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A OBRA DO ILUSTRADOR CONTEMPORÂNEO DANIEL BUENO RELACIONADA COM OBRAS DE ILUSTRADORES DO SÉCULO XX

Nicole Tramontini Resumo Este projeto investiga a obra de Daniel Bueno, arquiteto, quadrinista, designer gráfico e ilustrador contemporâneo brasileiro, membro e conselheiro da SIB (Sociedade dos Ilustradores Brasileiros). Estuda seu processo criativo e verifica quais os principais ilustradores do século XX que o influenciaram. Analisa suas referências visuais, especificamente as influências de ilustradores do século XX, comparando idéias, conceitos e técnicas aplicadas. As hipóteses levantadas e confirmadas foram de que Saul Steinberg (1914 -1999), Jim Flora (1914-1998) e George Grosz (1893-1959) são seus principais influenciadores. O método empregado é qualitativo e o referencial teórico consta de publicações em jornais e revistas que falam sobre o trabalho de Bueno, livros, dissertações, entrevistas, ilustrações e pinturas para análise de imagens. Palavras-chave Daniel, Bueno, ilustração, processo, criativo, influências.

Abstract This project explores the work of Daniel Bueno, architect, comic creator, graphic designer and contemporary brazilian illustrator, member and counselor of SIB (Brazilian Illustrators Society). It studies his creative process and checks which main illustrators from the 20th century had influencied his work. Analyses his visual references, specifically from the 20th century ilustrators, comparating ideas, concepts and applyed techniques. The analyzed and confirmmed hypothesys was Saul Steinberg(1914-1999), Jim Flora (1914-1998) and George Grosz (1893-1959) really are his main influences. The used method is qualitative and the teorical reference covers journal publications and magazines about Bueno, books, quotes, interviews and illustrations. Keywords Daniel, Bueno, illustration, process, creative, influences.

Universidade Anhembi Morumbi Orientador do projeto: Jofre Silva Curso: Design Digital E-mail: nicca@nicca.com.br.


2 1 Introdução O objetivo geral desse projeto é investigar a obra de Daniel Bueno, arquiteto, quadrinista, designer gráfico e ilustrador contemporâneo brasileiro, membro e conselheiro da Sociedade dos Ilustradores Brasileiros (SIB).

Os objetivos específicos são estudar seu processo criativo, identificar e analisar suas referências visuais, especificamente as influências de ilustradores do século XX, comparando idéias, conceitos e técnicas aplicadas. As hipóteses levantadas foram que Saul Steinberg (1914 -1999), Jim Flora (1914-1998) e George Grosz (1893-1959) são seus principais influenciadores.

Bueno produz ilustrações para livros, editoriais, histórias em quadrinhos, entre outras mídias, mas principalmente para finalidades comerciais. Trabalha preferencialmente fazendo esboços a lápis para ter idéias, passando então para colagens manuais e finalização digital.

Essa pesquisa é relevante pois propõe investigar e valorizar trabalhos realizados por ilustradores brasileiros contemporâneos, no caso a obra de Daniel Bueno (1974-...). Até o momento não foram localizados estudos que abordam essa temática. Outro aspecto de relevância é a implementação da disciplina "cultura da visualidade" ou "estudos visuais" nas universidades que fez retornar o interesse pela ilustração como objeto de estudos. Um exemplo disso é um congresso internacional que irá ocorrer em Granada, Espanha, em novembro desse ano, intitulado "Arte, Ilustração e Cultura Visual na Educação Infantil e Primária: construção de identidades", que abordará a arte em geral e contemporânea, a ilustração e literatura como suporte para a ilustração, observando a repercussão que estas modalidades tem na construção da identidade cultural das crianças.

O referencial teórico do projeto consta de publicações em revistas e jornais relativas ao trabalho de Daniel Bueno, entrevistas, livros, dissertações que se referem ao assunto a ser tratado, ilustrações e pinturas para análise de imagens.


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O método empregado é qualitativo baseado na análise do processo criador, da forma, do contexto e da cultura visual da época em que os artistas analisados produziram suas ilustrações, marcadamente no modernismo e no pósmodernismo.

