mechanical laws alone, this body, which is an instable chemical aggregate, would promptly decompose into mere inorganic components. In his Disquisitio de mechanismi et organismi diversitate (1706), Stahl explained that living beings could only result from an organic, that is, instrumental or teleological, determination. This instrumental relationship that ties together the body’s structural and functional components and underpins the processes of life would provide the defining feature of what is to be understood by “organism” by contrast with mechanism. The causal role in the living machine is assumed by a “soul” that constantly intervenes in the body to preserve its integrity. Everything occurs as if the soul formed a force of opposition to the disintegration and death of the body, thus enhancing the mechanism involved in the latter to the level of a goal-directed organism. The alternative option was shared by several theorists who felt that organism could be equated with a highly complex modality of mechanism, which made it possible for the organic body to preserve and restore its own structures when damaged, and to spontaneously yield all the various motions of life. They did not negate that a teleological relationship was involved in those effects, but they would attribute the primary cause of it to the complex organization embodied in, and functional operations issuing from, the divinely-devised machines of nature which living beings would represent. “Organism” thus meant an autonomous mechanism by which organic bodies would achieve integrative and conservative processes without the required intervention of

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Desenho de anatomia comparada entre plantas e insectos, ilustração do livro Opera omnia (1687) de Marcello Malpighi. Tab. II

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any soul-like principle. At best, there would only be a harmonic correspondence between the actions of a soul and the unfolding of physical and chemical effects in the so-called animated body. In his De natura morborum medicatrice mechanica (1699), Friedrich Hoffman, a colleague as well as opponent of Stahl, would declare: “By this nature [of the Ancients] that preserves the body and heals it from illnesses we here understand not only an active principle that moves our machine, that is the motion that administers the parts and receives the ideas [images] of external objects, but at once the whole mechanism or organism, that is the quantity and appropriate mixture of fluid parts, and the build-up and necessary configuration of solid parts, all this however on the premise that the rational soul has been excluded.” During the eighteenth century, this dual interpretation of “organism”, whether equated with, or distinguished from, mechanism, stirred up reflections on the laws of vital organization, and these reflections in turn occasioned the redefinition of “organism” as the biological concept we have been made familiar with.

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Desenho de cíclopes ilustração do livro De monstro (1605) de Jean Riolan.

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Os Monstros e a Criatividade da Natureza Palmira Fontes da Costa A natureza assemelha-se a um artista que, perante imperfeições nos materiais que vai moldar, cria engenhosamente outras formas ainda mais admiráveis. Fortunio Liceti, De monstrorum causis, natura et differentiis, (1616)

A História Natural do Conde de Buffon foi uma das obras científicas mais influentes do século XVIII. Expressivamente, esta monumental obra, publicada em quarenta e quatro volumes entre 1749 e 1804, consagra apenas nove páginas à ocorrência de seres monstruosos. O famoso naturalista justifica esta opção com base no insucesso reprodutivo dos seres monstruosos, bem como na sua diminuta longevidade ou frequente aborto. Sendo assim, garante Buffon, o seu significado no âmbito da história da vida é necessariamente diminuto ou mesmo nulo. Neste quadro de inteligibilidade, os monstros são apenas uma espécie de murmúrio da natureza sem um verdadeiro sentido biológico. A sua presença ocasional surpreende e inquieta, é certo, mas peca por não ser consequente. Os monstros são párias da natureza, as suas criaturas mais inócuas e frágeis. Como explicar então a sua presença na natureza e a sua continuada proliferação e metamorfose em distintos meios científicos e culturais ao longo da história? Não são tanto as formas extraordinárias e dissemelhantes que conferem força aos monstros mas o seu conteúdo simbólico. Quase sempre,

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Monstros, sem rosto e sem membros, pรกgina ilustrada do livro De monstris (1665) de Fortunio Liceti.

