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1ª. Coletânea da Novembro/2005 a Janeiro/ 2012

2012


COLETÂNEA EDITADA PARA LIVRO ELETRÔNICO

ARTIGOS, CRÔNICAS, SUELTOS E DISCURSOS SOBRE DIVERSOS TEMAS PUBLICADOS NO SITE OFICIAL DO JORNALISTA E ESCRITOR JOSÉ NÊUMANNE PINTO ENTRE NOVEMBRO DE 2005 A JANEIRO DE 2012

www.neumanne.com ESTAÇÃO NÊUMANNE ANO VI


1ª. Coletânea da Novembro/2005 a Janeiro/ 2012

2012


2005 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25.

Ponte entre sensatez e encantamento A poesia madura, mas viçosa de Lêdo Ivo A tevê e a literatura infanto-juvenil vão à favela Borges, um leitor apaixonado Carlos Tavares, o príncipe herdeiro do absurdo Saga gaúcha revela vida inteligente na tevê Bastidores de uma obra-prima na tela e nas letras Ivan Junqueira, clássico e moderno sem contradição Cunha Melo, o outro poeta de Pernambuco para o Brasil A sustentável leveza do texto de Adriana Falcão O show de bola de Adriana Falcão A boda da precisão com a graça Memórias de um padre, com fé e franqueza Esta pistola de disparar palavras Em defesa da língua materna A maré mansa de Amyr Klink A poesia de Maria Carpi arrebata lá do alto As várias faces de Bronstein, vulgo Trotsky Na poesia de Marina Colasanti, a força da delicadeza A poesia universal e atemporal de Affonso Fagundes Varela, o cachaceiro romântico Do Atlântico dos argonautas ao Mercosul de hoje O golpe e seus porões contados por quem o viveu 2005 - um ano com histórias pra contar A santa rameira e o castigo dos mouros

2006 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7.

Prosa e poesia convivendo no mesmo texto Um livro não é ruim só porque vende bem Peripécias de Prestes em Piancó Capítulo 15- Senhor e servo da palavra Estilingue, florete e caiaque Leitura Sagrada Cabra-cega nos espelhos


2007 1. 2. 3. 4. 5. 6.

Relato de oração para uma santa que nem existe De camelô precoce a autor de TV Mário Chamie na sua: a verve a serviço da verdade Delicado testemunho Arte e Arteiros O enterro da quimera

2008 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19.

É fé no povo e pé de chumbo Um documentário para quebrar o silêncio A cultura do sertão no ABC de Ariano O percurso cúmplice de viver O poeta do incômodo brilho da jaça A peleja do trio do pé de serra contra o forró eletrônico O brilho da ribalta, por trás do refletor A mesma chanchada com outros canastrões Quando Cabrinha desligava o motor da luz Walter Santos – In Memorian Dolino, passageiro da emoção No balanço dos ossos Um brasileiro como eu, você e o zé mané da esquina Beijos sem veneno na prosa de Nélida Meeiro de Deus, peregrino do passado José Olympio Pereira Filho ou o homem que pôs o Brasil para ler Retalhos da infância que não se perdeu Sentimento íntimo da morte Sacos de picolé e a sorveteria que derreteu

2009 1. 2. 3. 4. 5.

Papangu: cinco anos de informação, opinião e irreverência Meu primeiro texto sem Teresa O Picapau levou seu picape pro céu Tio Zé Bastos, meu personagem inesquecível As bombas e os punhais assinalados


6. 7. 8. 9. 10. 11.

Zé da Roda com os carneiros solenes do céu A responsabilidade da imprensa no pecado de Simonal Um gogó a serviço de um cérebro Ilusões soterradas sob cal e aço Matando a fome de um paraibano do sertão José Nêumanne: Discurso no lançamento da biografia José Maranhão, uma vida de coerência

2010 1.

2. 3. 4. 5. 6.

7.

A atualidade perpétua de Paulo A impermeável leveza de Lula A poesia nunca concede, sempre depura Sobre discípulos, mestres e umbigos O garoto que amava Yoko e a paz Que mania é essa, sujeito? O inventor do sertão

2011 1. 2. 3. 4. 5.

Doces venenos da diplomacia Sinais de um idioma poético próprio Um testamento de plena liberdade Entre a memória viva e a antologia Televisão para ser vista e apreciada

2012 1.

Maria Bonita

Sobre o Autor


1ª. Coletânea da Novembro/2005 a Janeiro/ 2012


Ponte entre sensatez e encantamento Contigo emergem a lucidez e o alumbramento. Este é um verso de Neide Archanjo e, entretanto, aí vai ele, assim mesmo sem aspas, abrindo um texto cuja pretensão, talvez excessiva, talvez escassa, é abrir um livro na qual está reunida toda a obra inédita e pregressa, nesta ordem, pois é do inédito para o primevo que este livro se desdobrará aos olhos do leitor, de um fazer poético de 40 anos. Não de um fazer poético qualquer, mas do artesanato paciente e lúdico, profundo e cristalino de alguém que não escolheu o ofício, mas por ele foi escolhido. A falta de aspas denota, em primeiro lugar, a inveja. O autor destas linhas daria um dedo, ou quem sabe um braço inteiro, pelo orgulho de havê-lo escrito. Pois esta pequena jóia literária resume em começo, meio e fim não apenas a trajetória de Sor Juana Inês de la Cruz (e se Octavio Paz, que escreveu sobre essa mestra da poesia em castelhano uma obra vasta e completa vivo fora, me apoiaria), mas também a da própria autora. E não faltará o que me apóie ao longo da leitura deste livro que parecerá volumoso ao leitor, mas jamais pesado, pois ele flutua em marinhas, evolui no ar com epifanias e será, apesar de todas as suas quase 600 páginas, um mínimo e indelével oratório de um poeta maior para um anjo. Sendo Neide arcanjo, ela comunga com Sor Juana o mistério gozoso da poesia que aos homens – nem sequer a São João da Cruz – não foi dado revelar: o de que esta arte da síntese suprema, esta linguagem falada apenas pela alma sem auxílio de língua, tímpano ou íris, é o pacto supremo do criador com o Criador. Não importa aqui e agora se Neide, mesmo sendo arcanjo, tenha ou não fé nos anjos que invoca, como tem, por exemplo, sua colega Adélia Prado. Mas, como esta, ela sabe muito bem que sua arte de si só tem a letra, ela só pode lhe ter sido soprada por uma força superior, um espírito celeste capaz de torná-la uma sacerdotisa profana de um futuro que ainda não foi construído e uma profeta imperfeita de um código imemorial, intemporal e ecumênico que atravessa os limites do profano e do sacro com a mesma desenvoltura com que fala a incréus, gentios, pagãos e devotos de mares muitas vezes singrados e pontes de suspiros, dor e gozo. Em 40 anos de prática, a poesia de Neide é épica em seu lirismo e lírica na epopéia de si mesma. Sensata e encantada, ela aparece sob a


forma do canto das sereias que tentavam desviar Ulisses de seu caminho de volta ao regaço de Penélope e da cera com que o herói tapou os ouvidos para evitar escutá-lo. Ao debulhar palavras e estrelas, ao prantear o toureiro abatido às cinco em ponto da tarde pelas aspas do touro condenado à morte, ao perder um outro olhar no alçapão do espelho, ao vagar entre girassóis e sombras, esta senhora poeta fala de amor, ainda que a solidão o mine como mágoa e ele venha a se extinguir como fogo fátuo entre as pequenas delícias esquecidas que produz. Esta é uma poeta, ainda que pareça advogada e psicóloga e ainda que pareça paulista, é apenas e tão somente uma poeta com sua capacidade inescapável de nos tornar lúcidos pelo alumbramento e de nos encantar, irremediavelmente, com a magia improvável da sensatez. Este Todas as horas e antes é, desde sempre, a ponte de chumbo sobre o pélago do mistério tornando as margens da ação e do sonho um só continente. É voar e largar, leitor atento!


A poesia madura, mas viçosa de Lêdo Ivo Em Plenilúnio, o poeta alagoano aborda de forma original temas clássicos do gênero, como a lua, o real, o amor e a morte Ao contrário da prosa, cuja qualidade depende muito da maturidade de quem a pratica, a poesia é um gênero literário que dispensa a vivência como fonte de aprimoramento. Para os prosadores, como comprova o maior dos praticantes desta arte nascidos no Brasil em todos os tempos, o mulato Machado de Assis, valerá sempre aquele famoso conselho de Nélson Rodrigues a uma platéia de estudantes: “Envelheçam, meus filhos, envelheçam!” Para os poetas, não necessariamente. Semente de talento bruto que germina graças ao viço, a poesia pode até ser prejudicada pelo passar dos anos, se deixando contaminar pela esclerose, pelo reumatismo, pela vista cansada e outros achaques da idade avançada. Vai ver foi por isso que Arthur Rimbaud, após produzir uma obra-prima, Le bateau ivre, aos 16 anos e mais um punhado de poemas que o colocaram no pódio do gênero, embarcou para a África, onde passou a idade adulta contrabandeando armas. Correndo o risco da generalização, dir-se-ia que o prosador, como o vinho, melhora com a velhice, enquanto o poeta, qual suco cítrico, corre o risco de perder seu valor protéico e vitamínico com o passar do tempo, depois de espremida a fruta. O poeta alagoano Lêdo Ivo é uma exceção a essa regra, comprovando em seu último livro, Plenilúnio, que o exercício rotineiro da escritura só lhe tem aprimorado o verso e a verve. Ele já abre o volume apresentando armas. O primeiro poema, que dá título à coletânea, chega a dar inveja pelo primor de ourivesaria e pela variedade das técnicas usadas, sem que, contudo, sua invejável artesania supere a singeleza com que se apresenta ao leitor. Nele, o poeta rima e metrifica, lidando com as formas fixas com familiaridade idêntica à com que passeia pelo verso branco. É incrível a habilidade com que ele funde a balada ibérica com o cante a palo seco de seu colega João Cabral, sem perder a unidade que percorre o volume do primeiro ao último verso. Repare, amigo leitor, o exemplo destes versos: “Casta lua esdrúxula, / teu raio ilumina / o sonho das bruxas / e estelionatários”. Veja como o uso da vogal u seguida da consoante xis nas palavras que


encerram o primeiro e o terceiro constroem uma interessante rima virtual, que, na verdade, deveria ser definida como interessantíssima, até para que o proparoxítono atraia sua atenção para a conexão feita entre a última palavra do primeiro verso e sua correspondente no quarto. Essa flutuação entre a rima e o verso branco e a métrica e a ausência de ritmo caracteriza a maestria com que o autor resolve, de forma a não deixar dúvidas, a velha questão entre o que é poesia e o que é apenas prosa quebrada (gênero cujo mais ilustre praticante no Brasil é o matogrossense Manoel de Barros), encerrando também a antiga querela sobre a natureza bastarda da poesia modernista pela negação programática dos cânones da metrificação e da rima. Peço vênia para prosseguir citando os três versos seguintes, pois no terceiro, como se verá, será encontrada uma rima para o quarto anteriormente citado: “Lua enfeitiçada / pousada no olhar / dos visionários”. E mais adiante é perceptível a extensão do efeito rítmico obtido pela insistência nos proparoxítonos: “Lua espermática / que clareia a insônia / das virgens cloróticas”. Este termo de extração eruditíssima se reporta ao sinônimo que ele usa para fechar o segundo verso do poema: “Uma lua enorme / paira no céu pálido / de minha cidade”. “Plenilúnio”, o poema, mereceria ocupar todo o espaço desta resenha, mas é impossível calar sobre Plenilúnio, o livro. Pois se faz necessário chamar a atenção para a abordagem inovadora de dois temas clássicos do fazer poético: a concretude e a morte. Alexei Bueno, autor do texto da orelha do livro, destaca com propriedade o fato de o autor remar contra a tendência pós-cabralina e concretista, sobretudo, de tomar por real apenas “o mais grosseiramente concreto”. Contra essa “coisificação” da poesia, ele vem com a manifestação, esta sim, fiel à verdade da palavra, já no terceto de abertura do poema “A realidade”: “Um fantasma é tão real / como a fachada gótica / de uma catedral”. E não é? Com graça (“Minha vida eterna / é problema meu. / Que ninguém se meta / Onde não é chamado”), simplicidade (“Assim é a morte. / água fria apaga /o fogo que ardia”) e exatidão (“O que nasce morre. / O que vive passa. / Toda eternidade / termina em fumaça”), Lêdo Ivo submete a morte, como a coisa e a Lua, à poesia: de forma corriqueira, mas profunda, gaiata e melancólica, tratada com temor e irreverência.

A tevê e a literatura infanto-juvenil vão à favela


Ao levar à telinha a realidade brasileira sem pieguice , disfarces ideológicos nem exploração comercial, a minissérie Cidade dos Homens, da Rede Globo, tornou-se um dos ápices da ficção televisiva em seu meio século de existência Na enxurrada de mensagens que entupiram os computadores depois da celeuma causada pelo depoimento de Regina Duarte na campanha de José Serra e do patrulhamento ideológico contra a atriz, merece destaque a da lavra do compositor e romancista Z. Rodrix: “Numa ditadura deve-se temer mais o inspetor de quarteirão do que propriamente o ditador.” De fato, além de corromper absolutamente, quando é absoluto, e de ser afrodisíaco, como costumava se gabar o Dr. Ulysses Guimarães, o poder deforma os caracteres de seus detentores e, seja em que nível for, os escraviza a seus caprichos. Poucas vezes essa verdade elementar, na política como no cotidiano, foi narrada de forma tão forte e tão clara quanto no episódio O Cunhado do Cara, o segundo dos quatro da minissérie Cidade dos Homens, exibida da terça 15 à sexta 18 de outubro na Rede Globo, às 23 horas. Esse episódio específico relatou a curta passagem do protagonista Acerola (interpretado por Douglas Silva, um Grande Otelo em formação) pelo poder na favela retratada na minissérie. No período em que sua irmã namorou o chefão do tráfico da “comunidade”, a pequena e frágil vítima preferencial de um grupo violento de maiores, os “babões”, fez destes literalmente gato e sapato. Mas não ficou nisso: incluiu nas sessões de humilhação seu maior amigo, o outro protagonista, Laranjinha (encarnado por Darlan Cunha). Poder deformante – Seja no curto reinado do pequeno Acerola, seja nas retaliações de que foi alvo após o fim do namoro da irmã com o traficante, a narrativa mostrou de forma clara (não seria o caso de se dizer didática, porque tudo indica que não houve intenção educativa no episódio nem na minissérie) o processo de deformação psicológica a que o poder submete qualquer ser humano em quaisquer condição social, idade ou grau de escolaridade. Felizmente, O Cunhado do Cara é um entre quatro bons exemplos de como Cidade dos Homens, ao contrário do que ocorre nas telenovelas,


nos humorísticos e mesmo no telejornalismo da programação de rotina da televisão, abordou a realidade social brasileira sem pieguice, exploração comercial ou demagogia. É o caso de dizer, sem medo de errar, que o conjunto da obra – escrita e dirigida por Cesar Charlone, Fernando Meirelles, Guel Arraes, Jorge Furtado, Katia Lund, Paulo Lins e Regina Casé – representou o ápice da produção ficcional na televisão brasileira em seu meio século de existência. Já a relação dos responsáveis pela criação do programa denota o amadurecimento da produção específica de televisão (representada na equipe por Guel Arraes) e também a extraordinária contribuição de teatro, literatura e cinema para seu êxito artístico. Fernando Meirelles e Katia Lund são diretor e codiretora de Cidade de Deus, a primeira boa fita de guerra produzida no Brasil e que, aliás, inspirou a minissérie. Jorge Furtado é roteirista e diretor de Houve Uma Vez Dois Verões, comédia que inaugurou o capítulo juvenil na cinematografia nacional (e de forma muito competente, diga-se). E Paulo Lins é o autor do romance de que foi adaptado o filme Cidade de Deus. Infanto-juvenil diferente – A atriz Regina Casé, revelada pelo grupo d<CW10>e teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone e popularizada nas telenovelas, é um capítulo à parte nessa história. Sua filha Benedita leu o premiadíssimo livro Uólace e João Victor, de Rosa Amanda Strausz (Salamandra, 72 págs.), e o recomendou à mãe. Esta se integrou à equipe de adaptadores, ao lado de Fernando Meirelles, Guel Arraes e Jorge Furtado e também o co-dirigiu com Meirelles. O episódio, último da série, pode ser visto como um exemplo bem-sucedido de casamento de bom cinema com o melhor da literatura gerando um produto fora-de-série da televisão. Uólace e João Victor é um texto magnífico e merece todos os prêmios outorgados à autora, Rosa Amanda Strausz, militante da literatura infanto-juvenil e editora do site Doce de Letra, também dedicado ao tema. Ao relatar o cotidiano de dois pré-adolescentes, o menino de rua Uólace e o de classe média baixa João Victor, o texto introduz na literatura infantojuvenil brasileira o cotidiano de violência e desesperança e os sonhos e ambições de uma juventude marcada pelo medo do Inferno que o outro representa e pelas aspirações a um falso Paraíso oferecido nos intervalos comerciais da programação de tevê.


Lobato de hoje – Sem apelar para a demagogia nem para a pieguice, Strausz representa no Brasil urbano e violento de hoje papel idêntico ao desempenhado por Monteiro Lobato no País rural e sossegado da primeira metade do século 20. Emília, Dona Benta, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa e outros personagens do universo lobatiano introduziram na literatura infanto-juvenil brasileira a paisagem geográfica e humana de um povo mestiço plantando e colhendo nestes tristes trópicos americanos – uma realidade que nada tem que ver com a neve e as fadas e duendes dos contos de Grimm e de Andersen. A qualidade do estilo do moço de Taubaté ainda mantém sua literatura viva e pulsante nas mentes e nos corações dos brasileiros de todas as idades, que se divertiram e se comoveram com as histórias do Sítio do Picapau Amarelo, que proporcionaram, aliás, um dos mais criativos e educativos programas para crianças de nossa televisão. Mas como no Brasil de hoje não há mais lugar para Rabicós, o texto de Strausz incorpora a nossa anódina e autista literatura infanto-juvenil o som furioso, o cheiro nauseabundo e a agitação feérica de uma sociedade de consumo de massas comprimida numa civilização urbana e cruel. Os encontros e desencontros de Uólace, Cachorrão Duplex e Catuaba, de um lado (o da calçada ou, melhor dito, da sarjeta), com a turma da escola de João Victor, Zé Luiz e Lucas, de outro, são representativos da perplexidade e do pânico, da ternura e do ódio que comandam as relações humanas em todas as faixas etárias em nossas metrópoles, máquinas de moer corações e mentes. Telinha sanguessuga – Na adaptação, Uólace foi encaixado na pele de um favelado (passou a ser o nome da Laranjinha). Essa ascensão social pode ter reduzido o impacto da presença de um sem-teto num conto infanto-juvenil, pois, morando num barraco de favela, o Uólace da tevê foi promovido em relação ao personagem do livro. Mas isso é compensado pela intrusão da realidade crua das favelas no mundo predominantemente blasé da televisão. A Globo, como se sabe, é uma vampira (não é à toa que o tema faz sucesso na novela das 7) e se nutre do tutano do sucesso alheio. Até aí morreu Neves (que não foi executado por Beira-Mar nem por Elias Maluco). Se esse sangue a alimenta e revigora, como é o caso do que corre nas veias do livro de Paulo Lins e do filme de Fernando Meirelles, tanto melhor para os criadores, que mostraram sua arte; a própria


televisão; e, sobretudo, a platéia grata pelo respeito à sua inteligência, coisa rara na programação do dia-a-dia.


Borges, um leitor apaixonado A leitura do interessantíssimo artigo de Ermelinda Ferreira nestas Trilhas sobre o leitor como personagem da literatura aguçou algumas lembranças muito caras de minha vida de leitor amador e redator profissional. Ermelinda fez muito bem em convocar o fantasma de Dom Jorge Luís Borges para abordar o tema. Vai ser difícil encontrar exemplo melhor de um leitor apaixonado. E era cego. Imagine o paciente leitor se não fosse. Só nos vimos uma vez. Para mim, foi inesquecível. Lembro-me que trabalhava no Jornal do Brasil e fui escalado para cobrir a eleição presidencial no Peru – aquela vencida pelo delfim de Haya de la Torre, Alan Garcia, vulgo Galan Garcia. Eleito com uma avalanche de votos, foi expulso do país e é procurado pela justiça... por corrupção. Em Lima, uma estranha cidade sem telhados, pois lá não chove há mais de 200 anos, por causa do fenômeno El Niño, o mesmo que impede que chova em meu árido sertão natal, e com seu cheiro muito peculiar uma mistura de urina (os limenhos urinam em público com a maior tranqüilidade) com peixe (farinha de peixe é sua maior fonte de renda). Tinha lido Conversação na Catedral e fiz questão de conhecer o Catedral, um boteco imundo em cujas mesas Mario Vargas Llosa instalou os dois personagens desse romance panorâmico sobre a alma e a política de sua Pátria. Na verdade, gostei mais do bar do que do próprio escritor, que me pareceu distante, vaidoso, arrogante até, e protegido por uma barreira intransponível erguida por sua mulher, Patrícia, é isso mesmo a prima Patrícia de Tia Júlia e o Escrevinhador. Mas o protagonista dessa história não é Vargas Llosa e sim outro grande escritor sul-americano. Em Lima, conheci uma repórter do jornal argentino El Clarín, Susana Colombo, e ela me contou uma história que me encantou: um colega seu do jornal entrevistou Borges em seu apartamento na Calle Maipu. Ao terminar a visita, o gênio dirigiu-se sorrateira e timidamente ao jornalista visitante e perguntou: – O sr. dispõe de um pouco de tempo? – Claro, sr. Borges. Por quê? – Então, por favor, abra uma enciclopédia qualquer e leia um verbete. Qualquer enciclopédia, qualquer verbete. De volta ao Brasil, li na primeira página do Caderno B uma reportagem do correspondente da agência espanhola Efe, em Buenos


Aires, contando a mesma história. Só que em vez de pedir para ler um verbete, Borges lhe ditou um poema. Maria Kodama, hoje sua viúva, à época sua secretária, estava em Tóquio e ele precisava da ajuda de estranhos que lhe batessem à porta para “ler” ou “escrever” um poema. Alguns dias depois, fui escalado para cobrir o julgamento dos militares pela recém-instalada democracia argentina. Ao chegar a Buenos Aires, tracei um plano para ler um verbete ou anotar um poema para aquele que eu considerava o maior escritor vivo do Planeta. Telefonei-lhe do hotel, marcamos um encontro e me dirigi ao austero apartamento da Maipu, perto da Praça San Martin, no centro de Buenos Aires. Apesar de o gravador de bolso ter falhado, lembro-me nitidamente daquela conversa numa manhã fria de Buenos Aires. Prometo poupar-lhe os detalhes e anotar apenas o essencial sobre o tema proposto por Ermelinda: 1 – O genial escritor de Ficções disse-me que ler é um luxo de beócios. Ele só teve esse vício quando era jovem. À medida que amadureceu, ele preferiu sempre reler. É claro que a memória não me traz mais as exatas palavras que pronunciou, mas me lembro bem que ele me disse que ler algo novo, inesperado, causava-lhe quase sempre frustração. O poeta aconselhou-me a reler especialmente dois prosadores: Josef Conrad e Euclides da Cunha. Este pobre imbecil que lhes escreve arriscou, meio timidamente: – Mas o sr. lê português, Dom Borges? – Você não me entendeu – interrompeu-me, brusca, rispidamente: eu leio Euclides. Era como se o autor de Os Sertões tivesse uma língua particular. E quem era eu para contestá-lo? Certo? 2 – Dom Jorge nutria solene desprezo pela imprensa. Achava que a invenção de Gutenberg era uma das maiores responsáveis pelo “emburrecimento” da humanidade. Ele gostaria de ter vivido no tempo dos copistas, aqueles monges medievais que anotavam com sua caligrafia bem desenhada os textos que seus colegas de claustro teriam de ler. O trabalho penoso dos copistas funcionava como um rigoroso sistema de controle de qualidade, a seu ver. A facilidade da publicação de textos impressos por tipos móveis o irritava: “Veja o que ocorre por causa da imprensa: imprime-se qualquer porcaria. Qualquer idiota escreve qualquer coisa. Você não acha isso um horror?”, perguntou-me, quase exigindo a confirmação. Claro que concordei – logo eu, pobre de mim, que vivo do que imprimo.


3 – Apesar de tudo isso, o grande escritor portenho se dizia um leitor fanático. Ler, para ele, sempre foi muito mais prazeroso do que escrever. Ainda recentemente, descobriram as fitas de umas palestras que ele andou proferindo em Harvard. Elas foram degravadas e os textos publicados em livro editado no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Sua leitura, é claro, é mais que recomendável. Numa das palestras, ele disse que a leitura é garantida: não há perigo de o leitor ser frustrado por um bom autor. Enquanto a escritura é decepção na certa: não há perigo de alguém escrever um texto à altura de um Cervantes, um Camões, um Shakespeare... Tamanha era a paixão de Borges pela leitura que ele conta numa dessas palestras que sua maior frustração é quando vai a uma livraria e encontra um livro sobre um tema que lhe interessa muito – poesia finlandesa medieval, por exemplo (pode?) - e ele não pode comprá-lo... porque o livro já está nas prateleiras de sua biblioteca. Confesso uma honrosa coincidência com Borges: também me frustro muito quando não compro um livro só por já possuí-lo. 4 – Ora, todos conhecem a fixação de Borges em bibliotecas. Em vez de me alongar neste tema para não levar o leitor ao sono, prefiro responder a uma questão levantada por Ermelinda Ferreira: a cegueira de Borges. Herdeiro de uma deficiência visual que acometera o pai, o escritor me surpreendeu não apenas por conjugar muito freqüentemente o verbo ler, em todos os tempos – pretérito, presente e futuro -, mas também pela emocionada descrição de um passeio de balão que ele havia feito com Maria Kodama na Califórnia. Como (perguntava eu, que sou míope desde a mais tenra infância e sempre tive muito medo de ficar cego) um deficiente visual poderia ter usufruído daquela forma de uma paisagem terrena “vista” de um balão nos ares? Algum tempo depois, vi na televisão uma entrevista de Roberto d’Ávila com ele e nela repetiu praticamente com as mesmas palavras suas impressões daquele vôo. Ao vê-lo de novo na telinha senti a mesma surpresa, recebi o mesmo impacto da revelação que me fora feito pessoalmente. Ainda em relação à cegueira, surpreendeu-me bastante uma afirmação que fez a mim e faria a Roberto: ao contrário do que se imagina normalmente a cegueira não é preta, mas branca. Segundo Jorge Luís Borges, cujo livro A História Universal da Infâmia me encantou tanto, o cego não vive num túnel escuro, mas com os olhos encobertos por uma tênue, embora luminosa, ofuscante até, cortina de gaze branca. Depois de uma imagem linda como essa, sinto-me forçado a pôr um ponto final neste texto. Nada mais precisa ser dito. Não acha, Ermelinda?


Carlos Tavares, o príncipe herdeiro do absurdo Contista paraibano estreante prefere remoer desventuras a narrar aventuras na coletânea de estréia Fábulas da Febre O livro Fábulas da Febre, do contista paraibano Carlos Tavares, não chegará às livrarias de São Paulo. Isso definitivamente é uma pena. Pois por causa desse detalhe mercadológico, o leitor do maior mercado do País perderá uma excelente oportunidade de conhecer um prosador estreante competente, inovador e, com o perdão da má palavra da moda, instigante. A coletânea de pequenas ficções (uso aqui a palavra porque a referência ao gênio Borges não se limita ao título) só saiu por livre e espontânea pressão de amigos pessoais do autor, principalmente os poetas Hildeberto Barbosa Filho e Antônio Moraes de Carvalho, e terminou por merecer premiação no concurso “Novos Autores Paraibanos”, promovido pela Universidade Federal da Paraíba, além da edição bem cuidada (apesar do corpinho miúdo, torturante para míopes como este escriba), embora artesanal, assinada pelas edições Prac-Coex. São reunidos no volume onze contos, mas rigorosamente nenhuma narrativa: Carlos Tavares não narra aventuras. A bem dizer, ele remói desventuras: não se filia à escola de Ernest Hemingway ou Jack London, Guy de Maupassant ou Máximo Gorki, os grandes cultivadores do gênero na literatura mundial. Sua genealogia literária pode ser encontrada nos autores das epígrafes que escolheu para os textos: o Edgar Allan Poe de “Annabel Lee” lhe legou sombras; Giorgos Seféris, Emily Dickinson, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Robert Frost, a alternativa poesia; e Samuel Beckett, o gosto pelo absurdo. Ao preferir a penumbra à luz ofuscante do verão na praia ou do sertão, Carlos Tavares não se faz propriamente um menestrel de amarguras. De fato, se há uma linha-mestra nessas ficções, ela se encontra na proximidade entre Eros e Tanatos, como lembra com perícia Hildeberto Barbosa Filho, encarregado de escrever a apresentação do livro. Mas a presença da morte rondando o amor não significa necessariamente algo depressivo nem muito menos mal humorado. Ao contrário. O único conto que se aproxima de uma narração, “Um moribundo”, está cheio de momentos luminosos, como esta frase que associa magnificamente o


êxtase da carne ao do espírito, na melhor trilha de Juan de la Cruz ou de Teresa d’Ávila: “Chega a ver o rosto de Maria, que toca o seu rosto com dedos de pluma e depois o acolhe em seu colo de nuvens para infinitas carícias”. Repare no ritmo dessa frase. É ou não é poesia pura? E boa! Na verdade, as 11 ficções desse livro mais se aproximam de poemas em prosa do que de narrativas propriamente ditas. Em “Árias nas cordas do Sol”, por exemplo, o orgasmo é descrito numa variante muito bonita: “Rosa retesada pelo prisma do gozo, gangorreava-se ávida num istmo de urros, gorjeios, risos”. São imagens, ritmos, tessituras - nada de realismo, certo? Daí, a correção da conclusão na introdução de Hildeberto Barbosa Filho: “Carlos Tavares, através de seu característico narrador - narrador de ponto de vista singular, precário, perplexo, onírico, devaneante - se põe como poeta. E como poeta sonda sobretudo a plenitude virginal da linguagem, a sua plasticidade, seus veios acústicos, num viés que se conforma perfeitamente com as matrizes valeryanos do discurso”. Muito bem dito. E é isso que o leitor identifica como sendo um parentesco com Nerval, Rimbaud ou Pessoa, muito mais do que com Rubem Fonseca ou Fernando Sabino, mestres das narrativas curtas de eventos. Essa preferência pela falta de nexo do sonho teria de levá-lo para o fabuloso (o que de certa forma o aproxima de Cortázar) e também para o absurdo. Convém registrar que ele chegou a explicitar isso no parágrafo de abertura de “A Ilha”, um dos sete movimentos da rapsódia para um caçador de pedras, “O Lírio no Labirinto” (a bênção, vovô Borges), com a qual abre o livro: “Meu pai me deserdou, mas sem saber me deu essa ilha de ouro, esse farol de prata, esse colar de pedras marinhas, essa coroa de jade do imperador do absurdo”. Enfim, chega o leitor a um personagem de carne e osso, o caçador de pedras, Arnaldo Tavares, fundador da Faculdade de Medicina de João Pessoa, ídolo de várias gerações de médicos nela formado, poeta e sonhador. Ou seja, Édipo-rei comparece entre outros tantos mitos gregos que o sonho do escritor transportou para seu reino: um Deus-pai real de um universo surreal de impressões fantásticas, polifônicas, intertextuais e oníricas, de uma beleza e de uma clareza das quais o leitor terá uma idéia ao ler trechos como a abertura de “Eveline”: “Os dedos nas teclas da máquina tateiam as teias da memória encardida pelo nevoeiro de cinzas que o tempo varre e o vento devolve ao presente”. Quem sou eu para dizer melhor desse autor do que ele mesmo.


Saga gaúcha revela vida inteligente na tevê Minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, de Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão, na Globo, se destaca do resto da programação da tevê por respeitar a língua e o telespectador, sem fazer as concessões de hábito aos baixos instintos

Quem vai ao acanhado teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil verificar o que foi feito do antológico texto de Eugene O’Neill, Longa Jornada de um Dia Noite Adentro, se pode surpreender com a brilhante tradução de Bárbara Heliodora e a humildade competente do diretor e cenógrafo Naum Alves de Souza. Encantar-se-á com o elenco, mas, a não ser que seja completamente desinformado, não se espantará com a qualidade e a sensibilidade daquela obra-prima da literatura cênica, com seu magnífico fecho, o monólogo da Mary Tyrone encarnada no espetáculo por Cleyde Iáconis. O caso da televisão, contudo, é oposto: viciado no tratamento dado ao vernáculo nas entrevistas de Adriane Galisteu ou Luciana Jimenez e desrespeitado pela exibição descarada da sordidez humana nos reality shows, o telespectador na certa se assusta ao se deparar com alguma manifestação rara de inteligência num templo devotado aos baixos instintos. No entanto, a inteligência e a sensibilidade humanas já se salvaram no veículo por obra e graça do Auto da Compadecida ou mercê do realismo poético e brutal da Cidade dos Homens. E agora, provando que nem tudo foi condenado à banalidade e à ignomínia posta à venda, a minissérie A Casa das Sete Mulheres vem provar que “a última flor do Lácio inculta e bela” de Bilac pode ser regada, e não apenas negada e maltratada sob o brilho fugaz dos holofotes da fama e do tédio. Sim. É claro que se deve (e muito) o bom resultado final da produção à direção de Jayme Monjardim que, desde os tempos de Pantanal na extinta Rede Manchete, provou ser capaz de detectar como ninguém mais a luz e a cor da paisagem nativa. Méritos também não faltarão à descoberta de uma estrela fulgurante nos olhos claros e expressivos da narradora Camila Morgado, que com Cacilda Becker tem, no mínimo, um talento em comum: o de tornar suas personagens ainda mais belas do que elas já são usando apenas o brilho dos olhos e o tom da voz. Quem - como este escriba - não teve a honra nem o prazer de ver


a Becker atuar pode agora testemunhar o milagre da produção da beleza despida de jaça nos lampejos fulgurantes do olhar da mocinha que se faz deusa quando a câmara os flagra. Mas é preciso considerar desde logo que nada disso seria possível sem o trabalho de base dos dois escritores: Maria Adelaide Amaral, autora de teatro incorporada à televisão pelo olho clínico do pioneiro Cassiano Gabus Mendes, e Walther Negrão, veterano novelista egresso da publicidade. Os dois souberam tirar do romance de Letícia Wierchowski, que lhes caiu à mão assim que saiu, material suficiente para produzir essa obra-prima, que resgata o senso estético e respeita a inteligência do telespectador sem apelar para os costumeiros golpes abaixo da linha da cintura. Houve quem lhes negasse conhecimentos geográfico e histórico - o que é natural neste País que, à falta de escolas à altura, exige da arte papel de supletivo escolar. Tolice! Tabajara Ruas, perito em texto e especialista no Rio Grande, advertiu com sensatez que a minissérie não trata da história, mas da mitologia dos pampas. Defesa justa e honrosa, essa do grande romancista gaúcho! Mas desnecessária de tão evidente: cobrar da obra acabada correspondência com fatos históricos é de uma caturrice que dispensa qualquer argumentação. Manuela não saiu da estância atrás de Garibaldi, enrabichado pela catarinense Anita. Não foi a autora do romance adaptado quem inventou a caça peripatética do herói italiano pela sobrinha do chefe farroupilha Bento Gonçalves em território conflagrado. Se os autores tivessem sido fiéis ao romance original e aos compêndios escolares, não escreveriam um dos momentos que mais dignificam a pouco digna (esteticamente) história da televisão brasileira: o confronto havido no diálogo entre Manuela e Anita Garibaldi na enfermaria onde o objeto da paixão das duas, Giuseppe Garibaldi, convalescia. E a fidelidade histórica aboliria a felicidade estética de ver uma bela cena num meio em que beleza é tão rara.


Bastidores de uma obra-prima na tela e nas letras Abandonado pela mulher, Moravia se vinga dela em O Desprezo, excelente romance que, adaptado por Jean-Luc Godard, vira clássico do cinema. Uma das fofocas mais intrigantes do universo literário do século 20 é a que circula nos meios cult sobre dois dos maiores escritores da história recente da Itália. Alberto Moravia, o autor de Os Indiferentes, foi casado com Elsa Morante (História). O casal conviveu no epicentro de um terremoto de vaidades: a crítica italiana não conseguia se entender sobre quem seria o maior escritor italiano da época – se ele ou ela. O casamento ruiu, é claro, sob o peso de seus egos, da intriga cortesã literária e da impossibilidade de saber quem de fato era maior (talvez só Nelson Rodrigues resolvesse o assunto, mas ele não foi chamado para arbitrá-lo, até porque não era italiano: lembram-se de que, quando Dias Gomes foi escolhido melhor dramaturgo do Brasil, ele, que também disputava o galardão, comentou, ácido: “Mas ele não é o melhor dramaturgo nem na casa dele”, referindo-se a Janete Clair?). E, mesmo Nelson não tendo sido chamado para arbitrar, a separação do casal foi puramente rodriguiana: Elsa Morante saiu de casa para viver com outro, um amigo do casal, bonito, nobre, rico e também um artista maior, o cineasta Luchino Visconti. O detalhe bizarro da separação é que Visconti era tudo isso - e também homossexual. À vingança do marido trocado por um amigo que nem gostar de mulher gostava a literatura italiana em particular e a mundial em geral deve um texto primoroso: o romance O Desprezo. Com seu estilo elegante e escorreito, o autor de A Romana descreve o momento impreciso em que uma relação de amor entre um homem e uma mulher se acaba, aquele ponto de inflexão em que a admiração da qual surgiu a paixão e que motivou o amor se transforma numa sensação quase histérica de repulsa. O enredo é muito simples: uma jovem e bela datilógrafa sente que o marido, um escritor respeitado, a está praticamente oferecendo a um produtor de cinema que o contratara para salvar uma adaptação da Odisséia do naufrágio e sente que o tédio em que sua relação a dois começava a mergulhar vai se esvaindo num nojo incontrolável. A vingança


de Moravia é implacável: Elsa Morante, que saíra de sua cama para a de um gay, continuava viva e brilhante, mas a protagonista do romance que ele criou é morta. O prosador recorreu à ficção para realizar o impulso de todo marido traído: a eliminação física da adúltera e de seu parceiro e, melhor ainda, sem nenhuma conseqüência traumática para sua própria vida, o que teria sido fatal se ele tivesse resolvido fazer o que imaginara realmente: prisão, condenação, opróbrio. Interessante é que no fim o protagonista masculino se sai muito mal e quem termina como heroína é a mulher imolada. Em 1964, em pleno auge da nouvelle vague, o diretor francês JeanLuc Godard, que virou o cinema de pernas para o ar com Acossado, aceitou dirigir uma adaptação do romance para a tela. A tarefa era complicadíssima: os textos de Moravia não propiciam a ação cinematográfica, pois são reflexivos, mais insinuando estados de espírito do que relatando peripécias. E não seria fácil adaptar para o cinema a transformação sutil da admiração na paixão, da paixão no tédio e do tédio na rejeição, ponto alto do texto de Moravia. Godard, o mesmo que faria gato e sapato da narrativa linear com seu discursivo A Chinesa, contudo, conseguiu fazê-lo recorrendo a alguns truques aparentemente simples: música, abundante trilha sonora em volume muitas vezes se sobrepondo aos diálogos; takes de estátuas gregas se aproveitando da adaptação do épico de Homero (e o filme dentro do filme foi dirigido por ninguém menos que o alemão Fritz Lang, diretor do superclássico M, o Vampiro de Dusseldorf); e a beleza natural e irrepetível da natureza das curvas de Brigitte Bardot em seu momento de maior esplendor. A seqüência inicial em que a datilógrafa Camille cobra do marido escritor (Michel Picoli) uma declaração de paixão por cada parte de sua anatomia é um insuperável momento de graça e leveza na história da arte que se diz ser a sétima. A presença de Jack Palance, o temível bandidão de tantos westerns da admiração dos diretores franceses da turma do Cahiers du Cinéma, no papel do produtor sedutor, é outro golpe de mestre de Godard, que conseguiu com a soma de todos esses atributos o que parecia impossível: o raro caso em que o espectador sai do cinema sem ter certeza de que o livro, uma obra-prima da literatura, seria melhor do que a adaptação cinematográfica, ou não. Com cópia nova providenciada pela Pandora, o raro filme linear (com começo, meio e fim) de Godard está em cartaz em São Paulo (no Top Cine, na Paulista). E não é de todo improvável que ainda se encontre


em alguma livraria (ou em último caso num sebo competente) uma versão razoável em português do romance de Moravia. A inútil tentativa de saber qual é o melhor – se o livro ou se o filme – será de muito bom alvitre para o leitor e espectador de bom gosto.


Ivan Junqueira, clássico e moderno sem contradição Global publica a seleção dos ‘melhores poemas’ do autor de ‘A Rainha Arcaica’, feita por Ricardo Thomé; o escritor alia erudição, rigor e sensibilidade sem concessões ao facilitário

Caro leitor, se de fato decidiu adquirir o livro Ivan Junqueira, seleção de Ricardo Thomé (coleção “Melhores Poemas”, da Global Editora, 256 pp., R$ 35), é melhor que seja logo informado de que nele não encontrará poemas-piadas nem trocadilhos tratados como se fossem peças de arte ou outros facilitários do gênero. O poeta selecionado não se dá a desfrutes tais nem cultiva essas comodidades: ele prefere o trabalho duro, a pesquisa atenta, a garimpagem paciente, em que a jaça não polui o metal precioso nem a pedra contém imperfeições. Ivan Junqueira não brinca em serviço: domina o ofício como poucos e como raros sabe que a preguiça do estilo é o pai de todos os vícios de linguagem. Suas flores da fala são cultivadas à distância das ervas daninhas e não brotam nos jardins da inspiração, mas na terra seca da erudição. Daí não resulta obra fácil e ele não é um poeta fóssil. Ao contrário. Ao mergulhar nas trevas dos sótãos em que espiona os mistérios da morte, do amor e da arte com as lentes da dúvida filosófica, o poeta carrega numa mão a vela do conhecimento e na outra o fósforo da habilidade no manejo verbal. Dito isso, é bom preveni-lo também, cauteloso leitor, de que Ivan Junqueira pode não ser o único poeta clássico em atividade na literatura brasileira, mas, sem sombra de dúvidas, é o mais equipado para sê-lo e o que melhor realiza a tarefa inglória de depurar no laboratório da língua mais pura o material orgânico retirado da lama das sarjetas com o ácido corrosivo da observação profunda, lúcida e cínica que foi buscar nos mestres, sejam eles habitantes de outros planetas lingüísticos, como Saint-John Perse, Rimbaud e sobretudo Eliot, de quem é tradutor juramentado e tido como imbatível; sejam patronos do que de melhor produziu a


inculta e bela, do fundador Camões a Jorge de Lima, passando por Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e, last but not least, Fernando Pessoa, como Ivan poeta de poetas; sejam outros sócios da confraria dos zeladores de poesia e prosa, tais como Dante Milano, Álvaro Mendes, Leonardo Fróes e Per Johns. A esfinge e o enigma - Uma relação assim extensa não pode dar ao leitor, a não ser por pressa, a impressão fátua de que se trata de um poeta de pouca originalidade. Qual o quê! Ivan Junqueira é poeta originalíssimo. Em sua estréia, Os Mortos (19561964), ele diz a que vem logo na primeira estrofe do primeiro poema, o que dá título à coletânea: “Os mortos sentam-se à mesa, / mas sem tocar na comida; / ora fartos já não comem / senão côdeas de infinito”. Eis um quarteto perfeito na forma e no conteúdo, cuja construção delineia desde logo toda a obra a ser produzida depois, nestes 40 anos que a separa de nós. Aí já está o navegar cauteloso nas águas densas do mistério a um ritmo compassado de remos, que ao leitor é dado mais intuir que ouvir. Algumas páginas adiante, o leitor atento encontrará em mais uma estrofe inicial, a do poema Signo & Esfinge, o complemento a essa quadra inaugural com outra também fiel ao espírito “eliotiano” do ritmo determinado pelo silêncio como sendo o melhor para a melhor poesia - só que neste caso contendo a definição simples e direta do tema poético e da forma mais adequada de tratá-lo. Ele registra: “Toda esfinge exibe um signo / visível de seu enigma, / embora quem o pressinta / jamais lhe decifre a escrita.” Aqui está em quatro versos a mais exata, et pour cause, não necessariamente a mais precisa, a mais simples, embora não forçosamente a mais fácil de ser entendida, explicação para a disfunção que é em si a função da poesia. Ele diz de outra forma o verso célebre de Pessoa (“o mytho é o nada que é tudo”), que usaria como epígrafe em Rainha Arcaica, de 1979. Autor de momentos antológicos da poesia em português, tais como o fecho de Elegia Íntima (”Minha mãe chorando no fundo da noite / apunhalou o sono de Deus”), em que faz da memória matéria metafísica sem nunca perder a clareza, ou o de Inês: Indícios (“A ruína que vês, posta em decúbito, / já teve porte e postura, mas súbito / a infanta de si própria se fez pântano”), o


poeta, cuja obra foi selecionada e apresentada com desvelo e competência pelo poeta e romancista Ricardo Thomé, é respeitado por sua obra ensaística - e esse respeito é merecido. Mas neste ambiente em que se busca reduzir o estro à verve, é sua obra poética que chega às livrarias para resgatar a certeza perdida de que a poesia pode servir ao mesmo tempo à beleza estilística e à veiculação da angústia ancestral que transforma a vida humana em estrupício, delícia e malícia, esse alternar de dor e gozo que torna o trajeto do berço ao túmulo ao mesmo tempo absurdo e instigante. Leia, pois, o poeta - que reza “Eu sou apenas um poeta / a quem Deus deu voz e verso” em Prólogo, um dos oito poemas que eram inéditos - antes que a pseudopoesia escatológica nos reduza a lacaios de nossos instintos. HOJE A sensação oca de que tudo acabou o pânico impresso na face dos nervos o solitário inverno da carne a lágrima, a doce lágrima impossível... e a chuva soluçando devagar sobre o esqueleto tortuoso das árvores Ivan Junqueira - Os Mortos (1956-1964)

EPITÁFIO De tua história, nada; ou tudo, se quiseres: entre uma e outra data, a fábula de seres nunca o tangível, mas o pássaro, o maralto (o passo, não: o salto em vão, fora do espaço), o amor, vale dizer: sua forma álgida e rara, avessa à coisa amada


– e, súbito, colher a morte, flor cediça, dentro da vida. Ivan Junqueira


Cunha Melo, o outro poeta de Pernambuco para o Brasil Com três livros reunidos num volume, membro da geração pernambucana de 65 é, afinal, editado no Sudeste, após publicar 12 livros em Recife O lançamento do livro Dois caminhos e uma oração (352 pp., R$ 34) representa, ao mesmo tempo, uma revelação e um resgate. Seu autor, o sociólogo e jornalista pernambucano Alberto da Cunha Melo, deixa de ser, aos 62 anos de idade, uma espécie de devoção secreta de colegas que o respeitam como um dos maiores poetas da língua portuguesa em qualquer lugar ou época, porque tiveram acesso a edições semiclandestinas saídas a lume apenas às margens dos rios Capibaribe e Beberibe, para ser, enfim, editado no eixo Rio-São Paulo, por iniciativa de A Girafa Editora. Cunha Melo é da mítica geração de 65, revelada por César Leal, a mesma a que pertence Marcus Accioly. Mas o padrão pelo qual se pode medir a importância de sua obra poética está alguns furos acima de seus contemporâneos, por mais respeitados que eles merecidamente o sejam. Idéia dessa medida pode ser dada pelo entusiasmo com que o poeta Bruno Tolentino o selecionou em entrevista dada nas páginas amarelas da revista Veja, como um dos raros poetas de indiscutível qualidade na poesia brasileira contemporânea. Ou pelo acadêmico Ivan Junqueira, que vislumbrou em Meditação sob os lajedos, seu livro lançado no ano passado pela editora Universitário do Rio Grande do Norte - EDUFRN, em co-edição com a Edições Bagaço, do Recife, um brilho, mais que raro, único entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura a ser concedido ao melhor livro de 2003. Esse brilho foi percebido por jurados de várias tendências que escolheram os finalistas - do crítico Fábio Lucas, o primeiro a falar de sua obra no Sudeste, ao poeta Anderson Braga Horta que, residente em Brasília, é atento garimpeiro da literatura provinciana brasileira; de Deonísio da Silva, o autor de A Vida íntima das palavras, que, em São Carlos, recebeu pelo correio o exemplar da obra rara, a Alcir Pécora, o respeitado exegeta de Vieira, que, após ler os poemas da coletânea na Internet, em Campinas, a selecionou para ser premiada.


Esses especialistas concordam (na certa e com correção) com o professor Alfredo Bosi, da USP, que escreveu sobre Yacala, poema-livro lançado em edição artesanal impressa em Olinda para 200 amigos: “o Nordeste nos dá mais uma vez, depois do paraibano Augusto dos Anjos (presente de modo subliminar na atmosfera de várias passagens de Yacala), do alagoano Jorge de Lima e dos pernambucanos Carlos Pena Filho e João Cabral, a sua lição de dor que se faz beleza, e arranca de si forças para construir uma poesia como a de Alberto da Cunha Melo, cujo nome secreto é – resistência.” Dor, beleza, força e resistência são as senhas para a leitura da poesia densa, sofrida, vivida e parida nos dois volumes citados, aos quais foi acrescentado um terceiro, Oração pelo poema, para completar o`? ???A ? tríduo encaixado no volume que acaba de ser lançado no resto do Brasil, graças, sobretudo, à maneira militante com que Bruno Tolentino, um maledicente temido das letras brasileiras, batalhou pelo atrasado, embora não tardio, reconhecimento do engenho do poeta maior e ao passado de monge beneditino do editor responsável pelo feito. Este, o carioca radicado na Paulicéia Pedro Paulo de Sena Madureira, o conheceu em sua passagem pelo mosteiro de São Bento em Salvador e pelas mãos de um mestre afeito às letras, Dom Timóteo Amoroso Anastácio. E, ao preparar os originais de Dois caminhos e uma oração, Madureira viu-se definitivamente arrebatado pela pungência dolorida de versos como “pelo temor da eternidade, / perguntaste a teu confessor / por que a resistência sempre fora / desperdício de tanta dor” ou pela cadência de uma estrofe como “Para os mais velhos, as escadas / vão ganhando novos batentes; / as estradas, novos quilômetros; / as lembranças novos ausentes”. Isso seduziu o editor que lançou Adélia Prado, por recomendação de Drummond, a ponto de fazê-lo exclamar ao fim da leitura: “Céus, um poeta à altura de João Cabral!”. Tal observação, digase, não soaria estranha ao outro pernambucano que lhe serviu de parâmetro. Editado no Sudeste graças à generosidade de Antônio Campos, que dirige o Instituto Maximiano Campos (em homenagem a seu pai, também poeta e ficcionista da Geração de 65) e à pertinácia de Cláudia Cordeiro, professora de literatura, musa, mulher e exegeta de Cunha Melo, poeta cuja obra encena “a distância, a perda e a impossibilidade de evasão” (na precisa definição do prefaciador Mário Hélio, poeta e crítico pernambucano), Dois caminhos e uma oração é um livro que, enfim, faz justiça a um poeta de 12 livros publicados e poemas coletados em 23


antologias e escreveu: “Conheço minha letra, escrevo / para mim, escrevo à vontade”. Para gáudio geral de todo leitor exigente e de bom gosto.


A sustentável leveza do texto de Adriana Falcão Novo livro da autora do texto da “Grande Família” mostra que a crônica não morreu, mas, ao contrário, passa bem, obrigado Como a crônica, ao contrário de outros tipos de texto, não exige um gancho retirado do noticiário do dia nem assume compromissos com a lógica plana, que conduz os raciocínios de reportagens, artigos e editoriais, foi disseminado o preconceito de ser um gênero menor da literatura e uma forma de jornalismo para autores preguiçosos. A contribuição dada por um cronista puro sangue como Carlinhos de Oliveira e a transformação de cronistas em escritores de fama, caso de Rubem Braga, não a resgataram desse limbo, no qual permanece como um estilo típica e quase exclusivamente brasileiro. Trata-se, evidentemente, de uma injustiça provinda do desconhecimento de quem lê de uma característica de quem escreve: não existem textos fáceis ou complexos - eles se dividem apenas em bons ou ruins. Mas é preciso reconhecer, e logo neste preâmbulo, que o que tem sido feito com a crônica dos tempos que não voltam mais de cronistas impagáveis como Luiz Martins, neste jornal, mais que justifica sua má fama: ocorreu com o gênero que a falta de cânones precisos fosse confundida com facilitário e muitos cultores desavisados e mal habilitados (muitas vezes também mal intencionados) confundissem leveza com leviandade e liberdade de tratar um tema como libertinagem para desperdiçá-lo. O livro O Doido da Garrafa (130pp., R$ 32), de Adriana Falcão, que acaba de ser lançado pela filial recém-instalada do forte grupo editorial espanhol Planeta no Brasil, é, ao mesmo tempo, um resgate da velha e boa crônica dos tempos de Marcos Rey e uma oportunidade de conviver com os fundamentos de um tipo de texto que permite uma leitura prazerosa, e não necessariamente superficial. Trata-se de uma coletânea de textos preparados pela autora para a edição carioca do suplemento de serviço (Vejinha) da revista Veja no Rio de Janeiro. A colaboração de Adriana Falcão na Vejinha dá ao leitor carioca o privilégio de manter contato permanente com uma legítima, inovadora e excepcional cronista, da estirpe de João do Rio e Rachel de Queiroz (desde a Última Página de O Cruzeiro até este Caderno 2). O leitor da


coletânea, oportunamente lançada em livro, terá a chance de se associar a este comentário provando os “suspiros” (aqui no sentido daquele doce de clara de ovo, e não dos arroubos e amuos das heroínas românticas) preparados por esmero por uma artesã que trata o vernáculo com descontração, sem nunca perder a consideração. Por isso, os textos reunidos no volume são leves, mas jamais levianos. Eles foram repartidos entre os temas favoritos da autora – entre eles “doidos e afins”, “criação” e “cartas”. Na primeira parte estão os “de amor”, como aquele, antológico, em que os amantes são classificados de “grandes e pequenos”: “o pequeno ama, o grande se deixa amar.” Em seguida, vêm os “de pensamentos e divagações”. Entre estes destacamse aqueles em que Adriana Falcão aborda sua relação de intimidade, servidão e afeto com o dom e o ofício que abraça: ela põe o leitor a par da busca do tema pelo cronista e da luta contra a palavra, que, segundo um ilustre antecessor dela, o poeta Carlos Drummond de Andrade, é de todas a mais vã. Vale a pena destacar um trecho de um desses textos sobre a matéria-prima da perícia da artesã. Lá vai: “As palavras têm corpo e alma mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que querem, está dito e ponto. As palavras são sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas. A palavra juro não mente. A palavra mando não rouba. A palavra cor não destoa. A palavra sou não vira casaca. A palavra liberdade não se prende. A palavra amor não se acaba. A palavra idéia não muda. Palavras nunca mudam de idéia.” Assim escreve essa cronista que se mantém fiel às tradições do gênero ao inová-lo. “Que não daria eu pela memória de um encontro com Borges que não aconteceu anos atrás”, confidencia num texto. Noutro voa para ainda mais longe da gaiola do formalismo: “A sala do coração tem muitas janelas e duas portas. A que dá para dentro e a que dá para fora. A que dá para dentro está sempre aberta. A que dá para fora vive trancada.” Adriana Falcão tem pleno domínio de um ofício que parece fácil ou então remanesce impossível, que é esse de fazer parecer simples o que de mais complicado há na condição humana. O texto dela mantém portas e janelas abertas nas manhãs de verão para que o ar possa refrescar os porões de nossas almas, mas queima lenho na lareira para lhes aquecer as águas furtadas nas frias noites de invernada. É sempre boa


companhia, como sĂł ocorre com bons escritos â&#x20AC;&#x201C; sejam as crĂ´nicas de antanho, sejam essas de agora.


O show de bola de Adriana Falcão Escritora mostra domínio do ofício em A Comédia dos Anjos, cuja trama envolve um jogador às vésperas da Copa de 58, e em PS Beijei, parceria com Mariana Verissimo SÃO PAULO - O que mais impressiona na leitura de qualquer texto da lavra de Adriana Falcão é a naturalidade gaiata, lúdica e pueril com que ela lida com as palavras. Na crônica esportiva, costuma-se medir a perícia de alguns craques (caso de Ronaldinho Gaúcho, eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa) pela intimidade que eles possam ter no trato com seu instrumento de trabalho, a bola. Diz-se que quem conhece bem a bola a tuteia, enquanto os pernas-de-pau, coitados, maltratam o esférico e o tratam com reverência exagerada, de Sua Excelência para cima. Se há no ofício da escrita algum habitante da Pátria do poeta lisboeta Fernando Pessoa, esta nossa língua portuguesa, alguém a quem a metáfora futebolística se amolda à perfeição é ela. A metáfora esportiva vem a calhar, porque a sra. Falcão elegeu como personagem importante de um de seus novos livros, A Comédia dos Anjos, um ser humano que, presume-se, passeia de chuteiras pelos gramados como se nada calçasse, assim como ela própria não recorre às luvas para armar parágrafos. A ação desse texto hilariante, irreverente e saboroso transcorre em maio de 1958, às vésperas da primeira grande conquista da história desse esporte bretão que consagrou Fio Maravilha e Roberto Dinamite e que deu glória e fortuna a Romário e Rivaldo: a da Copa do Mundo da Suécia. Um mês antes de cair o queixo do mundo com os dribles de Garrincha e os gols de Pelé, uma zelosa mãe morre, mas se recusa a se recolher ao sono eterno para evitar que a filha caia na lábia de um jogador de futebol, prestes a ser convocado para a seleção. A autora não se faz de rogada em esclarecer que a protagonista intrometida é inspirada na própria mãe, já morta, embora ela mesma não possa ser identificada com a filha sonsa e indecisa, cujo coração balança entre o craque malandro e o honesto e malsucedido dono de bar falido, que amanha o empedernido coração materno. VERTIGEM LAPIDAR - A sra. Falcão tem experiência no métier. Em parceria com o marido, João, já escreveu para teatro (o musical


Cambaio, com canções de Edu Lobo e Chico Buarque) e cinema (O Auto da Compadecida) e, em seus vôos-solo, enriqueceu o complicado universo da literatura infantil (Mania de Explicação), se aventurou pelos campos minados dos livros juvenis (Luna Clara e Apolo Onze), parodiou em nossa linguagem cotidiana O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry (A Máquina) e desempenha, com galhardia, a missão de fazer o povo rir na nova versão da bem-sucedida série cômica da televisão A Grande Família, criada por Oduvaldo Viana Filho e Armando Costa. Mas A Comédia dos Anjos vai muito além de um trabalho bem feito por um profissional que domina a carpintaria de seu ofício. Seu texto, curto, vertiginoso, original e lapidado como uma pedra faiscante é a prova de que rir pode ser a atividade mais inteligente do homem. E que diversão e boa literatura não se excluem, como prova este livro leve e solto. Nisso é confirmado por outro, PS Beijei, escrito por ela em parceria com Mariana Verissimo, filha (de Luis Fernando) e neta (de Érico) de grandes artesãos da prosa em português. Adriana Falcão é internauta de carteirinha, viciada até a medula no intercâmbio verbal via internet e, com a mesma facilidade com que inventa histórias impressas, salpica as frases na telinha do computador como se fossem varinhas de condão com estrelinhas na ponta, seduzindo o leitor com seu estilo gaiato, ágil e acelerado. Mariana e ela criaram Bia e Lili, duas adolescentes em cuja correspondência por e-mail compartilham as delícias ainda não testadas, mas já imaginadas, de um beijo e as expectativas de prazer e emoção das festas que podem levar a esse sonho de consumo. O PRAZER DA VELOCIDADE - Este outro livro, de leitura ainda mais rápida e digestiva que o anterior, é um excelente exemplo de como a linguagem dos escribas da rede internacional de computadores pode enriquecer o estilo literário sem agredir a língua nem provocar arrepios de indignação nos cultores dos cânones gramaticais. As autoras executam com habilidade a tarefa de contar a história a que se propõem sem trair os códigos e posturas das personagens, mas também sem confundir o leitor com a barafunda profusa de seus códigos secretos que impediriam a compreensão do enredo. Com a devida vênia pelo eventual exagero da metáfora empregada, eis um livro que é uma delícia de ser lido.


