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ANIMALIA Nuno Horta, 2016


NUNO HORTA ANIMALIA

INDEX Animalia p. 5 White Wedding p. 29 MAF, Genetic Variations p. 45 Temรกticos p. 57 Self Portraits p. 63 Mallory p. 69 Mask p. 73 Extreme Ways p. 83 CV p. 99


NUNO HORTA ANIMALIA

ANIMALIA 2016

“A new commandment I give unto you, That ye love one another; as I have loved you, that ye also love one another.” St. John 13:34

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NUNO HORTA ANIMALIA

ANIMALIA Português

Nuno Horta regressa, em Animalia, aos seus estranhos personagens mascarados, aglutinadores do belo e do perturbador, em fotografias que se tornam inevitáveis ímanes visuais para um olhar impossível de ficar indiferente. Com o terrorífico novamente sugerido, em preto e dourado, de poses rígidas, numa selva urbana fantasiada, a presença destes seres misteriosos, agentes glamorosos do medo, é ao mesmo tempo agressiva e sedutora. Espécie de semicentauros invertidos, de corpo antropomórfico e cabeça animalesca, poderiam transportar-nos para o ambiente na mansão da derradeira película de Stanley Kubrick, o poderoso e inesquecível De olhos bem fechados. Esta fauna mitológica alternativa evoca um imaginário de fábulas de terror nas quais os animais se transfiguram para a morfologia humana, como que disputando um domínio sobre a natureza, uma guerra que se iniciou nos primórdios da criação. Mas o mais interessante neste exercício é talvez a forma como a máscara tende a desaparecer, fundindo-se no conjunto, ganhando vida no todo. Estes seres não são pessoas mascaradas, são entidades híbridas criadas pela mente e saídas de pesadelos de infância. Raposa, lobo, cabra, porco, tigre, veado. Ou o Corvo de Allan Poe. Ou Moby Dick, a baleia enfurecida de Melville. Ou o Triunfo dos Porcos, de Orwell, metáfora maior de uma sociedade impiedosa. “[…] Quando finco e dente em carne alheia Sou a nódoa escondida, a vergonha do progresso A desgraça a que leva uma vida de excesso Sou o lobo mau de que todos têm medo Sou o lobo mau de que todos têm medo.” Adolfo Luxúria Canibal (da letra do tema “Lobo Mau”, Mão Morta) Sérgio Currais Outubro, 2015

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NUNO HORTA ANIMALIA

ANIMALIA English

Nuno Horta returns, in Animalia, to his masked characters that gather both the beautiful and the disturbing, in a set of photos that become inevitable magnets to the eye, and that make indifference just impossible. Again with some kind of terrifying suggestion, in black and golden, with straight poses, in a fantasized urban jungle, the presence of these misterious beings, glamorous agents of fear, becomes at the same time aggressive and seductive. Some kind of inverted centaurs, with anthropomorphic bodies and animalistic heads, they remind us of the ambiance of the mansion in Kubrick’s last movie, the mighty and unforgettable Eyes wide shut. This alternative mythological fauna summits this imagery of the horror tales, in which animals transmute to human forms, claiming a certain dominion of nature, a war that has been waged since the beginnings of creation. The most interesting point in this exercise is maybe how the mask tends to vanish, coming to life and melting with the whole. These beings are not masked people, they are hybrid entities created by the mind and born in childhood nightmares. Fox, wolf, goat, pig, tiger, deer. Or Allan Poe’s the Crow. Or Moby Dick, Melville’s enraged whale. Or George Orwell’s Animal farm, superb metaphor of a ruthless society. “[…] When I close my jaws in someone’s flesh I’m the hidden stain, the shame of progress I’m the disgrace made of a life of excess I’m the big bad wolf that everyone fears I’m the big bad wolf that everyone fears.” Adolfo Luxúria Canibal (from the song “Lobo Mau”, Mão Morta) Sérgio Currais October, 2015