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os seres monstruosos não partilham uma linhagem. Perfilham apenas o mesmo desvio fracturante em relação à norma, a mesma rebeldia em relação ao esperado e ao estabelecido. Dão corpo a uma espécie de manifesto da diferença. São como que um atractor de significados múltiplos, de sentidos mais esboçados do que delineados, mais anunciados do que certos. A sua existência, mesmo que relativamente efémera do ponto de vista biológico, é cultural e epistemicamente criativa. Até ao século XIX, não se compreendiam os mecanismos que verdadeiramente permitem explicar as errâncias da natureza. Vários homens de ciência conjecturaram as origens mais diversas. Nestas, incluíam­ ‑se, entre outras, a ira de Deus, a intervenção do diabo, a imaginação da mulher grávida ou problemas nos fluidos seminais. Os monstros não podiam assim deixar de proliferar num contexto em que tantas e diversas causas permitiam explicar a sua ocorrência. E procriavam em corpos mais ou menos reais. Em formas mais ou menos imaginárias. E a sua presença afirmava-se. Tomavam livros, folhas volantes ou gabinetes de curiosidades. Por vezes, até pareciam copular. Novas criaturas híbridas emergiam e as suas marcas enigmáticas sussurravam o futuro do mundo. A aversão dos monstros à ordem e à disciplina é identitária. Como possuir então o insubmissível? Durante um longo período de tempo, as observações do exterior e do interior do corpo monstruoso constituíram o método de lidar cientificamente com os desvios da natureza. As descrições meticulosas eram afinal a melhor maneira, ou talvez a única, de ordenar a aparente desordem, de lidar com o desconhecido e com a ameaça que ele podia representar. Havia monstros semelhantes mas eram afinal todos diferentes. Instava registar a sua singularidade na literatura científica. Por isso mesmo, e especialmente no século XVII, as memórias das academias constituíram-se numa espécie de cartografia da diferença do mundo natural. Paradoxalmente, o raro e o invulgar

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passaram a ser uma presença comum nestes anais. Prova da resistência dos monstros? Sem dúvida a sua aparente impenetrabilidade cognitiva, conferiu-lhes esta qualidade. Este percurso evidência igualmente a força e a urgência da curiosidade humana perante tudo o que radicalmente surpreende. Entretanto, os monstros manifestaram outras formas de fertilidade. Ao contrário do que tinha declarado Buffon, o seu significado para a inteligibilidade da natureza não se revelou necessariamente estéril. Autores setecentistas revelaram a utilidade do corpo monstruoso no entendimento da formação do corpo regular e dos seus processos fisiológicos. Os monstros constituíam-se numa espécie de experiencias presenteadas pelos acasos da natureza. A interpretação dos resultados desviantes podia afinal ajudar a desvendar o sentido da regularidade da natureza. Metáforas vivas da diferença mas também evidência da fecundidade do erro e do acidente. Mas, para alguns, os monstros mais do que destruir podiam corporalizar a inauguração de uma nova ordem da natureza. Para Albrecht von Haller, constituíam-se como o modelo de um novo género de seres vivos. Existiriam afinal mais criaturas na terra do que sonha a nossa vã filosofia. Na Evolução das espécies, Charles Darwin não analisa em detalhe as implicações da ocorrência de seres monstruosos para o problema da origem de novas espécies. No entanto, várias passagens dos seus livros de notas e outros manuscritos revelam que o famoso naturalista estava ciente da sua relevância para o entendimento da formação de novas formas na natureza. Seria Camile Dareste, um dos correspondentes e admiradores de Darwin, o primeiro a propor que várias raças e espécies teriam uma origem teratológica já que várias anomalias são compatíveis com a vida. Foi também ele o responsável pelas primeiras criações artificiais de seres monstruosos.

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E o laboratório passou a ser o lugar privilegiado da criação dos monstros. No âmbito das novas artes e saberes combinatórios da tecnociência, os seres híbridos passaram a ser mais do que resistentes. Tornaram-se irresistíveis. E, ao contrário do que sucedia anteriormente, a maioria dos novos monstros é invisível e prolifica. Continuam a não ter uma verdadeira família e a sua identidade é cada vez mais ténue. Por enquanto, contudo, não deixam de continuar a surpreender.

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Ilustração de capa, livro Brave New World (1932) de Aldous Huxley

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O humano e o pós-humano: a última fronteira Viriato Soromenho-Marques Ao contrário do que se julgava até há pouco tempo, na maioria dos círculos de opinião, as utopias tecnocientíficas modernas e contemporâneas não visavam – na sua mais profunda essência – apenas a dominação da natureza física e biofísica, mas o próprio corpo humano, ou, melhor a condição humana. Isso está patente, desde logo, nas utopias seiscentistas de Campanella ou Francis Bacon. Na verdade, as componentes mais elementares e biofísicas da nossa identidade estão longe de poderem ser consideradas, mesmo nas raízes da modernidade, como estando protegidas por um qualquer estatuto de santuário. Aliás, a viragem do século XX para o século XXI trouxe a confirmação de uma tendência que já vinha bem de trás: de 1953, com o desvendar da estrutura molecular do ADN por Watson e Crick; de 1964, com a descoberta do código genético por Marshall Niremburg; de 1973, quando Cohen e Boyer realizaram a primeira experiência com êxito no domínio da engenharia genética. A grande novidade hoje consiste na vitória de Descartes sobre Kant, isto é, a  vitória da tese que vem da alvorada da modernidade, segundo a qual não existe nenhuma diferença de qualidade entre a física e a biologia: ambos os domínios são redutíveis a modelos mecânicos, de complexidade variável. A prudência kantiana, de acordo com a qual talvez não pudesse jamais ocorrer um Newton da biologia, parece hoje datada e arquivada (SOROMENHO-MARQUES, 1998).

