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Terça-Feira, 14 de Dezembro de 2010, Número 1 Edição Porto Direcção: Daniela Teixeira Preço: 1 Euro

Turismo Jovem afasta-se do Convencional

InterNacional

Cada vez existem formas mais económicas e aventureiras de viajar. Cultura pag. 9

EM ENTREVISTA: José Soeiro

"Toda a gente pode fazer política, até os Políticos"

Política página 3

Literatura Low Cost: Descubra como ler a baixo custo

Cutura pag. 12

UM NATAL QUE SE QUER PARA TODOS:

militância juvenil

Turismo: Porto diz-se com honra

Crítica literária: Crime e Castigo

Local Porto pag. 14

Política pag. 2

Cultura pag. 4

Cultura pag. 13

A Invicta tem uma programação de Natal para todos os gostos

O que faz um jovem num partido político?

Conhecer o Porto sobre rodas


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Política: Reportagem mILITÂNCIA JUVENIL:

na Sociedade

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InterNacional, 14 de Dezembro 2010

Uma forma de intervir

Qual é a relação dos jovens com os partidos? Estará a militância juvenil fora de moda? Em época de descredibilização da política e de quem a faz o Internacional foi conversar com aqueles que ainda acreditam. Por Daniela Teixeira

São todos jovens, estudantes e convictos. Têm diferentes cores políticas, percorrendo o espectro da esquerda à direita. Acreditam na política como factor de mudança e na militância em juventudes partidárias como uma forma de estar na sociedade, de reflectir o quotidiano e de intervenção no mundo. Para alguns a militância é o berço do que poderá vir a ser uma carreira política.

Ricardo Sá Ferreira é actualmente estudante de Mestrado em Sociologia na FLUP, depois de se ter licenciado em Política e Relações Internacionais e ter tirado um primeiro mestrado em Economia Política Internacional. Decidiu entrar para o Bloco de Esquerda (BE) porque queria fazer algo para mudar a situação económica e social do país. “Queria fazer activismo político, queria debater alternativas para o país, para o ensino, para a economia, para o Estado Social entre tantas outras coisas. Queria entrar em ruptura com o comodismo que sufoca as nossas vidas e os nossos espaços de debate, queria deixar as opiniões abstractas e passar para a acção. Sobretudo queria aprender a pensar um novo mundo que seja mais solidário, mais fraterno e que se baseie na justiça social e económica.”, conta. A escolha do Bloco de Esquerda como o partido foi para Ricardo uma decisão fácil já que quando se tornou militante, aos 18 anos, o BE era um partido recente tido como “irreverente” e de “alternativa” que denunciavas as “injustiças económicas

e sociais”. Para além disso, Ricardo sentiu no BE uma “abertura no debate de ideias” uma transparência na sua democracia interna que lhe agradou. “Senti, desde logo, que estava num espaço politico onde não existem temas intocáveis nem dogmas e onde tudo está por pensar” diz, acrescentando que se juntou a este partido por acreditar que nele teria uma voz. Daniela Cerqueira é estudante de Ciências da Comunicação e faz parte da Juventude Socialista (JS) da Feira. Hoje com 20 anos, decidiu juntarse à JS com 17, “sempre me identifiquei com a Esquerda, mas decidi integrar a JS porque na altura me pareceu a Juventude mais aberta e receptiva a novas ideias e outras perspectivas”. Daniela considera os movimentos das juventudes partidárias muito importantes “como meio de passagem e aprendizagem para a filiação num partido”. Com funções no Gabinete de Comunicação e Imagem da JS Feira, Daniela diz que na JS teve a oportunidade de “aprender como funciona a estrutura de um partido, ouvir outras ideias e a participar em inúmeras actividades tanto do PS como da JS”.” As reuniões semanais obrigam a uma atenção redobrada sobre a actualidade e aquilo que acontece na política nacional o que, nesta idade, é dificil. As Juventudes partidárias obrigam a pensar sobre a política e incentivam que formemos as nossas próprias posições.”, acrescenta. Rui Moreira, estudante de Direito na Universidade de Coimbra diz que quando decidiu juntar-se ao PS, com 17 anos, aquilo que mais pesou na escolha do partido foi a corrente ideológica com a qual se identificava. Como principal

Reuniões, debates, visitas à Assembleia da República são, entre muitos outros, exemplos de actividades levadas a cabo pelas juventudes partidárias

Ricardo Sá Ferreira, militante do BE, considera o activismo uma forma essencial de particiapação política

motivo para se ter alistado numa juventude partidária menciona o “enriquecimento político, cultural e pessoal”. “A minha participação na JS esteve sempre limitada pela minha vida pessoal e académica”, continua. “Já liderei orgãos executivos, onde promovi debates, colóquios, actividades de esclarecimento eleitoral e de lazer. Actualmente, mantenho funções em orgãos consultivos e deliberativos” conta Rui. Manuel Oliveira (nome fictício) integrou a Juventude Popular (JP) com 17 anos. Hoje com 19 diz que escolheu o CDS-PP como partido essencialmente pela identificação ideológica, “há algum tempo que me interessava pela política nacional e olhando para a oferta partidária séria e democrática em Portugal percebi que a JP era o contexto em que mais me revia”, diz. Para Manuel o objectivo de pertencer à JP é o de “batalhar por um Portugal melhor” enquanto democrata-cristão. Na Juventude Popular da Maia, onde se insere, não tem nenhuma função específica, sendo militante de base, mas diz que na JP Maia “não há distinção entre militantes de base e militantes com funções hierárquicas: somos todos

iguais, todos temos direito à opinião e trabalhamos para os mesmos objectivos”. As convicções pessoais e a ideologia partidária

"Queria fazer

activismo político, debater alternativas para o país, para o ensino, para a economia, para o Estado Social entre tantas outras coisas. Queria entrar em ruptura com o comodismo que sufoca as nossas vidas e os nossos espaços de debate, queria deixar as opiniões abstractas e passar para a

acção." Ricardo Sá Ferreira A ideia de que para pertencer a um partido se tem de “subscrever” as suas ideias na totalidade pode, ao dar uma ideia de “seguidismo” e de pouca abertura a outras perspectivas, afastar os jovens da militância. No que toca à submissão às ideias do partido, Daniela

Cerqueira é categórica: A JS é um órgão à parte e tem novas ideias, não estando subordinada à ideologia do PS. “Temos muito espaço de debate e de exposição de ideias contrárias”, afirma. Ricardo Sá Ferreira fala de pluralismo de ideias no Bloco de Esquerda e diz que para pertencer ao BE ninguém tem de abdicar de qualquer convicção pessoal. “O Bloco tem várias ideologias porque todos temos formas de olhar para um certo objecto por diferentes prismas. O pluralismo de ideias dentro do Bloco é ampla, o que nos dá um espaço para debater e confrontar essas mesmas ideias. É essa a nossa força.”, diz entusiasmado. O que falta nos Jovens para se sentirem atraídos pela política e o que falta na política para atrair os jovens A militância partidária já não é o que era. Para isto contribuem muitos factores difíceis de deslindar: o afastamento de uma forma geral do discurso político da “vida real”, a pouca identificação do jovem com o discurso político, a descredibilização da política, algum comodismo,

a existência de formas alternativas de participação política ligadas, entre outras coisas, aos novos média, o maior individualismo e a alteração dos modos de vida são alguns dos motivos que explicam a cada vez menor popularidade da militância política entre as camadas mais jovens da população. Ricardo Sá Ferreira admite que os partidos políticos têm demonstrado pouco interesse na participação dos jovens. “os jovens sentem-se pouco representados na Assembleia da República porque são poucos os partidos que falam dos seus problemas”, afirma. O estudante diz que falta uma política para os jovens: “que tenha em consideração as necessidades dos jovens e tentar resolvê-las e isso não se tem visto…”, lamenta. Ricardo diz que nos jovens tem faltado também o espírito de irreverência e de insubmissão que há, muitas vezes, por parte dos jovens em países como a Grécia ou a França. Daniela Cerqueira acredita que os jovens se interessam pelo que os rodeia e têm opinião sobre tudo. “O que acontece é que há um descrédito enorme no nosso sistema político e, sobretudo comodismo. Não há muita gente a querer trabalhar nem a querer dar ideias, mesmo que as tenha. Há sempre o medo da responsabilidade e o que ela possa acartar”, conta. Opinião contrária a esta é

"As juventudes

partidárias são muito importantes como meio de passagem e aprendizagem para a filiação num

partido". Daniela Cerqueira a de Manuel, para quem os “jovens não se interessam minimamente em perceber o que os rodeia” apesar de também acreditar que este é um problema de raiz já que, para ele, o grande motivo para o desinteresse dos jovens é não serem incitados pelas famílias e pela escola a uma “cidadania responsável e activa”. O jovem democrata cristão acrescenta que os partidos estão muito interessados nos jovens e isso é notável para valorização das juventudes “afinal, as juventudes são as principais fornecedoras dos intervenientes mais activos nos partidos”, afirma. À política, para atrair os jovens falta “adaptação, novas actividades e outro discurso”, diz Daniela embora reconheça que os partidos muitas vezes se esforcem para atrair os jovens como é o caso ao estarem presentes nas redes sociais. O Bloco de Esquerda tem cerca de um terço dos seus filiados com menos de 30 anos. O número resulta de não haver

uma juventude partidária dentro da organização, porque se considera que a existência de uma juventude é uma ideia paternalista e que dentro no BE todos têm igual direito a participar, explica Ricardo. Em busca de uma carreira na política (ou não) Não raras são as vezes em que as juventudes partidárias e os próprios partidos são acusados de serem ninhos de pessoas que só vêem aí um meio de fazer uma carreira na política. Os militantes, devido a vários estereótipos são, por vezes, considerados de “oportunistas” ou de serem movidos pela ambição de um cargo político. “Acima de tudo quero aprender”, diz Daniela. Mas admite que um dia gostava de exercer assessoria política e mesmo de ocupar um cargo na Assembleia pelo PS. Também Rui Moreira diz que por agora está preocupado em acabar a sua licenciatura mas que fazer uma carreira política está nos seus planos de futuro . No entanto, alerta que carreira política “não implica necessariamente ocupar um cargo político”. O jovem bloquista diz que sem dúvida quer continuar a militar e a reivindicar direitos, entusiasmado, diz que por enquanto quer muito ser professor e quanto a “carreirismo político como ser deputado, isso, só o tempo o dirá”.

