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ALFARRÁBIOS DA AMÉRICA LATINA Primeira edição tiragem: 1000 exemplares

Junho de 2010 Distribuição Gratuita

VOCÊ PODE SER FILHO DA DITADURA CONTORNO CARLOS MARIGUELLA MÁRTIRE DA RESISTÊNCIA REGISTRO CONTOS DE SOBREVIVENTES PERAMBULO MEMORIAL DA RESISTÊNCIA BARRADOS É PROIBIDO PROIBIR?


Distorcer a visão em grande parte negativa e incentivar o envolvimento dos jovens nas questões políticas é o propósito da Revista Alfarrábios da América Latina. E para começar, o que significa Alfarrábios? A escolha do nome foi baseada em seu significado, “Livro antigo, de leitura enfadonha” (Michaelis, 2010, online), já que a revista irá revirar o passado o trazendo para o presente. Afinal, resgatar a história política de nosso país é tão importante quanto exercer nosso papel de cidadão nos dias de hoje. Mas esse veículo não se limita apenas aos caminhos políticos do Brasil. É necessário saber o que se passou e como está à casa de nossos vizinhos. Logo, o leque da revista abrange os países da América Latina. E nossa proposta vai muito além. Os temas abordados em suas editorias provam ao leitor o quanto é importante valorizar a liberdade que temos hoje, que permite nos expressarmos abertamente sem censura, característica marcante da Ditadura Militar. E por falar em Ditadura, esse é o foco da primeira edição da revista que afirma: “Você pode ser um filho da Ditadura”. E porque não? Afinal esse período sanguinário, que no Brasil teve início na década de sessenta, terminou na década de oitenta, quando nascia a maioria do público da revista. Mas a leitura também é valida para os avós, pais e netos da Ditadura, pois, para quem passou por esse período é importante olhar para trás e ver que ele acabou e para quem não o conhecia a fundo é importante ler a respeito para valorizar a luta de seus antecessores. Essa edição traz matérias e entrevistas com personalidades marcantes dos anos de chumbo, fatos e expressões curiosas aos olhos dos jovens que nem se quer devem ter ouvido falar em Anistia, Esma, Doi-Codi, DOPS e DINA. E para os curiosos de plantão, tem dicas de passeios culturais que preservam a memória do período militar, além de charges para dar um toque de humor à leitura. Bem vindo a um baú de informações!

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ALFARRÁBIOS DA AMÉRICA LATINA

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editorial

Expediente A Revista Alfarrábios da América Latina é uma publicação trimestral, com distribuição gratuita nas Instituições de Ensino Superior. Ano 1 – Edição 1 – Junho/Agosto 2010 Conselho Editorial Editora Chefe: Alessandra Dias Reportagem: Alessandra Dias André Fernandes Antonio Vidal Daniela Aparecida Gilsilene Silva Valquiria Silva

Projeto Gráfico e Diagramação: Antonio Vidal Revisão: Os artigos assinados são responsabilidade de seus autores.

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Impressão: Email: memoriaeverdade@gmail.com


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EM FOCO

LUTA POR JUSTIÇA: onde estão nossos filhos e netos?

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PERAMBULO

MEMORIAL DA RESISTÊNCIA: uma visita ao passado

ÍNDICE

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BARRADOS

É PROIBIDO PROIBIR? Novelas: A censura parece não ter fim

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CONTORNO

CARLOS MARIGUELLA ÍCONE DO COMBATE A DITADURA NO BRASIL

VIDA REAL

Elas resistiram: “pau de arara nunca mais” gritou Aura Moretti

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RESGATE

Vala Comum: no cemitério de Perus uma esperança para as familias dos desaparecidos

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DESAPARECIDOS

CASO Stuart Angel: A luta de uma mãe pela verdade

Revista Alfarrábios da América Latina Edição - I Ano - I Distribuição gratuita

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CHARGES


EM FOCO

Imagens Publifolha

Luta por justiça: onde estão nossos e filhos e netos? Alguns anos após regimes militares terem sido banidos da Argentina, Brasil e Chile pais e avós ainda procuram por desaparecidos Por: Gilsilene Silva