Enquanto A Comédia dos Anjos leva o leitor ao paroxismo do riso, a ponto de lhe furtar o fôlego, alterando-lhe o ritmo da respiração, portanto, e assim atendendo a uma das exigências da boa prosa, tal como enunciadas pelo craque colombiano Gabriel García Márquez, PS Beijei reproduz o apreço da juventude pela velocidade sem tropeçar em clichê nenhum. Em ambos os textos, a superficialidade aparente é apenas um jeito diferente, inteligente e interessante de ser profundo.


A boda da precisão com a graça Prefácio do livro Zôo imaginário de Sérgio de Castro Pinto São Paulo: Escrituras, 2005

Certa vez, atendendo a honroso convite feito por meu amigo José Paulo Paes, participei do júri do Prêmio Bienal Nestlé de Literatura, na seção poesia. Chegaram a minha casa tantas caixas de produtos da multinacional que minha mulher chegou a imaginar que estaríamos sendo premiados por algum motivo especial. Ou, então, eu é que estaria a ponto de abrir alguma revenda de laticínios e outros produtos comestíveis. Na verdade, as caixas continham carradas de originais de poesia para meu julgamento. Foi um trabalho insano para o qual me faltavam tempo, paciência e preparo. No entanto, terminei me saindo dele galhardamente, e por um motivo inesperado: era tão absurdamente baixo o nível médio dos concorrentes que não se fazia necessário ler mais que o primeiro poema – às vezes, apenas o verso inicial – para descobrir que não valia a pena seguir adiante. Era somente o caso de parar e devolver em caixas para a empresa fornecedora. Raros foram os que sobreviveram a esse crivo cruel. O resultado é que esse contato direto com a média da produção poética nacional me levou a duas conclusões terríveis: a primeira é que se produz muito mais poesia do que se lê no Brasil. Muitas vezes, os candidatos a poeta sequer se dão ao luxo de ler as próprias porcarias, transferindo-as imediatamente ao leitor, como num gesto autocrítico de náusea. A segunda, não menos intrigante, é que a moda do estro cabralino, que tanto vigor e tanta inovação trouxe à poesia em qualquer língua da metade do século 20 em diante, produziu um efeito colateral negativo: a monocultura esterilizante da austeridade formal estática e estúpida, na qual o rigor do poeta pernambucano se torna uma rigidez estéril, insípida, incolor e, sobretudo, de uma evidente imperfeição, naquela apenas aparente caça desesperada pela perfeição. Não foi mesmo surpreendente? Como é que um poeta maior, original, obcecado pela exatidão e absolutamente genial no manejo da técnica poderia servir de fonte ao deserto formal sem cor nem graça em que afunda a quase totalidade da produção poética brasileira desde Pedra do sono? A resposta não é complicada, ao contrário do que possa parecer


superficialmente. A mediocridade generalizada encontrou na aparente secura cabralina um porto seguro para se abrigar do sol da criação à sombra da mesmice e de um facilitário que navega entre a mera repetição e a pretensão (desprovida de qualquer senso de realismo) da originalidade. À ocasião, o único remédio para o desânimo era enfrentar aquela desolação toda de um bando de eunucos da poesia, fingindo-se de garanhões, com doses homeopáticas de cabralismo de boa cepa, à altura da herança do grande mestre. E percebendo-o para além da aridez da forma na base de seu poder de síntese, no qual o sentido poético não se esteriliza, mas se reproduz. Um bom porto seguro para essa atitude é certamente a obra da “marcaria” do Grupo Sanhauá, no qual se destaca o raro não Marcos, Sérgio de Castro Pinto. O poeta pessoense é o que de melhor se pode servir contra o cabralismo malsão. É epigramático, sem ser enigmático. E um artesão apurado e preciso da palavra no verso em que a imagem salta do escasso, não por falta de idéias, mas exatamente por saber contê-las sem ter de recorrer à enxúndia, recurso de parvos. Sabe-se que o mestre de Castro Pinto, o citado poeta de Recife e Sevilha, cultivou um apreço imenso pela pintura econômica de Miró e uma certa repulsa pela redundância por meio da qual a arte musical apela aos sentidos, impondose ao gosto do ouvinte. O desamor do poeta de Uma faca só lâmina pela redundância fez dele um preciso cinzelador das palavras, o que não o impediu de criar versos musicais – e isso está provado na célebre versão musicada de seu auto Morte e vida severina, da lavra de Chico Buarque. Fosse seu discípulo Castro Pinto pintor, sua obra certamente se identificaria com a de Mondrian. Nesta sua mais recente coletânea, Minha fala dos bichos, ocorre-me chamar a atenção para o apelo monocromático, mas no qual a cor única consegue conter todas as outras, nunca desprezadas, no poema do leão, a juba. Para melhor esclarecer, permita-me o leitor o luxo de citá-lo: “sol de pêlos / ao redor / da cabeça, // a fulva juba flameja: // estrela / de primeiríssima / grandeza!” Aqui chama-me atenção o uso do superlativo como elemento surpresa. A João Cabral, o mestre que celebrou Ademir da Guia em célebre momento poético, talvez ocorresse o chute forte de fora da área de um volante inesperado. Aqui, a ênfase nega a concisão, mas, ao mesmo tempo, a exibe. Ao contrário do mestre, que nega a música, embora a construa, Castro Pinto vai direto ao ouvido do leitor, assumindo-a na linguagem e na metalinguagem. Quando estiver a ler e reler, devagar, como convém, este volume, detenha-se, caro leitor, no primoroso as


cigarras. E perceba a sutileza como o poeta é musical e musicólogo ao mesmo tempo, contudo sem ceder às reverberações do tentador ritmo das palavras. É o caso de adiantar-lhe a leitura recomendada aqui e agora: “são guitarras trágicas. // plugam-se/se/se/se / nas árvores / em dós sustenidos. // kipling recitam a plenos pulmões. // gargarejam / vidros / moídos. // o cristal dos verões.” Nesse poema – em que, curiosamente, a monotonia do canto dos insetos, alcançada pela repetição do pronome oblíquo no primeiro verso da segunda estrofe, remete, de alguma forma ao refrão de Volver a los 17, cantada por Mercedes Sosa - aprecio as quebras rítimicas dos versos que emolduram, únicos, as estrofes centrais, cumprindo no caso o papel da redundância rítmica insistente do Bolero, de Ravel. Voltando à metáfora do parágrafo anterior, dir-se-ia que cumprem o papel daqueles craques lentos apenas na aparência, pois se movem em campo com lerdeza, mas fazem a bola girar com rapidez – caso do citado Ademir da Guia e também de outro, mais recente, o dr. Sócrates Brasileiro. Sendo a girafa um bicho que nos conecta o poeta, meu ídolo há muito tempo, e eu mesmo, pois ambos temos netos chamados Pedro e estamos, no momento em que ele publica seu livro e eu escrevo este texto, em pleno solstício da avolescência, peço vênia para destacar a série que trata do bicho (agora substituído por um sapo também estilizado) que embalava o repouso de meu pequenino (o adjetivo lembra a propósito sua ascendência lusitana) e amado descendente. Além do motivo sentimental, tenho também um de natureza temática, com o qual concordará o autor, pois, não fosse a girafa um bicho poético por definição (que o diga Murilo Mendes), não lhe teria ele dedicado nada menos que meia dúzias de homenagens nesta parca coletânea. Permito-me selecionar duas para voltar ao tema original deste texto e mostrar como a frondosa árvore poética nascida da semente cabralina pode dar flores e frutos a quem saiba plantá-la no lugar certo, sem descuidar de regá-la bem. No poema a girafa (II), Castro Pinto esgrima o epigrama com ironia, sarcasmo e uma meiga memória afetiva, que transporta o leitor aos recantos mais úmidos e agradáveis de sua vida pregressa. Irreverente, sem perder a ternura, e conciso, sem perder a graça, o poema, uma vez mais, falará melhor das próprias qualidades, ao ser exibido diretamente a seus olhos neste espaço introdutório. Então, vamos lá: “a girafa é girassol, / a girafa é de lua, / não gira bem. // é top model, / é audrey hepburn, / olhem o pescoço / que a girafa tem!” Ocorreme escrever amém, uma palavra a mais num conjunto preciso, exato e claro, no qual se ressalta, cristalino, o humor infantil. Desde que o li pela primeira vez, ocorre-me um causo de excepcionais graça e leveza,


protagonizada pela estrela de Hollywood nele citada. Consta que, concluído o filme Breakfast at Tiffany’s/Bonequinha de luxo, a montagem final resultara mais longa do que pretendiam os produtores e um destes resolvera cortar uma seqüência, por inútil – justamente aquela em que a Hepburn cantava, com sua voz pequena de suavíssimo timbre, o tema da fita, Moon river, de Henry Mancini. Do fundo da sala, ouvira-se, então, a voz firme e serena da estrela: Only over my dead body – “só sobre meu cadáver”. Mais que pelo porte longo e esguio, a atriz que virou símbolo de elegância lembra a girafa descrita pelo poeta mercê da improvável firmeza em que consegue se manter no solo, apesar de tão longilínea. Lembre-se o paciente leitor, a quem estou privando o prazer de ler a poesia de Castro Pinto para se perder nestas divagações, que a canção se tornou clássica e o filme encantador por várias seqüências, mas principalmente por esta, que a sensibilidade e coragem da protagonista salvou da tesoura do produtor avaro. Outro poema, a ser destacado da série de seis sobre a girafa, é o terceiro. Minha escolha recaiu sobre este porque, de certa forma, ele se propõe exatamente ao oposto do que o segundo sintetiza para o leitor. Se o reproduzido no parágrafo anterior é uma piada (e uma piada interessante, o que contradiz a tradição das tentativas poéticas do gênero, cujo único valor estético é o de serem breves), o próximo a ser citado dispõe de uma nudez descritiva quase canônica. Nele respira o fundamental conceito cabralino, segundo o qual a palavra não tem valor em si, precisando sempre do sentido por ela atribuído a um dado concreto da realidade, só então se tornando instrumento de emoção e comunicação do autor com seu leitorado. É assim a girafa (III): “entre nefelibata / e autista // - com o pescoço / a se perder / de vista /, // vive nas nuvens e rumina a brisa.” Talvez não seja de todo pretensioso (embora sempre o seja um pouco) lembrar ao prezado leitor que a esqualidez da descrição do animal reforça sua concreção e, mais além, lhe incorpora uma série de indícios que estão no fundo invisível da cena descrita. Pode o observador perder de vista a extremidade superior do pescoço do animal retratado no poema, mas ele não deixará escapar a sua acuidade o impulso crítico que produziu a primeira pincelada verbal. A girafa é, sim, “nefelibata”, vive de ar nas nuvens, mas nunca o poeta que a retrata pode sê-lo: este tem de descer da torre de marfim e da masmorra da contemplação narcísica do próprio umbigo para perscrutar o céu que emoldura o pescoço do bicho, composto do ar que o nutre. Aqui, preparo-me para encerrar esta apresentação, que terminou contradizendo o estilo do apresentado, por ser ela enxundiosa e


sem graça. E o faço antes de ser interrompido, como o fui certa feita numa livraria de João Pessoa, ao lançar meu próprio livro de poemas, Barcelona, Borborema. Como havia prometido a Mané Caixa d´Água lhe passar a palavra após meu discurso, quando parei para respirar, ouvi sua voz firme brotando da platéia muda: “E concluindo...” Concluindo, pois, eu lhe diria que a impressão que a leitura deste livro me causou foi a de estar numa festa, uma boda, o “casamento da raposa com o rouxinol!” Núpcias da sagacidade com a sensibilidade, da precisão com a graça. E, afinal, ufa como diria nosso querido Caixa, tenho dito!


Memórias de um padre, com fé e franqueza

“Eu bem quisera, quando chego a ver-te, / vendo este infame amor, poder negá-lo; / porém logo a razão justa me adverte / de que só há remédio em publicá-lo: / porque do grão delito de querer-te só é pena bastante o confessá-lo.” Com estes versos fortes e pungentes, a bela e avançada Sór Juana Inés de la Cruz, cuja devoção devo a Octavio Paz, autor de dois alentados volumes sobre ela, aborda o dilema cruel do religioso católico que, tendo de amar apenas Jesus Cristo, só pode amar o próximo dele se distanciando e vendo-o como coletivo, jamais como indivíduo. Esse dilema emerge de forma delicada, mas não menos atroz, no texto confessional que vem de ser trazido a lume pelo sociólogo, acadêmico e antes de tudo soldado da Companhia de Jesus Fernando de Bastos Ávila, carioca e quase centenário. No livro A alma de um padre - testemunho de uma vida>, Ávila aborda esse paradoxo, recordando, com recato mas sem remorso, os pouco freqüentes, mas nem por isso menos importantes, episódios de sua vida em que o encantamento estético por uma pessoa do sexo oposto se não o desviou da vocação religiosa foram marcantes a ponto de serem lembrados na idade provecta. Tal abordagem é feita com parcimônia retórica, mas bravura espiritual. Não pode ser desprezível a franqueza de um servo de Deus (e ainda mais com a fama cavilosa que tem a ordem religiosa a que pertence, de missionários mais respeitados pela combatividade que pela ética) - e particularmente de uma geração criada antes dos avanços do aggiornamento promovido nos anos 60 do século 20 pelo Papa João 23. Relato sem hipocrisia - Convém anotar desde já que tal franqueza não se cinge aos conflitos internos provocados pela submissão das ânsias da carne às ambições do espírito, mas também ao convívio, nem sempre fraterno, entre os colegas de opa. O cândido relato do padre Ávila não poupa desafetos nem oculta idiossincrasias. Passa, portanto, a anos-luz de qualquer laivo de hipocrisia. Neste particular, simpatias e antipatias do autor comparecem às lembranças pessoais do autor sem disfarces, nem sequer o da falsa modéstia. Essa característica do texto, além de sua qualidade literária indiscutível e de sua verve contagiante, torna a experiência pessoal de quem o lavrou algo útil a quem o deletra. Neste livro, o leitor encontra o encanto que o dom de escrever confere às memórias de poucos homens


ilustres que se aventuram à difícil missão de falar de si mesmos. Esse dom faltou a Paulo Duarte, de vida relevante, mas narrada sem parcimônia e com enfado, assim como sobrou em Pedro Nava, que, ao recordar com brilho uma vida comum, expôs o gozoso mistério da boa literatura: menos importa a história a contar que o jeito de narrá-la. Recorrendo a exemplo mais remoto e clássico, é ainda o caso exemplar de Joaquim Nabuco, de cuja obra-prima, Minha formação, padre Ávila transpôs o título para um capítulo, reservando-se a um instante de humor, soltando numa notinha de pé de página a sutil (e gentil) boutade: “Joaquim Nabuco me desculpe, se, cem anos depois, me aproprio do título de sua obra imortal.” Revela a anedota mais que sense of humour de quem a criou, a humildade do reconhecimento do pecado (do furto), embora com a atenuante de ser este venial, tornando-se, então, paradoxalmente quase uma virtude. O pecado da pobreza - Paradoxo e pecado mortais na edição deste original livro de memórias, no qual um diário remoto é anexado ao fim de cada capítulo recém-escrito, é o de sua pobreza. A capa, com as duas mãos em súplica dirigidas a um bólido solar, lembra aqueles folhetos tão bem-intencionados quanto mal realizados graficamente distribuídos aos fiéis nas missas de domingo. A diagramação é mais coerente com a capa modesta que com o nível do texto. E a revisão podia ter sido bem menos negligente. É um pecado, que a Edusc, com as bênçãos da Academia Brasileira de Letras, tenha criado, com essa amadora displicência editorial, um obstáculo entre o leitor comum e a obra. Restam-nos a fé e a esperança paulinas de que o leitor, acautelado, releve tais defeitos e tome conhecimento de um texto de alta qualidade literária, muita decência e grande respeito - virtudes raras no cenário conturbado e grosseiro de nosso mercado editorial. A alma de um padre - testemunho de uma vida, de Fernando Bastos de Ávila, Edusc e Academia Brasileira de Letras, 2005, 414 pp. © O Estado de São Paulo, domingo, 27 de fevereiro de 2005.


Esta pistola de disparar palavras

O jornalista Reinaldo Azevedo é uma exceção em sua classe. Ele não se deixa ofuscar pela luz dos holofotes e resgata dos porões escuros para onde são relegados pelos jardineiros do óbvio acomodado flores belas e perfumadas da arte e da cultura e temas do cotidiano da política e da economia condenados pelos parasitas do ódio à diversidade e à clarividência. Este livro contém parte de seus textos produzidos para as revistas Bravo e Primeira Leitura em que sua erudição, rara num ambiente onde se acumpliciam a ignorância e a arrogância, é distribuída sem parcimônia a quem se interessar em adquirir conhecimento. Seu espírito tolerante denuncia o totalitarismo rastaqüera e suas formas de dominação, que vão do sociologismo da crítica literária à prepotência travestida de bom mocismo no convívio social e nas relações políticas. Estes textos, na periodicidade perecível das revistas ou nesta precária reunião em livro, são leitura obrigatória para quem não aceita passivamente o orgulho que os parvos sentem da própria estupidez nem o jugo à banalidade e à vulgaridade no mercado de pulgas do “bundalelê” vendido como papa fina pela cultura populista submetida aos piratas do capitalismo selvagem travestido de demagogia socialista nem muito menos a esterilização das instituições pela tacanha severinice petelha vigente. Não há lugar comum nem patrulha que lhe escapem à lâmina afiada do anátema preciso, impiedoso e procedente. O admirador da prosa enxuta e exata de Graciliano Ramos não perdoa o modismo que entroniza a obra barroca e deslumbrante, mas pouco lida e ainda menos absorvida, de Guimarães Rosa (a coincidência das iniciais dos nomes dos grandes escritores brasileiros torna a polêmica mais instigante) no altar-mor das letras pátrias. Sua notória preferência por anti-heróis leva-o a comparar nosso romântico precoce Álvares de Azevedo com Arthur Rimbaud... e dando vantagem a nosso poeta sobre o francês. E essa vocação de navegador contra as correntes o conduz a corredeiras de grande risco, como as que enfrenta ao exumar o cadáver insepulto do extinto ainda jovem poeta piauiense Mário Faustino, contrapondo sua obra fina e fecunda, ainda que quase anônima, contra a esterilidade ululante da vanguarda concretista paulista, que leva ao delírio os basbaques fanáticos de pirotecnia fátua. Da mesma maneira como delata, sem medo de contrariar interesses cristalizados da intelligentsia cult, preconceitos sólidos, caso do nunca


justificado a contento “pré-modernismo” que condenou um gênio como Monteiro Lobato a uma espécie de purgatório: entre o Paraíso da jeunesse dorée da Semana de Arte Moderna e o Inferno a que foram cruelmente relegadas jóias da literatura parnasiana por preguiça, comodismo e falta de caráter (aqui não no sentido “macunaímico” do termo). O autor deste livro é um agnóstico contra igrejinhas literárias, um inimigo anarquista da ordem estabelecida de quem chafurda o pântano do poder político e cultural (que antes prometia drenar). E um cowboy justiceiro, que usa sua pistola de repetição de argumentos balísticos para executar a cretinice reinante no universo de “amém, sim, sinhô” da academia estruturalista e da imprensa semi-alfabetizada, que faz do besteirol marqueteiro de Michael Moore signo da sã rebeldia. E também para trazer de volta ao reino dos vivos reputações assassinadas pela mistura de ignorância e má-fé que tornou um cineasta como Walter Hugo Khoury vítima fatal da própria competência. A alma de um padre - testemunho de uma vida, de Fernando Bastos de Ávila, Edusc e Academia Brasileira de Letras, 2005, 414 pp.


Em defesa da língua materna A cada 15 dias perde-se uma língua. “Já vai tarde”, dirão os que temem a repetição da Torre de Babel e os apóstolos da globalização cultural Este profissional da língua que lhes escreve tem sido convocado amiúde para participar de debates com professores de literatura e gramáticos e neles se tem situado na isolada posição de defensor dos cânones, quase sempre tratados nesses encontros como autênticas teias de aranha. Sente-se ele, então, um crítico de arte que, além de não aceitar essas instalações que pululam por aí só considera válidas pinturas rupestres. Num desses encontros, na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), um colega, Rodolfo Konder, contou ter lido em algum lugar que, embora tenha crescido muito de então até nossos tempos, a humanidade, que já falou 150 mil línguas diferentes, hoje se expressa em apenas 6 mil. A cada 15 dias, segundo Konder leu em tal relato, perde-se uma língua. Já vai tarde, dirão os que temem a repetição do fenômeno bíblico da Torre de Babel, os apóstolos da globalização cultural e os entusiastas do esperanto, entre outros profetas desse Apocalipse. Ocorre, porém, que quando uma língua some desaparecem com ela as lembranças de uma raça, a cultura de uma tribo e a memória dos contatos primitivos de um povo com a civilização. A língua materna é repositório de saber e expressão de sentimentos. Belo texto do escritor argentino Juan José Saer a Folha de S. Paulo publicou no último domingo de Carnaval mostrando que as grandes obras da poesia universal não foram escritas em algum idioma nacional, mas sempre na língua original, aquela que o autor bebera no regaço materno nos anos formadores da primeira infância. E muitas dessas línguas, que estão em franca extinção, agonizam aqui mesmo no Brasil, ao alcance de nossos ouvidos desatentos. Sim, mas não o português, dirão os idiotas do óbvio. De fato, os dialetos agonizantes em nosso território são remotas manifestações toscas de povos primitivos que se extinguem juntamente com elas e as florestas onde vivem. Nada a comemorar. Infelizmente, do ponto de vista pragmático, também há não muito a lamentar. A última flor do Lácio – Quanto ao português, idioma nacional e língua materna comum à acachapante maioria de nossa população, ele passa bem, obrigado, embora vez por outra vilipendiado por algum político


ignorante, professor populista ou escritor petulante. Um cultivador do óbvio ululará: a língua de Camões não está em vias de extinção, mas apenas se transforma, em estado de mutação permanente, e se amolda, afina, aos interesses do povo que a fala, liberta dos cânones elitistas que a agrilhoavam. Só que nosso vernáculo é debilitado por três moléstias gravíssimas. A primeira é a autodepreciação. Ela se manifesta no verso mais famoso em que nela mesma ela foi cantada: “última flor do Lácio, inculta e bela”. Olavo Bilac, príncipe dos parnasianos, que perdoe, mas “inculta” a língua de Camões, Eça e Machado? Vamos e venhamos: “inculto” é o latim vulgar em que se escrevem a quase totalidade dos anúncios publicitários e das notícias dos jornais e até alguns romances badalados pela crítica estruturalista de nossos tempos – verdadeiras instalações em tinta sobre papel. Nada inculto e muito belo, contudo, é o instrumento de trabalho de escritores como os gênios acima citados, Euclydes da Cunha, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, que infelizmente não estão mais em condições de combater o bom combate da defesa dele. Tropeçando na língua de mamãe - Está certo que muitas vezes a língua inculta e nada bela que atrás dele se esconde ganha legitimidade acadêmica. O mais premiado romancista brasileiro contemporâneo, Bernardo Carvalho, professa seus princípios disformes, levantando a poeira dos aplausos da crítica, com Luiz Costa Lima na comissão de frente. A obra vertida para as imagens da televisão de Márcio de Souza, um fabulador extraordinário, mas um trôpego construtor de frases, também se inclui na galeria dos discursos oficiais lavrados em formas toscas e muitas vezes torpes. Fernando Collor, de ofício jornalista, consagrou em seus pronunciamentos oficiais o uso errado da palavra “penalizar” no sentido de punir, apenar, quando só poderia significar ter pena, ter dó. Nesse particular, o atual chefe do governo tem exagerado no fornecimento de tropeços na língua aprendida da mãe, que ele tanto venera. Um dia destes, perpetrou: “a gente tem que ser gentis”. Poder-se-ia dizer que poderia ter sido pior se ele tivesse dito: “a gente temos que ser gentil”. E deve ter pensado nisso o professor Pasquale Cipro Neto ao registrar o vernáculo rotineiro dos incontáveis pronunciamentos públicos de Luiz Inácio Lula da Silva como “correto”. Não é, aliás, o único a fazê-lo. Num debate travado no auditório da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, um professor da USP, rebatendo uma brincadeira que o autor destas linhas fez com a mania do presidente de flexionar advérbios – usando palavras inexistentes como “menas” -, argumentou que o Conde


(promovendo o pobre visconde a um grau maior de nobreza) Almeida Garrett já o fazia. Não restou a este polemista recurso além do de garantir que não foi nos textos de Garrett ou de qualquer outro clássico da língua que Sua Excelência se inspirou para criar seus “neologismos”. Sendo monoglota, o atual presidente da República, contudo, nos tem poupado pelo menos do vexame que muitos de seus antecessores nos impingiam falando línguas estrangeiras. Embora seja um escritor de recursos para lá de razoáveis em português, José Sarney produziu pérolas inesquecíveis em seu “portunhol” capenga – dialeto inexistente ao qual o citado Fernando Collor deu contribuições inestimáveis, como o celebre “duela a quien duela”. E mesmo o fazendo por falta de instrução adequada, Lula pelo menos não repete aqueles espetáculos de caipira complexo de inferioridade explícito de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, que adorava exibir seus dotes em inglês e, principalmente, em francês, mesmo não tendo o português muito castiço para se expressar com correção. A tal da língua brasileira – A citação supra de Mário de Andrade vem a calhar, pois ele é uma espécie de padroeiro de uma tal de “língua brasileira”, outro modismo universitário e manifestação da segunda doença de que a “última flor do Lácio” tem sido acometida em nossos dias: a descaracterização. O autor de Macunaíma assinou obras de grande relevo na literatura brasileira, mas não conseguiu fixar a grafia peculiar com que tentou diferenciar os lusófonos americanos dos europeus e quiçá africanos. Igual empreitada tentou um gênio do cinema, o baiano Glauber Rocha, e igual insucesso amargou. Pelo simples motivo de que aqui, em Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Goa ou Macau, fala-se um só idioma, que descende do galaico-português. De fato, nem sempre foi assim. Sabe-se que na época dos bandeirantes, o que se mais falava no País era a chamada “língua geral”, que misturava português com o tupi guarani dos moradores originais destes nossos rincões tropicais. A língua da metrópole tornou-se nacional por obra e força da mentalidade tirânica do Marquês de Pombal. Mas até os mais recalcitrantes nativistas haverão de reconhecer que, imposto à Colônia ou não, o idioma que se fala do Oiapoque ao Chuí é o mesmo com que se conversa em Lisboa ou Luanda - aquele que o soldado caolho Luís de Camões inventou na epopéia Os Lusíadas. O populismo elitista de esquerda – Há ainda uma terceira doença, esta talvez a mais grave de todas, a ameaçar o débil organismo de nossa língua culta e linda. É o populismo elitista de esquerda que assola a Universidade brasileira e já ganha foros de legitimidade acadêmica: a


teoria da inexistência do erro e a contestação armada dos cânones gramaticais. Será conveniente dissecar a expressão acima usada. Populismo por quê? Porque pretende dar às formas populares coloquiais de uso comum da língua poderes para predominar sobre as formas cultas, acusadas de elitistas e excludentes. Mas elitista como? Sim, porque o ensino dos cânones gramaticais é a única forma possível de permitir alguém dominá-lo e só assim ter acesso ao amplo e plural universo da língua escrita e impressa. O populismo de quem acusa o cânone de impedir o acesso do pobre ao poder de comunicação dado pela língua é que é excludente, pois nega ao mais humilde a porta de entrada de tesouros de rica beleza encastelados nas bibliotecas. A teoria absurda da inexistência do erro gramatical não apenas dificulta a comunicação pela implantação da algaravia, ou seja, a anarquia total dos significados dados às palavras e locuções. Ela também inutiliza a fortuna artística e cultural e o cabedal de conhecimentos produzidos em obediência aos cânones da gramática. O tônico para debelar os efeitos debilitantes desses três males é um só: a boa língua materna a serviço da melhor literatura. Para essa guerra insana ainda podemos convocar poetas como Maria Carpi, Mário Chamie, Ferreira Gullar e Alberto da Cunha Melo e prosadores como Sinval Medina, Deonísio da Silva, Moacir Japiassu e Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque. E estamos conversados. © Continente Multicultural. Recife: n. 52, abril de 2005.


A maré mansa de Amyr Klink

É breve a vida: começa em pranto e termina em dor. Mas, enquanto dura, é infinita em todas as suas graças e contrastes. A oposição entre os austeros paredões de rocha negra cobertos de neve branca na Antártica e a deslumbrante paisagem tropical de Parati, no litoral fluminense. A diferença entre o desafio da aventura, que o filho de árabes com nome persa Amyr nega, e a capacidade de se organizar para enfrentar intempéries, das quais mais dóem a solidão e a saudade dos entes queridos - que Klink persegue cavalgando ondas tempestuosas ou enfrentando o mau augúrio das calmarias. Não espere encontrar neste DVD produzido sobre as viagens do navegador brasileiro um filme de aventuras: é um documentário terno e manso sobre as belas mulheres que o despertam a cada dia nos períodos de terra firme e o esforço para se manter à flor d’água quando o mundo é só céu, ar e marés. E o manifesto de um homem empenhado em conhecer o desconhecido e conviver com o que a natureza tem de magnífica e terrível. Apresentação DVD. Na revista Viagem


A poesia de Maria Carpi arrebata lá do alto

O amor é um mistério. Não há filósofo, antropólogo ou psiquiatra capaz de justificar por que uma pessoa elege outra para conviver com ela o resto de seus dias (mesmo que nem sempre o consiga) e com esta compartilhar o prazer inteiro e toda a dor, além da excitação e do tédio. A poesia também é misteriosa. O mais culto, o mais sensível, o mais sábio dos críticos literários não é tampouco capaz de elaborar uma receita segura para definir o que é ou não é boa poesia. Um dos poetas e críticos mais equipados para tanto, o extinto José Paulo Paes, se aproximou desse ideal impossível ao encontrar, não uma receita, mas pelo menos uma sugestão para separar o joio da má poesia do trigo da boa. Bom poema dizia ele - é aquele em que o autor relata uma emoção e consegue despertar no leitor uma sensação similar de alegria, saudade ou até melancolia. Como o amor desperta freqüentemente emoções do gênero, é natural que seja tema poético, tanto na melhor manifestação formal como na forma de detrito literário. Se muitos são os candidatos a poetas e raríssimos os escolhidos, os que escrevem sobre essa sensação maravilhosa e misteriosa correm mais que seus colegas os riscos de tal empreitada. A gaúcha Maria Carpi tem enfrentado esse desafio com arrojo e brilho incomuns. Seus livros são normalmente coletâneas de poemas sobre temas específicos, o que torna sua tarefa mais complexa e, portanto, mais fascinante. Quando tratou da fome, por exemplo, ela o fez com uma delicadeza que não a desviou da natural revolta que a permanência desse flagelo desperta em qualquer pessoa minimamente sensível nesta era da alta tecnologia, mas sem concessões ao discurso dogmático das soluções políticas e ideológicas para o drama humano. Da mesma forma, ela resolveu enfrentar os mistérios (gozosos e dolorosos) do amor da forma misteriosa como só a arte de Safo, Gabriela Mistral e Cecília Meireles (uso aqui três sinônimos de alta qualidade na produção poética feminina em várias épocas e várias línguas) pode fazê-lo. O amor, em seu novo livro, As sombras da vinha, não lhe serve de pretexto para vomitar sobre o leitor seu próprio cabedal de angústias e prazeres, que não dizem respeito ao outro. Mas, sim, um tema rico que desperta no outro lado da linha, o olho do consumidor, uma rara sensação de arrebatamento. É isso mesmo: sólida, criativa, impressionante, a arte de


Maria Carpi é arrebatadora e permite a este resenhista o luxo de acrescentar mais um lugar-comum aos tantos que pululam por aí na crítica aparentemente fácil do mais complexo dos objetos selvagens da escrita: o bom poema é aquele que arrebata. Difícil encontrar algo mais próximo e mais definitivo para relatar os efeitos da leitura dessa autora, cujos méritos ainda não foram devidamente reconhecidos nos suplementos literários da imprensa nem pela academia. Abordagem sedutora -Nem essa omissão absurda escapou ao registro do olho atento e arguto dela. “Ninguém percebe os parreirais / pingando entre as safras dos frutos / e a imensidão, entre as safras / da luz e a escuridão”. Perceba aqui, caro leitor, a chave do êxito de Maria Carpi em seu ofício poético: à consciência aguda do engano ela acrescenta imagens exatas e um uso, ao mesmo tempo íntimo e respeitoso, do idioma materno: o melhor vernáculo a serviço de uma sucessão de metáforas perfeitas. Tudo isso é feito no ritmo adequado (assemelhado ao pulsar do coração, tido como músculo propulsor do amor) e num conluio sedutor com o qual a autora transfere a própria sedução, essencial na abordagem amorosa, do leitor incauto. Na poesia de Maria Carpi não há sobras nem aparas. A autora leva a sério a definição que dá no 30º poema da série (que o autor da orelha da obra, Thiago de Mello, na verdade, classifica como um longo e único poema), a da poesia como uma varanda sonora, nunca premonitória: “Os degraus para chegar / à alta copa suspensa pelos ventos.” Tem êxito sua encantadora e encantada aposta em que “a poesia não é o dia seguinte. Mas o sem-fim”. Com seu instrumental nu e simples (a caneta lhe servindo de enxada), esta criadora singular garante seu lugar de destaque nos cumes de uma arte rara, embora não receba o mérito que deveria ter. Na certa, esse reconhecimento não escasseia pela incapacidade de sua obra atingir o lugar alto a que se propõe chegar, mas, sim, pela falta de fôlego de uma crítica incapaz de seguir sua trilha até o topo aonde ela vai. As sombras da vinha, de Maria Carpi, Bertrand Brasil, 2005. © O Estado de São Paulo, domingo, 15 de maio de 2005.


As várias faces de Bronstein, vulgo Trotsky

Acaba de ser relançada no mercado brasileiro uma biografia, não um livro, mas um tour de force, que fez a cabeça de uma geração inteira dos comunistas rebeldes que nunca aceitaram a truculência stalinista e sonhavam com uma tirania operária esclarecida, sob o comando de um dândi ao mesmo tempo sofisticado e implacável. É o conjunto de três calhamaços contando a saga do revolucionário russo Lev Davidovitch Bronstein, vulgo Trotsky (pseudônimo tomado de seu carcereiro), escrita por Isaac Deutscher e publicada no Brasil pela Civilização Brasileira, num gesto de independência digno de nota para sua época, pois seu tema era mais que um proscrito tido como traidor, cujo nome era um anátema para quaisquer revolucionários alinhados com o Comintern. Orador apagado dos registros fotográficos da Revolução de 1917 e polemista eliminado à distância pela frieza calculista do camarada que virou desafeto, o profeta de Deutscher (armado no primeiro volume, desarmado no segundo e, finalmente, banido no terceiro) passou a significar depois desse livro o sonho de uma miragem que poderia ter sido, mas terminou não sendo: a utopia da generosidade solidária que se tornou brutalidade estúpida sob o tacão das botas do georgiano. De certa forma, embora não fosse belo nem charmoso como o argentino, e por isso sua efígie não tenha sido usada em camisetas e bótons, o judeu russo de origem na classe média alta, que se aliou aos mencheviques antes de se meter na aventura do putsch bolchevique que derrubou o socialdemocrata Kerensky, antecipou em meio século o mito de Che Guevara. Frio, bruto, temerário - Como o instaurador do “foquismo” nos anos 60, que ajudou o advogado cubano Fidel Castro a derrubar o sargentão Fulgencio Batista, o inimigo público número um do “socialismo num só país” e defensor da “revolução permanente” considerava a comiseração um vício pequeno-burguês. Na guerra civil contra os saudosistas do czarismo apoiados pelas potências ocidentais, foi um comissário-chefe implacável no comando do Exército Vermelho, construindo uma lenda de disciplina numa poça rubra de sangue. Assim como o Che nunca hesitou em ordenar pessoalmente a execução de qualquer guerrilheiro que tentasse escapar das rígidas diretrizes que ele traçava. O intelectual habituado ao manejo das palavras, sendo autor de textos que distam milhões de anos-luz das canhestras tentativas de


redação de seu inimigo georgiano (caso de seu tratado Literatura e revolução, por exemplo) foi também, como Guevara, um gestor e um político inábil e incapaz. Assim como este, não teve competência nem paciência para gerir o Estado assaltado pela “vanguarda do proletariado”, deixando o controle da militância do Partido Comunista e da máquina estatal herdada dos czares ser controlada pelo inimigo que, contrariando todas as suas expectativas, logo o sufocaria politicamente e o estrangularia, chegando a eliminá-lo fisicamente. Expurgo avant-la-lettre - É interessante que a trilogia favorável de Deutscher seja ora relançada no mercado editorial brasileiro juntamente com dois livros que não trazem uma imagem tão hagiográfica do companheiro de Lenin nos idos de 1917. Em seu livro Um cadáver ao Sol, a ex-militante da luta armada brasileira Iza Salles ressuscitou um episódio nada lisonjeiro para Trotsky. O livro narra a forma como um dos representantes do então recém-fundado Partido Comunista do Brasil, o ex-anarquista niteroiense Antônio Bernardo Canellas, foi eliminado sem direito de defesa de seus quadros por haver ousado discordar publicamente de um discurso do então ainda figurão do PCUS Leon Trotsky no 4º Congresso da Internacional Comunista em 1922, em Moscou. O brasileiro foi, então, um pioneiro dos expurgos, tática de que Stalin abusaria sem dó contra os aliados daquele seu antigo camarada que virou inimigo. Outra visão interessante (e também, é claro, oposta à divulgada por Deutscher) é a do estadista britânico Winston Churchill no perfil Leon Trotsky, aliás Bronstein, que consta de seu livro Grandes homens do meu tempo, também recém-lançado. Comentando um artigo que o revolucionário russo escreveu para o John o’London Weekly, este seu contemporâneo traçou um perfil, não apenas dele, mas também da doutrina marxista de se aproveitar das liberdades democráticas para, depois, imolá-las, a que ele Trotsky sempre se submeteu. Segundo Churchill, este “possuía, inatos, todos os atributos exigidos pela arte da destruição cívica: o comando organizador de um Carnot, a fria e distante inteligência de um Maquiavel, a oratória de massa de um Cleon, a ferocidade de Jack, o estripador, e a dureza de Titus Oates. Nenhum resquício de compaixão, nenhum sentido de solidariedade humana, nenhum temor espiritual enfraqueceu sua elevada e infatigável capacidade de ação. Qual um câncer, cresceu, nutriu-se, torturou, matou para satisfazer sua natureza”. Seduz pensar que Salles e Churchill não chegam propriamente a negar Deutscher. Apenas o complementam, compondo uma figura menos santa, mas mais verossímil.


Š Caderno Cultura de O Estado de S. Paulo, domingo 29 de maio de 2005, pågina D2.


Na poesia de Marina Colasanti, a força da delicadeza

A revista americana e especializada em jazz Downbeat tem uma tradição louvabilíssima, o teste da cabra-cega”: seus editores mandam uma gravação qualquer para um crítico, músico ou aficionado opinar sem que este tenha a mínima informação sobre quem o esteja tocando. Esse teste permite que a opinião saia pura, como água de moringa, sem a contaminação da fama, da imagem ou do prestígio do alvo da crítica. Foi numa situação dessas que chegaram a meu e-mail alguns poemas de um autor não identificado pelo remetente, o editor José Mario Pereira, da Topbooks. O material era de primeiríssima qualidade - e isso era possível de sacar à primeira leitura. No universo dos epígonos, o autor desconhecido mostrava uma originalidade impressionante, quase lancinante, em versos como estes: “Gosto de poema / que fala de ovo frito / latido de cão / e cheiro de queimado”. Pode ser que o prezado leitor já tenha lido algo parecido, mas há-de perdoar este escriba aqui, que não tem a mesma felicidade de tropeçar com freqüência numa sinceridade assim tão flagrante que chega a ser pungente. Este poema, aliás, merece ser reproduzido na íntegra, como o é (depois eu saberia) na contracapa do livro (lançado pela Record, com a coragem que deve ser louvada e reconhecida a quem se arrisca a editar poesia num mercado viciado pela auto-ajuda): “Poema que com pequenos cortes / vara as coisas pequenas / fura a casca / o odre / rasga a placenta / e deixa gotejar / o fino / sangue”. Leve suporte - Pois é, amigo leitor, aí está uma definição que vale por um manifesto. Pois o autor, ou melhor, a autora, Marina Colasanti, só vende o que produz e só entrega o que promete. Sua poesia, que já havia arrebatado um prêmio Jabuti (da Câmara Brasileira do Livro) com Rota de colisão, volta agora revitalizada pela prática competente e cotidiana da escrita profissional (da cronista e da contista), com uma franqueza, cuja força repousa, paradoxalmente, na delicadeza. Arte do contraste por excelência, a poesia é o meio desabrido de ser que a autora encontrou para falar da leveza que suporta o peso da obra humana inteira.


O adolescente francês Arthur Rimbaud confessou ter perdido a própria vida por delicatesse. O olho de Marina observou e sua língua expressou o paradoxo sem nexo da fraqueza que se impõe à truculência nos versos ascéticos e ágeis de “Modigliani desenha”, sobre as cariátides esculpidas nos frisos do Partenon: “Mas se eu dissesse: / lápis / traço / e acrescentasse / a levíssima mão de Modigliani / então sim / eu teria essas mulheres sustentando o mundo”. Forte doçura - Esses versos são francamente feministas, não são? Mas a autora conhece também os mistérios da força da doçura feminina, ao registrar a submissão que conquista em estrofes boas de cantar, como a segunda de “Sim, mas também” (belo achado de título, não é mesmo?): “Porque é meu amor / em qualquer lugar / onde ponha a mão / toda me estremece”. E nos versos com que inicia “Aberta frincha”: “Há tempos não abraço meu amado / com essa alma aberta / mais que os braços. / O corpo dele é tão parelho ao meu / que às vezes quando o envolvo / nos meus braços / é como se em meus braços / me abraçasse”. Ela não tem pudor de contar o que vê quando a paisagem que contempla são pele, músculos, pêlos e mucosas que pertencem à própria carcaça corporal: “vejo ao longe a montanha emoldurada / pela encosta das coxas / canyon talhado em luz / que se aprofunda / na escura sombra do púbis” (“Pela janela aberta”). Como aquele “último romântico” da canção popular, ela não doura pílulas. Para dizer certas coisas - registra, sem temor, no poema “Outras palavras”: “são precisas / palavras que nascem com / aquilo que dizem / palavras que inventaram seu percurso / e cantam sobre a língua”. Assim é o mapa traçado por esta oásis num deserto poético em que se perdem o rigor formal e a frouxidão da libertinagem sem medida: ora são mágoas que remanescem nas reminiscências, ora flagrantes da beleza fugaz de um instante prosaico qualquer suas palavras, sempre um drible no lugar comum, um gol marcado contra a mesmice, a burrice e a sem-vergonhice. Melhor dizendo, para não fugir ao que ela mesma deixou inscrito no último verso deste último poema citado: “precisas palavras que amanhecem”. Melhor definição seria difícil achar para o livro inteiro: a aurora rompendo a treva da noite, o frescor do orvalho de uma manhã que se inaugura, um novo ânimo, um novo ímpeto, uma vida nova. © O Estado de São Paulo, domingo, 10 de julho de 2005.


A poesia universal e atemporal de Affonso Dois episódios recentes dão muito bem as dimensões da universalidade e da atemporalidade deste gênero por excelência de literatura que é a poesia. Quando ainda assinava uma coluna no suplemento semanal sobre livros do jornal carioca O Globo, o poeta e crítico mineiro Affonso Romano de Sant’Anna escreveu alguns textos antológicos sobre a viagem que fez ao Irã, tendo tido a oportunidade de conhecer a Pasárgada original dos persas e visitar o túmulo do grande guerreiro conquistador Ciro, do qual reproduziu para seus leitores, a grande maioria dos quais jovens sequiosos por novidades e curiosidades, o dístico filosófico e profundo que serviu de epitáfio ao imperador: “não lamente, oh mortal, / aquele que aqui jaz / pois ele fez tudo o que fez / e reinou na guerra e paz”, na tradução de Affonso, inserida em seu poema Pasárgada (in Vestígios, Rocco). Ao lê-lo, a primeira lembrança que me ocorreu foi do clássico soneto Ozymandias (nome grego de Ramsés) de Percy B. Shelley, o nobre gênio da poética inglesa, no qual o marido de Mary, imortalizada por seu romance Frankestein, atribuiu ao Faraó o desaforo: “Olhem para minha obra, seus poderosos, e se desesperem!” Entre os sábados em que esses textos foram publicados e este domingo muita água passou por debaixo das pontes, mas a dura verdade transmitida pela experiência de Ciro e Ramsés viajou pelo globo terrestre e pelos séculos, passando por Shelley e também por Manuel Bandeira, um dos maiores criadores de poesia no Brasil em todos os tempos e de quem sobrevive o genial poema que adota a cidade persa de Pasárgada como tema: “Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei”, certo? Passaram também pelos computadores de vários brasileiros, como Bandeira e Sant’Anna, um poema da lavra deste, vergastando a mentira como prática padronizada (infelizmente) na condução dos negócios públicos no Brasil. Escrito na gestão do general Figueiredo, canto do cisne da ditadura militar, contra a qual o poeta militou, os versos parecem tratar do Brasil contemporâneo, onde gestores públicos acusados de corrupção, chamados a se explicar nas CPIs congressuais, apelam, sempre com sucesso inexplicável, à Justiça para que esta lhes garanta o direito de... mentir. É muito representativo – e o preclaro leitor vai permitir a este escriba mais esta licença crítica – que felizmente este País, em que se recorre à


Justiça, sempre com sucesso, para insultar o distinto público com o direito de faltar à verdade, esta compareça, de forma indelével e elegante, nos dois volumes editados pela L&PM da Poesia reunida (de 1965 a 1999) do jornalista que foi a Pasárgada e visitou a última morada do conquistador da Ásia antiga. Que também é um scholar respeitável, um professor de talento reconhecido e apregoado e, sobretudo, um dos críticos mais equipados nesta língua de Camões e Machado. Naufrágio na margem - Já é a segunda vez em que se reúne a poesia completa de Affonso Romano de Sant’Anna. A primeira foi em A poesia possível (Rocco, 1987). Uma coletânea de seus Melhores poemas foi incluída na competente e oportuna coleção da Global Editora. Certamente, sendo o poeta prolífico e jovem, outras reuniões e antologias virão a lume, coisa mais que oportuna necessária neste Brasil de poetas demais e leitores de poesia de menos. Conservado seu estro, mantido seu sucesso, inesgotado seu brilho de professor e exegeta, nós, seus leitores, ainda seremos premiados com excelentes oportunidades reservadas a alguns poucos eleitos, uma bênção também para seus colegas menos aquinhoados, pois um poeta que se edita num mercado em que a poesia fica à margem lutando, ainda assim, contra alguma oportunidade de naufragar, a oportunidade que um grande tenha será sempre uma chance para o menor. Tristão de Athayde, o mais festejado dos críticos literários do Brasil, viu em seu colega mais jovem o oposto do portenho Jorge Luís Borges, que se trancou numa torre de marfim para produzir uma obra poética inefável e sem dúvida bela, mas também percebeu entre os dois uma semelhança que os irmana: a capacidade de ser universal, de pertencer ao “planetarismo poético”, que cada um deles tinha e tem. No exíguo espaço que me cabe para falar de obra tão completa e vasta, peço vênia para citar os derradeiros versos de seu poema Que país é este?, que escolhi para figurar na antologia Os melhores poemas do século 20, que organizei para a Geração Editorial em 2001. “Povo / não pode ser sempre o coletivo de fome. / Povo / não pode ser um séqüito sem nome. / Povo / não pode ser o diminutivo de homem. / O povo, aliás, / deve estar cansado desse nome, / embora seu instinto o leve à agressão / e embora / o aumentativo de fome / possa ser / revolução.” Assim se faz a melhor poesia: com militância, mas sem concessões.


Fagundes Varela, o cachaceiro romântico Antonio Carlos Secchin, poeta, crítico, membro da Academia Brasileira de Letras, autor de João Cabral: a poesia do menos, que está a merecer um relançamento, presta inestimável serviço à memória de seu colega na poesia e conterrâneo romântico - ambos nasceram no Rio - Fagundes Varela. Vítima do pouco caso dos críticos e historiadores, por conta de um capricho cronológico (sua obra ficou espremida entre o fulgor dos antecessores Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo e Gonçalves Dias e o genial clamor de seu sucessor Castro Alves), passou a pairar num limbo em que a glória alheia ofuscou o próprio brilho, fazendo com que os desavisados o julgassem de pouca intensidade. No entanto, seria uma injustiça reduzir o artífice do Cântico do Calvário, que nos habituamos a recitar nas festas escolares, ler nas antologias ginasiais e analisar sob as ordens severas dos professores de português, à condição de mero versejador de salões e tribuno panfletário, que recorria aos versos para melhor pregar suas idéias politicas, antecipando o baiano Antônio Frederico de Castro Alves na labuta abolicionista. O que Secchin acaba de fazer é digno de nota. Convidado por Edla Van Steen para selecionar e apresentar uma antologia de seus poemas para a coleção Melhores poemas, da Global Editora, o poeta e crítico carioca partiu do pressuposto oposto, ao “perceber na sua poesia a mais complexa construção literária do romantismo”. E descobriu no maior equívoco atribuído pelos críticos a Varela - o afã de não deixar tema algum com que tropeçasse fora de seus versos - a virtude maior de corporificar nesses excessos (“em grau máximo”, como destaca na original e provocativa introdução que escreveu) “a tensão entre a vivência inexorável da precariedade e a sede inextinguível do absoluto”. Os escravos e o mestiço - Para dar ao leitor conhecimento, de forma organizada e clara, da variedade espantosa, mas nem por isso anárquica, do estro de Varela, Secchin não escolheu a trilha batida da seqüência cronológica, optando por situar os poemas que selecionou em oito temas recorrentes: a musa cívica, quem sou?, em busca do Cristo , em nome do amor, cidade versus campo, paisagens, a poesia no espelho, a morte e depois.


No primeiro item, destaque-se seu libelo contra a ignomínia escravagista (“A escravidão não cinge-se unicamente aos ferros! / Há uma inda mais negra, a escravidão dos erros!”, em Aspirações), antecipando a pregação condoreira de Castro Alves, com uma lucidez digna de ser lavrada nos melhores discursos de Joaquim Nabuco. E a saudação entusiástica ao mestiço mexicano Benito Juarez, símbolo do sonho da liberdade e da autonomia do povo (“Juarez! Juarez! em toda a parte / Teu espírito vaga!...”, em Versos Soltos) soa premonitória às palavras de ordem da revolta que eclodiu um século após sua morte em lemas como “É proibido proibir” ou, mais diretamente ainda, “Elvis vive”. O precursor de Castro Alves e dos jovens zangados dos anos 60, também foi beatnic avant-lalettre vagando por aí ao léu, sempre com uma garrafa de cachaça e sem profissão definida (a vida toda foi sustentado pelo pai). Poucos colegas puderam como ele vivenciar a inadaptação completa a uma rotina burguesa e levar às últimas conseqüências a vocação “maldita” da poesia. A musa no espelho - Infeliz nos dois casamentos - com Alice Luande, filha do dono de um circo, e com a prima Belisária -, Varela viu dois de seus filhos morrerem antes de completarem um ano de idade. E teve na própria vida motivos para decretar: “O exilado está só por toda a parte!”, no último verso de cada estrofe de O exilado, um dos poemas selecionados por Secchin entre os que compõem a significativa parte auto-reflexiva de sua obra. Em outro da mesma série, Noturno, o vate comparou a própria alma a uma “douda que dança / Sem mesmo guardar lembrança / Do cancro que rói-lhe o seio!” Há, também, em sua obra lírica uma pureza de cristal sem jaça, refletida em versos como os desta estrofe de Estâncias: “O que eu adoro em ti, ouve, é tu’alma / Pura como o sorrir de uma criança, / Alheia ao mundo, alheia aos preconceitos, / Rica de crença, rica de esperança”. E uma enorme capacidade de calar fundo na emoção do leitor, falando da própria, como na abertura do pungente Cântico do Calvário, dedicado à memória do filho morto a 11 de dezembro de 1863 e o mais célebre de todos os seus poemas. Quem não turvou a voz ao ler ou dizer de cor “Eras na vida a pomba predileta / Que sobre um mar de angústias conduzia / O ramo da esperança. / - Eras a estrela / Que entre as névoas do inverno cintilava”?


Louvados sejam Secchin e a Global por resgatarem um poeta da altura e da força do romântico Fagundes Varela nesta era da insensibilidade crônica e do imediatismo consumista e comodista burguês. © Fagundes Varela - Melhores poemas - seleção de Antonio Carlos Secchin, Global Editora, 2005.


Do Atlântico dos argonautas ao Mercosul de hoje Alberto da Costa e Silva é um portento. Diplomata, historiador e especialista em África, que conhece bem, como profissional das negociações externas e observador das relações humanas, herdou do pai, Da Costa e Silva, o estro poético e como ele está entre os maiores, os melhores. Freqüentador de arquivos, habituou-se a decifrar documentos no mister paciente de garimpar a verdade soterrada sob pó e fungos. Além disso, é um leitor devoto, um crítico agudo e um apreciador da arte da escrita impressa. É nesta condição que lança agora um novo livro, não mais uma coletânea de poemas ou a biografia de um mercador de escravos negros, mas a seleta de comentários eruditos, leves, irônicos e precisos sobre livros que espicaçam a curiosidade de traficante de emoções e saciam a fome peregrina de investigador de vícios e virtudes de nosso débil gênero humano. Principia Das mãos do oleiro - aproximações com uma descrição do que era o Oceano Atlântico no século 15, às vésperas das grandes descobertas, e de como acabou por se transformar na via de mútua penetração de um mundo que se renovou naquele outro, que antes para ele nem sequer havia. Era, primeiramente, mais que uma massa de água em movimento, a melhor metáfora para o desafio do ignoto. Deixemo-lo descrever em seu estilo despojado e simpático: "O Atlântico era uma vasta área mítica, cujos se limites se desconheciam, cheia de monstros e maravilhas. E, a contrastar com o Mediterrâneo e com o Índico, percorridos incessantemente pelos barcos do comércio, um mar quase vazio". O pélago! Depois, contudo, se transformaria no agente de renovação do Velho Mundo e maturação do Novo. Processo descrito com precisão pelo autor: "A América infiltrava-se na Europa, e a Europa começava a se prolongar na América". O luar de Vila Rica - Europeu americanizado, o colega de ofício de Costa e Silva Tomás Antônio Gonzaga, enquanto poeta e não enquanto inconfidente, é claro, emerge nas páginas do livro apresentado pela obra de Adelto Gonçalves, reinventor do rebelde de Minas e reconstrutor da história do degradado em Moçambique. Nessa resenha, o africanista se superou nas habilidades de fornecedor de água fresca em caneco de segunda mão, repassando ao próprio leitor o gosto do biógrafo comentado pela surpresa, mas sem abrir mão do rigor de scholar. Segurando a vela


de Marília e Dirceu, figuras míticas da poesia (e da literatura) em língua portuguesa nesta América do Sul, o leitor fala de sua leitura como se compartilhasse com o poeta e sua musa o luar de Vila Rica. Entre os ensaios também convém destacar Gilberto Freyre na Ilha dos Amores, uma aula de estilo, e também da abordagem, sem preconceitos, de um intelectual e pensador brasileiro do porte do mestre de Apipucos. Esta é a principal virtude do biógrafo de Chachá, o brasileiro que se tornou soba africano a aborrotar os porões de navios negreiros com cativos escravizados em combate na própria terra: nesta época da exaltação da ignorância, em que os parvos galgam postos de poder e atribuem o próprio sucesso ao desamor às letras, Costa e Silva mostra como é excitante a aventura do conhecimento impresso. Ao comentar um tratado sobre o Rio imperial, que desejou possuir ao longo de meio século, ele fala de um amor espiritual, mas se aproximando do sensual, por esses belos e úteis objetos chamados livros. Quando o tal volume sumiu da estante do livreiro, ele registrou haver sentido “aquela dor da ausência que bem conhecem os viciados em livros.” Paixão por papel - Essa paixão pela vida, tal como ela surge em palavras impressas, permite-lhe transmitir uma visão multifacetada, interessante e gozosa a respeito da cidade onde mora, o sempre maravilhoso, embora maltratado, Rio de Janeiro, em cujo porto o futuro barão do Rio Branco, patrono do Itamaraty, casa de ofício do autor, desembarcou em 1904, encontrando um Brasil “que começara a querer andar rápido e, em alguns momentos a correr”. O avesso do “país moroso”, que o pai, que seria visconde do Rio Branco, descreveu em carta a um amigo, 34 anos antes. Talvez seja o caso de aqui deixar registrado como Costa e Silva encontra meios para lhe transmitir informação com graça e leveza: “Quando desceu no Rio de Janeiro, o barão do Rio Branco foi levado por uma carruagem puxada por cavalos até a rua do Ouvidor. Cinco anos mais tarde, Euclides da Cunha escreveria a Domício da Gama haver na cidade 'um delírio de automóveis'.” Atento às relações entre este nosso Portugal americano e as versões africanas da pátria-avó lusa, o autor também discorre sobre as relações com o Paraguai, desaguando no Mercosul. E chega às páginas finais da nova obra aos dias de hoje, constatando nosso destino comum numa magistral conclusão: “É assim que existimos na história: fazendo-a, a partir do que nos foi dado.” E o que ele nos dá neste livro é prosa profunda com leve frescor de poesia.


