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Distribuição gratuita

jun/jul 2011

#02


COLABORE COM A NIL colaboracao@nilrevista.com


Locais de distribuição www.nilrevista.com/distribuicao

Ano I, #02, Junho/Julho 2011 www.nilrevista.com Editoras Clarissa Gianni e Patrícia Colmenero Projeto Gráfico e Diagramação Bianca Novais e Flora Egécia Fotografia Flora Egécia e Rodrigo Oliveira Estúdio Cajuína Webdesigner Maurício Chades Jornalista Responsável Dione Moura Colaboram nesta edição Évelin Paim, Luísa Vieira, Magenta King, Thaís Erre, Vitor Schietti, Daniel Titi's, Mauro Nunes, Mayra Resende, Gabriel Camattari, Francisco Bronze e Amanda Ourofino.

Contato nil@nilrevista.com Colabore colaboracao@nilrevista.com Para anunciar anuncie@nilrevista.com Twitter @nilrevista Facebook Nil Revista Nil ® é marca registrada. Todos os direitos reservados. Agradecimentos Aos amigos e familiares que nos apoiaram, Rodrigo Oliveira, Naiara Caldas, Leandro Morgado, Gringo Tattoo, Daniel Titi's, David Dominowski , Vanessa Rosalino, Elisa Martinez, Henrique Eira, Gabriel Camattari, Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e colaboradores. Apoio

imagem da capa Thales Fernando

ISSN 2179-9202 Distribuição Gratuita Periodicidade bimestral Tiragem 3.000 exemplares Gráfica Charbel


Carta das Editoras

O lançamento e a primeira edição da Nil foram um sucesso. O coquetel de lançamento contou com cerca de 600 pessoas, e foram distribuídas 800 revistas no evento. Nossos agradecimentos a todos que apoiaram, elogiaram, criticaram e participaram da nossa primeira edição. Esperamos que continuem com a gente nesta e em todas as edições que ainda estão por vir. Nesta edição, trazemos os batuques do grupo Surdodum, invadimos os bastidores da filmagem de Faroeste Caboclo, sentimos as cores e exploramos o mundo da intervenção urbana, apreciamos os livros como objetos de arte, ganhamos conhecimento nas memórias de Lêda Watson, entramos no mundo da música e conversamos com a coordenadora do projeto Wikinarua.

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O projeto Nil é resultado de uma equipe que valoriza sua cidade e trabalha para que os artistas possam respirar arte e fazer o que gostam. Enriquecida pelo trabalho de colaboradores e artistas do Brasil todo, a Nil deseja que todos possam apreciar e compartilhar do universo de talentos que descobrem a cada edição. A Nil conta com o investimento do FAC (Fundo de Apoio à Cultura) e, além da revista impressa bimestralmente, possui um site com notícias atualizadas diariamente e a versão digitalizada da revista. Mande o seu trabalho para nossa galeria, envie um texto para a seção literária, seja nosso colaborador e participe também, ativamente, do nosso site, com dicas de conteúdo, comentários, críticas, elogios e com o seu material. Clarissa Gianni e Patrícia Colmenero Editoras


Colaboradores

Amanda Ourofino, 27 anos, Brasília O que faz Fotógrafa e sócia do Estúdio Cabine O que fez na NIL Matéria "Arte de Bolso" O que pensa assim que acorda posso dormir mais um pouquinho? Artista Sophie Calle Me sinto NIL quando... aperto o botão da câmera e faço um clique.

Daniel "Titi's" Galvão, 28 anos, Brasília O que faz Designer, ilustrador, fotógrafo e inventeiro O que fez na NIL Desenhou o quadrinho "As dores de um quadrilátero amoroso" O que pensa assim que acorda que que eu sonhei mesmo? Artista Frank Miller Me sinto NIL quando... vejo o trabalho crescendo e amadurecendo.

Vitor Schietti, 25 anos, Brasília O que faz Acredito na transformação para um mundo melhor trabalhando com fotografia e vídeo. O que fez na NIL Colaborei com imagens para ilustrar a matéria "Elas no palco" O que pensa assim que acorda Anoto os sonhos que tive e faço uma meditação.Artista Gregory Crewdson Me sinto NIL quando... Conheço pessoas talentosas e profissionais que me motivam a desenvolver bons trabalhos, focando na colaboração ao invés da competição.

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Évelin Paim, 25 anos, Brasília O que faz Designer gráfico e de produtos O que fez na Nil Diagramei a matéria "Gravado na Memória" O que pensa assim que acorda "Hum..só mais dez minutos" Artista Ariel Fajtlowicz Me sinto Nil quando... tenho uma ideia nova.

Francisco Bronze, 25 anos, Brasília O que faz Designer e ilustrador, trabalho no Grande Circular, onde sou sócio-proprietário. O que fez na NIL Ilustrou e diagramou o sumário O que pensa assim que acorada não penso em absolutamente nada Artista Kiko Farkas e Jason Munn Me sinto NIL quando... quando nado e ando descalço no córrego lá perto da minha casa

Gabriel Camattari ,24 anos , Brasília O que faz Tradutor, editor de áudio/vídeo, escritor. O que fez na Nil Matéria "Faroeste Caboclo". O que pensa assim que acorda Cada dia é um ato de bravura, então vamos ao próximo! Artista: François Truffaut. Me sinto Nil quando... estico o pensamento e encaro a loucura de conhecer.

Luísa Vieira, 26 anos, Brasília O que faz Designer O que fez na Nil Letterings e diagramação da matéria "Dois Dum" O que pensa assim que acorda O de sempre: mais cinco minutos... Artista Ixi, só um? Gosto muito do Klimt Me sinto Nil quando... inspiro roxo, expiro azul...

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Magenta King, 26 anos, São Paulo O que faz Ilustro e tiro foto quando a minha máquina voltar do conserto O que fez na Nil As ilustrações do conto "Risos" O que pensa assim que acorda Cadê meu caderno? Artista Taiyo Matsumoto e Paul Pope Me sinto Nil quando... compro um livro antigo de histórias japonesas num sebo e uso como sketchbook.

Mauro Nunes, 25 anos, Brasília O que faz Escritor, estudante de tradução e trabalhador assalariado O que fez na Nil Autor do texto "Risos" O que pensa assim que acorda "Meu deus, estou atrasado!" Artista Kafka Me sinto Nil quando... escrevo.

Mayra Resende, 25 anos, Brasília O que faz Sou socióloga e atualmente trabalho com pesquisas na área de Cultura O que fez na Nil A matéria "Elas no palco" O que pensa assim que acorda Mas... já?! Artista Joan Jett Me sinto Nil quando... trabalho com o que gosto e descubro algo novo.

Thais Erre Felix, 23 anos, Brasília O que faz Curso de Desenho Industrial em dupla habilitação O que fez na Nil Ilustrei e diagramei a matéria "Arte de Bolso" O que pensa assim que acorda "Só mais dez minutos de sono não vão me atrasar tanto" Artista: Tenho acompanhado o trabalho do Derbyblue, que é incrível. Me sinto Nil quando... morro de rir com meus amigos, e quando posso fazer o que gosto do jeito que gosto!

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Dois Dum

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Wiki na Rua

Gravado na Memória

Faroeste Caboclo

Arte de bolso: uma exposição portávil

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Elas no palco

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Compondo o cenário urbano Tatuando o corpo coletivo

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Lançamento Nil #01

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Portfólio

As Dores de um Quadrilátero Amoroso

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Risos

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Info

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USANDO O BATUQUE, PROJETOS PROMOVEM A INCLUSÃO

foto ESTÚDIO CAJUÍNA texto CLARISSA GIANNI


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Integrantes do Surdodum no intervalo do ensaio

Ao som de batucadas, o grupo Surdodum faz de um dia de trabalho, um dia de festa. No pequeno estúdio, em Brasília, reúnem-se os 13 integrantes da bandashow para os ensaios, além dos alunos e amigos que às vezes ficam por ali, para dar um apoio ou simplesmente ouvir a música. Por meio de vibração, gestos, movimentos, linguagem corporal e sensibilidade, aqueles que nada ouviam, junto com alguns músicos ouvintes (como são chamados os não surdos), formaram o Surdodum (nome escolhido por um dos integrantes e que acabou dando certo).

e seu conhecimento de música para elaborar uma forma dos deficientes auditivos aprenderem ritmo e conseguirem, a princípio, tocar algumas canções populares e sons afro-brasileiros. Mas, como a própria coordenadora diz e é repetido por vários outros músicos do grupo, o que importa é sentir a música, independente de ouvi-la ou não. “Sendo ouvinte ou surdo, músico ou leigo, não é o fato de tocar algum instrumento ou saber cantar... É uma música que te lembra algo ou alguém... É todo aquele sentimento, aquilo que te toca, um gesto expressivo... é isso que importa”, conta Ana.