Testes de DNA ajudam a desvendar um místerio duro e doloroso para parentes de desaparecidos políticos 6


ALFARRÁBIOS DA AMÉRICA LATINA

Imagem Publifolha

Após 20 anos de ditadura, o país precisou de fôlego para se reerguer. Traumas e medo assolaram brasileiros por alguns anos até que se sentissem à vontade para falar sobre o assunto. Muitas situações improváveis aconteceram neste período e foi difícil se acostumar com o término dele. Os direitos conquistados com a Democracia Brasileira tornaram nossos pensamentos mais livres. De fato, o tema “Ditadura Militar” ainda é um pouco obscuro aos jovens do século XXI. Nem todos se sentem livres: muitos injustiçados ainda clamam por um olhar da sociedade, pedindo exaustivamente para que o passado seja de vez escancarado para quem quiser saber o que aconteceu. Filhos e netos de pessoas que foram mortas e/ou torturadas ainda vivem este drama dia e noite. Muitos viram o assassinato de seus pais dentro de casa ou em uma esquina qualquer. Outros, simplesmente, desconhecem o paradeiro deles ou, ainda, foram adotados por militares quando bebês, em uma época em que não havia leis para punir o tráfico de crianças. Conhecer a verdade é o maior desafio destas pessoas. O livro Luta - Substantivo Feminino possui diversos testemunhos de violações ao corpo feminino. Centenas de mulheres foram estupradas durante as torturas e engravidaram. Muitas nunca mais viram seus bebês após o parto. Na Argentina, a Associação das Avós da Praça de Maio, entidade que luta para encontrar netos que foram levados pela ditadura, já encontrou 101 pessoas, filhas de presos políticos, que estavam desaparecidas e foram criadas por militares ou pessoas que os compravam por algum dinheiro.

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Mães da Praça de Mayo, Argentina Através de um banco de dados de DNA, elas cruzam informações e encontram seus filhos e netos. Muitos jovens, ao saberem que foram adotados procuram, a associação para fazer exames de DNA.


EM FOCO

Imagem Publifolha

Abel Madariaga encontra seu filho Recentemente, Abel Madariaga, secretário da organização Avós da Praça de Maio, foi presenteado com esta “sorte”. Seu filho desaparecido procurou a associação para fazer um teste de DNA, após descobrir que havia sido adotado ao nascer. Ele relatou que seu pai adotivo cometeu abusos a ele quando criança. Abel conheceu seu filho após 32 anos do nascimento. A esposa de Abel foi presa pelo regime quando ainda estava grávida e, em seguida, ele teve de se exilar. Na volta, ele lutou continuamente para encontrar sua mulher e filho, sem sucesso até pouco tempo atrás. Em fevereiro deste ano, Pai e filho puderam se conhecer. O ex-oficial militar que criou o rapaz, Victor Alejandro Gallo, foi preso e está sendo investigado por tráfico de crianças. Em países como Chile e Argentina, os arquivos da Ditadura já foram abertos e algumas pessoas que praticaram tortura foram parar nos tribunais. No aniversário de 34 anos pós Ditadura Militar, quando foram discutidos casos de desaparecimento de crianças durante o período, a Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, pediu para a justiça acelerar o julgamento de repressores e inaugurou o Centro Cultural Haroldo Conti, que exibirá obras de artistas nacionais e internacionais nas dependências da antiga ESMA. No Brasil, ainda não existe um banco de dados tão eficiente e cente-