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NUNO HORTA ANIMALIA

DE OLHOS BEM ABERTOS. PUM! Português

A objectiva de Nuno Horta aspira à comoção dos sentidos, à comunhão da fotografia retratista com paixões de um quotidiano que se mascara, inventando e, quiçá, reinterpretando saberes e ambições que não transcendem o Ser, antes o aprisionam em humanidade díspar entre si, em vez de os acutilar nos seus anseios mais primários: o desejo que se mistifica e animaliza como em metamorfoses que nos confortam e nos permitem o essencial dos sentidos: o Prazer. No entanto, colore a negro – como preto fecundo do lodo deposto pelas águas do Nilo – cenários de peças de sensualidade mácula e/ou obscura: trevas ou a noite de todo o contentamento como o pigmento de Johann Conrad Dippel. Verdade ou pecado? Fique o espectador ante estes flashes, saboreando a abundância animália ou as tentações de Antão ou a luxúria humana ou simplesmente a beleza e a exuberância do Ser e do sermos! A Natureza na sua sublime Arte. O transcendente no real quotidiano em Leibovitz ou Nan Goldin; o transcendente numa encenada estética artística em Witkin ou Saudek; o transcendente do real encenado numa estética artística cerebral e empírica em fotografias de Nuno Horta, num palco que também é vida e quotidiano. Nesta colecção Animália, Nuno Horta surpreende-nos por uma atitude cénica mais simples, traduzindo uma maturidade nos temas que interpreta, decifra e exprime na sua acção fotográfica

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NUNO HORTA ANIMALIA

– como resultado, fotografias auto interpretativas – ao essencial, enfoque para metáforas, parábolas e mistificações como narração alegórica que traduz a devoção pelo corpo, pelo humano, pelo mito, envolvido num preceito moral que cruza, em penumbra, o Homem e a Mulher, escudados do próprio de si, dos seus devaneios ou anseios, por zoomorfoses. Pecado versus virtude ou o seu contrário? – Na virtude o pecado omisso! – Deus ou o Demónio; o prazer ou a abstinência; a abundância ou a escassez; o Amor ou a ausência; o desejo ou a fraude; a Vida ou a Morte; o ser ou o não ser; ou, simplesmente, o sonegar ao Ser Humano da face, conferindo-lhe símbolos e mitos que o resgatam das malhas de uma qualquer condenação mundana, outorgandolhe o direito de momentos, apenas e tanto, de animalidade, urbe ou rural, mas sempre defendidos, esses momentos, por caprichos de uma natureza extra-humana, permissiva e lasciva, para uma Alma Pura, que se resgata pelo sacrifício animal, tal Dido por Eneias, Gilgamesh por Enkidu, Pedro por Inês, ou Eu – anónimo – por Ti – ninguém ou ausência de identidade. Em última instância, infra-humana! A máscara dourada como maçãs de Hipómenes para seduzir Atalanta e resgatar o seu Amor, cumprindo-se o desejo de posse pela corrida que se vence: suor, cansaço e, de novo, o luxo perpectuado pelo ouro que nos inebria e entontece os sentidos. Tal macho ou fêmea ou os contrários ou os mesmos: trocas e selos de cumplicidade assumida e rejeitada, num lado a lado, nada ingénuo ou desprovido de sentidos reflectidos.

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NUNO HORTA ANIMALIA

Esta colecção não é ingénua; não é apenas provocadora; também é erótica, estimulante, sedutora e sensualmente sensitiva para olhos de Alma Pura. Para gente que se assume sem tabus de mediocridade infame para o ser animal de que somos feitos ou criados. Matéria negra que precede a Luz. Simbólica do Apocalipse ou Fiat Lux como precedência cromática da Criação. Génese e fruição de uma fecundidade artística como nuvens escuras que fecundarão a Terra, como elemento fecundado caracterizada pelo supremo dom de gerar: The Wolf & the Fox; The Fox & the Wolf; The Goat; The Pig; The Tiger; The Deer! Masked Ball! Ao ouvir Jocelyn Pook, Flood, reporto-me a máscaras que interpretam o duplo papel: vendar / desvendar. Ou seja, entendo a necessidade, na urbe actual, do Ser Humano se confrontar com mitos passados que se reinterpretam, numa actualidade mediática, como formas de estar, pensar e sentir de cada individuo como demiurgo, que, possuindo os seus anseios, promove a sua atuação no palco da Vida e do quotidiano. Parafraseando Susan Sontag, in Olhando o Sofrimento dos Outros, “As intenções do fotógrafo não determinam o sentido da fotografia, que terá a sua própria carreira, impulsionada pelas paixões e fidelidades das diferentes comunidades que a utilizem”. Assim acontece com os símbolos ou parábolas, neste caso, fotografias como narração alegórica que envolve um preceito moral: Animália como função de ilustrar o desejo e a cumplicidade numa linguagem metafórica de criação do prazer e a respectiva recriação. Mas sem idolatria. Antes a linguagem de humanidade!