Os procedimentos utilizados foram: • Levantamento bibliográfico sobre ilustração; • Levantamento das obras de Daniel Bueno; • Levantamento de publicações referentes ao ilustrador e seu trabalho; • Pesquisa de suas principais referências visuais e teóricas; • Contato com Daniel Bueno para estabelecer caminhos de trocas durante a pesquisa; • Leitura e fichamento (quando necessário) do levantamento bibliográfico, inclusive do TCC e Dissertação de Mestrado escritos por Daniel Bueno; • Análise e comparação de obras, buscando acerca de formas de análise sobre processos criativos e técnicas utilizadas nas ilustrações contemporâneas e do século XX, em livros e websites; • Entrevista com Daniel Bueno enfocando o tema principal.

Com a ajuda de Bueno consegui muitas publicações que falam sobre o ilustrador e seu trabalho, entre elas uma publicação sobre seu grupo de projetos chamado Charivari, reportagens sobre o livro que Daniel ilustrou "Bili com Limão Verde na Mão", de Décio Pignatari e mais algumas reportagens sobre o livro infantil de Gabriel o Pensador que Bueno ilustrou, chamado "Um garoto chamado Rorbeto".

Lendo o TCC de Bueno encontrei informações relevantes, por exemplo, que ele possui interesse por poesia em forma gráfica, escrita, espacial ou sonora.

Descobri também que nessa época ele já admirava o trabalho de alguns ilustradores como Saul Steinberg e Michel Folon e, mesmo tendo concluído o


4 curso de arquitetura, Bueno preferiu se dedicar somente ao desenho. Ele cita em seu TFG que no decorrer do curso descobriu que o desenho é uma forma de expressão primordial e que devia ser explorado por ele naquele momento.

Lendo a Dissertação de Mestrado de Daniel encontrei preciosas informações sobre Steinberg.

Na entrevista com Daniel consegui juntar informações muito relevantes como quais os ilustradores do século XX que ele considera como principais inluências de seu estilo. Informações detalhadas

sobre seu processo criativo e técnicas

utilizadas. Opinião do ilustrador sobre o uso das TICs, sobre a relação ilustração e arte e sobre o mercado da ilustração no Brasil.

2 Desenvolvimento 2.1 Ilustração Ilustrar é criar configurações visuais com formas, linhas e cores que expressem os mais variados tipos de mensagem, dependendo de sua finalidade. Ilustrações podem ser apresentadas como narrativa visual independente, ou também complementando a compreensão de um determinado conceito, como, por exemplo, as ilustrações comerciais, realizadas em livros e revistas. Em suas origens mais remotas, a ilustração e a escrita desempenhavam uma função similar, já que as duas formas de expressão surgiram de imagens pictográficas e serviam para transmitir mensagens e idéias. Com o passar dos anos, a escrita foi evoluindo para caracteres simples e assim se separando da ilustração. O primeiro registro de publicação com ilustrações para complementar um texto é conhecida como “Livro dos Mortos” datada em 1300 a.C. (SCHMITZ, online). Apenas no final do século XIX e início do século XX, após a Revolução Industrial, a ilustração passou a ser utilizada de forma comercial.


5 Muitas técnicas são utilizadas para ilustrar, desde as mais tradicionais como o lápis, o nanquim, o guache e a colagem até as mais atuais feitas com fotografias, maquetes, softwares gráficos e de elementos 3D. No mercado editorial brasileiro existe uma gama de ilustradores que utilizam o computador como ferramenta principal para o desenvolvimento de seu trabalho, mas há também aqueles que preferem as técnicas e ferramentas mais tradicionais, utilizando o computador apenas no processo de finalização da criação entre eles está Daniel Bueno. 2.2 Daniel Bueno Daniel Bueno nasceu em São Paulo, capital, em 1974. Após completar 4 anos de idade se mudou para Ribeirão Preto onde fez grandes amigos de infância, Fernando de Almeida e Luciano Tasso, hoje também ilustradores. Segundo Bueno (2010) os três eram os melhores da classe e sempre gostaram de desenhar e ler histórias em quadrinhos. Almeida participa, atualmente, do coletivo experimental Charivari juntamente com Bueno e mais dez ilustradores: Mariana Zanetti, Laura Teixeira, Andrés Sandoval, Jose Silveira, Fernando Vilela, Luana Geiger, Madalena Elek, Silvia Amstalden, Fabio Zimbres e Marcelo Salum. Juntos já publicaram dois livros de ilustrações serigráficas.