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nas de casos não tiveram solução. A grande militância hoje é para que seja feita a abertura de documentos secretos, que estão em posse dos militares e que podem desvendar o paradeiro de muitas pessoas que passaram ou não pelos DOI-CODI e DOPS. A Professora Doutora da Universidade de São Paulo Maria Helena Capelato, especialista em história da América, conta que existe uma grande diferença entre a construção da memória e história da ditadura dos brasileiros: “A passagem da ditadura para um regime democrático no Brasil foi um processo muito lento e negociado, pactuado com, inclusive, anuência de setores da esquerda que abriram mão da justiça em nome de uma aliança que pudesse trazer de volta a democracia. Basta lembrar que a nossa democracia veio de forma direta com o movimento das diretas já”, conta. Segundo Capelato, esta negociação dificulta muito a abertura dos documentos e a possibilidade de julgamento dos culpados. Com a lei de anistia, uma pessoa que tenha praticado crimes de tortura em serviço militar não pode ser punida, pois se justifica que ela apenas cumpria ordens que faziam parte das leis daquele período. A grande luta de familiares de vítimas é para que o contrário aconteça e estas pessoas, que cometeram crimes hediondos contra os direitos humanos, paguem pelo que fizeram. Muitas das pessoas que autorizavam torturas e assassinatos naquela época ocupam hoje cargos de extrema importância política. O medo de um dia pagar por tais crimes torna o processo de abertura de documentos algo ainda distante da realidade.


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Fique Sabendo LEI DA ANISTIA A lei 6683 de 1979 (Constituição Federal) concedeu anistia a todos os envolvidos em crimes políticos praticados no período de 02 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979. Sendo assim, presos políticos (muitos estavam exilados no exterior), militares, dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares, foram perdoados e puderam viver normalmente no novo regime, o regime democrático

DOPS O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) foi um órgão do governo brasileiro que objetivava o controle e repressão dos movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder. Subordinados aos governos estaduais, tinham outros nomes, dependendo do local, como por exemplo, DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) e DELOPS (Delegacia de Ordem Política e Social). Também eram centros de tortura e todos os que passaram por seus “porões” têm lembranças de um período cinzento e “linha dura”. Uma vez fichado pelo DOPS, tornava-se muito difícil o indivíduo conseguir um emprego, pois, naquela época, o candidato a uma vaga precisava apresentar um “Atestado de Antecedentes Políticos e Sociais”, expedido pelo próprio DOPS para aqueles que não tinham ficha em seus arquivos. As dependências do DOPS de São Paulo foram transformadas em um Memorial (Memorial da Resistência).

DINA

A Diretora de Inteligência Nacional – DINA foi o órgão de repressão do Chile. A polícia Política, instaurada pelo governo de Augusto Pinochet, torturou e matou grande parte de seus presos. As atividades da DINA foram substituídas pela Central Nacional de Informações.

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DOI-CODI

O Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) era um órgão de inteligência do Governo brasileiro e surgiu para controlar os “subversivos” na época da repressão. Foi estabelecido em praticamente todos os Estados Brasileiros a partir da “Operação Bandeirante (OBAN)” que idealizou o combate das Organizações Armadas de Esquerda. Os DOI-CODI ficaram conhecidos como centros de tortura a todos aqueles que se opusessem ao regime ditatorial.

ESMA A Escola Superior de Mecânica Armada foi o maior centro clandestino de tortura da Argentina durante o regime militar correspondente. Aproximadamente 90% dos presos pela ESMA foram mortos por meio de incinerações, fuzilamentos e espancamentos. Muitos deles foram jogados no “Rio da Prata” depois de sedados, ato que recebeu o nome de “vôos da morte”. Em 5 de agosto de 2004, a ESMA foi transformada em centro de memória para recordar a repressão, o terrorismo de estado e promover o respeito aos Direitos Humanos.


CONTORNO Mariguella: Ícone do combate à ditadura militar no Brasil 41 anos após sua morte, Carlos Mariguella é exemplo de resistência Por: André Fernandes

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ocê talvez nunca tenha ouvido falar sobre Carlos Mariguella, personagem histórico das lutas de resistência do povo brasileiro na época da Ditadura Militar no Brasil. Sua história, para seus pais, de fato relembra uma época de repressão, na qual um regime ditadorial se instaurava no país, muito diferente dos dias atuais, quando você tem total liberdade de seus atos sem ninguém interferir. Isso tudo graças a esses líderes revolucionários. Filho do imigrante italiano, Augusto Mariguella e Maria Rita do Nascimento, negra e filha de escravos, Mariguella nasceu em Salvador, Bahia, no dia 5 de dezembro 1911. Aos 18 anos, já despertava interesse pelas lutas sociais e ingressou no Partido Comunista. Com 21 anos, foi preso pela primeira vez, pela escrita de um poema com críticas ao interventor da Bahia, Juracy Magalhães. Em 1936, mudou-se para São Paulo com intenções de reorganizar o Partido Comunista, que estaria “derrubado” após as lutas de 1935, denominada como Intentona Comunista. Em uma entrevista concedida ao site Géledes – Instituto da Mulher Negra, Clara Charf, viúva de Mariguella, afirma que ele sempre foi militante, tinha muita consciência de onde ele vinha e não deixava de valorizar a formação que teve de sua mãe negra e do pai operário italiano. “Sempre foi rebelde, desde os tempos de estudante;

