Mário Tendinha

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MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS


OUT . NOV 2016


MERIDIONÁLIS É ali onde começa o sul e podemos seguir a escrita que o devolve, define e alimenta. Cada composição contém para lá do olhar primeiro toda a história dos desenhos de citundu hulu (homem e mulher) e as pegadas de gente sobre as areias redistribuídas do Kalahari. Entre céu e chão o brilho imperturbado das estrelas revela mais sombras dos que as que somos capazes de adivinhar. Cada tela esconde e mostra a memória de antigos espíritos de florestas perdidas que nos ensinam a fronteira e nos guiam para a savana e o deserto vivo e aberto com o seu mar frio de cacimbo. Mário Tendinha é um viajante que atravessou a vida em todas as fronteiras à procura dos espaços perdidos pelos homens e de uma mão cheia de estrelas, daquelas que durante a noite enchem a terra de luz e de sombra. Andou pela escola do risco (tinta da china, aglutinante, diluente) e leu as tábuas divinatórias de todos os destinos e conheceu a cor da utopia, peso e impossibilidade de todos os que de novo sonharam o sonho. Carregou sempre consigo o saco pesado de uma memória de sul e de paisagem que vai traduzindo para nós em acrílico e sobre papel, num vocabulário subtil que foge da imitação da natureza para representar um caminho de ligações entre poética e línguas que nos obriga a reflectir sobre as novas aparições da arte africana no piano do mundo e interpelar a estética que, na sua forma rígida de criar categorias, sempre arrumou no limbo quieto do não acontecimento, para lá da etnografia de serviço ou da arte propiciatória do bom clima entre deuses e homens. Passada a sua fase de iniciação, um ritual de passagem (para lembrar Victor Turner) que o faz atravessar, em celebração, os Beatles, as quezílias do mundo moderno, as novas propostas da banda desenhada (Enki Bilal então a chefiar a festa), a melancolia dos filhos de Rimbaud (“a eternidade é o mar ao sol”), dá-se a conhecer ainda antes que os “magiciens de la terre” (França, 1989) possam questionar todas as teorias de uma arte bem intencionada e Global. Entra silencioso no mundo da pós-colonialidade, que é como quem diz o tempo de construir a nação de Cabinda ao Cunene, para cumprir o tempo que lhe foi destinado. É um tempo de estranheza mas também de rejeição da autoridade e reflexão profunda dos laços de família entre identidade e alteridade. As modernidades plurais, as visitas ao mundo não o autorizam a libertar-se do saco e das estrelas que carrega às costas. Tem um sul para contar ao mundo e é o que faz em várias exposições depois de vinte e cinco anos sem pintar. Meridionalis reúne um conjunto de trabalhos elaborados ao som de uma linguagem cuja materialidade é preciso atravessar para não deixar que nenhum dos quadros se feche em si próprio, representação da representação, imobilização de um mundo. Não, o que é preciso fazer diante de cada obra é “através das portas” descobrir o lugar de onde o autor fala e deixarmo-nos aprisionar pelos diferentes níveis de visibilidade que se nos oferecem para desvendar. Olhem, por exemplo, Mukaia, de Mukai, a mulher que está presente desde o nascimento do mundo, a recolha do primeiro cereal e a lenta transformação do leite na gordura de todos os dias, os infinitos dias que já viveu. O traço que a fixa deixa-nos ler a vida, a sua, a dos pastores

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que gerou, a dos filhos destes nos lugares e nos dias escolhidos enquanto a terra cumpria as suas voltas em torno de si própria. Nada a perturba, e agora que o sonho das lavras terminou é das tarefas do leite que se ocupa até que alguém segure as pontas dos caminhos por onde todos passam e conheça as raparigas. Dos bois e da sua organização fala-nos Olongombe, que não nos deixa esquecer que O Sul é terra de gado e de viagens e dos bois se devem conhecer os segredos, todas as manchas da pele e o lugar que ocupam dentro da manada e as pistas que nos dão sobre os povos que sobre eles têm saber e juízo. Não há boi sem dono entre os pastores. Não há pastores sem bois lá para os lados do Sul. Assim os altares da família onde oficiam os melhores, carregados dos tecidos do passado sob as suas máscaras finas de bois do princípio, libertos já da espessura da carne e das manchas na pele. História e testemunho cruzam-se aqui na forma de longas epopeias que as vozes roucas da cerveja da noite sabem unir. A luz desvenda girassóis e outras estranhas espécies do deserto e do planalto, flores do sacrifício e da alegria. É o mundo a sul em celebração que se insinua na obra e pede para ser traduzido nas palavras, para evitar a sobreposição das sombras e das histórias. As ciências do amor comportam o cheiro da casa, pés descalços que amaciam o chão e se entrelaçam cúmplices para mergulhar no silêncio do mundo. A viagem cumpre-se sem palavras, homem e mulher no labirinto de seu próprio fogo. No rasto dos anjos seguem os adivinhadores em busca (na eterna busca) da água da salvação. São salvos pelas árvores onde podem ficar e fazer seus ninhos. Lugares da história do sonho e do Sul. Deles a última fronteira. Ana Paula Tavares Poetisa