Os pais de Bueno são professores universitários da USP. Quando ele completou 13 anos, a família foi morar em Chapel Hill, Carolina do Norte, EUA, pois seus pais foram realizar pesquisas nas universidades da região.

Aos 14, voltou a morar em São Paulo e concluiu o colegial no colégio Stella Maris, único colégio particular que estudou. Fez um ano de cursinho e em 1993 entrou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP), formando-se em 2001. No meio desse período, cursou um ano na FAUUP, em Porto, Portugal. Em 2007 concluiu seu mestrado com a tese "O desenho Moderno de Saul Steinberg: obra e contexto" também na FAU-USP, que ganhou o prêmio HQ Mix de melhor tese do


6 ano em 2008.

Apesar de sua formação fez poucos projetos como arquiteto, mas lembra em entrevista (2009) que “A arquitetura se faz presente no entendimento geral do objeto criado, na concepção geral de “design”, de projeto, válido para qualquer objeto, cadeiras, edifícios, livros.”.

Ele acredita que o fato de gostar de desenhar e ler histórias em quadrinhos desde pequeno foi considerável na escolha pela faculdade de arquitetura, mas, devido a acasos, oportunidades e acontecimentos acabou optando pela ilustração.

Segundo Bueno (2009), sua prática profissional como ilustrador foi iniciada na revista Caros Amigos onde pode experimentar alguns traços diferentes e definir alguns caminhos. Inicialmente produziu imagens com a figura feita com traços de caneta preta e o fundo composto por recortes. Depois, passou a apresentar as figuras com traços mais discretos e, por fim, eliminou o traço, fazendo elementos importantes com colagens também e deixando o desenho geométrico, com contornos retilíneos feitos com tinta acrílica. Desde então passou a criar imagens com formas simples, geométricas e com textura.

A maior parte de seus trabalhos possui finalidade comercial. Abaixo segue os principais trabalhos e prêmios:

Publicou quadrinhos e ilustrações nas revistas Ragú - Antologia de quadrinhos brasileiros (premiada pela HQ Mix como melhor publlicação independente de 2001), Front, Crash! (Bolívia), Suda Mery K (Bolívia), Calendrier Illustré 2006 (França), Disorder in Progress (Die-Gestalten Verlag, Brasil/Alemanha), Football Heroes (Herzglut Verlag, Suíça), Pictoplasma (EUA), Stash DVD magazine (Inglaterra), Idn (Hong Kong), Illustrators 46 e 47 (anuário da Society of Illustrators, EUA).


7 Pela editora Cosac & Naify ilustrou os livros "Um Garoto Chamado Rorbeto" (prêmio Jabuti de melhor livro infantil em 2006) de autoria de Gabriel O Pensador, "Bili com Limão Verde na Mão" de Décio Pignatari, "O Melhor Time do Mundo" de Jorge Viveiros de Castro e "O Pequeno Fascista" de Fernando Bonassi.

Publicou ilustrações editoriais para os jornais Folha de São Paulo, Diário de Pernambuco e para as revistas Info Corporate, Exame, Superinteressante, Vida Simples, Mundo Estranho, Info, Você S.A., Quatro Rodas, Nova Escola, Porto Seguro, Religiões, Grandes Guerras, Saúde, Men´s Health, Foco, Caros Amigos, Macmania, Ciência Hoje, Continente Multicultural, Revista do Livro Universitário, Diga lá (SENAC), Ele Ela, Meio & Mensagem, Sexy, Info Norsa e Brasil Sustentável.