Criado em 1994 por Ana Lúcia Soares, o projeto, que começou com improvisos, coragem e paixão pela música, acabou virando referência e objeto de estudo sobre a relação entre surdez e música. “Tivemos que começar do zero. Você até hoje não tem referência bibliográfica nessa área de música e surdez. O que existe é mais superficial, observações mesmo”, explica Ana. A metodologia ino-

A comunicação é tão natural que é difícil distinguir os deficientes dos ouvintes. Alguns usam libras; outros, a leitura labial; mas todos, sem exceção, usam a leitura corporal. Nas palavras de Ana Lúcia, “O entrosamento que importa. Tendo isso, a comunicação fica fácil. Um olhar que sabe a hora de parar, de continuar, de voltar... Independe da língua”. Não são surdos e ouvintes. Não há essa separação. São

vadora é de Ana Lúcia (“com apoio e colaboração dos amigos, claro”, pontua), que teve que usar sua intuição, sua experiência com ensino especial

músicos, amigos, cada um com suas individualidades. Essa forma de trabalhar fez com que todos integrantes desenvolvemse profissional e pessoalmente.

Ana (centro) e integrantes

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Andréia Brito, uma das cantoras do grupo (junto com Arnaldo, Leandro e Ana Lúcia), conta, apaixonada, sobre a influência do Surdodum em sua vida: “Mudou tudo. Minhas amizades, o contato com as pessoas, o aprendizado, minha independência... A alegria e emoção que eu sinto fazendo parte do grupo e cantando... é demais”. Quando questionada sobre como ela aprende as músicas, Andréia responde simplesmente: “Eu sinto a música. Não sei explicar. É como quando você vai na boate e sente a caixa de som vibrando. Você sente dentro de você e fora”. Arnaldo Barros

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Arnaldo Barros (ouvinte) é cantor, compositor e toca violão no grupo. O músico entrou em 1998 e fez grande diferença para a banda: “Até então, não tinha harmonia, era só percussão. Então comecei a compor, trouxe algumas músicas e começaram a ter algumas mudanças. Colocamos o baixo, bateria, violão... O Surdodum passou a ter músicas autorais”.

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Uma questão que ainda pesa muito para o grupo (assim como para todos os grupos e projetos de inclusão) é a segregação dos demais profissionais. “É muito comum chamarem a gente para tocar no ‘dia do deficiente auditivo’ ou apresentações semelhantes. A gente se empenha muito para mostrar o trabalho e queremos que as pessoas enxerguem a banda como uma banda


capacitada, como qualquer outra banda talentosa!”, comenta Arnaldo. A escola Surdodum é aberta e gratuita para todos deficientes auditivos, de qualquer grau de surdez. “Nosso sonho é poder ampliar, abrir workshops, começar o projeto Surdodunzinho, que trabalharia com crianças desde os quatro anos de idade... Mas ainda temos que desenvolver, ampliar a estrutura e tudo mais”, explica Ana. Com mais de 16 anos de estrada, inúmeras apresentações e shows (já tocaram com grandes nomes, como Cidade Negra, Olodum e participaram de programas na TV), o Surdodum é um projeto sustentado pelos integrantes da banda, que rateiam os custos básicos de aluguel, condomínio e usam o dinheiro dos cachês das apresentações para manter a escola e custear os demais gastos. “Todo mundo é voluntário aqui e trabalha só pelo sorriso de cada um”, conta Ana Lúcia, acrescentando: “Surdodum é minha missão de vida. Meu sonho é que o Instituto cresça, que todo mundo se sustente com o Surdodum e que permaneça com a mesma energia e sintonia”.

Servindo de inspiração para diversos outros projetos, a Escola Olodum utiliza a linguagem artística para trabalhar cidadania, direitos humanos e a liderança afro-descendente de jovens brasileiros de baixa renda. O Olodum é uma organização enorme, com diversas vertentes: bloco de carnaval, banda, boutique, festivais... E foi a partir de uma demanda do hoje famoso bloco que a Escola Olodum nasceu, há 28 anos. Em 1979, o Pelourinho-Maciel era uma zona muito degradada de Salvador, e, paralelamente a isso, também era um local de artistas, de cultura, um local histórico. Nessa época, a comunidade negra ascendente começou a exigir uma maior participação e aceitação: “Eles queriam participar do carnaval,

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mas foram renegados. Negaram isso, porque eles eram negros. O argumento era o racismo, institucionalizado na cidade. A partir daí, eles se reuniram e resolveram montar o próprio bloco”, conta Mara Felipe, participante do Olodum há 18 anos e coordenadora da Escola há seis. Foi então que surgiu o bloco afro Olodum, desse grupo de negros da comunidade do Pelourinho-Maciel. Com o tempo e dificuldades que enfrentaram, foi reavaliado o objetivo do Olodum e eles começaram a ter uma visão

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mais politizada. Então, a partir do projeto Rufar dos Tambores, em 1983, surgiu a Escola Olodum, oferecendo aulas de percussão para as crianças do Pelourinho. Desde então, a escola amadureceu, cresceu e passou a se aprofundar em atividades na área de educação nãoformal de crianças, adolescentes e jovens, em período alternativo ao escolar. Usando sempre linguagens artístico-culturais e digitais, o objetivo da Escola é transformar jovens, fazendo parte da formação pessoal de cada um. “Nosso objetivo não é formar percussionistas,,


mas usar as batidas dos tambores, usar a música do samba-reggae, para fazer um trabalho com esses jovens de desenvolvimento da sua liderança afrodescendente, através de sensibilizações sobre cidadania, mercado de trabalho, sexualidade, meio ambiente... O que é ser negro, como fazer a descoberta da sua negritude dentro da sociedade brasileira e fazer com que haja uma transformação dessa sociedade. Queremos que os jovens busquem novos caminhos para ajudar na formação de uma sociedade mais igualitária, justa, que trabalhe a diversidade sócio-cultural e étnica”, explica Mara, sem hesitação.

mo ainda em fase de teste, mas que já pode ser acessado de qualquer lugar do mundo. O método é totalmente de autoria do Olodum e irá levar o samba-reggae a inúmeras pessoas. Além disso, há o programa de transferência de tecnologia, no qual se realiza um estudo da realidade local e, a partir dele, é desenvolvido um programa de formação de educadores. Em Brasília, o programa acontece em São Sebastião. Os profissionais capacitam, treinam e acompanham os educadores, para que estes possam usar o método de inclusão de jovens, utilizando linguagem artística, em suas instituições.

Apesar da escola ser sediada na Bahia, existem diversos projetos de abrangência nacional (e até internacional). Um deles é o Curso de Teoria Musical e Curso de Percussão online, este últi-

Surdodum www.surdodum.com surdodum@hotmail.com Ana Lúcia (61) 9984 - 4574 Escola Olodum www.blogescolaolodum.com.br 19


o livro como obra de arte

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texto AMANDA OUROFINO ilustrações THAIS ERRE FELIX

Os livros não estão desaparecendo. Desde 2004, quando surgiu o primeiro e-reader, pergunta-se se os livros impressos irão dar lugar aos livros virtuais, mas os impressos continuam sendo produzidos e postos à venda nas livrarias. Há pessoas que, simplesmente, não conseguem conceber ler em uma tela de cristal líquido: o manuseio do papel é um ato tão antigo e comum para nós quanto beber um copo d’água. Na vida cotidiana, nos acostumamos aos livros, aos cadernos, às anotações que fazemos, às histórias que lemos. Alguns cadernos tornaram-se objeto de luxo, como os famosos Moleskines, que surgiram como marca em 1997, trazendo à vida o famoso caderno usado por artistas e escritores como Vincent van Gogh, Pablo Picasso, Ernest Hemingway e Bruce Chatwin. Mas os livros e cadernos também são arte. Livro de artista, livro-objeto, livro ilustrado, livro de arte, livro-poema, poemalivro, livro-arte, arte-livro, livro-obra, são todos nomes para esses objetos que podem ser familiares aos nossos olhos ou causar uma grande estranheza, dependendo da sua forma, material e função.

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A Biblioteca de Bolso de Luciana Paiva

Os livros de artista não são um tipo de trabalho recente. Marcel Duchamp, em 1934, fez a Caixa Verde, que pode ser classificada como um livro-objeto: uma caixa de papel-cartão coberta de couro vermelho, contendo miniaturas de obras (69 fotografias, fac-símiles ou reproduções de quadros) coladas sobre uma camisa preta. Podemos também pensar em Leonardo da Vinci com seus cadernos, criados no século XV e início do XVI, ou ainda os livros de William Blake, publicados entre 1788 e 1821.