Já Manuel Oliveira afirma que não está à espera de um cargo político e que, por isso, prefere orientar a sua vida numa perspectiva independente. Todavia, diz que se um dia for chamado a “contribuir para o bem do país e a fazer serviço público”, não dirá que não. As convicções políticas destes quatro jovens são distintas

mas a forma de olhar para a militância juvenil não difere tanto quando as cores políticas faziam prever: Uma forma de estar na sociedade, de olhar para o mundo, de intervir no quotidiano, de aprender, ou, quem sabe, de vir a ter um cargo político é, para estes jovens o essencial de pertencer a uma juventude partidária.

Rui Moreira a discursar na X Convenção Distrital da JS Porto


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Em Entrevista: José Soeiro

InterNacional, 14 de Dezembro 2010

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"Toda a gente pode fazer política, até os políticos"

Faço de questão de lembrar quem acha que não, que estamos todos em pé de igualdade. Todos os deputados têm a mesma legitimidade e são titulares da mesma soberania porque foram eleitos directamente pelo povo e portanto não aceito que tentem subalternizar isso. Do ponto de vista prático, o Parlamento acaba por reflectir a sociedade conservadora em que vivemos . Os estereótipos e formas de dominação que existem na sociedade são reproduzidas. A nossa tarefa é sermos intransigentes com essas formas de dominação:eu tento que a discussão seja em torno das ideias que cada um defende e não em torno da sua idade ou género. Há quem pense que a

Daniela Teixeira Deputado aos 24 anos, fez do activismo uma filosofia de vida. José Soeiro é deputado do Bloco de Esquerda desde 2008 e espera não morrer no Parlamento pois quer mais da vida: dar aulas, fazer investigação, teatro e conhecer o mundo. Com ideias muito próprias diz que se inspirou em inúmeros sociólogos e grandes pensadores mas que o seu pensamento ideológico foi sobretudo influenciado pelas pessoas que o rodeiam: desde as namoradas que teve à sua mãe.

Desde muito jovem que José Soeiro se dedicou ao activismo em nome de diversas causas

Como é que nasceu a vontade de fazer algo pela sociedade e de se envolver na política? A experiência mais marcante de participação política que eu tive inicialmente, foi no ensino secundário. Nós tínhamos um grupo lá na escola que queria ter uma voz sobre o que se passava na escola. Nessa altura nós candidatamo-nos à Associação de Estudantes e ganhamos, enesse grupo havia uma vontade muito grande de participação de discutir e questionar a educação e o mundo e ao mesmo tempo. Questionava-mos também coisas muito concretas: porque é que havia escadas só para professores? porque é que eles nos passavam à frente na fila do Buffet? Depois como é que passou dessa participação ligada aos problemas do dia-adia dos estudantes a uma militância partidária? Na altura que isto estava a acontecer surgiu o Bloco. Ou seja, em 1999, 2000 e eu tive oportunidade de assistir a uma apresentação do Bloco aqui na reitoria da Universidade e entusiasmou-me a ideia de estar a ser criado um projecto de uma nova organização política que tentava fazer convergir no mesmo espaço a tradição da esquerda, dos trabalhadores,

José Soeiro é deputado, sociólogo e tem o socialismo como corrente ideológica.

da luta pela igualdade, com a experiência do activismo e dos movimentos dos imigrantes, dos movimentos feministas, de liberdade sexual, ecologistas, contra a guerra… e a fusão dessa experiência numa nova esquerda que olhasse para o mundo de hoje e que tentasse perceber o mundo de hoje e que não estivesse presa a dogmas do passado, que estivesse até com vontade

"Participei também numa cimeira na Escócia contra o G8, foi uma experiência muito interessante, de acção de rua, muitos debates e muitos fóruns de discussão."

de juntar gente diferente. Desde essa altura que fiquei envolvido com o Bloco. A participação no Bloco e num partido político acho que nos torna mais críticos, faz com que nós pensemos mais por nós mesmos e torna-nos mais abertos. Eu sou dos que acha que a participação num partido político só faz sentido s nos tornar mais abertos do que o que éramos, eu acho que me tornei desde que participo no bloco… O activismo teve presente na sua vida desde muito jovem, o que é que já fez nesse contexto e porquê? Quais foram as suas motivações? Txiii, tanta coisa (risos). O meu percurso activista foi sendo marcado pelo envolvimento em problemas e mobilizações concretas que se colocavam. Quando surgiu a guerra do Iraque, por exemplo, envolvi-

"Um dos problemas do conformismo é a incapacidade que ás vezes temos de imaginar alternativas para o mundo e para os espaços onde estamos." me muito nos movimentos contra a guerra do Iraque e contra a estratégia do Bush… Lembro-me por exemplo também quando foi a morte da Gisberta aqui no Porto de me ter envolvido muito com os movimentos LGBT, porque era preciso essa intervenção. No movimento estudantil desde sempre porque era a intervenção privilegiada que nós tínhamos: queríamos pensar a escola e dar resposta aos problemas

que lá surgiam e o movimento estudantil era esse espaço. Também pude saber que participou em várias contracimeiiras do G8…. Sim, desde 1999 que se começou a formar um movimento anti-globalização ou “alterglobalização”que punha em causa a globalização capitalista e as suas instituições. Então começou a surgir este movimento com a consigna “Um outro mundo é possível”. Que foi-se juntando sempre que havia as reuniões do G8, dos 8 países mais poderosos do mundo que se juntavam para decidir os destinos de todo o mundo quando o mundo não vota neles para decidirem o destino do mundo, tinham votado nos seus respectivos países quando muito. Portanto sempre que havia uma cimeira do G8, ou do G20, começou a haver contracimerias

que propunham agendas alternativas. Participei na Escócia numa cimeira contra o G8, foi uma experiência muito interessante, de acção de rua, muitos debates e muitos fóruns de discussão. Como participei também em fóruns sociais que existiram: lembro-me, por exemplo, do fórum europeu em Londres e em Atenas: que juntavam todo o tipo de movimentos que acham que um outro mundo é possível, ou seja, que nós não estamos condenados a aceitar as injustiças do mundo tal como elas existem mas que devemos lutar para combater essas injustiças. Pode partilhar connosco alguma história ou experiência concreta que tenha vivido nesse contexto? Por exemplo na contra cimeira tive uma experiência interessante, que foi a de um bloqueio de uma base nuclear que havia em Faselein. Uma vez também fomos para um campo de detenção de imigrantes, chamado de “acolhimento” de imigrantes, onde eles são presos para depois serem deportados, numa Europa que precisa do trabalho dos imigrantes, mas que clandestiniza as suas migrações para não ter que lhes reconhecer direitos de cidadania e de trabalho. Foram experiências de confronto com a repressão, não tanto sentido de violência policial, mas de controlo muito grande de todos os movimentos

de protesto e sociais. Entre outras coisas uma vez organizamos um debate sobre a escola da ponte que me fez pensar numa forma muito diferente na escola e me marcou muito. O José Pacheco, da escola da Ponte, que é estrábico, abriu o debate dizendo: “eu tenho uma forma muito diferente de ver o mundo, vocês devem ter percebido, eu olho para as coisas de outra forma e acho que um debate sobre a escola deve começar por questionar tudo: temos aulas. Para que que servem as aulas? Temos turmas, para que servem as turmas? Temos professores, precisamos de professores? Temos testes, para que servem os testes?” E se nós soubermos responder a estas perguntas, talvez comecemos a pensar na escola de que precisamos… o que não podemos fazer é aceitar tudo o que existe como se fosse a única possibilidade. A realidade não pode ser aceite como tudo o que existe. A realidade é apenas uma parte da realidade porque além da realidade existem as possibilidades. A realidade é isso tudo: o que existe e a possibilidade do que existe ser diferente. Um dos problemas do conformismo é a incapacidade que ás vezes temos de imaginar alternativas para o mundo e para os espaços onde estamos . Com 24 anos tornou-se deputado. Como é ser deputado tão jovem? Não sei como é que é ser

deputado sem ser tão jovem (risos). Foi uma responsabilidade muito grande e uma experiência muito interessante, isto de ter acesso a um dos lugares onde as nossas vidas se decidem, querendo nós ou não. O que não quer dizer que o parlamento não é o reflexo da sociedade: não se mudam as coisas só no parlamento, é preciso mudar a sociedade… Eu penso que devemos estar no Parlamento de forma sempre muito vigilante e cautelosa para conseguimos ser também críticos em relação aquela instituição e para não nos deixarmos fechar lá: a vida está cá fora. Quais são as causas que mais defende no Parlamento? Há relação entre elas e a sua idade ou experiência de vida? Estou ligado à educação e em particular ao Ensino Superior, o que está relacionado com a minha vida… também estou associado às discriminações e às questões da precariedade. Estas são algumas das questões centrais que caracterizam a experiência juvenil: o contacto com o mercado de trabalho, por exemplo. A experiência tanto da escola como da precaridade são marcantes nos jovens. Alguma vez foi diferenciado pela idade que tem ou sempre esteve completamente em pé de igualdade com todos os outros deputados?