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NUNO HORTA ANIMALIA

Animália! Tripúdio de prelúdio? Sob a égide do ouro: o Lobo, luxúria e ambição, animal de Poder, com enorme capacidade para amar, mas com um carácter individualista e solitário; a Raposa, astuta e demónio do fogo e com capacidades únicas de sedução, na China são animais voluptuosos (curiosidade: testículos de raposa macerados no vinho eram considerados um elixir infalível de amor) e na Ásia são símbolos eróticos; o Bode, associado à luxúria e à fertilidade, está ligado a Pã, Dionísio e Zeus; o Porco, para católicos é símbolo da tentação e luxúria, impuro para judeus e muçulmanos, mas é associado também à fertilidade e à prosperidade no Antigo Egipto e no Norte da Europa; o Tigre, impetuoso e apaixonado, representa a beleza, a vaidade e a astúcia; o Veado, emblema solar de fertilidade, com forte simbolismo divino, com as suas hastes representam a Árvore da Vida e a regeneração, como fervor sexual figura ao lado de Afrodite e Adónis. Acabo esta minha dissertação sobre este conjunto fotográfico de obras que compõem a colecção Animália, de Nuno Horta, com a onomatopeia: PUM! – de olhos bem abertos porque somos animais… e porque não? – PUM! – caçador ou presa? – PUM! – porque cair vale a pena! PUM! Animália! PUM! Basta pum basta!!! Viva o Amor, viva! PIM! Vieira Duque Outubro, 2015

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NUNO HORTA ANIMALIA

TITUL EYES WIDE OPEN. PUM! English

A lens of Nuno Horta aspires to the commotion of the senses, to the communion of portrait photography with passions of a daily life that masks itself, inventing and, perhaps, reinterpreting knowledge and ambitions that do not transcend the Being, but most of all imprison it in an unequal humanity, instead of striking them in their most primary ambitions: the desire that mystifies and makes a beast of itself as in the metamorphoses that comfort and allow the essence of senses: Pleasure. However, he colours black – like the fertile black of the mud disposed of by the waters of the Nile – scenarios with pieces of maculated and/ or obscure sensuality: the darkness or the night of all the contentment as the pigment of Johann Conrad Dippel. Truth or sin? May the spectator remain in front of these flashes, tasting either the animal-like abundance of the temptation of Anthony, or the human lust, or simply the beauty and the exuberance of the Being and for existing! The Nature in its sublime Art. The transcendent in the real everyday life in Leibovitz, or Nan Goldin; the transcendent in a staged artistic aesthetic in Witkin or Saudek; the transcendent of the real staged in a cerebral and empirical artistic aesthetics in the pictures of Nuno Horta, on a stage that is also life and everyday. In this collection Animália, Nuno Horta surprises us with a more simple scenic attitude, reflecting a maturity in the themes that he interprets, deciphers and expresses in his photo action – as a result, self-interpretative photographs – the essential focus for metaphors,

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NUNO HORTA ANIMALIA

parables and mystifications as an allegorical narration, which translates the devotion for the body, for the human, for the myth, wrapped in a moral precept, that crosses, in the shade, Man and Woman, away from themselves, their daydreaming or longings, by means of zoomorphoses. Sin versus virtue, or it’s the opposite way? – In virtue the omitted sin! – God or Devil; pleasure or abstinence; abundance or scarcity, Love or the absence, a desire, or fraud; Life or Death; to be or not to be; or, simply, taking away the face of the Human Being, giving it symbols and myths that rescue it from the meshes of any mundane condemnation, granting him the right to have moments, nothing much, of animal behaviour, urban or rural, but always defended, these moments, by the vagaries of permissive and lewd extra-human nature, to a Pure Soul, who is redeemed by animal sacrifice, such Dido for Aeneas, Gilgamesh for Enkidu, Pedro for Inês, or I – anonymous – for You – nobody or the absence of identity. In the last instance, the infra-human! The golden mask like apples of Hippomenes to seduce Atalanta and rescue his Love, fulfilling the desire of possession through the victorious race: sweat, fatigue, and, again, the luxury perpetuated in the same gold that inebriates and trick the senses. Male or female, or the opposites, or the same: exchanges and seals of assumed and rejected complicity, side-by-side, not naive or devoid of reflected senses. This collection is not naive; it is not simply provocative; it is also erotic, stimulating, seductive, and sensually sensitive to the eyes of the Pure Soul. For people who are able to come out with no taboos of infamous