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Porém, foi apenas na segunda metade do século XX que esse tipo de obra foi legitimado, principalmente a partir da década de 60. No Brasil, os pioneiros dos livros de artista foram, sem dúvida, os poetas concretos e neo-concretos. Os primeiros a darem notoriedade ao trabalho com livros de artistas no nosso país foram Lygia Pape, com o Livro da Criação, que apresenta várias placas pintadas com guache, lembrando esculturas;


Dillon Filho, com seus livros-poema; e Julio Plaza e o Livro-Objeto, um conjunto de folhas soltas, dobradas ao meio, com formas abstratas que se modificavam de acordo com o manuseio, graças a cortes e vincos em determinadas áreas. Inspirada pelo trabalho de Duchamp, a artista plástica brasiliense, Luciana Paiva, organiza a Biblioteca de Bolso, projeto que consiste em uma maleta que transporta livros de artista, flipbooks, encartes, folders e propostas de artistas de Brasília e outros estados. O projeto funciona a partir da colaboração de artistas interessados, ou seja, o artista doa o trabalho para o acervo da Biblioteca, cujas exigências são: a obra deve ter no máximo 12 x 12 cm e ser realizada por um artista visuail. Em troca, Luciana circula com a maleta por onde vai e, quando existe possibilidade, apresenta os trabalhos. Sempre que tem uma nova colaboração ou uma novidade, o blog é atualizado pra que todos os artistas acompanhem.

dele, o livro passa a ocupar em nossa cultura um espaço que era de outras mídias, exatamente porque ele produz uma nova espacialidade que é subjetiva, individualizada, e, simultaneamente, coletiva. A Biblioteca de Bolso não comercializa os trabalhos, apenas promove a sua circulação e divulgação. Na verdade, de forma geral, o livro de artista não está à mercê do sistema comercial da venda restrita às galerias. A transferência do espaço da galeria para o espaço do li-

Em 2010, a Biblioteca esteve na exposição Obra Inventário, no Espaço Cultural Marcantônio Vilaça. O artista Matias Monteiro, que tem o livro Diários Siameses na Biblioteca de Bolso, nos fala que o livro estabelece ao mesmo tempo uma relação tátil e uma cumplicidade com o leitor. Na opinião

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vro permite uma distribuição diferente das pinturas e fotografias, um trânsito por outras vias, onde é possível alcançar diferentes públicos e até mesmo outros tipos de comprador. E como fazer um livro? Atualmente, podemos aprender a arte da encadernação com Camillo Righini. Ele passou a oferecer a Oficina Cadernagem no seu estúdio Boibumbá Design, em Brasília, desde o final do ano passado. Camillo aprendeu a dobrar e costurar os papéis logo antes de ir morar em Londres, onde aperfeiçoou sua técnica e todo o processo de encadernação. No mesmo país, ele realizou seu primeiro livro de artista, Aluminium, com o

Camillo Righini por Guy Paterson

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professor Guy Paterson da School of Art and Design in London e, atualmente, expõe um outro, Black & White Sketchbook, à venda na galeria A Casa da Luz Vermelha, ambos voltados para fotografia. A oficina está em constante processo de evolução e, a cada nova turma, as técnicas, os processos, os formatos e os materiais são modificados, sempre em função do grupo. Essas modificações acontecem espontaneamente, a partir das primeiras conversas com a turma. É um processo sempre muito orgânico e fluido. Muita informação técnica é trocada durante o curso, que é desafiador e muito intenso. Ao final de dois dias inteiros de curso, Camillo conta que vê uma produção única, em que cada caderno exprime uma personalidade. A maior parte dos alunos continua fazendo encadernanções para dar de presente ou usar como sketchbook, um espaço de anotações e reflexões, ou mesmo como livro de artista.


A oficina de cadernagem

5ª Cadernagem 20 e 21 de agosto, das 9:30 às 20:30 na Boibumbá Design R$350,00 à vista ou 2x R$180,00 Informações: (61) 3233-7119 (61) 8133-3939 oficinasboibumba@gmail.com

Biblioteca de Bolso www.bibliobolso.blogspot.com

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Trocando

a paleta pelo teclado

texto PATRÍCIA COLMENERO foto ESTÚDIO CAJUÍNA


< na página anterior, Suzete Venturelli com o jogo Cyber Ton Ton, de sua autoria

‘‘A arte deve participar da sociedade, e não ser produzida por uma elite”, é o que afirma Suzete Venturelli, coordenadora do MidiaLab – Laboratório de Pesquisa em Arte e Realidade Virtual. À frente da rede social Wikinarua, uma forma cola­borativa de cartografia que permite que as comunidades insiram imagens, sons, animações e textos no mapa do Brasil, Suzete defende que a arte não é só a expressão de uma sociedade e, sim, o seu motor.

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Como começou a sua história com arte e tecnologia? Eu comecei a fazer graffiti, cartazes (stickers), passei a fazer performance na rua e usava os meios tecnológicos para documentar esse processo. O vídeo podia ser usado pelos meios de comunicação de massa, como a TV. Então, a tecnologia foi entrando porque eu queria me comunicar com um grande número de pessoas. A minha aproximação tecnológica foi via comunicação. O computador veio naturalmente, mas aí eu percebi que eu precisava ir um pouco além. Eu vi que trabalhar com esse suporte é mais do que uma ferramenta. Quem não tem o conhecimento teórico fica limitado no trabalho e, se você não conhece a linguagem, você não consegue nem dialogar com o engenheiro. Os nossos bolsistas de arte estão todos programando. Eu fui atrás sozinha, fiz curso de Java, assisti a palestras. Existem hoje em dia recursos muito interessantes, porque muitos cientistas estão desenvolvendo programas que ajudam artistas a desenvolver interfaces interativas. Um grupo nos Estados Unidos desenvolve o processing.org, que artistas e designers do mundo inteiro estão utilizando para a criação dessas interfaces, com códigos abertos, livres. É uma outra filosofia, as pessoas se ajudam. Hoje em dia, facilitou bastante. O mais difícil é ter a ideia.

Então surge a figura do artista programador? O artista, para poder fazer esse tipo de arte, tem que saber computação. Ele deve abrir a caixa preta, como diz Flusser. É uma questão de poder, de ir a fundo na matéria que você está trabalhando. Tem que haver uma fusão entre áreas do conhecimento, entre arte, ciência e tecnologia. Dentro das artes, já temos uma tradição antiga de processos lógicos e matemáticos, como a perspectiva. Não é tecnologia como arte, como falava Julio Plaza, mas arte e tecnologia no mesmo patamar. A tecnologia faz parte da arte no sentindo darwinista, é algo que está no nosso DNA. Estamos desenvolvendo isso pelo instinto mesmo, para continuarmos com a espécie. Programação é como aprender uma língua e é uma linguagem universal, e a educação tem que estar atenta a isso, não pode deixar isso passar. Isso é fundamental para o Brasil mudar.

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Artemídia, arte e tecnologia, arte computacional... qual é a diferença? A arte computacional considera procedimentos lógico-matemáticos. A arte digital é datada. Quando os computadores deixarem de ser binários, acaba a arte digital, porque muda o suporte. É um termo que não gosto de usar, mas às vezes eu uso porque as pessoas entendem melhor, é mais consensual. Muita gente está pensando nesse termo. Falase de hibidrismo, ciberarte, arte transhumana, pós-humana. Ainda está para surgir um termo. E a aceitação desse tipo de arte no meio artístico e acadêmico? Melhorou muito, tanto que a gente tem ganhado prêmios. Instituições que eram mais tradicionais como a Funarte têm apoiado. Ninguém sabe direito o que é, mas estão abrindo um espaço. Os bancos já haviam começado a apoiar. Aquele é um prêmio do Rumos, do Itaú Cultural (aponta para um tipo de tijolo com a palavra “Rumos” iluminada e em movimento constante).