As pessoas com quem namorei foram mesmo muito importantes (...). Ao partilharem comigo a sua sensibilidade, a sua intimidade e as suas experiências, abriram-me os olhos para outras coisas que eu não conhecia. idade confere um estatuto de superioridade sobre os outros. Há alguns temas que as pessoas sentem que não são para jovens falarem: há deputados que pensam que os temas do trabalho são para deputados da área do direito do trabalho debaterem e não são. O tema do trabalho é para todos nós debatermos porque determina nossa vida… Está envolvido no Teatro Fórum também conhecido como Teatro do Oprimido. Em que é que consiste este género de teatro? Como tomou conhecimento dele e resolveu participar? O teatro do oprimido tem como ideias fundamentais a de que toda a gente pode fazer teatro. Ou seja, o teatro é uma linguagem humana por excelência e todos nós no nosso dia-a-dia, na nossa vida somos teatro. Estamos permanentemente a desempenhar papeis sociais que significam que há certas posturas e guiões de acção que vamos fazendo. O que o Teatro do Oprimido nos diz é que

devemos tomar consciência da linguagem teatral e podermos utiliza-la para analisar e transformar a nossa vida. Esta é a primeira ideia revolucionária do Teatro do Oprimido: algumas pessoas fazem do teatro a sua profissão mas todos podemos usar a linguagem do teatro para olhar para os nossos problemas. A segunda ideia é de que não devemos ser espectadores passivos do que acontece. O teatro do Oprimido parte da ideia também de que todos nós devemos ser espectatores: olhar e transformar o que acontece. No teatro fórum encenamos um problema sem solução e vamos substituindo o protagonista para encontrarmos soluções diferentes para o problema através da prática. Tomei contacto com o teatro do oprimido na Irlanda em 2002 e entusiasmou-me muito a ideia de podermos falar da nossa vida e da política usando a mais completa das linguagens humanas: o teatro. O que é que o teatro do Oprimido lhe trouxe de novo e de positivo e o que acha que pode trazer às outras pessoas? A mim trouxe-me muitos momentos divertidos, em primeiro lugar. Sem o teatro do oprimido ter-me-ia rido muito menos até hoje, trouxe-me uma capacidade de escuta que eu não tinha. Quem dinamiza oficinas do teatro do oprimido tem de ouvir estórias e respeitar o ponto de vista de quem conta a história. Trouxe-me também uma forma de participação muito mais entusiasmante e mais democrática que as formas de votação. Nestas oficinas discutimos política porque discutimos as nossas vidas e procuramos soluções para ela não numa política abstracta e de discussões interpartidárias… e não precisamos de falar a língua dos políticos para fazer política e este é o maior potencial do teatro do oprimido: toda a gente pode fazer política, até os políticos. Estudou Sociologia, porque essa área de estudos? É uma boa pergunta! Primeiro pensei em ir para francês porque gostava muito de literatura e de música francesa. Depois acabei por ir para sociologia porque o essencial da sociologia é a curiosidade por aquilo que se passa à nossa volta. Curiosidade


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Em Entrevista: José Soeiro

O pensamento de José Soeiro foi influenciado principalmente por Karl Marx, Pierre Bourdieu e pelas pessoas que mais o marcaram

pelo mundo em primeiro lugar e a vontade de compreender o que se passa nas relações entre as pessoas…. A sociologia tem esse prazer de nos desiludir: de nos confrontar com aquilo que nos é familiar e de nos pôr a ver para além do evidente. Todos nós temos interpretações espontâneas da realidade e a sociologia consegue darnos ferramentas e métodos para olharmos a sociedade de forma mais crítica e para nós descobrirmos os mecanismos que estão por trás das falsas evidências do dia-a-dia. Existem alguns pensadores que influenciaram particularmente o seu pensamento e a sua filosofia de vida? Há 4 ou 5 pessoas que foram muito importantes. Mas quem me influenciou mais para eu ser o que sou foram os meus amigos e a minha experiência, a maior parte das coisas que sei, sei não porque as li mas porque alguém me falou delas. Em termos de pessoas que me inspiraram: Bourdieu, o Karl Marx porque ele é o grande fundador do pensamento crítico contemporâneo, o Augusto Boal é outro que me influenciou e em todos os domínios, o Zeca Afonso Paulo Freire… O problema desta lista é que são todos homens… mas a maior parte das pessoas que me inspiraram foram mulheres que não estão aqui nomeadas.

Posso ir para o cliché da minha mãe mas todas as pessoas com quem eu namorei foram mesmo muito importantes porque me abriram olhos para coisas que eu não conhecia. As pessoas com que contactamos mais marcam aquilo que somos. Ao partilharem comigo a sua sensibilidade, a sua intimidade e as suas experiências, abriramme os olhos para outras coisas que eu não conhecia.

"Espero não morrer no Parlamento, porque isso seria um destino muito triste (risos). Espero ter tempo, espaço, oportunidade de fazer outras coisas na minha vida profissionalmente.

E que outros livros, músicas e filmes que o marcaram para além daquilo que é o seu pensamento crítico e corrente ideológica?

e a banda sonora da Amelie Poulain, a valsa do proletário, pode ser o Jacques Brel, o Sérgio Godinho… há tanta coisa. Considero a minha cultura musical limitada e ela faz-se mais de canções do que de autores. Há músicos como o Sérgio Godinho, o Jacques Brel e o Georges Moustaki, desses tenho toda a discografia. Mas a maior parte das coisas que eu gosto são dispersas.

Mau era se só víamos um filme ou líamos um livro porque é da nossa corrente ideológica (risos). É muito difícil fazer listas. Normalmente o meu livro favorito é o último que eu li porque é o que eu me lembro! Mas gosto muito de poesia, como Eugénio de Andrade, Sofia de Melo Breyner, José Gomes Pereira… mais recentemente o José Luís Peixoto e o Nuno Judice. O “Levantado do Chão” do Saramago marcou-me muito, é um livro extraordinário. Também consigo ter prazer estético com livros de ensaio sociológico… ler um livro do Bourdieu ou do Boaventura Sousa dos Santos, por exemplo, são experiências estéticas também. A música vai acompanhando momentos concretos da minha vida. Pode ser o Yann Tiersen

No futuro, a curto ou médio prazo, pretende continuar com um cargo político? Isso vai depender de muitas coisas. Há muitas coisas que gosto de fazer: da sociologia, da investigação, do teatro do oprimido, de trabalhar em escolas, gostava de tirar dois anos para viajar e ir trabalhando enquanto conheço o mundo. Espero não morrer no Parlamento, porque isso seria um destino muito triste (risos). Espero ter tempo,

espaço, oportunidade de fazer outras coisas na minha vida profissionalmente. Tem alguma Bucket List, coisas que quer mesmo fazer antes de morrer ou isso são mesmo só coisas de filmes? Não, não… O meu espaço de pensamento dessas coisas costuma ser o de um mês mais ou menos, um ano (risos). No próximo ano quer muito ir à Índia acompanhar um festival do Teatro do Oprimido. Nos próximos anos quero muito ir ao Brasil que tenho assuntos para tratar. O resto é ir para o Museu da Avó beber finos e contar umas histórias (risos), é este o desejo mais interessante e recorrente das minhas semanas…Isto é que marca a nossa vida muitas vezes. Qual foi a maior lição que tirou do seu envolvimento com a política nestes últimos anos? Eu sumario com uma frase do Che Guevara que diz o essencial que eu retiro da minha experiência parlamentar “Há que endurecer sem jamais perder a ternura”. Quando somos atirados para o meio da disputa política mais dura e insensível, há uma espécie de Killer instinct que faz parte do jogo que pode ser perigoso se tomar conta de nós. Há que endurecer porque temos de estar preparados para batalhas

que nem sempre vamos ganhar, porque há lutas que duram muitos anos. As mudanças não são imediatas e às vezes podemos perder a esperança e nesse contexto podemos ficar cínicos, o que é péssimo. Se pudesse mudar duas ou três coisas no mundo, hoje, quais seriam? Como diz a miss Universo era a paz no mundo, acabar com a fome… não, estou a brincar (risos). Tanta coisa! Uma coisa importante é acabar com o poder dos bancos na nossa vida, a finança destrói muitas vezes as nossas vidas, esmaga a democracia dizendo que “não há alternativas porque quem manda somos nós”… Outras coisas: gostava que pudéssemos caminhar para uma sociedade em que cada um pudesse construir mais livremente a sua identidade: pessoal, sexual, social… E precisamos de mais tempo para viver. Os que não tem trabalho precisam de ter emprego e aqueles que têm emprego têm de ter mais tempo livre. Podíamos distribuir o trabalho que existe por todos. Isto faria grande diferença nas nossas vidas. Podermos usar o tempo da nossa vida de forma mais autónoma e auto-determinada. Nós só passamos pelo mundo uns anos e era bom que pelo menos durante uns anos da nossa vida pudéssemos fazer coisas que nos dessem prazer.

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Cultura

Turismo: Porto diz-se com Honra Por Daniela Teixeira

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elos caminhos desta cidade, c o n t a n d o histórias, desvendando segredos, uma viagem de autocarro podese revelar uma agradável descoberta.