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NUNO HORTA ANIMALIA

mediocrity to be the animal that we are made of or created from. Dark matter that precedes the Light. Symbolic of the Apocalypse, or Fiat Lux, as chromatic precedent to the Creation. The genesis and fruition of an artistic fertility as the dark clouds that will fertilise the Earth, the impregnated element characterized by the supreme gift of creation: The Wolf & the Fox; The Fox & the Wolf; The Goat; The Pig; The Tiger; The Deer! Masked Ball! While listening to Jocelyn Pook, Flood, I refer to the masks that play a double role: to hide/to disclose. That is, I understand the need, in the present day urban life, by the Human Being to be confronted by old myths, which are reinterpreted in a media-ridden reality, as ways of being, thinking and feeling by each individual as a demiurge, who promotes his/her performance on the stage of Life and of the everyday out of his/her longings. Paraphrasing Susan Sontag, in Regarding the Pain of Others “The photographer’s intentions do not determine the meaning of the photograph, which will have its own career, blown by the whims and loyalties of the diverse communities that have use for it”. So it is with symbols or parables, in this case, photographs as allegorical narration, which involves a moral precept: Animália with the function of illustrating the desire and complicity in a metaphorical language for the creation of pleasure and recreation. But without idolatry. Nothing but the language of mankind! Animália! Reproaching of the prelude?

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NUNO HORTA ANIMALIA

Under the aegis of the gold: the Wolf, lust, and ambition, animal of Power, with enormous capacity to love, but with an individualistic and solitary character; the Fox, cunning and fire devil, and with unique skills of seduction, in China they are voluptuous animals (fun fact: the macerated testicles of fox added to wine were considered to be an unfailing love elixir) and in Asia they are erotic symbols; the Goat, associated with lust and fertility, is connected to Pan, Dionysus and Zeus; the Pig, for Catholics is a symbol of temptation and lust, unclean to Jews and Muslims, but it is also associated with fertility and prosperity in Ancient Egypt and in the North of Europe; the Tiger, fiery and passionate, represents beauty, vanity and cunningness; the Stag, emblem of the sun, of fertility, with a strong divine symbolism, with its antlers representing the Tree of Life and regeneration, as sexual fervour stands next to Aphrodite and Adonis. I finish my dissertation on this photographic ensemble of the works that compose the Animália collection, by Nuno Horta, with the onomatopoeia: PUM! – eyes wide open, because we are animals… and why not? – PUM! – hunter or prey? – PUM! – because it is worth to fall! PUM! Animália! PUM! Enough pum enough!!! Hurrah for Love, hurray! PIM! Vieira Duque October, 2015

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NUNO HORTA ANIMALIA

THE FOX & THE WOLF Lambda print, 70x100cm, 2015

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NUNO HORTA ANIMALIA

THE WOLF & THE FOX Lambda print, 70x100cm, 2015

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NUNO HORTA ANIMALIA

THE GOAT Lambda print, 70x100cm, 2015

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NUNO HORTA ANIMALIA

THE PIG Lambda print, 70x100cm, 2015

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NUNO HORTA ANIMALIA

THE TIGER Lambda print, 70x100cm, 2015

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NUNO HORTA ANIMALIA

THE DEER Lambda print, 70x100cm, 2015

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NUNO HORTA WHITE WEDDING

WHITE WEDDING 2014

“It makes me uncomfortable to talk about meanings and things. It’s better not to know so much about what things mean. Because the meaning, it’s a very personal thing, and the meaning for me is different than the meaning for somebody else.” David Lynch