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Qual o objetivo do projeto Wikinarua? O Wikinarua é temático e visa à comunidade. Arte na rua, o meio ambiente, patrimônio histórico, histórias...Isso difere de outras redes sociais. Um dos objetivos é chamar a atenção das autoridades para aquilo que está colocado lá. Então, às vezes o que as comunidades acham que é um patrimônio histórico não é o que é considerado pelas autoridades. Ele tem uma missão que é dar a palavra, o espaço midiático, para que comunidades carentes possam interagir entre eles e também possam divulgar o que está acontecendo, para transformar a própria sociedade. A arte é um motor de transformação da sociedade, não é assim expressão, como a gente ouve falar. Ela movimenta o social. Por isso, temos esse trabalho ativista. O ­Wikinarua não é só colocar na rede e deixar. A gente faz oficinas e qualifica as pessoas das comunidades para que a coisa aconteça realmente. Nós estamos recebendo propostas e também participando de um edital do CNPq para participar do UFA, o projeto de um computador por aluno. Queremos estender os serviços, temos a TV e queremos fazer um ciberrádio, em que a comunidade possa fazer a sua própria programação. Queremos ampliar as propostas, o projeto não parou.


Então, o artista deve ser ativista? Sim. Acho que havia um mau entendimento dos historiadores ao colocar as artes como uma expressão da sociedade, porque não é só isso. A arte deve participar da sociedade, e não ser produzida apenas por uma elite. Estamos apenas intermediando esse processo. Quanto mais artistas houver, melhor fica uma sociedade. É a democratização da cultura com a arte em outros meios, que não sejam somente galerias e museus. E como está Brasília no panorama das artes e tecnologia?

Quais são os planos do laboratório para o futuro? Queremos continuar com essa proposta interativa, participando das festividades de Brasília, como fizemos no aniversário da cidade, no Museu da República, em que usamos controles de Wii para criar músicas na hora, enquanto imagens eram projetadas. Vamos continuar com o Wikinarua e com a qualificação para que estas pessoas sejam artistas, para fazer com que surja algo diferente. Ainda não sei o quê. Talvez trazer algo para o campo da música, com uma proposta de estética diferente. Ainda não estou satisfeita.

Já fizemos o 9º encontro internacional de arte e tecnologia, no Museu da República. Isso faz com que muita gente venha pra cá para discutir o assunto. Precisamos divulgar mais para o exterior. Pelo menos trazer o pessoal de língua portuguesa para cá, os lusitanos, os africanos...

www.wikinarua.com 31


DiversĂŁo, atitude e vontade de fazer algo diferente: trĂŞs elementos que uniram mulheres do DF para fazer mĂşsica de qualidade, seja no samba, no rock ou no electro.


texto MAYRA RESENDE foto VITOR SCHIETTI e ARQUIVOS DAS BANDAS

“Você não passa de uma mulher”. O trecho é de um samba de Martinho da Vila, mas pode ser interpretado em diversos ambientes sociais, inclusive no palco. É provável que cada leitor tenha ao menos uma amiga que toque algum instrumento, componha ou até mesmo tenha como principal atividade de trabalho o envolvimento direto com a música. Porém ainda não vemos essa diversidade tão refletida nos palcos. Em um meio que ainda é amplamente masculino, três bandas se destacam no cenário musical do DF. O SaiaBamba contou para a Nil um pouco da trajetória de cada integrante na música, mostrando que um bom samba é feito também em rodas de mulheres. Compondo esse cenário ainda reduzido de bandas exclusivamente femininas, mas nem por isso menos diversificado, apresentamos também um pouco do trabalho da Estamira com seu metalcore e da ElectroDomesticks, que vem agitando o público com um misto de electro e rock.


Dos encontros musicais entre amigas que compartilhavam a paixão pelo samba, surgiu um projeto de atitude que cativou rapidamente o público brasiliense. Com pouco mais de um ano de formação e um som que mescla samba de raiz com pop, rock, funk, black e soul , o SaiaBamba já passou por casas de show de renome na cidade, como o Clube do Choro e o Feitiço Mineiro, sempre com lotação máxima. “Esse crescimento foi todo muito rápido. Cada etapa parecia muito garantida, os contatos que eram feitos já traziam outros projetos. Pelo que eu ouvia (do cenário musical), achava que ia ser mais lento”, conta Ju Rodrigues. “Achava que teríamos muitos shows particulares para, primeiro, ficarmos um pouco conhecidas e, depois, conquistarmos espaço aos poucos para shows em lugares mais tradicionais da cidade”, complementa.

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“A nossa intenção era fazer algo legal, com seriedade, mas nunca pensávamos que ia surgir tudo tão rápido e de forma profissional”, revela Cris La Plata. O clima familiar do grupo, que tem em sua composição irmãs e amigas, é fundamental não apenas para a harmonia da banda: um dos segredos para a conquista rápida do público é o apoio dos amigos que se encantaram com o trabalho. “O boca a boca foi fundamental para conseguirmos colocar em prática vários projetos. O blog, as fotos, o myspace, o som, tudo é feito com muita ajuda. As pessoas assistem aos shows e se animam, oferecem apoio mesmo”, conta Inaê Moraes. O entusiasmo do público é nítido nos shows, onde as músicas autorais podem ser ouvidas em alto e bom som cantadas pelos fãs que acompanham em coro.


e foi a vontade de participar do projeto que deu o gás pra que fôssemos atrás”, complementa. A identificação do público com a banda reflete também o fato de serem mulheres buscando conquistar espaço em um meio que ainda é amplamente masculino. A formação exclusivamente feminina sempre foi um desejo do grupo, desde os primeiros encontros para fechar o projeto. “Tem gente que se anima tanto e sente ali que, se quiser, pode tocar e fazer boa música também, independente do espaço ser mais tomado por homens”, relata Inaê. “Algumas mulheres que assistem aos nossos shows se animam tanto que em apresentações abertas (estilo roda de samba) se aproximam e pegam algum instrumento querendo tocar também (risos). Acho que passamos um pouco esse espírito, já que uma parte do grupo não tocava antes do SaiaBamba

O espírito “faça você mesmo” resume a atitude e a vontade de fazer um bom samba. “A Amanda (Rodrigues - irmã de Ju) chegou um dia lá em casa durante um ensaio nosso e eu disse que estávamos precisando de mais gente na ’cozinha’, com a percussão. Eu disse que precisávamos de tamborim, aí ela perguntou se eu ensinava e topou”, conta Ju. “Ela nunca tinha tocado nada. Chegou em um ensaio e a gente disse: vai tocando aí, canta o que souber e a gente vai segurando (risos)”, complementa Cris. Além de Amanda, Irene Egler, Tati Moraes e Inaê também correram atrás

para se familiarizar com os instrumentos. O aprendizado é facilitado durante os ensaios, onde trocam experiências e dicas, já que as trajetórias de cada uma no meio musical são diversificadas. Irene veio do rock e ultimamente mexia com MPB, como conta Ju: “A Irene é meio menina prodígio, toca de tudo. A família mexe com música, ela cresceu ouvindo muita coisa e trabalhava mais com MPB de uns tempos pra cá, com a Bia (Beatriz Águida, cantora também de Brasília). Antes disso, ela tocava rock. Um dia ela viu nossa banda e, como eu conhecia ela, joguei a ideia de participar, já que estávamos precisando de um surdo”.

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Tati também veio do rock, mas adorou a banda quando viu o show e começou a pensar em participar do projeto, mesmo sem ter tido muito contato com o estilo. “Eu acho que sou a que mais destoa aqui, já que estou aprendendo samba mesmo, agora, no SaiaBamba. Eu sempre fui do rock, inclusive participei um tempo da ElectroDomesticks. Aí fui ver uma apresentação do SaiaBamba e achei aquilo fantástico! O público, aquela energia, eu queria participar daquilo quando vi. Resolvi falar com a Itana, sondar se precisavam de mais alguma percussão e fui estudando as músicas no tantan”, conta.

fui gostando cada vez mais. Adoro estudar, entender e aprender a teoria musical, então é ótimo poder aplicar isso também com a banda”, revela.

As irmãs Itana Moraes e Inaê, assim como boa parte do grupo, também cresceram em um ambiente muito musical. Inaê mexia mais com dança e, quando sua irmã lhe convidou para compor o grupo, não sabia tocar percussão, mas foi estudando e aprendendo. Já Itana sempre mexeu com vários instrumentos e tocava violão nas rodas de samba que deram origem ao projeto do SaiaBamba. Para Cris, esses encontros também alimentaram ainda mais o interesse que sempre teve pelos estudos musicais. “Eu tocava violão, comecei a cantar em coral, mas eu queria estudar mesmo, entender o que fazia. Comecei a estudar violoncelo, peguei o cavaquinho nas rodas de samba que fazíamos e

Os planos da banda para este ano sustentam ainda mais essa trajetória que, tudo indica, será duradoura. O grupo tocou recentemente nas comemorações de aniversário de Brasília e entrou oficialmente nas programações de baladas da cidade, animando as noites de quarta-feira no Calaf, dentre outras festas. “Agora vamos investir mais em material de divulgação, principalmente com gravações”, revela Ju. “Queremos também expandir nosso trabalho pra fora do Plano Piloto, tocar nas satélites e em outras cidades”, complementa. Se depender do apoio fiel do público que acompanha o trabalho do SaiaBamba e da dedicação dessas sambistas, o grupo vai longe.