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Foto extraída da exposiçao Mariguella no Museu da Resistência


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Clara Charf, viúva de Mariguella ‘‘Sempre foi rebelde

desde os tempos de estudante; sempre lutou pela igualdade de raça e povos’’

Imagem Estadao.com

sempre lutou pela igualdade de raça e povos e o fato de ser de família pobre, filho de mecânico italiano anarquista, mãe negra, família de oito irmãos, marcou sua formação”, pondera Clara Charf na entrevista. Para Iara Baptista Pasta, professora da USP e especialista em História, Mariguella era visto como ameaça ao governo, pelo fato de ser comunista e, por isso, diversas vezes acabou sendo preso no período do Regime Militar no Brasil. “Em uma dessas perseguições, foi baleado e preso num cinema da Tijuca, Rio de Janeiro, mas continuou vivo e encarcerado por oitenta dias. Co auxílio de um advogado acabou sendo libertado”, acrescenta Iara Pasta. Mariguella foi o responsável pela fundação da Ação Libertadora Nacional (ALN), que pregava a idéia da luta armada como saída para a derrubada da ditadura militar no Brasil. Mais adiante, em São Paulo, o líder passou a reorganizar os revolucionários comunistas atingidos pela repressão imposta por Getúlio Vargas. Em 1939, foi torturado na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo. Ficou preso em Fernando de Noronha e na Ilha Grande pelos seis anos seguintes. Anistiado em abril de 1945, participou do processo de redemocratização do País e da reorganização do Partido Comunista na legalidade. Elegeu-se deputado federal mas, em 1948, teve o mandato cassado por Dutra e passou a viver na clandestinidade. Em 1969 montou-se uma emboscada, através de frades dominicanos que faziam parte da própria ALN. Então, às oito horas da noite, Carlos Mariguella foi cercado por 30 policiais do DOPS e foi assassinado.

Imagem Dops

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Mariguella morto em emboscada do Dops


PERAMBULO

Imagem: www.raulmarcelo.com.br

Público Jovem no Memorial da Resistência, a certeza da preservação da história Celas preservadas, objetos, livros e bilhetes fazem parte do acervo histórico na Estação Pinacoteca em São Paulo Por: Valquiria Silva

Memorial da Resistência resgate histórico dos anos de chumbo no Brasil 12


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antigo prédio de tijolos vermelhos do Departamento de Ordem da Política Social – DOPS, onde funcionou, de 1940 a 1983, a polícia política das ditaduras getulistas e militar, foi reformado e transformado em museu, para homenagear a resistência, os presos e mortos durante a ditadura militar. Com o apoio do Fórum de Presos e Perseguidos Políticos, a restauração foi feita a partir da memória de presos que passaram por lá e viveram essa época. Esse novo projeto foi realizado com vistas a ampliar a sua ação preservacionista e seu potencial educativo e cultural, por meio dos problemas e atualizações dos caminhos da memória da resistência e da repressão do Brasil Republicano. Para Guilherme Meirelles, estudante de Administração, foi muito importante visitar o museu, pois ele desconhecia muito coisa que havia acontecido em seu país e, com isso, saiu de lá entusiasmado em ler mais sobre assuntos oriundos da época do regime ditatorial no Brasil.