A Avenida dos Aliados num dia do fim do mês de Maio, às nove e meia da manhã é dos turistas e das pessoas que correm apressadas de pasta na mão. Está muito calor. O sol ilumina a Avenida e no posto de “City Sighteseeing Tour” já estão turistas: sandálias nos pés, óculos de sol na cabeça, máquina fotográfica ao peito: o Porto é uma cidade prestes a desbravar. O funcionário do posto de City Sightseeing Tour estende longos mapas desdobráveis, fala inglês e esbraceja. Chegam mais quatro turistas, visivelmente mais velhos que os primeiros e compram bilhetes para a viagem de visita à cidade. O funcionário volta a estender o mapa, a esbracejar e a falar inglês. Na Rua Infante D. Henrique o autocarro que se prepara para iniciar a rota “Porto das Pontes” conta já com algumas pessoas. São sete e todos falam inglês embora aparentemente não se conheçam: sentamse em lugares separados e não comunicam entre si. Os passageiros ligam os headphones oferecidos pelo condutor do autocarro ao banco da frente. A história do Porto pode ser ouvida em seis idiomas diferentes. Percorrer as diferentes faixas é um exercício engraçado. A viagem está prestes a começar. A Ponte D.Luís é a primeira atracção do roteiro. A história da ponte sopra ao ouvido dos passageiros. O trajecto segue pelas pontes D. Maria, do Infante e do Freixo. Avista-se o Museu de Imprensa, o autocarro pára para entrarem mais seis passageiros. Falam francês. O autocarro entra agora na via rápida e sai em S.Roque da Lameira, subindo, em direcção ao Estádio do Dragão. Assim que o veículo se aproxima do estádio há a reacção imediata dos turistas: pescoços esticados, máquinas

a disparar, alguns até se levantam para tentar ver o interior do edifício. O estádio fica cada vez mais longe, mas ainda há quem olhe para trás… A viagem prossegue pela Praça Francisco Sá Carneiro, outrora conhecida como Praça Velasquez, por S.Crispim, até ao Campo 24 de Agosto. Aqui entram mais duas senhoras que falam espanhol. O sol esquenta. Ao atravessar a Ponte do Infante, rumo à Serra do Pilar, o espanto perante a vista privilegiada da zona ribeirinha fez-se notar. As máquinas fotográficas tentaram captar a paisagem. Depois de uma curta passagem pelo centro de Gaia, o autocarro ruma à ribeira da cidade. À medida que se desce em relação ao rio, a voz que vai dando informações ao ouvido de cada um dos viajantes avisa que se aproxima uma das perspectivas mais marcantes da ribeira do Porto. “Lily! Olha para isto!!!”, diz um senhor em inglês, levantandose do seu lugar para melhor apreciar a paisagem. O Douro é uma linha curva, reflectindo luz. Barcos rebelos estão ancorados justo à margem. No aglomerado de pequenas casas detelhados laranjas escuros pode-se distinguir a Torre dos Clérigos, parte da Sé e a cúpula do Palácio de Cristal. Ao fundo vê-se Pontda Arrábida. No outro extremo a Ponte D. Luís. James e Lily vêm do Reino Unido e estão pela terceira vez no Porto. Dizem que o Porto é uma cidade única. Adoram o clima, a simpatia dos portuenses, o marisco e as caves de vinho do Porto. “É uma alegria visitar esta cidade”, Passando pelo Museu Sóares dos Reis e pelo Palácio de Cristal o autocarro vai até à Boavista. A Casa da Música é a atracção da zona. Muitas crianças ocupam as escadas da entrada principal do edifício. Este diamante já está na história do Porto. E “diamonds are forever”… Cecile e Marie são francesas. Gostam do Porto porque é uma cidade pequena. “Conseguimos ver muitos

em falar inglês, não querem continuar a conversa. A parte seguinte da viagem adianta já parte do percurso afirmam. O autocarro volta a estacionar na Rua Infante D.Henrique..A viagem chegou ao fim. A próxima rota é a “Porto Histórico”. Já passa do meio dia. Na parte superior do autocarro estão seis turistas aparentemente estrangeiros que olham distraidamente à sua volta. A primeira preocupação quando o autocarro arranca é conectar os auscultadores ao rádio incorporado no banco da frente. Desta vez há uma inovação em relação à vez anterior: há música portuguesa a passar. Cada vez que a voz

que nos fala dos cantos e encantos desta cidade se cala, entra o fadinho. “Preciso de uma razão, para não ir naquela nuvem. Preciso de uma razão que o vento não leve não”. Mas no céu não há nuvens. E vento, só o provocado pelo andamento do autocarro. O autocarro segue em direcção

"James e Lily vêm do Reino Unido e estão pela terceira vez no Porto. Adoram o clima, a simpatia dos portugueses, o marisco e as caves do vinho do Porto."

à igreja de Santa Clara, subindo para a Batalha. A Rua de Santa Catarina é uma azáfama. Passeios em dias de sol, compras em dias de sol e de chuva. Sacos plásticos coloridos abanam nas mãos de várias pessoas. Depois de passar pelo Rivoli, pela Câmara do Porto e pela Trindade, o autocarro ruma até à Reitoria da Universidade do Porto, segue o compasso do eléctrico. da próxima rota: a passagem por Serralves, e todo o percurso da foz até à ribeira. "Nem negros nem azuis são os teus olhos, meu amor, seriam da cor da mágoa” se a mágoa tivesse cor”, diz Cecile. Têm dificuldade

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Crítica Literária: Crime e Castigo Com um nome intranscritível, ela é da Malásia.monumentos, tudo a pé”, O que mais gostou do Porto foi da zona das praias. “É muito bonito. Estou a adorar Portugal,.a cultura do meu país é muito diferente. Este é um sítio especial para mim” afirma no fim desta viagem. O local de embarque da rota “Porto dos Castelos” é ao lado do Palácio da Bolsa. Na paragem está um casal de alemães típicos: cabelos muito loiros, olhos muito azuis, peles vermelhas do excesso de sol. Conversam alegremente. Têm mochilas às costas e um ar primaveril. Chega o autocarro e o casal é o primeiro a entrar: partem à aventura. A rota dos castelos conta com a passagem por três fortalezas historicamente importantes na história do Porto: o Castelo da Foz, o Castelo do Queijo e o Castelo de Leça. A maior parte do caminho é feito à beira-mar. O mar está cheio de surfistas. Alguns banhisbém para desapertar a camisa: barriga de fora, calções de praia, meias verdes puxadas para cima, dorme agora a sesta. Pedro e Rose vêm do Canadá. Ele é português mas não tinha contacto com Portugal há muitos anos. “Posso falar inglês?”, pergunta. “O meu português está muito mau”, acrescenta. “O Porto é uma cidade com muita história, o que é óptimo para nós, vimos do Canáda, só há poucos séculos de história lá. Então é fantástico visitar uma

"O Porto é uma cidade com muita história, o que é óptimo para nós, vimos do Canáda, há poucos séculos de história lá." cidade com centenas de anos de história”, diz entusiasta. “Viemos fazer este roteiro porque vimos publicidade e gostamos”, acrescenta agora em português. O passeio prossegue. Em Leça entram no autocarro os primeiros portugueses desta viagem. São dez rapazes e vêm com uma mulher mais velha, professora pelos vistos. “Altamente!” diz o primeiro rapaz depois de subir as escadas que levam ao piso superior do veículo. São adolescentes. Empurramse uns aos outros e mandam piadas ao acaso. Sentam-se perto do jovial casal alemão. A senhora que os acompanha

senta-se na parte da coberta do autocarro onde há sombra e durante o resto da viagem vai lançando olhares ameaçadores sempre que os rapazes soltam um riso mais alto. A paisagem é agora apreciada em silêncio, calmamente. “O Fado não é da terra, o fado criou-o Deus. O fado é andar doidinha, perdida pelos olhos teus”. Entram mais dois passageiros. São um casal e usam chapéus de abas brancos com risquinhas azuis. Ela senta-se na parte coberta do autocarro, ele prefere apanhar sol. Pelas feições são asiáticos. A calçada junto à praia é aproveitada para caminhar, para trocar beijos apaixonados, para fazer exercício físico. Depois de uma passagem pela Quinta da Conceição e da Quinta de Santiago, avista-se o Porto de Leixões. O autocarro dá a volta e regressa pelo caminho já percorrido: do clube naútico até ao Castelo do Queijo. Aí segue em direcção à zona da Boavista: o Estádio do Bessa merece a atenção dos turistas. Lorena é brasileira e está no Porto pela segunda vez. Passou a viagem a olhar com paixão para todos os monumentos. “Vim no passado ao Porto e estou voltando outra vez. Gostei muito, tem muitos locais bonitos para ver, o povo é muito agradável e simpático. Tem bons vinhos…”. Fala de uma assentada, com entusiasmo “Vim neste autocarro porque cheguei hoje, estava em Paris. Amanhã vou para Braga e depois vou para Santiago de Compostela. Vim para matar saudades do Porto, como o tempo é curto, esta é uma boa solução, aí vou aproveitar para rever as coisas que eu tinha visto a vez passada”. Na Praça da República velhos e jovens preferem a sombra ao sol tórrido. Tórrido como em dias de Agosto. A viagem acaba onde começou. Uma multidão de idosos espanhóis aguarda o esvaziamento do autocarro para que possam entrar. Risos multiplicados, conversas sem fim. É uma alegre convivência. Na busca pela eterna novidade do mundo nas águas do Douro, nos contornos da Torre dos Clérigos ou na Ponte D.Luís, europeus, americanos do norte e do sul e até asiáticos marcaram presença nesta viagem pela antiga, mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto.

Título: Crime e Castigo Autor: Fiodor Dostoievski Pontuação: *****

A

obra Crime e Castigo, escrita por Fiódor Dostoiévski e publicada em 1866 é considerada por muitos críticos uma das melhores obras da literatura mundial. O livro conta a história de Rodion Romanovitch Raskólnikov, um jovem oriundo de uma família pobre que se vê obrigado a deixar o seu curso de Direito por falta de recursos. Empurrado para uma vida de miséria, onde falta quase tudo e onde é impossível assegurar uma vida confortável à sua mãe e à sua irmã, Raskólnikov vai começar a pensar em soluções menos ortodoxas para os seus problemas Raskólnikov elabora uma

teoria em que se estabelece uma diferença entre pessoas ordinárias, que primam pela obediência às leis, e extraordinárias: que enfrentam o relativismo da lei e as podem violar quando assim se justifica. Depois de um conjunto de reflexões, que nos fazem entrar no pensamento da personagem, Raskólnikov decide matar uma velha agiota a quem penhorava os seus bens. Entusiasmado com a filosofia de “uma má acção para gerar cem boas acções”, Rodion conclui que a velha é um “parasita” da sociedade e que com o dinheiro e os bens que lhe pode roubar depois de a matar pode fazer muitas boas acções. No decorrer do

crime, Raskólnikov acaba por matar também Lisaveta, a irmã da velha que entrou durante o homicídio. O livro é de uma envolvência extraordinária. Segue-se tão de perto o pensamento do protagonista antes e depois do crime que o conflito ético começa também em nós: Pode uma má acção ser feita mesmo que acarrete muitas boas acções? Até onde vai o relativismo ético e moral? Qual a diferença entre o bem e o mal? Os fins justificam os meios? E até agora tudo ficou por dizer. Ficaram personagens por conhecer e ideias por pensar. A essência do livro está nele próprio. Ler é mesmo a única solução.