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Ilustração de capa, livro 1984 (1948) de George Orwell

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A tecnosfera entra no século XXI com mais uma arma no seu arsenal. Parece, com efeito, vislumbrar-se uma mudança qualitativa no projecto da condição humana. Podemos colocar a hipótese de que passámos da exploração das possibilidades de mudança por aperfeiçoamento simples no software que nos foi dado pela Criação, para a revolução radical no próprio hardware das criaturas que somos; corremos o risco de estar a passar dum paradigma ético para um paradigma genético no que concerne ao projecto de desenvolvimento histórico da condição humana; corremos o risco de transitar do imperativo categórico para as biotécnicas centradas na manipulação do nosso código de barras biológico. No horizonte das distopias, ou utopias negativas do século XX, Aldous Huxley parece ter tido mais rigor profético, do que George Orwell. A ameaça dos ciborgues parece hoje mais realista do que a do advento de um estalinismo planetário. É, aliás, interessante analisar alguns dos tópicos do argumentário dos defensores da continuação ou acentuação da desregulamentação jurídica e institucional no domínio das biotecnologias aplicadas ao ser humano. Num ensaio do investigador e professor californiano, Gregory Stock, em que se advoga a franca abertura do mercado da escolha germinal, são apresentados dois curiosos argumentos cujo fundamento é estritamente retórico, remetendo para uma manipulação da informação, que não convoca qualquer espécie de valia ou autoridade científicas. O primeiro argumento defende a velha tese da neutralidade da técnica. Isto é, a ideia de que os instrumentos são uma realidade completamente distinta e indiferente a quem os utiliza, ou aos valores inscritos no modelo de sociedade e civilização que gerou esses instrumentos. Neste sentido, os fantasmas e abusos da eugenia no século XX não remeteriam para a tecnologia requerida e concebida para tais intentos, mas para as configurações políticas que a ela fizeram recurso (STOCK, 2002).

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O homem como palácio industrial, ilustração do suplemento do livro Das Leben des Menschen (1922-32) de Fritz Kahn

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Ainda o leitor se interroga sobre o mistério e as fronteiras de uma tecnologia que poderia abrir terreno a uma dualidade de eugenias, uma má e totalitária, outra boa e liberal, e já o nosso autor nos surpreende com outro argumento favorito no arsenal das fabricações ideológicas para consumo rápido. Com efeito, a “boa” eugenia deve ser considerada como uma força praticamente irresistível, por significar a possibilidade de, pela primeira vez na história mundial, sermos capazes de modelar o nosso próprio processo de evolução. Gregory Stock assume-se mesmo como o profeta de uma sociedade profundamente hierarquizada, onde a tecnologia comanda os mercados e os mecanismos de poder, e onde a vida, mais os seus novíssimos adereços passam a ser uma mercadoria que se vende e compre tanto a grosso como a retalho. Que todo esse pesadelo seja anunciado, com total insensibilidade, e até mesmo com uma alegria de advento é, já por si, um sinal da cegueira ética em que muitos membros da comunidade científica já mergulharam. Não menos surpreendente é verificar a profunda amnésia e ignorância revelada por muitos dos adeptos desta nova versão do “admirável mundo novo”. Nem por um momento Stock se dá conta de que aquilo que está a anunciar como novo se limita a repetir – embora num contexto que já não é meramente hipotético e especulativo – algumas das visões de futuro anunciadas no início do século XX por cientistas que hoje se encontram, muito provavelmente, a emergir de um longo esquecimento. É o caso de J. B. S. Haldane, defensor da ectogénese, o nascimento fora do ventre materno, como política pública, com fins claramente eugénicos (HALDANE, 1923), uma ideia retomada por Aldous Huxley no se romance Brave New World, de 1932. Ou de John Desmond Bernal, que antecipa claramente Stock, ao defender um biformismo, uma duplicação da espécie humana, que potenciaria uma superação do ser humano tal como o conhecemos (BERNAL, 1929).