A letrista Ju Rodrigues conta que sempre se envolveu com música e tinha composições próprias, mas sem um projeto fixo para poder mostrar o próprio trabalho. “Eu fazia umas apresentações aqui e outras ali em bar, até em um trio elétrico uma vez, mas tudo bem amador. A banda foi o primeiro projeto, mesmo, mais fixo e que a gente deseja ser de longa duração.”


O grupo, formado somente por mulheres, é composto pelas irmãs Ju Rodrigues (voz e pandeiro) e Amanda Rodrigues (tamborim, cajón e vocais); Itana Moraes (voz e violão) e Inaê Moraes (ganzá, meia-lua e vocais); além das amigas Cris La Plata (cavaquinho e vocais), Irene Egler (surdo e vocais) e Tati Moraes (tantan e vocais).

www.myspace.com/gruposaiabamba http://saiabamba.blogspot.com Twitter e Facebook: SaiaBamba

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Estamira Composta exclusivamente por mulheres desde sua formação em 2007, a Banda Estamira apresenta um som de peso, inserido no metalcore, e ocupa um espaço que nem sempre foi destinado à presença feminina, no meio Rock’n’Roll: o palco. “Queremos subir no palco e não queremos ser amadas só porque somos uma banda de mulheres ou odiadas só por isso. Queremos que olhem uma banda subindo no palco e, após nos ouvirem, decidam se gostam ou não”, definem. O grupo, sempre fez questão de prestigiar não apenas as bandas do DF, mas também apresentações que fossem para além do Plano Piloto. Participaram de festivais importantes do cenário independente, como o II Encontro Hardcore Extremo Oeste (Cuiabá/MT), o 24º Ferrock (Ceilândia/DF), a 5º Quaresmada, Rock Sem Fronteiras, XII Porão do Rock e Móveis convida + Rolla Pedra (todos em Brasília/DF), além do 10º Rock Cerrado do Gama e Duelo de Bandas do Gama, quando venceram a disputa levando o 1º lugar. Para este ano, a Estamira já possui shows marcados em mais dois festivais no mês de Junho (Caça Bandas e Marrecos Fest) e pretendem continuar tocando para mostrar o trabalho em outras regiões do país, além de iniciar a gravação de um CD com as músicas autorais do grupo.

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Camila Soato (baixo), Clarissa Carvalho (guitarra), Ludmila Gaudad (vocal), Maiara Nunes (bateria) e Sara Abreu (guitarra)

www.myspace.com/bandaestamira Fotolog, Orkut (Comunidade), Twitter e Facebook: Banda Estamira

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ElectroDomesticks Com pouco mais de um ano de formação, a ElectroDomesticks vem participando de festivais importantes da cena independente nacional, como o Grito Rock (DF), Brasília Outros 50 (DF), Festival Volume (MT) e Rock das Garotas (MG), além de terem tocado recentemente nas comemorações de aniversário dos 51 anos de Brasília. A banda surgiu da vontade de fazer um som para se divertir, misturando rock e eletrônico, e foi ganhando inúmeros fãs conforme iam se apresentando. O apoio e apreço do público deram um “gás” para o projeto decolar. A banda já lançou um EP (Colors from inside) com quatro faixas autorais e tem recebido elogios de ouvintes da Alemanha, França, EUA e outros públicos estrangeiros. Pretendem, neste ano, continuar com a produção de novas músicas autorais e gravar o CD da banda para ampliar a divulgação do trabalho.

www.myspace.com/electrodomesticks Twitter: @banda_ED Youtube e Facebook: ElectroDomesticks

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Gravado na memória

A memória de uma cidade faz parte de sua identidade e da identidade de seus habitantes. Mas, Brasília, depois de 51 anos, parece um álbum de figurinhas incompleto. Por isso, a Nil criou esta seção para homenagear os artistas e ativistas culturais que se destacaram na criação de uma capital da Arte. por PATRÍCIA COLMENERO|fotos ESTÚDIO CAJUÍNA


Lêda Watson tem quase quatro décadas de atividade em arte e cultura em Brasília. Depois de ter se especializado em gravura em metal no Rio de Janeiro e de ter vivido e trabalhado em Paris, Lêda chegou à capital, em 1973, com a qual sonhava desde sua fundação: “Eu tinha um primo que era colaborador do Niemeyer, então eu acompanhava a construção de Brasília”, comenta a artista. A gravurista, em solo brasiliense, investiu no trabalho de arte-educadora. “Tenho obrigação, na cidade que eu adotei e que gosto muito, de passar o meu conhecimento para frente. É uma obrigação moral.” Depois de ministrar um curso de extensão, na Universidade de Brasília, recebeu vários alunos que insistiam na continuidade do trabalho e abriu a Escola de Gravura. “Eles ficaram muito apaixonados e queriam continuar, mas lá não podia mais. Então o máximo que eu podia oferecer era o meu ateliê, que era uma salinha que eu usava para trabalhar para mandar minha obra pra Paris e não tinha como eu recebê-los. Mas eles disseram: ‘não,

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você tem que nos acolher’. Então, os alunos começaram a aparecer e foi ficando cheio. Eles acabaram alugando o resto das salas daquele andar e nós formamos o primeiro Núcleo de Gravadores de Brasília”, conta Lêda, que investiu na escola durante 12 anos, apesar da mensalidade não cobrir nem o que ela gastava com material importado da Europa. Nessa época, ela fundou, também, o primeiro Clube de Gravura de Brasília. “Éramos 26 gravadores profissionais. E foi um sucesso. Nós éramos muito organizados, porque não dá para ser gravador e não ser organizado. Então, qualquer evento do governo que tinha, eles chamavam a gente, porque era tudo certinho, tudo funcionava”, diz Lêda, que já lecionou para mais de 300 alunos e já organizou ou participou de 151 exposições durante sua carreira. A Escola de Gravura teve suas atividades encerradas durante alguns anos, mas em 2002 Lêda voltou a lecionar, desta vez no ateliê de sua casa, construída no estilo mediterrâneo. “Eu era muito sozinha e tinha que trabalhar também no meu material. Então, eu disse que se ninguém queria trabalhar comigo, eu ia fechar o estúdio. E ninguém queria trabalhar, todo

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mundo queria usufruir. Sabe como é brasileiro, né? E aí eu fechei. É uma pena... eu tenho tudo guardado, os estatutos e tudo. Mas agora as minhas alunas estão querendo retomar isso. E eu não paro de dar aula, né. É minha paixão. E de lá pra cá fazemos exposições anualmente. Fizemos duas no Daniel Briand, na Aliança Francesa e uma no meio de maio deste ano, na casa Thomas Jefferson.” Além de professora, Lêda Watson também participou de uma comissão de seis pessoas que criaram o MAB (Museu de Arte de Brasília) em apenas seis meses. “O governador Ornelas estava para terminar o mandato e resolveu que queria deixar algo na gestão dele para cultura. Ele adaptou uma mansão desativada para fazer o MAB. Nós precisávamos abrigar a coleção da fundação cultural que guardava, de forma precária, todo material de exposições que já tinham ocorrido na capital. Montamos o salão no casarão e o MAB foi inaugurado em 1985, com acervo e catálogo e eu fui administradora do museu por um tempo. O MAB foi uma atitude do governador para cidade”, conta.

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YIN X YANG 2007

Atualmente, o museu está em reforma por tempo indeterminado e o seu acervo foi levado para o Museu da República. “As obras necessárias para a real adaptação pra museu não foram feitas, porque não alocaram a renda pra isso. Chegou um ponto em que o local teve de ser interditado porque as obras estavam correndo risco. A Associação dos Amigos do Museu foi recriada para lutar pela verba de recuperação do museu. Nós estamos lutando para terminarem as reformas e devolverem o acervo”, afirma a gravurista militante. “A memória desta cidade está indo pelo ralo. Só se lembram do JK, que foi um grande homem, mas não foi o único. Vocês acham que as coisas poderiam existir do nada? A cidade é a soma de todos os artistas e toda essa produção deveria estar em algum lugar. O Museu da República era para se o Museu da Cidade. Não seria nem de arte, porque, pra isso, já tínhamos um museu. Eu participei da criação. Mas

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museu de arte tem mais ibope, mais público, então acabaram fazendo mais um museu de arte”, defende a ativista. Depois do trabalho com o MAB, Lêda colaborou na elaboração do estatuto para criação da Secretaria de Cultura do DF e foi a sua coordenadora de museus, durante seis anos. “Eu fui coordenadora de todos os museus do GDF. Eu fiz cursos de capacitação das pessoas que trabalhavam nos museus, porque elas não entendiam nada do assunto. Então, nós realizamos cinco ou seis módulos com os melhores museólogos do Brasil de cada área e colocamos todos os museus para participarem. Os cursos foram executados sem que a Secretaria pagasse um tostão. O dinheiro das inscrições era pago por cada museu. Foi um programa de capacitação sem gasto que chamou muita atenção e virou um modelo”, lembra Lêda.