Criou em 2004 o curta de animação “Into Pieces” - dirigido por Guilherme Marcondes – exposto em diversos festivais do mundo, dentre eles o festival de Ottawa (Canadá), Annecy (França), Brooklin (EUA), ONEDOTZERO 9 (Londres), RESFEST (Brasil), AnimaMundi (Brasil). Levou menção honrosa no Prix Ars Electronica (Áustria).

Participou de várias exposições pelo mundo (Brasil, Japão, EUA, Bolívia, Espanha, Inglaterra, Canadá e Suíça) e convidado a participar, dando palestras e workshops e expondo trabalhos, do Tercero Encuentro Internacional de Comix de La Paz, Bolívia, em maio de 2005.

Venceu o Salão Internacional de Porto Alegre em 2003, ganhou os prêmios HQ Mix de revelação do ano em 2004, melhor ilustrador de livro infantil em 2007 e 2008.

Participou do livro “Illustration Now!”, da Taschen em 2009.

Levou dois prêmios no anuário da revista americana 3x3, em 2009: "Merit" na


8 categoria Institucional, e "Bronze" na categoria Sequencial.

2.2 Influências

Bueno diz em entrevista (2009) que considera como principais influências na criação de seu estilo os ilustradores Saul Steinberg (1914 -1999), Jim Flora (19141998) e George Grosz (1893-1959). De modo geral, o que tenho são “lições” de ilustração com essas referências: a obra de cada um aponta para caminhos que são um leque cheio de possibilidades. Ou seja, as semelhanças estão muito mais no terreno da compreensão do desenho e do modo de ter ideias e conceitos do que no uso da técnica (BUENO, 2009).

Na Figura 1 podemos visualizar parte do trabalho final de graduação na FAU-USP de Bueno, desenvolvido no início de sua carreira como ilustrador. Bueno trabalhou com formas simples, geométricas, sem uso de colagens, apenas formas pretas de nanquim sobre papel branco para exercitar fundamentos básicos do desenho. Nessa época, teve, principalmente, grande influência do estilo de Saul Steinberg, uma vez que Steinberg fazia muitas ilustrações só com traços, usando elementos simples, geométricos e sem muitas técnicas diferentes aplicadas. (Ver Figura 2).

Figura 1. TFG - Desenhos Urbanos, 2001.


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Figura 2. The Inspector, 1965. Saul Steinberg. (http://www.adambaumgoldgallery.com/)

Também podemos notar nas ilustrações de Bueno, como exemplifica-se na Figura 3, que ele usa recursos de ilusão e ambigüidade, assim como Steinberg fazia (Figura 4), mas, hoje em dia, sem a técnica do traço que anteriormente usava.

Figura 3. Ilustração de Daniel Bueno (www.buenozine.com.br)


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Figura 4. Untitled, 1948. Saul Steinberg. (http://www.saulsteinbergfoundation.org)

Um outro aspecto relevante de semelhança das criações deles é o aparecimento do personagem cartunesco, com o nariz pontudo (Figura 3 e 4). O formato do personagem que Bueno insere em suas ilustrações frequentemente é bem próximo ao de Steinberg, com a diferença que os de Bueno apresentam sempre volume e textura.

Steinberg gostava de usar elementos tipográficos misturados aos desenhos como podemos ver na Figura 5. Também encontramos esse aspecto aplicado nas ilustrações de Jim Flora, que “brinca” com texto e personagens na Figura 6 e de George Grosz (Figura 11). Bueno “herdou” esse tipo de aplicação de suas principais influências (Figura 7).


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Figura 6. Physiognomy,1968. Saul Steinberg. (http://www.adambaumgoldgallery.com/)

Figura 7. Lord Buckley, 1955. Jim Flora. (http://www.jimflora.com)


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Figura 8. Ilustração de Daniel Bueno (www.buenozine.com.br)

Segundo Bueno (2009), o que o inspira em Jim Flora são as formas soltas inusitadas com um bom grau de abstração e sua grande inventividade. Podemos notar semelhanças nesses aspectos nas Figuras 9 e 10. Também como Jim Flora, Bueno utiliza em alguns trabalhos cores com bastante contraste.