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NUNO HORTA WHITE WEDDING

REALIDADE PARALELA Português

O rosto humano identifica o indivíduo perante o outro e perante si próprio, medeia as relações, é o que temos mais visível de uma noção de identidade. Quanto se pode dizer sobre alguém que não conhecemos, apenas pela imagem da sua cara, lendo e descobrindo a vida que está gravada na sua face? A máscara transforma essa percepção do real e projecta-nos para a dimensão do mistério. Atrás da máscara há uma pessoa que se oculta e exibe uma identidade alternativa. Quem é? Por que se mascara? Haverá semelhanças entre o seu rosto e a máscara que ostenta? Preferiria que ela fosse o seu próprio rosto? É por vergonha que alguém se esconde ou simplesmente por que não quer ser visto? Há um lugar para uma alma oculta mesmo em frente de uma câmara? Talvez usemos todos os dias máscaras invisíveis até sermos forçados a assumi-las. O único verdadeiro desejo é aquele que não se concretiza. A beleza consome mais quem não a vê. Imaginemos uma realidade com duas dimensões paralelas e coexistentes. Uma dessas dimensões seria simplesmente aquela em que vivemos, onde existimos como nós próprios. A segunda, uma realidade alternativa na qual todos teríamos um outro eu, uma projecção num mundo sem condicionantes de qualquer ordem, uma existência quase cinematográfica num imaginário assumidamente obscuro. Quem são as personagens que Nuno Horta cria para fotografar? E em que medida modelos e personagens podem ser um só pela imagem, num imaginário alternativo, de sonhos perturbadores?

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NUNO HORTA WHITE WEDDING

Os trabalhos fotográficos de Nuno Horta estabelecem essa passagem. O seu olhar interpreta as pessoas que vê numa dimensão real, para depois as transfigurar. Num exercício de descoberta desse eu tenebroso, estabelece-se então uma manifestação visual de um certo apelo oculto que se aloja nos mais inacessíveis lugares da mente humana. Esta ficção artística é tão sombria quanto fulgente. A atmosfera é terrorífica, mas enigmaticamente sedutora. Onde se estabelece a fronteira? O fascínio de Nuno Horta por esta dicotomia entre o bem e mal, se assim se pode definir, é também o resultado da sua juventude rebelde, marcada por influências góticas e punk, e por uma sede latente de transgressão. A série White Wedding é mais uma imersão neste universo desconcertante, porém com um belo sempre presente e onde a ironia e o humor marcam também o seu espaço. Desta vez, tornando invisíveis não só os rostos mas também os corpos de dois improváveis nubentes, de uma singular cerimónia vinda de um sonho negro fotografado a branco. O festivo retratado com ligaduras. Sorrisos de rostos não revelados. A união de dois seres estranhos, inexistentes. Cruzes e armas, karaokes de defuntos, uma criança de plástico, brindes e um cutelo. A dança entre vida e morte satirizada pela lente. Sérgio Currais Maio, 2014

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NUNO HORTA WHITE WEDDING

PARALLEL REALITY English

The human face identifies the individual to the other and before himself, mediates relationships, and is what we most aquire of a sense of identity. How can you say about someone who you do not know, just by the image of his face, reading and discovering the life that is recorded in your face? The mask transforms this perception of the real and projects it trough the dimension of mystery. Behind the mask there is one person that hides himself and displays an alternate identity. Who is it? Why the Mask? There will be similarities between his face and the mask that bears? Rather it than his own face? It is for shame that someone hides, or simply does not want to be seen? There is a place for a hidden soul even in front of a camera? Maybe we all wear invisible masks all days, until we are forced to take them over. The only real desire is the one that does not materialize. The beauty consumes more who does not see it. Imagine a reality coexisting with two parallel dimensions. One of these dimensions would be simply the one  that we live in, where we exist as ourselves. The second, an alternate reality where all of us would have another one, a projection of a world without constraints of any order, an almost cinematic existence  within an imaginary admittedly obscure. Who are the characters that Nuno Horta creates for shooting? And in which way models and characters can be the same for the shoot, an alternative imaginary, disturbing dreams?