O Museu está centro de São Paulo, na região da Estação da Luz, que foi cenário de um dos piores momentos da história do Brasil. Era para lá que os presos eram levados, durante a ditadura militar, para serem interrogados, torturados e, em muitos casos, mortos pelo sistema autoritário que regia o país. A exposição, de longa duração, está orientada em quadro módulos: Módulo A – Edifício e suas memórias: neste módulo é possível conhecer o tema do memorial , os diferentes usos do edifício e sua estrutura, através de vídeos imagens e fotos do ambiente. Módulo B - Controle. Repressão e Resistência: O tempo político e as memórias: contextualizando no espaço a história do Brasil nos tempos republicanos, este espaço conta com o apoio de uma linha tempo, com imagens e textos contendo uma ampla e rica história e, também, com uma espaço de multimídia, com arquivos e documentos de nossas memórias. Módulo C – A construção da memória. O Cotidiano nas celas do

Imagem: Alessandra Dias

Serviço Memorial da Resistência Largo General Osório, 66 – Próximo a Estação da Luz – Linha Azul Telefone: (11) 3335-4990 Entrada Gratuita

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DEOPS/SP: este espaço possibilita, através da memória dos presos e restauração dos ambientes, conhecer as memórias aprisionadas na ditadura militar. Esta espaço possui 4 celas: Cela 1- Chama a atenção por contar o processo de restauração. Cela 2 - Homenagem a todos os milhares de presos que ali estiveram Cela 3 – Reconstituição parcial, a partir de relatos de quem esteve preso no DEOPS na época da ditadura. Cela 4 – É possível ouvir o depoimento de ex-preso, de como era o seu dia-a-dia dentro das celas. Módulo D – Da Carceragem ao Centro de Referência: através de arquivos em rede on-line do próprio memorial e museus semelhantes, é possível acessar arquivos, documentos e depoimentos de todo o Regime Militar. Neste mesmo ambiente, há um vitrine com objetos e dossiês do DEOPS, que estão sob a guarda do Estado de São Paulo. A estudante de moda Marília Silva conta que teve receio de entrar nas celas porque parecia, literalmente, que dali tinha acabado de sair alguma vítima do regime militar no Brasil e achou muito interessante como retrataram o contexto da época. Fora as exposições, o Museu da Resistência conta também com palestras e eventos, procura manter laços com outros países, principalmente da America Latina, visando a estabelecer redes que tratem dessas problemáticas, para atualizar sempre atualizando os eventos no museu. Para você, que ainda não esteve do Museu da Resistência, fica uma dica cultural, pois hoje, graças àqueles que ali estiveram, você tem acesso a esse tipo de informação.


EM BARRADOS FOCO “É proibido proibir” A frase que intitula uma canção escrita por Caetano Veloso traz a tona o direito à liberdade de expressão Reportagem: Alessandra Dias

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essoal, na teoria, e na prática também vai, hoje temos muita liberdade de expressão. As conhecidas redes sociais, que não param de crescer, ainda dão um up para gente fazer o que quiser. Conversamos em tempo real, sem ninguém ficar nos cortando, mandamos nossos recados e divulgamos nossos gostos e opiniões para o mundo todo ver. Mas, nem sempre foi assim. A censura, predominante no Regime Militar no Brasil, calou a boca de muita gente. Imaginem que as músicas, que embalam nossas vidas e baladas, as produções literárias, artísticas, cinematográficas, os nossos filmes e novelas e, principalmente, a imprensa foram vítimas da repressão. Com a entrada do AI-5 o governo tentou camuflar atos como as torturas e desaparecimentos constantes durante os “Anos de Chumbo”. Proibidos de noticiar os fatos que ocorriam no país naquela época, os jornais eram obrigados a publicar, no lugar das reportagens, poemas e receitas de culinária, que, às vezes, nem davam em nada. Eis que os artistas da MPB encontraram na música uma forma de tentar alertar a população do

Foto: Banco de imagem Shutterstock®

estava acontecendo, ao mesmo tempo em que driblavam a atenção dos militares. Escreviam letras de música com duplo sentido, como, por exemplo, a música Cálice, composta por Chico Buarque de Holanda. Além de o título lembrar a palavra Cale-se, de calar a boca mesmo, os versos poderiam ser confundidos com uma súplica. Ainda bem que, na maioria das vezes, os militares só se ligavam que as músicas se tratavam de um protesto quando já tinham caído na boca do povo. Caso contrário, antes mesmo de serem gravadas,