Para conhecer mais o trabalho e a história de Lêda Watson, é possível ler o livro Sonhos, Momentos, Emoções: técnicas e gravuras, escrito pela própria gravurista e lançado em 2008. “Escrevi o livro em quatro anos e eu mesma me surpreendi com o tanto de coisas eu tinha feito”, fala a artista que, ao final da entrevista, quer garantir: “Vocês têm que contar essa história, porque ela nem foi escrita para ser esquecida. E os jovens precisam saber sobre o que foi feito em Brasília e precisam passar isso para frente”.

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compondo o cenรกrio urbano tatuando o corpo coletivo texto CLARISSA GIANNI


Obra de Viti


Graffiti, pichação, performance, desenhos, estêncil, lambe-lambe... As intervenções urbanas apresentam-se como uma linguagem artística viva, orgânica e em sintonia com os habitantes das cidades. Este dinamismo é tão evidente que o próprio termo “intervenção urbana” acaba sendo questionado por artistas e pesquisadores da área. Bia Medeiros, coordenadora do grupo Corpos Informáticos (Grupo de Pesquisa existente desde 1992, sobre arte contemporânea, arte em tecnologia e arte da performance) usa o termo composição urbana, em vez de intervenção urbana: “ porque não é uma intervenção, e sim uma composição. A arte é parte da vida, logo, ela não interfere na cidade, na natureza. Ela compõe, participa...” , explica a artista, cujas pesquisas e

trabalhos são referência, e a agenda do grupo está sempre cheia com exposições, performances, festivais e workshops. A cidade é um organismo vivo, composto pelas tensões sociais, pela tecnologia, pelo consumo, pela política. Ela é, de fato, um corpo, mas um “corpo coletivo, um corpo urbano. O corpo é o limite, que é onde separa você de mim, o pessoal do coletivo. É a última fronteira. Os muros da cidade são como nossa pele, e é ali que nos comunicamos e nos expressamos, com tattoos, com gestos, com desenhos”, reflete Taiom, tatuador e artista de rua, cuja tese de graduação, “Tatuagem urbana e Pixação humana”, relacionando corpo humano com corpo urbano, já está virando referência no campo acadêmico e artístico. Trabalhos do grupo Corpos Informáticos

“A reflexão sobre uma obra é feita com o corpo inteiro e com todos os sentidos. É arte aquilo que te surpreende.” Bia Medeiros


Cada artista encontra uma forma de interagir com o público, de deixar sua marca na “epiderme urbana” - como diz Taiom - e, assim, impactar de alguma forma as pessoas, fazê-las refletir. Uma das vertentes do trabalho de Taiom é sobre tatuagens de cadeia e de gangues. Com essa pesquisa, o artista cria formas de inseri-las no contexto urbano, como, por exemplo, o código de tatuagens da máfia russa Vor v Zakone. As prostitutas da máfia tinham uma tatuagem feita à força, sobre o seio ou em outra região íntima, que assegurava que aquela mulher era livre de doenças sexualmente transmissíveis. A marca era o selo de qualidade do governo da União Soviética. Tendo essa pesquisa como base, Taiom criou um estêncil com a logomarca do INMETRO, na cor azul (cor utilizada para assuntos de saúde) e escolheu o local de Brasília popularmente conhecido pela movimentação de prostitutas durante a noite, para marcar a cidade com o Selo INMETRO de Prostituta Limpinha: “Não tem nada que diga que ali naquela quadra é o setor de prostitutas, mas as pessoas sabem. A falta de fiscalização, a localização, o horário, o fluxo de gente... Usando essas brechas do sistema é que as pessoas, inclusive o grafiteiro, se instalam. E o que eu queria com esse meu trabalho era deixar um rastro visual disso que acontece. Não é uma manchete de tablóide, sensacionalista, é apenas uma marca, um detalhe. O que eu acho legal é usar a cidade pra quem vive na cidade. A marca é feita naquele canto pra ser vista por quem passa naquele canto”.

“O sentido da minha arte não é escancarado como uma manchete de jornal. São detalhes implantados que vão ser percebidos ou não.” Taiom Trabalhos de Taiom

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A cidade e seus habitantes não são apenas objetos, mas são também participantes e componentes dessa linguagem artística. É por isso que o uso e a escolha do espaço são essenciais na street art, como explica o grafiteiro Gabriel Marques (ou PLIC, como é conhecido): “A escolha do local está completamente vinculada à minha manifestação artística. Adoro locais com grande circulação de pedestres e locais que sugiram situações. Locais com muitas intervenções, com pichações ou muito destruídas ou abandonadas também são interessantes de se pintar, pois uma pintura leve e lúdica em um lugar assim causa uma transformação no estado de espírito de uma pessoa que passa por esse local, principalmente os que passam diariamente”.

Sua participação em diversos festivais e suas obras - que ilustram diversos pontos do país, como também fora dele - provam isso, como seu trabalho no Projeto Fora do Eixo deste ano (maior evento de intervenção urbana e arte contemporânea do centro-oeste e um dos maiores do Brasil), chamado Penitenciária/Galeria de Arte: “uma obra que busca o diálogo entre a arte que ‘mora na rua’ com a arte que ‘vive presa’ nas galerias. Ela foi exposta na vitrine da galeria, um espaço que se mescla com o exterior do prédio, em frente a W3 Sul, uma das vias mais movimentadas por carros e transeuntes em Brasília”.

“Tenho procurado buscar referências nas minhas próprias vivências, um exercício de externalizar pela minha arte o que tem de mais original em mim. E percebo que isso também gera identificação das pessoas, já que são percepções completamente humanas.” Viti


E, de fato, dificilmente um muro grafitado é despercebido ao se passar de carro por ele, ou uma frase escrita na calçada é ignorada no caminho da padaria. Viti, que atua principalmente na área de pintura e desenho, descreve o seu papel e o impacto social da sua arte: “Pintar na rua traz uma experiência sociológica, existe um contato com as pessoas, com o meio onde as pessoas vivem. E eu me sinto num papel de certa responsabilidade, por ser um lance forte que acaba invadindo e interferindo de alguma maneira na vida das pessoas que passam a conviver com aquela pintura ou o que for. Essa pintura pode ser interpretada de infinitas maneiras, e não pede licença pra entrar. Penso que, quando ela vai pra rua, acontece um choque mais forte, um estranhamento, é mais agressivo, é quase assim: tu sai na rua e, quando menos espera, toma um ‘soco na cara’”, conta o artista, residente em Florianópolis, cujos trabalhos colorem muros, estampam livros e ilustram murais no Brasil e no exterior.

Trabalho de Viti

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Cada pessoa tem opiniões, particularidades, conceitos, hábitos, gostos. Essa individualidade gera um coletivo de reações, uma pluralidade de energia, que faz com que as intervenções urbanas sejam constantemente questionadas, acusadas, marginalizadas, apreciadas, odiadas, admiradas. E é esse o objetivo geral: causar reação e reflexão. Bia Medeiros retrata tal questão contando sobre uma intervenção feita com um balanço de 11 metros instalado na rodoviária: “As pessoas olham aquilo e perguntam: ‘O que é isso? O que vocês estão fazendo?’, e enquanto você não responder, você está na vida. Mas se você responder: ‘É arte’, a pessoa que não tem o hábito de ir nos museus, de ir na galeria, que considera esses espaços como espaços da elite, em que eles não são convidados, essas pessoas imediatamente criam uma redoma virtual e separam a

arte da vida. Você não pode falar o que é. O ideal é perguntar pro espectador: ‘O que você acha?’, e gerar reflexão. Se você dá uma palavra-chave, eles não querem mais pensar”. É, portanto, fácil perceber porque tirar a arte dos espaços institucionais e fazer da cidade uma galeria ou um palco a céu aberto é tão importante para estes artistas (e para, pelo menos, uma parte da sociedade. Afinal, há quem ame, há quem odeie): “Essa linguagem artística é necessária porque as pessoas não têm tempo de sair de sua rotina e enxergar além daquilo. Quando você coloca um elemento diferencial, você retira essa pessoa de um cotidiano maquínico”, expõe Bia Medeiros, acrescentando, ainda, “Se você está com os sentidos despertos, você consegue enxergar o mundo de forma diferente.