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As implicações filosóficas e sociológicas da transformação biotecnológica da condição humana têm sido objecto de reflexão (MARTINS, 2011) suscitaram o debate entre humanistas e anti-humanistas, sendo de relevar, neste contexto, o debate, centrado na eugenia tecnológica, entre Francis Fukuyama (FUKUYAMA, 2002) e Nick Bostrom (BOSTROM, 2004) ou, num âmbito mais alargado levando ao limite as implicações civilizacionais das possibilidades de recriação do humano, entre Peter Sloterdijk (SLOTERDIJK, 1999) e Jürgen Habermas (HABERMAS, 2002). Em síntese: longe de marcar uma ruptura, um novo começo radical no pensar/agir da condição humana e do seu contexto histórico e ontológico, o projecto da pós-humanidade, com a sua arrogância – uma vezes desastradamente épica, outras voluntariamente desesperada – e total ausência de pensamento crítico sobre os limites técnicos e transcendentais do conhecimento e da acção, assume-se não como um anti-humanismo, mas sim como a realização extrema do híper-humanismo fáustico, um “tipo humano” guiada por uma vaga noção de infinito e ilimitado, para quem a humanidade, os seres orgânicos e inorgânicos, e a mais secreta estrutura ontológica do “mundo” são meras peças de uma desmesurada fabricação de si mesmo, para si mesmo. Uma variante biotecnológica do paradigma narcisista da subjectividade, que se abriga nas zonas mais recônditas e sombrias do inconsciente da modernidade.

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J.D. BERNAL, The World, The Flesh & the Devil. An Enquiry into the Future of the Three Enemies of the Rational Soul, London, Kegan Paul & Co, 1929. Nick BOSTROM, Foreign Policy, 2004. Francis FUKUYAMA, Our Posthuman Future. Consequences of the Biotechnology Revolution, London, Profile Books, 2002. J. B. S. HALDANE, Daedalus, or Science and the Future, 1923. Hermínio MARTINS, Experimentum Humanum. Condição Tecnológica e Condição Humana, Lisboa, Relógio D’Água, 2011. Peter SLOTERDIJK, Regeln für den Menschenpark, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1999. Viriato SOROMENHO-MARQUES, “O Relógio Vivo. O pensamento biológico e a herança cartesiana”, Descartes, Leibniz e a Modernidade, coordenação de Leonel Ribeiro dos Santos, Pedro M. S. Alves e Adelino Cardoso, Lisboa, Edições Colibri, 1998, pp. 415-426. Gregory STOCK, Choosing Our Children’s Genes. Redesigning Humans, London, Profile Books, 2002.

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EXPOSIÇÃO

CATÁLOGO

Organização CHAM – Centro da História d’Aquém e d’Além-Mar MUHNAC –Museu Nacional de História Natural e da Ciência, UL

Título Autómato vivo – A vida, um artefacto natural?

Curadoria Manuel Valente Alves Adelino Cardoso Concepção gráfica Nina Szielasko Obras de arte José Esteves Manuel Valente Alves Marta de Menezes Comissão científica Palmira Fontes da Costa César Lopes Manuel Silvério Marques Liliana Póvoas Consultores Fernando Barriga José Pedro Sousa Dias François Duchesneau Viriato Soromenho Marques Apoio técnico Joana Leite Jorge Prudêncio Patrocínio Fundação para a Ciência e Tecnologia MUHNAC –Museu Nacional de História Natural e da Ciência, UL Rua da Escola Politécnica 56/58 1250-102 Lisboa www.mnhnc.ulisboa.pt

Coordenação Adelino Cardoso Manuel Valente Alves Concepção gráfica Nina Szielasko Fotografia © Nina Szielasko Textos Adelino Cardoso Manuel Valente Alves Palmira Fontes da Costa François Duchesneau Manuel Silvério Marques Viriato Soromenho-Marques Edição Edições Húmus ISBN 978-989-755-139-0 Depósito Legal 387413/15 1.º edição Janeiro de 2015 © CHAM – Centro da História d’Aquém e d’Além-Mar, MUHNAC – Museu Nacional de História Natural e da Ciência, UL e Edições Húmus Edições Húmus, Lda Apartado 7081 4764-908 Ribeirão – V. N. de Farmalicão humus@humus.com.pt

Trabalho desenvolvido no âmbito do projecto PTDC/FIL-FCI/11684372010 O conceito de natureza no pensamento médico-filosófico na transição do século XVII ao XVIII, financiado pela FCT.


Edição:

Autómato vivo - A vida um artefacto natural?  

Catálogo e textos que acompanharam a exposição "Autómato vivo – A vida, um artifício natural?" no Museu Nacional de História Natural e da Ci...

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