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Cultura

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Turismo Jovem afasta-se do Convencional Por Daniela Teixeira Diana Ferreira Mariana Catarino Catarina Medeiros Um milkshake de factores como a crise económica, gosto em viajar,curiosidade por novas culturas e espírito de aventura levam milhares de jovens a procurar novas modalidades de turismo. O JUP decidiu falar com estudantes que deixaram o turismo convencional, praticando-o de forma mais aventureira e arriscada. InterRail:de combóio pela Europa

O interrail é um tipo de viagem que faz parte do imaginário da maior parte dos jovens. Criado em 1972, o interrail apareceu como sendo uma forma mais barata e mais livre dos jovens visitarem vários países da Europa. Alexandre Santos, estudante de Nutrição na FCNAUP, fez um interrail no Verão passado com mais cinco amigos, “a minha maior paixão sempre foi viajar” aponta Alexandre como motivo para ter feito um interrail. Já Inês Pedroso, estudante de Ciências de Comunicação, diz que no inicio foi a “curiosidade e a vontade de ultrapassar fronteiras” que a levou a fazer um interrail, coisa que já fazia parte do seu imaginário há muito tempo. Alexandre Santos percorreu 18 cidades de 11 países numa jornada de 25 dias pela Europa e afirma que todos os sítios pelos quais passou “têm o seu encanto”: Praga “ por ser das cidades mais bonitas que vi até hoje”, “Berlim pelas pessoas, pela cerveja, pela despreocupação, pela história, pela arte urbana…”, “Amesterdão pela diferença, pela liberdade”… diz, acrescentando sempre mais uma cidade e mais um motivo pelo qual o interrail que fez em Agosto deste ano se tornou inesquecível. Para Inês Pedroso todas as 11 cidades por onde passou com mais seis amigos nesta viagem, a marcaram de uma forma ou de outra. “As cidades de Itália

"Nem uma viagem de 13 horas entre Viena e Brasov nos abrandou e impediu de ser a melhor viagem entre todas as que fizemos" marcaram-me, muito aliás: são mais do que bonitas e com uma história incrível. Outra das cidades que mais me cativou foi, sem sombra de dúvida Berlim: Uma cidade marcada por uma história recente e conservada, com uma cultura imensa, com pessoas de personalidade muito própria e com um movimento nocturno espectacular; Liubliana foi a cidade que me surpreendeu: Mais escondida e mais recatada, talvez aquela na qual pusemos expectativas mais baixas…revelou-se uma cidade interessante”, afirma, dizendo que lhe custa não referir todas as outras cidades. Para Alexandre a melhor parte do Interrail foram as viagens entre as várias cidades em que aproveitaram

para se divertirem e se conhecerem melhor,“nem uma viagem de 13 horas entre Viena e Brasov nos abrandou e impediu de ser a melhor viagem entre todas as que fizemos”, diz. Inês diz que todos os momentos vividos deixaram uma marca que jamais será apagada: “mesmo os momentos menos agradáveis deixaram lições para o futuro: ao nível de adaptação a novas circunstâncias é de um valor inabalável. Aprendi a lidar com sítios sem condições de limpeza, aprendi a lidar com culturas completamente distintas. Aprendi a ser mais autónoma e mais capaz. Aprendi a desenrascar ea fazer contas à vida … O Interrail pode ser ainda mais caro se não preparamos bem as coisas. Quanto à experiência de convívio é um desafio enorme estar com as mesmas pessoas durante 24horas, 25 dias seguidos”. Quanto aos custos ambos estudantes disseram ter gasto uma média de 1200€ incluindo gastos com as viagens, o alojamento e

alimentação. Para Alexandre a maior vantagem deste tipo de viagem é o dinheiro: “gastamos muito menos por cidade do que se visitássemos cada cidade isoladamente. Viajar de comboio pela Europa é muito fácil e permitenos chegar aos centros das cidades sem passar por check-in e temos a oportunidade de ver paisagens fantásticas enquanto estamos nos comboios”. Se voltavam a repetir a experiência? Ambos dizem que sim. “Com outro percurso”, diz Inês, “adorava fazer algo assim noutro local como a América do Norte ou a Ásia”, acrescenta Alexandre. Turismo de polegar levantado e cartaz na mão A conhecida cena de uma pessoa, na berma da estrada com o polegar estendido e na outra mão mostra um cartaz com um destino escrito, é-nos apenas familiar dos filmes. Em Portugal, o costume de andar à boleia não é muito frequente, estando

intimamente conotado com um acto de rebeldia de jovens com um espírito aventureiro. Nos quatro cantos do mundo, são várias as pessoas que, por vários motivos, pedem boleia a estranhos. Em alguns casos, fazem-no numa curta distância, mas há quem o faça por centenas de quilómetros. Em alguns países, a modalidade revelase fácil, segura e eficaz. Para alguns, “apanhar boleia” não é apenas uma forma de economizar na deslocação, significa bastante mais. Pedro Oliveira, antigo estudante da

"Aprendi a lidar com sítios sem condições de limpeza, aprendi a lidar com culturas completamente distintas. Aprendi a ser mais autónoma e mais capaz. Aprendi a desenrascar ea fazer contas à vida"

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Faculdade de Economia já praticou a modalidade várias vezes. Durante o ano lectivo de 2008/2009, esteve a estudar na Finlândia pelo programa Erasmus. Em conversa com um grande amigo e devido a alguma curiosidade pelo Hitchhiking (termo utilizado na língua britânica), Pedro decidiu viver esta experiência que, segundo o próprio “vai muito mais além do que poupar dinheiro”. Enquanto esteve de Erasmus, o antigo aluno da FEP visitou Helsínquia,Rovaniemi e Inari na Lapónia e também a Noruega. Depois do seu regresso a Portugal, Pedro sentiu saudade de andar boleia e decidiu fazer “uma viagem por Espanha”, em que passou por Zaragoza, Valencia, Alicante e Madrid. Pedro estima que percorreu cerca de 3mil km em viagens à boleia. Na sua primeira viagem, os familiares de Pedro não tinham conhecimento da sua aventura. Depois, explica que “como correu tudo bem, acharam piada, ainda chegaram a perguntar se o dinheiro que me davam não chegava, mas consegui explicar que não é uma questão de dinheiro. "Hoje em dia, os meus pais já estão habituados ao meu tipo de viagem e já confiam na minha análise das diferentes situações e pessoas”, diz. À conversa com Gonçalo Cadilhe, um dos maiores especialistas de turismo do país e cronista regular do jornal Expresso, confessa que para si andar à boleia “não é um último caso. Se puder gosto imenso”. O cronista fala da imprevisibilidade de viajar à boleia, em que “se vai à boleia sem datas marcadas e, sobretudo, com uma liberdade bestial “ e que é algo a que recorreu principalmente no início da sua carreira de viajante, quando não tinha que se fazer acompanhar de equipamentos de filmagem,

como hoje acontece. Andar à boleia implica um certo perigo, Gonçalo Cadilhe concorda dizendo que “o medo também se aprende a controlar” e explica que o medo é menor quando vamos com amigos. Pedro Oliveira nunca foi sozinho nas suas viagens de Hitchhiking, “fui sempre com um ou dois amigos. Na minha opinião, dois é o número perfeito porque nem estás sozinho, o que muita gente pode achar estranho e nem estás com gente a mais”. Em Portugal, a modalidade não é muito comum, mas o especialista em viagens conhece países “onde é fácil andar à boleia porque há pouca gente com carro não serás o único. É muito comum na América Central as pessoas andarem à boleia nas carrinhas pikup”. Gonçalo Cadilhe aconselha os mais inexperientes a começar por se aventurarem à boleia em regiões tranquilas,usando como exemplo a sua experiência nas ilhas que, segundo ele, são geralmente muito tranquilas - “Aconselho a uma pessoa inexperiente se a boleia é nos Açores ou na Nova Zelândia. Não aconselho se a boleia é nos Estados Unidos ou na Europa.” Com o avançar dos anos, o número de pessoas que andam à boleia tem vindo a diminuir, afirma o posto de turismo do Porto. A razão que apontam para a diminuição desta prática deve-se à crescente acessibilidade dos transportes nos dias que correm que se tornam cada vez mais económicos, frequentes e eficazes. Pedro Oliveira, afirma que Hichhiking “é mais que um meio de deslocação, é um meio de conhecer pessoas novas e interessantes e é uma forma de viagem muito divertida. Numa das suas viagens na Lapónia, Pedro conta que conheceu uma jovem finlandesa num cenário altamente improvável.