Trabalhos de Plic

“O trabalho busca provocar nas pessoas novas maneiras de perceber o cenário urbano, transformando a paisagem branca e concreta das cidades em um ambiente vivo e lúdico, estimulando novas relações afetivas com a cidade.” Plic


Gabriel Marques http://www.flickr.com/photos/gabmarx/ Taiom http://taiom.blogspot.com/ Bia Medeiros http://corpos.blogspot.com/ Viti http://www.vitiworks.com/


FAROESTE CABOCLO texto GABRIEL CAMATTARI | fotos ESTÚDIO CAJUÍNA

Não teve medo o tal René Sampaio, foi o que todos disseram quando ele tornou pública a sua vontade de recontar nas telas a célebre composição de Renato Russo. A ideia de se fazer um filme baseado na saga de João de Santo Cristo já pairava pelos ares da capital desde 1987, quando a canção foi lançada. Afinal, a letra épica é tão bem estruturada que fica fácil imaginá-la nas telas de cinema. Agora, a obra finalmente começa a sair dos planos da imaginação e da palavra cantada para se concretizar numa produção audiovisual do maior porte que Brasília já viu.


Fabrício Boliveira como João de Santo Cristo


O filme

Felipe Abib (como Jeremias)

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A história segue a vida de contrastes de João, desde sua infância até sua morte, num duelo estilo Western em frente ao lote 14 da Ceilândia. Apesar da obra original estar repleta de retratos e críticas sociais, a versão filmada pretende se focar na história do protagonista, em sua personalidade dicotômica, em suas difíceis escolhas e em sua relação de amor e ódio com a vida e o mundo. Segundo Marcello Maia, um dos produtores do filme, “não se trata de mais uma história de traficantes nem de brasileiros que vieram a Brasília em busca da ‘Ilha da Fantasia’, e sim de uma tragédia bastante realista sobre um ser humano que cumpre, com a garra e a determinação de quem quer existir e ser alguém visível, o seu destino de dificuldades”. Dificuldades, aliás, que não marcam apenas o aspecto fictício do filme, mas todo o esforço envolvido em sua realização.


Os desafios da produção, como geralmente acontece na indústria do cinema, já resultaram numa saga que merece ser contada à parte. Que é tarefa difícil e demorada produzir um longa-metragem no Brasil não é novidade, muito menos quando o orçamento ultrapassa seis milhões de reais, como é o caso. Mas a corrida por patrocínio, embora cheia de obstáculos, provou não ser infrutífera. Desde o desenvolvimento do roteiro, iniciado em 2006, esta corrida durou cinco anos até que atingisse o estágio de filmagem. Foi por meio de editais públicos e incentivos por parte de iniciativas privadas que a produção executiva do filme conseguiu reunir os recursos necessários para o orçamento previsto. Mesmo assim, segundo Marcello, ainda faltava parte da verba até poucos dias antes do início das filmagens. O projeto do roteiro passou pelas mãos de três roteiristas e vários outros colaboradores e consultores até que pudesse ser finalizado para as filmagens, o que acabou levando cerca de quatro anos. Foi um processo longo e difícil, pois embora exista a noção de que a letra de Faroeste Caboclo é um roteiro pronto para ser filmado, os realizadores garantem que não é bem assim.

Em termos de coesão da narrativa, a abordagem musical tem uma liberdade muito maior que a cinematográfica, e isto gera algumas lacunas que devem ser solucionadas na elaboração do roteiro. Por exemplo, existe o enigma por trás de Maria Lúcia, a boa moça que tira Santo Cristo do mundo do crime, e sua decisão de trocá-lo por Jeremias, o grande antagonista da trama. De forma semelhante, como confidenciou René em entrevista coletiva, outros pontos cruciais da trama, muitos dos quais não detalhados na obra original, serão explorados em maior profundidade no filme. Sua ideia é que, apesar da conexão óbvia com a música, o filme possa sobreviver de forma independente, e não que se torne um simples complemento visual da canção. Inicialmente, o diretor visava trabalhar com atores que não trouxessem consigo um conjunto de referências visuais do público. Porém, também não queria impedir que atores bem conhecidos passassem pelo teste de elenco, caso tivessem interesse. A saída foi organizar um elaborado processo de seleção: duas oficinas de três dias com cinco candidatos para cada um dos papéis principais, além de uma oficina final para confirmar as escolhas.

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Outro grande problema enfrentado pela produção foi o período histórico do filme. Para reduzir os custos, a produção admite que considerou trazer a história para os dias de hoje. No entanto, René e Marcello sentiram que o filme perderia bastante da fidelidade à obra original e preferiram gastar mais para reconstruir visualmente o Brasil das décadas de 70 e 80. O sertão do país, onde começa a saga, pode não ter sofrido tantas alterações, mas Brasília certamente não é mais a mesma. A Ceilândia dos anos 80, por exemplo, ainda em ocupação e numa situação de miséria e falta de infraestrutura, (felizmente) não permaneceu inalterada. Portanto, a produção preferiu utilizar outra cidade-satélite, o Jardim ABC (DF), onde ainda figuram barracos de madeira e falta pavimentação. Para as outras cenas que também se passam em Brasília, a equipe pesquisou e encontrou locais que preservam as características originais daquele período, como algumas quadras da Asa Sul, a rodoviária do Plano Piloto e a Universidade de Brasília.

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Em termos de apresentação visual, René pretende marcar os contrastes da vida do protagonista através do trabalho de câmera. Para as cenas da infância de Santo Cristo, por exemplo, o diretor irá utilizar planos estáticos e mais contemplativos com a câmera sobre o tripé, enquanto que, para as cenas conturbadas de sua vida adulta, a técnica escolhida é mais documental, com a câmera carregada na mão. As cenas que retratam a relação amorosa com Maria Lúcia, elemento-chave do filme, serão expostas com muita delicadeza, planos fora de foco e abordagem romântica. A cena do duelo final, por sua vez, inspirada pelas obras de faroeste de Sergio Leone, será apresentada com uma justaposição de planos superabertos e superfechados, com trechos longos e muito silêncio.


Para compor a equipe do projeto, foram abertas dezenas de vagas (embora temporárias), muitas das quais preenchidas por membros brasilienses da geração Coca-Cola que nunca haviam tido a oportunidade de participar de um projeto desse porte. Como ressalta Bárbara Rocha, coordenadora de produção, “não dá para entender por quê Brasília ainda não se tornou um pólo de cinema no país, pois gente qualificada, vontade e talento não faltam”. E isto é fácil de se provar, ou não são os próprios Renato e René excelentes exemplos de manifestação artística na juventude candanga? E se o desafio do primeiro foi conseguir ultrapassar a censura da época para lançar sua obra, o de René é reforçar no resto do país que na capital também é possível fazer arte.

René diz ter o desafio em mente de transformar em filme os 150 versos do ícone do rock nacional. Promete dar o melhor de si e exigir o máximo de sua equipe para que os fãs possam se emocionar ao assistir na telona a jornada do tal João de Santo Cristo. Então, pode ser que o país se lembre do que João tanto queria quando veio para Brasília com o diabo ter. Quem sabe a mensagem não alcance a presidente dessa vez? Se a catarse valer, talvez ela até realize o desejo de Santo Cristo e ajude de fato toda essa gente que só faz...

Atores no set de filmagem

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Sobre o Faroeste Caboclo Composta em 1979, mas lançada somente em 1987, no álbum Que país é este? Possui 168 versos e dura 9’3”, mas não é a canção mais longa da banda Renato Russo tinha apenas 18 anos quando escreveu a letra A canção foi censurada na década de 80 por conter palavrões

Acompanhe os bastidores em

www.faroestecaboclo.com.br

Ísis Valverde (como Maria Lúcia)

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Equipe

Diretor Estreando no universo dos longas-metragens com Faroeste Caboclo, o brasiliense René Sampaio (38) foi estudante de comunicação na UnB nos anos 90. Escreveu e dirigiu vários curtas, dentre eles “Sinistro” (2000), premiado em todo o país, além das mais de 300 campanhas publicitárias que realizou. Produtora Com vasta experiência no teatro, Bianca de Felippes já trabalhou com produção e distribuição em parceria com Carla Camurati e diversos outros diretores. Agora, estruturou sua própria produtora, a Gávea Filmes, responsável pelo Faroeste Caboclo. Produtor Executivo O carioca Marcello Maia produz filmes há mais de 15 anos. Sua produtora, a República Pureza, já produziu títulos como “Um Passaporte Húngaro”, de Sandra Kogut, e “Amarelo Manga”, de Claudio Assis. Roteiro Depois de passar pelas mãos de dois roteiristas e vários consultores, a finalização do roteiro ficou nas mãos de Marcos Bernstein, que assinou os roteiros de “Chico Xavier” (2010) e “Central do Brasil” (1998).