O golpe e seus porões contados por quem o viveu Por ser um competente e respeitado jornalista e ter sido militante político estudantil e da esquerda armada, fazendo parte inclusive do grupo que foi solto e banido do Brasil em troca do embaixador americano Charles Elbrick, Flávio Tavares tinha tudo para escrever um texto de leitura útil sobre o golpe militar e a longa noite de trevas que produziu no Brasil. Ele, entretanto, fez muito mais. Acrescentou à memória vivida e ao faro de repórter uma qualidade exclusiva dos grandes escritores: conseguir, ao mesmo tempo, expor as vísceras e a alma (literalmente, ao descrever a tortura de que foi vítima) e manter um ângulo de visão distanciado e frio, embora participante, de historiador. Por isso, Memórias do esquecimento provoca uma leitura inesquecível a quem a enceta. Não se pode dizer que seja agradável pelas lembranças que desenterra e pelas revelações que faz. Mas é mais do que útil. No começo, o leitor se depara com um pesadelo recorrente do Autor, no exílio mexicano: “Meu sexo me saía do corpo, caía-me nas mãos como um parafuso solto. E, como um parafuso de carne vermelha, eu voltava a parafusá-lo, encaixando-o entre minhas pernas, um palmo abaixo do umbigo, no seu lugar de sempre”. E, antes de fechá-lo, toma conhecimento do sonho da geração de Tavares – a fantasia que deu início a todo o pesadelo que ele viveu, com e como tantos outros, mas, como pouquíssimos, teve condições de narrar com talento raro: seu convívio de 11 dias com Ernesto Che Guevara, o grande mito rebelde, em Punta del Este, no Uruguai, em 1961. Nesse país, aliás, ele foi seqüestrado e declara haver morrido, embora o fuzilamento de que foi alvo não tenha passado de um embuste de seus seqüestradores. Entre o pesadelo no exílio e o sonho da revolução, o texto expõe, sem dó, mas também sem falso moralismo, tudo o que havia de nobre, podre e ridículo nos episódios que o Autor mais do que presenciou, ouviu e viu: viveu. Como repórter, acompanhou o golpe militar de 1964 e não precisou que ninguém lhe contasse a forma abjeta com que os suplentes dos parlamentares se postavam à porta do plenário da Câmara esperando a lista dos cassados pelo novo poder militar para tomar assento em suas cadeiras. Quem não conhecia o episódio – como este leitor, que lhes


escreve – aprende, ao lê-lo, que os militares brasileiros sabiam o que faziam quando, ao contrário de seus colegas vizinhos, permitiam o funcionamento do Legislativo. Primeiro: os políticos estavam dispostos a fazer o jogo sujo da política em troca de cargos e reverências. Segundo: quando tudo acabasse, como acabou, eles seguiriam fazendo o mesmo jogo sujo em nome da democracia civil. Como fazem. Como militante revolucionário, testemunhou de perto as bravatas de seu líder máximo, Leonel Brizola. Quem vê hoje o caudilho envelhecido, mas ainda envergando o desbotado lenço vermelho no pescoço, pedir a renúncia do presidente, que cometeu o crime de derrotálo, haverá de entender toda a trajetória de equívocos – muitas vezes até bem intencionados, mas quase sempre equivocados – da oposição de esquerda no Brasil. A cumplicidade da direita cruel e covarde, cujos líderes só falam grosso atrás das metralhadoras e canhões dos quartéis, salta nas páginas mais pungentes do livro – aquelas que tratam da tortura praticada nos porões da ditadura. As cenas vão do pungente, como aquela em que ele é obrigado a dividir uma cela com um cadáver, ao ridículo atroz, como o capítulo dedicado a seu interrogatório, depois da queda de um grupo de nacionalistas ingênuos de Juiz de Fora, por obra de um delator. Flávio Tavares não doura pílulas nem usa o processo seletivo da memória para se esconder de seus erros. Ele mesmo, que jogou o ingênuo adolescente Pauleca, irmão do militante Ivan de Lemos, na voragem da besta de forma irresponsável, narra o episódio sem se perdoar nem se culpar, ficando claro para o leitor que muitos iguais houve. E houve mesmo, ora! Por tudo isso e também por seu lirismo descarnado, mas doce, revelando um certo jeitão de avô ríspido e lacônico, lembrado num poema de cárcere dedicado ao filho Camilo que lhe serve de epílogo, contando uma história para netos atentos, seu livro ganha as dimensões de um clássico desse gênero terrível e importante da literatura deste século agonizante – o memorialismo de masmorra. Sem favor nenhum, ele pode ocupar a mesma estante onde se alinham as lembranças de campos de concentração nazista de Primo Levi ou Jorge Semprún e a denúncia do Arquipélago Gulag, de Alexander Solkjeitsin. É o caso de dizer que todos estão bem acompanhados.


2005 - um ano com histórias pra contar

Meu “adversário de infância” Bráulio, filho de Cleuza, a Marquesa, e Nilo Tavares, publicou este ano o livro Contando histórias em versos, pela Editora 34, no qual ele reuniu as aulas que deu no Teatro Brincante, de Rosana e Antônio Carlos Nóbrega, sobre poesia popular nordestina para profissionais da educação do ensino público de São Paulo. No lançamento do próprio, lavrado no estilo escorreito, elegante e atraente próprio do autor, colunista diário do Jornal da Paraíba, apesar de morar no Rio de Janeiro, a milhares de quilômetros de distância da redação, o sujeito (que presidira o Cineclube de Campina Grande, enquanto eu fora presidente do Cineclube Glauber Rocha, o rival), lançou uma teoria interessante, que eu peço vênia para lhes retransmitir aqui. Segundo o cabra, a arte de contar bem uma história não deve ser confundida como um subproduto de outra arte, a literária. Às vezes, elas se misturam, mas nem sempre. Além do mais, ela pode ser exercida no uso dos atributos da literatura, seja na prosa, seja na poesia, mas também no teatro, no cinema, na televisão, na canção, na ópera, nos folhetos de cordel e nas artes plásticas – vide as historietas em quadrinho e os trípticos medievais. Narrar bem uma história pode resultar, ou não, em boa literatura, assim como um bom texto literário nem sempre conta uma história. Não se pode enquadrar no gênero, por exemplo, À procura do tempo perdido, de Marcel Proust, um dos maiores livros do século 20 e de todos os tempos. Ou grande parte da obra de Clarice Lispector, na esteira de A paixão segundo GH. A poesia lírica, que trata do âmago dos sentimentos humanos, também nada tem de narrativa, ao contrário da épica, que propaga grandes feitos. Os romances de feira no Nordeste, gênero popular dissecado por Bráulio em seu interessante manual, são o exemplo tosco, mas nem por isso desprezível, deste ofício. De Raminho a Érico - Um bom contador de histórias pode não se dedicar a escrever. Os melhores que conheço são Raminho da Planalto e Quinha de Honorino. Raminho, empresário do ramo do transporte coletivo, passa as horas livres jogando conversa fora no Calçadão, no centro de Campina Grande, nas proximidades da banca de Wellington Nascimento, que vende doces e laticínios. A cada repetição dele, por mais que o interlocutor já tenha ouvido a mesma anedota ou idêntica lorota (habitualmente fescenina) inúmeras vezes, ela se torna cada vez mais


interessante, mais engraçada. Quinha, Adalberto, filho de Honorino Brasileiro, notório mentiroso do Matadouro Municipal e da feira livre da mesma cidade, parece ter um estoque inesgotável de piadas e as conta com uma graça inexcedível, embora não tenha talento algum para a escrita. Outro campinense, o citado Bráulio, cujos textos respiram verve, é incapaz de fazer o mais disponível e receptivo ouvinte gargalhar ao fim de um chiste, por mais graça irresistível que este tenha. Não conheci pessoalmente Érico Veríssimo, do qual este ano se celebra o centenário de nascimento e se lembra o trigésimo ano da morte. A julgar pelos testemunhos de seus conhecidos, era um homem afável, mas de pouca graça pessoal. Apesar de tocar saxofone num conjunto de jazz e de ser um dos mais celebrados best sellers com as coletâneas de suas crônicas de humor publicadas nos jornais, seu filho Luís Fernando, é da mesma estirpe. Tenho, contudo, uma lembrança gratíssima da noites de sono em que, num quarto de fundos do casarão da rua Ruy Barbosa, atrás do Colégio das Damas, no centro da cidade de Bráulio e Raminho, me transportei para as planícies verdes dos pampas na garupa do cavalo do capitão Rodrigo Cambará e contemplei o vigor solene com que Ana Terra criou seu filho Pedro. Érico Veríssimo foi um grande escritor, o cultor de uma prosa empolgante e bela. Mas, sobretudo, usou a frase com estilo, a palavra lapidada pelo talento de uma prosa incomparável, para contar a história da formação de sua raça, a semente da bravura e do caráter de sua gente. Os amados Jorge e Paulo - As piadas de Raminho só têm graça contadas por ele e, portanto, só sobreviverão enquanto sobreviverem seus interlocutores. A saga de O tempo e o vento, não! Enquanto se imprimir tinta sobre papel, a vida que dela pulsa saltará aos olhos encantados dos leitores do futuro. Este também será o destino de Gabriela, seu Nacib, Tiete do Agreste e Quincas Berro d’Água. Na apresentação do Teatro Brincante, tomei conhecimento das aventuras de Ramon, o andarilho e da vida do grande menestrel negro do Mississipi na Balada de Robert Johnson, dois exemplos do talento de narrador de Bráulio Tavares, incapaz de contar bem uma piada, mas hábil manipulador da palavra escrita e do verso cantado. E imaginei que está na hora de recuperar a boa fama dos causeurs (a palavra francesa é besta, mas não há em português outra capaz de definir de forma tão precisa quem saiba contar bem um “causo”). Revolta-me o ar de superioridade pedante com que alguns leitores desavisados, metidos a crítico, torcem o nariz para o estilo de Jorge Amado ou para o sucesso de Paulo Coelho. Alguém que conteste o talento literário de um primor de prosa literária como a novela A morte e a


morte de Quincas Berro d’Água, não merece muita atenção mesmo. E há uma dose de preconceito e inveja em quem não seja capaz de perceber a importância que tem para todos os escritores do Brasil e do mundo o fato de as histórias contadas pelo ex-parceiro de Raul Seixas percorrerem o planeta em várias línguas, sendo lidas por milhões de pessoas no mundo inteiro. Mas nem sequer os que não admitem a permissividade do estilo do baiano ou a pouca sofisticação da escrita do mago podem lhes negar o troféu de excepcionais narradores, capazes de cativar o leitor até com uma história que este já conheça e lhe tenha sido contada por outrem. Por falar no amado Jorge, que tanta falta nos faz, o bode velho é lembrado com carinho e emoção por sua viúva, Zélia Gattai, no delicioso e terno Vacina de sapo e outras lembranças. O colombiano e o japonês - O alquimista, sucesso definitivo de Paulo Coelho, reproduz um conto que faz parte das Mil e uma noites. Plagiário, Paulo Coelho? Hahahaha! Meu citado “adversário de infância” Bráulio Tavares também publicou em 2005, pela Casa da Palavra, a coletânea Contos fantásticos no labirinto de Borges. Nela teve o trabalho de garimpar textos de vários escritores, entre os quais Edgar Allen Poe, Franz Kafka, Ray Bradbury e Robert Louis Stevenson, nos quais o grande poeta e contista argentino Jorge Luis Borges bebeu a inspiração para contar histórias geniais como O aleph. Borges adoraria ter lido essa coletânea, pois sua maior diversão era justamente espalhar pistas sobre os textos que o inspiravam e tudo o que Bráulio fez foi isso: pegar referências nas misturas de erudição e armadilhas de pegar leitor do genial escritor e delatá-las. Nas estantes das livrarias há um exemplo de como a mesma história pode ser contada magistralmente e de formas diferentes. O último sucesso do Prêmio Nobel colombiano Gabriel García Márquez é a novela Memórias de minhas putas tristes. Esta história sacana, cheia de humor, sexo e poesia, foi baseada, conforme o autor deixou claro, em outra novela, A casa das belas adormecidas, de outro laureado pelo Nobel de Literatura, o japonês Yasunari Kawabata. A história é idêntica, mas o fundador de Macondo insere um cheiro de canela e maresia caribenha na delicada porcelana narrativa das aventuras de um idoso que busca conforto dormindo com virgens, sob o compromisso de que elas permanecerão virgens ao amanhecer em seu leito. De Florença e Recife - O escritor brasileiro que mais se aproxima de García Márquez é uma pernambucana chamada Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, que acaba de ter reeditada pela Girafa Editora sua obra-prima lançada originalmente pela Editora Bagaço, de Recife, Luz do abismo. É a história de sua ilustre família, com origem florentina no


sangue do poeta Guido, narrada de um jeito que seduziu o maior crítico do Brasil, Wilson Martins. Maria Cristina é psicanalista de profissão e irmã do grande sociólogo Roberto Cavalcanti, cuja obra, feita em parceria com o ministro e acadêmico Marcos Vinicius Vilaça, Coronel, coronéis, foi relançada este ano, no qual se comemora o quadragésimo aniversário de sua primeira edição. Psicanalista como Maria Cristina, o baiano Humberto Mariotti lançou em 2005, pela mesma editora, um romance que ainda vai dar o que falar, principalmente entre o leitorado feminino, Antigamente era janeiro. Breve e instigante tratado sobre as relações entre homem e mulher, o livro saiu na esteira de outro lançamento, embora de outro gênero, Profanação, radiografia romanesca das entranhas do poder em Brasília, flagrada por um ghost writer de profissão, história parecida, porém diversa, da que contou o grande compositor Chico Buarque de Holanda em seu livro Budapeste, premiado na Jornada Literária de Passo Fundo, batendo escritores, entre eles José Saramago, que também acaba de lançar romance novo, As intermitências da morte. O sultão e o ciumento - Sherazade é personagem de Vozes do deserto, o livro de Nélida Piñon, que levou prêmios na Espanha (Príncipe de Astúrias) e no Brasil (Jabuti). E a filha do vizir que seduziu o sultão lhe contando histórias é também a padroeira de Danuza Leão, personagem impagável da crônica social e narradora de raro talento, que enfeitiça leitores, não apenas de livros, mas também dos jornais e revistas, que cometeram a indiscrição de revelar com detalhes picantes os segredos que ela guardou para seu livro de memórias, cujo título (dado por Millôr Fernandes), denuncia o conteúdo: Quase tudo. O bom leitor não deve se contentar com o que leu nas resenhas - Danuza tem 72 anos de idade e um de seus maridos, o cronista e compositor Antônio Maria (Ninguém me ama, ninguém me quer, Manhã de carnaval, etc.), era tão obsessivo que tinha ciúme até de si mesmo -, pois a prosa da autora é saborosa. Assim como o é o romance O poço dos milagres, de Carlos Nejar, prosa poética de poeta profissional. E também os contos de Adélia Prado em Eu quero a minha mãe, um belo achado de título. Neste ano, em que veio a lume uma reedição do genial Teresa, namorada de Jesus, seu autor, Deonísio da Silva, considera que o melhor texto de ficção em prosa foi Quando alegre partiste, de Moacir Japiassu, recomendadíssimo pelo belo título, pelo tema (março de 64), pelo currículo do escritor e pelo talento de descobridor de Deonísio. José Mario Pereira, da Topbooks, editor de fina percepção, leu, com entusiasmo, os contos do concorrente Luís Schwarcz, da Companhia das Letras, em Dircuso sobre o capim. E a efeméride capital do ano, os 400 anos de Dom


Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, o maior de todos os romances já escritos, dá ocasião à leitura de Nas trilhas de Quixote – Uma viagem pelos caminhos do cavaleiro andante, projeto do jornalista Fernando Granato que a sensibilidade da editora Luciana Villas Boas, da Record, não deixou passar em branco. Neste país, onde há mais poetas que leitores de poesias e mais editoras que livrarias, não deixa de ser gratificante encontrar tanto material para recomendar, findo um ano profícuo como este – o ano em que Flávio Tavares, o jornalista gaúcho trocado por Charles Elbrick, recheou com novidades suas já publicadas antes Memórias do esquecimento, a melhor obra sobre tortura na ditadura militar. Boa a ponto de o prosador argentino Ernesto Sabato compará-lo com Fiodor Dostoievski, de Recordação da casa dos mortos, e de o jornalista brasileiro Hélio Fernandes afirmar que Graciliano Ramos, de Memórias do Cárcere, dele se orgulharia. Com toda a razão e todo o mérito.


A santa rameira e o castigo dos mouros Quem foi que disse que, para ser boa, a literatura tem de ser séria? Nonada. Literatura das boas tem de ter é amor, é claro, mas também humor – e só uma silabinha de nada separa essas duas palavras. Os gregos antigos já dominavam os mistérios da comédia e na linha de Rabelais ou de Bocage, de Gregório de Mattos ou de Juó Bananere, o sarcasmo, a ironia, o escrache e o deboche fizeram muito cristão ou ateu rir a bandeiras despregadas... ou à sorrelfa. Um pândego assim anda a fazer falta na sisuda literatura nacional contemporânea. Andava. O considerado indivíduo Moacir Japiassu, paraibano de nascença, mineiro de passagem, paulistano de adoção, se homiziou nos sovacos da Mantiqueira, num sítio paradisíaco em Cunha, abandonando as práticas do jornalismo profissional para escarafunchar as reentrâncias da semvergonhice e da risadagem explícita, escrevinhando um romance, A Santa do Cabaré, em que a graça vem das raízes esticadas da literatura do cordel, passando pela militância de escriba em jornais, revistas e emissoras de TV da vida. Esse moço Japiassu é mesmo um palhaço de marca maior. Escriba de muitos instrumentos e notório talento, dedicou-se a revelar a saga de um tal Ladislau, fotógrafo profissional que virou cangaceiro amador e amante diletante, que teve o topete de surrupiar a bela Vanda, teúda e manteúda da maior autoridade das redondezas da caatinga onde vivia, o prefeito de Belo Jardim, Sizenando Coelho. Com começo, meio e fim, contrariando os cânones da vanguarda, mas confirmando os critérios narrativos dos folhetos de feira livre, o texto apresenta ao leitor as peripécias da perseguição movida ao meliante pela autoridade traída com toques de humor negro e de roman-à-clef. O Autor procura divertir o leitor, mas também se reserva o direito à diversão própria: transformou o católico conservador e anticomunista ferrenho Lenildo Tabosa Pessoa, seu companheiro de redação no Jornal da Tarde, num personagem comunista, tido como Anticristo pelo padre Everardo Trigueiro, o pároco de Belo Jardim, cenário da comédia desaforada. Outro antigo companheiro de redação, Vital Battaglia, foi travestido de cangaceiro feroz e malsucedido, simplificado o sobrenome para o mais verossímil Batalha. Só faltava aparecer um carcamano entre os cabras de Lampião, ora pois!


E o temível tribuno udenista Carlos Frederico Werneck de Lacerda, acrescentado de um Meira, ficou sendo o engenheiro ferroviária com eiras e beiras, além de pai da filha perdida que virou prostituta e terminou canonizada por obra e graça do povaréu. Vascaíno não propriamente roxo, mas com certeza bastante sangüíneo, o autor das bem traçadas linhas, espalhou pelo texto referências jocosas à atividade extra-conjugal da consorte de um farmacêutico torcedor do rival “rubro-negro e preto” (como gosta de definir um engraxate da rua Domingos Ferreira, em Copacabana), o Flamengo. Conhecedor do folclore da pistolagem no cenário de seu romance, o interior nordestino, ele batizou o pistoleiro, transformado em professor de pontaria do rapazola encarregado de matar o temível cangaceiro, de Luquinha de Moxotó, em homenagem ao profissional da morte mais temido e mitificado do sertão e à região decantada em xotes e baiões de Luiz Gonzaga. Quem teve a pachorra de ler esta resenha até aqui pode ter sido levado a crer que só vai achar graça no romance de Japiassu o leitor que seja capaz de decifrar essas piadas que ele salpica no meio de frases muito bem enredadas. Se assim pensou, foi por defeito do resenhador, jamais do resenhado. Na verdade, muitas também devem ser as referências que não foram reconhecidas por este comentarista, mas nem por isso a leitura perde algo em sabor e brilho. Mesmo cabreiro, o romancista é jeitoso e ninguém precisa fazer esforço muito grande para espairecer, passando os olhos nas palavras que ele juntou e nas frases que ele compôs. Quem quiser pode apenas rir com o que ler e assim encontrará no texto motivo para ver que os romanos (lá vêm eles de novo, para tornar esta resenha mais erudita) tinham razão quando diziam que “ridendo castigat mores” (é rindo que se castigam os costumes, e não os mouros, como gosta de gozar outro ilustre antecessor do paraibanomineiro-paulistano-vascaíno Moacir Japiassu, o carioca do Méier Millôr Fernandes). Se a vida é breve e os costumes estão relaxados, vamos rir e castigá-los, pois não? A Santa do Cabaré, de Moacir Japiassu, Editora Globo, 2002, 252 p.


O presidente morto e o poeta quengo Quando deixou o leito seco do Vaza-Barris e as agruras do Raso da Catarina para trás, o oficial e engenheiro Euclides da Cunha havia visto e vivido o bastante para perceber que o habitante daqueles ermos bem que merecia ser chamado de forte. Quando se deparou com o verdadeiro protagonista de seu texto clássico, Os Sertões, o escritor não se deixou enganar pelo raquitismo crônico dele, por sua tez amarelada nem por sua humildade reforçada pela curva da espinha dorsal aproximando a cabeça disforme do solo seco que lhe negava o pão: a servidão à primeira vista se transfigurava em altivez à primeira provocação. O gênio literário se evidencia nessa capacidade de enxergar além do que a vista vê: captar a alma oculta no gesto exposto. Além da sentença-síntese – “o sertanejo é antes de tudo um forte” – do texto que elevou o militar e construtor de pontes ao panteão da glória nas letras pátrias e muito além da fama que este lhe deu, brota da paisagem bruta, seca e cinzenta o vivente – feito cacto selvagem, com espinhos hostis e frutos de sustança. A força do sertanejo é feita de suas fraquezas e, por isso, ela é tão notável, apesar de pouco notória: nutre-se da escassez, ou melhor, da capacidade inata que ele desenvolve, com o lerdo passar do tempo, de sobreviver de praticamente nada. Sobreviver, antes de mais nada e acima de tudo. É importante ressaltar isso: há uma diferença, uma oposição até, entre as caveiras de açúcar chupadas no Día de Muertos no México e a cachaça ingerida nos velórios do sertão. O sincretismo místico asteca, maia e espanhol celebra a morte como porteira da eternidade, princípio do infinito. A fervorosa espera sebastianista pela volta do rei morto para “nos vingar” faz do rito da passagem definitiva nos ermos do Nordeste uma celebração da vida: o defunto é lembrado menos pelo que foi e mais pelo que representou na vida dos que ficaram vivos. Importa mesmo é a sobrevida. O sertanejo – como assume um dos mais ilustres da raça de tabaréus, taumaturgos, violeiros, cangaceiros e escritores (apesar de ter vindo ao mundo num palácio litorâneo, dito da Redenção), Ariano Suassuna, primo de João Dantas, que matou João Pessoa, cujo nome foi dado à cidade da Paraíba onde o dramaturgo nasceu (e assim teimosamente ainda a chama, apesar da


troca de nome) – não planeja (nem conta com) a própria morte. “O heroísmo do pobre”, diz ele, “é a esperteza” – a capacidade de se safar das vicissitudes geradas no ventre da miséria. A saga do “beradeiro” da caatinga não é a do herói que tomba, mas do “amarelo” que escapa: Cancão de Fogo, Bocage, Pedro Malasartes e a síntese de todos, João Grilo, protagonista do Auto da Compadecida. Lembremo-nos de que o caolho Luís de Camões, fundador do vernáculo, também é Camonge, um quengo, o espertalhão nos folhetos de cordel impressos nos prelos do sertão. Não nos esqueçamos disso, pois ele ainda voltará a este texto. É isso que explica a sutil diferença entre a vingança à moda sertaneja e a vendeta na Sicília ou mesmo a complexa codificação da lei do talião nas montanhas da Albânia, sóbria e competentemente relatada por Ismail Kadaré em Abril Despedaçado , que Walter Salles transportou no cinema para o começo do século 20 nos confins da Bahia. Ao contrário de seus pares estrangeiros, os vingadores do sertão nordestino são pragmáticos: por favor, não os chame de covardes! Não protagonizam duelos, como o do OK Corral, dos faroestes de nossa infância, mas tocaias: escondem-se, atiram pelas costas de preferência em alvos desarmados, o que possibilita a cômoda repetição do disparo após um erro provável, ainda que eventual. A tocaia, como a força, é mais um truque de longevidade dos protagonistas da saga euclidiana. O paraibano Moacir Japiassu, que não é engenheiro nem militar, mas escriba e republicano, como o era Euclides, entendeu isso à perfeição ao descrever neste livro o fictício planejamento da execução à queima-roupa do presidente da Província da Paraíba do Norte, o ilustre jurisconsulto dr. João da estirpe Pessoa, pelo homônimo colega dr. João do clã Dantas. A cena é exemplar: o assassino estava armado de um revólver (calibre 32) e de surpresa, tendo ainda por cúmplice o anonimato. Impossível não identificar facilmente a vítima, político importante, cuja efígie correra o País em campanha eleitoral para a Vice-Presidência. Só a soberba de um poderoso como ele explicaria o fato de nunca ter tido a curiosidade de conhecer pessoalmente o homem espezinhado pela devassa de sua correspondência íntima e calorosa com uma professorinha morena, de origem humilde, belo físico e nome incomum, Anaíde Beiriz. O impávido e imprudente orgulho do sobrinho do expresidente Epitácio Pessoa, chefe inconteste do clã, lhe custou a aproximação da mão assassina e lhe valeu os tiros certeiros que lhe tiraram a vida. E isso lhe foi fatal, ironia da história, como a insensata imperícia do autor de Os Sertões, que tombou, ao atentar contra a vida do


exímio atirador Dilermando de Assis, parceiro indesejável no próprio tálamo. Se Euclides, o cego vingador da extinta honra conjugal, foi vítima da precariedade da própria pontaria, João Dantas, que empunhou o revólver assassino para lavar com o sangue do desafeto a vergonha que o afastou do convívio dos seus iguais, enfrentou o infortúnio causado pelo gesto definitivo com o fatalismo dos que, bem ou mal, sabem o que fazem. Quis a deusa desvairada da História, contudo, que a Euclides coubesse escrever a história dos desvalidos e esquecidos com a tinta do sangue deles, enquanto o causídico do valente clã dos grotões paraibanos fez a roda da política girar 180 graus com o fornecimento involuntário do combustível da mais importante guinada da crônica republicana nacional: o sangue do inimigo, que não o reconhecia. Antes que algum leitor apressado me venha acusar de estar cometendo heresia ou sacrilégio por comparar um texto incomparável, como o de Os Sertões, com este, vou logo lembrando que naquele o gênio de Euclides, vítima da própria incúria de marido, resgatou uma raça inteira do desprezo, do preconceito e do esquecimento. Enquanto neste, o talento de Japiassu traz a lume pela narrativa de ficção trabalhada com maestria o aparentemente imperceptível instante mágico em que o ato individual engraxa, involuntariamente, as engrenagens da aventura coletiva. O assassínio de João Pessoa e a Revolução de 30, ao contrário do sangrento episódio de Canudos, tema pouco abordado antes de Os Sertões, já haviam sido dissecados e cantados em prosa e verso antes deste romance (escrito num sítio em Cunha, substantivo próprio que também é o sobrenome de Euclides), que, entretanto, ninguém vai negar, trouxe um foco novo de luz sobre episódios já muito abordados. É oportuno também esclarecer que as figuras do João algoz que virou vítima, o Pessoa, e do João vítima que virou algoz, o Dantas, não foram arrancadas das páginas da História e transportadas para este entrecho. Ao contrário, assim como o personagem do político e escritor José Américo de Almeida, autor de A Bagaceira e comandante da polícia na guerra movida por João Porteira (como era João Pessoa chamado pelos inimigos) ao desafeto da princesa Isabel, coronel Zé Pereira, essas figuras nascem é do hábil manejo do romancista de recriar tipos já existentes. Assim como apareceram Vital Batalha, Lenildo Tabosa e outros entes (extintos ou viventes) no imaginário de A Santa do Cabaré, seu livro anterior, essas personae fazem o oposto do que proclamou


Getúlio Vargas em sua carta-testamento: saíram da História para entrar na vida, não a vida real, mas a criada pela fantasia deste prosador de boa prosa. Aqui elas têm as mesmas dimensões emprestadas pelo autor aos personagens completamente inventados (mas nem por isso inverossímeis). Isaías, o protagonista (se é que se pode falar em protagonista numa saga tão rica em personagens), é filho de padre (de nome Sabaó, misteriosa referência bíblica–- “Senhor Deus de Sabaó”). O romancista mostra-se um conhecedor de usos e costumes do sertão, não apenas por reconhecer a condição de reprodutores de fiéis nos pregadores da fé, como também ao atribuir a condição de guardião do saber a esta sua criatura, ao que parece a favorita. Uma nota pessoal: o autor destas linhas apaixonou-se pela inculta e bela flor de Bilac devassando a hagiografia das estantes da Casa Paroquial de Jesus, Maria e José, sob a guarda do cônego Antônio Anacleto, em Uiraúna, Paraíba, nos idos dos 50 do século passado. Voltemos, contudo, a outro rato de biblioteca, o sedutor Isaías. Como sedutores também são a indefectível dona Montinha, os senhores-deengenho Deba e Lola, o corrupto jornalista Sinvaldeão, o devoto do deus pagão Onan Libânio, esboço de retrato do dublê de romancista e político Ernâni Sátiro (de Patos de Espinharas) quando jovem, o conde italiano que pretendia plantar roletas no semi-árido e a cantora lírica Carina Malfitani, de cujos favores entre lençóis e fronhas teria gozado João Pessoa, não o mártir de 30, mas o herói de Japiassu. Que os outros perdoem a falta de espaço, justificativa da omissão de seus nomes neste texto. Cabe ainda pôr aqui uma palavra que seja sobre a forma musical, concerto, e poética – a cadência da prosa lembra os martelos improvisados pelos bardos dos sertões nas funções de desafio – escolhida pelo romancista para registrar esse momento impreciso, vago e atemporal em que a ficção cruza o Rubicão da História e o pessoal interfere no geral. E é aqui que entra o caolho de Goa, o quengo imprevisto. Luís de Camões, não o venerado nas academias, não o citado nas antologias, nem mesmo o Camonge, espertalhão dos romances de feira, mas o ritmista do vernáculo, o cultivador de décimas e sextilhas, que Manuel Maria Barbosa Du Bocage também venerou, atravessa a prosa de Japiassu como uma lamparina de querosene alumia as noites escuras das casas sem forro das fazendas de muita terra e escassa safra onde foi


criado o herói e anti-herói que fabricou o cadáver do também mocinho e também vilão que desencadeou a Revolução de 30. Concerto para paixão e desatino – que belo título para um texto assim tão musical, não é mesmo?! – é a epopéia em prosa do heroísmo dos que sobrevivem sem medalhas e sem vergonha das tocaias em que garantem a vida eliminando quem a ameace. Não é este o verdadeiro espírito da remissão sebastianista? E é também a manifestação da permanência da língua que o caolho fundou nos cafundós onde Judas esqueceu as botas, mas os injuriados como João Dantas não perdem a vergonha na cara. Nesta saga, em que a fantasia verossímil não contraria, mas confirma, a história que ocorreu e não foi registrada – embora se perpetue pela lembrança –, os mistérios do acaso jamais mitigarão a força do destino, como no verso célebre de Estêvão Mal-Armado (o francês Stéphane Mallarmé) – aquele do lance de dados que não abolirá o acaso. Posfácio do livro Concerto para paixão e desatino, de Moacir Japiassu


Prosa e poesia convivendo no mesmo texto Este ano, o prêmio anual da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) inovou ao apontar uma tendência que ganha corpo na literatura e abala a antiga distinção entre gêneros, que isola a prosa da poesia: um dos premiados deste ano pratica a mistura de um gênero com o outro, o que recebeu a denominação genérica de “prosa poética”. Ou seja, nem só prosa nem apenas poesia nem sequer poema em prosa, que já está consagrado, mas, sim, a mistura das características de uma e de outra, de tal forma que a alquimia final seja reconhecida como de boa qualidade, seja como uma, seja como outra. Em tempo, o ganhador do prêmio inusitado é o poeta e prosador gaúcho residente no litoral do Espírito Santo Carlos Nejar , autor de O poço dos milagres. Não que seja inédito escritores se destacarem em ambos os gêneros. Ao pioneiro Homero, na Grécia antiga, são atribuídos poemas épicos Odisséia e Ilíada, lidos e adaptados na posteridade como se fossem romances de aventuras. O carioca Joaquim Maria Machado de Assis, tido e havido como o maior de todos os prosadores nacionais, também foi um poeta, se não em idêntica altura, pelo menos entre os maiores. Entre os contemporâneos, o alagoano Lêdo Ivo, que, ao contrário de Machado, é reconhecido como poeta de gênio (o colega pernambucano João Cabral de Melo Neto dizia dele ser “ o maior lírico brasileiro”), tem uma obra de fôlego na ficção. Nejar, como Ivo e Cabral , também é mais reverenciado como poeta. Neste seu livro premiado de ficção, a habilidade de poeta serve para prender a atenção e mudar o ritmo da respiração do leitor: não a seqüência de fatos inventados nem mesmo o fluxo de consciência tornado canônico nesta era pós-James Joyce (inventor dos “bibelôs de Pandora” que compõem a prosa novelesca contemporânea), mas o encanto da palavra, seu ritmo, sua magia. Do livro ao botequim – Na mesma via, mas em rumo oposto, o poeta, letrista e prosador paraibano Bráulio Tavares chegou bem perto desse ponto. Em curso por ele dado sobre literatura de cordel a professores de escolas públicas no Teatro Brincante, de Rosana e Antônio Nóbrega, ele defendeu a autonomia (deu até vontade de usar soberania) da narrativa como gênero à parte, não mais um subgênero da arte da escrita. Contar uma boa história, ele repetiu no Brincante, ao lançar o livro em que reproduziu suas aulas (Contando histórias em versos, publicado pela


editora paulistana 34), não é atributo exclusivo de prosadores de ficção, mas também de dramaturgos, cineastas, poetas épicos e de bancada (cordel), desenhistas de histórias em quadrinhos e de simples, mas impagáveis, artistas do gênero: os contadores de piada de botequim. A crítica torce o nariz para Paulo Coelho, mas ele é o escritor que mais vende livros no mundo, recontando histórias: seu best seller O alquimista é um reconto de uma história repetida em várias culturas, entre as quais a árabe na célebre coletânea As mil e uma noites. O baiano Jorge Amado e o gaúcho Érico Veríssimo, cujo centenário de nascimento acaba de ser festejado, nunca foram propriamente unanimidades para a crítica como escritores, mas os leitores adoram o jeito com que eles passaram suas histórias para o papel. Piadas e bolinhos - Ao contrário disso, as histórias contadas pela brasileira nascida na Ucrânia Clarice Lispector (caso de A paixão segundo GH) são mínimas, quase inexistentes, embora sua prosa seja magnífica. O francês Marcel Proust construiu uma obra monumental – Em busca do tempo perdido -, não a partir de feitos, anedotas ou “causos”, mas das memórias relembradas e recriadas quando sentia o cheiro de madeleines sendo assadas no forno. Se isso ocorria no lado da prosa, também na poesia os padrões canônicos têm sido desafiados. O francês René Charr e o português Fernando Pessoa elevaram ao pináculo a moldura indefinida dos poemas em prosa. Um dos maiores poetas do século passado, o portenho Jorge Luís Borges, propôs um desafio aos prosadores mais instigante que a derrubada das barreiras lingüísticas realizada pelo irlandês James Joyce: o fim da fronteira entre a verdade da erudição e a mentira da fantasia. Eis aí talvez a ficção do futuro. E a prosa poética de Carlos Nejar , recém-premiada pela APCA, é a vereda por onde podem transitar poetas com talento narrativo, caso do pernambucano Alberto da Cunha Melo, em Yacala, ou prosadores com língua musical, como a carioca Adriana Falcão , de Luna Clara e Apolo 11, o catarinense Deonísio da Silva , de Avante, soldados, para trás! e o paraibano Moacir Japiassu , de Quando alegre partiste. Gabriel García Márquez e sua patota do “realismo mágico” latino-americano não nos ensinam que lógica e verossimilhança devem ser trocadas pelos encantos da fabulação? Pois! Para que estimular a rinha entre a prosa e a poesia se escritores consagrados como o


argentino Julio Cortázar já registraram a ruptura de tais gêneros; se Lautréamont e Michaux revelaram um novo mundo só pela palavra; e se esses gêneros podem conviver bem no mesmo texto, como prova O poço dos milagres? “Não residimos mais num gênero determinado, mas na linguagem”, diz o autor. E renegá-lo quem há de?


Um livro não é ruim só porque vende bem O mercado editorial brasileiro está nos dando uma excelente oportunidade para comparar dois de seus produtos que se destinam a públicos diferentes - e talvez não seja exagerado definir como opostos -, embora tratem de um tema, se não idêntico, no mínimo muito semelhante. Nas prateleiras de Literatura Estrangeira das livrarias encontram-se, de um lado, um representante da legítima nobreza literária, o último lançamento do até hoje único Prêmio Nobel de Literatura em português, o comunista lusitano José Saramago, As intermitências da morte, e, de outro, um livro que foi tão vendido no Hemisfério Norte que o símbolo maior do cinema como negócio, o americano Steven Spielberg, comprou os direitos e produziu uma versão para as telas do mundo, E se fosse verdade..., do arquiteto e ficcionista francês Marc Levy. Se prevalecesse o senso comum, propagado pela crítica e aceito sem restrições pela parte mais letrada do público leitor, segundo o qual um autor respeitável, a ponto de merecer o maior galardão mundial, sempre escreverá textos superiores aos de um habitante do planeta dos mais vendidos da semana, ninguém duvidaria em apontar o primeiro como obra-prima e o segundo como mera expressão do lixo literário feito exclusivamente para enriquecer a indústria cultural. Uma leitura desapaixonada dos dois livros, contudo, poderá levar a uma conclusão que, além de não corresponder exatamente a esse preceito, ainda pode servir como indício de que esse tipo de comparação muitas vezes é apressada, sem propósito e, o mais grave no caso, preconceituosa. A Indesejada em greve - Como foi escrito acima, o tema dos dois romances é igual ou muito semelhante, na tradição aberta na literatura ocidental por Luciano de Samosata e responsável pela mais consagrada obra-prima de nossas letras, Memórias pòstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: a morte, que o poeta Manuel Bandeira chamava de “a Indesejada das Gentes”. Aí, contudo, tem fim qualquer semelhança que possa haver entre um e outro. Assim como não há semelhança entre O ano da morte de Ricardo Reis, de Saramago, e outro ponto alto da literatura européia no século passado, A segunda morte de Ramón Mercader, escrito em francês pelo espanhol Jorge Semprún.


O português partiu de um ponto muito interessante para o leitor disposto a filosofar, ou não: a suspensão das atividades, que pode até ser definida como uma greve, da morte. De repente, não mais que de repente, num país de população pequena, ninguém mais morre. Contrariando a crença geral de que, sendo a extinção a única certeza da existência humana, a imortalidade deveria ser o “sonho de consumo” de qualquer mortal, o autor teceu uma trama instigante e verossímil para mostrar que a vida sem fim não seria o retorno do gênero humano às origens no Jardim do Éden. O romancista é convincente quando descreve as prováveis conseqüências funestas da perenização do sopro vital. Mas se perde do fio lógico da narrativa ao fazer concessões e se desviar num “nhenhenhém” anticlerical mais apropriado a um antigo, empoeirado e superado discurso marxista-leninista em voga no século XX completamente sem nexo em plena globalização. Talvez não fosse uma crítica severa demais dizer que ele criou e abordou um bom tema e terminou de maneira magnífica (o capítulo final é magistral), mas, infelizmente, não evitou que o miolo do texto fosse mole. Coma e eutanásia - O leit motiv do francês também é notável: a improvável, mas, ainda assim, verossímil, história de amor entre a alma de uma linda médica em coma num hospital e o arquiteto que alugou o apartamento onde ela morava antes de sofrer o acidente automobilístico grave que a imobilizou no leito. Como Saramago, Marc Levy concluiu seu texto com uma chave-mestra digna dos grandes autores. Mas, ao contrário de seu legítimo e consagrado colega luso, este não desperdiçou o fôlego preso do leitor em idiossincrasias que não são do interesse deste nem em inócuas deblaterações filosóficas sobre o poder temporal da Igreja ou a hipocrisia dos fariseus pós-modernos. E se fosse verdade... cumpre toda a receita básica de um campeão de vendas. A história de amor comove sem ser piegas. E, no quesito verossimilhança, perseguido à risca por qualquer ficcionista que se preze, este livro em nada pode ser considerado inferior ao último lançamento do ganhador do Nobel. Este resenhista atreve-se até a garantir que o incrível namoro de um vivo e uma semimorta ganha mais foros de verdade, seja pela identificação da experiência do leitor com o entrecho, seja pelos lances de literatura médica e policial entranhados na narrativa, mais familiares ao leitor comum que as manobras políticas e mafiosas inseridas por Saramago no último lançamento de sua grife.


Sem pretender em nada reduzir a merecida glória do gênio português, a avaliação sem preconceito do profissional francês talvez possa vir a ser uma fórmula inteligente de aumentar o interesse do público pela arte literária, sem necessariamente ter de ceder aos apelos fáceis da subliteratura. É de bom alvitre renegar desde logo o equívoco pouco inteligente de imaginar que um produto do mercado editorial é menos nobre só por ser mais vendável.


Peripécias de Prestes em Piancó (Prefácio do folheto de cordel do José Aldo Leite) Um ancestral dos Pinto do Rio do Peixe, chamado pelos seus de Caboclo por causa de sua tez escura, a cujo clã este escriba pertence, furtou a amada na igreja e com ela, a cavalo, fugiu da perseguição do sogro e inimigo de Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, descendo o rio Piranhas abaixo até aportar em Piancó, onde foi bem recebido e se casou. Um irmão de minha mãe, médico em Recife, casou-se com uma filha de Maria Leite, da família dos donos do vale do rio que banha a cidade e lhe dá a denominação, conforme registro histórico sacramentado em inglês por minha amiga, Linda Lewin, historiadora de Berkeley, na distante e dourada Califórnia, em sua obra Politics and parentela in Paraíba. Também dos Leite descende o deputado Wilson Braga, filho do coronel Chico Braga e grande amigo de meu pai, Anchieta Pinto, desde os tempos da UDN de Zé Gadelha e João Agripino. Em Conceição, nasceu Elba Ramalho, que conheci adolescente como coriféia dos corais falados de poesia de Betinha Marinheiro, em Campina Grande, bem antes de se tornar estrela de música popular. Com um apelo para essas meras coincidências, pois, afinal, mesmo tendo nascido tão perto, ainda não tive a honra de conhecer as cidades do Vale do Piancó, Josealdo Rodrigues Leite, que não se perca pelo nome, pede-me uma introdução para seu romance de cordel Os mais violentos dias do Piancó. Sujeito desarnado, o autor, não é mesmo? Sertanejo de ouvir violeiro no alpendre de meu avô materno, em cuja casa nasci, e coco de embolada do bom nas feiras de Campina Grande, não tinha ainda travado conhecimento com essas “modernagens” de poesia épica de bancada com prefácio. Mas, como sempre houve, há e haverá uma primeira vez, eis-me aqui para louvar este resgate da história da movimentada vida e da violenta morte de Padre Aristides por ocasião dos 80 anos de passagem da Coluna Prestes por Piancó. Com os diabos, diria meu avô, o velho Chico Ferreira (na verdade, ele diria mesmo era co’os diacho), apois não é que o diabo do Padre que ousou enfrentar os Leite terminou sendo a única vítima do comunismo no Brasil e o fora antes mesmo de o capitão Luiz Carlos Prestes haver aderido ao catecismo de Marx, Engels, Lenine e Stalin? Pois não foi?


Esse episódio sangrento e estúpido da História do Brasil, que os compêndios ignoram, aqui está resgatado e relatado com talento de escol. Confira e veja.


Capítulo 15. Senhor e servo da palavra ((Este é o 15° capítulo da biografia do poeta e deputado Ronaldo Cunha Lima, que está sendo concluída pelo historiador paraibano José Octavio de Arruda Melo, colega do biografado na Academia Paraibana de Letras. Cunha Lima candidatou-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras.) Por José Nêumanne Pinto 15.1 – Apenas o poeta; 15.2 – O boa prosa; 15.3 – Poesia, puta caprichosa; 15.4 – Abordagem pela verve; 15.5 – Artesão de sonetos e tercetos: 15.6 – Surpresa e concisão O menino escutava, absorto, concentradíssimo, o discurso do grande tribuno. Quase não respirava de tanta tensão, tanta atenção. De repente, ao se deparar com uma imagem mais rica, mais bela, não resistiu e suspirou: “Bonito, isso!” Foi a deixa para o velho de longas barbas, a seu lado, impulsionar o braço e alcançar, com a palma da mão direita aberta, o pavilhão auricular, aquilo que no popular se chama de pé-de-orelha. Movido pela força do tapa, o ouvinte rodopiou e caiu alguns metros à frente de onde se encontrava sentado, ao lado do receptor de rádio. Quem contou essa causo foi a vítima, ou seja, o admirador agredido. O objeto de sua admiração era o estro do político e escritor José Américo de Almeida, em campanha para o governo da Paraíba. E o agressor, um seu tio-avô, coronel José Cunha Lima, cujo depoimento no documentário O homem de Areia, de Vladimir Carvalho, viria a provocar muxoxos de desaprovação do primogênito do orador, o general Reinaldo Melo de Almeida. Essa história pode ter ocorrido tal como narrada. Ou não. Sabe-se que a memória pode ser traiçoeira ou ainda dar-se a repentes de imaginação. Principalmente quando o narrador é uma pessoa da verve do poeta e tribuno, político e advogado, homem de cultura sempre Ronaldo Cunha Lima. De certo sabe-se que o coronel Cunha Lima e o “homem da praia” eram mesmo inimigos figadais, tendo seus conflitos tido origem na cidade de Brejo de Areia, onde ambos nasceram e o segundo viveu a vida toda. Essa inimizade está bem expressa no tom rancoroso com que o velho coronel se referiu ao antigo desafeto no filme citado: “Hoje em dia falam de Zé Américo como se ele fosse um santo, mas aqui em Areia ele


pintou os canecos”, expressão brejeira e deliciosa, mas capaz de conter muita malícia e até muita maldade. O fato é que, verdadeira ou fantasiada, real ou imaginária, exata ou exagerada, a história que abre este capítulo funciona, e muito bem, para dar apoio para o que pretende este escriba: acima do gosto pela política, maior que o pendor pelo serviço público por meio da gestão de mandatos populares, mais forte até que a opção pela boemia, nesta incluída a preferência assumida pela ingestão prazerosa de bebidas de forte teor alcoólico, do uísque até a caninha velha de guerra, prevalece na vida e no caráter do protagonista desta biografia empreendida pelo historiador José Octavio de Arruda Melo o pendor pela palavra. Mais que pendor servidão, nem tanto a servidão no sentido estrito da palavra, como sinônimo de escravatura, mas principalmente pelo significado empregado pelo maior de todos os líricos e fundador da língua portuguesa, o soldado caolho lusitano Luís de Camões: os sete anos de pastor nos quais Jacó serviu a Labão por amor à bela serrana Raquel. 15.1 – Apenas o Poeta - Ronaldo tem um currículo político respeitável. Foi prefeito de Campina Grande duas vezes e para um devoto campinense por escolha como eu, isso já bastaria. Mas ele quis muito mais e mais lhe permitiu seu engenho alcançar. Enquanto escrevo estas linhas, é deputado federal, o que não é pouco, mas também já foi senador. E governador da Paraíba – o que, no dizer das felpudas raposas mineiras, é o máximo que um homem público pode alcançar por méritos próprios, o supremo galardão. O mais, a Presidência da República, é honraria tão alta que passa a depender mais da sorte que de qualquer outro atributo nos limites da atividade humana. No exercício dessa profissão, na qual seus colegas não se têm distinguido propriamente pelo zelo com que administram os escassos recursos públicos, ele se tem destacado pela probidade e pela modéstia, o que já lhe daria suficiente valia para figurar entre os próceres de lembrança mais cara. E nestes nossos idos de democracia popular, poucos podem como ele se jactar de tanto prestígio com o cidadão comum. Raros políticos no Brasil gozam de tanta popularidade quanto ele. Ainda assim, ele não reclama para si a definição de Excelência, Político, Deputado, Senador, Prefeito nem mesmo de Governador. Seus eleitores, seus colegas de bancada, seus familiares, seus companheiros de jornadas administrativas o chamam simplesmente de Poeta. E não poderia haver homenagem mais significativa, pois de fato é o caso de


reconhecer aqui que se trata de um dos privilegiados alvos das manhas e seduções que a Palavra reserva apenas para alguns eleitos. 15.2 - O boa prosa - Nosso amigo Bráulio Tavares, no lançamento de seu livro Contando histórias em versos no Teatro Brincante de Antônio Nóbrega, na Vila Madalena, em São Paulo, lançou uma nova e instigante idéia: a de que a narrativa não é um subgênero da literatura, mas uma arte à parte que fornece munição para a prosa, a poesia (épica ou de bancada), o cinema, a canção popular, o teatro e até as artes plásticas (as histórias em quadrinhos contemporâneas ou os trípticos medievais, por exemplo). A milenar arte de contar histórias – na qual, segundo o Prêmio Nobel da Literatura Gabriel García Márquez, foi pioneiro o personagem bíblico Jonas, que contou ter vivido no ventre de uma baleia - não deve, segundo Bráulio, ser submetida aos grilhões de quaisquer gêneros literários, mas assumir, de maneira soberana, a própria autonomia. Bráulio mesmo é um exímio narrador de histórias em romances de cordel ou em contos de ficção científica, mas incapaz de contar bem uma anedota, especialidade dos causeurs, para usar aqui uma palavra francesa, não para esnobar ninguém, mas apenas para colher tudo o que o amplo significado do termo permite na língua de Voltaire e Chateaubriand. No Calçadão em Campina Grande pontificam grandes contadores de anedotas, capazes de fazer o interlocutor rir ao lhe narrar pela enésima vez a mesma piada, mas sempre com graça renovada. Ronaldo pertence a essa estirpe especial dos cultores do verbo oral, gente como seu amigo Raminho da Planalto ou Quinha, mais que legítimo herdeiro do célebre mentiroso da feira livre e do matadouro municipal Honorino Brasileiro. Conversador de graça infatigável, nosso biografado dispõe do dom da percepção dos personagens dos causos que conta e do ouvinte, além da noção exata do tempo da narrativa, segredo elementar dos humoristas profissionais da ribalta, do cinema e da televisão. Esses talentos o tornam um orador que domina a tribuna, a exemplo de seu mestre nesta arte, o político paraibano Alcides Carneiro, de uma geração anterior à sua e que foi genro de outro tribuno magnífico, o citado protagonista do causo que abre este texto, o estadista e escritor de Areia José Américo de Almeida. Ao lirismo de Carneiro e ao sarcasmo de José Américo RCL acrescenta o gosto pelo debate fogoso das idéias sobre a melhor forma de gerir os negócios públicos. E um conhecimento dos cânones gramaticais e dos caprichos da palavra oral difícil de encontrar em seus mais bem dotados adversários.


15.3 - Poesia, puta caprichosa - Costumo dizer – e já andei escrevendo isso bastante – que ninguém escolhe ser Poeta. A Poesia é que o escolhe. Como aquele proverbial dito bíblico, muitos podem pretender ter essa relação especial com a Palavra, seus dengos, seus ritmos e seus molejos, mas apenas os amantes que ela seleciona e chama ao leito podem se considerar seus serviçais. A Palavra é uma puta manhosa que não obedece a critérios de moral, caráter, fortuna ou beleza para selecionar seus gigolôs favoritos. Charles Dickens era um vulgar construtor da própria imagem biográfica, viciado em luxo e riqueza, mas se tornou o mais célebre dos ficcionistas da literatura universal dedicado a içar do pântano da miséria moral as vítimas da revolução industrial. Louis Ferdinand Céline foi antisemita estúpido e bajulador dos fascistas, mas poucos trataram com tanta fidalguia e elegância a língua francesa, literária por excelência, como ele o fez. Pessoalmente Jonathan Swift era um escroque, mas o escritor, um gênio. Os exemplos pululam na História da Literatura. Só se descobriu que Carlos Drummond era um velho devasso depois de ele ter morrido. Parte da veia criadora de Albert Camus se originava de sua doentia necessidade de ter múltiplas parceiras sexuais. Seu antes amigo e depois desafeto Jean-Paul Sartre adotou posturas políticas posteriormente tidas e havidas como equivocadas, mas nos legou textos literários imortais. Ronaldo é um desses privilegiados pela Puta, que é ao mesmo tempo proxeneta, com o dom da palavra poética. Se eu ainda tivesse alguma dúvida sobre isso, a teria dirimido completamente no dia em que, invejoso, ouvi o jovem Astier Basílio, outro favorito da Grande Cortesã, dizer, de cor, um soneto ronaldiano (de 50 Canções de amor e um poema de espera). Uma beleza! Um instante de fulguração extasiante. Reproduzirei aqui o último terceto, três primorosos versos que talvez algum gênio da poesia em língua portuguesa quisesse ter assinado: “Eu quero vê-la. Eu preciso vê-la. / E se ela se esconder em alguma estrela, / eu serei noite pra poder guardá-la”. 15.4 – Abordagem pela verve - A primeira relação estabelecida por Ronaldo com a palavra foi a da verve, da veia do improviso. Ele tem o talento do repentista, aliado ao senso de oportunidade do trocadilhista. Ele é o oposto daquele tipo criado por Jô Soares nos programas humorísticos da televisão, que sempre achava a resposta certa à provocação de algum adversário tempos depois de haver precisado dela. O Poeta é rápido na abordagem da palavra como poucos podem sê-lo.


Essa verve, que faz dele, como já vimos, ao mesmo tempo um tribuno brilhante, o que muito lhe serviu na política, e um conversador memorável, é que lhe permite uma resposta rápida, aguda e profunda a qualquer adversário, assemelhada à de um amigo e companheiro dele de geração, além de várias vezes adversário nas lides do Fórum, ele como advogado de defesa e o outro como promotor público: Agnelo Amorim. Este “promográfico”, como prefere ser definido, por causa das atividades de sua gráfica Santa Fé, na qual imprime desde propaganda política até o jornal O boi Lucas, para as festas do fim do ano, é, ele mesmo, protagonista dos melhores episódios humorísticos lembrados por RCL, caso do famosíssimo texto satírico O Evangelho de Campina Grande: “No princípio era o verbo, aí vieram os Gaudêncio e o transformaram em verba; depois, vieram os Agra e ficou só o princípio”- uma referência jocosa (e desairosa) a duas das famílias mais poderosas e temidas da cidade. Outra deliciosa anedota do folclore político campinense diz conta de sua escolha por fazer uma campanha – a primeira, ainda muito jovem e contra um adversário literalmente de peso, o Pé de Chumbo Severino Cabral – toda em versos improvisados no palanque. A novidade seduziu o eleitorado com a rapidez de um curto rastilho de pólvora. Dizem os malvados que seu Cabral anunciou um discurso em versos no distrito de São José da Mata e tudo o que conseguiu balbuciar foi: “São José da Mata, São José da Mata, ou São José da Mata me mata ou eu mato São José da Mata.” 15.5 - Artesão de sonetos e tercetos - Esse é um caso típico em que a inspiração poética deu resultados eleitorais práticos: o improvisador de palanques nascido em Guarabira foi eleito pela primeira vez prefeito de Campina Grande. Cassado pelos militares, voltaria depois ao cargo nos braços de um povo acostumado a abordá-lo nas ruas, botecos ou na própria casa sempre pelo epíteto de Poeta. Nos tempos de exílio do poder dos mandatos populares, advogou em São Paulo e no Rio de Janeiro e respondeu em versos a questões sobre a vida e a obra de um de seus ídolos, o também poeta e também paraibano Augusto dos Anjos, com garantidos êxitos popular e financeiro. O ritmo do poeta do Engenho Pau d`Arco se faz presente na produção do poeta de livros, da poesia trabalhada, que ele também sabe ser, além de ditos pelo autor com registro de gravação em CD, como o Recital sem limite. RCL é um devoto praticante das antigas (e abandonadas) artes da poesia com rima, ritmo e métrica. Sua poesia de matriz popular se esmera na realização de sonetos


e tercetos, técnicas de difícil execução e resultantes de um conhecimento gramatical acima da média. ”O soneto é uma obra de artesão e de ourives. Não houve até agora nenhum grande poeta que não tenha tentado, ao menos uma vez, escrever um soneto. Aparentemente, ele aprisiona o poeta nas suas exigências. Mas talvez seja justamente este colete-de-aço e esta camisade-força que funcionam como um verdadeiro desafio, o de resumir em apenas 14 linhas – divididas em duas quadrinhas e dois tercetos toda uma história, todo um amor, todo o poema e toda uma canção”, escreveu o jornalista e escritor Murilo Melo Filho na introdução (“Ronaldo Cunha Lima: escravo e senhor do poema”, definição inspirada, a ponto de servir de mote para o cabeçalho deste capítulo) de seu livro 50 Canções de amor e um poema de espera, cujo título lembra o Pablo Neruda herói dos jovens românticos de todos os tempos, leitores de 20 Poemas de amor e uma canção desesperada, também de influência marcante na obra de RCL pelos transbordamentos de emoção. Uma característica, aliás, típica de outro sonetista de escol, o carioca Vinicius de Moraes. Grande poeta, mas desprezado pela crítica acadêmica, seja por cultivar a poesia clássica pré-modernista, seja por sua condição de letrista número um da Música Popular Brasileira (daí, a tentativa de depreciá-lo com o apelido de Poetinha), este agora está sendo resgatado tanto por um reconhecimento crítico póstumo quanto pela divulgação de sua obra mercê do documentário dirigido pelo ex-genro Miguel Farias. Vinicius também é lembrado no texto citado do acadêmico potiguar: “Segundo Vinicius de Morais, as pessoas estão com muita necessidade de emocionar-se. E até de chorar”. Poeta por excelência da emoção, o RCL de Poemas amenos, amores demais, título em que se deixa levar pelo gosto pelo trocadilho, envereda por outra técnica árdua, a do terceto. Abre o livro com o abecedário das paixões, as musas em ordem alfabética. Entre elas, Vitória: “Para os meus desenganos, / Vitória foi uma história / de perdas e danos”. Como é dado perceber nesse terceto, o Poeta está sempre de mãos dadas com o causeur, o apaixonado com o trocadilhista, o mercador de emoções de olho na prateleira das memórias de amores sempre presentes. “Ler Ronaldo”, observa, com argúcia, o prefaciador Irapuan Sobral Filho, “é sentir palavras. Há mais palavras entre letras do que pode imaginar um período inteiro”. 15.6 – Surpresa e concisão - Na introdução do Livro dos Tercetos – breves e leves poemas, o cronista de jornal e político (foi colega de RCL


no Senado) Paulo Alberto Monteiro de Barros, que assina com o sugestivo pseudônimo de Arthur da Távola, pontificou: “O terceto é técnica muito difícil. Não possui o redondeamento e a geometria do desfecho lógico-fácil do quarteto. Um pouco deforma, pois afronta as formas maiores com mais espaço para a expressão. O terceto é definitivamente incompleto. Tal como o tango – dá o penúltimo acorde sem emitir o final, deixando em suspenso a conclusão – em parte para que esta se faça no espírito do leitor, em parte por uma razão filosófica: a de que nada, a rigor, conclui-se no mundo mutante do poema. Não se pode dizer que os tercetos de Ronaldo Cunha Lima tenham inspiração direta no ‘hai-kay’ japonês. O ‘hai-kay’ é fluido, sugestivo e proponente. Os tercetos de Cunha Lima são claros, definidos e oponentes. Por vezes, envereda pelo território da incompletude e da sugestão própria da inspiração oriental. Aproxima-se, nesses casos, do `hai-kay’, sem o ser, nada obstante. Este não é, porém, o aspecto principal. O é o fato de estarmos diante de um desafio: o de compreender esse florilégio de mensagens. Ora são filosóficas, ora puramente poéticas, ora com sabor de trova do pé quebrado, ora carregadas de amor, ora amorosas, ora confidentes. Em todas elas, porém, a surpresa permanente, a excepcional concisão na forma e economia de meios para o máximo de expressividade.” Melhor não seria dito, então que fique aqui o registro. Antes de concluir este texto, permito-me citar um parágrafo da introdução que eu mesmo escrevi para outro de seus livros de poesia: “O autor de Poemas de sala e quarto é econômico, como Oswald de Andrade o foi. Como Proust gostaria de sê-lo. Nem por isso, o poeta-boêmio se perde no sentido lúdico do orador de comícios ou do contador de causos das mesas de botequim. O poeta deste livro comunica-se com as palavras quase como se elas fossem materiais. O leitor percebe que sua relação com elas é táctil. O escritor as acaricia, cada uma delas transformada no dorso de uma felina. E as lambe, cada qual tornada o sorvete de todas as infâncias. O poeta se lambuza. O leitor se compraz.” Rei da paráfrase, metalinguística da gramática, como já mostrou em seus mais recentes livros de poesia, Ronaldo Cunha Lima é da palavra servo e senhor, para usar como fecho e como título deste breve capítulo a descoberta de Murilo Melo Filho. Daí, a conclusão de que tudo o mais em sua vida aborda e cerca o verbo como princípio, meio e... fim!