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Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue Como beber dessa bebida amarga Tragar a dor, engolir a labuta Mesmo calada a boca, resta o peito Silêncio na cidade não se escuta


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Capa do CD Chico 50 Años: O Político Credito: letras.com.br

já eram barradas. Vários artistas da época e alguns que fazem sucesso até hoje foram alvos da repressão e do exílio. A lista é grande, mas dos que mais se ouve falar até hoje são Caetano Veloso, Chico Buarque, Elis Regina, Gilberto Gil, Kid Abelha, Milton Nascimento, Raul Seixas e por aí vai. Mas, a caça da censura não parava por aí, pois nem mesmo a literatura escapou. Monteiro Lobato, autor de obras infantis de grande sucesso, foi fortemente perseguido, chegando até a ser preso pelo governo de Getúlio Vargas. O livro Zé Brasil, escrito por Lobato em 1947, tinha a capa estampada com o velho Jeca Tatu, um trabalhador rural sem terra. A obra defendia os pequenos agricultores e atacava a estrutura agrária brasileira. A crítica política porém apartidária - do livro desagradou as autoridades da época e ele foi considerado perigoso à segurança nacional, o que resultou na apreensão e censura do livro. Já para os noveleiros de plantão, resta saber que as novelas também tiveram cenas cortadas ou simplesmente tinhas suas estréias barradas. Vocês já devem ter ouvido falar de Roque Santeiro. Pois bem: a Rede Porcina (Regina Duarte) e Roque Santeiro (Lima Globo colocaria a novela no ar, Duarte) protagonistas da telenovela de 1985. Crédito Arquivo Trash 80s (on-line) pela primeira vez, em 1975. Com vários capítulos gravados e chamadas anunciando sua estreia, no grande dia, a emissora recebeu um oficio do governo federal censurando a telenovela. Tudo isso por causa de uma escuta telefônica, na qual Dias Gomes, o autor da novela, dizia que Roque Santeiro era apenas uma forma de enganar os militares, adaptando a peça O Berço do Herói para a televisão. A peça, da década de sessenta, também foi censurada, justamente por fazer uma crítica ao regime político predominante da época. Com tudo isso, Roque Santeiro só pode ir ao ar dez anos depois, ou seja, em 1985, ano em que terminou a Ditadura Militar no Brasil.

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Capa do livro Zé Brasil, escrito porMonteiro Lobato em 1947 Credito: Arquivo Unicamp (online)


VIDA REAL

Foto: Alessandra Dias

“Pau de Arara nunca mais” gritou Aura Moreti no evento de lançamento do livro Luta – Substantivo Feminino Por: Gilsilene Silva Áurea Moreti, Maria Diva e Rose Nogueira contam sua trajetória

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dia era de comemorações: o lançamento do livro Luta – Substantivo Feminino foi um sucesso. Aura Moreti, Maria Diva e Rose Nogueira estavam presentes para fazer valer o direito à memória e à verdade. O livro conta a história

de mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura. As três, que tiveram seus depoimentos impressos em algumas páginas, assistiram atentas ao pronunciamento do Ministro da Secretaria Especial dos Direitos

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Humanos da Presidência da República, Paulo Vannuchi e, ao final, um grito de desabafo emocionou toda a platéia “pau de arara nunca mais!” protestou Áurea Moreti. Esta senhora, de cabelos grisalhos e olhar terno, causou reações