Referências BENJAMIM, Walter, O anjo da história, Lisboa, Assírio e Alvim, 2010 CARVALHO, Ruy Duarte, Vou lá visitar pastores, Lisboa, Cotovia,1999 FOUCAULT, As Palavras e as Coisas, Lisboa, Edições 70, 2014 MARTIN, Jean-Hubert, Les Magiciens de la Terre, Catálogo da Exposição, Paris, Musée National d’Art Moderne, Centre Georges Pompidou, 1989. OGUIBE, Olu, Apropriation as Nacionalism in Modern African Art. Olu Oguibe (2002) Appropriation as Nationalism in Modern African Art, Third Text, 16:3, 243-259, DOI: 10.1080/09528820110120704 OKEKE, Chika, Arte Africana Moderna, http://www.artafrica.info/html/artigotrimestre/2/artigo2.php RICOEUR, Paul, La Mémoire, L’Histoire, L’Oubli, Paris, Seuil,2000 RIMBAUD, Arthur, Poema “Eternidade” (Tradução de Augusto de Campos) TENDINHA, Mário,” Vento Leste”, Luanda, 2012 TURNER, Victor, The Forest of Symbols: aspects of the Ndembu ritual, London, Cornell University Press, 1967.


DE ANGOLA, IMENSA! Em Mário Tendinha (Moçâmedes - Angola, 1950), corre-lhe o mar nas veias carregado de recordações da infância. Infância feliz que lhe marcou indelevelmente a sua personalidade afável e encantadora. Calmo. Observador. Contador de histórias. Cativante.

Também sofreu. Todo o artista sofre. Depois da invasão sul-africana, em 1975 a sua casa e o seu estúdio no Lubango foram vandalizados e as suas obras roubadas e destruídas. Abandonou a pintura. Voltou a ela mais tarde, fortalecido, não abandonando a atividade de gestão de empresas que ainda hoje prossegue.

Inicia atividade artística aos 18 anos. Desde logo se interessa pela corrente surrealista que continua hoje bem patente e atravessa toda a sua obra pictórica.

Um mundo injusto que carece ser mudado. Uma inquietude social em busca o bem. Persegue o propósito de difundir vivências de forma sentida, emotiva e em partilha, tendente a contribuir para a construção duma melhor Angola que saiba olhar o futuro estribada na cultura ancestral do seu povo. Os seus expressivos registos pictóricos e escritos são o seu humilde mas valioso contributo.

Acima de tudo é um excelente contador de histórias. Um também apaixonado da banda desenhada que sabe pintar e escrever as suas histórias de forma emotiva a traço depurado. Vivências que partilha com os seus variados públicos, muitas das vezes em família e rodeado dos netos, qual legado que quer conservar vivo para que se não percam as suas raízes. Tendinha é um artista plástico autodidata que soube criar e desenvolver uma particular forma de exprimir e retratar os sítios e o povo da sua Angola que o viram crescer e fazer homem. Numa terra de cores, o contraste do preto e do branco dos seus desenhos a tinta da china, alguns tenuamente aguarelados a cor. Traço leve, preciso e rigoroso. Distinto. O duro quotidiano intensamente vivido e sofrido. Os desertos do Moçâmedes e do Iona, os pastores de gado, os mucabais, o sol, o céu, as nuvens, o vento, o mar. Sempre o mar! De Angola, imensa.

NA GALERIA, ÍLHAVO, 2016

Conheci pessoalmente Mário Tendinha numa das minhas primeiras visitas profissionais a Angola. Depois do convívio com a sua obra, pude conhecer o seu criador. Personagem encantadora e cativante que me marcou profundamente e me deu a conhecer um pouco mais do seu país. A mostra que agora apresentamos na Galeria Nuno Sacramento Arte Contemporânea vem na sequência do nosso intenso trabalho de difusão e de divulgação do trabalho de artistas plásticos de qualidade e de reconhecido mérito. Nesta mostra apresentamos alguns trabalhos recentes em papel, onde o artista exalta a sua arte com o preto e o branco, raras vezes com leves toques de cor. Nuno Sacramento Ílhavo, outubro de 2016

José Sacramento, Mário Tendinha & Nuno Sacramento

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MUKAIA

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Pigmento negro e acrílico, 120x90cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



COLO

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Pigmento negro e acrílico, 120x90cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



O CAÇADOR

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Pigmento negro e acrílico, 120x90cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



BERGPLANS

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Pigmento negro e acrílico, 120x90cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



DO MOÇÂMEDES AO DRAKENSBERG

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MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS

Pigmento negro e acrílico, 60x76cm, 2016



HIMBA

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Pigmento negro e acrílico, 59x61cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



A ÁRVORE E OS ANJOS

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Pigmento negro e acrílico, 60x60cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