Estilingue, florete e caiaque

Será superficial imaginar que as relações do poeta e político paraibano Ronaldo Cunha Lima com a língua se limitam à intimidade que ele sempre manteve e nunca escondeu com a verve. Superficial, embora natural: a verve nele é de tal ordem que ela aparece logo no primeiro contato, na apresentação social. O autor deste Sal no rosto tem os dons da palavra-estilingue e da palavra-esgrima. Na conversa informal, ele dispara flechas verbais em todas as direções e tonto ficará quem tente delas se esquivar. Na tribuna age como se empunhasse um florete ágil, flexível, mas nem por isso menos contundente. Em tais momentos, ele se permite a todas as liberdades poéticas e pula da trova para a paráfrase como se manobrasse um caiaque numa corredeira. Dá até para imaginar que a palavra se deixa manobrar pelo trovador ou pelo orador exatamente porque ele não respeita os limites da conveniência nem da exatidão. É o dom do proxeneta que todo poeta tem de ter, sob pena de nunca receber a visita da prostituta, que é volúvel, cheia de caprichos e não dá a mínima para quem a manipule cheio de dedos e sem segundas intenções. A poesia é dócil tirana. Mas saiba você, que se prepara para ler esta coletânea de sonetos, que o rei do florete, o atirador de estilingue, o manipulador dos bumerangues verbais (vício adquirido nas funções de desafio de violeiros na companhia de outros maganões como Raimundo Asfora e Agnelo Amorim) sabe tratar bem a mundana, como se esta fosse uma dama, quando se senta à mesa nas quais se sirvam banquetes canônicos. Ronaldo, o trovador, o espadachim, o guri do estilingue, o caçador de bumerangue em punho, também se dá muito bem nos laboratórios da língua culta impressa. Seus sonetos e tercetos traem o domínio exemplar dessas técnicas sutis e o emprego culto da gramática do qual pouquíssimos entre seus colegas que torcem o nariz para o pé quebrado, ao contrário dele, podem orgulhar-se. O boêmio ousado que despe as palavras a goles de cachaça do Brejo natal é também o estilista capaz de vestir a meretriz como uma baronesa na hora de levá-la aos bailes formais da Corte. O segredo do soneto (e mais ainda do terceto) é a difícil manobra da originalidade ancha nos espaços mesquinhos do rigor técnico. Poucos não foram os poetas que respiraram aliviados quando o


verso livre do modernismo os desobrigou desse risco, em que o verso pode perder o viço - e até a vida. Senhor do ritmo, dono de um ouvido raro para seu mister, o autor destes poemas não se faz de rogado em enfrentar esse desafio, desprezando as comodidades da liberdade métrica. Leia, prove e comprove.


Leitura Sagrada Li Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, três vezes. A primeira foi no quarto dos fundos, no quintal da casa onde morava na Rua Rui Barbosa, atrás do Colégio das Damas, em Campina Grande. Li freneticamente sem parar, sem dormir, quase sem comer.Aquele texto encantador, cheio de nuances, tão rico de vocábulos e ao mesmo tempo de uma precisão exemplar na descrição de tipos e paisagens, me encantou, me arrebatou. A segunda vez foi num passeio de turismo. No ano em que descobri que a morte passeava nas alamedas de minhas veias, sob a forma de diabetes, cumpri um roteiro turístico com a família pelas cidades históricas de Minas. De Belo Horizonte dei um pulo até Cordisburgo, a cidade natal do autor, e conheci a venda do pai dele. Ali tive a segunda dimensão não só daquele romance de gênio, mas também de toda a sua obra literária: era como se estivesse ouvindo as conversas dos peões, boiadeiros e tropeiros que paravam ali para se abastecer e certamente introduziram o autor, desde menino, a seu linguajar típico, fixo àquele solo, mas universal ao mesmo tempo. Faço a terceira leitura até hoje. Leio o romance como me habituei a ler poesia e como também faço com a Bíblia. Não é texto para ser relido de um fôlego só nem de enfiada. Convém abrir uma página a esmo e mergulhar nele até onde o tempo permitir, deixando que seu ritmo, sua prosódia, invada as retinas e assim chegue à alma e ao coração. Recorro a esse exercício sempre que sinto necessidade de encontrar num texto maravilhoso alheio meu próprio estro perdido na leitura da porcaria toda impressa por aí afora. José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e autor de O silêncio do delator, prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 2005.


Cabra-cega nos espelhos (Apresentação da obra A consciência de Zeno, de Italo Svevo, reeditada pela Editora Nova Fronteira)

Ettore não era guerreiro como seu ilustre xará, Heitor, o comandante das tropas troianas derrotadas pelos gregos. E Schmitz não era ferreiro, significado do sobrenome alemão que o autor de A consciência de Zeno tinha quando lançou este romance importantíssimo na história da literatura universal, o qual não perpetuou. Pois, por decisão de Lívia, a mulher, seus pósteros e mesmo parentes colaterais, os descendentes dos irmãos, terminaram mesmo foi usando o sobrenome do pseudônimo que ele adotou para assinar suas obras literárias, Italo Svevo. Italo era, sim, italiano, apesar de viver na cidade de Trieste, à época de sua vida, na virada do século XIX para o XX, pertencente ao império austro-húngaro, aquele de Francisco José e da belíssima imperatriz Sissi. E esse sobrenome expunha de qualquer maneira seus laços sangüíneos com a cultura germânica, uma vez que é um gentílico em italiano de uma região alemã. Apesar de se considerar um autêntico latino, Italo queria registrar no pseudônimo Svevo sua admiração pela literatura e pela música produzidas na pátria de Goethe e Mann. Ettore Schmitz, aliás Italo Svevo, de ascendência judaica, pertencente a família originária da Renânia, grande e abastada (o pai era um rico comerciante de vidros), tinha um aspecto bem burguês, com um sorriso bonachão em que o bigode espesso não conseguia esconder o ar zombeteiro desenhado pelos lábios finos em curva sutil e “giocôndica”. E ele, de fato, ganhou a vida primeiro como bancário e depois como fabricante e vendedor de tintas submarinas, com as quais se pintam os cascos dos navios abaixo da linha d’água. Nunca dependeu de direitos autorais para viver. Nem podia. No último decênio do século XIX, quando trabalhava num banco, tentou se lançar como escritor em Trieste com dois livros, Uma vida e Senilidade. Em família ele se demonstrou tão desgostoso com o desprezo voltado pelos críticos a sua obra que os parentes se surpreenderam com a edição de A consciência de Zeno, em 1923. À BÊNÇÃO, TIO JAMES


Em 1980, portanto 57 anos depois, a Editora Nova Fronteira lançou a primeira tradução brasileira, magnificamente elaborada pelo poeta Ivo Barroso, dando oportunidade ao público brasileiro de conhecer este romance, o maior da literatura universal abordando um tema fundamental do século XX, a psicanálise. Escalado pelo ficcionista e jornalista cearense Mário Pontes, à época editor do suplemento semanal Livro — Guia semanal de idéias e publicações do Jornal do Brasil, para escrever a respeito dessa edição, localizei em São Paulo um italiano com o sobrenome do pseudônimo do autor. Filho de Ottavio, irmão caçula de Ettore/Italo, ex-gerente de vendas de motores da indústria de eletrodomésticos Arno, empresa familiar brasileira oriunda da Itália, Mario era um fiel guardião da memória do tio escritor, tendo em seu poder testemunhos impressos das dificuldades que este enfrentou para se afirmar no competitivo planeta das vaidades da literatura italiana. “Quando A consciência de Zeno foi lançado na Itália, ninguém se incomodou. Mas meu tio mandou o livro para James Joyce, seu amigo e ex-professor de inglês, e este, entusiasmado, o remeteu para o crítico francês Benjamin Cremieux, com uma carta particularmente significativa. Cremieux o entregou a Valéry Larbaud, que fez a tradução francesa.* A partir dessa primeira tradução foi que a crítica francesa se interessou pelo livro. E só depois de ser bem recebido na França, o romance obteve repercussão na Itália”, contou Mario, violoncelista amador que cursou o Conservatório de Viena e foi um freqüente espectador das sessões musicais realizadas na casa ampla de Ettore/Italo, que, apesar de amador, era um virtuose ao violino. Coincidência interessante é que um dos mais importantes romances brasileiros contemporâneos, Zero, embora nada tenha a ver com Zeno, também foi publicado primeiramente em tradução e só depois editado aqui no Brasil. E, para a coincidência ser ainda mais espantosa, a obra de Ignácio de Loyola Brandão foi lida em italiano, língua em que Svevo escrevia, antes de ser impressa em português. O crítico Alfredo Bosi dá início a seu ensaio Uma cultura doente?, publicado em Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideologia e reproduzido à guisa de posfácio nas edições mais recentes deste romance, com uma citação de Svevo sobre a amizade íntima que mantinha com o genial romancista irlandês, que foi também seu professor de inglês. “James Joyce chegou a Trieste em setembro de 1903. Foi por acaso. Procurava um emprego e o encontrou na Escola Berlitz de nossa cidade. Emprego medíocre. Mas chegava a Trieste trazendo no bolso,


além do pouco dinheiro para a longa viagem, dois manuscritos: grande parte das líricas que seriam publicadas sob o título de Música de câmara e algumas das novelas dos Dublinenses. Todo o restante da obra, até o Ulisses, nasceu em Trieste. Aliás, também parte do Ulisses nasceu à sombra de San Giusto, porque Joyce morou entre nós durante alguns meses depois da guerra. Em 1921 fui eu o encarregado de levar-lhe, de Trieste a Paris, as anotações para o último episódio. Eram alguns quilos de papel solto, que nem sequer ousei tocar, para não lhe alterar a ordem, que me pareceu instável”, escreveu Svevo em Saggi e pagine sparse, citado pelo mestre Bosi, que no mesmo texto nos introduz o outro lado da amizade reproduzindo um trecho de carta escrita por Joyce, de Paris, em 30 de janeiro de 1924, a Svevo a respeito deste romance. “Estou lendo com muito prazer. Por que se desespera? Deve saber que é sem comparação o seu melhor livro... Por enquanto duas coisas me interessam: o tema; nunca teria pensado que o fumo pudesse dominar uma pessoa daquele modo. Segundo: o tratamento do tempo no romance.” ANTITABAGISTA AVANT LA LETTRE Nos quase cem anos de que distamos do lançamento deste livro, a indiferença com que foi recebido foi vastamente compensada pela imensa fortuna crítica que passou a acolhê-lo depois do pontapé inicial dado pelo mestre dublinense. Suas conexões com Ulisses são tão repetidas e óbvias que há até quem considere Svevo o inspirador de Leopold Bloom, a mítica criação de Joyce, que por sua vez teria na outra personagem, Stephen Dedalus, um alter ego. Seria Zeno Cosini também um alter ego de Svevo? Essa pergunta me remete a questões ainda não aprofundadas pela crítica. Joyce foi o primeiro a registrar o espanto do leitor diante dos malefícios causados pelo tabagismo, o que torna seu amigo em Trieste um pioneiro da luta contra o tabaco, que se tornou um cavalo-de-batalha da higiene e da saúde politicamente correta neste século XXI. Esse pioneirismo tem sido associado a outro, qual seja a adoção da psicanálise do austríaco (e como Svevo de ascendência judaica) Sigmund Freud como tema de exposição e crítica ao mesmo tempo. Mas ainda não foi devidamente estudado o fato de o método utilizado pelo romancista — da terapia de um tratamento psicanalítico por meio de uma narrativa literária — ter sido adotado na psicanálise moderna por um de seus expoentes, o


americano Rollo May, ilustre representante da moderna psicoterapia existencial e autor do clássico A coragem de criar. A MEMÓRIA COMO FICÇÃO Outra faceta ainda não devidamente explorada da obra de Svevo é o fato de, apesar de suas exaustivamente estudadas conexões com a de seu professor de inglês em Trieste, ela se lhe contrapor, abrindo as portas da percepção para um tipo de narração, se não antijoyciana, no mínimo não-joyciana. A consciência de Zeno brinca com as armadilhas da memória, mostrando que, em vez de relatar, esta, na verdade, reinventa as lembranças. Mais que registro documental, ela é um gênero de ficção. Na edição do jornal que reproduziu minha entrevista com Mario Svevo, o escritor Salim Miguel escreveu uma resenha, “Zeno versus Freud”, na qual resume magnificamente isso: “Zeno oscila entre a verdade e a mentira, numa ficção inventada por ele mesmo sobre sua própria realidade, procurando iludir seu psicanalista — ou se iludir. E a dúvida se aprofunda: será que fala a verdade, quando não mente? Será que falta à verdade, quando mente? Mentira e verdade se interpenetram naquele mundo. Se nos lembrarmos de que Zeno por sua vez é ficção (o quanto de verdade e mentira consciente ou inconsciente o autor nele colocou?), estamos diante de uma estrutura romanesca de jogo de espelhos.” Jogo de espelhos lembra quem? Jorge Luis Borges, é claro. A idéia é que essa brincadeira de gato e rato entre autor e leitor, que o portenho transformou na alternativa mais interessante e criativa à pesquisa linguística de James Joyce para se tornar o veio dominante da prosa do futuro, já era contida neste romance instaurador. Se o gênio de Dublin usava sua sesquipedal erudição lingüística para propor ao leitor uma espécie de jogo de armar, fazendo do texto literário o que as crianças fazem com peças que se encaixam para formar figuras à escolha da imaginação delas, o de Buenos Aires e, antes dele, o de Trieste propõem uma armadilha sutil em que a inteligência do leitor não é exigida para descobrir as raízes etimológicas do texto, mas a própria natureza deste. Onde está a mentira? Onde está a verdade? É uma seqüência de cenas de luz e sombra brincando de cabra-cega literária, a que o leitor é convidado a passear nos limites incertos da personalidade múltipla de Ettore-Italo-Zeno. Pode-se até dizer que Joyce foi o principal responsável pela aceitação daquele que apresentaria a saída para o impasse trazido à baila por Ulisses, mas principalmente por Finnegans Wake. O ar irônico do falso bonachão registrado na mais reproduzida foto do romancista italiano


provoca até um comichão neste escriba desautorizado a voar tão alto, levando-o a crer que, da mesma forma como “realiza um romance de linha psicanalítica”, mas “faz, igualmente, a própria crítica da psicanálise, questionando sua validade científica como um todo” (apud Salim Miguel, na resenha citada), este também escancara as portas que Joyce lhe abriu para mostrar que há outras vias pelas quais a literatura de boa cepa pode trafegar. Não há, é claro, parentesco evidente entre este romance caudaloso e as ficções curtas e os poemas de Borges. Mas é fascinante imaginar que ambos operam com maestria a narrativa numa língua canônica, que Joyce consideraria caduca, para conduzir o leitor pelo território indefinido entre a mentira que pode ser uma verdade incômoda e a verdade que talvez seja uma mentira conveniente. Só isso já justifica a fortuna crítica que esta obra-prima acumulou e a fama que ela amealhou, com justiça, de ter sido a fonte em que muitos dos melhores encontraram seus instrumentos literários mais argutos para expor as próprias dúvidas e escarnecer de certezas sob encomenda.


Relato de oração para uma santa que nem existe Santa Cruz da Serra há por toda parte. Não apenas em castelhano nas bordas da planície amazônica na Bolívia real nem somente no território fictício de um pedaço qualquer do mapa do Nordeste que o romancista inventou. Santa Cruz da Serra é um lugar comum, ao alcance de seus olhos, facilmente oferecido ao contato de suas mãos. Um dia qualquer você freqüenta uma cantina italiana e fatalmente nela reconhecerá a matrona preparando a alquimia de suas folhas, cereais, tubérculos e temperos, entre a horta e a mesa ou o doce anarquista que trocou os sonhos revolucionários da mocidade de proveta pela modorrenta vida adulta, quase provecta, num interior qualquer das Américas, buscado não para ser feito, mas apenas para ser conhecido, vivido, dividido. Na mesa ao lado pode estar sentado Fausto, não o cientista dedicado ou o músico de gênio a vender a alma ao anjo decaído em troca do conhecimento da fórmula do elixir da juventude,da sapiência total das coisas do mundo e dos homens, minha nêga, ou das partituras da sinfonia mais genial de todas as eras e do cosmopolitismo das moneras. O Fausto mais comum é aquele sujeito que vende os sonhos ao demônio em forma de gente, que às vezes até veste Prada, capaz de lhe prometer fortunas e lhe entregar apenas as migalhas de um banquete. Se você tiver um pouco de paciência, vai ouvir por aqui confidências do pobre diabo e saberá como Lúcifer, com quem trocou suas ilusões por cinza morna, é também o sujeito que lhe furtou a esperança de felicidade comprando a mulher de sua vida por umas gotas de perfume e um par de algemas de ouro cravejadas de diamante, compradas por uma pechincha no ourives vizinho. Do lado de fora do bar de sua Santa Cruz da Serra o jornalista venal, que vendeu a decência por três níqueis e barganhou a independência por uma garrafa de conhaque vagabundo, dormita sem sequer sonhar que a mulher que o pariu mendiga moedas dos outros e dele apenas um olhar. Assim é a vida na sua Santa Cruz da Serra. Certamente haverá um alienista, que é também a consciência alienada a do lugar incerto e mal sabido. E o homem comum, este ser sem eira, nome, sobrenome, fortuna, destino nem coração, se torna herói do nada, quiçá do talvez, não por excesso de bagos, mas, sim, por falta de estômago. Na vida real é isso: o acaso não é apenas um jogo de dados na banca de Mallarmé, mas definitivamente o crupiê do bacará, o sujeito que corta o baralho no buraco ou o que dá as cartas na sueca. No dia-a-dia do


vilarejo esmagado pelo sol ou da metrópole afundada na neve estão a seu dispor os ingressos para o espetáculo mais surpreendente do universo: a monótona e medíocre repetição da vida como ela é ou se passa por ser. Imagine só se um modesto professor de província, improvável freqüentador de uma livraria que nem sequer freqüentada chega a ser, e capaz de pôr termo a tudo tendo de responder processo pela morte dada como certa de uma miserável prostituta de beira de rio. Imagine se a senhora bem casada do todo poderoso do pedaço vai abrir mão do conforto de seus tafetás para hastear o estandarte rasgado e manchado de sangue dos rebeldes sem calças. O homem feliz em Santa Cruz da Serra usa camisa, sim. E com punhos de renda e abotoadura de ouro. Pode ser que esta felicidade seja efêmera, fugaz, fullgas, mas ela sempre vai emergir com o jeitão de uma luz furando o zinco da cortina de gases venenosos que escavam o ozônio além do horizonte. Santa Cruz da Serra, meu amigo, é seu mundo exterior e seu desabrigo à mão. Os caminhos que levam a este cenário de ruínas físicas e morais são feitos de desvios e sombras, desenhados pelos caprichos de um mago louco que não mora num castelo encantado, alcançado por um pé de feijão, mas no casarão à frente da praça principal. Luiz Crispim inventou a Santa Cruz da Serra dele neste romance. Mas ela só existe porque também se reflete na sua, que é outra e a mesma. E ela também se manifesta no seu espreguiçar lento, quando acorda de manhã bocejando, na cumplicidade silenciosa com que você suborna o guarda de trânsito que flagrou seu delito ou no ranger de dentes de seu bruxismo no sono de pesadelos na noite vaga e imprecisa que invade os trópicos e entorta a linha do equador. Tudo o que está neste livro, exposto de forma elegante, precisa e até sábia, é verdade. Ou, pelo menos, é verossímil, como os mestres da narrativa ensinam que uma boa deve ser. O casamento sem futuro do protagonista é a sombra da relação sem laços do antagonista. A perseguição implacável de um ao outro é tão inexorável quanto a sucessão das estações do ano e o rodízio de dias úteis e visitas externas com que o lugar imaginado pelo ficcionista constrói sua identidade. Santa Cruz da Serra é Gravatá, João Pessoa, São João do Cariri e pode ser Veneza ou Bagdá, Cabul ou a Dublin da algaravia de James Joyce. Esta novela é um novelo com fios que se bifurcam nas esquinas de um povoado fantasma e empoeirado, digno de ser encenado pelo maestro da imagem em movimento Sérgio Leone. A graça dele está na desgraça fria que serve de manto para seus personagens, marcados sem exceção pelo tédio, pela inércia e pela inutilidade. A maldição dele é a busca sequiosa pela bênção que o redima no mistério da louca da praça, no estoque de pinga do boteco mais infecto do bairro menos assistido e nos balões de


oxigênio, imobilizados por seu peso e por sua incapacidade de impedir que o os fados e enfados de alguém ou de alguns sejam mudados. Esta novela de Crispim, com começo, meio e fim, refaz o trajeto de Caim perseguindo o manso Abel (e vice-versa), a história do gênero humano em pílulas que não se douram e capítulos incapituláveis. Pare de procurar fora de si mesmo a Santa Cruz da Serra que não consegue sair de você, embora você já tenha saído dali tanto tempo. Afinal, no fundo, no fundo, mais que um lugar, o cenário deste livro é sua alma, o destino manifesto de quem se perde da nobreza por algum motivo fútil e a danação implícita de quem se perde a meio caminho entre o talvez e o quem sabe, o nada e o coisa nenhuma. Há entre o cerro e a cruz mais mistérios do que pode conter o medo, como entre a manta e a muleta o mar se põe e o Sol se lava. Entre a cruz e o cerro há dor e delícia, cincerro e serrote. Pois este burgo inexistente de Santa Cruz da Serra não é estado de espírito, mas espírito de estado. Amém.

Prefácio do livro O herói sem rosto, de Luiz Augusto Crispim


O poeta de bancada é, por necessidade, um pau-pra-toda-obra. Mas até nisso o cearense Antônio Clevisson Viana de Lima exagerou. Se seus antecessores na arte ancestral de fazer romances em versos rimados e metrificados para as populações simples do interior nordestino se viam obrigados a ilustrar e imprimir seus folhetos antes de dependurá-los nos cordéis para vendê-los nas feiras-livres sertanejas (daí, o nome do gênero), sendo homens de sete instrumentos para sobreviver, não será exagero dizer que o tema deste livro é um homem de 70 instrumentos – ou quase. Com apenas 31 anos de idade, Klévisson, como se assina o poeta, ou AKLÈVISSON, como registra nos acrósticos das estrofes com que, de forma tradicional, conclui seus romances, cria, desenha, diagrama, imprime e comercializa suas obras, além de se encarregar de fazê-lo para mais de 40 outros criadores do gênero, os sem-prelo. Sem trair a tradição, ele o faz utilizando-se das técnicas mais atuais, rimando poesia com tecnologia como poucos: impressão em off set e marketing up to date. Klévisson nasceu (em 3 de novembro de 1972) no interior do Ceará, no burgo de Quixeramobim, do qual, traído pela mulher, vestindo uma bata de tecido rústico e empunhando um cajado, partiu rumo ao sertão da Bahia, onde fundaria Canudos no fim do século XIX, Antônio Vicente Mendes Maciel, que, conhecido pela alcunha de “Conselheiro”, ganharia as páginas da História e seria tema do maior clássico da Literatura Brasileira, Os Sertões, de Euclydes da Cunha. Na Fazenda Ouro Preto (que, segundo ele, os matutos locais chamavam de “Toco Preto”), aprendeu a ler como todos os meninos sertanejos na Carta do


ABC. Na cidade onde nasceu chegou até o primeiro ano do segundo grau, pois em 1980, ao completar oito anos, mudou-se com a família para Canindé.

Para o sertanejo, pois, Canindé é uma espécie de Meca ou Medina da fé católica nos poderes miraculosos da fé em seu padroeiro, São Francisco das Chagas. Na Basílica é possível encontrar de tudo o que se encontra em Aparecida do Norte, Lourdes ou Fátima: cultos religiosos, velas acesas e ex-votos. Nas proximidades dela também é encontradiço o comércio que gira em torno de todos os lugares para os quais acorrem multidões: santeiros, vendedores de velas, artesãos que fabricam reproduções monstruosas dos órgãos pretensamente beneficiados pelos milagres, comida, bebida e bugigangas em geral. No caso específico desses centros de fé no interior nordestino, há uma natural ocorrência de artistas e poetas populares, dos desenhistas de retratos aos poetas de bancada. De família de camponeses pobres, forçado a trabalhar para prosseguir nos estudos, Klévisson ingressou naquele mercadão ambulante aos nove anos de idade, vendendo bombons no inverno, artigos religiosos no verão e velas no Dia dos Finados. Dessa forma, travou contato com sertanejos de todos os rincões nordestinos, peregrinos pagando promessas ou em busca de milagres no pátio da Basílica. E


também se tornou amigo de cordelistas vindos de outros lugares para vender sua arte aos romeiros do Canindé.

Desde cedo, o pequeno vendedor ambulante manifestara também uma queda natural para o desenho. Note-se que as artes gráficas desempenham um papel de supina importância no desenvolvimento da poesia de bancada no interior do Nordeste. É necessário aqui abrir parêntesis para lembrar que os folhetos de cordel substituíam os meios de comunicação nas vilas interioranas nordestinas no começo do século XX. As capas dos romances reproduziam normalmente clichês contendo fotos relativas aos fatos neles descritos ou de artistas da moda para o caso de episódios de amor ou versões simplificadas de clássicos da literatura, principalmente da literatura europeia medieval. A necessidade de chegar logo ao público, sem ter de esperar a demorada viagem dos clichês das gráficas dos jornais da capital até o interior levou os poetas e gráficos a recorrerem a santeiros e outros artistas populares, encomendando-lhes xilogravuras, que passaram a substituir os clichês nas capas dos folhetos dos anos 1930 para cá. Mas, como lembra o próprio Klévisson em entrevistas dadas a jornais do Brasil ou do Exterior, ou para pesquisadores acadêmicos do tema, até hoje o público tradicional sertanejo prefere as capas com clichês às xilogravuras, favoritas, por sua vez, seja dos turistas nacionais ou estrangeiros, seja desses pesquisadores de universidade, brasileiros ou estrangeiros. Os parêntesis, aqui fechados, foram necessários para esclarecer que a vocação, que se tornaria destino, do camelô infante de Canindé, também tinha a ver com seu convívio com mercadores do pátio de milagres da Basílica, na infância e na pré-adolescência. E foi dessa mistura de artista e comerciante que nasceu o precoce promotor e agitador cultural canideense


do final dos anos 1980. Aos 14 anos de idade, ele já fazia ilustrações para jornais de bairro daquela cidade. E antes de deixar a terra de adoção, passando a viver desde o último decênio do século XX na capital do Estado, Fortaleza, usou sua experiência de vendedor ambulante para promover, ainda adolescente, salões de humor e outros eventos culturais na cidade que deixaria para continuar a perseguir seu destino num centro mais apropriado e mais avançado a seu enorme talento, sua vocação e seu destino inexoráveis.

Sua carreira de desenhista, iniciada precocemente, tem sido, sem favor algum, brilhante: em 18 anos de carreira, assinou dezenas de capas e ilustrações de livros e folhetos de cordel. Foi editor, com o jornalista Tarcísio Matos, da página Muro Baixo, com charges, cartoons, caricaturas e piadas em textos, em outro jornal de Fortaleza, a Tribuna do Ceará. Nela publicou, além de seus desenhos frases que denunciam seu talento para o humor escrito, tais como esta: “O cúmulo do ecologismo é comer flores para enfeitar os vasos sanguíneos”. Vendo o irmão Arievaldo Viana desenhar tiras de comics, ele descobriu seu talento de quadrinista, com o qual se tornaria vencedor do prêmio nacional HQ Mix, o mais importante do País no gênero, na categoria


graphic novel, com sua historieta Lampião... Era o cavalo do tempo atrás da besta da vida, cuja edição (de início, por ele mesmo bancada, mas disso aí se tratará mais adiante) já vendeu mais de 10 mil exemplares. A historieta (cuja segunda edição foi lançada pela Hedra) narra o massacre de Angicos, a grota sergipana em que as tropas policiais, sob o comando do tenente Bezerra, deram cabo, em 1938, de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, Maria Bonita e o núcleo de comando do grupo de cangaceiros mais famoso de todos os tempos. Com linguagem cinematográfica, técnica visual irrepreensível e uma pesquisa semântica (ele diz ter levantado 400 expressões de gíria sertaneja para escrever os diálogos das tiras) e iconográfica muito cuidadosa (o último capítulo – intitulado “Cacarecos, catrevagens e garatujas” - do livreto reproduz as vestimentas e utensílios dos cangaceiros e seus coiteiros e vítimas), ele atingiu seu objetivo de mostrar ao público leitor as diferenças existentes entre Tom Mix e Corisco. Para quem achar estranha essa afirmação talvez seja útil informar que a transformação do cangaço em western brasileiro tem propiciado uma estranha simbiose entre o vaqueiro do oeste americano e o bandoleiro do Nordeste brasileiro, não apenas para as populações do Sudeste e do Sul distantes, mas também para o próprio público nordestino. A pesquisa acurada dessa “saga em quadrinhos de Klévisson” – que inclui a leitura de 26 livros, 18 artigos de jornais e revistas e 7 folhetos de cordel, além da visão de 13 filmes, entrevistas pessoais com Vera Ferreira, neta de Lampião, e com o especialista Antônio Amaury Corrêa de Araújo, e até a participação num simpósio sobre o tema na Fundação Memorial Padre Cícero em Juazeiro do Norte, Ceará – levou a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo a adotar a obra como “material paradidático”. E foi um condão para o autor, como revela, ao reconhecer: “Esse trabalho abriu inúmeras portas. Tive matérias publicadas em jornais e revistas de todo o Brasil.” Ele mereceu o comentário entusiástico do especialista paulista Álvaro de Moya, em sua introdução: ´”É extremamente saudável quando vemos uma produção nacional fora do eixo Rio-São Paulo. Seja no cinema, teatro, música, balé ou qualquer outra área artística. A cultura brasileira deve se manifestar em todos os pontos do País. Aqui, neste caso, temos uma história em quadrinhos concebida e realizada em Fortaleza, Ceará. E com uma temática telúrica, nascida da terra castigada. Celeiro dos problemas sociais graves, distorcidos pela exploração do homem pelo homem. A Guerra de Canudos, a Marcha de Prestes e verdadeiras obras-primas da literatura nasceram aqui. Também a revolta popular dos cangaceiros, cujo nome mais famoso é enfocado pelo artista


Klévisson: Lampião. Com um traço pessoal e um enfoque original, linguajar característico e grande pesquisa, Antônio K. Viana Lima conseguiu um trabalho uno e impressionante.”

A Tupynankim foi criada numa época em que são cada vez mais raros os prelos de cordel pelo interior do Nordeste. No fim do século passado, o professor Átila Almeida e o poeta popular José Alves Sobrinho fizeram uma paciente e detalhada incursão pelos sertões nordestinos em busca delas e só encontraram praticamente lembranças. Os velhos prelos sumiram – e com eles os verdadeiros poetas de bancada, reunidos numa preciosa Biobibliografia que esses dois denodados especialistas realizaram para a Universidade Regional do Nordeste, em Campina Grande, Paraíba. O próprio Klévisson, que se tornou um especialista no assunto, é capaz de contar os sobreviventes na ponta dos dedos: além dele próprio, os renitentes José João dos Santos, o célebre Mestre Azulão, Elias A. de Carvalho, Gonçalo Ferreira, José Costa Leite, José Mapurunga, seu irmão Arievaldo Viana Lima, Rouxinol do Rinaré, Vidal dos Santos e Manoel Monteiro, que escreve clássicos do romance de bancada, manuais para a sobrevivência de diabéticos e livretos de ocasião, além de lutar para criar em Campina Grande um monumento ao poeta popular. O ouvinte atento dos folhetos da avó em Quixeramobim, camelô precoce de Canindé, criador dos salões de humor de Fortaleza e competidor da Luzeiro (editora paulistana, que ainda reúne o acervo mais


completo dos clássicos do gênero no Brasil, a mais de 2 mil quilômetros de seu público original, mas no centro da diáspora nordestina, o bairro do Brás, na maior metrópole nacional) merece estar nessa plêiade. Uma antologia de seus versos de divulgação ou de ocasião nesta edição lhe dará, preclaro leitor, uma ideia aproximada da variedade do talento desse romancista, repórter e versejador, que lamenta não ser repentista, por falta de coragem (o que significa que não lhe falta talento).

1 – O repórter – Como já teve este escriba, que abusa de sua paciência de leitor, ocasião de observar, um veio importante da tradição cordelística sertaneja é o improviso sobre a realidade. Sem jornais que circulassem no interior, sem acesso às transmissões radiofônicas e ainda sem televisão, os sertanejos tomavam conhecimento dos fatos cotidianos ou históricos através dos romances que adquiriam nas feiras-livres semanais de suas acanhadas cidades. Numa prova de que de repentista Klévisson tem o talento, embora lhe falte a coragem de improvisar em cima dos rigorosos cânones da cantoria poética, ele não tem deixado escapar fato relevante que lhe mova o estro. Lembre-se o preclaro leitor do jegue impávido que levou mísseis ao alvo desejado por seus donos, terroristas iraquianos, desafiando o poderio militar americano, causando tumulto nas ruas da Bagdá invadida e passeando pelo meio daquele caos todo como se nada tivesse com a hora do Brasil, como diz o povo dos sertões daqui. Pois bem, ao que saiba este introdutor, até escrever este texto, essa imagem da impotência do poder continua inédita nos versos de Klévisson. Mas, numa evidência de que poesia e profecia são mais que rimas, o jovem versejador cearense não deixou escapar a notícia de jumentos vendidos a R$ 1 real a cabeça, que


considerou pejorativa e foi dada no programa de Jô Soares na Rede Globo de Televisão. E produziu, em parceria com o irmão Arievaldo, o irresistível folheto Carta de um jumento a Jô Soares. A carta teria sido ditada a Rachel de Queiroz, conterrânea de Klévisson recentemente falecida, em sua fazenda de Não me Deixes. Aqui reproduzo um verso do recado, dado ao humorista de TV pelo humorista do cordel: Ás vezes eu me pergunto Como simples animal Sem nós o que é que seria Da História Universal? Trabalhamos pra valer E vem você nos dizer Que só valemos um real? E para não dizer que o jegue de Bagdá foi esquecido pela concorrência desleal do jegue do Ceará, é útil que se registra que não passou despercebida ao poeta a invasão pelos americanos daquele país asiático. Ela foi registrada em versos por ele, numa parceria com Geraldo Amâncio, O conflito do Iraque e os três tiranos da guerra: George Bush está querendo Ser de Deus substituto Pra ele, só ele é dono Do poder absoluto Só ele é quem é legítimo, O resto é subproduto. Da mesma forma como não lhe havia passado sem registro o fato mais importante da História deste século XXI (e pretexto para a invasão do Iraque pelo César Bush) - os atentados terroristas que demoliram as Torres Gêmeas em Nova York e parte do Pentágono, em Washington, em 11 de setembro de 2001. Em mais uma parceria com Arievaldo, Klévisson registrou:

Milhares de inocentes Perderam a vida num dia


Vítimas de um atentado Retrato da tirana Conflito, ódio e vingança Formaram esta alquimia. Com as limitações impostas pelas dimensões desta apresentação (até por não querer ocupar o espaço que o leitor teria lendo as obras selecionadas do próprio autor), convém ainda chamar a atenção para alguns registros que o poeta-repórter fez de fatos importantes da História contemporânea do Brasil: a morte do prefeito de Santo André e coordenador de programa de governo da campanha de Lula, do PT, à Presidência da República, Celso Daniel, e a vitória do próprio Lula na eleição presidencial de novembro de 2002. Eis aqui uma estrofe de A peleja de São Paulo com o monstro da violência, em parceria com Téo Azevedo, para dar uma ideia da agilidade do repórter cordelista que versejou sobre o apagão, no momento em que ele ocorria e que no meio da confecção deste folheto registrou um fato corriqueiro para dar exemplo de como o tema o assaltava em plena terra de Piratininga: Enquanto a gente escrevia Esta história de cordel Do sétimo andar assistimos O roubo de um corcel Já era de madrugada Sem podermos fazer nada Contra o bandido cruel. Agora outra estrofe, desta vez de A grande vitória de Lula – O Brasil sem medo de ser feliz:

O que nosso povo espera É um Brasil soberano (Uma Pátria bem mais justa) E um líder mais humano, Pra livrar nosso povo Do amargo desengano.


2 – O romancista – Se não chegavam jornais ao interior nordestino, também não sobravam livros por lá, a não ser nas casas paroquiais (numa delas este escriba aprendeu a amar as letras) ou nas inacessíveis (até aos próprios donos) bibliotecas particulares das elites dominantes. O povo, que frequentava as feiras livres, se encantava com as histórias de Sherazade das 1001 noites e de duques e donzelas medievais pelas versões que delas faziam os grandes cordelistas, entre os quais os preferidos de Klévisson – Leandro Gomes de Barros, o maior de todos e por ele biografado num folheto, José Pacheco, José Camelo e Joaquim Batista de Sena, etc. O jovem cearense se mostra um fabulador à altura de clássicos como Pavão misterioso ou O País de São Saruê ao recriar as viagens de aventuras de Hércules e outros heróis mitológicos a partir de padrões fixados na literatura medieval europeia e reproduzida nos folhetos de cordel de antigamente. Merecem ser destacados dois títulos de escol: O boi dos chifres de ouro ou o vaqueiro das 3 virtudes e O príncipe do oriente e o pássaro misterioso, que se tornam merecedores desde sua publicação de figurar em qualquer antologia do gênero que seja digna dessa denominação. Eis, como exemplo, a penúltima estrofe do segundo romance de ficção: Mariana e Tranquilizo, Muito felizes, casaram... Do mesmo ouro do chifre, Os anéis encomendaram (Dinheiro e felicidade Do velho e do boi herdaram). 3 – O quengo – O chifre, não o de fantasia, de ouro, do boi desse romance, mas o metafórico, é tema de outro gênero em que Klévisson se destaca, como, aliás, já foi insinuado no início deste texto: o humor, danação de cearense. Os “quengos”, definição dada para os amarelos que conseguem driblar a desgraça com jeito e graça, tornaram-se famosos com sua celebração em O Auto da Compadecida, momento mais alto da comédia teatral brasileira, em que o mestre Ariano Suassuna consagra Chicó e, principalmente João Grilo, amarelo, cuja saga celebra a substituição da valentia de vaqueiros mitológicos, como Tranquilizo, em sagacidade. No reino de Pedro Malasartes, Canção de Fogo, Bocage e Camonge (sim, os poetas portugueses viraram “quengos” no sertão), Klévisson pontifica. São de sua autoria obras como Viagem ao país de São


Cornélio, na qual, sob o pseudônimo de Espírito Santo de Antenor Galhudo, glosa a traição conjugal, tema recorrente no humor popular, O cantor e a meretriz ou a puta que comia fotos do ídolo, Viva a Vaia! O dia em que o Ceará mangou do Sol ou ainda O rapaz que namorou com a velha dos papangus pensando que era a Carla Perez. A meio caminho entre humor e reportagem situa-se Martírios de um alemão ou “O conto da Cinderela) (A comédia do turismo sexual). 4 – O historiador – Klévisson e seus parceiros também fizeram incursões na área da história e da biografia, abordando assuntos que vão do cangaço (A história Completa de Lampião e Maria Bonita, em parceria com Rouxinol do Rinaré, com quem também assinou Os Sertões de Conselheiro de Euclides e Gereba) ao cinema (Charlie Chaplin, o Carlitos: Do Big Bem à coluna da hora). 5 – O inventor de episódios – A reprodução de desafios de repentistas (pouco importando se ocorreram ou foram inventados) tornou-se um gênero importante mormente por causa do extraordinário sucesso feito pelo folheto contando a peleja entre o Cego Aderaldo e Zé Pretinho. Klévisson também frequenta o gênero com A insustentável peleja de Zé Maria de Fortaleza com Calixtão de Guerra, O tremendo duelo de Quirino Beiçola com Tomaz Tribuzana, A grande peleja de Beneval com José Mota Pinheiro, etc. 6 – O adaptador – Outro hábito frequente entre os cordelistas é o da adaptação, não apenas de romances clássicos da literatura medieval europeia ou clássica grega, mas dos próprios colegas folhetistas. Klévisson também não deixou de visitar o gênero, indo de Homero (Helena de Tróia e o cavalo misterioso) a Zé Pacheco (cujo clássico A intriga da cachorra com o gato virou seu O divórcio da cachorra), passando por A história de João e o pé de feijão. Da feira-livre à telinha - Para não tornar essa introdução ainda mais cansativa do que já ficou, convém encerrar lembrando que não apenas Jô Soares atendeu ao apelo do cordelista (“espero que tenha espaço / Na sua televisão / Para ler minha cartinha”, reza o folheto Carta de um jumento a Jô Soares), levando-o ao programa, para deleite da plateia, como a Rede


Globo de Televisão adaptou para a série Brava Gente um romance de autoria do assunto deste texto – A quenga e o delegado, cuja última estrofe reza (em acróstico, como convém):


Esse folheto faz parte do catálogo da editora, com quase duas centenas de títulos e, ao ser adaptado pela televisão, mostra que Antônio Clevisson Viana de Lima usou a vocação e cumpriu o destino para confirmar o que disse em entrevista a Sylvie Debbs, autora de um texto de apresentação desta coleção, publicada na revista francesa Lattitudes: “(O cordel) é uma arte viva. Enquanto houver poetas no Nordeste, haverá cordel!” Amém, poeta! Amém, nós todos!


Mário Chamie na sua: a verve a serviço da verdade Quando Chamie se refere a Mário de Andrade, chamando a atenção do leitor para o fato de que o autor de Macunaíma tem um discurso sincrônico, “o que nos permite ter uma visão do todo a partir de uma obra isolada”, ele não deixa de se estar referindo a outro poeta de prenome Mário – ele próprio. Assim como o de Andrade, o outro Mário tem um percurso identicamente sincrônico na literatura em que milita: na poesia assim como na prosa ensaística, seu trabalho é revolver a palavra como o lavrador revolve a terra, germiná-la como faz o semeador e vê-la brotar até se tornar uma árvore frondosa e cheia de frutos. O ensaio que abre seu livroA palavra inscrita (Funpec, 2004), é, portanto, duplamente revelador: ao ser consistente na apresentação da hipótese de que qualquer crítico cometerá grave erro se tentar isolar um texto do escritor que ele analisa, distinguindo o folclorista do romancista, este do poeta e o poeta do militante da cultura, o fundador da Práxis também deixa claro que não é correto dissecar um texto isolado de sua lavra – seja um ensaio, seja um poema -, sem ter em mente de que ele faz parte de um universo maior, de um combate que se prolonga ao longo do tempo e se trava num espaço tão amplo quanto possa ser a espaçosa galáxia dos signos verbais. A palavra inscrita é uma coletânea de ensaios, artigos para a imprensa, conferências e entrevistas de perguntas e respostas, textos nos quais o autor se revela por inteiro e de forma profunda, escrevendo e falando sobre um tema que domina como poucos: a palavra, não apenas a oral ou a escrita, manifestações superficiais, mas sobretudo a “inscrita”, como indica o título. A abordagem do autor é semelhante á leitura de um palimpsesto – termo grego que traduz a superposição em camadas de um texto sobre outro nos pergaminhos medievais – o que permite a revelação de textos ocultos que persistem apesar da superposição do que se faz revelar. Mário recusa, seja como poeta, seja como prosador, seja como ensaísta, a condição menor de manipulador do signo verbal: ele se propõe a flagrá-lo em movimento ou em pleno processo de expansão. Renovação na revisita – Numa das entrevistas anexadas ao


livro, o poeta reivindica a condição de renovador de si próprio. Ou seja, cada nova obra sua é uma visão original e instigante dos processos de composição que ele mesmo havia desenvolvido nas obras pregressas. Essa declaração, é em si mesma, uma profissão de fé e uma definição exata de tudo quanto ele vem fazendo desde que, há 42 anos, patrocinou a instauração práxis, recuperando com Lavra lavra o verso desestruturado pelos modernistas em 22, venerado pela geração de 45 e decomposto pela vanguarda concretista, da qual ele foi contemporâneo. E fazendo mais que isso, ao enfrentar a tendência de parte da crítica (seguindo a voga estruturalista) e da poesia brasileira pós-cabralina de petrificar e totemizar a palavra, como se ela fosse um objeto em si, quem sabe o “seixo” descrito no poema de Francis Ponge que, à guisa de ilustração de um ensaio sobre o poeta francês, é reproduzido em anexo neste seu livro novo. Da mesma forma como propõe uma nova leitura unificadora da obra plural de seu xará no ensaio que abre o livro, o ensaísta de A palavra inscrita revela a fluidez do mel de engenho que há por trás do rigor formal de seu colega pernambucano João Cabral de Melo Neto: chama ele a atenção do leitor para um aspecto que passou despercebido de praticamente todos os seus exegetas, alguns dos quais tidos e havidos como sacerdotes supremos da análise literária no Brasil. Sob a rigidez mineral da precisão formal do texto aparente do poeta que se destacou entre todos os seus pares na segunda metade do século 20, não apenas no Brasil, mas também no mundo inteiro, Chamie resgata subtextos tão ou mais importantes que essa característica apontada em uníssono como não apenas a mais importante, mas praticamente a única. Sertão, mar e mel - É instigante a forma como ele delata as lacunas na leitura crítica da obra cabralina, ao perseguir nela a extensão do mar nas dunas, das dunas no canavial e, por fim, do mar de cana no relevo topográfico ondular do semiárido. Chamie revela ao leitor os subtextos fluidos do palimpsesto poético de Cabral, mostrando que sob a dialética mítica e mística do sertão/mar subsiste uma síntese fractal, que faz justiça à enorme capacidade plástica do poeta por excelência da paisagem, que foi o mestre recifense. A palavra no universo cabralino – ele mostra ao ler, ao comentar e ao puxar o leitor pela mão para lhe mostrar com clareza, citando e recitando exemplos convincentes – não é


imóvel nem, muito menos, imutável. Nessa visão nova, sedutora e revolucionária do autor, João Cabral, conterrâneo do gênio da raça Gilberto Freyre - que Chamie coloca no panteão que lhe é devido -, produz debaixo do texto mineral revelado na superfície camadas de poesia fluida como o mel de engenho, metáfora que percorre outros veios e sulcos abertos ao longo do livro aqui comentado. A indefinição física do subproduto da cana moída também é lembrada na leitura crítica do autor da crítica feita por Lévi-Strauss a nossos Tristes trópicos, a respeito da qual este texto se refere logo abaixo. Antes disso, convém chamar a atenção do leitor interessado pela inversão proposta pelo atento leitor de João Cabral, que Chamie sempre foi e continua sendo: a contestação da imobilidade pela fixação do conceito oposto, o da “poesia peregrina”. Para apoiar seu comentário de que o veio poético cabralino segue o curso dos rios que lhe servem de tema – ele, que é por excelência o cantor do Capibaribe e do Beberibe -, Chamie recorre em mais de um ensaio a uma citação convincente: “Para os bichos e rios / nascer já é caminhar”. Frutos de um estro poético genial, esses dois versos sugerem o movimento que explicitam e vão além, parafraseando a secular constatação filosófica de Heráclito de Éfeso, para quem ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio. Preconceito versus conhecimento – A descoberta de ângulos novos na leitura crítica de uma poesia dissecada até os ossos como é a de João Cabral revela a erudição e a inteligência de quem a faz, mas também não deixa de denunciar seu gosto pela oposição e pela polêmica. Ao jovem colega Rodrigo Petrônio, em entrevista, Mário revela que sempre fez questão de enfrentar os consensos. E o fez sem medo em sua luta quase fratricida contra os irmãos Campos como continua a fazê-lo ao enfrentar o establishment acadêmico “uspiano” ao examinar criticamente a obra de um de seus mitos fundadores, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss e defender uma das vítimas mais notórias de sua patrulha ideológica, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. O analista agudo que não teme polêmicas promove a demolição do mito dos Tristes trópicos usando a arma favorita daqueles que o adotam com a mesma convicção com que detestam o autor de Casa


Grande & Senzala. Baseando-se no relato do próprio antropólogo, Chamie desnuda seu método eurocêntrico e branco de interpretar a realidade desconhecida do trópico que visitou e tentou, em vão, entender e, o que é pior, consertar. A visão preconceituosa, racista até, de Lévi-Strauss pode muito bem ser qualificada como “colonialista” no sentido dado pelo ensaísta, ao contrapor os métodos coloniais da Europa anglo-saxã, contrapostos à colonização da miscigenação promovida pelos portugueses e registrada na obra de Freyre, tal como o relata Chamie. O método “científico” de elaborar um sistema e, depois, ir a campo ver como a realidade pode confirmá-lo é usado até hoje por cientistas sociais brasileiros, muitos dos quais formados na USP, que o francês ajudou a criar. Estes tratam Chamie como um inimigo a ser combatido e este não costuma deixar desaforo sem resposta. Daí, a notória (e, por que não dizer, estúpida) cortina de silêncio que se abate sobre seu discurso crítico e, sobretudo, sua obra poética numa academia regida pela confirmação do preconceito e não pela busca do conhecimento. “Aquele” Gilberto – Com a mesma coragem de combatente e polemista com que critica Lévi Strauss e, com ele, todo o mito da superioridade da ciência branca sobre a “superstição” afro-índia, Chamie faz justiça ao trabalho luminoso de Gilberto Freyre. Cita um estudo do inatacável Antonio Candido de Mello e Souza e, como convém quando se cita um totem da crítica acadêmica nacional, lhe presta todas as homenagens em adjetivos. Mas lembra que o título do estudo, “Aquele Gilberto”, revela por si só a posição dúbia da intelligentsia “uspiana” sobre o mais importante sociólogo brasileiro de todos os tempos. O “aquele” define com clareza os dois Gilbertos, tal como o cientista social pernambucano foi tratado pela USP: o fundador da Nova Sociologia brasileira com Casa Grande & Senzala, respeitado no mundo temperado e, por isso também, aceito aqui nos trópicos, e o “conservador” atacado como se fosse (o que não era) cúmplice da tirania militar sob cuja égide o Brasil viveu em sua velhice. O estudo de Chamie é exemplar, por expor os defeitos e vícios da crítica estruturalista-marxista ao mestre de Apipucos – fraquezas de natureza teórica e de mera vilania pessoal – que em nada diminuem a importância da obra do mestre, mas apenas revelam a escala liliputiana de seus detratores. Além do material acima citado, a coletânea de textos publicada no


novo livro propõe uma forma de interpretar o texto de Euclides da Cunha como uma obra de arte em si mesma e não como um veículo panfletário de um pensamento científico a que se tem tentado reduzi-lo. Inclui ainda estudos – todos eles no mínimo provocativos – da obra do poeta negro simbolista Cruz e Souza e até de um opúsculo de Betty Milan sobre o amor, julgado sob o prisma de um clássico antigo do cancioneiro brega nacional, Coração materno, de Vicente Celestino, regravado por Caetano Veloso na época tropicalista. Aliás, a MPB é abordada num ensaio sobre a influência da Instauração práxis nas letras de Chico Buarque, Gilberto Gil e do citado Caetano Veloso. Há também uma palestra sobre a literatura brasileira neste século 21 e um verbete sobre danças populares escrito para um dicionário da lusofonia, que está sendo preparado em Portugal. E há, por fim, um ensaio interessantíssimo sobre o maior prosador brasileiro de todos os tempos – “Machado na sua” –, que dá bem uma ideia da verve e da atenção do leitor que o escreveu: ele parte de uma citação do autor de Dom Casmurro que poderia ser usada pelos jovens de Ipanema nos anos 60 - “Eu ainda estou na minha: acho que foi a nostalgia da lama”. Essa sentença dá bem uma ideia do espírito do autor e de sua obra: a curiosidade instigante e polêmica a serviço da restauração da verdade histórica escondida nos palimpsestos canônicos das igrejinhas no comando da academia excludente.


Delicado testemunho Mônica Rosenberg é herdeira e testemunha de uma das maiores tragédias coletivas da história da humanidade – o holocausto judeu durante a brutal ditadura nazista na Alemanha de Hitler. Seu testemunho pungente, sensível e perspicaz é uma forma ao mesmo tempo profunda e delicada de lidar com esse tipo de memória. As lembranças são terríveis e quem não viveu os momentos pelos quais ela e seus ancestrais passaram pode ter a ilusão de que aquela experiência foi uma exceção à regra, uma anomalia que precisa ser relegada ao esquecimento, mas o oblívio nada purga nem redime. Os escritos deste livro impressionam pela naturalidade com que a autora narra a brutalidade, a frieza e a desumanidade dos algozes, sim, mas como algo que faz parte do cotidiano: a dolorosa transformação da dor e do medo em rotina, o convívio com o monstro que encurrala os inocentes no escritório, em casa, na rua, no café e até mesmo no mais íntimo de suas almas e de seus corações. Como outra judia, a filósofa alemã Hannah Arendt, a narradora destes quadros do cotidiano de antes do conflito, da guerra propriamente dita e de depois do armistício traz para a vida corriqueira, que flui nas padarias, nas salas de estar e nas plateias das casas de entretenimento, o retrato em movimento da banalização do Mal e da persistência silenciosa e quase imperceptível do Bem, que brota no meio do sofrimento como uma flor no pântano, um quase invisível e aparentemente indefeso arbusto que nasce e persevera nas fendas dos monólitos. Este é um livro que deve ser lido em silêncio, em homenagem aos heróis comuns, por ele retratados, que tombaram na batalha contra os demônios que teimam em nos habitar, mas também como uma homenagem festiva, quase uma libação, por quem conseguiu se erguer e vir à luta para testemunhá-la. A memória de cada batalha é a melhor forma de que dispomos para aprender que a vida é bela e é feia, é suave e é cruel, pois é humana - um apanágio de glórias e um abismo de perdição. O poeta Arthur Rimbaud diz ter perdido a vida por delicadeza. Mônica no-la traz de volta... delicadamente.


Arte e Arteiros

Da infância, no sertão, só guardo lembrança de um único amigo: meu irmão Nilton, um ano mais novo. Brincávamos muito juntos, mas não me lembro de termos possuído brinquedos, destes produzidos em indústrias, naquele tempo de plástico, mas ainda não estes gadgets, bugigangas eletrônicas e complementos de luz, imagem e som que hoje predominam nos folguedos infantis. Brinquedo mesmo, no sentido pelo qual se entende a palavra hoje, só me lembro ter possuído um cavalo de pau, sobre o qual procurava imitar Roy Rodgers, Buck Jones ou Hapolong Cassidy, mas sem as camisas de franjinha, as cartucheiras nem os revólveres de plástico que Carlos Antônio, da minha idade, possuía e exibia com garbo. Meu irmão e eu costumávamos brincar com latas vazias de Toddy, que sob nosso controle se tornavam carros, prédios, monumentos e até pessoas. Crianças mais dadas ao esforço físico disparavam nas ruas em patinetes e carrinhos de rolimã, fabricados com rolamentos abandonados de automóveis. O que enriquecia e até enobrecia aquele lixo industrial era a imaginação: brincar, desde sempre, foi, é, a arte de tirar aventuras e prazeres do escasso, às vezes do nada. Mais até que isso: o exercício de animar, não no sentido estreito de alegrar, mas, sim, no mais amplo, o de dar anima (alma, em latim) a objetos inanimados. Daí, a proximidade existente entre artistas e arteiros, tanta que as duas atividades nem sempre se diferenciam: quem faz arte muitas vezes também a produz. E vice-versa. Esta exposição mexe com animação, nesse sentido lato de dar um sopro de vida em matéria morta e também no outro, do movimento, da mobilização. Fazer ficção é brincar com palavras escritas. O teatro, uma brincadeira de gestos e palavras faladas. Dentro de nós moram artistas e arteiros, muitas vezes até artistas arteiros: somos gente que pinta o sete e vai ao parque andar de roda gigante e girar no carrossel. Gente comum ou singular: meninas que jogam bola e marmanjos que não se envergonham de brincar de boneca. Mamulengos na maleta, monjolos em miniatura, rói-rói na barraca da feira livre: objetos que nos remetem à infância dentro da carcaça que


enruga, engorda e cai. Brincar, jogar, tocar, fazer arte: jeitos de manter serelepe a velha inocĂŞncia original, nunca perdida.