Interrail é um tipo de viagem cada vez mais popular Quem o diz é a CP. As vendas de bilhetes aumentaram muito significativamente nos últimos anos: em 2009 venderam-se mais 1076 passes que em 2005. Ano 2005 : 2058 passes vendidos Ano 2006: 2291 Ano 2007 :2838 Ano 2008 : 3103 Ano 2009 : 3134 dados da CP

“Uma das boleias que mais me impressionou foi a de uma jovem, com 18 anos e que tinha a carta de condução há menos de um mês. Ia visitar a família e era linda de morrer. E, o mais engraçado da situação foi ela ter dado boleia a três rapazes que tinham passado dez dias a caminhar num parque nacional na Lapónia com barbas gigantes e com um aspecto nada interessante. Nesse dia parecia que o improvável nunca iria acontecer, mas aconteceu e tivemos uma viagem incrível com uma pessoa muito interessante”. Couchsurfing: mais que uma forma alternativa de viajar O couchsurfing é uma comunidade internacional de viajantes que procuram e disponibilizam um sofá, onde os “surfers” possam ficar durante um ou mais dias. No entanto, esta actividade não se limita a ser uma forma alternativa de viajar e poupar dinheiro no alojamento. Tem um quadro de princípios e objectivos próprios, que nada têm a ver com dinheiro. No couchsurfing pretende-se que os viajantes participem na vida das cidades que visitam, que conheçam e se adaptem à rotina de quem os recebe (ou de quem recebem), que interajam com pessoas que não conhecem e de diferentes culturas. Daniela Cerqueira, estudante da Universidade do Porto, aventurou-se recentemente no couchsurfing e revela que o objectivo “é receber alguém e ensinar-lhe um pouco da nossa cultura, a nível da gastronomia por exemplo, levar a conhecer a cidade” e os seus principais pontos de interesse. Daniela diz-nos que começou a fazer couchsurfing pelos “motivos errados”, ou seja,

para “poupar dinheiro no alojamento”. Mas a verdadeira missão desta actividade “é conviver com o dia-a-dia de outras pessoas, de outros países, quando as pessoas vêm para tua casa tu ficas a conhecer a rotina delas (a que horas acordam, o que comem, o que gostam de fazer, como se vestem) ”.A exigência para ser “surfer” é apenas a da criação de um perfil no site (www.couchsurfing.org). Esse perfil terá informações sobre a casa (quantas pessoas se aceitam por noite, durante quantos dias, por exemplo, e informações pessoais (quais os gostos da pessoa, experiências de couchsurfing, formação académica, entre outras). Quando se quer ir para casa de alguém, tem que se fazer um request, onde se explica os motivos pelos quais se quer fazer couchsurfing, pedido que pode ou não ser aceite. Até agora, a Daniela só praticou a modalidade em Londres. Uma das situações “estranhas” com que se deparou foi ter que comer brócolos crus, algo que não costuma fazer, mas que faz parte dos hábitos ingleses. O que é verdadeiramente importante nesta actividade, e é comum a todos os “surfers”, é “a inter-ajuda e a vontade de aprender e de ensinar”. Numa cidade por um dia Os voos Low-cost são cada vez mais procurados por todos aqueles que apreciam uma boa viagem e gostam de uma boa pechincha numa viagem de avião. As companhias aéreas Low-cost são capazes de efectuar vários voos por dia a horários compatíveis com uma chegada a um novo país e um retorno a casa no mesmo dia. A vantagem, consiste na visita à cidade

"A verdadeira missão do couchsurfing é receber alguém e ensinar-lhe um pouco da nossa cultura." por apenas um dia sem gastos relativos à estadia. O número de turistas por um dia na cidade do Porto tem vindo a crescer, constata o posto de turismo do Porto. Normalmente, são espanhóis oriundos das zonas fronteiriças que visitam o Porto por um dia e pedem informações de locais a visitar no posto de turismo. O posto de turismo do Porto não dispõe ainda de iniciativas e programas especiais para este recente tipo de turismo, mas é uma possibilidade para o futuro. Para Gonçalo Cadilhe o turismo por um dia parece-lhe pouco inteligente devido ao impacto negativo que o uso do avião tem para a o ambiente, afirmando que “é necessário ter uma relação sensata com a ecologia”. Para o profissional de viagens é necessário que as pessoas saibam gerir o seu tempo, “organizando a sua vida de maneira a, com pouco dinheiro, conseguir tempo para que todos os custos sejam repartidos por vários dias”. Pedro Oliveira, antigo estudante de Economia, já pensou várias vezes em ser turista por um só dia, porém explica que prefere permanecer mais do que um dia numa cidade pois nos dias de hoje já nos são disponibilizadas muitas formas de contornar grandes despesas numa viagem. in JUP (adaptado)


Cultura

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Literatura Low Cost

Extradição de Ciganos preocupa Comissão Europeia Daniela Teixeira

Por Daniela Teixeira e Diana Ferreira

L

Depois do Parlamento Europeu apelar à suspensão da extradição de ciganos do território Francês, agora é a Comissão Europeia a criticar a atitude do Governo Francês.

Catarina Oliveira, aluna de Farmácia na ESTESP diz que os livros em Portugal são muito caros. “Um livro que na versão original, em inglês ou francês, custe cerca de 10 ou 12 euros, em português chega a custar 20 euros, que é um valor que nem todos podem pagar”, afirma.

A expulsão dos ciganos de França esteve na origem de uma dura troca de palavras entre Paris e Bruxelas. A comissária da Justiça, Viviane Reding, mostrou o seu desagrado pela atitude francesa que disse parecer ser feita com base na discriminação e comparou esta expulsão com as deportações da II Guerra Mundial. Dias depois o tema deu origem a uma discussão entre o Chefe de Estado Francês e o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, que afirmou que a discriminação pela minoria cigana é “inaceitável”.

er muito e bem pode ficar caro. Os preços dos livros nas livrarias convencionais podem atingir preços que nem todos os estudantes podem pagar. Mas há muitos livros à espera de um leitor fora dos espaços mais banais de compra de livros.

Livros em Segunda Mão Existem muitas outras formas de adquirir bons livros que vão para além da compra nas lojas convencionais e que muitas vezes passam a lado da maior parte das pessoas. Comprar livros usados, é muitas vezes, uma boa opção para quem quer ler e tem pouco dinheiro no bolso. O JUP foi até à Livraria Académica na Rua dos Mártires da Liberdade e falou com o seu mentor, Nuno Canavez que nos diz que “cada vez vêm menos jovens” à sua livraria e que “o cenário não é maravilha nenhuma”. No entanto, Nuno Canavez afirma que com pouco dinheiro se podem comprar bons livros na sua livraria “há montes deles e de autores consagrados, por exemplo, por menos de 5€, podem comprar os livros da Agatha Cristie, os livros do Érico Verissímo, muitos de Jorge Amado…de imensos autores portugueses: como Camilo, Eça, Ramalho… e mais modernamente José Régio, tudo por preços entre os 2,5€ e os 5€!”. Na Travessa de Cedofeita fica a Livraria Lumiére. Cláudia Ribeiro, dona da Livraria, diz que os estudantes que frequentam a sua livraria normalmente “compram livros baratos e geralmente não levam mais porque não têm muito dinheiro…”. Sobre o preço dos livros da Livraria Lumiére, Cláudia diz-nos que “Aqui a 2€-3€ compram-se bons livros de literatura estrangeira e portuguesa a bons preços, por exemplo, tenho aqui esta edição

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Mundo

de livros de Eça de Queirós, que até são para bibliófilos, que estão a 5€, ou este de Antero de Quental, o “Sonetos Completos” a 2€ e há muitos mais”. Na Livraria Paraíso, criada em 2009, na Rua José Falcão, Amélia Coelho diz que há muitos jovens a frequentar a sua livraria: “os estudantes compram muito, mas tem de ser livros baratos, é por isso que tenho sempre aqui este balcãozinho com livros a 1€” . Seguem-se exemplos de livros que encontramos na banca dos livros a 1euro: “Os Meus Amores” de Trindade Coelho,”O vestido cor de fogo” de José Régio, “O Jogador” de Dostoiévski, “O potro vermelho” de Steinbeck, entre muitos, muitos, outros. Na Rua das Oliveiras, junto ao Teatro Carlos Alberto, situase a Livraria Vieira, fundada em 1984. Fernanda Vieira diz que “os jovens quando cá vêm procuram os livros mais baratos: 50 cêntimos, 1 euro, dois… não passa muito disso. Ás vezes acontece que gostam mesmo muito de ler mas não têm dinheiro para pagar. “ Tenho histórias muito curiosas com jovens”. Prossegue “uma vez veio cá um jovem que queria um livro do Camilo que o pai adorava, e que custava 20€ por ser uma primeira edição… e ele só tinha 10. Eu disse-lhe para ele o levar por 10 e que quando pudesse me trazia os outros 10. E o rapaz foi embora encantado. Depois

passado algum tempo ele veio trazer-me o dinheiro que faltava. Porque dez euros para um jovem é muito dinheiro.”. Os livros que se encontram nestas lojas nem sempre são da edição mais recente. Às vezes têm a sua existência marcada pelo desfolhar de outras mãos. Às vezes têm pó e as páginas amarelas do passar do tempo. Mas deverá isto ser um impedimento para ler com a mesma paixão e voracidade com que se lê quando se trata de um livro novo? Pelo contrário. Afinal, a poeira de uma vida deve ter algum sentido. Bookcrossing: um clube para apaixonados por livros O Bookcrossing é um clube para pessoas que “gostam tanto de livros que não se importam de se separar deles, libertandoos, para que outras pessoas os possam ler”, como podemos ler no site da iniciativa em bookcrossing-portugal.com. O Bookcrossing é um clube destinado a leitores de todo o mundo que pretendem trocar livros entre si, cujo objectivo é transformar o mundo inteiro numa biblioteca. Para Lígia Teixeira, membro do clube desde 2006, “é um óptimo ponto de encontro para leitores ávidos que não gostam de ver os livros nas estantes a apanhar pó e que pretendem partilhálos com outros leitores”. Este clube, fundado em 2001,

conta já com cerca de 900 mil pessoas de 130 países diferentes. Em Portugal, são mais de 8 mil inscritos. Segundo Lígia Teixeira, “a comunidade tem vindo a crescer cada vez mais e nos últimos dois anos já foi possível realizar duas convenções nacionais”. O Bookcrossing oferece aos seus membros a possibilidade de ler mais e ter acesso a literatura bastante diversificada. Para além disso, a troca de informações sobre livros entre os bookcrossers dá também a conhecer muitos autores novos. No conceito do Bookcrossing ler também implica alguma aventura. Os bookcrossers anunciam no site da iniciativa que vão “largar” um livro em tal sítio e depois cabe aos interessados fazerem por o encontrarem se o quiserem ler. Qualquer membro registado pode libertar ou “caçar” livros. No momento da escrita deste texto existiam 470 livros libertados em Portugal à espera de um leitor. Como ler muito com pouco dinheiro: Outras Alternativas Mas há muitas formas de ler livros a um preço mais baixo. Os livros de bolso são uma boa alternativa e representam uma grande diferença de preço comparativamente à edição normal. Para ilustrar a situação, usamos o livro “Memória das minhas putas tristes"

de Gabriel Garcia Marques cujo preço da edição normal ronda os 15€ e o da edição de bolsa não chega aos 5€. A aquisição de livros que saem com revistas e jornais é outra das formas de ler bons livros a um preço mais económico. Alguns jornais e revistas aproveitam para divulgar boa literatura, oferecendo aos seus leitores a possibilidade de adquirirem livros de poesia, romances e policiais de grandes escritores. Os preços destes livros geralmente variam entre 1€ e 5€. Marília Freitas, estudante de Ciências da Comunicação na FLUP diz que esta “é uma boa oportunidade para aquelas pessoas que gostam de ler, mas não têm muitos recursos económicos para o fazer, adquirirem bons livros a preços mais baixos”. As feiras do livro, as promoções e as compras online são também boas formas para comprar livros a preços mais reduzidos segundo Catarina Oliveira. “ O que eu faço muitas vezes é aproveitar aquelas promoções como “leve 3 pague 2” ou bons descontos que há muitas vezes nas feiras do livro ou então encomendo os livros online que muitas vezes fica mais barato”, diz. Para ler muitos e bons livros não é preciso muito dinheiro, é só preciso vontade, amor pela leitura e alguma imaginação.