Figura 9. Mambo For Cats, 1955. Jim Flora. (http://www.jimflora.com)


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Figura 10. Ilustração de Daniel Bueno para revista MacMania. (Imagem cedida por Daniel Bueno).

Bueno considera que adicionar às formas um toque de fantasia, gerando efeito de suspensão, aproximou-o do Surrealismo Pop.

O Surrealismo Pop, segundo o que Bueno mesmo define em email (2010) é uma categoria muito ampla, também chamada de “Low Brow” que sugere algo em contraposição ao "High Brow", que seria a Arte dos livros de arte e grandes galerias. Esse movimento costuma ter uma maior preocupação com a narrativa, carrega na fantasia, no absurdo, no "excesso”, sempre com referências do universo pop, quadrinhos, cultura de rua, animação antiga e outras subculturas.

Encontramos em várias ilustrações de Bueno o Surrealismo Pop, pelos personagens non-sense soltos, ambientes de fantasia, por vezes, sinistros. Mas não podemos categorizá-lo como um artista surrealista pop, uma vez que ele faz


14 trabalhos diferentes também, mais conceituais, simples, sem tanta fantasia, por tanto, sem relação com esse movimento.

Ainda visualizando a Figura 10, encontramos o uso de perspectiva usado marcadamente por Bueno, também presente em obras de George Grosz (Figura 11). Grosz fazia muitos trabalhos de pintura e, ao mesmo tempo, possuía um toque de cartum. Essa mescla de paródia, crítica, anotação visual dos costumes de uma época com algo do cartum, e a experimentação das colagens são uma referência para mim. Gosto muito também das composições, do volume dos personagens. O ar carregado, o clima pesado dos desenhos – condizente com um período terrível da História – também me fascina. Entendo como uma manifestação crítica que faz mais sentido nos dias de hoje, por exemplo, do que o excesso de firulas sem sentido e propósito que temos visto por aí afora (BUENO, 2009).

Figura 11. Metropolis, 1916-1917. George Grosz. (Imagem cedida por Daniel Bueno).

Grosz adicionava às suas pinturas alguns recortes de papel como Bueno faz em suas composições. Usava muitos elementos, assim como Bueno utiliza em alguns de seus trabalhos. Notamos semelhanças nos “cortes” utilizados nas ilustrações e nas formas geométricas.


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Figura 12. George Grosz. (Imagem cedida por Daniel Bueno).

Figura 13. Ilustração de Daniel Bueno (www.buenozine.com.br)

Bueno também cita em entrevista (2009), Miguel Covarrubias (1902 - 1957). Diz que não é influenciador da criação de seu estilo, mas, hoje em dia, é uma


16 referência que tem a ver com seu trabalho, como podemos notar na Figura 14.

Figura 14. Vanity Fair, 1933. Miguel Covarrubias. (http://www.americanartarchives.com/covarrubias.htm.)

Covarrubias usa imagens como se estivessem recortadas e aplica texturas como Bueno.

2.3 Processo Criativo

Daniel Bueno dedica um bom tempo à idéia e concepção da imagem. Faz esboços a lápis e, para se inspirar, consulta alguns livros de ilustradores que gosta, não pretendendo copiar alguma idéia, somente, como diz em entrevista (2009), ”sentir a amplitude das soluções, ganhar aquela motivação pra surpreender e sair do lugar-comum como eles fazem. ”


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Figuras 15 e 16. Referência usada para criação de ilustração para a revista Gooo edição 7, junho 2009. (Imagem cedida por Daniel Bueno).

Figura 17. Referência usada para criação de ilustração para a revista Gooo edição 7, junho 2009. (Imagem cedida por Daniel Bueno).


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Na Figura 17, podemos ver as referências que usou para a ilustração que fez para a revista Gooo, com tema bruxaria.

Figura 18. Esboço de ilustração para a revista Gooo edição 7, junho 2009. (Imagem cedida por Daniel Bueno).