O taumaturgo da Mantiqueira

Dailor Varela nasceu em Anápolis (GO), criou-se na Swinging London do Nordeste, a Natal (RN) de seus pais, Raul e Floripes, passou por São Paulo e São José dos Campos e vive em Monteiro Lobato. O lugar é adequado, não por se referir ao ilustre colega, mas, sim, porque ali pode exercer em sua plenitude, respirando o ar rarefeito da serra e bebendo água da bica, sua real vocação: o eremita da Mantiqueira cultiva a solidão, como raros. Ao contemplar o verde dos bosques ao redor, não se perde em divagações, mas segue o exemplo de São Jerônimo fazendo milagres de palavras: De seus dedos longos brotam regatos de versos e crescem palmeiras de poemas. O taumaturgo Santo Daí obra, no Vale do Paraíba, maravilhas com a novelha língua de Camões, Machado e Eça, assim como já os operou com poemas visuais de vanguarda no tempo do poema/processo. O roqueiro Dailove imprime ritmos sutis aos percursos verbais, da mesma forma como, nossweet sixties, desconstruiu logomarcas para torná-las signos de uma nova linguagem, o código pelo qual se comunicavam os Beatles, os Rolling Stones e os Quatro Loucos de João Pessoa, ao som da guitarra de Zé Ramalho. Debaixo dos caracóis de seus cabelos quando negros foram cultivados sonhos e senhas. O poeta popular Pinto Varela canta o amor que praticou e o que nem experimentou; as batalhas a que compareceu e aquelas das quais se absteve; causos, calços e percalços da vida breve e mistérios dolorosos e gozosos da arte longa. O pai de Maíra salpica o sêmen de seu talento e polvilha o pólen de seu conhecimento nas alturas às quais chega sem descolar os pés do chão de Diadorim, Macunaíma, Bentinho, Câmara Cascudo e Nossa Senhora Aparecida. Apois...


O enterro da quimera

O romance do vaqueiro voador surpreende e emociona. Surpreende pela coragem que Manfredo Caldas demonstrou de nunca lhe definir um gênero. Parte de um poema – homônimo, de João Bosco Bezerra Bonfim – e de um documentário – Brasília segundo Feldman, de Vladimir Carvalho – para construir um filme que registra e relata, revolve e denuncia, relembra e reconstrói. Ao se mostrar no filme, como Alfred Hitchock gostava de fazer, para deixar sua marca registrada, o diretor não se exibe: se expõe. É o mesmo raciocínio que justifica as inovadoras tomadas em que o protagonista, Luiz Carlos Vasconcelos, é filmado lendo o roteiro, decorando o texto ou simplesmente andando pela paisagem de Brasília. Surpreende também porque o filme documenta de maneira original a transformação do cenário inóspito do cerrado na cidade modernista, a cena urbana dos automóveis, a cruz de Lúcio Costa se tornando o eixo monumental, o concreto se armando no vazio... Mais que documentário, contudo, o filme cria um novo gênero, o documento, pois mostra ao espectador o registro de nascimento de um sonho, uma profecia vaga que virou marco do modernismo arquitetônico mundial. Brasília, a obra-mestra de Oscar Niemeyer, a arquitetura modernista brasileira feita carne, foi construída de aço, cimento e argamassa, amalgamada com o suor humano. Mas é também um desvario de sangue, uma pirâmide de cadáveres, seres humanos anônimos abatidos pelas metralhadoras da GEB ou pelas condições desumanas de trabalho nos perfis dos edifícios – um pesadelo para concretizar um sonho de cascalho, asfalto e cimento. Mas um pesadelo de anônimos, pessoas simples que trocaram a desolação de sua pobreza de origem para ganhar a vida moldando o delírio do faraó. A democracia de 1946 também escondeu esqueletos nos armários: eles caíram dos andaimes ou foram abatidos à bala e depois enterrados na vala comum do esquecimento. Brasília é uma realidade inescapável, um erro terrível, do qual jamais poderemos nos redimir. E ela nos permite meditar sobre a transformação do homem comum, o vaqueiro aboiador, na massa disforme de carne dilacerada e ossos triturados, vítima do progresso e da indiferença, da hipocrisia e dos ledos enganos com que se tem construído e destruído nossa


civilização de alicerces que viram ruínas antes de exercerem sua função. É aí que o filme comove: a imagem do vaqueiro se jogando ao solo para puxar o rabo da rês e derrubá-la é recorrente na nossa infância - Manfredo, Luiz Carlos, o motorista de táxi que os transporta e eu viemos da mesma raiz, bebemos água salobra da mesma cacimba. Nosso amigo comum Marcus Vinicius, autor da trilha, nasceu em Recife, mas é um paraibano de adoção - como poucos. Desta água todos sempre beberemos. E Manfredo teve coragem de mostrá-la como é: turva e revolta, traiçoeira e insalubre. Ao contrário da miragem do vaqueiro, que não derruba a rês, mas se espatifa no solo do Planalto Central do País, os realizadores desta obra compartilharam a ousadia de denunciar e refletir, com respeito e despeito, decisão e precisão. Terminado o filme, remanesce no ar a dúvida atroz: quando é que o vaqueiro morre - é quando despe o gibão e sobe no andaime para aboiar sua desarmonia com a nova paisagem ou é quando voa sem asas e cai no chão, desprotegido do céu? A poesia deixa a questão no ar, seco no sertão ou no cerrado, a atmosfera que desmancha pessoas para montar edifícios, a cidade, um novo horizonte. Ouvir o poema na voz de Luiz Carlos Vasconcelos, e não só nela, evoca dois momentos, díspares só na aparência do cinema, arte universal por excelência: a narração por Paulo Pontes do poema de Jomar Morais Souto em O país de São Saruê, de Vladimir Carvalho, e as repetições do texto de Alain RobbeGrillet por Alain Resnais em O ano passado em Marienbad. Como o sertão do Rio do Peixe e o hotel europeu, o burgo de curvas e luzes é um mistério, o cemitério de nossas vãs ilusões, o enterro de nossa última quimera, acompanhado apenas pela solidão inseparável, esta pantera.


É fé no povo e pé de chumbo Político popularíssimo em Campina Grande, Paraíba, para cuja prefeitura foi eleito “uma par de vêiz”, como ele mesmo diria, em seu estilo desabusado, franco e pouco elegante no vernáculo, Severino Cabral é frequentemente citado em minhas palestras como um mestre da práxis administrativa e do marketing político. Excelente exemplo de sua sabedoria nesse campo foi dado no dia em que recebeu em sua casa para almoçar o embaixador dos Estados Unidos em Brasília. Antes de contar o episódio, convém adiantar que sua casa ficava permanentemente aberta à visita de seus eleitores, que entravam, iam até a cozinha, faziam as refeições e saíam com naturalidade. E também que seu filho mais velho, Milton, era diplomata de carreira e estava na embaixada do Brasil na Romênia quando o ditador comunista Nicolai Ceausescu foi derrubado por uma insurreição popular. Quer dizer: estava no cargo, mas não exatamente em Bucareste, e, sim, jogando uma partida de tênis no Country Clube, no Rio. Só por isso, já dá para perceber que não é o melhor herdeiro das manhas nem dos talentos do pai. Pois bem, o diplomata da família levou o embaixador americano para o almoço e ficou indignado quando viu o pai ouvir o cochicho de um assessor e interromper abruptamente a conversa para sair da sala


de jantar para o hall da casa. Acompanhou-o e percebeu que ele, que era um homem alto e forte, conhecido como “Pé de chumbo”, se abaixava para ouvir os apelos de uma senhora muito pobre e andrajosa. Interpelou-o: — Papai, como é que o senhor deixa o embaixador dos Estados Unidos falando sozinho à mesa para vir atender a essa senhora? E o velho respondeu na bucha: — E eu sei lá onde diacho esse homem vota. Essa mulher eu sei. Ela vota aqui. E vota em mim. Outra vez, em visita a Salvador, ficou encantado com as linhas arquitetônicas do Teatro Castro Alves. Contratou um arquiteto, mandou que ele fosse à Bahia e copiasse o prédio, só que em dimensões reduzidas. Daí, nasceu o Teatro Municipal de Campina Grande. Na hora de lhe dar nome, chamou o assessor especial para teatro, radialista Wilson Maux, e lhe encomendou uma lista de denominações. Este espremeu os miolos e listou os literatos mais famosos da cidade e do Estado, mas isso não satisfez o chefe. — Oh, seu Wilson, já vi que o senhor não entende nada de teatro. Nome de teatro tem de ter rima, rapaz. — Como rima, seu Cabral? — Rima, ora essa. Não sabe rimar? Teatro Municipal patati patatal. — Sim, mas que nome rimaria? — Teatro Municipal Severino Cabral, seu idiota. — Mas, seu Cabral, o senhor nunca escreveu, dirigiu nem atuou em teatro nenhum. Por isso, não pode dar nome a um teatro. — Que besteira, esse menino! E Plínio Lemos jogava bola? É que o Estádio Municipal da cidade tem o nome do ex-prefeito Plínio Lemos.


Certa vez, seu principal adversário em Campina Grande, o senador Argemiro de Figueiredo, resolveu lançar contra ele numa campanha para a prefeitura um jovem deputado estadual pelo PTB, conhecido pela habilidade no uso das palavras. A sensação da campanha do rapaz, advogado em começo de carreira, eram seus discursos, todos metrificados e rimados, nos moldes dos repentes da poesia popular. Severino Cabral, que havia inovado ao contratar um marqueteiro profissional para a própria campanha e por consultar as intenções do eleitor em pesquisas, tomou conhecimento da preocupação da assessoria com o crescimento surpreendente e rápido do outro candidato. — O rapaz é poeta, seu Cabral — justificou seu marqueteiro. — Ora, então, o problema é fazer versos? Eu também sei fazer. E foi anunciado aos quatro cantos da cidade que “Pé de chumbo” versejaria no palanque do distrito de São José da Mata no domingo seguinte. Ele foi, subiu ao palanque e sapecou para a multidão emudecida: — Povo de São José da Mata, Mata de São José: ou São José me mata ou eu mato São José. O silêncio de perplexidade prenunciou a derrota. O vencedor, Ronaldo Cunha Lima, seria deputado federal, senador e governador do Estado. O atual governador é seu filho, Cássio. Severino Cabral e personalidades políticas: Getúlio Vargas e Jânio Quadros Milton Cabral também foi governador, mas o pai, não: foi vice e seria cassado na ditadura militar, da mesma forma que o fora Cunha Lima. Na campanha para o governo do Estado - com o senador João Agripino na cabeça da chapa e ele próprio de vice -, “Pé de Chumbo” protagonizou episódios que enriqueceram o folclore político paraibano. Consta que, no palanque, um dia, surpreendeu a assessoria da campanha com uma afirmação inusitada: — Eu e o dr. João Agripino formamos um trio...


Um assessor, pressuroso, soprou, corrigindo: — É dupla, seu Cabral. Trio são três. — Que besteira. Trem não anda em trio e não é dois? Na mesma campanha (vitoriosa, por sinal), os candidatos sentaram-se para comer num restaurante do interior e pediram bife com arroz. Foram-lhes servidos dois pedaços: um maior e outro menor. Ele apressou-se em se servir do mais avantajado. — Ora, Cabral, um homem educado pega o pedaço menor – resmungou o senador, de notório temperamento ranzinza. — Deixa de besteira, João! Você não é um homem educado? Então, se ia ficar com o menor mesmo, está reclamando de quê? Seus adversários contavam ainda que, certa vez, um auxiliar menos alfabetizado tentou socorrer-se dele antes de preencher um cheque de sessenta cruzeiros. — Sessenta se escreve com esse ou com cê, seu Cabral? — Faz dois de trinta – teria respondido, ágil e espertamente. Em outra ocasião, seguindo conselho da assessoria para se referir ao máximo possível de interlocutores, sempre que discursasse, inaugurou um cemitério num distrito de Campina Grande, proferindo: — Conterrâneos e subterrâneos... (Texto selecionado por Sílvia Bruno Securato para o livro Histórias Inesquecíveis, editado pela Oficina Editora no Natal de 2007)


Um documentário para quebrar o silêncio

Os engenhos Corredor, onde o gênio do romance José Lins do Rego nasceu, e Tapuá, onde ele passou a infância, ambos em Pilar, na Paraíba, ruíram e agora não é mais possível visitar o universo arquitetônico que inspirou o escritor que captou de forma mais exata e inspirada a decadência dos engenhos e o advento das usinas de açúcar no Brasil. O casarão que pertenceu a André Vidal de Negreiros, herói paraibano da guerra contra a ocupação do Nordeste pelos holandeses, resistiu mais de três séculos ao tempo, mas desabou em 40 anos: ainda estava de pé quando Walter Lima Jr. fez tomadas em seu interior para Menino de Engenho, clássico do Cinema Novo, nos anos 60 do século 20, mas hoje não existe mais. Risco idêntico de desaparecer corre a fama de uma obra literária de primeira água: o ciclo de romances, crônicas e memórias – no qual se destacam o sucesso de Menino de engenho e o primor de Fogo Morto - de um prosador que não pode ser esquecido. Esta denúncia percorre as imagens e falas de um documentário, que, depois de ser exibido em festivais de prestígio, conseguiu o milagre para fitas do gênero de entrar no circuito das salas de exibição comercial no Brasil: O engenho de Zé Lins. Dirigido por Vladimir Carvalho, que nasceu em Itabaiana, cidade paraibana onde o autor de Riacho doce estudou, a obra faz revelações que já deveriam há muito tempo fazer parte do acervo crítico da academia ou da imprensa brasileira. E o simples fato de elas serem de primeira mão já denuncia o descaso, o desleixo e a inépcia dos responsáveis pela manutenção do rico e abandonado patrimônio literário do povo brasileiro.


José Lins do Rego

Zé Lins beijando a bandeira do Flamengo

Vladimir Carvalho, diretor do filme O engenho de Zé Lins


O título do documentário é expressivo porque aborda exatamente o aspecto mais revoltante e relevante do material pesquisado, filmado, gravado e editado pelo cineasta e professor universitário, que, como o autor destas linhas, tem confessa veneração, quase religiosa, pela obra do escritor tão importante quanto relegado a um injusto plano inferior. O conjunto arquitetônico desaparecido e o solo em seu redor ocupado por militantes sem-terra não têm o valor intrínseco da obra literária do homem que lá nasceu e passou a infância, mas suas ruínas denotam a incapacidade do Estado brasileiro de zelar por bens que não poderia ter deixado destruir. A casa onde nasceu outro grande escritor, da geração de Zé Lins, João Guimarães Rosa, em Cordisburgo, nos sertões do Norte de Minas Gerais, e a vendinha de seu pai, ao lado, são o exemplo oposto de como devem servir e funcionar prédios nos quais se fez história ou se produziu cultura. O turista que vai à pequena cidade conhecer a gruta de Maquiné, em seu território, tem oportunidade de ver os locais onde o autor de Sagarana nasceu, viveu e colheu as histórias e o estilo dos tropeiros e tangerinos que paravam para fazer compras e jogar conversa fora no armazém. A visita serve de esclarecimento e estímulo a serem acrescentados à leitura da fabulosa fortuna crítica sobre a grande personalidade que ali viveu seus anos de formação. Tendo sido José Lins do Rego o mais acurado retratista em palavras da decadência dos engenhos de açúcar, de cujos produtos viveu o Brasil em seus primórdios, mais falta ainda faz sua paisagem hoje às gerações que nem sabem o que foram engenhos nem aprendem que aquelas ruínas já falam de uma segunda derrocada, a das usinas, que substituíram estes engenhos.


Engenho de Tapuá, São Miguel do Taipu, Paraíba. Foto de Tiago Queiroz, Agência Estado

Contra a empáfia e a ignorância - Ao estabelecer o diálogo criativo entre as cenas coloridas por ele filmadas agora e as imagens em preto e branco gravadas em película por Walter Lima Jr. em Menino de Engenho, Vladimir Carvalho não apenas inova a linguagem do cinema documental e põe em relevo a dicotomia da obra do escritor retratado: memória e ficção. Ele também compartilha com o espectador o espanto e a revolta por ver como os agentes públicos brasileiros, escravizados pela própria ganância por poder e recursos do Erário, deixaram desabar paredes que desafiaram séculos num prazo curtíssimo comparado com o tempo em que elas permaneceram de pé. A visão do casarão que pertenceu ao herói da guerra contra a ocupação holandesa impressiona por si, mas chega a assustar mais quando posta em contraste com a filmagem do mato que o substituiu. Só que o documentarista não berra, não brada, não esbraveja: ele apenas geme e chora, convidando o espectador à reação. Com isso, deixa no ar o medo de que seja cometido, contra a obra que aquela paisagem arquitetônica, econômica, social, geográfica e humana inspirou, um assassinato por amnésia, doença semelhante à indiferença que a desfigurou. Grave é o delito da passividade ante a derrubada de solares, senzalas e engenhos, que impede o testemunho físico do que a memória prodigiosa do escritor registrou. Gravíssimo também é o silêncio que mantém sua obra no limbo, vítima das modas acadêmicas e da ignorância dos homens públicos levados à gestão do patrimônio artístico, estético e cultural do País. É preciso resistir contra isso. E é o que Vladimir ajuda a fazer no seu filme, preenchendo a enorme lacuna da empáfia e da ignorância dos donos dos poderes da academia e da República. Maceió, capital das letras - Nos depoimentos de amigos e parentes do tema de seu filme ele ilumina pontos escuros do caráter e da alma do romancista. Ao mesmo tempo, colabora para ajudar a escrever a história ainda desconhecida da melhor literatura brasileira no século 20. De uma fala do acadêmico Carlos Heitor Cony, por exemplo, extraiu uma pérola: a evidência de que Maceió, em Alagoas, foi, nos anos 30, talvez os mais fecundos de todos nesse particular, a capital da literatura brasileira. O autor de Quase memória lembrou que, quando o primeiro livro (e maior sucesso)


de José Lins foi lançado, a mais populosa cidade do País, São Paulo, tinha apenas três escritores do primeiro time (Mário e Oswald de Andrade e Mennotti del Pichia), enquanto na capital alagoana conviviam com o ilustre paraibano Rachel de Queiroz, Jorge de Lima, Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda, só para ficar nos mais importantes. O carioca omitiu que, à época, no Rio, sede da editora de todos eles, a José Olympio, também não se reuniam tantos luminares das letras assim: o pernambucano Manuel Bandeira, o mineiro Carlos Drummond de Andrade e quem mais? Pode ser mera curiosidade, mas não é interessante? Mera curiosidade certamente não é o registro do temperamento ciclotímico do tema do filme. Capaz de arroubos de euforia, costumava afundar em depressão assustadora. Os amigos (Rachel de Queiroz, por exemplo) atribuíam esse banzo às lembranças de um acidente da infância. O menino do engenho nunca esqueceu o acidente em que apertou, por acaso, o gatilho da arma de fogo que tirou a vida de um moleque de folganças nos terreiros do casarão do avô. Fica também no ar no depoimento de Edson Nery da Fonseca, maior especialista na obra do sociólogo de Apipucos, a insinuação que o romancista paraibano pode ter sido o protagonista da única experiência homossexual confessada por Gilberto Freyre. A influência do autor de Casa grande e senzala na obra retratada no documentário, contudo, debatida por Ariano Suassuna, é muito mais relevante que qualquer fofoca íntima do gênero.


Engenho Corredor, Pilar, PB, onde José Lins nasceu

Águas da glória e da desgraça - Mais relevante que tudo isso ainda é o pungente depoimento de Tiago de Mello sobre as dolorosas agonia e morte precoce do grande romancista. O poeta amazonense descreveu com detalhes a brutalidade com que o esquistossoma adquirido nos banhos nas águas poluídas do rio Paraíba (fontes de sua glória e de sua desgraça) na infância corroeu, de maneira implacável, os vasos biliares do amigo mais velho, sangrando-o e o levando à morte aos 56 anos de idade. Banhada de lágrimas e mesclada com fatos pitorescos, típicos da personalidade esfuziante e trágica do admirador de Dostoievsky, a descrição é inédita e inusitada, configurando-se uma contribuição inestimável da obra à história do gênero documental no cinema brasileiro. Outro desses pontos altos é o depoimento de Sávio Rolim, o cinquentão que protagonizou o mais célebre personagem da literatura de Zé Lins, Carlinhos, o menino de engenho. Com o juízo derretido pelo álcool, o ator de cenas memoráveis é filmado em sua casa miserável desfiando histórias sem nexo. Mas surpreende o espectador quando o cineasta recupera sua memória exata e aguda ao levá-lo ao engenho Tapuá, onde foram feitas as filmagens de Menino de Engenho, há 40 anos. O capítulo dedicado ao ex-ator-mirim serve para pôr em contraste duas facetas da genialidade do tema do documentário: a força da lembrança e o gênio da fantasia. Sua obra é brilhante nos dois gêneros e soterrá-la sob os escombros da paisagem que a inspirou será um crime inafiançável contra a memória do romancista e mais ainda contra milhões de brasileiros que merecem ter acesso ao brilho que ele criou. © Revista Sax, fevereiro de 2008.


A cultura do sertão no ABC de Ariano O ABC é uma modalidade do repente (poesia popular sertaneja) e do cordel, sendo basicamente usado para celebrar feitos e heróis do povo, que ouve os desafios de viola ou lê os folhetos com romances vendidos nas feiras livres do sertão. É uma prática ancestral de celebrar o heroísmo a partir de senhas, ou palavras-chave, por ordem alfabética, de A a Z. Bráulio Tavares, que conhece bem as formas literárias populares do Nordeste (assim como da ficção científica), recorreu a esse modo para fazer uma abordagem original do universo no qual se apoiam dramas e romances de seu conterrâneo Ariano Suassuna. No ano da comemoração dos 80 anos do escritor paraibano (nascido no Palácio do Governo, em 1927, ano em que seu pai, João Suassuna, era presidente da Província, que sempre lhe serviu de cenário, mesmo tendo o autor se mudado para Pernambuco, em cuja capital, Recife, foi estudar, quando sua mãe ainda morava em Taperoá), o livro de Tavares se destaca exatamente por isso. Leitor apaixonado da poesia e do romance e espectador privilegiado do teatro de Suassuna, o escritor de Campina Grande aproveita a celebração da efeméride para revolver, de forma competente e agradável, todo o universo mítico no qual o literato pessoense ergueu seu marco, para usar outra expressão familiar aos interessados na poética popular nordestina: Marco marciano, por sinal, é o título da canção de Lenine e Bráulio que mistura a epopeia sideral com a saga sertaneja. Bráulio recorreu a um expediente interessante para facilitar a leitura do abecedário pelo leitor urbano, desacostumado à fórmula. O primeiro verbete é Acauã, nome da fazenda onde Ariano passou os primeiros anos de sua infância, com o pai ainda vivo. A fazenda, em Souza, no sertão paraibano, é histórica, pois por lá passou Frei Caneca em ferros a caminho de Recife, onde liderara malograda revolta republicana contra o Primeiro Império, e teve sua decadência registrada nas imagens de um clássico do documentário brasileiro, O país de São Saruê (título inspirado num folheto de cordel), dirigido por outro paraibano, Vladimir Carvalho.


Descrita no verbete João Grilo, seu protagonista, a obra-prima de Ariano Suassuna, a comédia teatral O auto da compadecida, é, como ele mesmo gosta de apregoar em suas engraçadíssimas aulasespetáculo, a fusão de três folhetos de cordel, que leu na infância. O mais celebrado de sua prosa de ficção, A pedra do reino, do qual Luiz Fernando de Carvalho adaptou uma microssérie para a televisão, levada ao ar em junho passado, justamente quando se comemorava o aniversário do autor do romance, também se inspira (mais que isso, se molda) em formas da narrativa popular, seja cantada por violeiros e rabequistas, seja impressa nos folhetos dos poetas de bancada. O título da tese da professora Elizabeth Marinheiro sobre o romance - A intertextualidade das formas simples - remete exatamente a essa questão: trata-se de um texto de ficção construído sobre a intertextualidade, só que não das citações eruditas, como o termo complicado pode insinuar, mas, sim, das formas literárias que falam diretamente ao goto, ao gosto e ao conhecimento do povo. A forma


original que Bráulio encontrou para celebrar seu ídolo foi falar das fontes em que ele bebeu para construir a obra pela qual ele se tornou conhecido e festejado no Brasil inteiro na programação do veículo popular por excelência da arte, da cultura, do entretenimento e da informação. Ao dissecar as origens dos textos nos quais o celebrado autor se inspirou, o exegeta aproveitou para trazer a lume a extraordinária riqueza da produção literária dos sertões. É conhecida da academia - e até mesmo do público leitor em geral - a militância de Ariano pela conservação das formas da cultura popular, de origem marcadamente ibérica, mas misturada com tradições indígenas e africanas. Infelizmente, contudo, só se conhece a releitura que ele tem feito, primeiro no teatro e depois na prosa de ficção, das obras seminais dessa cultura, que pode ser sepultada pela urbanização, pela tecnologia e, sobretudo, pela globalização. Bráulio faz, neste sentido, um trabalho exemplar, ao escavar, como um arqueólogo e expor à luz do dia obras de extraordinário valor, recriadas pelo engenho e pela arte de um escritor fora de série, ao qual, aliás, o autor do abecedário sempre rendeu suas homenagens, a ponto de se tornar um especialistas - para tanto convidado para participar da redação do roteiro original da microssérie para a televisão. O último verbete foi reservado para Zélia, a bela mulher com quem o feioso dramaturgo se casou e sua paixão pela vida afora. Seja na forma adaptada da modalidade de viola e cordel, seja na escolha das palavras para encimarem o capítulo, permitindo uma abordagem linear da vida, paixão e influências do autor-tema, Bráulio traça um painel completo de um universo rico, colorido e profícuo. Didático, mas sedutor, seu estilo introduz o leitor num universo ancestral, que se torna novo a seus olhos ávidos de informação. © O Estado de S. Paulo, Caderno Cultura, p. D5, domingo 13 de janeiro de 2008 Serviço: TAVARES, BRAULIO. ABC de Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: José OLympio, 2007, 283 p.


O Percurso cúmplice de viver

A contista Rachel de Queiroz é contundente como o que, sutil e cortante qual gume de faca para picar fumo nas feiras livres do interior do Ceará. Ela descreve a vida sem disfarce, sem dourar a pílula, com a impressionante frieza de um assassino profissional. Seus personagens são doces e perversos, agem com a cabeça ou com os bofes, chutam lata e atazanam sempre, não deixando o próximo em paz nem quando desencarnam, pois voltam sempre à vida, depois de mortos, só para azucrinar os acomodados. A prosa curta da romancista é escorreita e crua, sem subterfúgios nem tergiversações: adjetivos são dispensados sem cerimônia, prevalecendo a força dos substantivos comuns, enfileirados com argúcia e sensibilidade. Os nomes próprios emergem de suas narrativas de impacto, que estalam na cabeça do leitor como bombinhas juninas, cada qual com sua missão sintática própria. Nada ali é gratuito ou demasiado – tudo tem função e lugar. Por mais fantástico que o conto possa parecer, ele ecoa familiar à atenção atada, infatigável, do leitor. Mesmo no minúsculo habitante da galáxia distante, recebendo a visita de curiosos gigantes terráqueos é possível encontrar a reação verossímil sem, porém, perda alguma da graça


da surpresa, sem a qual a ficção, por melhor que fosse, se dissolveria. A narradora nunca se precipita, mas também não se atrasa à expectativa do leitor. Escritura e leitura andam lado a lado, como se passeassem de mãos dadas domingo no parque. Em cada frase que lhe surge, o leitor parece tropeçar no olho gaiato da autora, que se diverte, saltitante à sua frente, conduzindo-o por um labirinto que vai se iluminando à medida que ambos descortinam cada passagem do texto. A narradora não tem piedade do soldado ferido que se arrasta, solitário, no terreno inimigo, mas também não se diverte, sadicamente, com a ingenuidade da adolescente que excita a imaginação de um batalhão. Nem se gaba de seus múltiplos dotes, seja ao manter o leitor preso na armadilha de um texto que galopa pelo tempo, contando a saga de uma mansão, teto de várias gerações de uma família, seja ao segurá-lo por um fio na reprodução do depoimento na delegacia de um rotineiro caso de preconceito e agressão. Nos dedos de Rachel, uma corriqueira partida de sinuca ganha os contornos épicos de uma batalha de vida e de morte, com seus laivos de glória e de perdimento. Ei, você aí, do lado de fora da página, prepare-se para um percurso cúmplice e solitário sem os paparicos da lógica fácil da prosa de lantejoulas. A mão que o conduzirá por este labirinto nunca o guiará, mas lhe indicará todos os indícios de que viver é uma tarefa inútil, sórdida e sublime, merecedora de ser fruída com humildade, serenidade e inteligência. Vá, pois!


O poeta do inc么modo brilho da ja莽a


Pedro Galvão não é poeta de se abrigar nos confortos da lisonja e na passividade da contemplação: seu verso, longo ou curto, nervoso ou ritmado, um tanto apocalíptico, um tanto fotográfico, mais garimpa a jaça que o brilho geométrico e ofuscante do diamante lapidado. Na condição de fazedor de poemas, diz-se amador, embora pareça mais sê-lo no exercício profissional competente, e como tal reconhecido em Belém, São Paulo, Rio e Bahia, de publicitário. Este é pago para tecer loas, vender produtos, cativar ilusões. Aquele paga para berrar a insignificância da vida, o legado inexorável da morte, a podridão em que o belo fenece, o mau cheiro das cloacas onde a lama desliza, espessa e mole, a metáfora da qual não dá para fugir, a imagem na qual tudo se decompõe. O executivo da propaganda busca nas horas úteis do dia a fagulha do gênio que ilumina na alma do comprador o desejo do consumo do bem, do serviço ou da ideia, particular e genérica, da iniciativa, do empenho e do engenho. Este é permanente: almoça e janta, se barbeia e sai, ama e rejeita, abraça e trai. O amador bissexto, não: este, em vez de se erguer, cai e chafurda na vida o que ela tem de sórdido e sublime, o paladar refinado dos melhores vinhos e as fezes pútridas em que toda a gastronomia se consome. O vendedor de slogans, frases, lemas e palpites se compraz na ordem e se realiza no gozo do fátuo que se torna essencial: o supérfluo que vira salário, o suor do rosto do salafrário. O comprador do inútil e inconsútil desprazer de se desfazer em bolhas de ar recorre à desordem, recolhe os retalhos, tritura o lixo orgânico que se dissolve no ar, por ser sólido e vulgar, sangra o infinito, arranha a dor das mãos vazias. Mãos presas à bateia na qual vale mais a areia que a pepita, mais paga a saga que o peso do raro minério vão bamburrado. Pernas cambaleantes sobre o precipício afundam na areia movediça ou simplesmente se deixam suspender no ar do último andar do último edifício, a margem de todo precipício. Pedro Galvão é um poeta incômodo e incomodado, lida com as palavras como se elas fossem a ponta rombuda do bisturi cego ou a lâmina enferrujada do canivete que a velha prostituta da piada de salão guardou para dar à jovem clientela na velhice. No voo de Sérgio Galvão, “todo o insuportável problema de viver”. Da mesma forma, a garça urbana, sem graça e feia, pobretã, na água suja da praça, mendiga e pesca a própria desgraça, como os outros


pedintes bebuns da mesma praça, o mesmo cansaço da entrega da carcaça, “já sem voo de voo” e a companhia solícita e solitária do cão vagabundo correndo, fugindo da praça. Como o profissional competente da comunicação burila lemas e encontra palavras-de-ordem para conduzir o consumidor entre as prateleiras, fazendo-o deter-se num bem, num serviço ou numa missão entre tantas embalagens, o poeta impenitente e intrometido atravessa a vida vã com a ponta fina e fria de seu punhal e o corte anguloso de sua visão penetrante. “A noite é longa e longa a madrugada” é o verso final de seu poema sobre o fogaréu nas ruas de Paris em novembro de 2005. Ele captura o invisível e revela o indizível no fecho de Dona Santa no cemitério de Viseu: “Ele esperou a filha envelhecer / e viveu dentro dela até morrer”. Ou exibe seu despudor fulgurante numa baladinha brega cantando a temeridade de ser feliz: “Vai, balada, me acompanha / e sem medo da pieguice / diz-lhe: amor de minha estranha / e tão poética vísce/ra: - Amor do meu coração”. Sim, a poesia de Pedro Galvão é víscera, entranha e músculo. É isso e mais: o relato da volta do outro Pedro, o velho, o pai, indo para casa pelas ruas e becos de Belém, sua Belém paraoara; a recepção no céu ao colega Vinicius com todos “mijando em comum numa festa de espuma”; a constatação simples, despojada, despudorada de que “esta mulher, viva em meus braços, é poesia”; e mais, muito mais, pode crer, aposte, não desista. Bissexto é uma ode à jaça onde brilha o diamante de uma obra primorosa como é “Vitória, em silêncio”, na qual a impotência humana diante dos mistérios da doença da musa viva e imóvel em seu leito definitivo se expressa numa linha desesperada e sintética, capaz de resumir a comunicação sigilosa e imponderável entre o humano e o divino, aliás, a oração: “Então falo com Deus. E Deus não fala”. Este soneto monolítico, esta reza indignada, este sacrifício à beira do tálamo é o resumo de Bissexto e da obra poética de Pedro Galvão: a revolta diante da necessidade e da impossibilidade do milagre imprevisto. © "O poeta do incômodo brilho da jaça", por José Nêumanne. Resenha sobre o livro "Bissexto" de Pedro Galvão. Publicado no Caderno Cultura de O Estado de S. Paulo, domingo 4 de maio de 2008, p. D5.


A peleja do trio do pé de serra contra o forró eletrônico O paraibano Antônio Barros é um ídolo da música regional junina no Nordeste: compôs mais de 600 canções, muitas das quais foram sucessos absolutos de intérpretes como Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Três do Nordeste e Ney Matogrosso (Homem com agá). Mas isso não evitou que protagonizasse um episódio no mínimo contraditório para um artista de sua importância: foi contratado para abrir o show cuja atração principal era a banda Cascavel, da qual ele, sua parceira e mulher Cecéu e a filha dos dois, a cantora Maíra, nunca ouviram falar. No entanto, a cidade de Aroeiras, no interior da Paraíba, estava em polvorosa com a chegada da banda e ele recebeu o cachê e instruções rigorosas para deixar o palco assim que a banda chegasse. Ao fazê-lo, testemunhou o frenesi histérico com que a atração principal da noite foi recebida por seu público. O fato marcante registrou a transição do forró de pé de serra, cultuado por ele e outros grandes artistas, como Santanna Cantador, Flávio José, Nando Cordel, Dominguinhos e outros, para o forró eletrônico, produzido no Ceará.

Chico César e Richard Galliano

Pinto do Acordeon


Dominguinhos e Richard Galliano no Parque do Povo

Capitaneadas por um empresário pra lá de bem-sucedido residente em Fortaleza, bandas com instrumentos eletrificados e nomes semelhantes, formadas por instrumentistas anônimos, todos funcionários do mesmo patrão, dominam a programação musical das emissoras de rádio e televisão e reinam absolutas nos palcos do interior do Nordeste nas festas juninas. Manoel Gurgel, o imperador do forró cearense, se dá ao luxo de propor parcerias aos grandes compositores regionais, numa tentativa de cooptá-los, da mesma forma como faz com programadores de emissoras de AM e FM em praticamente todas as cidades dos nove Estados nordestinos. Mas pelo menos nisso ele ainda não obteve êxito. Ao contrário, os representantes da música regional junina autêntica no Nordeste começam a reagir contra a invasão do forró eletrônico. E acabam de encontrar um aliado absolutamente inesperado... na Suíça. Tudo começou em Patos, no sertão e no meio do mapa da Paraíba, cidade onde se diz que se pode fritar ovos no cimento da calçada, tão quente se faz presente o sol por lá. Pierre Landolt, herdeiro de um grupo multinacional de indústrias


farmacêuticas, se instalou em sua zona rural, onde estabeleceu uma fazenda para criar bovinos, ovinos e caprinos. Com os peões instalados em sua propriedade, ele aprendeu a amar os trios de forró de pé de serra formados por sanfona, zabumba e triângulo. E os apresentou a seu amigo cineasta Bernard Robert-Charrue, que, ciceroneado pelo casal de dançarinos de forró Rilávia Cardoso e Ajalmar Maia, fez o longa metragem Paraíba, meu amor, cujo título foi inspirado na canção homônima de Chico César, nascido um pouco além de Patos, em Catolé do Rocha, nas proximidades de Brejo do Cruz, berço de Zé Ramalho.

Chico César e Aleijadinho de Pombal

O cineasta suíço registrou em imagens coloridas o inesperado encontro do acordeonista de jazz francês Richard Galliano, elevado ao panteão dos maiores instrumentistas da Europa, com o sanfoneiro pernambucano Dominguinhos, herdeiro reconhecido pelo Rei do Baião e herói do europeu. O duelo entre o jazzista e o forrozeiro se deu no palco principal do lugar onde se realiza o que se chama “o maior São João do Mundo”: o Parque do Povo, em Campina Grande. O francês também acompanhou Chico César na canção-título e contracenou com dois sanfoneiros paraibanos, Pinto


do Acordeon, que mora em João Pessoa, e Aleijadinho de Pombal, cidade que fica entre Patos e Catolé do Rocha. Concluído o preito cinematográfico ao forró autêntico, em plena temporada de resistência contra o forró eletrônico de Manoel Gurgel, o resultado foi apresentado em Karlsruhe, na Alemanha. E com tal êxito que está sendo prevista ainda este ano uma “noite do forró”, no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, com os protagonistas do documentário. Um dia depois de o filme ter sido lançado no Cine Banguê, no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa, todos estes artistas populares se reuniram com mais 50 forrozeiros na estreia do filme no auditório da Federação das Indústrias da Paraíba (Fiep), em Campina Grande. Para lá acorreram Flávio José, apontado por Dominguinhos como seu herdeiro; o patriarca Antônio Barros com suas Cecéu e Maíra; Santanna Cantador, natural de Juazeiro de Padre Cícero e com um timbre muito semelhante ao de Gonzaga; e outros astros do forró de pé de serra, para os quais a vulgaridade do duplo sentido pornográfico das “bandas” eletrônicas (como a Calcinha Preta) não é somente uma questão de decência, mas de sobrevivência.

O filme de Charrue não tem a qualidade do documentário de Wim Wenders sobre o resgate da música tradicional cubana graças ao espetáculo produzido pelo guitarrista americano Ry Cooder, Buena Vista Social Club. Mas pode ser que ele venha a se tornar no ponto de partida para o resgate da mesma autenticidade que o autor da trilha sonora de Paris, Texas evitou que se perdesse no Caribe, impedindo que o forró de pé de serra seja sepultado no sertão pelo comercialismo urbano das bandas de Manoel Gurgel. © O Estado de S. Paulo, 22.03.2008, Caderno 2, página D5. Fotos do documentário Paraíba, meu amor, do suíço Bernard Robert-Charrue


O brilho da ribalta, por trás do refletor Zuza Homem de Mello junta lembranças sobre grandes astros a ensaios sobre a arte de tocar e ouvir É possível dizer de José Eduardo (Zuza) Homem de Melo que, mesmo tendo ele abandonado há muito tempo o contrabaixo, o instrumento nunca o deixou e até hoje o acompanha nas múltiplas atividades que exerceu e ainda exerce na área musical, sem mais percutir suas cordas. O contrabaixo é o responsável pela base rítmica sem a qual nenhuma execução musical consegue se manter harmônica: sem ele se instauraria o caos no universo de melodias, refrãos e improvisos das bandas de jazz. Como chefe da mesa de som da TV Record na época dos grandes festivais e musicais; apresentador de um programa que se tornou ícone da programação da radiodifusão contemporânea no Brasil; produtor de festivais de jazz; crítico na imprensa; autor de ensaios sobre movimentos importantes da música popular brasileira; programador de temporadas de música em bares e restaurantes da moda; e organizador de trilhas sonoras para música ambiente, este paulistano simpático e de fala mansa se tornou uma figura capital para a compreensão e a melhor fruição do que se fez de musical no País. Descendente de um clã de cafeicultores paulistas, herdeiro de um título de barão, contemporâneo da boêmia dos anos 40 e 50 na Paulicéia Desvairada, nosso protagonista não deixou dissipar nas nuvens de cigarro nem nos vapores etílicos das boates célebres de seu tempo de juventude os sons que produziu e, sobretudo, ouviu. Mas os incorporou e retransmitiu com tais empenho e competência que um amigo o apelidou de “o homem que tem música nas veias”, epíteto utilizado para intitular seu programa de sucesso no fim da tarde na


rádio nos anos 70 e 80 do século passado e espécie de marca registrada com a qual passou a carimbar todos os trabalhos aos quais aporia sua assinatura de prestígio. A marca voltou agora na forma de título de livro, gênero no qual não é jejuno, pois já andou reunindo no formato depoimentos dos principais participantes da bossa nova e escreveu um compêndio muito interessante narrando fatos ocorridos nos bastidores dos festivais, que frequentou como técnico de som. A diferença desta vez é que ele aparece com um coquetel de sabor original, uma fusão, para usar o jargão musical que domina. O livro que acaba de lançar mistura reminiscências de uma longa e profícua experiência de vida em torno de grandes astros do universo musical com ensaios para os quais contribuem anos de aprendizado na arte de tocar, ouvir, produzir e programar discos, espetáculos e outros eventos sonoros. O leitor deste seu novo livro será apresentado aos mestres do jazz que povoaram a cena nova-iorquina nos anos 50. Como aluno de contrabaixo de Ray Brown, um dos maiores gênios do instrumento, Zuza viu, ouviu e às vezes até conviveu com os maiores instrumentistas e cantores daquele tempo. As lições que lhe trouxe esse aprendizado são ministradas de forma leve e agradável, num estilo que flui como prosa à beira do fogo, para o leitor interessado ou para o simples curioso. As aulas com Ray Brown e as conversas com marcos da música americana, como o trompetista Dizzy Gillespie, apenas para dar uma ideia de como são frondosas as fontes em que o autor do livro bebeu, servem de base (e aqui volta a metáfora do contrabaixo) para as análises minuciosas feitas pelo crítico dos temas que aborda. Estes podem ser as orquestras que animavam os espetáculos dos cassinos brasileiros, antes de o jogo de azar ser proibido no governo Dutra, aqui mesmo no Brasil, ou as vicissitudes dos líderes de banda na Alemanha nazista para conviver da maneira possível com a truculência dos esbirros de Hitler. As lembranças e o conhecimento musical, acrescidos do estilo jornalístico vigoroso que privilegia os fatos importantes, servem também de apoio para o autor traçar o perfil de instrumentistas lendários, caso do chorão Jacob do Bandolim. Zuza resgata com carinho, mas sem pieguice nem protecionismo, a virtuosidade e os detalhes do comportamento do homem por trás do instrumento. Ao reproduzir cartas do músico para um amigo cantor, seu maior confidente, revela as dúvidas, anseios e aperreios de um ícone da música brasileira, cuja carreira foi prejudicada por uma série de tragédias pessoais, que ele lamenta num apurado estilo literário, inesperado, surpreendente até,


num virtuose musical. Não escapam ao autor, que os repassa ao leitor, detalhes incômodos, caso da inveja que o perfilado sempre destilou do sucesso de um competidor, Valdir Azevedo, também marcado pela tragédia: este teve um dedo decepado por um cortador de grama. Na qualidade de produtor de shows da TV Record, em seu auge, nos anos 60, Zuza teve na vida a oportunidade de trazer para o Brasil grandes nomes da canção internacional, artistas do quilate de Nat King Cole e Sammy Davis Jr. O relato dos bastidores da contratação destes intérpretes é um capítulo à parte na leitura instrutiva e divertida deste livro em que o ofício do autor passa a ser uma oportunidade para o leitor ter acesso ao brilho da ribalta, por trás do refletor, no negócio do entretenimento.

© O Estado de S. Paulo, 30.03.2008, Caderno 2, página D5.


A mesma chanchada com outros canastrões

Na Revolução de 1930, dizia-se antigamente, a Paraíba entrou com o cadáver (de João Pessoa), Minas Gerais com as tropas e o Rio Grande do Sul ficou com o poder (Getúlio Vargas). Nesta peça teatral A Manha do Barão, o cadáver é gaúcho, mas não se trata de uma retaliação ou de uma vendetta tribal e, sim, da reencarnação da alma de Aparício Torelly, ou simplesmente Apporelly, o combativo humorista sulino que atazanou os espíritos autoritários no começo do século 20. É desta reencarnação de Apporelly que trata o texto teatral de Ipojuca Pontes, o não menos combativo jornalista, dramaturgo e cineasta paraibano, que vive há muito tempo no Rio de Janeiro. Para esta reencarnação ser adequada, e é, era preciso que corpo e cavalo de macumba tivessem algumas características comuns e afinidades notórias. E têm: Apporelly e Ipojuca se assemelham mais do que faria supor apenas levar em conta seus nomes fora do comum. Ambos desenvolveram, ao longo de sua vida, um instinto natural para auscultar a alma humana no que ela tem de mais sórdido e mais sublime. Esse instinto os leva a rejeitar o ridículo, tido por muitos como inevitável e por alguns até como lugar comum. Autor e tema recusam pratos feitos e gostam de entrar na cozinha para saber como são preparadas as refeições a serem servidas ao grande público: nesta metáfora culinária, o comunista Apporelly, que se comprazia em denunciar a estúpida nudez real, e o liberal Ipojuca, que adora rasgar desbotadas fantasias ideológicas, são comparáveis com agentes da vigilância sanitária que descobrem e combatem ratos fugidos do porão e escondidos entre panelas, abrigados no calorzinho da pasmaceira generalizada e da inércia dos fracos, que os fortes incentivam e financiam. No Brasil de Vargas, o Barão de Itararé, pseudônimo adotado como uma lembrança permanente das glórias falsas de uma batalha fictícia, era a


consciência crítica do “puxassaquismo” oportunista, o rebenque em riste, pronto a expulsar os vendilhões da frente dos sepulcros caiados, territórios dos coros do “amém, sim, senhor”, expressão favorita do Brasil governado pelos donos dos cavalos amarrados no obelisco. No País de Lulinha da Silva, a pátria do “nunca antes”, onde o sono dos nababos, assegurado pelo financiamento público à privada financeira, não é perturbado pelo ronco da barriga dos pobres, que têm garantido proteína à mesa e um picadeiro mambembe de muito mico e pouco siso, Ipojuca brada no deserto. Sitiado pelos beneficiários da farra generalizada, que não se cansa de fustigar, queimado pelo sol tropicalista e apontado como se fosse o capeta para os que babam na barba divina de Marx e embebem de lágrimas o dólmã de seu profeta Fidel, o autor deste monólogo feliz faz bem em ressuscitar a manha e os aforismos do antecessor, reconstituindo para o leitor/espectador meio século da atribulada bagunça nacional. E o faz bem porque recupera a graça, a irreverência e o humor corrosivo do Barão num texto leve, fluído e de facílima assimilação, todo tecido nas tiradas do inimigo da “ditabranda” de Getúlio Vargas. À luz das mazelas atuais, em que o peixe da imoralidade pública é vendido na feira livre da falsa ética, Ipojuca convoca o fantasma do Barão para ele deixar claro que a chanchada de ontem é a mesma de hoje, só mudando os canastrões que, em vez do “amém, sim, senhor”, se louvam no “tá tudo dominado, companheiro”. ©

"A mesma chanchada, com outros canastrões", por José Nêumanne. Prefácio do livro A manha do Barão de Ipojuca Pontes. A Girafa Editora, 140 pp., março 2008.


Quando Cabrinha desligava o motor da luz A lembrança mais nítida de minha infância no sertão é que os dias eram extremamente luminosos e as noites recebiam uma espessa cobertura de breu. O sol tinha uma luminosidade ofuscante num céu cujo azul pálido, desmaiado, quase transparente, nunca vi reproduzido em parte nenhuma do mundo. Era mais fácil conviver com o calor abrasador e a secura do ar que com aquele brilho humilhante. De noite, quando eu era menino, a cidade ainda não tinha eletricidade de hidrelétrica, a luz de Paulo Afonso, como se dizia. Foi uma grande conquista, talvez a maior de todas, a ventura de girar o interruptor e ver a lâmpada acender, mas ainda mais ter uma geladeira, uma vitrola ou um simples rádio elétrico funcionando a qualquer hora. Até então, tínhamos de nos contentar com o “motor da luz” - um gerador a Diesel que o maquinista Cabrinha acionava às 18 horas e desligava às21. O desligamento era precedido de três sinais: um apagão rápido, depois dois, três, antes de, enfim, vir a treva.

José de Anchieta Pinto, com o motorista Zé Campina, exibindo orgulhoso o "jandaia", vulgo "gemecê", caminhão Chevrolet 1958


Meu pai, Anchieta Pinto, era caminhoneiro e me lembro bem do orgulho com que se exibia ao se deixar fotografar na frente de um Chevrolet (dizia-se “gemecê”) , que ele chamava de Jandaia. Viajava muito para o “Sul” - Rio e São Paulo - e mamãe, Mundica Ferreira Pinto, ficava sozinha conosco: éramos quatro, depois cinco, depois seis, sete, afinal. Assim que Cabrinha acionava o motor, o pároco, o cônego Antônio Anacleto, também ligava o alto-falante da matriz de Jesus, Maria, José. A característica era a Ave Maria, de Gounod. Em seguida, com sua voz característica e gozada, o vigário recitava um trecho em homenagem à Virgem Maria. Afinal, era a Hora do Ângelus. Mas era também a hora do acerto de contas dele com a comunidade. Era algo mais ou menos assim: “Seis horas, hora do Ângelus, hora da Ave Maria, hora de todos nós rezarmos contritos a Deus e pedirmos a intercessão da mãe de Jesus Cristo, Nosso Senhor, para nos redimir de nossos pecados. Hora de você, Cabrinha, cabra safado, vir consertar a difusora da igreja, pois eu já lhe paguei pelo serviço que você não fez”

Na verdade, Cabrinha era apenas o maquinista: ligava e desligava o motor. Quem cuidava dele para evitar os blecautes, dos quais, confesso, não me lembro, era o gênio local da mecânica, Zéu Fernandes, um mago dos motores e proprietário do único automóvel do qual me lembro bem àquela época: a “fobica” de Zéu. Nele fiz meus primeiros passeios de carro na estrada poeirenta e esburacada ligando a Fazenda Rio do Peixe, onde nasci, e a cidadezinha de Belém do Arrojado, vulgo Uiraúna, a légua e meia, nove quilômetros de distância, como minha mãe registrou no “Álbum do Bebê”.


Zéu Fernandes, o mago da mecânica e dono do primeiro automóvel de Uiraúna, a "fobica", posa ao lado do motor da luz, que o maquinista Cabrinha acionava diariamente em Uiraúna

Na primeira infância, já morando na “rua”, como se dizia, quando o eletricista cobrado pelo padre desligava a luz e a treva descia, com meu pai viajando, íamos tomar a fresca na calçada da Rua Nova e mamãe, que tinha estudado na Escola Normal de Cajazeiras, dizia de cor versos de Castro Alves. Até hoje posso citar de cor trechos do Navio Negreiro: “existe um povo que a bandeira empresta pra cobrir tanta infâmia e cobardia e deixa-a transformarse nesta festa em manto impuro de bacante fria. Meu Deus, meu Deus! Mas que bandeira é esta que impudente na gávea tripudia? Auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança, estandarte que a luz do sol encerra e as promessas divinas da esperança, tu, que após a guerra foste hasteada dos heróis na lança, antes te houvessem roto na batalha que servires a um povo de mortalha”. Lindo, não? E que ritmo maravilhoso! Atribuo meu ouvido de tuberculoso para a palavra a essas noites escuras em que a brisa não vinha, mas o calor era refrescado pelos alísios do mar da Bahia nos ritmos dos versos de Antônio Frederico, que morreu tão moço, coitados de nós, que perdemos tanta poesia! Considero “que a brisa do Brasil beija e balança” o mais lindo verso


da língua portuguesa, que me perdoem Camões e Pessoa! E até hoje acho que o baiano foi o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Lembro-me também que mamãe dizia O livro e a América – “criado pelas grandezas, pra crescer, criar subir” etc. Não há espaço para citar o poema todo. Também teria de recorrer ao livro: não me lembro dele como do Navio Negreiro. Mas me recordo ainda bem que achava muito engraçado quando ela recitava: “lá brada César morrendo”. E a cena trágica do assassínio do imperador romano lembrada pelo poeta era substituída na minha memória infantil pelo louco Labrada, que era fanático por automóveis e andava a pé como se estivesse dirigindo um, reproduzindo com a boca, a língua e a garganta os ruídos do motor e torcendo os braços como se dirigisse ou passasse marcha. Labrada era o contínuo do cabaré de Cirilo Félix, que tocava na sua casa de putas um fole de oito baixos comandando um conjunto tosco intitulado Cirilo Félix e seus cabras da peste, uma evidente homenagem ao maior sanfoneiro de oito baixos da época, Abdias, líder de Abdias e seus cabras da peste. Sabia que uma puta se chamava Escurinha e era negra, claro. Mas esse não era um assunto para crianças.

Os sete filhos de Mundica Ferreira Pinto: José Nairton, José Noaldo, José Neudson, Nicéa Mary, Mundica Ferreira Pinto, José Nilton, José de Anchieta Filho e José Nêumanne


Ainda era um menino bobo quando papai resolveu aventurar-se nos negócios e abriu uma sorveteria num ponto na Rua do Comércio, defronte ao mercado. Era uma operação comercial obviamente ruinosa, pois papai nunca tinha feito um picolé na vida e não havia eletricidade permanente. Ele teve de importar um sorveteiro de Cajazeiras, Ezequias, e montar um conjunto de gerador e dínamo a Diesel para manter a consistência e a temperatura dos sorvetes. Meu tio Raimundo, médico formado em Recife, sugeriu o nome em homenagem a um lugar muito pouco frio, Alabama, o Estado sulista americano, e o nome pegou: Sorveteria Alabama. Mais do que dos sorvetes de Ezequias, que eram bons, mas não havia uma variação muito grande de sabores, talvez pela escassez de oferta de matéria-prima nas feiras de domingo, lembro-me da “radiola”, uma vitrola enorme que ficava no meio do salão. Miltinho cantava “cara de palhaço, pinta de palhaço” e eu achava engraçadíssimo porque “pinta”, para nós, era o órgão genital masculino, vulgo pênis. Havia também um long playing que o magnífico pianista e intérprete americano Nat King Cole gravou para o público latinoamericano, cantando em espanhol e até em português. É um disco maravilhoso e desde sempre aquele negro simpático com chapeuzinho é meu cantor favorito.

Campina Grande, Paraíba. Foto de Ubiracy Vieira Veloso


Já estava em plena adolescência quando foi adicionado ao repertório da sorveteria (que, na era de Paulo Afonso, sob a direção de Nozinho, passou a se chamar Sorvelanches Canaã) o LP O inimitável, de Roberto Carlos – “de que vale tudo isso se você não está aqui?” Mas aí o negócio de sorvetes de meu pai já tinha derretido e eu me mudado para Campina Grande para estudar no Instituto Redentorista Santos Anjos. A inocência da infância ficou boiando no ar na companhia das mensagens sonoras que Peta lia antes dos sucessos musicais que tocava até o motor da luz ser desligado. © Revista Felc, Ano II, Edição nº 2, Março 2008, páginas 30 e 31.


Walter Santos – In Memorian

* Senhor do Bonfim, Bahia - 07 de setembro de 1930 + São Paulo, São Paulo - 29 de maio de 2008

Walter: manso e atento

Tudo em Walter era cordial e manso: o jeito de tocar o violão da forma natural como seus ancestrais no sertão da Bahia, caso da Vó Luzia, punham o caneco no pote para tirar água de beber, camará; a voz aveludada passando pelas cordas vocais como boiada por porteira de curral, com aquela emissão precisa, suave e sem cerimônia; a forma como tratava amados e amigos do peito, com o amor imenso e sincero de um coração fabricado e treinado somente para o afeto. Mais simples e corriqueira que tudo em Walter, porém, era sua maneira de viver a vida – passo a passo, tijolo por tijolo, a quantidade exata da argamassa, sem pressa e sem medo. Walter foi aboiar no céu com Lua Gonzaga e deixou na terra mais que o vazio de sua ausência irrecuperável a certeza inabalável de que será atento como sempre, pondo o ouvido


absoluto a serviรงo de Deus: nunca mais o coro dos anjos desafinarรก e isso na certa vai nos trazer um pouco mais de paz cรก.


Dolino, passageiro da emoção

Luiz Geraldo Dolino é aposentado do Banco do Brasil, no qual fez carreira como especialista em comércio exterior. Ainda estava na ativa quando foi convidado pelo ministro da Indústria e Comércio do governo


Itamar Franco, José Eduardo de Andrade Vieira, para assessorá-lo no assunto de sua especialidade. Conhecemo-nos então e nos identificamos pela sensibilidade artística comum. Desde então, somos bons amigos. No convívio com Carlos Drummond de Andrade, Nélida Piñon e outros expoentes da literatura brasileira, este artista plástico em tempo integral, que tem percorrido como sua arte as rotas do mundo globalizado, que conhece tão bem como bancário, sentiu-se desafiado pelo título de meu livro de poesia reunida, Solos do Silêncio. E me presenteou com esta gravura com as cores do crepúsculo do Planalto da Borborema, que tanto amo, da paixão, que move e comove minha vida e das bandeiras da Paraíba, do Flamengo, do Campinense, do Sport, times de futebol de minha devoção. Divido com você, também passageiro desta Estação, a emoção de apreciar a gravura de meu amigo, aí ao lado.

Geraldo DOLINO Nascimento: Mágico Aprendiz Tentar explicar com palavras o que é representado por imagens – já foi dito e repito – é trabalho árido. É por essa razão que não devo tentar descrever uma sonata, emoção que nos contamina por meio de impactos sonoros. Os exemplos são múltiplos. No entanto, faz parte do cotidiano a leitura de textos com pretensões explicativas, que procuram tornar inteligíveis obras que pela sua natureza só se vinculam ou têm compromisso com a experiência sensorial.