EVOCAÇÃO

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Pigmento negro e acrílico, 60x60cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



LEITE AZEDO

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Pigmento negro e acrílico, 60x62cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



DOS KOISAN

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Pigmento negro e acrílico, 2x 31x86cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



OTIYPANGA (VACA SAGRADA - DIMBA)

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MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS

Pigmento negro e acrílico, 30x42cm, 2016



CAOS

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Pigmento negro e acrílico, 30x42cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



KAMASUTRA IV

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Pigmento negro e acrílico, 30x42cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



OLONGOMBE

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Pigmento negro e acrílico, 30x42cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



GÉMEAS

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Pigmento negro e acrílico, 30x42cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



PLEASURE

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Pigmento negro, 33x33cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



O UNTITLED

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Pigmento negro e acrílico, 42x60cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS



ANJO DA GUARDA DO ONGOMBE

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MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS

Pigmento negro e acrílico, 60x75cm, 2016



O MOTORISTA

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Pigmento negro e acrílico, 30x42cm, 2016

MÁRIO TENDINHA MERIDIONÁLIS


KANDANDO

Pigmento negro, 42x30cm, 2016

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MÁRIO TENDINHA

ANGOLA MOÇÂMEDES, 1950

PERCURSO

EXPOSIÇÕES COLETIVAS

Começa a desenhar e a pintar aos 18 anos, muito influenciado pelas correntes modernas na época, a música pop, os hippies e os movimentos sociais. A banda desenhada, uma das suas paixões desde a infância, deixa marcas no seu trabalho inicial, que se traduz pelas técnicas e suportes então utilizados.

2016 “Projecto Olongombe”, Moçâmedes, Huíla, Bnguela, Luanda, Angola. 2015 “International Expo Contemporary Art”, Mov’Arte, Luanda, Angola. 2014 “The Angels Share”, Oon.dah, Luanda, Angola. 2014 “Fenacult/14”, Galeria UNAP, Luanda, Angola. 2014 “39º Aniversário da UNAP”, Galeria Unap, Luanda. Angola. 2013 “Arte 100 Fronteiras”, Centenário do Lobito, Angola. 2013 “Há JAZZ no Camões”, Centro Camões, Luanda, Angola. 2010 “Solidariedade com o Haiti”, SIEXPO, Luanda, Angola. 1974 Oficina d’Arte, Lubango, Angola.

Em 1975, quando as tropas Sul Africanas invadem Angola, a sua residência e atelier no Lubango são completamente vandalizados e deixa de pintar. Foi militante do MPLA, sindicalista da UNTA e gestor de empresas. Só volta a pintar e a expôr em 2003. Está representado em coleções em Angola, Brasil, Portugal, Itália, Reino Unido, França, Nova Zelândia, Austrália, Estados Unidos da América, Moçambique e África do Sul.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS 2016 “Meridionális”, Galeria Nuno Sacramento, Aveiro/Ílhavo, Portugal. 2015 “Ki Mona Mesu”, Mediateca do Huambo, Huambo, Angola. 2015 “Ki Mona Mesu”, Centro Cultural Camões, Luanda, Angola. 2012 “Através das Portas”, Centro Cultural Camões, Luanda, Angola. 2009 “Ngola Mirrors” Centro Cultural do Instituto Camões, Luanda, Angola. 2008 “Oratura...dos Ogros e do Fantástico” SIEXPO, Museu Nacional de História Natural, Luanda, Angola. 2008 “Oratura...dos Ogros e do Fantástico”, Horto Municipal, Moçâmedes, Angola. 2007 “Riskuss”, Galeria Celamar, Luanda, Angola. 2004 “Partilhar” (I), Casa das Artes, Famalicão, Portugal. 2004 “Partilhar”(II), Centro Cultural do Instituto Camões, Luanda, Angola. 2003 “...lá para o Sul”, Galeria Cenarius, Luanda – Angola. 1973 CITA, Luanda, Angola. 1972 Biblioteca Municipal, Huambo, Angola.

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WORKSHOPS 2012 Workshop de Azulejaria, Atelier João Carqueijeiro, Matosinhos , Portugal. 2007 Atelier de Litografia, Coop. Arvore, Porto, Portugal. 2005 Workshop de Gravura, Ar.Co, Almada, Portugal. 2004 Workshop de Desenho e Pintura, Ar.Co, Lisboa, Portugal.

XA MALINDO 2013 Pintura com vidrados de um painel em mosaico porcelânico, “XA MALUNDO” de 300x600, que se destina a um edifício institucional.

FOTOGRAFIA JOSÉ DA SILVA PINTO



CURADORIA Nuno Sacramento MONTAGEM Lília Figueiras TEXTO Nuno Sacramento FOTOGRAFIA Nuno Horta DESIGN Nhdesign IMPRESSÃO Orgal, Impressores TIRAGEM 500 exemplares PATROCÍNIO Guialmi DATA Outubro 2016