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NUNO HORTA WHITE WEDDING

The photographic work of Nuno Horta establish this passage. His gaze interprets people who see a real dimension, then they are transfigured. An exercise of discovering the self, then settles a visual manifestation of some hidden appeal that lodges in the most inaccessible places of the human mind. This artistic fiction is as bleak as effulgent. The atmosphere is terrifying, but enigmatically seductive. Where it forms the border? The allure of Nuno Horta by this dichotomy between good and evil, if we may define it, is also the result of his rebellious youth, marked by gothic and punk influences, and a latent thirst for transgression. The White Wedding series is more an immersion in the universe perplexing, but always with the beauty present, and where the irony and humor also mark a space. This time, making it invisible not only the faces but also the bodies of two unlikely betrothed, a singular ceremony coming from a black dream photographed in white. Festive pictured with bandages. Smiles of faces not disclosed. The union of two strangers, nonexistent beings. Crosses and guns, karaokes of deceased, a plastic child, giveaways and a cleaver. The dance between life and death satirized by the lens. Sérgio Currais May, 2014

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WHITE WEDDING LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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PRAY LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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MATERNITY LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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THE AVIATOR LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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THE MIRACLE LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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CONFORT ZONE LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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SHE PULLED HAND LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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PASSION OF LOVERS LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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BLINDNESS LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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THE CARNIVAL IS OVER LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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NUNO HORTA MAF, GENETIC VARIATIONS

MAF, GENETIC VARIATIONS 2014

Projeto com Albano Martins, autor das esculturas. Project with Albano Martins, author of the mask sculptures.

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NUNO HORTA MAF, GENETIC VARIATIONS

MINOR ALLELE FREQUENCY Português

MAF Genetic Variations é o resultado da combinação da fotografia de Nuno Horta com as peças escultóricas de Albano Martins. Da mesma forma que o título desta série se inspira na genética (MAF, do inglês Minor Allele Frequency, sendo allele a variante de um gene, “alelo”, em português), essa combinação resulta em variantes no feminino de uma beleza em dicotomia, exposta e escondida. Imagens de corpos nus de mulher, de faces alternativas em cabeças mascaradas. Haverá em frente de uma câmara lugar para uma alma oculta? Neste exercício estabelece-se primeiro uma dualidade entre corpo e obra mas que inevitavelmente termina em fusão, tornando-se quase impossível ao olhar separar uma da outra, mulher e escultura. O corpo não é veículo nem suporte, torna-se ele próprio parte da obra. Passam a ser um só pela imagem, que cria seres de ficção. Mulheres imaginárias para rostos imaginários. Sérgio Currais Outubro, 2014

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NUNO HORTA MAF, GENETIC VARIATIONS

MAF Português

Pensei tratar-se duma simples mudança de forma, dum desvio na cor, duma mutação. Talvez fosse uma variação do gene, talvez fosse uma implicação evolutiva pouco habitual. MAF, Minor Allele Frequency, desenvolveu-se sem projeto, sem pré-requisitos ou conceitos predefinidos. Surgiu dum todo coerente, onde as partes se fundiram sobre a base sólida do corpo feminino, para o configurar e conformar, sem deformar. Mas foi, acima de tudo, uma partilha do gozo, do estímulo, da fruição e se assim não fosse, talvez pudéssemos lembrar com emoção mais uma experiência falhada. Assim, num clique quase mecânico, o corpo vestiu a escultura e eternizou-se num rasgo de luz, num momento carregado de energia, único e exclusivo, num momento inquietante experienciado por poucos, por muito poucos. Albano Martins Outubro, 2014

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NUNO HORTA MAF, GENETIC VARIATIONS

MINOR ALLELE FREQUENCY English

MAF Genetic Variations is the result of a combination of Nuno Horta photography with the sculptural pieces of Albano Martins. Just as the title of this series is inspired by genetics (MAF, Minor Allele Frequency, a variant of a gene), this combination results in variations of a beauty dicotomia, exposed and hidden in a female. Images of naked bodies of women, alternative faces masked heads. There will a place in front of a camera for a hidden soul? In this exercise it is established first a duality between body and work but inevitably ends in fusion, making it almost impossible to look separate from each other, woman and sculpture. The body vehicle is not supported or becomes part of the work itself. Become only one, with the image that creates fictional beings. Imaginary women for imaginary faces. SĂŠrgio Currais October, 2014

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NUNO HORTA MAF, GENETIC VARIATIONS