Por vezes, a crítica que mais tem enriquecido a minha percepção vem de analistas que se detêm na crônica, no contexto histórico e, até mesmo, anedótico da produção artística. Os malabarismos retóricos, apreciáveis em si mesmos, agregam menos ou pouco. Entendo, portanto, que – quando capaz – para descrever o conjunto de fatos que contribuíram para a gênese de um trabalho, ninguém melhor que o seu autor, responsável final pelo delírio que resultou numa crise criativa.

Sinto-me assim autorizado a mencionar algumas passagens que eventualmente poderiam facilitar o mergulho na fantasia alheia, no caso, na minha. Para essa excursão, preciso apenas contar com a


sensibilidade dos loucos que, mansamente, me prestam socorro, evitando a viagem sem volta. E, a propósito, lembro Camus, que disse certa vez já não ter amigos; tinha somente cúmplices. Em compensação, completava o escritor, o seu número havia aumentado – era toda a Humanidade.

O difícil caminho percorrido na busca de uma gramática pessoal levoume ao encontro dos elementos gráficos de clara inspiração geométrica que são visíveis na decoração de objetos de uso cotidiano e ritualístico, assim como também no próprio corpo de nossos ancestrais indígenas. Não será um exagero afirmar que a linha curva, com a sua carga de sensualidade e sua proximidade com imagens próprias da natureza, referida aqui como paisagem, estão praticamente ausentes dessa abordagem. Os índios brasileiros cultivaram o gosto pelas formas simplificadas e estabeleceram uma linguagem capaz de expressar o seu universo simbólico por meio de um sofisticado código de formas geométricas.

Não é, portanto, de se estranhar que o artista brasileiro tivesse se voltado para o mundo que se acha entranhado na sua memória cultural, valendo-se desses elementos como fonte na luta pela conquista de uma linguagem individual. As formas exploradas no meu trabalho correspondem a uma ideologia que tem suas raízes em dois polos: o da tradição estética dos povos fundadores de nossa nacionalidade e o da busca permanente de valores plásticos capazes de fixar a nossa identidade cultural, impressa numa linguagem com trânsito universal.

Reconheço que há nessa intenção uma dose importante e permanente de dedicação atenta ao contexto onde se insere a minha realidade sócio-político e cultural. Logo, estou entre esses artistas que buscam uma inserção no universo erudito, o que implica estar antenado com a produção do meu tempo, não apenas no campo das artes visuais mas de toda e qualquer manifestação criativa. Como esclarecimento adicional, digo que um caminho talvez capaz de desvendar o trânsito dos meus interesses pode ser a simples leitura dos títulos que atribuo a cada trabalho. Porém, antes de tudo, é bom deixar claro que o nome da


obra é mero indicativo de sua existência e individualidade, mas que, no meu trajeto, é também um registro, uma espécie de diário de bordo.

Ao avançar nestas notas, vou me dando conta de que, de certa maneira, estou caindo na cilada que acaba por vitimar todo esforço de explicação para uma empresa com o propósito singelo de fazer a crônica de um processo criativo. Por isso sinto-me incluído entre esses artistas que, ao iniciar um trabalho, não têm outro objetivo senão o de livrar-se dele o mais rápido possível e que, ao serem chamados a justificar-lhe a origem e desenvolvimento, se veem obrigados a recorrer a fórmulas insatisfatórias, o que me remete à condição de um pobre mágico que para revelar um truque se vale de outro. Na verdade, não existe uma fórmula mágica para o entendimento mesmo que parcial do processo de criação. Estamos diante de um abismo que nos seduz e alucina. Mágico é, portanto, o espaço branco, vazio que nos desafia, atrai e por vezes rejeita. Nesse limite, nossos cúmplices jogam um papel fundamental, pois cabe ao espectador – grupo no qual se insere também o próprio autor diante da obra terminada – refletir sobre a função do artista, sua habilidade e talento na organização do caos.


"Solos do SilĂŞncio", DolinLuiz


No balanço dos ossos

Foto: Hugo Leão

A primeira coisa que salta aos ouvidos de qualquer ouvinte de bom gosto ao ter contato com as canções de Huguinho para este CD é que ele é um autor, intérprete, arranjador e instrumentista consistente. Sua base é sólida: vem dos tempos dos Gentlemen, o conjunto (como se dizia à época, hoje se diria banda) de bailes mais competente que já houve aqui pelos lados da Parahyba do Norte, sim, sinhô! E dos tempos do raro Paêbiru. É mole ou quer mais? Ao lado de Zé Ramalho e depois o substituindo como guitarrista solo, nos Gentlemen, Huguinho ganhou prática, experiência e, sobretudo, vivência. Um artista não se faz apenas com técnica e virtuosismo (e é bom deixar claro que essas duas coisas ele exibe, e com sobras), mas principalmente comendo o pó das estradas e o usando como argamassa, o barro que serve de estofo para a vida humana. Esse barro foi amassado com sangue, suor e lágrimas e produzido a partir de sonhos alcançados ou demolidos, felicidade esfuziante ou dor pungente, bens e males espremidos pelo talento que só o artista – e mais ninguém – tem. Huguinho chega a este CD com tudo isso no acervo. E muito mais: ele não chega pedindo licença, já vem com tudo e se atira na direção da plateia com seu espírito sensível e seu coração de leão faminto, treinado nas lutas inglórias de amores conquistados ou rejeitados. Na tradição do melhor


rock, ele despeja seus acordes e palavras com o vigor primevo de um primata mutante do planeta do som. É um lírico, mas não um lírico piegas do amor, do sorriso e da flor, e, sim, um bardo como aquele melhor Roberto Carlos de Se você pensa. Para dar bom dia a sua amada, ele não tem limites: transforma a lua em sol. E, como o Candeia do samba clássico gravado de forma imortal por Cartola, ele se declara perdido de si próprio, só por ter sido abandonado. Este CD não serve de trilha sonora para conversinhas descuidadas. Este CD, meu amigo leitor, foi produzido para ser ouvido com atenção, para sacudir seus ossos e manter sua alma desperta e seu coração aberto.


Um brasileiro como eu, você e o zé mané da esquina "80 olhares nos 80 anos de Antônio Ermírio de Moraes"(*)

Uma das maiores pragas do Brasil – comparável à saúva dos tempos de Jeca Tatu e à corrupção e ao crime organizado atuais – é a mentalidade lotérica que assola nossa sociedade. Muitos brasileiros (é sempre perigoso generalizar, mas também seria ingenuidade não reconhecer isso) têm a ilusão de que é possível ganhar tudo o que precisa para viver com conforto de uma vez só e não têm paciência para ir construindo paulatinamente e acumulando os bens resultantes do trabalho duro aos poucos. Apesar da proibição do jogo de azar no governo Dutra, após o colapso do Estado Novo de Vargas, aposta-se o tempo todo no Brasil. Faz isso o comerciante que explora o turista nas praias durante o verão; o vendedor de bondes que sonha com o grande golpe; o aposentado viciado em bingos, que teimam em funcionar, apesar de ilegais; o batedor de carteiras; ou o assaltante profissional. Mas também o empresário dependurado nas tetas do Estado, o funcionário público que cria dificuldades para vender facilidades, o viciado nos pregões da Bolsa e os milhares de préadolescentes que acorrem às peneiras dos times de futebol ou aos programas de calouro em busca de glória e fortuna fáceis. Este não é um caráter exclusivamente nacional, mas havemos de convir que aqui a impunidade crônica e a desigualdade abjeta do “manda quem pode, obedece quem juízo”, adicionada ao “me engana que eu gosto”, prosperam mais que em outros países, onde se prefere dar duro no presente, investindo no pra frente, a só sonhar com o futuro. Esta mentalidade malsã fundou a República do mensalão, do cartão corporativo e do “levar vantagem em tudo”, de interesse da elite dominante, que enche as próprias burras para distribuir com os apaniguados, dá sombra e água fresca aos devotos do bezerro de ouro do mercado financeiro e fornece esmolas de proteínas aos miseráveis. Antônio Ermírio de Moraes é, portanto, um brasileiro na contramão. Herdeiro de uma tradição de riqueza que ganha foros simbólicos, não se insere nestes padrões do ganho fácil, da escravização às aparências e às facilidades que nossa sociedade


patrimonialista concedeu a seus ascendentes e permite aos descendentes. Na pátria da cigarra, resolveu ser formiga: virou uma espécie de símbolo do homem que produz, um estrangeiro num território favorável aos lances de dados e hostil ao suor. Por isso mesmo, não deu certo na política, atividade em que se pratica a promoção pelo demérito e se considera a falta de escrúpulos e o desprezo ao mérito vantagens insuperáveis. O fato de ter sucesso nos negócios fala bem das empresas e obras beneméritas que administra, da família e dele mesmo, mas também do Brasil. Afinal, se ele dá certo, por que outros de nós, comprometidos com a solidez das construções, feitas tijolo a tijolo, com argamassa no meio, também não daríamos? Um homem respeitado pelo que faz vale muito numa terra em que a inveja pelo êxito alheio só é superada pela adoração dos aventureiros bem-sucedidos. A vida real, sem fantasia, do empresário, do dramaturgo, do benemérito Antônio Ermírio de Moraes é um investimento num País melhor, que dorme embaixo das roletas e acima das propinas. Tê-lo como exemplo é a prova de que nem tudo é jogo, nem tudo é acaso e que o possível é possível, num ambiente em que nos acostumamos a sonhar com o improvável, embalados por um acomodamento covarde e oportunista. É a constatação de que o antropólogo francês Claude LeviStraus não estava com razão, pelo menos não tinha a razão inteira, ao afirmar que o Brasil passou da barbárie para a decadência sem conhecer a civilização. Há, como afirmava o gênio da raça Gilberto Freyre, sementes de uma civilização nos trópicos nos empreendimentos do Grupo Votorantim, na medicina de excelência do Hospital da Beneficência Portuguesa e não apenas nestes exemplos, que podem não ser muitos, mas também não são de exceção. Pois, afinal, Antônio Ermírio de Moraes é um brasileiro comum, como eu, você e o Zé Mané da esquina, que percorre a pé quilômetros de casa para o trabalho duro e, mesmo sem conviver com a fortuna nem com a glória, não se deixa seduzir pelo tilintar das fichas do “cassinão” em que alguns querem transformar nossa pátria (*)Texto publicado no livro "80 olhares nos 80 anos de Antônio Ermírio de Moraes", organizado por Gabriel Chalita e José Pastore por ocasião do 80º aniversário do empresário do Grupo Votorantim, comemorados em 4 de junho de 2008, e editado pela Ediouro.


Beijos sem veneno na prosa de Nélida "Resenha sobre a coletânea Aprendiz de Homero"(*)

A padroeira dos contadores de histórias para encantar é Sherazade, a bela filha do grão-vizir que, nos contos das Mil e uma noites, prendia a atenção do sultão, noite após noite, com narrativas fabulosas como a do marujo Sinbad, entre tantas outras clássicas -, que ganharam o mundo todo, para se manter viva. Ela sobreviveu à ameaça de morte pelo


soberano às amantes que levava para a cama, mas também conquistou o sonho dourado de cada humano: a imortalidade. Tanto é verdade que aqui uma vez mais ressuscita para servir de introdução a uma resenha sobre livro de uma escritora brasileira, cujo último romance, aliás, a tinha como protagonista (Vozes do deserto, 2006). Só que, desta vez, Nélida Piñon, brasileira, descendente de galegos, não comparece ao mercado livreiro com mais uma obra de ficção, uma obra reconhecida e consagrada internacionalmente (bateu o excepcional poeta e bem-sucedido colega romancista americano Paul Auster na disputa pelo Príncipe Astúrias, prêmio dado pela Espanha a escritores de renome internacional). Mas apenas reuniu discursos, conferências, ensaios e resenhas para falar da arte de sua personagem rediviva num volume, Aprendiz de Homero, editado pela Record. Coletâneas de textos já publicados costumam ser concessões à facilidade e ao comodismo de autores que compensam a falta de inspiração comparecendo ao mercado para dar satisfação a seus editores ou manter o próprio nome em circulação em momentos de entressafra provocada pelo abandono das musas. Convém fugir desse gênero de expediente. Mas este não é o caso da mais recente obra de não ficção da célebre ficcionista: este é um livro orgânico, íntegro e, sobretudo, de leitura muito agradável. Nélida tem tal habilidade no manejo de nossa não mais inculta, mas ainda bela língua galaico-portuguesa (com raízes fincadas nos pagos da Galícia de seus ascendentes) que acaba prendendo o leitor numa teia sutil e fina, mas de fibra resistente, tornando-o súdito de seu próximo passo, de sua próxima lição - assim como Sherazade fez com o amante cruel. Nos textos todos, não importa sua destinação, sua data ou seus motivos, a autora pratica aquilo que o linguista Frank Kermode chama de "conluio sedutor", ao se referir a canções narrativas de Bob Dylan, caso de Desolation Row. E, como exige seu amigo Gabriel García Márques, o autor de Cem anos de solidão, consegue o raro feito de alterar o ritmo da respiração do leitor, como se lhe estivesse narrando uma história de trancoso ou um caso de amor daqueles de demolir corações.

Nélida tece esta teia ligando pontos de heranças, influências e vivências. O leitor é informado de passagens fundamentais que determinaram sua opção profissional, como se fosse um velho amigo da família convidado para uma prosa ao pé do fogo. “Os livros e os escritores, porém, sempre enlaçados, teciam perante meus olhos aqueles enredos que seus


personagens viviam, mas eles, não. Por isso mesmo9, alquimistas e bruxos, eles me conduziam sob o impulso da escrita, à presença de D'Artagnan, na Place des Vosges”, escreveu ela. O lembrado Dumas, o parceiro Vargas Llosa, o mestre Faulkner, o patrono Homero, citado no título, são mãos que a guiaram nesse passeio encantado pelo mundo das letras O título fala por si só da postura da autora quanto à relação entre ela e seu público: o exercício da literatura, para a autora de A república dos sonhos, é um aprendizado permanente, no qual o talento narrativo de Sherazade só tem razão de ser na exata medida da atenção que lhe presta o sultão. A escritora não assume uma postura de criadora de fatos e personae, mas de alguém que se dispõe a transmitir os rumores da tribo. É o caso de lhe passar a palavra: “sei-me destinada a queimar meu coração, a repartir minhas fibras entre anônimos, entre filhos de outros, que não são do meu sangue. A sofrer emoções advindas de um convívio difícil, mas comovente. Um convívio que, a despeito das fricções, não recebe o beijo envenenado”. Em outros termos, criar, para ela, não é um ato sobrenatural, um sopro de inspiração divina, mas um gesto corriqueiro da rotina, algo assim como tomar café e olhar a paisagem (em seu caso, a privilegiada vista da Lagoa Rodrigo de Freitas, uma das mais lindas do mundo). Sua profissão de fé na humildade do ofício é comovente: "Jamais cobrei dos livros verdades e certezas. Intuía que as palavras saíam necessariamente do forno da mentira, que revestia as ações humanas. Mas em troca pedialhes a vida do vizinho, mais fascinante que a minha. Uma vida espessa como um mingau, segundo afirmavam os pensadore, coalhada de aventuras e de afetos intensos. Daí meu coração acelerar-se ao ritmo da fantasia”.

Melhor definição para sua obra em geral, e esta particular, não haverá: uma fascinante, erudita, comovente, articulada e apaixonada conversa de comadres. “Uma vida espessa como um mingau, segundo afirmavam os pensadore, coalhada de aventuras e de afetos intensos. Daí meu coração acelerar-se ao ritmo da fantasia”. Assim é o livro novo de Nélida Piñon: um tributo à mentira construído por verdades que nunca morrem, mas habitam a alma e o coração dos homens e permanecem impressas nas páginas que compõem todo o acervo das bibliotecas do mundo.


(*) Resenha sobre a coletânea Aprendiz de Homero. Caderno 2 de O Estado de S. Paulo, pågina D5, domingo 27 de julho de 2008


Meeiro de Deus, peregrino do passado Está certo que há um bom motivo para Manuel Batista ter batizado este livro de Sementes no Outono. O autor não é chegado a camuflagens, não se perde em ademanes, não se satisfaz com a perfumaria das cortes: ele é do tipo estamos aí, pão pão queijo queijo, comigo não, violão! O que tem a dizer diz. Se tiver de calar, cala, mas não é adepto dos malabarismos diplomáticos nem dos subterfúgios performáticos. Então, o título quer dizer o seguinte: não sou mais nenhum garoto, mas estou aí produzindo, contribuindo, lutando, enfrentando a vida, quer encarar? Então, não vou ser eu, por mais brigas que também goste de comprar, que vou mudar o espírito da performance (palavra paroxítona do jeito que o velho Houaiss propugnava, queria que fosse, garantia que era) desejada por quem dedicou anos de labuta intelectual para pregar, educar, escrever, administrar, dirigir, advogar, fundar etc. Manuel Batista foi padre, não o é mais, mas continua um semeador, daqueles que sai por aí esparramando sementes em qualquer estação, em vez de espargir água benta. E não se dispõe a desperdiçar o latim duramente aprendido no seminário nas batalhas inglórias contra o pensamento canônico padronizado: inicia esta coletânea de textos semeados em todas as estações (nossas), mas a ser colhidos no outono (dele), a terçar armas contra a falácia organizada e celebrada da “pedagogia do oprimido”. Num estilo combativo e erudito, rude e escorreito, o soldado do Evangelho recorre à lógica plana que os doutores da Igreja beberam em Aristóteles para reduzir a pó as propostas de submeter a pedagogia à dialética que Marx foi buscar em Hegel. Diz ele que não quis criticar um dos mais célebres proponentes, Moacir Gadotti. Vai ver não quis mesmo! Só quis fazer um estudo comparativo, como explicou. E o leitor que tire suas conclusões. Sutil ardil: ele tratou o educador sobre o qual escreveu como este tratou a pedagogia. Minha avó Nanita gostava de dizer que “chumbo trocado não dói”. Vai ver a avó de Manuel Batista lhe ensinou o mesmo. Mas eu bem que não queria estar na pele do Gadotti. Eu, hein?! Melhor sorte que Gadotti tiveram os brejeiros com os quais ele conviveu na infância lá pelas bandas de Solânea, Remígio e sua Serraria natal. Dizem que a memória se estratifica, de forma que, à medida que envelhecemos, nos lembramos mais do passado distante que do próximo. Na verdade, a memória é um exercício de criação. Ninguém se lembra do que ocorreu: todos nos lembramos do que pensamos que ocorreu ou do que gostaríamos que tivesse ocorrido. A memória não é o registro de fatos


históricos (memorialista é uma coisa; historiador, outra), mas a leitura presente de uma ocorrência pretérita. Nós não nos lembramos, mas relatamos lembranças: não somos repórteres fiéis do que passou, mas artífices imaginativos do que passamos. Este é o Manuel Batista que voltou ao Brejo de origem para resgatar lá, em pleno outono, a primavera infantil. Se ousara eu sugerir título alternativo a esta coletânea, ele só poderia ser algo do gênero “Aventuras do conhecimento e da camaradagem”. No capítulo do conhecimento insere-se o texto comparativo em que o autor delatou a origem marxista da “antipedagogia” de Gadotti. O da camaradagem, como sói ocorrer em semeaduras outonais, terá de ser mais colorido, mais variado, mais vivo – reforçando aqui a imagem usada no título adotado para evitar incorrer na ira do prefaciado, Deus me livre e guarde! Memória é com Manuel Batista. História, com Wolfhagon Costa, o primeiro brejeiro a comparecer à galeria dos camaradas que não valem pelo que fizeram e fazem, mas pelo que são. Assim, aliás, como o autor definiu, em outro texto aqui coletado, o político Reinhold Stephanes, brejeiro de outro brejo, o húmus do vale dos rios paranaenses, entre os quais o Iguaçu, cujas águas desabam num fragor titânico lá pelos lados da Argentina e do Paraguai. No discurso em que discorreu sobre sua Serraria centenária, o padre, o advogado, o educador, o jornalista, o acadêmico se disse, sobretudo, “peregrino do passado”. É o que é no tal discurso e ao longo de todos os outros que selecionou para este livro - as saudações aos confrades da Academia Paraibana de Letras na entrada deles na Casa - e no louvor ao crítico, não por acaso também acadêmico, que veio de outras plagas, mas do mesmo interior paraibano, Hildeberto Barbosa Filho, irmão do forrozeiro Dudé das Aroeiras, ambos ex-seminaristas, meus contemporâneos no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, sob a batuta do baiano Pitiá, que da Pietá só se aproximava pelas letras das palavras. Sua definição de Hildeberto – “o melhor crítico literário na cena paraibana atual” – fala mais de quem emitiu o conceito que de quem o mereceu. Manuel Batista é assim e seu livro espelha esta característica - a do camarada franco, desabrido, sem meios termos, sem meias palavras. Não se leia a frase como uma lisonja, pois é um compromisso, uma responsabilidade que o homenageado passou a ter com quem o homenageou, e vice-versa. O desafio é negar a afirmação atribuída a outros (vagamente indefinidos) de que “quem não sabe fazer nada critica”. Sempre assim na base do uma no cravo e outra na ferradura, o autor foi distribuindo cumprimentos e cobranças entre os camaradas: quando pôs Osterne Carneiro de braços dados com Tales de Mileto à beira de um curso de água; quando citou extensamente Tomás Antônio Gonzaga na saudação ao companheiro de Ipê e de APL José Loureiro Lopes; ou


ainda ao relembrar que apresentou a esposa Célia a José Jackson, também quando o recebeu na casa de Coriolano de Medeiros. Ao falar de Geraldo Magela Cantalice, Marcos Trindade, Dorgival Terceiro Neto ou Afonso Pereira, estes três acadêmicos, o primeiro não, na verdade Manuel Batista entronizou todos no convívio permanente da camaradagem e da busca do conhecimento - aventuras árduas, pitorescas, perigosas, mas também muito profícuas, capazes de unir o útil ao agradável. Afinal, arrefecidas as fogueiras juninas das paixões das noites invernais, protegida a pele dos raios incandescentes dos sóis amorosos do verão, restam as sementes no outono, estas sempre cultivadas no borralho morno das aventuras perenes do conhecimento que se obtém na camaradagem e desta mesma camaradagem, da qual brota o conhecimento, sempre propício a gerar frutos de sabor inigualável. Do púlpito à página, da banca à classe, do escritório à estrada, vai o semeador a semear, o agricultor a ceifar e o meeiro de Deus a colher estas sementes no outono, que germinam em flores da primavera, que nunca finda, pois se pereniza no eito da palavra e na seara da língua.

José Olympio Pereira Filho ou o homem que pôs o Brasil para ler Enfim, à disposição dos leitores, o editor dos livros mais importantes do Brasil no século 20


Que interesse pode ter um livro de capa dura, fartamente ilustrado, sobre a vida de alguém que não foi poeta nem romancista e só esporadicamente escreveu cartas? Esta é a pergunta que um “idiota da objetividade” fará diante das 421 páginas da edição em grande formato de José Olympio - O Editor e sua Casa, com organização, pesquisa de imagens e texto por José Mario Pereira, editado pela Sextante para fazer justiça à trajetória de um modesto filho de português que começou a vida lavando vidros numa farmácia e teve a morte pranteada pelos grandes autores e leitores do País. A resposta pode ser dada numa sentença: qualquer brasileiro que já tenha entrado alguma vez numa livraria deveria saber que o paulista de Batatais José Olympio Pereira Filho foi o mais importante editor brasileiro do século 20. Mas somente lendo este livro minucioso, examinando suas


ilustrações raras e passeando pela farta documentação, em grande parte inédita, reunida no anexo, é possível ter uma ideia de que a expressão a que recorreu o organizador do volume (que é Pereira Filho, mas não é parente) - “o civilizador do Brasil” -, embora justa, chega a ser modesta diante do que fez o personagem. Editor da Topbooks, que lançou, entre outros, o portentoso A Lanterna na Popa, de Roberto Campos, José Mario Pereira garimpou nos arquivos da Livraria José Olympio Editora provas mais que suficientes de que, mesmo não tendo a cultura livreira de um Antônio Houaiss nem o gênio comercial de um Mauá, José Olympio fez mais pela cultura nacional que a União e os Estados juntos desde Tomé de Souza. Apesar de empregar parte dos orçamentos anuais para o incentivo à cultura, o poder público no Brasil nunca conseguiu fazer nada mais relevante que pagar os vencimentos do servidor Machado de Assis, permitindo-lhe assim legar à posteridade uma obra da qual o Brasil pode se orgulhar muito. Após ter comprado e vendido a biblioteca de Alfredo Pujol em São Paulo, J.O. entronizou o Rio de Janeiro como capital cultural do País meio século antes da Rede Globo, lançando toda a obra dos romancistas, poetas, críticos relevantes e até do pintor Portinari, que foi capista da editora e teve por ela lançado, logo após a morte, um livro de poemas.


Augusto Frederico Schmidt descobriu Graciliano Ramos lendo o relatório do então prefeito da remota Palmeira dos Índios, Alagoas, e dele publicou o livro de estréia, Caetés. Mas foi na editora de José Olympio que mestre Graça se tornou conhecido nacionalmente. J.O. fez as melhores edições de José Américo de Almeida, embora não tenha lançado a primeira de A Bagaceira. Do Ceará projetou para a glória a jovem Rachel de Queiroz, na ed itora a partir de seu terceiro romance, Caminho de pedras. Guimarães Rosa perdeu um concurso literário na Casa com os contos depois editados sob o título de Sagarana, mas foi a LJOE que publicou em 1956 o Grande sertão: veredas e os dois volumes de Corpo de baile. Gilberto Freyre, gênio de Casa grande e senzala, lançado por Schmidt em 1933, e na José Olympio a partir da 4ª edição, ganhou na “Casa” as suas melhores edições, além de ter sido o primeiro diretor da coleção Documentos brasileiros, inaugurada em 1936 com Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Pode-se discutir quem foi o maior poeta brasileiro do século 20 Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade -, mas o editor de ambos foi J.O. E também foi ele quem fez as melhores edições de Murilo


Mendes, Cassiano Ricardo, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes. Sua logomarca está impressa na primeira edição de livros fundamentais da sociologia brasileira - como Os parceiros do Rio Bonito, de Antonio Candido. Assim como, no campo da ensaística, a Casa foi pioneira, ao publicar clássicos como Machado de Assis (Estudo crítico e biográfico), de Lúcia Miguel Pereira, a série dos ensaios literários de Álvaro Lins, ou o excelente Um estadista da República, os três volumes em que Afonso Arinos examinou a biografia do seu pai ilustre. Editor importante no começo dos anos 1930, Augusto Frederico Schmidt lançou os seus melhores livros de poemas e de memórias, como O galo branco, na José Olympio. A editora de J. O. publicou ainda as memórias de Gilberto Amado e, depois que adquiriu a editora Sabiá, editou Pedro Nava. A mesma editora que trouxe a lume um dos mais badalados livros do gênero, Minha vida de menina, de Helena Morley, publicou autobiografias de Brito Broca, Café Filho, Juarez Távora e Daniel Krieger. José Olympio foi o hábil comerciante que lançou os grandes nomes da literatura e os livrosdos poderosos de seu tempo, notadamente Getúlio Vargas. Mas isso não o impediu de editar adversários de Getúlio, caso de Afonso Arinos. Os autores da Casa traduziam obras de sucesso no exterior - como o best-seller Minha vida, de Charlie Chaplin ou a obra completa de russo Dostoievsky, fartamente ilustrada, ou a de A. J. Cronin. O livro de José Mario Pereira revela pérolas como o recibo assinado por José Lins do Rego documentando o recebimento de uma comissão pela venda de livros para seu Estado natal, a Paraíba. E as muitas dedicatórias afetuosas de autores como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Carlos Drummond para J. O. Ele dá à saga de José Olympio a dimensão que, apesar do muito que já se escreveu sobre o editor ainda lhe era devida. Da obra de pesquisa séria, bem-documentada, um modelo a ser seguido no gênero, emerge um titã e um exemplo definitivo de que uma cultura de verdade não se faz com favores oficiais, mas com engenho, esmero e coragem.


Retalhos da infância que não se perdeu

O primeiro impacto produzido por esta edição da Rovelle é a beleza esplendorosa que salta aos olhos na capa e na contracapa. E também habita cada página do livro. Esta beleza nasce da consciência do poder encantatório da palavra que tem o autor, o múltiplo artista paraibano Chico Salles. Compositor e intérprete musical, além de poeta do improviso, ele tem a noção exata deste poder na dimensão oral da língua dos violeiros nordestinos, dos mestres do improviso da poesia sulina e da carga de sedução dos diversos sotaques regionais que em nada alteram a beleza nada inculta da última flor do Lácio, que Camões inventou e Eça, Pessoa, Machado, Bandeira, Drummond e tantos outros têm aperfeiçoado ao longo dos tempos. À intimidade com a palavra dita Chico soma a familiaridade com o verbo escrito. E o gênero literário que mais aproxima a linguagem falada dos códigos impressos é o cordel, romanceiro popular que se aproveita das facilidades mnemônicas da poética cantada para, com os versos impressos em papel, tornar-se poesia de bancada. Mestres desta arte, como outro sertanejo paraibano (de Pombal), Leandro Gomes de Barros, homenageado neste Cordelinho, já fizeram isto antes muitas vezes, contando aventuras, romances de amor e causos de graça (publicáveis ou fesceninos). A novidade deste livro é que o cordel tem sido pródigo em gestas e romanceiros, mas não no mesmo grau em literatura infanto-juvenil: é aí que Chico inova recontando velhas histórias tradicionais de bichos de domínio público, algumas das quais ele deve ter ouvido na infância em Souza, no mesmo Vale do Rio do Peixe onde nascemos Ciro


Fernandes e eu. E falar do xilogravador Ciro de Uiraúna, que ilustra este livro, é tratar da extraordinária beleza visual deste volume. Ex-pintor de paredes na periferia de São Paulo e, depois, “artefinalista” de agências de publicidade no Rio de Janeiro, este meu conterrâneo tornou-se um dos mais inspirados artistas neste gênero plástico popular do Brasil, muito utilizado nas capas dos folhetos, quase sempre feitas pelos autores, desde que aprendeu sua técnica com outro paraibano, Zé Altino. A barata e o tigre, protagonistas dos romances de Chico Salles, ganham vida nos seus versos. E cor, brilho e beleza também nas extraordinárias e marcantes ilustrações de Ciro de Uiraúna, senhor de um estilo único e privilegiado, que marca estas páginas como sinuosos desenhos em ferro em brasa deixavam nas pernas dos rebanhos de nossos ancestrais signos que identificavam seus proprietários. Chico Salles e Ciro Fernandes introduzem com este Cordelinho as crianças do Brasil no universo encantado dos romances de Pavão Misterioso, Generosa, Cego Aderaldo, Camonge, Bocage, Zé Pretinho e Inácio da Catingueira. E devolvem a todos nós retalhos coloridos de uma infância que nunca será perdida. © Prefácio da segunda edição do livro Cordelinho, de Chico Salles, com ilustrações de Ciro Fernandes,editado pela Editora Rovelle (Rio de Janeiro, 2008).


Sentimento íntimo da morte Em Réquiem, o poeta alagoano Lêdo Ivo depara-se com a dor provocada pela perda de sua mulher

O impacto provocado pela leitura de Réquiem, o poema longo que o alagoano Lêdo Ivo acaba de publicar, mostra que faltava algo em sua obra capaz de elevá-la a um plano mais alto que o patamar por ele já alcançado. Não é fácil dizer isso de um poeta ativo e atuante aos 84 anos e que sempre esteve entre os maiores de sua geração. Ele chegou a esta idade “inteiro”, como notou Ivan Junqueira, seu colega de poesia e de Academia Brasileira de Letras, na introdução à Poesia completa, editada pela Topbooks em 2004. Agora ele já não tem um pedaço, um tudo, que continua sendo “sempre nada / e coisa nenhuma”, mas agora o é mais


ainda, pois lhe faltava a dor, como intuiu Mário de Andrade em carta ao jovem Lêdo.

A dor a que se referiu Mario se apresenta no grave e sóbrio cenho e na expressão dolorida de seu retrato desenhado por Gianguido Bonfanti, reproduzido nesta edição. Nela os versos de Lêdo são intercalados com pinturas de Gonçalo Ivo, seu filho, também autor da capa, simples e branca, atravessada por fios que lembram uma pauta musical ou uma rede elétrica povoada por andorinhas sinistras. Sinistra foi a chegada da morte em sua vida - a bruta veio e decompôs a dupla perfeita: Lêdo Ivo ficou sem Leda Ivo. Com isso, sua poesia ficou maior, mas incompleta, cumprida a terrível profecia do criador da Paulicéia Desvairada. Desaparecida Leda, Lêdo tornou-se íntimo da indesejada das gentes. Com Leda se foram a irreverência, o humor, a ironia e o sarcasmo com que o poeta exibia as fragilidades da condição humana, sem ocultar as do próprio estro. Sem Leda ficou o convívio com o mistério da ausência.

A ressurreição pelo verso – Em Réquiem Leda ressuscita em versos mais longos e mais lentos, feitos com o esmero de hábito, mas agora com uma severidade nova, provocando no leitor a sensação de que também ele está sendo transportado no rio definitivo pela barca de Caronte - que se afasta pelos manguezais do olhar fatigado do poeta condenado à solidão. A experiência da ausência da companheira não tira a graça do registro da conversa dos adultos ouvida na infância do poeta em Alagoas e da experiência amorosa do adolescente, em Recife, logo no primeiro movimento do poema largo: “Como as letras gravadas a fogo / na anca de um cavalo roubado por um cigano, ou / um sinal de nascença / no quadril bem-amado”. A referência jocosa aos maus hábitos atribuídos aos andarilhos e a nostalgia das marcas na pele da mulher marcam o diálogo permanente de Lêdo com a amada, dolorido com a perda da musa da vida inteira, mas também reconstruído numa poesia que difere da anterior, sem recusá-la e sem repeti-la. O primeiro movimento revela a descoberta fatal: “Na Barra de São Miguel, diante do mar, / só agora aprendi: / o dia mais longo do homem / dura menos que um relâmpago”. O ritmo que Lêdo imprime ao seu Réquiem, um dos maiores poemas lavrados em português, não altera a consciência do poeta que, antes da perda decisiva, tinha vaticinado:


“Toda eternidade termina em fumaça”. Introduz, porém, um sentimento novo ao mudar o elemento sem alterar o movimento: “A eternidade passa como o vento”. A vida presente na morte - O canto fúnebre se tece nas reminiscências da vida vivida: as imagens desta memória reconstruída dão gravidade e força à música dos movimentos do Réquiem. Mas, como sempre ocorre na vida, a inexistência cobra o dízimo da profundidade e da responsabilidade da existência. É ela a funda tristeza, também mãe da beleza suprema, como lembrava Manuel Bandeira em Madrigal. “Nada sabemos, a não ser que há uma noite / pura e vazia à nossa espera. Uma noite intocável / além do fogo e do gelo, e de qualquer esperança”, reza. Poema para ser recitado em voz alta e relido em silêncio – uma obra para ficar à cabeceira, porque convoca à reflexão sobre a vida e a morte, a alegria e a solidão, o amor e a dor, o desamparo essencial do ser humano. Diante da morte de quem acompanhou a gestação de tantos de seus versos, o poeta se prostra à evidência de que nada é definitivamente glorioso ou trágico diante do mistério inexorável da perda. Subitamente só, Lêdo cresce ao se curvar e se eleva ao se ajoelhar: “Vejo a morte escondida num raio de sol: / a sobra do arrebol, ninho de nenhum pássaro / e a abolição do vôo sobre qualquer páramo”. Prova viva de que a poesia que fica é aquela que sofre, mas também zomba do próprio infortúnio, Lêdo vem reintroduzir a lírica de tantos versos incontornáveis no papel de filósofo-infante a criar uma nova épica, pondose no lugar da pedra de Drummond: “Que eu esteja sempre no meio do caminho / e a minha viagem seja inacabada”. “Felizes os que partem e não regressam jamais”, lê-se numa passagem do Réquiem. Não é exagero afirmar que feliz será todo aquele que souber encontrar as modulações do coração e do entendimento aptas a uma compreensão integral desse poema de alta inquirição existencial: um mergulho para dentro da alma, onde o poeta, infenso à autocompaixão, cuida apenas de dar voz aos mais íntimos sentimentos que lhe provocam a experiência da dor e da morte? José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e curador literário do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro.


Sacos de picolé e a sorveteria que derreteu

José de Anchieta Pinto

Sou jornalista e ficcionista. Vivo disso. Como profissional da comunicação, tenho plena noção das dificuldades de reconstituição de um fato recente, quanto mais da história – algo passado há anos, decênios, séculos. Mais do que isso: tenho experiência no ramo. Toda reportagem tem um pouco de fantasia – nem sempre por conta de alguma invencionice de quem escreve, quase sempre pelas falhas de memória de quem lhe conta o fato narrado. A memória é traiçoeira: nunca ninguém se lembra de um fato ocorrido em sua vida exatamente como ele foi vivido, pois


normalmente a lembrança chega marcada por outros fatos e outras experiências do passado e, sobretudo, pela vivência do presente. A memória é um exercício de ficção, também: quando eu escrevia o romance O silêncio do delator – laureado pela Academia Brasileira de Letras com o prêmio Senador José Ermírio de Moraes, em 2005, como o melhor livro de 2004 -, tive uma experiência interessante neste sentido. Lembrava-me de uma cena com um tigre de papel da Esso no filme A chinesa, do francês Jean-Luc Godard (que havia visto no Cine Capitólio) e quando o revi em DVD, não a achei. Talvez a versão para DVD tenha excluído a cena, mas é mais provável que ela tenha sido acrescentada à minha lembrança da fita por outro tipo de visão que tive ao longo dos 40 anos que separavam o momento em que escrevia o livro do instante em que a assisti, nos anos 60 do século passado, na adolescência passada na minha amada cidade adotiva de Campina Grande. É, portanto, com espírito compreensivo e até uma certa cumplicidade que tenho encontrado na leitura de textos desta revista a respeito do passado de minha cidade natal falhas factuais repetidas e repetitivas envolvendo uma pessoa muito amada por mim e fatos muito presentes nas minhas recordações. Como já observei em textos que escrevi e no discurso de minha posse na cadeira nº 01 (Augusto dos Anjos) na Academia Paraibana de Letras, o memorialista pode ser inventivo, mas o historiador tem o dever precípuo da exatidão na narrativa. Um pouco porque a ausência de meu pai nas histórias contadas de Uiraúna me incomoda, reconheço, mas mais ainda pelo amor à exatidão dos fatos que tem marcado minha vida de homem de imprensa, rádio e televisão, pedi à editora desta revista, Terezinha Vieira, espaço para fazer algumas correções que creio serem necessárias até em respeito aos autores que cometeram tais deslizes. A primeira lacuna diz respeito à história do Uiraúna Tênis Clube. Na minha infância, os bailes na cidade eram realizados no salão esvaziado do curtume de Antônio Jacinto, na área central do comércio. Lembro-me também de haver comparecido a festas no galpão do Grupo Escolar Jovelina Gomes, à época que lá moravam dona Palmira, a diretora, e o marido dela, seu Militão. Quando meu pai, José de Anchieta Pinto, assumiu a presidência do clube, voltando de Campina Grande, tratou de reconstruir, no meio da ampla Rua Nova, sua sede própria, cujo teto havia desabado. O prédio que ele reconstruiu lá está de pé até hoje. Como resiste ao tempo a logomarca desenhada por José Adalberto Ribeiro, meu colega no Colégio Estadual da Prata, em Campina Grande


Foi também de meu pai a iniciativa pioneira de produzir sorvetes em nosso tórrido torrão tropical. Ele tinha possuído um armazém de víveres para flagelados na seca de 1958 e sempre nutriu uma paixonite por boleias de caminhão, ganhando a vida a transportar cargas de algodão e de mercadorias do sertão para o Sudeste e do Sudeste para o sertão. Do Rio trouxe nossa paixão comum pelo Clube de Regatas do Flamengo, quando Garcia; Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan: Joel, Duca, Evaristo, Dida e Zagalo foram tricampeões em 1955. E também meu apreço pela leitura, pois me abastecia com gibis do Bolinha, Luluzinha e Pimentinha e a revista Manchete Esportiva, que publicava as magníficas colunas de Nélson Rodrigues. Ao se aventurar pelo negócio de guloseimas frias, seu Anchieta teve de importar de Cajazeiras o sorveteiro Ezequias e instalar um conjunto de motor a Diesel e gerador de eletricidade, pois à época não nos havia chegado ainda a luz de Paulo Afonso. Por sugestão de um cunhado, o médico Raimundo Ferreira Pinto, deu ao estabelecimento, na Rua do Comércio, o nome de Sorveteria Alabama, homenageando o estado sulista americano.


Ali, numa vistosa “radiola”, ouvi Nat King Cole cantando em espanhol e Miltinho, de quem sou fã e amigo hoje, entoando “cara de palhaço, pinta de palhaço”. E eu morria de rir, pois “pinta” na gíria sertaneja denominava o órgão genital masculino – a letra me parecia, então, fescenina. Ali, com saudade de uma namoradinha que havia deixado em Campina Grande, Regina Coeli, mais tarde a mãe de meus filhos e avó de meus netos, ouvia, com emoção, o LP O Inimitável, repto de Roberto Carlos ao lançamento de Paulo Sérgio, intérprete que, com voz bem similar à do Rei, fez muito sucesso, mas morreu precocemente. Contava-se – não sei se é verdade, pois nunca testemunhei – que alguns matutos misturavam a água gelada servida num copo junto com o sorvete e a mexiam com a colherzinha na taça antes de tomar. Ou ainda que outros enchiam sacos de picolés e chegavam a seus sítios com o saco molhado cheio de palitos. Pode ser que tenha aparecido gente por lá com saco para encher de picolés, da mesma forma que minha mãe, Mundica, ouvia muitos pedidos de amigas para vender sorvetes que não fizessem mal à gripe nem piorassem resfriados. Mas duvido que meu pai permitisse a venda de sacos de picolé. Mas o certo é que seu negócio derreteu ao sol do sertão, menos pela falta de costume dos nativos em relação a sorvetes, fossem moles ou duros, mas muito mais pelas despesas com o grupo gerador, o empregado, etc. Quando chegou a luz de Paulo Afonso, Nozinho Barbosa abriu no lugar a Sorvelanches Canaã, muito citada neste espaço, erradamente tida como pioneira na arte dos doces gelados em nossa terra.


Outra paixão de meu pai era pela música: tocava pistom na banda de música de Jesus, Maria, José e nas orquestras de carnaval, sempre sob a regência de Dedé de Capitão, de cuja família era amigo – amizade de que me beneficiei, pois passava minhas férias em Campina Grande ora na casa de Expedito Gomes, ora na casa de Jaceme e Manoel Israel. Meu pai não tinha o talento de Constantino de Acácio para o trompete, mas se orgulhava da potência do próprio sopro, que fazia inflar e corar as bochechas quando o tocava. De sua vocação de empreendedor foram obtidos os recursos e de seu talento de gerente foram erguidas as paredes da sede onde até hoje a banda ensaia. É assim que me lembro. E foi assim que ocorreu. Quem souber de mais pode acrescentar. Mas subtrair não, pois, se a memória é uma colcha de retalhos, a História só deve ser contada se o for com imparcialidade e exatidão


© Escrito para a revista Uiraúna. José Nêumanne Pinto, nascido em Uiraúna em 1951, filho de Mundica e Anchieta Pinto, é jornalista (chefe dos editorialistas do Jornal da Tarde), comentarista de rádio (Jovem Pan) e TV (SBT), curador literário do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, poeta e escritor.


Papangu: cinco anos de informação, opinião e irreverência

Tenho pra mim que o jornalista que se preze tem de ser sempre hostil à autoridade. Esta, contudo, não é uma tarefa fácil em lugar nenhuma – na Zoropa, na França, na Bahia e até nos Estados Unidos da América. No Brasil, ela é dificultada pelas limitações financeiras das empresas jornalísticas, que se traduzem em salários vis para os profissionais de imprensa, rádio e TV, e também pelas facilidades permitidas pela mistura maligna entre engajamento político e falta de liberdade ampla de expressão – que leva inexoravelmente à falta de informação isenta e imparcial para o público. A coisa fica mais difícil ainda no Nordeste, onde a penúria dos meios de comunicação e a radicalização da partidarização política nos veículos de comunicação são quase proibitivas do exercício da liberdade de expressão. E é por isso que louvo e não me canso de louvar a contribuição dada por esta Papangu à circulação de informações relevantes e opiniões plurais, além de tiradas irreverentes, em comunidades interioranas com poucas possibilidades de participar do livre fluxo e debate de notícias e ideias. Túlio Ratto, um gênio da caricatura, presta um serviço inestimável às cidades da região de Mossoró, do Rio Grande do Norte e do Nordeste em geral ao segurar a peteca deste periódico ao longo de um largo período de cinco anos. Não deve estar sendo muito fácil, mas com certeza é muito útil esta perseverança dele e da equipe que mantém a revista atualizada, imparcial, hostil à autoridade, leve e engraçada ao mesmo tempo. Parabéns e muito obrigado, pessoal! © José Nêumanne, jornalista, poeta, escritor, comentarista da rádio Jovem Pan e do SBT, chefe dos editorialistas do Jornal da Tarde, sócio-proprietário de A Girafa Editora, prêmio Senador José Ermírio de Morais da Academia Brasileira de Letras, em 2005, pelo melhor livro de 2004, o romance O silêncio do delator e membro das Academias Paraibanas de Letras e de Cinema, também é curador literário do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro.


Homenagem Póstuma a J.B. Lemos

J. B. Lemos, jornalista, 82 anos, viúvo, capixaba de São João do Muqui,

morreu terça-feira 3 de fevereiro, às 10h30m, em Brasília, onde foi sepultado, quarta-feira 4 de fevereiro, às 17 horas. Começou no jornalismo em 1946, em Belo Horizonte, como repórter do Jornal do Povo, pertencente ao Partido Comunista Brasileiro. Depois, mudou-se para o interior de São Paulo, onde atuou como goleiro no Radium, de Mococa. Nos anos 1950, já na Capital paulista, chefiou o Departamento de Jornalismo das Rádios Difusora e Tupi, Emissoras Associadas, tendo sido um dos redatoreschefes do Grande Jornal Falado Tupi, apresentado por Coripheu de Azevedo Marques. Dirigiu o Departamento de Telejornalismo da TV Excelsior, Canal 9. Surpreendido pelo golpe de 1964, que levou as empresas de seu patrão, Mário Simonsen, à falência, exilou-se no Chile, de onde voltou para trabalhar, primeiro, como pauteiro, e, depois, como chefe de reportagem da Folha de S. Paulo. Foi ainda chefe da redação das Sucursais do Jornal do Brasil (do Rio) em São Paulo e em Brasília e Editor do mesmo JB no Rio nos anos 1970 e 1980. Aposentou-se em seu último


emprego, o de assessor de imprensa do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CNPq), em Brasília, onde viveu os últimos anos de sua vida. . Filho do mestre-escola Alfredo e de dona Júlia Lemos, membro de um clã de 15 irmãos, ele deixou seis filhas - Sônia, Mirian, Tânia, Vera, Fernanda e Andrea -, 12 netos e uma bisneta.

Lá está Lemos, Suspenso na viga, à beira do abismo

Uma vez o radialista Alexandre Kadunc resolveu homenagear nosso guru, meu pai profissional João Batista Lemos. Escrevi João Batista porque ele não está mais aqui para repreender, para reclamar. E corrigir: J. B. Qual o que, deve estar sim. Nosso querido Lemos é espírita. Digo é, porque esta é a forma de dizer que ele ainda está vivo, entre nós, nos indicando o caminho a seguir, nos tomando pela mão e nos ensinando lições de caridade, generosidade e solidariedade: aulas de talento, garra, empenho e compreensão. Pois bem, então Kadunc resolveu fazer uma crônica na Rádio Bandeirantes em homenagem ao J. B., ou melhor ao Jomba, como o apelidamos fraternamente, filialmente melhor dizendo. E a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi um velho sucesso radiofônico. E lá soltou Kadunc o bolachão: “Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora”. Não pode haver imagem mais precisa, recordação mais justa, lembrança mais exata. Lemos - este sobrenome definitivo e definidor, que denuncia o leitor acima do escritor, o interlocutor mais que o chefe talentoso e generoso, e mais que tudo o professor – era o ombro de todos, o lenço de enxugar todas as lágrimas, o poço profundo da sabedoria onde íamos lavar nossas mágoas e saíamos enxaguados com seus conhecimentos e de suas vivências. Lemos foi nosso mestre, mas, antes disso, foi nosso consolador perpétuo, o dono da palavra amiga que resolvia os impasses mais doidos e doídos da alma de seus discípulos. Para nos consolar, chorava conosco. Para se alegrar, ria de nós rindo conosco. É meu padrão de chefe de equipe: reconhecia o talento de cada um e não cobrava de ninguém o que não estivesse a sua altura. E sempre ele se colocava à altura do mais talentoso e do mais desprovido de graça e engenho. Mas o brilhante formador e chefe de equipes era, mais que tudo, o homemequipe. Tudo nele era ombro, mas também ouvido. A boca servia para o golpe preciso, o empurrão decisivo: “Segue em frente, filho”. “Te vira, rapaz”. “Você saberá o que fazer”. Lemos com ele, ele de luz. Ele-luz. Era


nosso árbitro de elegância, nosso Petrônio moderno. Lembro-me de suas camisas de linho impecavelmente passadas. Do bigode aparado, cheiroso, cofiado, confiável. A voz sempre no registro certo: suficientemente alta para ser ouvida, suficientemente baixa para não ser confundida com irritação. O vinco das calças sempre no lugar certo. Nunca uma mulher – senhora, é claro – ouviu um palavrão dele. Galanteios, é claro, eram proferidos em profusão. Lemos foi o amigo mais galante que conheci. Ao lado dele, as feias se embelezavam e as bonitas ficavam mais acessíveis, mais perto de nós, mais ao rés do chão. Quando nos conhecemos, eu menino, seu filho homem que não sobreviveu, mandou que eu lesse os textos de Gay Talese sobre os construtores de pontes em Nova York. Ele sabia o que indicava – ele mesmo um construtor de pontes. Neste 3 de fevereiro, quando ele foi ao encontro de Chico Xavier no céu, abri uma mensagem de internet com fotos dos personagens do grande jornalista e percebi que Lemos passou a vida inteira suspenso naquelas vigas, deitado sobre abismos. Agora foi pro céu para ajudar aqueles que não pode socorrer em vida. Lemos Nightingale não iria embora assim sem mais, deixando-nos ao desamparo nesta hora dolorosa. Que esteja agora no lugar que sempre mereceu: à mão direita de Deus-pai. Deus conserve ao Seu lado o filho do mestreescola Alfredo e de dona Júlia, o irmão de 14, a vítima permanente da bursite por conta dos jogos disputados no gol pelo Radium de Mococa, o pai amantíssimo e amado de Sônia, Mirian, Tânia, Vera, Fernanda e Andrea e de todos nós, o avô de 12 e bisavô de uma, o corintiano apaixonado, o devorador de lasanhas, o fumante incorrigível e elegantíssimo. José Nêumanne Pinto, jornalista graças a Lemos. Redação da Folha de S. Paulo, nos Campos Elíseos: de pé da esquerda para a direita: Nêumanne, Adilson Laranjeira, Waltinho, Walter Silva Picapau, Dailor Varela e Carlos Eduardo. JB Lemos está sentado com Rodrigo no colo. As crianças são filhas de Walter.


Depoimento do Picapau sobre Lemos: Foi o futebol que me apresentou J. Batista Lemos. Eu trabalhava na fábrica de calçados Irmãos Solimeno, na Mooca e, convidado por um colega que tinha o rosto pintadinho, chamado Toninho, fui assistir, num domingo, a uma partida do Corinthians de Vila Monumento. Fiquei impressionado com o talento do goleiro do segundo quadro, que não era outro senão J. Batista Lemos, Seu fã, virei logo seu amigo, a ponto de trocarmos os envelopes de pagamento, pois a situação não era boa e tínhamos filhas a criar. Empreguei-me na organização Victor Costa como divulgador, juntamente com colegas como Geraldo Tassinari, Ewaldo de Almeida Pinto, Geraldo Vieira, Alexandre Kadunk, Humberto de Campos Filho. Estes e outros também trabalhavam com o chefe de reportagem, nosso Jomba querido. Não dá pra ficar apenas triste com o seu desaparecimento. É muito mais do que isso. É uma dor que não se explica, embora a gente saiba que ela um dia vem. Que Deus dê a sua alma o descanso merecido. Lembro-me, ainda, que nos anos de chumbo ele ficou preso no DOPS na rua General Osório e eu, na maior cara de pau, levava comida do


Gigetto todos os dias, porque os guardas me conheciam como repórter de campo. O mesmo se deu com Plínio Marcos, de quem também morro de saudade. Que Deus os tenha. Walter Silva, o Picapau (por e-mail)

1982 - Jornal do Brasil: José Nêumanne entrega o diploma com o desenho da foca ordenhando a baleia a Fernanda Torres, com o repórter Enéas Macedo Filho e JB Lemos ao fundo.

Quando a jornalista Fernanda A. Torres (hoje dona de uma empresa de assessoria de imprensa) leu nos jornais de São Paulo a notícia do falecimento de JB Lemos, encaminhou para José Nêumanne a cópia de uma foto, feita em 1982, com o registro do momento em que ela foi diplomada como "foca" (repórter iniciante), após cumprir pauta falsa sobre uma campanha oficial para estimular o consumo de leite de baleia. Para a reportagem falsa de iniciação, Walter Santos, cunhado de Lemos, compôs


e gravou no Nosso estúdio uma marchinha de carnaval, com letra do então chefe da redação da Sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo. Não se conhece o destino da fita, mas, graças à memória de Fernanda, eis a letra de Lemos para o fake jingle: Marchinha da diplomação da Foca "Já se foi o tempo da aveia / Prá nutrir agora só o leite da baleia (bis) Alegria! nordestinos, africanos, indianos, beduínos/ Pescadores! içai as bujarronas/ Mesmo que em pleno mar/ Aí vem a baleia do Jonas/ Para todos nós salvar (bis)"

Homenagem póstuma a J.B. Lemos. São Paulo, 3 (terça-feira) de fevereiro de 2009


Consultado por Carlos Willian, da revista Bula, sobre os dez melhores livros que leu na vida, José Nêumanne lhe encaminhou a seguinte relação: A Bíblia Odisséia, de Homero Metamorfose, de Ovídio Confissões, de Santo Agostinho A divina comédia, de Dante Alighieri Julius Caesar, de William Shakespeare Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis O estrangeiro, de Albert Camus O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger

Ilustração: Odisseia, 12. 17-28. Papiro. séc. III ex.-II a.C. Egipto colunas orig. de c. 16 cm; 32 linhas em uncial


Meu primeiro texto sem Teresa “Teresa, ai, Teresa, névoa de saudade, sob a luz acesa”. Diante da partida de minha amiga, mestra e gurua, nem o poeta Carlos Drummond de Andrade tem como me socorrer com seus versos dando conta da “mesma Teresa, Teresa de New York, Teresa de Moscou, Teresa de Belgrado e de Bogotá, Teresa de Londres, a mesma Teresa em Teresas muitas”. Teresa do Rio de Janeiro, onde nasceu, o conheceu e de onde veio. Mas, sobretudo, Teresa de São Paulo, onde criou os filhos, foi feliz e padeceu com eles, com o pai deles e conosco, os amigos de todos eles. Fomos mais felizes porque Teresa foi. E nunca mais seremos tão felizes como o fomos com Teresa a nos guiar com régua e compasso. Tai Sérgio Reis que não nos deixa mentir. Quanto a mim, é impensável não tê-la aqui ao lado em seu doce e implacável combate a esta minha tendência vaidosa de citar em excesso outros autores em meus textos: ela achava que eu teria os recursos que eu próprio achava não ter para substituí-los na comunicação com o leitor, para mim uma entidade vaga, para ela uma realidade palpável, ao alcance da ponta de seus dedos. Foi a maior prova de amor que ela me deu em toda a vida que compartilhamos. Agora, que Teresa não está mais aqui para delatar as pieguices perdidas nas frases, podar os adjetivos daninhos e mandar preencher as lacunas que só eram visíveis a seu espírito crítico vigoroso e generoso, parece-me uma tarefa penosa escrever sobre ela. E relembrar nossos momentos de comunhão e nosso longo e fatigante afastamento, causado, um pouco, pela necessidade que ela tinha de lutar contra a doença e, mais ainda, por seu estilo peculiar de saber amar à distância, tendo a velha amizade pousada no peito, como um camafeu fictício herdado de sua mãe, dona Júlia, ou uma palheta do violão preferido do baiano Waltinho, seu companheiro da vida inteira. Algo quase tão penoso quanto conviver com sua ausência, que cada vez mais me parece, mais que dolorosa, absurda e irreal. Quem vai me mandar a sapatilha rosa de presente de aniversário, dizendo ser um mimo de minha professora de balé? Quem me apresentará de novo seu pai espiritual, Luiz Gonzaga, me forçando a um permanente contato com a diáspora sertaneja? E seu compadre Hermeto Pascoal, com quem se identificava pelo exercício permanente das duas maiores paixões de ambos - a música e a graça? Quem vai me pedir os versos de Mané Caixa d’Água, poeta dos bares, praias e ruas de João Pessoa, para escrever o anúncio saudando a abertura da agência de um banco na


capital de meu Estado natal? Quem mais faria o sucesso que ela fez provando que as formas mais simples são as que contêm a mais pura sofisticação intelectual? Quem mais, CDA? Difícil, dizer de Teresa mais do que Drummond já escreveu no poema que fez para ela: “mesma ânsia de vida entre as incertezas, a mesma comovida flecha da amizade?”

Penso nela como uma usina viva de idéias saltando a seu redor, feito duendes ternos e gaiatos. Registro também sua conexão com o inconsciente coletivo popular. Não me lembro de ter conhecido alguém que houvesse tido a sintonia que ela teve com a alma comum do povo brasileiro. E tudo isso com amor, com muito amor: ela participou da fundação do Partido dos Trabalhadores por amar o povo e venerar o trabalho. Da mesma forma, saiu do PT na hora em que seus antigos companheiros de ideais os abandonaram para se curvar aos desígnios do poder e às facilidades de fortunas construídas com o suor alheio. Como sempre soube seu amigo poeta de Itabira, ela não tinha nada de “frágil Terezinha”. Nada disso! Teresa nunca condescendeu com frescuras, fraquezas e lamúrias. Perdoe, Teresa, eu não ter sabido escrever sobre você. É que eu não sei se eu saberei escrever sem você.


Deus tome conta de sua alma, como vocĂŞ ainda toma conta de nossos destinos inseparĂĄveis. Foto: Teresa Sousa em 1972, compondo com o companheiro e parceiro Walter Santos, ao violĂŁo.