Em cima da mesa está a possibilidade da medida francesa ser considerada ilegal em relação à legislação da União Europeia(UE) tanto no que diz respeito à livre circulação de pessoas como às expulsões colectivas. Para Miguel Poiares Maduro, especialista em direito da U.E, o problema está mais na expulsão colectiva do que na questão da liberdade de circulação, já que as pessoas expulsas são originárias da Bulgária e da Roménia e em relação a novos Estados Membros “os tratados de adesão reconhecem a existência de um período transitório na aplicação da liberdade de circulação e o direito de residência que os outros Estados Membros podem invocar”, como fez a França. Mas, para o especialista, isto não significa que os

cidadãos desses Estados possam ser livremente expulsos. “A expulsão terá sempre de ocorrer com base num dos pressupostos previstos e ser sujeita a uma apreciação individual. Não podem seguramente ocorrer expulsões colectivas. Muito menos, expulsões dirigidas a um grupo étnico específico.”, afirma o Professor Catedrático. Segundo Miguel Maduro no caso de ser comprovado que a extradição de pessoas de França está a ser feita com base na etnia torna-se uma “violação clara do principio que proíbe a não discriminação com base em certas características particulares e ao qual a França está vinculada”. A Embaixada Francesa em Portugal, disse em comunicado de imprensa que a “França está empenhada em respeitar a liberdade de circulação”,

mas que “A liberdade de circulação na União Europeia é um direito que requer deveres a todo o cidadão europeu”. A Embaixada afirma que a liberdade de circulação não é absoluta: “comporta ajustamentos e restrições”, invocando como restrições o facto do cidadão estar há mais de 3 meses no país sem trabalhar e as “medidas transitórias de acesso ao mercado de trabalho” em relação a novos Estados Membros. A organização francesa diz que “as decisões de afastamento são tomadas após o estudo de cada caso” pelo que “a França não procede, portanto, a expulsões colectivas”. A embaixada conclui que não há um "problema Roma" mas cidadãos europeus, mais desfavorecidos que enfrentam dificuldades de

inserção e que necessitam de uma atenção especial”. Para Miguel Poiares Maduro só existem duas soluções para impedir a extradição de ciganos: esses cidadãos individualmente introduzirem um recurso contra a sua expulsão perante os tribunais franceses e, eventualmente, recorrer ao Tribunal Europeu de Justiça e a Comissão Europeia iniciar um processo de incumprimento contra o Estado Francês, um processo moroso. Desde o início do ano que já foram expulsas de França mais de 9 mil pessoas de etnia cigana para a Roménia e a Bulgária. A própria ONU já se insurgiu contra o problema que diz contribuir para a estigmatização e marginalização da etnia.

Infografia: O casamento Homossexual do Mundo Daniela Teixeira e Cláudia Batista

Promulgada pelo Presidente da República no dia 17 de Maio, o Dia Mundial da Luta contra a Homofobia, a lei que permite o casamento homossexul entra em vigor a 31 de Maio, data a partir da qual o Casamento entre pessoas do mesmo sexo passa a ser legal em Portugal, que se torna o oitavo país do mundo a reconhecer o casamento entre casais do mesmo sexo. A 7 de Junho é celebrado o primeiro casamento homossexual em Portugal: o matrimónio de Helena Paixão e Teresa Pires vai ficar na história portuguesa como o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo. No princípio de Dezembro de 2010 já haviam sido celebrados 221 casamentos deste tipo em Portugal: 156 casais masculinos e 65 femininos, segundo dados do Ministério da Justiça facultados à Lusa. Contando com os

consulados portugueses espalhados pelo mundo, em meio ano foram realizados um total de 19 mil casamentos homossexuais. Ainda em 2010 a Islândia e a Argentina juntaramse à curta lista de países que reconhece este direito civil a todos os cidãdaos . Mas os direitos homossexuais ainda têm um longo percurso pela frente no panorama mundial. Em 1990 a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais mas ainda assim existem muitos Estados que punem a homossexualidade com pena de morte, pena de prisão, multas e até chicotas. A infografia ilustra o estado dos direitos homossexuais no mapa mundo que vão desde a possibilidade do casamento à pena de morte.

in JUP


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Local Porto

Porto: Um Natal que se quer para Todos O espírito natalício já se apoderou da Invicta. A oferta cultural de actividades de Natal é muito variada, existindo iniciativas para todas as idades e gostos. As actividades culturais relacionadas com o Natal vão marcar os próximos dias da cidade do Porto: de espectáculos, a animações de rua passando por mercados e feiras de Natal há de tudo um pouco. Este ano o Circo Cardinali regressa ao local do Queimódromo. Os tão conhecidos espectáculos de circo acontecem a partir do dia 21. Por sua vez, o Monumental Circo do Coliseu do Portomantêm a tradição e sobe mais uma vez aos palcos do Coliseu e promete muitas gargalhadas a quem o for ver. O Concerto de Natal tem lugar no Rivoli nos dias 17 e 18 de Dezembro. A entrada é grátis e no espectáculo estarão presentes músicos como João Gil, Nuno Norte e Laurent Filipe, entre vários outros artistas. Este ano repete-se a iniciativa "Natal no Museu" que passa por diferentes museus e espaços culturais da cidade no dia 18 de Dezembro. Exemplos dos espaços que aderiram a este evento são a Casa - Museu Marta Ortigão Sampaio, a Casa - Oficina António Carneiro, ambas com programação destinada a toda a família, o Museu do Vinho do Porto, a Casa do Infante e muito mais espaços. Também as feiras de artesanato fazem parte das atracções da cidade em vésperas de Natal. A Artesanatus volta à Praça D.João I e é levada a cabo pela Associação de Artesãos do Norte. Artigos de patwork, bordados, cerâmica, brinquedos , ourivesaria, joalheria e tecelagem são apenas algum exemplos dos tipos de artesanato que estão disponíveis para venda na Artesanatus. A Feira de Artesanato de Matosinhos (FAMA) tem lugar no Jardim Basílio Teles. As ofertas aqui são ainda mais variadas: vão desde os enchidos transmontanos à doçaria do arquipélago dos Açores e da Madeira passando por arte sacra, esculturas em cascas de ovos,

Editorial WikiLeaks: Até onde pode ir o direito à informação? WikiLeaks: Manifestações pró-Assange

Por Daniela Teixeira

O Desfile de Pais Natal já se tornou num marco da cidade do Porto na altura do Natal

trabalhos em raízes e cascas de árvores, até aos sabonetes naturais ou camisolas de lã. O Grande Flea Market este ano passa o Natal no HardClub, situado no Mercado Ferreira Borges. Esta "Ladra do Norte", como é chamada, será a maior concentração de vendedores de" todo o tipo"de objectos em segunda mão e terá o Club 447 a dar-lhe música. Também a Feira Portobello, que ocorre aos Sábados na Praça Carlos Alberto, tem no dia 18 uma edição dedicada ao Natal. A partir do dia 16 o "Eléctrico chamado Natal" volta a circular pela baixa. As viagens serão animadas pelo "Bando Electro-Magnético" que canta, dança e representa para os que viajam na linha 22 do Electrico. Um quer

Natal que se para Todos

Os valores da solidariedade e equidade social não foram esquecidos neste Natal. Dia 15 é inaugurada a "Árvore de Natal Espaço T " onde os Homens e as Mulheres são as estrelas. Esta árvore insere-se no Ano Europeu do Combate à Pobreza, tendo sido feita por

100 artistas plásticos e 900 pessoas socialmente excluídas, oriundas de várias instituições de solidariedade parceiras do projecto, como por exemplo a Abraço ou Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, entre muitas outras, "para que um dia a pobreza deixe de existir".Este projecto tem como objectivo a sensibilização da população para uma inclusão total de todos os indivíduos na sociedade. Até o dia 31 de Dezembro podem ser entregues no Hospital Santa Maria bens e artigos que serão entregues à CASA - Centro de Apoio ao Sem Abrigo e pela Associação dos Albergues Nocturnos do Porto. Roupa interior, de cama e produtos de higiene são algumas das coisas necessárias à actividade destas instituições que apoiam os sem-abrigo do Porto. A Arca de Natal é outra iniciativa que reverte para os mais desfavorecidos e que já tem alguma tradição na cidade do Porto. Organizada pela Câmara do Porto e ancorada na Estação de S.Bento, tem como ideia aproximar as instituições de solidariedade social à

Na cidade do Porto não faltam actividades de Natal para os pais pequenos.

população em geral através da venda e exposição de objectos feitos pelos utentes das instituições sociais envolvidas. O Desfile de Pais Natal do dia 12 de Dezembro também revertia a favor de instituições de crianças carenciadas. Natal

dos

Pequeninos

Mas os mais novos não foram esquecidos na programação de Natal da cidade invicta, muito pelo contrário. Um pouco por toda a cidade multiplicamse as alternativas para tornar esta altura do ano especial para as crianças portuenses. Serralves resolveu não deixar passar a quadra natalícia em branco. Para os mais pequenos foram organizadas oficinas criativas, inseridas no programa Férias de Natal em Serralves, que têm por objectivo ocupar os tempos livres das crianças durante a interrupção do período de aulas. A iniciativa destina-se a crianças dos 4 aos 12 anos e realizase de 20 a 30 de Dezembro. No Sealife também existem ateliês de artes plásticas que abordam o Natal através dos animais marinhos. O

mesmo acontece na Casa do Infante, onde, no dia 21 deste mês decorre a oficina "Uma Carta ao Pai Natal". A Casa-Museu Guerra Junqueiro tem muitas acções pensadas para os mais pequenos, uma delas é a confecção de Enfeites de Chocolates para a árvore de Natal. Na Quinta da Macierinha, no dia 21, todas as crianças dos 4 aos 8 anos podem ver a dramatização de “A Noite de Natal”de Sophia de Mello Breyner . Também para os mais novos há diversas actividades planeadas na Biblioteca Almeida Garret, como é o exemplo da oficina de descoberta do Natal de Outros Tempos, neste caso do século XIX, que acontece dia 21 de Dezembro. Para a passagem de ano está previsto um concerto de fim de ano e fogo de artifício na Avenida dos Aliados. No dia 1 haverá um conceito da Banda Sinfónica Portuguesa junto à Câmara do Porto. A cantiga das Janeiras vai ser assegurada por vários ranchos folclóricos um pouco por toda a baixa durante o mês de Janeiro.