MAF English

I thought it was a simple change of form, of a deviation in color, of a mutation. Maybe it was a variation of the gene, it might be an unusual evolutionary implication. MAF, Minor Allele Frequency, developed without a project, without preconditions or predefined concepts. It emerged of a coherent whole, where the parties merged on the solid foundation of the female body, to set up and conform, without deforming. But it was, above all, sharing the joy, the stimulus, the enjoyment and if it were otherwise, we might remember with emotion, yet another failed experiment. Thus, in an almost mechanical click, the body dressed sculpture and ethernized It is a light tear, a time full of energy, unique and exclusive, in a disturbing moment experienced by few, by very few. Albano Martins October, 2014

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MAF A LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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MAF B LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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MAF C LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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MAF D LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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MAF E LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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MAF F LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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NUNO HORTA TEMÁTICOS

TEMÁTICOS 2012 - 2015

Solicitações para exposições coletivas. Requests to group exhibitions.

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NEUROIMAGING NS LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2015

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VINHO E FADO LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2014

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DON THYAGO LAMBDA PRINT, 50X70CM, 2014

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THE FISHERMAN LAMBDA PRINT, 100X150CM, 2012

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NUNO HORTA SELF PORTRAITS

SELF PORTRAITS 2012-2014

Auto-Retratos em estúdio. Several Self Portraits in studio.

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SKULL LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2014

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THE PRIEST LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2014

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SELF PORTRAIT WITH GLASSES AND GRILLZ LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2014

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I WANT YOU LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2014

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NUNO HORTA MALLORY

MALLORY 2013

Sessรฃo fotogrรกfica com a performance da modelo Sara Tavares. Another photoshoot with the performance of the model Sara Tavares.

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MALLORY LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2013

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MALLORY LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2013

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NUNO HORTA MASK

MASK 2012

“That’s unfortunate! Because here, it makes no difference… whether you have forgotten it… or if you never knew it. You will kindly remove your mask. [Bill removes his mask. The red cloaked cult leader continues talking in a pleasant tone] Now get undressed.” Eyes Wide Shut, Stanley Kubrick

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NUNO HORTA MASK

MASK Português

O rosto humano identifica o indivíduo perante o outro e perante si próprio, medeia as relações, é o que temos mais visível de uma noção de identidade. Quanto se pode dizer sobre alguém que não conhecemos, apenas pela imagem da sua cara, lendo e descobrindo a vida que está gravada na sua face? A máscara transforma essa percepção do real e projecta-nos para a dimensão do mistério. Atrás da máscara há uma pessoa que se oculta e exibe uma identidade alternativa. Quem é? Por que se mascara? Haverá semelhanças entre o seu rosto e a máscara que escolheu? Preferiria que ela fosse o seu próprio rosto? A magia é a dúvida da transmutação da realidade, o desconhecido que se revela amplamente mais sedutor. Nuno Horta aborda em “Mask” este universo misterioso. Sérgio Currais Fevereiro, 2012

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NUNO HORTA MASK

MASK English

The human face identifies the individual before the others and at himself, mediates the relationship, is what we have more like a sense of identity. How much can you say about someone who is strange to you, just by the image of his face, reading and discovering the life that is saved on his face? The mask transforms this perception of the real and projects into a dimension of mystery. Behind the mask there is a person who hides and displays an alternative identity. Who is it? Why is it masked? There will be similarities between his face and the mask? Would it prefer to be his own face? Magic is the question of the transmutation of reality, the unknown which reveals vastly more appealing. Nuno Horta discusses in “Mask” this mysterious universe. Sérgio Currais February, 2012

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VIOLET LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2012

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BORIS LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2012

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SAMARA LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2012

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MICHAEL LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2012

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TIFFANY LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2012

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BYRON LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2012

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NUNO HORTA EXTREME WAYS

EXTREME WAYS 2009

“Sure, Kill Bill’s a violent movie. But it’s a Tarantino movie. You don’t go to see Metallica and ask the fuckers to turn the music down.” Quentin Tarantino