Quando encontra uma solução parte para um esboço mais trabalhado como podemos ver na Figura 18, onde os contornos já estão bem definidos. (…) desenho os contornos de todas as figuras a lápis, em papel sulfite, e transponho-os para papel duro, de aquarela ou rugoso. Eles são posteriormente recortados, virando peças soltas, "bonequinhos de papel" (BUENO, 2009). (Figura 19)


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Figura 19. Parte de ilustração para a revista Gooo edição 7, junho 2009. (Imagem cedida por Daniel Bueno).

Bueno procura seguir os contornos e aplica sobre os bonecos recortes de jornais e revistas, e tinta acrílica. Todas as partes da ilustração são criadas da mesma maneira, como peças soltas.

Figura 20. Imagem digitalizada após colagem manual e aplicação de tinta. (Imagem cedida por Daniel Bueno).


20 Na Figura 20 podemos ver a imagem digitalizada após procedimento manual. Chega então a hora de finalizar a composição no Photoshop, trabalhando cores, texturas e composição. Por vezes Daniel mistura as texturas manuais com outras proveniências, como por exemplo, papéis velhos digitalizados, texturas que encontra em jornais, etc.

Figura 21. Ilustração para a revista Gooo edição 7, junho 2009. (Imagem cedida por Daniel Bueno).

A Figura 21 é o resultado final da ilustração. Podemos notar algumas aplicações de recortes de jornal claramente sobre outras aplicações. É comum Bueno usar sobreposição de texturas.

Bueno (2009) diz que em seus primeiros trabalhos fazia pinceladas mais agressivas, gerando camadas espessas de tinta o que trazia a imagem um aspecto mais rústico. Com o tempo foi aperfeiçoando suas técnicas e trabalhando com mais cuidado o volume e as tonalidades.

Daniel (2009), explica que para cada trabalho há um briefing, por tanto o processo criativo pode variar, dependendo do caminho indicado e do prazo disponível.

Quando os prazos são curtos, tenho a opção de fazer o trabalho digitalmente, sem passar pela etapa manual, de modo geral muito trabalhosa e longa. Com o tempo, juntei digitalmente muitas formas e texturas, e posso reutilizar tudo o que já criei gerando novas ilustrações, totalmente diferentes (BUENO, 2009).


21 Algumas vezes também faz trabalhos vetoriais utilzando softwares como o Freehand, e quando pode busca novas soluções, mudando um pouco o estilo habitual.

2.4 Bili com Limão Verde na Mão Daniel Bueno ilustrou o livro de classificação infanto-juvenil "Bili com Limão Verde na Mão" escrito por Décio Pignatari, um dos principais integrantes do grupo concretista paulistano.

Lançado pela editora Cosac Naify, o projeto gráfico é de Luciana Facchini com edição de Augusto Massi e Isabel Coelho.

A narrativa ficcional de Pignatari conta a história de Belisa (Bili) uma garota de treze anos que está entrando na adolescência. Bili passa por uma confusão de idéias, pensamentos e sentimentos, próprios de quem está deixando a infância e vivenciando o que não conhece. Algumas vezes, o livro faz alusões à Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

No início do livro, o texto aparece escrito sem vírgulas ou pontos para mostrar o fluxo de consciência da garota, que grita como uma “Tarzoa”, trazendo para a história um limão verde. Bili atira o limão em alvos esporádicos atraindo para ela personagens que atrapalham seu caminho e que, segundo Santaella (2009), colocam-a diante das provas iniciatórias rumo ao amadurecimento emocional.

Esse é um dos poucos projetos em que Bueno usa somente vetores. Segundo ele (2010), a única parte que foi feita manualmente foram os esboços dos desenhos. As ilustrações possuem formas geométricas e simples, cores bem vibrantes em contraste com elementos em preto.

Bueno justifica em email (2010), o uso de poucos recursos gráficos:


22 Como cada palavrinha do texto era informação, podendo virar até um "personagem" da história, era o caso de evitar com toda a cautela qualquer elemento que fosse gratuito. Sendo assim, optamos por não usar texturas e recursos gráficos que pudessem competir com elementos fundamentais (BUENO, 2010).

Podemos ver no exemplo (Figura 22) que Bueno explora formas diferenciadas para representar os personagens e surpreender, saindo do comum e do óbvio.