O Picapau levou seu picape pro céu Elogio fúnebre a Walter Silva

As duas maiores frustrações de minha vida foram não ter visto Mané Garrincha jogar e não ter estado em São Paulo nos anos 60 do


século 20 para fazer parte das plateias da TV Record e acompanhar os festivais de Música Popular Brasileira e as gravações do Fino da Bossa e de Esta noite se improvisa. Naquele tempo, naquele palco, foram lançados para o estrelato Elis Regina, a maior cantora brasileira de todos os tempos, e uma genial geração de compositores - páreo para os sambistas cariocas (nem todos) dos anos 30. A precariedade do cinema nacional não permitiu que meu masoquismo me desse uma ideia visual das jogadas mirabolantes com que o ponteiro direito do Botafogo demolia o sistema defensivo de meu Flamengo. Mas o convívio com Walter Silva na redação da Folha de S. Paulo, nos camarins do mesmo palco da Record, só que então não mais na Consolação, mas na Augusta, e em sua casa me propiciou o privilégio de reviver com emoção e graça os anos de ouro em que desembarcaram no luminoso planeta dos rouxinóis Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Nara Leão, Edu Lobo, Roberto Carlos e Milton Nascimento. A voz grave e bonita do apresentador do Picape do Picapau me trazia de volta cada detalhe daquela constelação, que acompanhava de uma poltrona de televizinho em Campina Grande, na Paraíba. Com Walter aprendi a amar São Paulo, que não era o túmulo do samba do poetinha Vinicius nem um lugar ermo por onde a bossa nova não havia passado ensinava ele. Percebo que até hoje identifico na Mooca, bairro onde ele nasceu, o espírito paulistano, muito mais que no neon dos luminosos da Paulista e do Anhangabaú. Com Walter aprendi que, embora continue sertanejo, paraibano e carioca (Flamengo e Mangueira), também sou paulistano, ou seja, cidadão do mundo. Walter era tudo o que se pretende negar que um paulistano possa ser: amoroso, afetuoso, camarada, solidário, gregário, amigo de verdade. Custa-me compreender que não mais receberei em 25 de janeiro sua homenagem poética à cidade onde nasceu, sempre viveu, foi feliz, padeceu e morreu e em cujo solo agora está sepultado. Vou sentir falta de seus e-mails, do orgulho que ele tinha da família, da generosidade com que dedicou a vida às paixões que mantinham seu coração batendo: a boa música, o Corinthians, o grupo amplo e eclético, mas seleto, de amigos, um churrasco para beber chope, comer carne e bater papo sobre o passado, o presente e a esperança. Elis Regina, Plínio Marcos, Arley Pereira e JB Lemos agora têm sua boa companhia nas farras celestiais.


Tio Zé Bastos, meu personagem inesquecível

Zé Bastos, com a mulher, tia Floripes, e as filhas Lourdinha e Corrinha

Quando eu era pequeno, leitor míope, mas ávido, devorava as revistas que meu pai, caminhoneiro, levava de suas viagens a São Paulo e ao Rio, no sertão (ainda sem luz de Paulo Afonso) do Rio do Peixe. Minha leitura favorita era da coluna “Meu personagem inesquecível”, de Nelson Rodrigues na Manchete Esportiva. Hoje, ao escrever sobre o sertão de minha infância, ocorreu-me que alguns conterrâneos meus tornaram-se, ao longo de minha vida, protagonistas que nunca esqueci. Um deles era Zé Bastos, marido de minha tia Floripes, irmã de meu pai, Anchieta Pinto. Quando eu era pequeno, leitor míope, mas ávido, devorava as revistas que meu pai, caminhoneiro, levava de suas viagens a São Paulo e ao Rio, no sertão (ainda sem luz de Paulo Afonso) do Rio do Peixe. Minha leitura favorita era da coluna “Meu personagem inesquecível”, de Nelson Rodrigues na Manchete Esportiva. Hoje, ao escrever sobre o


sertão de minha infância, ocorreu-me que alguns conterrâneos meus tornaram-se, ao longo de minha vida, protagonistas que nunca esqueci. Um deles era Zé Bastos, marido de minha tia Floripes, irmã de meu pai, Anchieta Pinto. Zé Bastos era capaz de proezas incríveis. Começo por uma que testemunhei. Nos anos 70 do século passado, eu trabalhava na Folha de S. Paulo, na Alameda Barão de Limeira, em Campos Elíseos, quando fui avisado de que um tio meu me esperava à porta do prédio onde trabalhava, a três mil quilômetros dos sertões da Paraíba, onde ele morava. Seu João, o chefe da portaria, apontou o homem miúdo, franzino, de rosto escaveirado e sorriso aberto. Só podia ser Zé Bastos em pessoa. Ou melhor, tio Zé Bastos, como o chamei, respeitosamente, após lhe pedir a bênção. Visita à Paulicéia Desvairada - A inesperada viagem a São Paulo tinha uma explicação muito simples. Zé Bastos tinha feito algum negócio e ganhara um bom dinheiro. Resolveu gastá-lo num cabaré em Souza, a 36 quilômetros da Beleza, fazendola às portas de Uiraúna, onde morava com a mulher e os filhos, Lourdinha, Corrinha e Toinho. Sua preferência pela casa de prostituição da cidade vizinha se explicava pelo fato de a de sua cidade ficar muito perto de sua casa, no outro lado da estrada. No cabaré da Cidade Sorriso, fez amizade com o piloto do jatinho do governador de Alagoas à época, Divaldo Suruagy, que comparecia a uma reunião da Sudene no hotel estatal da estância climática de Brejo das Freiras, entre Uiraúna e Antenor Navarro (hoje novamente São João do Rio do Peixe), e também muito próxima de Souza. Quando o porre acabou, ele estava no aeroporto de Congonhas em São Paulo, sem um tostão no bolso, a roupa do corpo e sua irresistível simpatia. Além disso, tinha uma informação de cocheira: o filho de seu cunhado Anchieta era jornalista e morava lá. Aí começa a parte mais espantosa da saga do marido de tia Floripes: localizar um jovem profissional iniciante numa cidade de mais de 10 milhões de habitantes e chegar até ele não seria fácil para ninguém. Mas para Zé Bastos era café pequeno, como, à época, se costumava dizer. É um mistério para mim como foi que antes de a fome vencê-lo, ele se apresentou faceiro e lampeiro à minha frente na portaria da Folha. Contoume uma história improvável, mas todos os causos dele eram improváveis: no aeroporto conversou com alguém que já tinha lido meu nome na Folha e convenceu um motorista de táxi a levá-lo ao jornal. Ali conseguiu emprestado de seu João, chefe da portaria, o dinheiro para pagar a corrida, que eu prontamente devolvi ao solícito colega de empresa. E lá estava ele.


Ficou uns dias pela cidade e, quando deu vontade, me procurou, pediu-me dinheiro para a passagem de ônibus e voltou para casa. Deve ter sido recebido como de rotina, sem grandes reações de fúria ou saudade de minha tia. Mulherengo e valente São Paulo foi certamente o lugar mais distante a que foi levado após uma farra com mulheres da vida. Mas o único não. Nunca. Jamais. Quando não conseguia dinheiro para sair da cidade, cruzava a estrada e ia ali mesmo visitar suas amigas do cabaré de Cirilo Félix, um padeiro que tocava fole de oito baixos e batizou seus companheiros do regional que animava as noites de sua casa de “seus cabras da peste”, citação do conjunto de forró que fazia muito sucesso à época, liderado por Zito Borborema. A relação dele com o cunhado Anchieta foi longa e profícua. Zé Bastos era vendedor numa loja de tecidos e foi procurado por um credor de uma violenta e poderosa família de seu Estado natal, o Ceará. Chamado de velhaco pelo credor, ao lhe dizer que não poderia naquele momento pagar a dívida, mas logo a pagaria, conseguiu um revólver, foi ao circo onde sabia que o homem estava e o abateu a tiros. Ato contínuo, dirigiu-se à delegacia, entregou-se e entregou a arma do crime. Foi condenado, preso e cumpriu longa pena. Anchieta, com 14 anos à época, foi encarregado pelo pai, João Pinto, de tomar conta da irmã. Foi sua primeira experiência como pai de família. Na cadeia, Zé Bastos fazia negócios e ganhava dinheiro, como de hábito. Um dia, sabendo das dificuldades do Estado de manter o prédio, decidiu comprá-lo. Tia Floripes se desesperou com a idéia aparentemente absurda e pediu a ajuda do irmão mais velho. Zé Pinto o procurou e ouviu dele uma explicação lógica: - Ora esta, quero morar no que é meu. Orador desaforado - Além de cachaça e de mulher, Zé Bastos gostava muito de política, principalmente de palanque. Um dia, bêbado, teve a palavra recusada no palanque de seu candidato. Não teve dúvidas, atravessou a rua e se ofereceu para falar no comício do adversário. Foi autorizado. E disparou: - Canalhas de Uiraúna! Outro dia, meu pai estava jantando quando foi abordado por um esbaforido filho do prefeito Ananias Figueiredo. - Vai haver uma desgraça lá em casa, Anchieta. Venha, pelo amor de Deus. Meu pai conseguiu salvar tio Zé Bastos da fúria da família do prefeito. Fúria justificada, pois pediu a palavra e disse, com sua voz clara e


escandindo cada sílaba: - Não é uma honra para mim discursar na casa do maior ladrão de Uiraúna. Meu pai conseguiu tirá-lo de lá, mas com a camisa em farrapos. Tinha um tino comercial equiparável à capacidade de gastar o dinheiro que ganhava nos negócios com prodigalidade. Sempre viveu pobremente. E morreu na cama, de morte natural, desafiando uma vez mais a velha lógica aristotélica. Caminhava trôpego pelas ruas de Uiraúna e nunca nenhum dos inimigos que maldizia o molestou. Às vezes era ameaçado pela cadela de Chiquinho Nogueira, chefe de uma família que não costumava cruzar a soleira de casa carregando desaforos. Um dia, percebeu a cadela dormindo. Aproximou-se, passo a passo, silenciosamente, e lhe cravou a peixeira no coração. Antes de morrer, a cadela ouviu a expressão de seu escárnio: - Não se dorme com um inimigo à espreita.

As bombas e os punhais assinalados Na virada dos anos 50 para os 60 do século passado, havia uma certeza praticamente consensual: Albert Camus, autor de O estrangeiro, texto capital da ficção universal, ponto de partida para a fama, que levaria o autor francês nascido em Oran, na Argélia, a ser o mais jovem Prêmio Nobel da Literatura, passaria para a história como ficcionista, jamais como filósofo. A filosofia consagraria seu companheiro de bate-papos, que depois se tornariam discussões ríspidas nos cafés de Saint Germaindes-près, em Paris, Jean Paul Sartre, pai do existencialismo e defensor ardoroso das tiranias comunistas na Rússia sob Josef Stalin e, depois, na China sob Mao Tsé-tung. No entanto, deu-se exatamente o oposto. Embora a ficção de Camus continue encantando leitores de todos os quadrantes e todos os idiomas da Terra, como acertadamente foi previsto, ao contrário do que se dizia no auge da guerra fria entre o Império do Norte e o urso soviético, suas ideias filosóficas é que sobreviveram à glasnost (transparência) russa e à queda do Muro de Berlim. Sartre, que já tivera de abandonar a devoção a Stalin em vida, depois da morte do tirano e da revelação de sua brutal tirania no relatório de Kruschev ao 20º Congresso do PCUS, em 1956, não chegou a


acompanhar a dissecação das ditaduras comunistas em vários continentes, notadamente a chinesa na Ásia e a cubana na América Latina. Foi, assim, poupado do desgosto (que, na certa, teria) de ser contestado por uma quase unânime decepção que acometeu a intelligentsia ocidental após a revelação os crimes praticados (entre os quais o genocídio cambojano na ditadura de Pol Pot) em nome do destino revolucionário e socialista da classe operária, com raras e nem sempre honrosas exceções. Se tivesse sobrevivido ao reconhecimento geral de que a ética antiterrorista de Camus é hoje quase condição de sobrevivência num mundo assolado pelos homens-bomba do fundamentalismo islâmico, Sartre só teria o consolo de conservar o que se pensava que seria o legado de Camus: a extraordinária qualidade literária de sua produção de ficção ou semi (aí incluído o magnífico As palavras). Entender o que e como terminou por provocar essa inversão de valores na profecia cumprida pelo avesso é fundamental para qualquer leitor interessado em saber o que, ocupou o plano das ideias no século 20. O professor José Jackson de Carvalho, filósofo rigoroso e exegeta atento, esclarece neste livro as principais chaves da explicação deste conflito conceitual que marcou, de maneira preponderante, os debates filosófico e político no mundo neste último meio século. Seu ensaio rigoroso, mas nem por isso menos agradável de ser lido, também espalha pistas essenciais para descobrir as raízes da genial clarividência do pé preto (argelino de origem europeia) que resumiu a história do poder no trajeto da humanidade pela Terra numa frase de sua peça Calígula, recentemente montada novamente em São Paulo: “as facas são as mesmas, só mudam os afiadores”. Hoje é o caso de dizer: as bombas são as mesmas, só mudam os detonadores.

Zé da Roda com os carneiros solenes do céu


Zé Rodrix morreu na sexta-feira 22 de maio de 2009, à 1 hora da madrugada, e, desde as 5 da tarde, a hora em que os toureiros são colhidos pelos touros quando não os matam, passou a ser velado na grande loja maçônica da rua São Joaquim, 138, na Liberdade, de onde sai sábado 23 de manhã para ser cremado na Av. Francisco Falconi, 437, no crematório da Vila Alpina, em São Paulo, cidade que ele muito amou depois que a adotou, tendo abandonado a Rio de Janeiro natal. Abaixo o texto com que presto mais este elogio fúnebre em 12 meses de muitas perdas.

A primeira vez que vi Zé Rodrix na minha vida foi em 1967 na Rua Rui Barbosa, no centro de Campina Grande, Paraíba, se bem que ainda não pessoalmente, mas, sim, na tela em preto e branco do televisor de casa, pela qual acompanhava com fanatismo os festivais de Música Popular Brasileira. Então, ele fazia parte do Momento 4uatro, que acompanhou Edu Lobo e Marília Medalha em Ponteio, a canção de Edu e José Carlos Capinam que venceu o III Festival de MPB, da Record. Depois, no começo dos anos 70, quando me mudei para sua cidade natal, o Rio de Janeiro do Flamengo e da Mangueira, aprendi, cantando com ele, que “a palavra já morreu”, refrão de um sucesso do Som Imaginário. O conjunto (como se chamavam as bandas à época) acompanhava Gal Costa num show em São Paulo quando, enfim, nos conhecemos pessoalmente. Fiel a seu espírito de revolucionário


folgazão, no meio do espetáculo improvisava um inesperado solo de máquina de escrever. Um leitor, que não havia gostado nada daquilo nem muito menos de meu elogio ao desempenho dos artistas, impresso na Folha Ilustrada, da Folha de S. Paulo, me telefonou para dizer que o espetáculo era tão ruim que um dos acompanhantes da cantora baiana deixava de tocar para escrever uma carta. Como o Brasil inteiro, aplaudi Elis Regina cantando Casa no campo, composição dele e de seu maior amigo, o mineiro Tavito, e batia palmas ao compasso da salsa no refrão de Soy latino-americano. Mas só nos apertaríamos as mãos graças à internet quando ele voltou a compor, ao considerar encerrada sua temporada de publicitário, na qual havia encantado o Brasil (e eu junto) com um longo jingle de um Chevrolet. Passamos a frequentar aos sábados, a musa Júlia sempre ao lado dele, as livrarias da vida - a Azteca, nas Perdizes, a Boa Vista, na Faria Lima, e, finalmente, a da Vila, na Vila Madalena. Encantava a roda formada pelo romancista Humberto Mariotti, por Aquiles Reis, do MPB4, e por seu ídolo, o poeta Mário Chamie, contando casos do tempo da luta armada, da qual participara e que lhe servira de definitiva vacina contra quaisquer tentações totalitárias e estatizantes. De volta à música pela internet, fazendo sucesso na literatura como autor de uma trilogia de romances sobre a construção do templo de Jerusalém, o Zé da Roda, como eu o chamava na livraria (sendo por ele chamado de Zé da Neuma), se havia tornado um inimigo figadal do financiamento público de obras de arte, por achar, com razão, que esta é a pior forma que os autoritários encontraram para abastardar a cultura. Cultor da canção, como autor ou exegeta, pregava aos quatro cantos que esta sua forma capsular de expressão estética tinha mais valor que livros, quadros, concertos, filmes e peças teatrais, exatamente por ser completa em sua forma sintética de comunicação. Solidário por vocação, Zé compôs sozinho e em parcerias e também cantou em bandos na condição de adolescente permanente: Joelho de Porco, com o sócio Tico Terpins, e, desde sempre, o trio de rock rural Sá, Rodrix e Guarabyra, cuja temporada de shows só foi interrompida pela visita da Indesejável das Gentes em seu refúgio no Sumaré, onde foi golpeado por um enfarte fulminante, ao lado de Júlia, como passou todos os dias dos últimos anos de sua vida. O amigo generoso e atento continuará nos provocando e incentivando onde for que nos encontrarmos. O artista talentoso e gregário deixou sementes de canto na filha mais velha, Marya, e na caçula, Bárbara. Mas ele sempre fará falta, ao encerrar, desta forma trágica, um ano de perdas, que decepou de minha vida as companhias de Toinho Alves (do Quinteto Violado), Walter Santos, J. B. Lemos, Tereza Sousa e Walter Silva Picapau. Ao lado deles, na certa,


ele agora tem um encontro marcado com um rebanho de carneiros solenes pastando nos jardins do céu. Elogio fúnebre a Zé Rodix, por José Nêumane


A responsabilidade da imprensa no pecado de Simonal

A publicação de reportagem especial com quatro páginas num caderno e chamada no alto da primeira página da Folha de S. Paulo do domingo 21 de junho de 2009 nos ajuda a entender um episódio doloroso e lamentável que teve como protagonista um cantor muito popular, Wilson Simonal, em plena ditadura militar. O jornal deu com grande estardalhaço foros de novidade a uma informação antiga e irrelevante, informando que pela primeira vez um documento reproduziu em suas páginas na reportagem que traz a “prova” de que o artista foi mesmo informante dos órgãos de repressão na guerra suja da ditadura militar contra os grupos de extrema esquerda que o enfrentaram armas à mão. O leitor mais atento e menos ingênuo que se deu ao trabalho de ler o texto do repórter Mário Magalhães, contudo, se deparou com a informação já sabida de todos há 35 anos: não havia ali um documento comprovando que o cantor FOI um dedo-duro, mas, sim, o registro de que ele DISSE SER informante dos órgãos de


informação. Apesar de ser uma notícia requentada, pois Simonal dissera o mesmo para os meios de comunicação em plena eclosão do episódio, em 1972, o estardalhaço do jornal levou um colunista importante de um veículo concorrente, Ancelmo Góis, de O Globo, a decretar o fim definitivo do debate: “Simonal foi mesmo delator”. E foi? Claro que sim. Se levarmos em conta que seu contador Raphael Viviani foi, de fato, sequestrado por policiais amigos dele, há, pelo menos, uma vítima conhecida de uma delação do “rei da pilantragem”. Nunca ficou provado se, afinal, o mau estado das contas pessoais do astro foram prejudicadas por sua irresponsável gastança do dinheiro ganho à farta ou resultado de desfalques feitos pelo empregado. Mas não importa se o contador o roubou, ou não. Importa, sim, que, mesmo que o tivesse roubado, este não poderia ter sido tratado da forma que o fora pelo expatrão. Nada justifica o que Simonal fez com o contador. Mas também, como lembram Nelson Motta, Chico Anysio, Toni Tornado e o próprio cantor no documentário Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, de Cláudio Manoel, à exceção de Viviani, não é conhecida nenhuma outra vítima da sanha da ditadura militar sabidamente delatada por ele. O mesmo não se pode dizer de muita gente boa que não passou pelo que o ídolo passou, mesmo tendo sido comprovada a delação de vítimas fatais da guerra suja. O documentário de Cláudio Manoel, ao contrário da citada reportagem da Folha, cujo sensacionalismo é inversamente proporcional à importância que tem como reveladora de fatos históricos, é de excepcionais qualidade, profundidade e imparcialidade. Os depoimentos esclarecem o episódio, seja pela palavra, seja pela imagem dos depoentes. Os filhos Max de Castro e Simoninha não conseguem esconder a emoção quando relatam o drama do pai. Chico Anysio pontua com sabedoria e graça a narrativa. Toni Tornado ajuda, de maneira amiga e inquisitória, a desvendar os fatos ao lançar luz sobre eles. Luiz Carlos Miele põe os pontos nos is quando diz, por exemplo, que Simonal foi o maior cantor brasileiro de todos os tempos e é difícil negar essa evidência. A pretensão de passar imparcialidade de Ziraldo se trai na exibição das charges de seu colega de Pasquim Henfil, que vão da execração à inaceitável sugestão de suicídio. Mas não se pode negar que ele tem razão, seja ao atribuir à imprensa, antes de seu próprio jornal, responsabilidade pela satanização do ídolo, seja ao constatar corretamente que a delação é um crime imperdoável para o cristianismo, por culpa do apóstolo Judas Iscariotes, que traiu Jesus com um beijo. O cinismo de outro chefão da redação do mais importante representante da imprensa alternativa na resistência à ditadura, o chargista Jaguar, ultrapassou os limites da decência, seja quando sugeriu que a surra no


contador poderia ter sido justa, seja quando disse que, da mesma forma que o protagonista do documentário, ele mesmo poderia ter morrido de cirrose. A afirmação é reforçada pela cena: ele deu o depoimento tomando chope e exibindo uma garrafa de cachaça que tem como marca o próprio nome. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o ex-todo-poderoso Boni, da Rede Globo de Televisão, contribui com a evidência histórica que nega a importância da “descoberta” de Mário Magalhães: se Simonal fosse mesmo um figurão do regime autoritário, este teria saído em sua defesa. E não saiu. A reação covarde e preconceituosa dos que “gelaram” o ídolo acusado de delação aparece de forma clara no depoimento do grande instrumentista Paulo Moura e também no de Boni, que eximiu de boicote as emissoras de televisão, transferindo a decisão para os responsáveis pela programação. O documentário não inocenta Simonal. Nem poderia. Os erros cometidos por ele foram monstruosos e imperdoáveis, providenciando uma retaliação absurdamente desproporcional ao eventual delito do contador e, pior ainda, denunciando-o como “terrorista” e assumindo – ao que tudo indica, apesar da afirmação da Folha, falsamente – a condição de colaborador do aparelho policial clandestino e brutal da ditadura militar. O incrível é que, conforme o depoimento do contrabaixista Sabá, do Som3, que o acompanhava e com quem tinha grande intimidade, o cantor teria seguido essa linha absurda a conselho de seu advogado. Ele não definiu qual deles, mas é chocante lembrar que o principal defensor de Wilson Simonal era um dos ícones dos direitos humanos no Direito brasileiro à época da ditadura, Evaristo de Moraes Filho. Custa crer que um causídico com a fama que ele tinha tenha instruído o cliente a cometer erro tão estúpido. Toni Tornado insinua que possa ter havido uma “armação”. É improvável. Simonal pode ter errado por arrogância, prepotência e ingenuidade, na definição do crítico Nelson Motta. É uma hipótese mais plausível. O certo é que ele mesmo provocou sua depressão posterior ao vexame de ser processado e até preso.


Mas a covardia e o preconceito dos que não perdoaram o sucesso incrível do crioulo “folgado” contribuíram com esse erro e interromperam a carreira de um artista que fez Sarah Vaughan, a diva do jazz americano, literalmente babar a seu lado no palco, dando ambos um show inesquecível interpretando The shadow of your smile. E que regeu um coro de 27 mil pessoas no ginásio do Maracanãzinho - como ninguém o havia feito antes nem o faria depois. Foi um crime cometido pelo próprio Simonal com a cumplicidade de todos que se aproveitaram do mal entendido para fazer valer o ódio racial, a inveja social e a mediocridade pessoal. Simonal já morreu e não há mais o que fazer a respeito. Mas o jornalismo sensacionalista continua fazendo suas vítimas, como mostra o caderno especial que a Folha produziu aproveitando-se do embalo da badalação em torno do filme. Mais importante que discutir se Simonal foi, ou não, dedo-duro é debater com clareza e isenção esse pecado capital da comunicação de massas - em 1974 como hoje.


Um gogó a serviço de um cérebro

Enquanto outros astros do cancioneiro brasileiro se afundam na mesmice e relançam velhos êxitos em roupagem nova (nem tanto!) ou se escondem da inspiração em outras formas da expressão, Raimundo Fagner lança o CD Uma canção no rádio para instigar, provocar, agradar e, ao mesmo tempo, mostrar que um ídolo popular não se equilibra apenas em cordas vocais, mas também em neurônios. Recentemente, ele tinha trazido a lume um poeta maior de suas plagas, ao musicar versos do também cearense Francisco Carvalho, cujo talento supera em muito o desconhecimento de sua obra além de Fortaleza, deixando claro que não se pode medir mérito literário só pelo reconhecimento. E não faz muito tempo assim que ele gravou um CD em total parceria com um colega compositor e intérprete, o maranhense Zeca Baleiro, mostrando que estilos singulares podem bem se compor bem ao se complementarem. A safra 2009 da cepa de Fagner faz ressurgir a mesma parceria em verso, melodia e voz na faixa que dá título e nobreza ao disco. Esta pode ser definida sem favor nenhum como antológica, juntando-se ao que há de mais precioso e especial na história de nosso cancioneiro amoroso: Uma canção no rádio (filme antigo) destaca-se pelo brilho e pela simplicidade, provando que uma coisa tem tudo a ver com a outra. “Penso, rio, sofro, choro, deixo a vida pra depois”; “tenho um coração raso de razão” ou “que o céu me roube a luz, mas me reste a voz na noite calada” são versos que atingem o ápice da qualidade no topo da lírica brasileira. Não se pense, contudo, que o novo CD de Fagner se limita a este ponto culminante, pois, na verdade, não se trata de uma obra de altos e baixos, mas, ao contrário, de uma produção que prova que compensa um gogó de ouro recorrer a um cérebro de igual estofo. O mesmo Fagner que mostrou ao público que lhe pede bis intermináveis para Noturno e Canteiros com quantos acordes se canta a Espanha de Rafael Alberti e que pôs o biscoito fino de Ferreira Gullar à mesa da plebe agora traz de seu garimpo particular de artistas desconhecidos prontos para a fama mais um que tem tudo para ocupar lugar de destaque na indústria fonográfica brasileira - hoje anêmica em talentos promissores. Oliveira do Ceará, humilde servente que assina três faixas no CD do astro, aborda numa delas, Martelo (parceria com Adamar e Gabriel o Pensador, que participa da gravação), a indignação e a


estupefação da Nação inteira pelo contexto em que todos nós - do palco e da platéia – estamos inseridos. O regional nordestino, é claro, faz-se presente na sapeca Flor do Mamulengo, de Luiz Fidélis (“me apaixonei por um boneco e ele ‘neco’ de se apaixonar”), e, sobretudo, em Me dá meu coração, clássico do pernambucano Accioly Neto, cuja obra mais uma vez ressuscita na voz do “almuadem” (cantor de orações no Islã) de Orós. Desta vez com o auxílio luxuoso da sonoridade de Clemente Magalhães, Leo Fernandes, Cláudio Bezz, Alexandre Prol e Rick de La Torre, do Núcleo Criativo Corredor 5: estes meninos do Rio contribuem de forma decisiva para a unidade, a qualidade e a novidade do som do CD de Fagner. © O Estado de S. Paulo, sábado 11 de julho de 2009, Caderno 2, Página D9


Ilusões soterradas sob cal e aço

Paulicéia Dilacerada a até agora desconhecida faceta urbanista de Mário de Andrade

Mário Chamie é poeta. Da Instauração Práxis, em que surgiu aclamado por intelectuais como Gilberto Freyre, até hoje, quando é estrela de primeira grandeza na literatura nacional, seu nome se destaca na produção poética. Mas ele é também um ensaísta respeitado, tendo publicado textos profundos e precisos sobre temas literários e culturais. Um de seus ensaios mais venerados é sobre Macunaíma, saga do herói sem nenhum caráter da lavra de outro Mário, o de Andrade.


Sua obra mais recente, Paulicéia Dilacerada, resultado de pesquisas e estudos iconográficos, epistolares e comportamentais do autor de Paulicéia Desvairada, tem como ponto central o xará e grande antecessor, mas não pode ser rotulada como pertencente a algum gênero literário. Tem que ver com poesia, pois reproduz alguns poemas importantes do gigante do modernismo e outros do próprio autor, que no livro assume a identidade de Máior Hacime, anagramas de seus nome e sobrenome. Mas é, acima de tudo, prosa. Nâo propriamente de ficção, pois o texto, elegante e ágil, com esmeros de ourives próprios do autor, é escrito na primeira pessoa como se o tivesse sido pelo outro Mário, num espelhamento e concomitância de vozes ou falas de ambos. Trata-se também de um ensaio, mas elaborado de forma inusitada, pois, atribuído ao pretenso autor, reflete conceitos e idiossincrasias do escritor oculto. Máior (não no sentido de mais grande, mas no de mais experiente, como no latim e no castelhano) Hacime (a ser pronunciado com o agá aspirado, com o sotaque dos árabes, dos quais o autor descende, mas sem disfarçar a condição de topo do pódio que o anagrama trai) faz de conta que é o modernista, mas sem deixar de ser o poeta de agora. Só por isso, o mais recente lançamento do poeta de Cajobi, tomando emprestado a dor, o perfil e os conceitos do colega nascido na Rua Aurora, entra com peso e estardalhaço na anêmica produção literária nacional de nossos dias, mais empenhada em mumificar os vivos que em extrair dos mortos geniais a seiva criadora deles. Chamie (ou melhor, Hacime) encontrou no xará de Andrade idêntica condição múltipla: poeta, ensaísta, especialista em comunicação de massas e professor, o autor de hoje reproduz o inventor e pensador de ontem - ele mesmo poeta, romancista, folclorista, formulador de políticas culturais, animador e, pasme, um grande urbanista.


A prosa de Chamie não é ficção. Pois, afinal, não há um só pensamento expresso em suas frases, curtas e pontiagudas como punhais envenenados, que não seja da lavra do fundador do Departamento de Cultura de São Paulo e que deu o nome à Biblioteca Central, que fica ali na Rua Xavier de Toledo. Nas cartas a amigos, mais do que em qualquer outra fonte, o autor contemporâneo encontrou as raízes das mágoas e contrariedades de seu tema. Demitido por burocratas medíocres que substituíram seu protetor Fábio Prado na Prefeitura de São Paulo, o primeiro Mário destila sua amargura e seu rancor contra os principais responsáveis por seu afastamento do Departamento de Cultura e, depois, pelo arquivamento de sua política cultural, que se pretendia também a matriz de um plano urbanístico para São Paulo, na cadência rápida e certeira que o segundo Mário deu ao texto do livro. São eles: Prestes Maia, Abraão Ribeiro e Faria Lima. Ou seja, além de incinerar o lixo literário acomodado de nossos dias, produzindo uma obra literária além e acima dos gêneros, o autor desse libelo genial traz a lume uma revelação: Mário de Andrade foi urbanista. Da leitura de Paulicéia Dilacerada, escrito na ortografia anterior aos remendos da atual, emerge a constatação de que o gênio fundador do modernismo na literatura brasileira também foi capaz de prever a degeneração urbanística da cidade onde nasceu e foi sepultado. Chamie encontrou nas diatribes do xará de antanho contra a indigência burocrática que o afastou da coordenação do movimento cultural paulistano argumentos sólidos o suficiente para concluir que os destruidores de seus sonhos e planos também demoliram a cidade que ele imaginava ver crescer sobre bases culturalmente orgânicas e civilizadas. Um crescimento não movido por uma tacanha mentalidade provinciana, de feição quatrocentona, mas por força de nossos valores culturais sincréticos que dão vida à grande rapsódia de Macunaíma. Mário de Andrade morreu cedo, assassinado pela estreiteza obreirista de engenheiros que soterraram sua cidade sob aço, cal, asfalto e cimento de viadutos e avenidas, hoje glorificados como sábios gestores de uma


megalópole que não pode parar. O caos de 8 de setembro é o supremo feito desses “tocadores de obras” imitados por sucedâneos contemporâneos (como Paulo Maluf). O xará Chamie reuniu erudição, coragem e talento formal para ressuscitar o cadáver enterrado na Consolação, compartilhando com o leitor seu lamento e sua indignação pela degenerescência do burgo que vendeu sua alma acolhedora ao diabo do automóvel, que mora nos entulhos de uma megalópole insana. © O Estado de S. Paulo, domingo 20 de setembro de 2009, Caderno 2, p. D


Matando a fome de um paraibano do sertão

Dona Nanita, mãe de meu pai, José de Anchieta, fazia um doce de caju escuro com uma calda espessa que matava aos bocados uma família de diabéticos. Zé Pinto, enteado dela, engendrou um método eficaz para furtar os cajus da compota sem lhe “desonerar” a calda: pescava-os com varetas de madeira, evitando que a saliva no metal azedasse o conteúdo dos potes. Minha mãe, Mundica, aprendeu a chegar ao ponto daquele maná dos deuses. Certa feita, meu pai levou-me à lanchonete de certo Toinho, em Campina Grande, a 360 quilômetros de meu sertão de berço, para provar uma cartola, sobremesa em que o sal do queijo de manteiga e o doce da banana, ambos fritos, contrastam com a farofa de açúcar, canela e chocolate, fria e crua. Hoje degusto-a na Fina Fatia, em João Pessoa, na La Suissa, em Campina Grande, e no Leite, no Recife Velho. Mas nem só de veneno vive a gula de um paraibano. Zezita, mãe de minha ex-mulher, Regina, prepara uma buchada de carneiro de comer de


joelhos. Marisa, mãe de Magdala, minha mulher, sabe como guisar um bode. Carne de sol, só no Manoel, em Campina Grande. E não há ensopadado de caranguejo como o do Badionaldo, na Praia do Poço, em Cabedelo. Amém.

A Coleção Culinária Regional Brasileira é um projeto da Editora Abril que terá ao todo 20 livros. Os primeiros: Culinária Regional Minas Gerais; Culinária Regional Bahia e Culinária Regional Rio Grande do Sul já estão disponíveis nas bancas e livrarias. A cada fim de semana, entra um novo título. A produção da coleção está sendo feita pela Editora TV1. O projeto conta com divulgação pela TV e está sendo um sucesso. Entre os autores dos prefácios temos: Frei Beto, Nizan Guanaes, Márcia Tiburi, Fagner, Zeca Baleiro, Elisa Lucinda, Daliana Câmara Cascudo e Jose Nêumanne Pinto.

© Especial para a Coleção Culinária Regional Brasileira, da Editora Abril, 2009. Já nas bancas.


Terça-feira, dia 15 de novembro de 2009

José Nêumanne: Discurso no lançamento da biografia José Maranhão, uma vida de coerência.


A atualidade perpétua de Paulo

Em um estudo breve e erudito, Alain Badiou diz que a palavra do apóstolo se mantém vigorosa

Desde que Ernest Renan fez publicar sua monumental e magnificamente escrita série de textos sobre as origens do cristianismo, em que lançou luz sobre sua figura, o fariseu Saul (com nome de rei tribal judeu) de Tarso saiu das sombras de uma posição subalterna no Novo Testamento para campos mais iluminados da reflexão filosófica. Embora tenha mantido incólume sua fama de prosador de indiscutíveis graça e qualidade, o francês é hoje submetido ao crivo das dúvidas em seus atributos de arqueólogo e historiador. De sua biografia de São Paulo, rebatizado após a espetaculosa conversão, ao cair do cavalo na estrada de Damasco, de perseguidor de cristãos a cristão perseguido, vêm a lume sinais de que este foi mais que o apóstolo dos gentios da tradição de uma das profissões religiosas predominantes no mundo pós-


Império Romano. Mais que mártir ou autor das epístolas às comunidades cristãs primitivas mantidas no rito da missa 20 séculos depois, ele foi redescoberto como uma espécie de criador do Cristo, a mente poderosa que transformou o profeta simplório e taumaturgo popular na referência de uma civilização que dominaria os territórios conquistados pelas legiões romanas e as mentes e os corações que nelas têm habitado. O Paulo de Renan criou algo que viria a se chamar de Ocidente e foi o instaurador da Europa, continente que dizimou indígenas na América e tribos primitivas na África, deixando suas pegadas também pela Ásia anciã. O filho do comerciante de tendas, que, segundo se desconfia, pode ter corrompido algum burocrata do Império para adquirir a condição de cidadão romano, judeu de origem e grego por vocação globalizante (ou seja, gregária), está descendo dos altares para conquistar a glória das cátedras. Nesta era globalizante, ele deixa a hagiografia para ocupar o panteão da filosofia, entrando pelo portal da ideologia. É possível argumentar que a simpatia dos comunistas pelas raízes da cristandade remonta às origens do marxismo: o parceiro financiador do velho barbudo, Friedrich Engels, tratou do tema comparando os cristãos primitivos com os pioneiros das comunas no século 19. Engels, contudo, não é filósofo que se leve a sério fora das hostes socialistas, ao contrário do francês Alain Badiou, autor do recém-lançado São Paulo: A Fundação do Universalismo (tradução de Wanda Caldeira Brant). Num texto erudito, claro e breve, este papa do pensamento da esquerda democrática contemporânea europeia resgata o papel fundamental que o apóstolo peripatético e distribuidor de cânones para os prosélitos da nova religião na Ásia Menor e no centro do Império teve na fixação de nossa vocação para cidadãos do mundo. Com a honestidade intelectual dos devotos da lógica e da transparência, capazes de ler além dos próprios limites e raciocinar acima dos preceitos, o autor encontra nas epístolas paulinas mais que as evidências da instauração do amor como norma de convívio e sobrevivência da condição humana. O célebre trecho da carta aos coríntios, em que o missivista indica ao homem antigo a porta de saída de sua renitente crosta de egoísmo bárbaro, usando o convívio harmonioso com o outro como senha de acesso à civilização, compõe um conjunto de ideias fundadoras. Coerentes entre si, tornam a palavra


paulina essencial, conforme Badiou, para a compreensão dos enigmas que ora tentamos decifrar. Mais até que o universalismo do discurso do apóstolo, citado no título do ensaio, fascina o filósofo francês a atualidade do pregador globe-trotter de 2 mil anos atrás. Ele encontra essa contemporaneidade “perpétua” no estilo e até no universo vocabular empregados nas epístolas, que, segundo o consenso arqueológico, precedem historicamente os Evangelhos e os outros textos do Novo Testamento. Por mais escassas que sejam as linhas das cartas chegadas até nós hoje em dia, nelas predomina, conforme Badiou, “sob o imperativo do acontecimento, algo vigoroso e atemporal, algo que, precisamente porque se trata de destinar um pensamento ao universal em sua singularidade nascente (o grifo é do autor), mas independentemente de qualquer particularidade, nos é inteligível sem termos de recorrer a pesadas mediações históricas (o que está longe de ser o caso de diversas passagens dos Evangelhos, para não falar do opaco Apocalipse).” Pier Paolo (que não se perca pelo nome) Pasolini, grande cineasta (diretor do vigoroso O Evangelho Segundo Mateus), definido por Badiou como “um dos maiores poetas de nosso tempo”, é citado na obra como testemunha dessa contemporaneidade que nunca se perde. O autor ilustra sua afirmação com o projeto cinematográfico em que PPP pretendia situar o apóstolo hoje sem mudar uma só palavra que remanesce do que ele escreveu há 20 séculos. Poderoso exemplo, não? Só que há no livro de Badiou algo que vai além do roteiro citado, no qual Pasolini pretendia fazer do xará dele um ancestral dos comunistas atuais. A atualidade que o pensador moderno vê nas cartas do apóstolo de antanho não se apoia em ideias, mas em eventos, na clareza com que o missivista antigo descrevia os fatos de seu tempo com a clarividência de quem é capaz de enxergar além dele. O Paulo de Badiou não é precursor, mas profeta: não prevê, mas relata o que vai mudar para que tudo fique tal qual sempre foi

© O Estado de S. Paulo, 31 (domingo) de janeiro de 2010, Caderno 2. Disponível em http://www.neumanne.com/badiou.html

A impermeável leveza de Lula


Livro de Audálio Dantas faz mais justiça ao protagonista que filme de Barreto. Os adversários de Luiz Inácio Lula da Silva acham que ele é dotado de teflon, ou seja, que nada da sujeira que seus apaniguados produzem, ou que lhes é atribuída, macula sua lapela impecável. Mas nem a impermeabilização do mais hábil governante brasileiro desde o desembarque de Tomé de Souza na Bahia escapa à ironia da História. Comprovam-no as vítimas do golpe dos camelôs que vendem o falso DVD do filme Lula, o filho do Brasil, de Fabio Barreto. A capa reproduz o cartaz da produção do clã Barreto, preparada para ser a maior bilheteria de “nunca antes na história deste país”, com a estrela Glória Pires no papel da mãe do líder, dona Lindu, versão feminina de Confúcio no agreste. Mas, ao ser posto para tocar, o DVD não reproduz a fita pretendida, e, sim, O ABC da greve, de Leon Hirszman, sobre a greve dos metalúrgicos de São Bernardo, que ajudou a corroer nas bases a ditadura militar. Haverá ironia maior que comprar a versão pirata de uma falsificação e levar um documentário autêntico e bom? E esta não é a única ironia da História ao lidar com um fenômeno de comunicação que sepulta bem intencionados e os conduz ao Inferno, conforme máximas atribuídas aos sábios do povo, sintetizados no filme em dona Lindu. Com o filho dela “bombando” nas pesquisas de popularidade, ao atingir 82% no segundo mandato, qualquer um preveria um êxito de matar Xuxa e Renato Aragão de inveja nas bilheterias de cinema do País. Só que a pule de dez


começou sua trajetória de arrasa-quarteirão como se fosse um traque junino num copo d’água. Uma coisa nada tem que ver com a outra por várias razões, sendo uma das mais fortes delas a evidência de um ingresso de cinema custar R$ 18,00, enquanto o voto, além de obrigatório, ser gratuito. Resta, porém, a lição fundamental para os oportunistas que imaginavam transformar o carisma pessoal de Lula em fonte inesgotável de lucro de que, para fazer sucesso como o verdadeiro, o Lula do cinema teria de, pelo menos, se assemelhar um pouquinho mais ao real do que aquela mistura improvável, levada à tela, de herói revolucionário realista socialista com galã de favela. O presidente chegou ao auge da popularidade graças a uma receita equilibrada de defeitos e virtudes, similar à matéria de que são feitos os eleitores brasileiros comuns, particularmente os do segmento mais pobre e inculto da população, e bem diferente do protagonista do filme, sem defeitos, mas sem charme. Melhor fariam os espertinhos que produziram a decepção cinematográfica do verão se não tivessem escolhido como base a tese, de constrangedora ingenuidade, de Denise Paraná, relançada em livro, com modesto êxito comercial. Mas, sim, um texto que capta o melhor que há no encanto e no charme - que nem os mais ferrenhos adversários negam - da “história do pequeno retirante que chegou à Presidência da República”. O livro O menino Lula, de Audálio Dantas, ao contrário da fita canhestra de propaganda política do clã Barreto, faz justiça ao protagonista e ao povo brasileiro, que caiu de amores por ele desde que nele viu a chance de assumir o mais alto poder da República sem a intermediação dos bacharéis de antanho. A saga do moleque a quem o pai bruto negava os picolés oferecidos aos meios irmãos, alegando que ele não saberia chupá-los, narrada por um escritor de talento e ilustrada por um excepcional xilogravador, Jerônimo Soares, filho do “poeta repórter” José Soares, convence o cidadão comum de que este não precisará se esforçar muito para transportar nos ombros outro igual a ele, como no hit pop He ain’t heavy, he’s my brother (Ele não é pesado, é meu irmão, de Bobby Scott e Bob Russell, sucesso dos Hollies). O autor de O menino Lula busca em cenas comezinhas do cotidiano as bases da identificação que o político do futuro teria com o cidadão comum. Ele mesmo egresso de Tanque d’Arca, no sertão


também nordestino de Alagoas, o repórter brilhante de sempre não trouxe a lume notas brilhantes do futuro gênio, mas dificuldades sofridas em família sob a égide da mãe, não uma pretensa filósofa da aldeia, mas uma mulher escolada na necessidade de nutrir na escassez. Quem de nós não se emociona com a lembrança do desvelo paterno quando a criança se feriu numa caçada a dois, um carinho tão raro no brutamontes que até hoje o filho destaca como a evidência de que do pai não recebia só pancada e bronca? Quem não identifica o afeto filial, sempre carregado de alguma censura, na recordação do estivador analfabeto lendo o jornal de cabeça para baixo? Há mais explicações para a importância alcançada pelo protagonista nesses corriqueiros “causos infantis” que em toda a discursalhada pseudo-épica dos áulicos palacianos e dos pequenos burgueses seduzidos pelo charme proletário do pau-de-arara que subiu a rampa do poder. O livro de Audálio encanta porque ele vai buscar na infância as evidências da leveza de Lula. O filme de Fabio é pesado demais para ser carregado por nossa pobre gente débil, que prefere belas histórias reais a mentiras sem pé nem cabeça da luta pelo poder. © Aliás de O ESTADO DE SÃO PAULO, 7 (domingo) de fevereiro de 2010, p. J6 Edição de estreia da coluna de José Nêumanne, no caderno ALIÁS, do Estadão. 07 (domingo) de fevereiro de 2010] Disponível em http://www.neumanne.com/alias_001.html


A poesia nunca concede, sempre depura Dila e Gustavo Castro trazem uma significativa contribuição ao gênero.

É difícil definir com precisão a poesia. Os antigos a usavam como forma mnemônica de reproduzir a memória oral dos feitos dos povos no melhor de sua língua. De Homero aos repentistas do sertão, a métrica e a rima são recursos para facilitar lembrança e comunicação. Ao longo dos anos e das civilizações, foram acrescentadas novas formas e novas fórmulas. Até que o velho verso branco do passado caiu no verso livre modernista e a liberalidade com que muitos recorreram ao novo esquema chegou ao extremo de identificar o gênero por seu pé quebrado. Este deixou de ser atributo de poetas de estro ralo para diferenciá-la da prosa na mancha gráfica da tinta sobre o papel. A pequena coletânea Poemas vis, de Gustavo de Castro, poeta potiguar radicado em Brasília, onde leciona Estética na Faculdade de Comunicação da UnB, traz agora significativa contribuição ao tratamento desse impasse. A primeira parte do livro, de capa branca com o título preto em caixa alta e tipos grossos sobre um anjo de Gustave Doré, sob o título de azeviches, aboliu o pé quebrado da mancha gráfica para mostrar com clareza e sem subterfúgios que a poesia se diferencia da prosa mais que pela métrica, pelo ritmo da palavra ou pela rima pobre, rica, branca ou livre, pelo estranhamento. “Submerso nas cores, o destino do poeta é ser porta-voz da noite. Mas também das estrelas por trás das estrelas.


Sua luz bruxuleia em estado infantil, incerta; desassombra o medo que encobre o encontro. O poeta não sabe de nada. Anda indefeso pela vida arriando lágrimas, sorrisos e canções”, registrou Castro sem versos e com desassombro. Será prosa poética ou poesia prosaica? Não importa. De vez que é, sobretudo, poesia de primeira água. Já na página seguinte, o leitor incauto tropeçará numa frase que parece sair do meio de uma novela para ofuscá-lo, faiscante de tanta beleza: “Quando você partiu, todos foram embora também. Só ficou tristeza parada. Tristeza grávida de estação. De vez em quando, um silvo remoto içava a lembrança dos que não voltam nunca mais”. Desacostumado à ausência da célula poética do verso, o leitor poderá imaginar que se trata de um livro de gênero incerto e não sabido. No entanto, do mais exigente ao mais leniente qualquer um reconhecerá que é poesia e da mais fina feitura. Dessa conclusão logo advém a de que a poética, tal como a trata Castro, é, antes de mais nada, a negação do lugar-comum. E assim já facilita definir: é lugar-comum, não é poesia. É claro que o reverso da frase não vale, pois nem sempre o que não for lugar-comum será poesia, pelo menos da melhor. Mas, convenhamos, já é um bom primeiro passo contar com esse porto para zarpar: mesmo sem os atributos comumente associados ao estro dos vates, estes se qualificam na negação do óbvio e no enfrentamento do verbo consumado. É assim que Castro oferece na segunda parte de sua coletânea, estanhos, versos de pé quebrado, mas novamente sem o chulé verbal dos vãos trocadilhos e das pobres aliterações. Só um


exemplo: “Oh Vera// Nem toda maçã/ Apodrece/ Nem toda laranja/É de sumo/ Nem todo limão/ Emagrece// Nem sempre a verdade/ É a realidade/ Vera// O real que se vê/Não se crê/ Vera”. Era o que devia ser demonstrado: a brevidade simples e a forma na companhia do contexto. Outra característica da poesia de boa lavra, conforme Castro, é a consciência de que nem tudo o que se faz deve ser revelado, pois, semeada no plantio, ela se aprimora na poda. Parece até óbvio, mas comum não é. Sua colega professora de estética em São Paulo Dila publicou um livro pequeno como o dele com uma capa desenhada por Guto Lacaz (belíssima) e um trocadilho (argh!) como título: “Dúvida/Dívida/Dádiva”, transcrito como se fosse uma citação de algum exercício de poesia visual de Augusto de Campos. No volume planejado graficamente pelo competente artista plástico, há poesia de pé quebrado (no bom sentido) com qualidade. A que inaugura a coletânea rebrilha com primor: “Jaz//Não me interessa/a poesia, nem/que seja essa:/escrita sem//nada que a valha;/corta-me - não por/dentro - a navalha,/sem contar a dor -//não essa - mas/aquela outra mais/funda que jaz/perene por detrás”. Dila ainda produziu esta joia do lirismo amargo: “Eurídice 1//Um caminho tão/longo/a perseguir/e depois dizer:/foi tudo/pra//você,/e você/dizer:/eu não/estava ali”. Só faltou à colega de Castro o rigor autocrítico mais exigido do poeta que do professor de Estética. O epigramático que percorre quase todo o volume se perde na tentativa de emular o geométrico num poema que não pode ser repetido aqui e que brinca com “te amar” e “amor” imitando a vã excursão do modernista Cassiano Ricardo pela voga vanguardista dos concretos paulistas. Como o palpite infeliz do título, a concessão ao modismo destoa do resto da coletânea. Pode ser a exceção que toda regra exige, é verdade. Mas a poesia, como a faz Gustavo de Castro, não admite essas concessões aos facilitários da moda vil. A poesia retira no laboratório rigoroso da palavra e da frase a


jaça vulgar da infâmia dos trocadilhos e depura o texto dele expelindo contorcionismos de exibicionismo conceitual.

© O ESTADO DE S. PAULO. 6 (sábado) de março de 2010, Caderno 2, p. D8. Fotos: Leonardo Soares A/E | Carol Matias Disponível em: http://www.neumanne.com/010poesia_002.html


Sobre discípulos, mestres e umbigos. Dalton Trevisan e Rubem Fonseca viram chamarizes de dois livros que exibem mais vaidade literária do que literatura

A boa literatura seduz, a ótima literatura surpreende. A literatura excelente encanta, a literatura genial espanta. O que faz de Dalton Trevisan o mito que representa não é sua ojeriza à exibição pública, mas seu estilo fulminante, que expõe as misérias humanas com frieza cruel. Sua postura esquiva contraria a caça aflita por fama ou êxito comercial no mercado dos livros. Devassar a intimidade da alma de um gênio misterioso como ele é o paraíso dos aspirantes à fortuna crítica. E conviver com ele, a excelsa glória. Miguel Sanches Neto, paranaense de Bela Vista do Paraíso, penetrou no Éden do Vampiro de Curitiba graças ao talento inato para manejar palavras e à capacidade de fazer amigos e influenciar pessoas. Depois, se viu expelido do jardim das delícias do convívio com o ídolo, a exemplo do que houvera ocorrido antes com outros. Nada demais! A exclusão compulsória da revelação dos mistérios do gênio esquivo já tinha sido amargada até por um parceiro de juventude: Wilson Martins. Do céu dos eleitos ao limbo dos rejeitados a caminhada é dolorosa e o trajeto, árduo. O celebrado crítico, batizado no roman à clef de Sanches de Valter Marcondes,


desceria do pedestal de historiador da inteligência nacional para cutucar o gênio da prosa breve com a vara curta da irreverência, atingindo-o no ponto nevrálgico da auto-estima: o contista inovador de outrora passou a ser hoje um mestre do passado. Quem negará, pois, a Sanches, ficcionista de obra pregressa aclamada, o direito de expor pecados e mazelas do esquisitão da narrativa curta? Será acusado de cuspir no prato em que comeu a coalhada da Confeitaria Shaffer? Dir-se-á que se serviu do sangue vertido nos textos do Vampiro para dele extrair a verve, numa versão paranaense contemporânea da antropofagia dos indígenas comedores de gente, celebrada na metáfora de Oswald de Andrade? E daí? Veneno nunca fez mal à boa literatura. Nem piora a melhor. Quem condenará a intenção de engolir e vomitar a glória do ídolo em queda? A questão que fica no ar é: o que há de verdadeiro na realidade que o autor de Chá das cinco com o vampiro anunciou entregar ao leitor ávido para invadir a reclusão a que Dalton se condenou (ou em que se salvou da mesmice)? Ela chega enfraquecida pela inverossimilhança, inimiga figadal de ficcionistas: “Esconder a intimidade mais ou menos medíocre fez com que sua biografia crescesse.” Que história é essa? Retire-se o gênio literário de Dalton Trevisan, chamado de Geraldo Trentini no romance de Sanches, e o que restará de suas rabugices? Nada! Outro problema da tentativa de reduzir ao mínimo divisor comum o medíocre provincianismo do Olimpo em que intelectuais pensam viver encarapitados é encontrar para tanto uma causa útil. Que proveito terá o leitor arguto do melhor da obra do misterioso minimalista ao saber que ele assedia moçoilas incautas? Ou que o contista paga a observadores que podem gozar do anonimato que lhe é negado para injetarem sangue fresco de vida real na obra do Vampiro e, assim, a livrarem do perigo da anemia letal? Mais que o ranço do ressentimento instilado ao longo de uma narrativa conduzida de forma competente por um artesão consciente de seus dotes e caprichos, ressalta do acerto de contas do discípulo com o mestre o prazer sentido por Eva ao ver Adão morder a maçã oferecida pela serpente: o gosto do furto da glória exclusiva. “Todo leitor é um


ladrão”, justifica Sanches. Isso o inocentará da tentativa de roubar do outro não o deleite do texto de bom feitio, mas o sabor do fruto da fortuna crítica? E de sua fama? Ao convencer um ficcionista célebre como Dalton Trevisan, José Rubem Fonseca, a participar do lançamento exibicionista de seu romance Gonzos e parafusos na Livraria da Vila, em São Paulo, a carioca Paula Parisot tentou alcançar a própria excelência literária apropriando-se da competência do padrinho. A empreitada assemelhase à de Sanches, mas com uma diferença abissal: o que nele é texto de qualidade nela é patética pretensão. Ao se propor a viver uma semana numa livraria fantasiada de Baronesa Elisabeth Bachofen-Echt, personagem de um quadro de Klimt e um dos alter egos da romancista no livro, contando com a cumplicidade de um mestre das letras, ela tentou iluminar seu texto fraco com o brilho autoral dele. Sem levar em conta o ônus da responsabilidade que sua habilidade de literato cobra em seu comportamento em público, o criador de Mandrake se deixou levar pelo devaneio inviável de transferir o próprio valor para algo sem valia. Trata-se de um delírio de vaidade extremada, que, se nada retira dos méritos do prosador, nada também acrescenta aos escassos merecimentos da prosa de sua prosélita. Se a moça houvesse ficado em casa exercitando a escrita, talvez se habilitasse a produzir algo de melhor qualidade na próxima vez. Recolhido às páginas de sua obra celebrada com justiça, Fonseca daria aos fãs leais a chance de relevar a revelação recente de que ele tentou apagar da própria biografia sua participação no Ipes, instituto financiado por empresários para combater o governo João Goulart, depois do golpe militar de 1964. © O ESTADO DE SÃO PAULO, 10 (sábado) de abril de 2010, Caderno Sabático, p. S7 Disponível em: http://www.neumanne.com/010sabatico_abr10.html


O garoto que amava Yoko e a paz O garoto que amava Yoko e a paz. Vale ver Os EUA X John Lennon. Conceitos podem mudar

Do alto de uma fértil plantação de exemplos para sustentar sua teoria, Zé Rodrix costumava definir a canção como a mais sintética – e também a mais perfeita – dentre todas as manifestações artísticas. Pena que meu amigo e nosso ídolo não esteja mais entre nós e, assim, tenha perdido a chance de encontrar bons argumentos na prática para reforçar sua teoria apaixonada. O parceiro de Tavito em Casa no campo teve, como muitos de nós, o privilégio de, na flor da juventude, conviver com o maior fenômeno musical da indústria fonográfica desde seu auge nos anos 60 até a decadência destes dias: os Beatles. Mas perdeu a oportunidade de acompanhar o que agora é testemunhado pelos espectadores do documentário Os EUA X John Lennon, de David Leaf e John Scheinfeld: a militância pacifista do garoto que saiu de Liverpool para conquistar o mundo e suas consequências sobre o projeto de vida pessoal do beatle. E – ainda mais que isso – o impacto causado na mobilização interna americana contra a intervenção bélica no Vietnam por sua até então inusitada postura política e pelo refrão de seu hit Give peace a chance (Dê uma chance à paz). Com seu conceito integral do álbum conceitual, Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado em 1967, os Beatles viraram o planeta todo de pernas para o ar no que concerne à música


de consumo, aos costumes e à moda, em plena era da “aldeia global”, batizada pelo sociólogo canadense Marshall McLuhan. Isoladamente, contudo, os Beatles não participaram da efervescência política dos anos 60, para cuja denominação de “rebeldes” o grupo de roqueiros cabeludos contribuiu. George Harrison chegou a se envolver com benemerência, ao organizar o Concerto para Bangladesh. Mas só Lennon se meteu com política. A virtude desse documentário é mostrar como isso se deu e, sobretudo, como pode um menestrel abalar um Império. Como Walter Cronkite, o grande âncora da televisão americana, mostrou em seus comentários da época e no depoimento que deu depois, a causa do Vietnam foi desde sempre perdida, porque os EUA não defendiam no distante Sudeste asiático uma democracia da ameaça da tirania comunista, mas, sim, uma monarquia despótica, cruel e retrógrada. O documentário mostra – de forma interessante e comovente – como se deu a politização de Lennon. Fica clara para o espectador antenado a ativa participação da filha de um banqueiro japonês, Yoko Ono, no processo de “desalienação” do herói da classe operária de Liverpool. A artista plástica que foi apontada como pivô da separação da maior banda de música pop da história e anatemizada pelos gritinhos em suas gravações e pela foto em preto e branco do casal nu na capa de um disco solo dele o acompanhou à América. Sentindo-se em casa em Nova York , o europeu e a oriental fizeram uma imersão plena no movimento pacifista, tornando-se íntimos de líderes alternativos como Abbie Hofman, fundador do Partido da Juventude Internacional (os Yippies), e Angela Davies, militante do grupo racial Panteras Negras. O auge da militância pacifista de Lennon poderia ter sido a libertação de John Sinclair, preso por ter oferecido dois baseados de maconha a uma policial disfarçada. Mas ele chegaria mais longe, ao virar o jogo contra o governo Nixon, que tentou deportá-lo, vencendo uma ação na Justiça contra o establishment ianque. O Império perdeu a guerra na Ásia e para o beatle nos tribunais. Lennon foi assassinado pela força da própria fama. A ironia da deusa da história elimina vilões, mas tampouco poupa heróis.