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NUNO HORTA EXTREME WAYS

EXTREME WAYS Português

Imaginemos uma realidade com duas dimensões paralelas e coexistentes. Uma dessas dimensões seria simplesmente aquela em que vivemos, onde existimos como nós próprios. A segunda, uma realidade alternativa na qual todos teríamos um outro eu, uma projeção num mundo sem condicionantes de qualquer ordem, uma existência quase cinematográfica num imaginário assumidamente obscuro. Os trabalhos fotográficos de Nuno Horta estabelecem essa passagem. O seu olhar interpreta as pessoas que vê numa dimensão real, para depois as transfigurar. Num exercício de descoberta desse eu tenebroso, estabelece-se então uma manifestação visual de um certo apelo oculto que se aloja nos mais inacessíveis lugares da mente humana. O fascínio de Nuno Horta por esta dicotomia entre o bem e mal, se assim se pode definir, É também o resultado da sua juventude rebelde, marcada por influencias góticas e punk, e por uma sede latente de transgressão. Esta ficção artística é tão sombria quanto fulgente. A atmosfera é terrorífica, mas enigmaticamente sedutora. Onde se estabelece a fronteira? Sérgio Currais Novembro, 2009

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NUNO HORTA EXTREME WAYS

EXTREME WAYS English

Imagine a reality with two coexisting and parallel dimensions. One of these dimensions would be simply that we live in, where we exist as ourselves. The second, an alternate reality in which we would all have an alter ego, a projection of a world without the constraints of any order, an existence in an almost cinematic imagery admittedly obscure. The photographic works establish this passage. His eyes interprets the people he sees in the real dimension, then he transforms them. In a discovering exersice of the darkness self, settles a visual manifestation of a certain appeal that lodges hidden in the most inaccessible places of the human mind. The allure on this dichotomy between good and evil, so to define, is also the result of author’s youth, marked by gothicand punk influences, and a host of latenttransgression. This artistic fiction is so dark and shining. The atmosphere is terrifying, but enigmatically seductive. Which establishes the border? SÊrgio Currais November, 2009

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PIN UP LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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SANITY ASSASSIN LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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BLOODY RACHEL LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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YAKUZA LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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SAINT MARIANNE LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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ITALIAN PSYCHO LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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PRINCESS LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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XTERMINATOR LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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REVENGE ALICE LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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BUTCHER LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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DEVIL’S SHOOTER LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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BASTARD LAMBDA PRINT, 70X100CM, 2009

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NUNO HORTA ANIMALIA

CURRICULUM VITAE Nuno Horta, Portugal, Mirandela, 1977

Estudos / Studies Design, Escola Superior de Artes e Design (ESAD), Matosinhos. Artes Visuais, Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, Porto. Exposições Individuais / Individual Exhibitions 2016 “Animalia”, Fundação Dionísio Pinheiro, Águeda. 2015 “Animalia”, MCO Arte Contemporânea, Porto. 2014 “MAF, Genetic Variations”, Plano B, Curadoria Sala 117, Porto. 2014 “White Wedding”, Nuno Sacramento Arte Contemporânea, Ílhavo. 2013 “Mask”, Viriato & Viriato, Águeda. 2012 “Mask”, Palácio das Artes, Porto. 2012 “Mask”, Teatro Municipal da Guarda. 2012 “Oporto Landscapes”, El Corte Inglês, V. N. Gaia. 2012 “Mask”, Espaço 110, Porto. 2009 “Extreme Ways”, Centro de Artes e Espectáculos, Guimarães. 2004 “Dígitos”, Cirurgias Urbanas, Porto. 2003 “X-Rays”, Galeria-bar Labirintho, Porto. Exposições Coletivas / Collective Exhibitions 2015 “O Libertino”, Fundação Dionísio Pinheiro, Águeda. 2015 “Coletiva de Verão”, Nuno Sacramento Arte Contemporânea, Ílhavo. 2014 “Vinho & Fado”, Curadoria Nuno Sacramento Arte Contemporânea, Museu do Vinho da Bairrada, Anadia. 2013 “Bakalhau”, Curadoria Nuno Sacramento Arte Contemporânea, Centro Cultural de Ílhavo, Ílhavo. Publicações / Publications “Vinho & Fado”, catálogo de Arte, 2014. “Blur Magazine”, Revista de Fotografia Internacional, nº32, 2013. “Bakalhau”, Catálogo de Arte, 2013. “arte.es”, Revista Internacional de Arte, nº53, 2013.

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Textos / Texts Sérgio Curais Vieira Duque Design Nhdesign www.nhdesign.pt Impressão / Print Cromotema Tiragem / Print Run 15 Local / Location Fundação Dionísio Pinheiro e Alice Cardoso Pinheiro Data / Date Fev. 2016


Animalia, Nuno Horta  

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