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Opinião

O caso WikiLeaks tem marcado a agenda mediática dos últimos dias. Duas semanas depois do inicio da divulgação dos telegramas secretos entre as embaixadas americanas, Obama pronunciou-se sobre o assunto dizendo que os actos da wilileaks eram “deploráveis” e que tinha esperança que estes não viessem a manchar as relações bilaterais dos EUA. Deploráveis foram também as tentativas de censura à Wikileaks através de ciberataques e do bloqueio das fontes de donativos como é o caso do Paypal, da visa e do Mastercard, que aceita até donativos para o Ku Klux Klan. Deploráveis foram também muitos dos comentários de políticos americanos como foi o caso do republicano Mick Huckabee, apoiante do movimento conservador Tea Party que disse, com

estas palavras, que para Julian Assange, tudo o que ficasse abaixo da execução era uma pena demasiado branda. Também os republicanos Mitch McConnel, Newt Gingrich e Peter King apelidam-no de terrorista. Que Assage tenha ido longe demais nas informações publicadas, dado que divulgou inclusive, uma lista de locais vitais para a segurança dos Estados Unidos, é compreensível. Que os responsáveis pela política dos EUA estejam muito irritados e que o queiram silenciar, seria minimamente compreensível caso não se tivessem tomado medidas de censura explícita e avançassem com meios muito poucos ortodoxos para que esse silenciamento fosse feito. Estas atitudes só serviram, entre outras coisas, para que as manifestações próAssange aumentassem e saíssem do mundo virtual

para encherem as ruas de inúmeras cidades europeias, incluindo Lisboa, e para a criação de sites espelho do WikiLeaks um pouco por todo o mundo. Às vezes a emenda pode sair pior que o soneto: as tentativas de censura a Assange estão a torná-lo num herói para muitos e até já foi nomeado pela revista Time para Personalidade do Ano. Fica a lição para os próximos desenvolvimentos do caso. A problemática do Wikileaks tem o direito à informação como base. Até onde pode ir o direito de ser informado e o dever de informar? O assunto é delicado e exige toda a toda a ponderação . Para o Internacional o direito à informação deve ser sempre respeitado a menos que entre em confronto com os direitos individuais de cada cidadão. O mais velho cineasta

do mundo comemora 102 anos Manoel de Oliveira apesar da idade continua a viver como se fosse para sempre: com inúmeros projectos de novos trabalhos. Para além das duas longas metragens em que está a trabalhar e que estão em fase de financiamento, o cineasta diz que tem muito mais planos para filmes. Como disse o Presidente da República, Manoel de Oliveira é uma inspiração para todos e uma prova de que não existe idade para parar de perseguir os sonhos. A carreira de Manoel de Oliveira é absolutamente fascinante: pela vontade de viver, de trabalhar e de fazer sempre mais pelo cinema português. Há que saber valorizar aquilo que o nosso país tem de bom e Manoel de Oliveira faz, com certeza, parte dessa lista.

Texto de OPinião: O verdadeiro significado na progressão dos portugueses nos exames PISA

Daniela Teixeira A notícia de que Portugal foi o país que mais progrediu nos exames do PISA apareceu como um oásis no deserto para o Governo português. Depois de tanta polémica na educação, seja com os cortes orçamentais no ensino privado como assuntos controversos mais antigos da avaliação de professores, sistema de faltas, plano tecnológico, entre tantos outros e tendo

em conta o panorama de crise, a novidade de que os alunos portugueses estão melhores qualquer coisa no que quer se seja, foi entendida de forma excessivamente positiva. O desempenho dos estudantes melhorou muito substancialmente nas três áreas avaliadas: português, matemática e ciências, mas ao contrário do que muitos disseram, Portugal ainda não está dentro da média da OCDE, apesar de andar lá perto. A português os portugueses somaram 489 pontos quando a média da OCDE é de 493 pontos, a matemática Portugal ficouse pelos 487 pontos quando a média é de 496 e por último no caso das ciências os alunos portugueses

ficaram a 8 pontos da média. Talvez seja o meu cepticismo a impedirme de festejar o facto de Portugal ainda continuar abaixo da média da OCDE no que toca à educação, mesmo que tenha havido um progresso notório. Há que pensar no que é que os exames PISA avaliam para conseguir tirar conclusões suficientemente fundamentadas sobre o tema. Por exemplo, uma pergunta do teste de literacia de leitura era sobre como escovar os dentes, cuja resposta estava no texto do exame; responder a questões de resposta “sim” e “não” sobre a importância do exercício físico, entre outras. Quero com isto

dizer que os exames PISA avaliam conhecimentos básicos e do dia-a-dia e não conhecimentos científicos específicos e formais. Partindo daqui, pode-se considerar que os melhores resultados destes exames significam uma evolução na questão do analfabetismo funcional que é um verdadeiro problema estrutural da sociedade portuguesa. E é aqui que a meu ver se situa a boa notícia: os resultados significam um progresso numa problemática que precisa de tempo para ser resolvida. Concluir que estamos melhores ao nível científico é dar um passo maior que a perna. Talvez este seja a direcção, e se for, ainda há um longo caminho a percorrer.

Em reflexão... "O que há de bom ou mau em qualquer crença, qualquer, é o modo como se crê. O bem ou o mal estão no psiquismo do crente, não na crença." Fernando Pessoa

"Só merece a liberdade e a vida quem luta diariamente para as conquistar" Goethe

"Só chegamos a ser uma parte mínima do que poderíamos ser" Ortega e Gasset

"Há sempre alguma loucura no amor e um pouco de razão na loucura". Nietzsche

"Não há democracia efetiva sem um verdadeiro poder crítico" Bourdieu

"Não possuir algumas das coisas que desejamos é parte indispensável da felicidade" Betrand Russel


InterNacional Agenda Cultural Música

Teatro

Concerto 30 seconds to Mars 16/12/10 no Pavilhão Atlântico

O Quarto de Brinquedos 18/12/10 Teatro Sá da Bandeira

Bailado: Quebra Nozes Moscow Tcaikovski Ballet 20/12/10 no Teatro Tivoli

Paisagens, onde o Negro é cor 16-18/12/10 Teatro Nacional S.João

Bailado: La Sylphide Até 18/12/10 no Teatro São Carlos

1974 Até 21/1/11 Teatro Nacional S.João

Crónica:

Seis e Meia

Cinema

Entrelaçados Estreia dia 16/12/10 Cinemas Lusomundo

Stone, ninguém é Inocente Estreia dia 16/12/10 Cinemas Lusomundo

O amor é melhor a dois Estreia dia 16/12/10 Cinemas Lusomundo

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Daniela Teixeira

Chove. São 6.30 mas o

Sol ainda não dá sinais de querer nascer. Pela rua ouço apenas o toc toc dos meus sapatos e, uma ou outra vez, o barulho de um carro que passa. Chego à paragem onde já se aglomeram guarda-chuvas ansiosos que esperam pelo autocarro. Ao badalar do sino da igreja, que a esta hora parece mais perto, o autocarro chega. Entro. Já não há lugares sentados e resta-me passar os 50 minutos da viagem em pé, tal como muitos outros. A água que escorre dos guarda-chuvas faz um pequeno regato no autocarro. Entram as últimas pessoas: uma mulher com uma criança de colo e outra pela mão, um senhor de meia idade está com dificuldade em fechar o guarda-chuva: preto, velho e ferrugento. Andar de autocarro às 6.30 da manhã faz-me sempre

ficar a pensar na vida, no sentido da existência, sei lá, em coisas mais profundas do que a altura do dia poderia prometer. O autocarro das 6.30 é especial. Talvez porque estar frio, por chover e por ainda ser noite. Ou talvez não seja por nenhum destes motivos. Andar de autocarro tão cedo desperta-me a consciência para o ócio dos dias comuns quando considero que acordar às 9 devia ser proibido. É como se o acordar cedo dos outros me aborrecesse a mim própria, ou, pela primeira vez na vida, a minha preguiça me incomodasse. É um choque de vida real. Acordar ainda durante a noite, o sono, de tão pequeno, não deixa que os sonhos germinem. Fazer pela vida, cada dia mais um passo na independência, mais uma conquista de liberdade. De a noite ser tão curta, aprende-se a sonhar acordado. É pelos olhares sonhadores (ou sonolentos?) das pessoas que viajam no autocarro das 6.30 que desenvolvi a ideia de que a adversidade é um ancoradouro de sonhos. Porque as adversidades parecem não ter fim, e os sonhos, esses, não têm limites: reproduzemse até ao infinito. Publicidade

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