Os traços de cores que saem do corvo em preto representam sua fala e ligam aos animais aos quais está se referindo, também em preto. Bueno usa esses traços coloridos para representar movimentos ou expressões em muitas partes do livro.

A mistura de várias formas soltas, cores e contrastes, mostram a confusão que está acontecendo na cabeça de Bili, nessa fase em que há várias mudanças.

Figura 22. Bili com Limão Verde na Mão, p. 22. Décio Pignatari.


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É interessante o modo com que Bueno dispõe os elementos. Na Figura 23 o texto diz que Bili joga o limão de uma mão para outra enquanto pensa. A forma circular que Bueno posiciona as imagens do limão faz com que realmente tenhamos a impressão de que o limão está em movimento. Assim temos abertura para imaginar a cena, não é necessário que ele apresente a imagem da menina jogando o limão, isso seria excessivamente explicativo.

Figura 23. Bili com Limão Verde na Mão, p.24. Décio Pignatari.

Em certa parte da história Bili joga o limão em um vespeiro. O autor não fala diretamente que as vespas desceram e picaram Bili, mas pela ilustração conseguimos entender que isso acontece. Bueno ilustra as vespas como setas pretas indicando para baixo e seus movimentos com traços mais grossos do que


24 costuma usar para esse tipo de representação no livro, e cor rosa choque, dando impressão de que o movimento é rápido. (Figura 24).

Figura 24. Bili com Limão Verde na Mão, p. 64. Décio Pignatari.

Na próxima página o autor diz apenas que “Bili se viu. (...) inchada, chorando baixinho (...)” (PIGNATARI, 2009, p. 25).

A ilustração complementa o texto e vice-versa. A competência visual do livro, ilustrado por Daniel Bueno, na escolha das cores, desenhos minimalistas e na sua forma acentuadamente retangular casa a perfeição com a exploração do valor imagético da escritura e da visualidade da palavra que gira, corre na vertical, na diagonal e na horizontal no espaço da página. Por isso mesmo, a integração entre palavra e imagem, visão e significado brinca com os sentidos, numa celebração do conteúdo na forma que engendra (SANTAELLA, 2009).


25 3. Conclusão Pode-se concluir que, as hipóteses levantadas a respeito das principais influências de Daniel Bueno foram confirmadas, uma vez que Saul Steinberg (1914 -1999), Jim Flora (1914-1998) e George Grosz (1893-1959) são realmente suas principais influências. Bueno confirma essas hipóteses em entrevista.

Verifica-se na comparação de obras de Daniel Bueno que existem aspectos como, a ilusão e ambiguidade semelhantes às obras de Saul Steinberg, formas inusitadas e cores contrastantes parecidos com as obras de Jim Flora e "cortes" e formas geométricas próximas aos trabalhos de George Grosz.

Conclui-se ainda que as alguns trabalhos de Bueno possuem relações com o Surrealismo Pop. Porém, o livro "Bili com Limão Verde na Mão", apesar de trazer personagens soltos, inseridos num clima fantasioso (o que não poderia ser diferente, sendo que o livro possui referências de “Alice no País das Maravilhas”), não se enquadra a esse movimento, pois faz uma exploração mais contundente da linguagem, sem gratuidade ou aleatoridade de elementos como no Surrealismo Pop. Seu design e ilustração procuram acompanhar o texto de Pignatari, baseados em referências do Concretismo. E, segundo Bueno (2010), a poesia concreta de Pignatari vai na direção contrária ao lirismo, ao subjetivismo, ao expressionismo, a simbolismos, ao acaso e ao inconsciente.

Os aspectos racionais, estruturais, planejamento e projeto são valorizados no Concretismo, que está inserido na “High Brow”. Já o Surrealismo Pop não possui programa claro e é chamado de “Low Brow”.


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A OBRA DO ILUSTRADOR CONTEMPORÂNEO DANIEL BUENO RELACIONADA COM OBRAS DE ILUSTRADORES DO SÉCULO XX  

Este projeto investiga a obra de Daniel Bueno, arquiteto, quadrinista, designer gráfico e ilustrador contemporâneo brasileiro, membro e con...