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“Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os quarenta dias do parto” Rose Nogueira (Ex militante da Ação Libertadora Nacional – ALN e Jornalista)

como lágrimas, aplausos e gritos entusiasmados. Após o evento, depois de autografar diversos exemplares e receber alguns abraços carinhosos do público, sentaram-se em um banco de madeira em frente à PUC de São Paulo (onde aconteceu o lançamento) e conversaram com nossa equipe. Relembrar os tempos difíceis não é agradável, mas para elas, a memória é a única forma de garantir que a tortura não aconteça nunca mais. Por causa de sua prisão no DOPS, Rose Nogueira (ex-militante da Ação Libertadora Nacional – ALN e jornalista) teve uma infecção que a deixou estéril. Ela contou que acabara de ter seu primeiro filho quando foi presa. “Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os quarenta dias do parto”. Neste período, Rose foi assediada e ameaçada de ficar sem seu único filho. Maria Diva contou que, por ser mulher e negra, o preconceito era ainda maior: “perguntavam o que eu estava fazendo ali, diziam que eu deveria estar no fogão”. No DOI – CODI, além de tortura física, ela

sofreu tortura psicológica: “me colocaram numa sala com uma música muito alta, que fazia um barulho na minha cabeça por umas duas horas, quando saí, pensei que ia enlouquecer”. Áurea Moreti, ex-militante das Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN), era estudante e enfermeira quando foi presa. Foram muitas sessões de choques elétricos, pau de arara, assédio e espancamento. “A maior arma que a gente tinha era a gente mesmo, porque fazia, enfrentava, mobilizava. A gente não estava preocupado em ter espingarda, o que nós queríamos era o retorno à democracia e que a perseguição, como estava sendo feita, parasse.” As amizades parecem ter sido a única herança boa deste período. Enquanto conversavam, demonstravam um grande carinho umas pelas outras e uma simpatia sem igual com nossa equipe. Alguns anos após os acontecimentos, todas conseguiram retomar suas vidas. Demorou um pouco para deixarem de ser vigiadas através de

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grampos no telefone, investigações de documentos apresentados e desconfiança por parte dos empregadores. As marcas deixadas pela Ditadura Militar fizeramnas continuar lutando por justiça até os dias atuais. Rose é jornalista e defensora de direitos humanos: “Hoje minha principal luta é contra a marginalização dos pobres”, relata. Áurea vive em Ribeirão Preto e é enfermeira da Secretaria Municipal de Saúde. Maria Diva se aposentou e ainda mora em São Paulo.


RESGATE No cemitério de Perus, uma esperança para famílias de desaparecidos A denúncia do administrador Toninho revelou uma vala clandestina, onde diversos corpos foram jogados nos anos de chumbo Por: Daniela Aparecida

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o Brasil, os militares tomaram o poder em 1964 e, com isto, foi instaurado um regime militar, mais conhecido como ditadura militar. Em meio a este clima de regime ditatorial, movimentos sociais, ato institucional, milagre econômico, passeatas e manifestações, muitas pessoas, que faziam oposição ao governo, foram brutalmente assassinadas, ou simplesmente desapareceram e seus familiares nunca mais tiveram notícias delas. Para muitos, estas manifestações acabaram no Cemitério Dom Bosco, em Perus, periferia da cidade de São Paulo. O administrador do cemitério naquela época, Antonio Eustáquio, mais conhecido como Toninho, pre-

senciou, na década de 70, a abertura de uma vala comum, feita por homens da repressão política, para colocar corpos de opositores ao regime militar. Segundo o administrador, foram colocados lá cerca de 1500 corpos, clandestinamente, sem o consentimento de seus familiares, que por muitos anos ficaram à procura destas pessoas. Nos anos 90, Toninho fez a denúncia da existência desta vala para o serviço funerário, que, posteriormente, procurou a prefeitura e, por ordem da prefeita Luiza Erundina, no dia 04 de setembro de 1990, foram resgatadas todas as ossadas, que contabilizaram 1049 ossos de desaparecidos políticos daquela época. Para Áurea Moretti, que foi militante e vítima de tortura durante o regime militar, muitas pessoas que estavam presas com ela no antigo DEOPS (Departamento de Ordem Política e Social), criado em 1949, foram parar clandestinamente no cemitério de Perus. Hoje, estas ossadas estão em poder do cemitério do Araçá, na região central da capital paulista, e a Justiça Federal ordenou que os governos estadual e federal retomem o processo de identificação, para que seus familiares consigam fazer uma cerimônia com dignidade.