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LANÇAMENTO NIL #01 22 de março de 2011 Brasília - DF

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Foram distribuĂ­das mais de 800 revistas

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Detallhe graffiti de autoria dos graffiteiros convidados, Jão e Drão, com apoio da loja Produções Klandestinas

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Concurso de Fotografia

3 Prêmios

R$ 3000,00 Participe!

Saiba mais nilrevista.com/concursodefotografia Inscrições a partir de 1˚ de agosto de 2011 71


PORTFÓLIO

 ANDRÉ YAMAMOTO, 25, PENÁPOLIS (SP) yamaink@gmail.com 12 8156.1582 www.flickr.com/andre_yamamoto

respira diariamente. Descarrego meus devaneios na atuação profissional, ou não.

Interesses Design, gastronomia, artes Profissão Designer Atuação Sou designer ou talvez um multiartista. Faço ilustrações, pinto alguns quadros, recorto e colo papéis, buscando algum sentido para tudo isso que a gente

Eu crio porque... assim posso dilatar a alma para que o Espírito possa se expandir.


 CARMEN SAN THIAGO, 35, BRASÍLIA (DF) carmen.santhiago@gmail.com 61 9279.8655  Ateliê Caixa do Olho 61 3542.8655

e Assistente de Direção para o Filme Jardim Atlântico (RJ e PE).

Interesses A vida, a natureza e a arte. Esportes em geral, adoro remar.

Profissão Designer e Artista plástica Atuação Professora da Faculdade Fortium (Design e Comunicação), Diretora de Arte para cinema e teatro. Últimos trabalhos: Oficina de Direção de Arte para alunos no Ponto de Cultura Mundo Olhares e Saberes

Eu crio porque... criar é inerente ao ser humano. Crio porque faz parte do meu cotidiano de deixar a minha vida mais colorida e lúdica.


 ROBERTO ALVES, 24, VILA VELHA (ES) roberto@estudiohappy.com.br 27 3062.5805 estudiohappy.com.br

voltado para projetos manuais (ilustrações fotográficas e manuais), além de direção de arte para campanhas e peças publicitárias online e offline.

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Interesses Música, design, fotografia e arte de todos os estilos Eu crio porque... Pela felicidade e para fazer o que eu gosto.


 LOURENÇO CARDOSO, 30, BRASÍLIA (DF) lourencolimacardoso@gmail.com www.flickr.com/lourenco_cardoso/

documental, com cinco livros publicados e diversas exposições. Atualmente, leciono Fotojornalismo, Fotografia Publicitária e Antropologia Visual.

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 EVELYN YURI FURUTA, 24, BRASÍLIA (DF) yurifuruta@gmail.com Profissão Designer Atuação Atuo na área de design gráfico, elaborando projetos gráficos e diagramação de livros, materiais promocionais, livros digitais e ilustração. Todos os meus trabalhos relacionados a design de produto foram desenvolvidos dentro da UnB.

Interesses Existem muitas áreas de interesse dentro do design, mas minha grande paixão é a Ilustração. Eu crio porque... me é necessário. Para mim, a criação está relacionada à novidade, à quebra da monotonia, mesmo que ela seja resultado da combinação de vários elementos já existentes.


 LUCIANA BASTOS, 23, BRASÍLIA (DF) lulubastos@gmail.com 61 9985.9552 lucianabastos.carbonmade.com Profissão Ilustradora, Designer e Artista Visual. Atuação Formada em 2010 em Artes Visuais pela UnB. Profissionalmente, sempre trabalhei em áreas relacionadas à criação de imagens, principalmente design gráfico e ilustração, mantendo meu trabalho pessoal em

paralelo. Dentre minhas experiências, constam três exposições, uma publicação em revista e uma intervenção urbana.

Interesses Diários gráficos, aquarela, colagens, coleções, memórias, imagens sem lógica aparente. Eu crio porque... criar é pensar além dos limites da realidade que nos é palpável.


 SILVINO MENDONÇA, 23, BRASÍLIA (DF) silvinomendonca@gmail.com www.flickr.com/silvinomendonca Profissão Artista Plástico Atuação Colaboro com alguns projetos fotográficos internacionais e faço freelance de design gráfico.

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Atuação Nos últimos 10 meses, estagiei em uma agência publicitária. Atualmente, contribuo para duas revistas e me aventuro na vida de freela.

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 THIAGO FRIAS, 29, SÃO PAULO (SP) thiago.frias@gmail.com 11 9413.0881 www.thiagofrias.com Profissão Artista Plástico Atuação Já trabalhei como ilustrador de estampas para a marca francesa Oboo, criando um mural para

a agência Brain4ideas, para a Galeria Vertices Casa e colecionadores em projetos especiais.

Interesses Arte Contemporânea, RawArt, Street Art e Apachismo. Eu crio porque... é a minha verdade.


texto MAURO NUNES ilustração MAGENTA KING

Seu cérebro explode de ideias geniais, não postas em prática, postas à mesa como comida de gigantes famintos, como petiscos a porcos glutões. E você sorri. Sua vida gira em torno de algo que você não sabe o que é, nem por que é, e é sempre pesado demais carregar este fardo, mas você sorri. Você planeja viagens fantásticas, paisagens paradisíacas, que você nunca realiza, porque seu dinheiro não dá, mas ainda assim você sorri. Você conhece pessoas geniais, companhias agradabilíssi-

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mas, amigos sinceros, que te roubam enquanto você não vê, mas você continua sorrindo. Você assiste programas ridículos, que reforçam o quanto você é patético, e engole, ainda que engasgando, verdades que não são suas, verdades sempre dubitáveis, que você percebe que são mentiras, mas não pode falar, e mesmo assim você segue sorrindo. Você bebe cerveja quente, come comida fria, faz sexo seguro e se vacina, mesmo sem querer, mas você não para de sorrir. Do que você sorri?


VocĂŞ sorri de tudo, quase:

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Da sua miséria, da sua agonia, da sua vontade reprimida de gritar, de mandar tudo às favas, de correr pelado nas ruas, da sua burrice, das suas escolhas erradas, dos seus erros insanos, das suas tentativas frustradas, da piada sem graça, do trabalho insatisfatório, do chefe que engorda às suas custas, do café ralo, da cachaça amarga, do medo de ladrão. É tudo tão engraçado. Pena que você não se diverte. Mas na televisão as pessoas se divertem, no escritório ao lado seu colega (ainda que rival) não para de gargalhar, no bar seus amigos têm piadas (ainda que sem graça), seus filhos (ainda que chatos) adoram o novo videogame, seu vizinho (ainda que invejoso) está sempre alegre com o carro novo, na

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televisão (ainda que mentirosa) todo mundo sorri e tem dentes brancos. Do que você não ri? Você não ri do seu salário baixo, da gostosa que não te olha, do chefe rabugento, do cachorro que mija no seu sapato, do moleque que vende chiclete, do engarrafamento interminável, do seu time que perde nas oitavas de final, do carro que você não consegue comprar, do MBA que você não terminou, da promoção que você não conseguiu, da loteria que você não ganhou. Você foi feito para não rir disso. E obedece. E se você se distrai e ri do que não é engraçado, chora do que é risível, você é taxado, medicado, analisado, diagnosticado e enquadrado. Ressocializado.


Aqui só se ri do que é engraçado.

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PRODUÇÃO MUSICAL E ARTÍSTICA QUALIDADE E GARANTIA

(61) 3042-2546 | 8505-9100 diamante.contato@gmail.com

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INFO

Daniel “Titi`s” Galvão 61 8465.5957 danielmendesgalvao@gmail.com www.coroflot.com/titi

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Estúdio Cajuína 61 9844.6887 estudiocajuina@gmail.com www.estudiocajuina.com

Magenta King 11 7265.1182 magentaking@gmail.com www.magentaking.com

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Grande Circular 61 3202.9717 contato@grandecircular.com www.grandecircular.com

Thais Erre 61 9965.2910 donatatah@gmail.com www.flickr.com/jaboticabayeux Vitor Schietti 61 8177.0879 vitorschietti@gmail.com www.vitorschietti.com

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Nil #2  

Edição junho/julho da Revista Nil

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