Memorial em Perus Homenagem aos desaparecidos 18


desaparecidos

Fotos extraídas de manequim. abril.com.br/ moda/historiada-moda

Zuzu Angel é uma estilista de sucesso que projetou a moda brasileira no mundo. É também a mãe que travou uma luta contra tudo e todos na busca pelo seu filho Stuart. Os anos 70 viram o mundo de pernas para o ar. No Brasil, a carreira de Zuzu Angel (Patrícia Pillar) como estilista começa a deslanchar, enquanto seu filho Stuart (Daniel de Oliveira) ingressa no movimento estudantil, contrário à ditadura militar então vigente no país. Stuart é preso, torturado e assassinado pelos agentes do Centro de informações de Aeronáutica, sendo dado como desaparecido político. Inicia-se, então, o périplo de Zuzu, denunciando as torturas e morte de seu filho. Suas manifestações ecoaram no Brasil, no exterior e em sua moda. cinemanodiva.blogger.com.br

O caso Stuart Angel

Talvez o mais famoso caso de desaparecimento político do país. Virou até filme!

A Historia Real

Por:Antonio Vidal

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inda sem esclarecimento, como tantos casos de presos e desaparecidos políticos nos anos de chumbo, o caso Stuart Angel já causava grande repercussão, mesmo na época em que tudo era escondido ou velado pelos militares. Isso graças a sua mãe, Zuzu Angel, que lutou até o fim para que o caso não fosse esquecido. Mesmo sabendo que, provavelmente, nunca veria seu filho vivo, ela lutou para que o Brasil e o mundo ficassem sabendo da forma como os militares agiam contra aqueles que protestavam contra o regime. Zuzu Angel, famosa por suas criações no mundo da moda, era uma estilista de sucesso até mesmo mundial e tentou usar de sua influência para descobrir o que aconteceu realmente com seu filho. Sua história virou um filme, em 2006, e a atriz Patrícia Pillar a interpreta.

Militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), nasceu a 11 de janeiro de 1946, na Bahia, filho de Norman Angel Jones e Zuleika Angel Jones. Desapareceu desde 1971, quando contava apenas 26 anos de idade. Casado com Sônia Maria Morais Angel Jones (falecida), estudante de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi preso no Grajaú (próximo à Av. 28 de Setembro), no Rio de Janeiro, em 14 de junho de 1971, cerca de 9h00, por agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), para onde foi levado e torturado. Ao cair da noite, após inúmeras sessões de tortura, já com o corpo esfolado, foi amarrado à traseira de um jipe da Aeronáutica e arrastado pelo pátio com a boca colada ao cano de descarga do veículo, o que ocasionou sua morte por asfixia e intoxicação por monóxido de carbono. Em 08 de abril de 1987, a Revista “Isto É”, na matéria “Longe do Ponto Final”, publica declarações do ex-médico torturador Amílcar Lobo, que reconheceu ter visto Stuart no DOI-CODI/RJ, sem precisar a data. O preso político Alex Polari de Alverga é testemunha da prisão e tortura até a morte de Stuart, tendo inclusive presenciado a cena em que ele era arrastado por um jipe, com a boca no cano de descarga do veículo, pelo pátio interno do quartel. No Relatório do Ministério da Marinha, consta que foi “morto em 5 de janeiro de 1971, no Hospital Central do Exército...” O Relatório do Ministério da Aeronáutica faz referências às denúncias sobre a morte de Stuart feitas por Alex Polari. Ao invés de esclarecer sua morte, dados do relatório falam da vida pregressa de Alex e finaliza dizendo: “neste órgão não há dados a respeito da prisão e suposta morte de Stuart Edgar Angel Jones.”

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CHARGES Ziraldo para o Jornal do Brasil em 1973 no Jornal do Brasil

Ziraldo Jornal do Brasil 1979

Na época da ditadura militar as charges diziam coisas que as matérias dos jornais não podiam dizer e alguns jornais que não tinham charges passaram a ter. Curiosidade: Após o término do Regime Militar, alguns jornais dispensaram seus chargistas. 20


ALFARRABIOS DA AMERICA  

REVISTA LABORATORIO FEITA PARA UNIVERSIDADE NOVE DE JULHO