© O ESTADO DE SÃO PAULO, 10 (sábado) de abril de 2010, Caderno 2+música, p. D6 Disponível em: http://www.neumanne.com/010+musica_lennonabr10.html

Conceitos podem mudar


Que mania é essa, sujeito? O paraibano Zé do Norte entrou para a história não só por aquilo que fez, mas aquilo que não fez mas disse que fez. E gravou.

Alfredo Ricardo do Nascimento, vulgo Zé do Norte, era sertanejo de Cajazeiras, no alto sertão paraibano. Sua cidade fica perto de Orós, Ceará, terra de Raimundo Fagner, e de Brejo do Cruz, no limite da Paraíba com o Rio Grande do Norte, cidade natal de Zé Ramalho e da cantora Socorro Lira. Os xarás se conheceram e chegaram a provar uns chopes muito bem tirados, acompanhados de tremoços, num restaurante alemão simpático da Lapa carioca, o Bar Brasil. A morena Socorro, dona de uma voz melodiosa e cristalina, é de outro tempo, outra geração, outro feitio. Mas agora ela e ele estão reunidos no CD Lua Bonita, em que a cantora registrou 11 canções clássicas da Música Popular Brasileira, todas com autoria atribuída a Zé do Norte, nem todas de fato compostas por ele. Na mais famosa, Mulher rendeira, Socorro recorreu a um artifício esperto: deu a cantiga de


ninar como de domínio público (DP), com adaptação de quem se dizia o autor. De certa forma, a cantora incorporou o espírito malandro do homenageado. Este, sim, apesar de egresso das brenhas do interior nordestino, aprendeu todos os truques da malandragem carioca vivendo ao lado de Cartola, Carlos Cachaça e outros compositores de renome do morro da Mangueira, no Rio. No convívio com esses bambas da Estação Primeira, ele deve ter ouvido a sentença atribuída a Sinhô, da nata dos sambistas dos anos 30, a Época de Ouro da música brasileira: “samba é como passarinho, está no ar, é de quem pegar”. E tratou de registrar como da autoria dele canções que ouviu a mãe no sertão ou algum companheiro de caserna afinado em Fortaleza cantar ou, quem sabe, em terreiros de macumba no Rio mesmo. Mas nem depois de haver tomado todas, jamais revelou ao amigo mais fiel que músicas ele de fato compôs e de quais ele assumiu a autoria. Típico personagem de Rio, Zona Norte, clássico do Cinema Novo, de Nelson Pereira dos Santos, ele não foi nisso original. Patativa do Assaré não acusava Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, de se impor como parceiro em canções que não compusera? E o maestro Heitor Villa Lobos não adaptou temas de DP (como Ó, mana, deixa eu ir, também do folclore paraibano) nas Bachianas? Certo é que Mulher rendeira já era cantada no sertão antes de Zé do Norte ser dado como gente na então capital federal. Há quem diga que seu autor é Virgolino Ferreira da Silva, o temido cangaceiro Lampião. Mas é mais provável que tenha sido adaptada e recebido acréscimos ao longo do tempo. E não é de todo improvável que algumas estrofes tenham sido criadas por aquele que a adotaria como obra dele. De qualquer maneira, a cantiga foi o ponto de partida da carreira artística que catapultou Alfredo Ricardo do Nascimento para a fama como Zé do Norte. Boa praça, com muita verve, ele se tinha tornado


amigo de intelectuais cariocas. Cantando uma embolada que fez imenso sucesso no espetáculo Aldeia Portuguesa, aproximou-se de Joracy Camargo, letrista musical e autor do maior êxito de bilheteria do teatro na virada dos anos 40 para os 50: Deus lhe pague, protagonizado por Procópio Ferreira. Pelas mãos de outra escritora e jornalista renomada, a cearense Rachel de Queiroz, foi indicado para a equipe da produção cinematográfica de O cangaceiro, dirigida pelo paulista Lima Barreto, como consultor de prosódia sertaneja. Terminou sendo o “autor” da trilha sonora, interpretada por Vanja Orico, também atriz e filha de um político renomado da época, Osvaldo Orico. O sucesso da fita em Cannes e nas bilheterias e da trilha elevou Zé do Norte ao Olimpo do cancioneiro popular nacional. Vanja, assim como Elba Ramalho, Geraldinho Azevedo, Sandra Belê e Zé Paulo Medeiros, tem participação especial no belíssimo CD de Socorro Lira. Divide a interpretação de Sodade, meu bem, sodade, uma obra-prima do lirismo musical sertanejo que, graças ao talento e à esperteza de Zé do Norte, se imortalizou. E, mercê da sensibilidade de Socorro Lira, encanta ouvintes de hoje, como antes já fizera. Morto aos 71 anos, em 1979, Alfredo Ricardo do Nascimento levou para o túmulo o segredo do que seu heterônimo Zé do Norte realmente compôs ou do que retirou do limbo do anonimato nas brenhas para projetar na glória das execuções no rádio e na televisão pelo mundão além das porteiras do sertão. Socorro Lira, com a ajuda do pesquisador Assis Ângelo, outro paraibano, resgatou a obra e a saga de seu conterrâneo, mostrando que cada canção, por ele composta ou trazida a lume, vale esse preito à alegria, à malícia e à criatividade do sertanejo que, escolado nas manhas de sobreviver, fez-se malandro carioca de escol, chapéu de feltro e cachecol.

© O ESTADO DE SÃO PAULO, 3 (sábado) de julho de 2010, Caderno 2+música, p. D4 Disponível em: http://www.neumanne.com/010+musica_zedonorte.html


O inventor do sertão Rei do Baião? Mais. Luiz Gonzaga foi além de todos os seus pares ao criar a estética de um povo que não tinha voz.

Saiba que lá pelos anos 60 do século passado a Música Popular Brasileira, dita MPB, vivia à mercê da guerra da turma do tamborim contra a patota da guitarra elétrica. Então, o pernambucano Luiz Gonzaga (homônimo do santo) do Nascimento (sobrenome inventado para comemorar a proximidade do aniversário dele com o Natal) foi despejado para o ostracismo total. Aí, emergiu das sombras a ruidosa figura do roqueiro capixaba Carlos Imperial e propagou a boa nova: “Os Beatles gravaram Asa Branca”. Era mentira. Mas o gordo da Corte havia proferido uma sacada genial: o mulato da Chapada do Araripe não era um compositor e cantor à altura de John Lennon e Paul McCartney. Mas, como os quatro fabulosos garotos de Liverpool, ele tinha fundado uma estética, inaugurado uma cultura. Os quatro cavaleiros do Império Britânico foram muito além do universo dos rouxinóis e viraram o Ocidente todo de pernas para o ar. E o sanfoneiro do Exu inventou a cultura regional nordestina.


Para esta constatação chama a atenção um livro que reúne ensaios em prosa, fotos e xilogravuras encomendados, reunidos e coletados pelo artista plástico, poeta, compositor e curador de exposições paraense Bené Fonteles: O Rei e o Baião. No luxuoso e belíssimo volume editado pela Fundação Athos Bulcão, de Brasília, e financiado pelo Ministério da Cultura não faltam excelentes textos de autores do naipe do compositor e cantor baiano Gilberto Gil, da professora cearense Elba Braga Ramalho, do poeta baiano Antônio Risério, do antropólogo paraibano Hermano Vianna, do radialista e escritor cearense Gilmar de Carvalho, da pesquisadora cearense Sulamita Vieira e do próprio organizador. Mas o que há de mais notável na coletânea é a parte visual, a cargo do fotógrafo paraibano Gustavo Moura e dos xilogravadores cearenses João Pedro do Juazeiro, José Lourenço e Francorli e Carmem, além da “Iconografia Gonzagueana” com imagens cedidas pelos arquivos do Museu Cearense de Comunicação de Nirez, em Fortaleza (CE), Museu do Gonzagão, em Exu (PE), Museu Fonográfico Luiz Gonzaga, em Campina Grande (PB), Memorial Luiz Gonzaga, em Recife (PE), Paulo Vanderley Tomaz e Iolanda Dantas. Todos eles contribuíram para uma visão multidisciplinar completa do Rei do Baião, que, falecido há 21 anos, ainda é venerado como o símbolo vivo da diáspora nordestina espalhada pelo Brasil por conta do êxodo forçado pelas secas. Seu cetro se explica de certa forma pela frase-síntese do maior folclorista brasileiro, o potiguar Luís da Câmara Cascudo: “O sertão é ele”. Mas isto é só o ponto de partida. A entronização de Lua se deve ao fato de ele ter incorporado a cultura rural sertaneja à indústria cultural urbana. Por isso, dele só se aproxima em importância na história de nosso cancioneiro a geração de sambistas cariocas dos anos 30, aos quais se juntou o mineiro Ary Barroso. Como os precursores do maior espetáculo do mundo - o desfile das escolas de samba do Rio -, Gonzagão inspirou as festas de São João introduzidas no calendário nacional: ao criar o primeiro trio


com sanfona, zabumba e triângulo, ele instaurou a música regional nordestina, introduziu ao mercado de trabalho a atividade de instrumentista e intérprete oriundo do sertão e interferiu na indústria cultural com uma nova modalidade. Quem folheia o livro da Athos Bulcão compreenderá, pela visão do conjunto da obra, que Gonzaga não virou Rei pelas canções que compôs. Aliás, o uso deste verbo é controverso, pois, na verdade, mais do que compor ele adaptou temas ouvidos nas brenhas de origem ou atravessou em parcerias com autores interessados em obter seu aval de sucesso garantido. Mas, sim, por mercê da sintonia mágica com seus dois talentosos parceiros iniciais, o advogado cearense Humberto Teixeira e o folclorista pernambucano Zé Dantas, e da indumentária típica que inventou para se apresentar: gibão de vaqueiro e chapéu de cangaceiro. E mais ainda pela intuição genial que demonstrou ao transformar a fortuna melódica do cancioneiro dos cafundós sertanejos em gêneros musicais e ritmos de dança que, só por causa dele, encantam e mobilizam o público, além de produzir sucesso e fortuna para compositores e intérpretes no rádio, depois na televisão e nos salões de festa. Jackson do Pandeiro, Marinês, Antônio Barros e Cecéu, Genival Lacerda, Flávio José, Santanna Cantador e outros grandes autores e cantores de origem nordestina não teriam exercido seu talento nem viveriam dos frutos dele se o filho de Januário não houvesse tirado dos baixos de sua sanfona o baião, o forró, o arrasta-pé e outros ritmos do Semiárido. O livro organizado por Fonteles deixa isso claro. Pena é que nele tenham sido omitidas informações sobre os autores de textos, xilogravuras e fotografias exibidos ao público com beleza e bom gosto. O leitor merecia saber quem constatou que Luiz Gonzaga foi muito mais do que o Rei do Baião e o autor e intérprete de canções clássicas (como o hino do sertão, Asa Branca): foi o semideus que criou o Nordeste Musical Brasileiro. © O Estado de S. Paulo, Caderno 2+Música, sábado, 18 de dezembro de 2010


Doces venenos da diplomacia Política, espionagem e psicanálise compõem o enredo de O Punho e a Renda, romance de Edgard Telles Ribeiro

No alvo. Telles Ribeiro, que chegou ao topo da carreira no Itamaraty: raro talento narrativo e coragem cívica O bom escritor se conhece pelo princípio da obra. Meio caminho terá andado o autor para ter o texto bem avaliado se lhe providenciar um bom começo para cativar o olhar e, como ensina Gabriel García Márquez, segurar o fôlego do leitor. O Punho e a Renda, de Edgard Telles Ribeiro, vence este desafio com folgas. O narrador, diplomata noviço, busca uma palavra para usar num relatório e, de repente, como se baixasse o anjo da anunciação, um vulto sai da penumbra e lhe sopra o vocábulo, que cai como uma luva. Assim é apresentado o protagonista da história, que não é o narrador, mas seu melhor colega de trabalho na juventude. Um lance de mestre: narrador e leitor fisgados pela mesma isca.


Mas evidentemente um boa pegada no início não é suficiente para segurar uma história capenga. É necessário encontrar um bom fim. E não é que o dito romancista conseguiu um fecho estupendo para sua narrativa? Revelá-lo nesta resenha não será incorrer em pecado mortal nem mesmo capital ou até venal. O tema do livro é a longa noite dos porões na ditadura militar brasileira e a fábula que o encerra não descreve uma seção de tortura nas masmorras nem a saga de alguma mãe em busca de seu filho tresmalhado nas celas clandestinas do sórdido Gulag tupiniquim. Nada disso: o personagem da narrativa em questão faz parte do rebanho dos sobreviventes. E esta ficção de terror não foi contada com gritos, sussurros nem pontos de exclamação, mas em silêncio tenso e sepulcral no meio de ruidoso tumulto. Muito tempo depois de haver fugido de casa para escapar dos esbirros que o foram prender, ele encontra a irmã num ônibus urbano e se olham sem uma palavra, um sorriso ou um aceno – apenas o gesto do dedo dele selando o lábio para evitar a bandeira da emoção deslavada por parte dela. O medo conteve a euforia e manteve represada a surpresa. O leitor arguto poderá argumentar que estas duas cenas poderiam ter sido filmadas por Costa-Gavras ou Michelangelo Antonioni. De fato, são cinema em estado de extrema pureza. Narrador e autor lecionam – ou lecionaram – cinema na universidade. Mas nem mesmo o mais ranheta dos críticos, depois de lê-las, deixará de reconhecer que foram lavradas na mais perfeita e canônica arquitetura literária. Aí é que emerge outro aspecto fundamental no bom romance e que este aqui resenhado tem: um miolo à altura da entrada e da saída do leitor de suas páginas. Edgard Telles Ribeiro saiu-se bem nesta empreitada. Sem querer ser mais irreverente do que porventura possa se propor um ocupante deste espaço fugaz – mas sendo –, é o caso de deixar registrado que ele escreve muito bem... como o faria um competente profissional estrangeiro da escrita. E muito além do amadorismo reinante nestes trópicos mais enfadonhos do que tristes.


Víboras de gravata. O Punho e a Renda narra os bastidores da diplomacia brasileira por ocasião de um dos mais sórdidos episódios da história latino-americana, a Operação Condor, esquema transnacional de colaboração clandestina entre serviçais civis e militares de direita dos regimes autoritários vigentes na América do Sul nos anos de 1970. Só isso pode dar ao leitor a ideia da oportunidade oferecida a quem enfrentou o desafio de escrever e a quem aceita a gozosa tarefa de ler seu texto. Trata-se de um roman-à-clef, aquele gênero literário em que personagens reais com nomes fictícios atuam em cenários históricos. Chega a ser divertido procurar no entrecho do livro figuras com traços de caráter muito comuns nos desvãos da política, que muda como as nuvens do céu, e nos corredores do Itamaraty, serpentário de silvos refinados e doces venenos. A saga do aventureiro que serviu à sanha da direita e continuou a subir após algumas de suas vítimas no passado conquistarem o poder republicano chega a ser corriqueira, de tão frequente. Para Telles Ribeiro contar a história que contou, mesmo sendo passados 40 anos, teve de reunir ao talento narrativo coragem cívica. Nada disso lhe faltou em nenhum momento. E o recurso da chave, usado na ficção para bois seguirem anônimos nos currais, não o poupará de picadas de víboras desmascaradas, pois estas ainda poderão lhe prejudicar a carreira no Itamaraty, ainda que já seja embaixador. Em todo caso, o que menos importa neste caso é saber quem na vida real corresponde aos personagens tecidos com precisão de joalheiro no texto que é longo, mas leve. Importa mais é conhecer a natureza da história e suas implicações na vida de cada um, com todos os ingredientes bem misturados de política, guerra, colunismo social, espionagem e psicanálise. Este livro, cujo título se refere menos aos punhos de renda e mais à força bruta e à corrupção, certamente elevará seu autor no pódio dos maiores ficcionistas em língua portuguesa. O exagero do emprego de tipos itálicos na composição da mancha gráfica e o mau gosto evidente do arame farpado usado na capa para insinuar que o volume possa conter o relato de algum sobrevivente de campos de concentração nazista, em nada impedir-lhe-ão a fortuna crítica que, com todos os méritos, lhe está reservada. © O Estado de S. Paulo, 22 de janeiro de 2011, Sabático


Sinais de um idioma poético próprio

Variedade de recursos, a partir da herança cabralina, marca Os Viventes, do gaúcho Carlos Nejar, que ganha nova edição

Os Viventes chama a atenção, de início, pelo porte. Geralmente, coletâneas poéticas são raquíticas. Esta, não: o volume em que Carlos Nejar retomou a mesma obra pela terceira vez pode ser confundido nas estantes com portentosos romances de Érico Veríssimo ou Thomas Mann. Tendo a obra reunida do autor vindo a lume há pouco em dois livros grossos de capa dura, é possível ter uma ideia de sua fecundidade, rara no gênero. Mas não é isso que mais chama a atenção na produção poética do gaúcho com passagem pelo Espírito Santo antes do pouso no Rio. E, sim, o fato singular de conter uma tentativa (bem-sucedida) de estabelecer uma voz própria e singular, a exemplo do que ocorreu com o maior poeta brasileiro (e um dos maiores do mundo) em seu tempo, João Cabral de Melo Neto. O rigor formal, a métrica esquálida e a temática incomum, fugindo dos temas banais do amor, sorriso e a flor, do poeta pernambucano o tornou, mais do que único, a matriz de toda a produção poética brasileira desde 1945, quando foi publicado seu terceiro livro, O Engenheiro. A dicção cabralina – marcante, pessoal


e inconfundível – tornou-se um desafio perdido pela quase totalidade de poetas brasileiros que a tentaram imitar ou emular. Ela também deixou rastros em Nejar, como fica evidente em O Guaíba no Poente: “O Guaíba com suas patas, / focinho, cinchas de água / vai carregando o sol, / carrega o poente às costas, / e não há um outro igual, / mais ancho, de orelhas postas / entre as pétalas do ar”. Estes são versos poderosos e pessoais, mas não disfarçam a herança cabralina, que arruinou a fortuna crítica de tantos outros menos dotados do que Nejar. É de destacar Discurso do Cupim como amostra desta citada voz “nejarina/’: “Eu, cupim, presido / a realidade / e à realidade acato, / sem o crime / de me haver condenado. / Sei de onde vem / o homem e para onde / vai. Exalto e toda / a saciedade como / a madeira mastigo” Ivan Junqueira registrou, no prefácio, o fato de seu colega na Academia Brasileira de Letras (ABL) ter acompanhado ainda o rastro de Cabral na substituição do genérico lirismo egocêntrico pela narrativa romanesca na terceira pessoa. Não se trata, é claro, de um recurso original. Ao contrário. A narrativa épica se contrapõe ao intimismo lírico desde a Grécia antiga quando os rapsodos sintetizados em Homero narraram gestas heróicas, que se constituiriam marcos da forma poética, passando pelo romano Virgílio (A Eneida) até chegar às pedras de fundação do dialeto toscano tornado idioma italiano (A Divina Comédia, de Dante Alighieri) e do galaico-luso cristalizado no português moderno (Os Lusíadas, de Luís de Camões). A terceirização da voz poética, adotada nos romances dos cordéis de feira no Nordeste, é outro exemplo de que a fonte cabralina, em que o autor bebeu, já se originava em outras vertentes. Mas Nejar não pode ser considerado um reles epígono de Cabral. Há em Os Viventes exemplos de poemas pautados em formas fixas, além de outros feitos para serem lidos em voz alta, e não apenas impressos em papel, mercê do recurso à forma toante, introduzida no interior de versos reiterativos e recheados de anáforas. Essa variedade, tornada inexorável pelo volume de papel contido entre capa e contracapa, também se explica pela história da obra, lançada em 1979 com 66 “personagens-poemas” e reeditada com a adição de mais 113. Nesta terceira edição, foram


acrescentados mais 300 textos. Esse percurso, que lembra o místico Livro de Areia, de Jorge Luís Borges, e remete, inevitavelmente, à saga de Folhas da Relva, de Walt Whitman, é, a um tempo, fascinante e arriscado. A dificuldade de cumprir a tarefa da regularidade, exigida de todo poeta, mas dispensada, só para recorrer ao exemplo mais comum, pelo citado Whitman em seu livro interminável, foi largamente compensada, neste caso, pela presença cintilante de alguns poemas antológicos de nossa literatura. Brilha, por exemplo, em faíscas de sabedoria histórica e felicidade imagética a abertura de Judas Iscariotes, uma das glosas de temas bíblicos da “Arca da Aliança”: “Desta árvore / a humanidade pende / calada”. E o leitor se vê, de repente, desabando estrofes abaixo em queda livre até se espatifar no terceto final: “Também sou preso / na mesma cruz. / Mas não ressuscitei”. No conjunto de poemas de “A Nau dos Insensatos”, o universo mítico helênico é reconstruído com uma habilidade que certamente encantou o prefaciador Ivan Junqueira, outro cultivador do apreço parnasiano (recuperado pela geração de 1945) pelo classicismo da antiguidade. Ulisses é um feliz exemplo desta amostra de que o autor navega pelas formas tradicionais com a mesma originalidade exibida na voz peculiar conquistada por seu estro: “Andante / de praias e mulheres, / nenhuma aurora / comigo velejava, / embora velejasse / mais tarde / com meus ossos”. A voz de Ulisses lamenta: “Ninguém eu sou / sem pátria / e a ela escrevo / a eternidade / em mim”. Metro breve e fôlego longo do poema encontram-se no fecho: “Ninguém / é Ulisses por acaso”.

© O Estado de S. Paulo, sábado, 14 de maio de 2011, Sabático, p. S7.


Um testamento de plena liberdade

O título do livro – Neonarrativas Breves e Longas – já diz tudo. A um ano dos 50 do lançamento de Lavra Lavra, seu quarto livro, com o qual “instaurou”, verbo que usava para tratar do assunto, a poesia práxis, e dos 30 de sua maior obra como administrador público de cultura, o Centro Cultural Vergueiro, Mário Chamie deixou de publicar poemas, que continuava escrevendo, para entregar-se à prosa. Que prosa? Em seus dois últimos lançamentos literários – o anterior foi Pauliceia Dilacerada –,


ele abandonou a condição extremada de poeta para se tornar uma espécie de domador e encantador de palavras, pássaros que deixou de engaiolar em versos ou em quaisquer outros gêneros – ensaios, romances, novelas, contos, seja lá o que forem. No ano passado, os críticos e jurados de concursos literários se viram em palpos de aranha para definir Pauliceia. Seria narrativa biográfica do inferno astral vivido por outro poeta Mário, o de Andrade, depois de demitido do Departamento Cultural da Prefeitura de São Paulo, ou ensaio sobre os efeitos literários do impacto negativo

produzido pela demissão na produção do autor de Amar, Verbo Intransitivo? Em última instância, poderia até ser uma novela ou um romance breve com tintas historiográficas a respeito do célebre homônimo. Bastidores Líderes No caso do último livro publicado em vida por Chamie, a coisa ainda é mais complicada. Iluminado pelos holofotes da glória literária desde 1962, no advento da “instauração práxis”, em meio a uma arenga cultural com consequências pessoais contra o trio concretista Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, o autor passou da vida real para a ficção, do raconte-à-clef (conto de chave) para a piada sarcástica sem a menor cerimônia. No último dos 78 anos de sua vida, avisado da aproximação da Indesejada das Gentes, o caipira de Cajobi (SP), que se disse “sírio e sério” no livro de poemas Caravana Contrária (por ele gravado para o CPC da Umes), herdeiro da tradição levantina dos


fenícios, aprimorou seus perfumes, mas também refinou seus venenos florentinos contra os inimigos que o atormentavam nas cátedras universitárias e nas Academias de Letras, inclusive a Paulista, da qual era membro. Preparou-se para o último suspiro mofando dos outros. Para fazer jus ao título genial da coletânea, descreveu anedotas impagáveis da vidinha literária, caso do almoço dado por Ciccillo Matarazzo, idealizador e realizador da 1.ª Bienal LatinoAmericana de Literatura, a Jorge Luis Borges, nela homenageado. No meio da refeição, contou o conviva, Ciccillo marcou uma audiência do contista argentino com o militar de plantão no Planalto, general Emílio Médici. E quase caiu da cadeira quando ouviu o gênio de História Universal da Infâmia declinar, com sua voz débil de quase gago: “Ah! sim! sim! Que lástima! Que lástima! Amanhã é o dia do aniversário de minha madrecita.” Depois de imprecar contra aquele caso de Édipo portenho, só restou ao magnata e mecenas Francisco Matarazzo Sobrinho resignar-se e ordenar ao mordomo: “Per Bacco! Per Dio, Antonio, me dá mais arroz!

Borges não entra por acaso no livro nem nestas linhas. Quem acompanhou a militância de Chamie na vanguarda poética certamente achou que ele seguiria pela trilha aberta pelo dublinense James Joyce na pesquisa apurada e acurada da palavra como matéria-prima. Com o amadurecimento, contudo, o autor de A Quinta Parede se foi distanciando


do laboratório de Finnegans Wake e se aproximando de seu oposto: o buraco de Aleph, pelo qual o argentino via o universo. Todo episódio pequeno ganha sabor, graça e vida na palavra fora da gaiola desse borgiano do interior de São Paulo. A picuinha contra o trio Noigandres se manifesta na piada do roceiro que se recusa a decorar um poema de Haroldo de Campos, no qual se repetem e se fundem as palavras temor e morte, para sair da cela a que estava recolhido, sob a guarda do jovem delegado de Severínia (nome com vezo cabralino). Ou no fato revelado da antipatia mútua entre o poeta Ungaretti e o museólogo Bardi por conta da ojeriza de um pelo passado fascista do outro. E vice-versa. O ensaísta atrevido que desafiou medíocres e áulicos manifestou-se em pílulas no livro em que a palavra voa com asas da liberdade de contar por contar. A obra não estará entre as mais vendidas. Dificilmente sua prosa, que mistura saber com sabor, levará o autor ao panteão das academias. Mas cada joia nela contida resgatará a necessidade da literatura e a dignidade de quem a produzir ou ler.

Registro ainda o magnífico texto do imortal Eduardo Portella, lido na sessão da Academia Brasileira de Letras de quinta-feira passada:

Mário Chamie (1933-2011) Eduardo Portella Venho registrar, com indisfarçável dificuldade, a perda inesperada do poeta e crítico Mário Chamie. Ambos superiormente dotados. Em Mário Chamie, ao contrário dos servidores servis do previsível, o poeta é aquele que fala o que ainda não foi dito, que escreve o que nunca foi escrito. Não copia, nem imita, nem dissolve. Inventa simplesmente, no conluio insólito e sábio da palavra com a imaginação. Trabalha no outro lado dos que se comprazem com a distribuição abusiva de impressões desconectadas, de bravatas verborrágicas, carentes de consistência crítica, desamparadas teoricamente.


Mário Chamie é o intelectual de lavra laboriosa, enérgico e certeiro na pontaria. Nem vacilante, nem trêmulo, e muito menos morno. Relendo-o não consigo conter a vontade de enfatizar: é preciso varrer da face da terra a crítica morna, parasitária, repetitiva, fechada no pequeno mundo das trocas de obséquios. O ensaísta Mário Chamie seguia a risca a estratégia do desbravador. Íntegro, preciso e iluminado. Generoso mesmo. Em hora alguma tolerante com a intolerância. Era membro destacado da família Tempo Brasileiro. O poeta jamais é um mero reescritor. O meu saudoso amigo, o também poeta Félix de Athayde, gostava de referir-se pejorativamente ao que chamava de reescritor. Aquele que repete o que já fora verbalizado anteriormente. Tinha razão. Por sua vez o crítico ─ e Mário Chamie é um exemplo ─ é aquele que vê antes, sempre criteriosamente, tecnicamente sustentado, existencialmente plantado, aquele que, pelo menos por alguns instantes, consegue ser co-autor, sem traumas nem ressentimentos. Instauração foi a palavra de ordem do movimento vanguardista Práxis, por ele criado em momento oportuno da nossa contemporaneidade literária, e que contou com a participação qualificada de José Guilherme Merquior, entre muitos outros. Mário Chamie foi igualmente o militante ativo e altivo da frente comum que se opôs à sacralização do poema e à mistificação da palavra. O que significa predicar pela poética vertical, nem balofa, nem esquálida, nem inflacionaria, nem tão somente desidratada. Nada disso passou desapercebido à argúcia crítica do poeta maior Cassiano Ricardo. Muito apreendemos com a sua leitura penetrante: dos homens, das coisas, dos gestos, dos sinais esquivos, do silêncio, da desolação, da letra insubmissa, da esperança. Desde os dias matinais, antes até da eclosão do Lavra-lavra até os Caminhos da Carta, passado, presente e talvez


futuro, de Pero Vaz de Caminha, ou mais recentemente às desconcertantes Neonarrativas. Mário Chamie, pelo que fez, pela literatura, pela cultura, pelo homem brasileiros, pertence à linhagem dos que perderam o direito à morte. Restanos celebrar a vida com ele. © O Estado de S. Paulo, sábado, 9 de julho de 2011, Sabático, S05.


Entre a memória viva e a antologia

Em O Vento do Mar, Lêdo Ivo mistura gêneros para traçar um perfil de si mesmo e de alguns célebres contemporâneos

O vento do mar, de Lêdo Ivo, reúne lembranças, entrevistas, perfis e poemas. Em que gênero classificá-lo? Se tivesse de arriscar algum, talvez fosse o caso de defini-lo como “xis tudo” ou “mexidão”, adotando a gíria antiga das redações, que o autor andou frequentando pela vida afora. É isso o mesmo: de tudo um pouco e tudo de bom. Então, seria o caso de constatar que é por aí que começa a se delinear a literatura do presente, olhando para a frente. O portenho Jorge Luis Borges fundou várias vezes esse gênero do não gênero: pintou na página é texto. Já não há mais limites entre ficção e realidade, caíram as barreiras que antes separavam poesia e prosa - a palavra só quer saber de ser bem servida, não importando a moldura em que se a pendura. O livro de Lêdo é para ser lido com prazer e prontidão. Para tanto, o poeta coletou momentos de antologia numa imprensa que já houve, mas foi arrastada para fora das páginas, como o foram os linotipos das


oficinas gráficas ancestrais. No reino tirânico do politicamente correto, no meio da baba viscosa da bajulação explícita que contamina a tinta de impressão, é um refrigério e uma relembrança reler “O mundo concentracionário de Graciliano Ramos”, um perfil ao mesmo tempo afetuoso e implacável do velho Graça. O autor de Vidas secas salta do retrato traçado em palavras do conterrâneo em sua inteireza, na qual a esqualidez e o rigor da escrita são produzidos pelas manias contraditórias (e, portanto, humanas) do revisor impiedoso, do romancista ranzinza e do gracioso narrador de “causos” do sertão. O Graciliano revelado por Lêdo é stalinista empedernido e pai enternecido, racista impenitente e amante fiel ao vernáculo do qual tirava o pão de cada dia. O perfil vale por uma tese acadêmica sobre as manias e métodos de nosso Dostoievski de Palmeira dos Índios, na mesma Alagoas, capital Maceió, berço de Lêdo. O parágrafo com que este encerra o perfil se assemelha àquele toque final de mestre que Rafael dava às telas de seus discípulos. Ali estão plenos o mestre pintado e o mestre pintor. Vale a pena reproduzilo: “Je me crois en enfer, donc j’y suis. Graciliano Ramos julgava estar vivendo no inferno – o inferno de um cotidiano que só a morte haveria de dissolver. Mas, quando esta o cercou, ele chorava muitas vezes, em seu quarto de doente. Diante dessas lágrimas, seria talvez o caso de citar a frase célebre daquele ‘negro metido a inglês’ chamado Machado de Assis sobre o homem que, morrendo, ainda sonha com a vida: ‘Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito’”. E cai o pano. Vicente do Rego Monteiro, Rachel de Queiroz, Cornélio Penna, José Lins do Rego, Augusto Frederico Schmidt, Clarice Lispector, Josué Montello são protagonistas das Aparições de Lêdo. Assim como Breno Accioly, cujo enterro mereceu um poema em prosa pungente e cruel, talvez até mais cruel do que cruéis foram as pinceladas com que o autor pintou o romancista de Angústia e as tiradas impiedosas que ele retirou de sua entrevista com o crítico Agripino Grieco, fazendo deste uma espécie de ombudsman permanente que muita falta faz à literatura “água de batata” que atualmente se produz por aqui. Assim inicia o relato: “No instante em que deveríamos segurar as alças do caixão em que jazia o corpo de Breno Accioly, descobrimos, talvez com espanto, que éramos apenas quatro: João Condé, Valdemar Cavalcanti, Tadeu Rocha e eu. E seis mãos eram necessárias para carregar os despojos do autor de João Urso até o gavetão que o


esperava, no alto do cemitério. Dois coveiros se apresentaram, disfarçando em algumas palavras de gentileza funerária o constrangimento que se abatia sobre aquela cena de enterro, no quase meio-dia cheio de sol. As duas mãos anônimas se estenderam para as alças livres, e assim Breno Accioly pôde ser sepultado. Atrás de nós vinha uma gorda e humilde sombra feminina”.

Puxa vida, é ou não é de interromper a respiração, assim como García Márquez achava que um texto de ficção tinha de ser? O mesmo vale para a poesia. Para seguir este texto, talvez convenha ir até o fim do livro e de lá capturar o manso poema sobre o anonimato da morte: “Tomaram seu corpo jovem e o sepultaram na terra nativa / mas os tempos se passaram e ficou esquecido / o lugar em que a enterraram. // Como a paisagem era azul em excesso / plantaram canaviais até perto do mar. / Ninguém se lembra mais da moça morta”. Não imagine o leitor que o livro é tétrico como esta resenha pode fazer crer. A morte nele aparece como consequência da vida colorida do mar de Maceió, onde o autor nasceu, e do Rio de Janeiro, onde ele vive. Em reverência ao estilo do comentado e ao prazer da leitura que ele resgatou neste livro de culto à flor do Lácio, será o caso de encerrá-lo com a sentença final de “Rumo ao farol”, que o abre e instaura: “Em meu longo caminhar, estou sempre caminhando em direção ao farol que


me espera no alto da colina”. Lê-lo é isso: cumprir esta jornada peripatética sem medo e com gosto.

Bastidores Líderes© O Estado de S. Paulo, sábado, 22 de outubro de 2011, Sabático, p. S7, p. A2


Televisão para ser vista e apreciada Mito – Boni revê em livro uma trajetória que é sua, mas que bem vale como a história da TV no Brasil

Ao chegar à TV Globo com Walter Clark, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, resolveu investir numa atração popular, mesmo correndo o risco de comprometer outro objetivo do grupo de profissionais que havia assumido o desafio de fazer a emissora da família Marinho “decolar”: Abelardo Barbosa, o Chacrinha, tinha um programa popularesco na TV Rio e foi contratado a peso de ouro, sob o compromisso de não “apelar” tanto como fazia no outro canal. No dia da estreia, contudo, o apresentador chamou Anthony Ferreira, seu gerente de produção, e, às escondidas, divulgando por um folheto, promoveu o concurso “Cachorro com mais pulgas”.


Os altos índices de audiência foram comemorados pelo comunicador, que comentou: “O Boni quer melhorar o nível, mas a Globo tem é que ser mais popular”. Mais de cem cães concorreram e o vencedor tinha sete mil pulgas. No dia seguinte, foi estendida uma faixa na rua da sede da emissora, no Jardim Botânico: “Querem manter a Pacheco Leão? Acabem com o Chacrinha!” Com o prédio novo infestado de pulgas, este foi procurado pelo chefe dos serviços gerais, coronel Paiva Chaves, que lhe disse que não poderia repetir o feito. “Eu faço o programa, o senhor dedetiza, tá bom?”, reagiu ele. Dado o recado, Paiva Chaves continuou em seu emprego e Chacrinha virou o Velho Guerreiro, protagonista dos comunicólogos do mundo inteiro, autor do lema fundamental para a profissão: “Quem não se comunica se trumbica”, que o criador do Padrão Globo de Qualidade usou como título para o capítulo que lhe dedicou em O livro do Boni, editado pela Casa da Palavra. O conflito entre o grupo que entrou na Globo para transformá-la na Vênus Platinada, a monopolista de audiência na televisão brasileira e o carro-chefe da entronização do veículo como a referência máxima de informação e entretenimento nos anos seguintes a seu desembarque no Jardim Botânico, e a cubana Gloria Magadan não foi tão polido. Num baile, ela chegou a morder a orelha de seu par, Daniel Filho, que Boni nomeara para dirigir telenovelas cujo núcleo ela comandava, com força e com vontade. O contrato dela com a Globo lhe dava poder total, mas Boni o leu com atenção e descobriu que era dele o poder de tirar as novelas do ar em qualquer capítulo. Além disso, já tinha confiança no grupo fiel que formou em torno dele e de Daniel, principalmente com a revelação do talento para entender o gosto do povo demonstrado por Janete Clair, mulher do dramaturgo baiano Dias Gomes, que dirigia a Rádio Clube do Brasil, em 1949, quando, na pré-adolescência, Boni o seguiu como uma sombra para aprender com ele como se dirigia uma emissora de rádio.


No topo da audiência, que o Velho Guerreiro havia ajudado a consolidar, tendo transformado suas telenovelas em produto comercial para ser vendido no mundo inteiro, antes que terminassem os “anos rebeldes” de 1960, Boni e Clark contaram com o apoio do diretor comercial, José Ulisses Arce, para tornar viável uma ideia que era combatida entre outros executivos da emissora, um telejornal em rede nacional, por dois motivos, resumidos por Armando Nogueira, que, como diretor do jornalismo, foi o responsável por sua execução: “Não há dinheiro e as afiliadas não vão querer”. Arce rebateu num almoço da cúpula da Globo: “Ponham no ar que vendo em uma semana”. No Livro do Boni, o autor resumiu num parágrafo o que levou o Jornal Nacional à “grade” de programação, conceito revolucionário usado por aqueles mesmos executivos para racionalizar a produção e a comercialização de seus programas: “Na televisão toda obra é coletiva. Cada projeto exige a participação de muitos profissionais de diversas áreas. A televisão brasileira nasceu muito depois da televisão americana e, portanto, nasceram lá fora quase todas as ideias e soluções para a televisão. Não que a televisão brasileira seja uma cópia da americana. Não é. Mas eles equacionaram muitos problemas antes de nós e superaram vários desafios que só enfrentamos muito mais tarde”.


Estas duas afirmações categóricas do homem apontado por seus áulicos como o responsável pela implantação da ideia de “grade” recomendam a leitura das 464 páginas do livro que já está produzindo polêmica, mas, por isso mesmo, é de leitura indispensável para os profissionais de comunicação, sejam jornalistas, sejam artistas, sejam publicitários. E também para o grande público, que acompanha os bastidores da televisão com a mesma atenção com que não perde os shows de humor, as transmissões esportivas, os programas de variedades e tantos outros produtos vendidos na telinha nossa de cada dia. Com a ajuda de um pesquisador atento, seu lugar tenente Carlos Vizeu, ex-auxiliar na Globo e executivo da TV Vanguarda de São José dos Campos, do qual é proprietário, o autor pôs os pontos nos is ao relatar sua experiência como publicitário em agências mitológicas como a Lintas e suas passagens pelas TVs Paulista, Excelsior, Rio, Tupi e Bandeirantes antes de se tornar o mais conhecido e reconhecido executivo do ramo no Brasil.

© O Estado de S. Paulo, 4 de dezembro de 2011, p. 6, Caderno TV/Ligue-se


Maria Bonita Rainha do cangaço, a companheira de Lampião ganhou um estudo da neta, Vera Ferreira

Nascida e criada na Malhada da Caiçara, no sertão baiano, Maria de Déa foi destinada ao casamento, celebrado em plena adolescência, e a uma vida pacata. Aos 16 anos, casaram-na com o sapateiro Zé de Nenê, mas o lar do casal, que foi morar no povoado de Santa Brígida, ali perto, logo desmoronou, segundo as más línguas porque o varão era pacato demais para a inquietação febril da mulher. Além do mais, o marido era estéril e a diferença de temperamento gerou conflitos que levavam o par a se separar e se reconciliar até o dia em que, no final de 1929, cruzou a soleira dos pais dela, Zé Filipe e Dona Déa, o temível Rei do Cangaço no sertão, Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, aos 32 anos.


O chefe de bando era vingativo, cruel e destemido, mas também tinha lá seus laivos de herói romântico. Dos saques das fazendas dos ricaços do sertão furtava perfumes franceses de boa cepa e o melhor uísque escocês. Ao relento nos acampamentos no ziguezague das fugas para escapar da perseguição policial, puxava um fole de oito baixos e a ele foi atribuída a autoria de um dos maiores sucessos do cancioneiro sertanejo e nacional, Muié rendeira, de cuja autoria se apropriaria, no Rio, o malandro Zé do Norte. Não era de estranhar que fizesse corte à morena e começou por lhe encomendar que bordasse suas iniciais CL (Capitão Lampião) em 15 lenços de seda, o que permitiu a abordagem e, depois, serviu de pretexto a novo encontro, que terminou com a retirada da morena separada do marido da casa dos pais. Foi, então, que a beleza da escolhida do Rei lhe deu a alcunha com que morreu na Grota do Angico, Sergipe, ao lado do amante, e que se fixou na memória do povo: Maria Bonita. Expedita, filha do casal real da caatinga, criada no Estado em que os pais morreram, Sergipe, sobreviveu à carnificina e gerou, entre outros filhos, Vera Ferreira, que, professora universitária em Aracaju, tem mantido viva a memória dos avós e empreendeu obra de vulto para comemorar o centenário da avó. Bonita Maria do Capitão, livro trazido a lume pela Editora da Universidade do Estado da Bahia, lançado em São Paulo na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915), por R$ 100, é obra de fôlego O volume de 328 páginas, organizado pela neta, jornalista e escritora, com a cumplicidade da desenhista paraibana Germana Gonçalves de Araújo, reproduz o legado da personagem lembrada pelos caprichos e vontades, mas também pelo bom humor e descontração quase infantil, com esmero e bom gosto. A aventura da menina que saiu de casa aos 19 anos para percorrer o sertão nordestino a pé num bando de cangaceiros até tombar, aos 27, humilhada a ponto de ter a cabeça, decepada quando ainda vivia, exposta à curiosidade popular, tem sido narrada em prosa, verso, imagem e som. O casal, evidentemente, foi tema de muitos romances de cordel. Num deles, Sabóia, chamado de Marechal de Cordel do Cangaço, registrou: “Cupido fez passatempo / com Maria e Lampião/ ela Rainha ele Rei / governou nosso sertão / cangaço e amor viveu / não foi uma ilustração”. Rouxinol do Rinaré e Antônio Klévisson Viana versejaram:


“Maria Gomes de Oliveira / amou muito a Lampião / decidiu ser a primeira / cangaceira do sertão / ignorando o destino / acompanhou Virgolino / pela força da paixão”. O livro reproduziu a capa de um cordel de Sávio Pinheiro sob título O arranca-rabo de Yoko Ono com Maria Bonita ou A desaventura de John Lennon e Lampião, editado em 2008. Seu apelido famoso também foi muito cantado. “Acorda, Maria Bonita, / levanta pra fazer café, / que o dia já vem raiando / e a polícia já está de pé” - esta é uma estrofe de Muié Rendeira, que ou foi acrescentada depois ou se tornou, como mofou Bráulio Tavares em seu texto registrado no livro, o caso de premonição mais espetacular da história da música popular, de vez que o casal foi morto, de fato, ao amanhecer. Seu nome também foi muitas vezes lembrado em funções de repentistas pelo sertão afora. Certa vez, Otacílio Batista glosou: “Virgolino Ferreira, o Lampião, / bandoleiro das selvas nordestinas / sem temer a perigo nem ruínas / foi o rei do cangaço no sertão, / mas um dia sentiu no coração / o feitiço atrativo do amor / a mulata da terra do condor / dominava uma fera perigosa. / Mulher nova, bonita e carinhosa / faz o homem gemer sem sentir dor”. Zé Ramalho pôs música nos versos e a canção virou tema da minissérie Lampião e Maria Bonita, na Rede Globo. A beleza de Maria, mostrada em foto e cinema por Benjamin Abrahão, fascinou artistas plásticos como Mino e virou tema obrigatório de xilogravadores como J. Borges, Mestre Noza, J. Miguel e Marcelo Soares. Suas peças de vestuário e as joias que usava foram reproduzidas no livro, que também se refere à peça de Rachel de Queiroz sobre ela e a filmes do gênero dito nordestern que a adotaram como personagem. Como resumiu Maria Lúcia Dal Farra em poema: “Maria de Déa, Maria Bonita, minha Santinha! / Mulher de tantos nomes / tão poucos para contê-la”.


Artes plásticas A permanência de Maria Bonita como personagem emblemática se fez presente nas diversas recriações feitas por artistas, reproduzidas no livro, como a retratada na xilografia de Humberto Araújo. Cinema A cantora Vanja Orico de Maria Clódia caracterizada como Maria Bonita no filmeLampião, o Rei do Cangaço, de 1964, dirigido por Carlos Coimbra, uma das muitas adaptações de sua história para a tela grande. Teatro Croqui do “vestido de caatinga”, feito pelo artista plástico Aldemir Martins em 2006 para a montagem da peça Lampião, escrita nos anos 50 por Rachel de Queiroz, encenada no Teatro Leopoldo Fróes, em São Paulo.


Bonita Maria do Capitão, Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915, tel. 3813 5811, terça-feira 10 de janeiro de 2012, às 18h30.

© O Estado de S. Paulo, 9 de janeiro de 2012, Caderno 2, p. D1


JOSÉ NÊUMANNE PINTO 18 de maio de 1951 - Uiraúna, Paraíba, Brasil. JORNALISMO 1968/69 Diário da Borborema, Campina Grande, PB - Repórter 1970/75 Folha de S. Paulo - Repórter 1975/86 Jornal do Brasil - Repórter da sucursal de São Paulo (1975/83) - Secretário de redação (1983) - Chefe da redação (1984) Repórter especial da sucursal de São Paulo (1985/86) 1986/91 O Estado de S. Paulo - Editor de política (1986/88) - Editor de opinião (1988/89) - Editorialista (1989/91) 1991/96 Assessor político e ghost writer do senador José Eduardo de Andrade Vieira, ex-ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo e da Agricultura 1994-96 El Nuevo Herald - foi colunista, com um artigo semanal sobre Brasil na edição em castelhano do jornal “Miami Herald”1996-97 e 2004-2006) Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) - comentarista político e econômico no programete diário “Direto ao assunto” Desde 1996 Jornal da Tarde - Editorialista Desde1996 Rádio Jovem Pan - comentarista: coluna “Direto ao assunto” no “Jornal da Manhã” e na “Hora da Verdade” 2000 Cineclick – colunista semanal do site, especializado em cinema PRÊMIOS E CONDECORAÇÕES 1975 Prêmio Esso de Jornalismo Econômico (com Maria Inês Caravaggi), pela série “Perfil do Operário Brasileiro Hoje” (“Jornal do Brasil”) 1975 Troféu Imprensa de Reportagem Esportiva (com Paulo Mattiussi), pela reportagem “Éder Jofre e o Boxe Brasileiro” (“Jornal do Brasil”) 2005 Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras, de melhor livro de 2004, com o romance O silêncio do delator, A Girafa Editora.


2005: Troféu Personalidade TV Tambaú. Reportagem biográfica completa da TV Tambaú, sob a direção do jornalista José Vieira Neto, exibida na noite do Prêmio Personalidade TV Tambaú, recebido por José Nêumanne. 2005 O romance O silêncio do delator também figurou entre os 14 finalistas do prêmio de melhor livro de 2003/2004 da Jornada Literária de Passo Fundo (RS), em 2005, vencido pelo romance Budapeste, de Chico Buarque de Holanda. 2005 O romance O silêncio do delator também foi relacionado entre os dez finalistas do Prêmio Literário da Portugal Telecom, de 2005. 2007 (26 de outubro): Medalha José Lins do Rego do Mérito Literário, concedida pela Assembléia Legislativa do Estado da Paraíba. 2008. Homenagem do Conselho de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo do Campo. Iniciativa do prefeito William Dib e do secretário de Desenvolvimento e Turismo, Fernando Longo. 2008 (terça-feira 22 de julho): Posse na Academia Paraibana de Letras. Cadeira n. 01, Patrono Augusto do Anjos.


JOSÉ NÊUMANNE PINTO POR ELE MESMO Uma dúzia de receitas para livro ou CD Diante da perspectiva agradável de lhe contar, preclaro leitor, patrão e objetivo de qualquer escritor que se preze, como escrevo meus livros, descubro, entre confuso e espantado, que, da mesma forma como meus poemas, os 11 títulos que assinei (além do CD que gravei) têm histórias tão diferentes que o melhor meio de dar a receita será resumir na medida do possível a história particular deles.

Mengele: A natureza do mal. São Paulo: EMW, 1985, romancereportagem. Romance-reportagem lançado pela EMW Editores, de São Paulo. Eu era repórter da Sucursal do Jornal do Brasil do Rio em São Paulo e tive acesso privilegiado, graças ao então diretor do Dops, delegado Romeu Tuma (depois senador pelo PFL de São Paulo), e ao legista Nelson Massini, então na Unicamp, às informações sobre a descoberta da ossada do célebre criminoso de guerra nazista Josef Mengele num cemitério de Embu, na Grande São Paulo. Os colegas jornalistas Luiz Fernando Emediato e Marcos Wilson eram sócios na editora que me encomendou o livro, feito na esperança de nos aproveitarmos do interesse internacional do assunto. Os colegas da Sucursal coletaram vários dados sobre a descoberta da ossada e a vida pregressa de Mengele no Brasil e eu redigi o texto final, preenchendo as lacunas da parte ignota da vida do protagonista com capítulos romanceados. Ocioso dizer que demos, os colegas, os editores e eu, com os burros n’água. O livro fracassou comercialmente, nunca despertou o interesse de ninguém no exterior, não tendo sido, portanto, traduzido nem inspirado algum filme, como tínhamos a pretensão de que acontecesse.

As tábuas do sol. São Paulo: EMW, 1985, poesia.


Coletânea de poemas, editada pela Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba. Escrevo poesia desde os 14 anos e foi juntando todos os meus poemas inéditos em escarcelas de cartolina. Na juventude, pertenci ao grupo do poema/processo, que radicalizava a proposta da poesia concreta, abolindo o uso da palavra. Passada a febre vanguardista, peguei as velhas pastas, exumei os poemas verbais abandonados e lhes dei um tratamento crítico. A idéia era publicar poemas verbais e visuais numa coletânea chamada Ploft, que submeti ao poeta José Paulo Paes que, à época, trabalhava na Editora Cultrix e que eu havia conhecido como repórter da Folha de S. Paulo e depois do Jornal do Brasil. Com as bênçãos de José Paulo e até um texto de introdução escrito por ele, levei os poemas àquela que considerava a maior editora na ocasião, a Nova Fronteira, do Rio de Janeiro. Lá me surpreendi com a presença de um velho amigo, Pedro Paulo de Sena Madureira, que havia conhecido na Editorial Bruguera, em Olaria, onde ambos trabalháramos em 1969. Pedro deu o retoque final no livro, exigindo a retirada dos poemas visuais e reordenando os verbais. José Louzeiro, que havia sido meu colega na reportagem da Folha e então já era conhecido pelo sucesso de seu livro, Aracoeli, meu amor, me sugeriu o título retirado de um poema (“Tríptico Marinho”). A saída de Pedro da Nova Fronteira para a Salamandra, levou-me a mandar os originais para meu amigo Luiz Augusto Crispim, que era secretário da Cultura do Estado da Paraíba. O volume acanhado espantou seu chefe, o governador Milton Cabral, que ao receber o exemplar que lhe mandara pelas mãos de meu pai, Anchieta Pinto, exclamou: “Mas é um livrinho!” O livrinho, com belas ilustrações de um conterrâneo querido, Ciro de Uiraúna, está esgotadíssimo e é muito raro encontrar exemplares doados a escolas do interior da Paraíba ou simplesmente... perdidos.


Atrás do palanque: Bastidores da eleição presidencial de 1989. São Paulo: Siciliano, 1989, reportagem

Reportagem sobre os bastidores da eleição presidencial de 1989. Eu era editor de Política do jornal O Estado de S. Paulo e, estimulado por meu chefe, Miguel Jorge, saí a campo para cobrir a primeira eleição presidencial direta em 29 anos. Viajei e entrevistei os dez principais candidatos daquela campanha memorável. Escrevi no calor da hora e a realidade me fez acrescentar trechos ao texto original. Encomendado por Pedro Paulo, então na Siciliano, o livro foi um sucesso de vendas: ficou seis meses na lista dos dez mais vendidos da Veja e compareceu nos dez mais vendidos do ano. O maior elogio que recebi por causa dele foi dado pelo biógrafo de Che Guevara, que depois seria chanceler mexicano Carlos Castañeda. Nos bastidores de um Roda Viva, na TV Cultura, ele me disse: “Tudo o que sei de Brasil aprendi com seu livro”. Não sei se Castañeda sabe muito de Brasil, mas que foi gratificante ouvir isso, ah, se foi!...

Reféns do passado. São Paulo: Siciliano, 1992, artigos e ensaios políticos.

Coletânea de ensaios e artigos políticos publicados na imprensa, encomendada por Pedro Paulo de Sena Madureira para a Editora Siciliano. Não gosto da idéia de reunir textos de jornal em brochura, mas fui convencido a fazê-lo. Embora tenha preparado um ensaio específico para abrir o livro, não gosto do resultado final. Nem o leitor gostou: o livro, como era de esperar, fracassou nas prateleiras.

Erundina: A mulher que veio com a chuva. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, perfil biográfico.


Perfil jornalístico e biográfico da ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina de Souza. Eu era editor de Política do Estado de S. Paulo, quando a então deputada estadual petista ganhou a eleição de Paulo Maluf. Atendendo a pauta de Augusto Nunes, que era diretor de redação do jornal, passei o fechamento da edição histórica para meu sub à época, o competente Wagner Kotsura, vulgo “Alemão”, apesar de ser descendente de russos, e me tranquei numa saleta de editorialistas para entrevistar vizinhos e amigos de infância da vitoriosa na eleição, que, por coincidência, havia nascido na mesma pequena cidade sertaneja, onde eu também nasci. Escrevi um perfil dela. Fernando Pedreira, que havia sido meu chefe no Jornal do Brasil, foi quem teve a idéia de me propor o livro e sugeri-lo a um amigo dele, empresário mineiro que morava no Rio e era dono da editora Espaço & Tempo. Viajei para a Paraíba com Erundina, que comemorou o aniversário (30 de novembro) em nossa cidade natal. Ela viajou comigo de Campina Grande a Patos e me deu a entrevista que faltava para completar o texto final, escrito num computador que havia comprado numa viagem a Londres para ver in loco a experiência de Dame Margaret Tatcher, comandando a privatização à inglesa. Foi a primeira vez que usei computador, por insistência de outro antigo colega do JB, Noênio Spinola, que defendia tão ardorosamente a informática que ganhou o apelido jocoso de “índio eletrônico”. Fi-lo na casa de meu cunhado Aluísio Felizardo do Nascimento Filho em Natal, Rio Grande do Norte, e também na casa de meu sogro, Aluísio Felizardo do Nascimento, no Ponto de Cem-Réis, em Campina Grande, Paraíba. O dono da editora morreu num desastre aéreo e o livro demorou a sair, perdendo o calor da hora. Mesmo assim, fez imenso sucesso no lançamento (mais de 400 livros foram vendidos no na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional e houve gente que foi lá e, ainda assim, não conseguiu comprá-lo), mas nisso parou sua carreira. Logo estaria esgotado.

Barcelona Borborema. São Paulo: Geração Editorial, 1992.

Poemas sobre a arquitetura de Gaudi e o forró de Campina Grande. Naquela mesma viagem à Europa para conhecer projetos de privatização, conheci Barcelona e confirmei uma antiga paixão infantojuvenil (inexplicável) pela capital da Catalunha e pela obra do mais importante arquiteto modernista da Europa. O impacto do Parque Güell e da Sagrada Família sobre mim foi tal que ao embarcar para Paris escrevi os primeiros versos da série “Barcelona” num guardanapo cedido pela aeromoça. Vários dos 25 poemas dessa série foram


escritos em guardanapos de aviões e de restaurantes e papel de correspondência dos hotéis de Paris e Londres, por onde passou o grupo com que eu estava e que tinha antes visitado Madrid e Barcelona. Guardei as anotações numa gaveta e muito tempo depois a abri, li, fiz correções e pensei no primeiro projeto: um livro de poemas intitulado 24 horas de Gaudi. Procurei o publicitário barcelonês Francesc Petit, da DPZ, e lhe propus que traduzisse os poemas para o catalão e fizesse um contato com a Generalitat da Catalunya para possibilitar uma edição trilíngüe português-castelhano-catalão. Apesar de catalão, Petit não escreve em catalão. Inês, sua mulher, que é brasileira, escreve. Ele me aconselhou que eu obtivesse uma espécie de aval literário do poeta Mário Chamie. Mário escreveu um competentíssimo posfácio para o livro, que mudou de figura. Convidado por Sérgio Reis, diretor de marketing do Bamerindus, fui ver Antonio Gades dançar Carmen no Teatro Guaíra, em Curitiba. Dali me veio a idéia de escrever uma série sobre dança, o forró de Campina Grande, para servir de contraponto à arquitetura de Gaudi. E resolvi fazer um livro simétrico: 25 poemas sobre Barcelona, 25 poemas sobre Campina Grande (a Rainha da Borborema) e um sobre Gades (o poema vírgula) fazendo a passagem entre a arquitetura e a dança. O 25° poema, depois de muito tempo, me veio num sonho. É o único que nunca foi retocado, com a ajuda feroz de meu amigo editor, Pedro Paulo de Sena Madureira. Mas não foi ele quem editou o livro e, sim, Luiz Fernando Emediato, que agora tinha outra editora, sozinho, a Geração Editorial. O livro saiu com ilustrações, diagramação e capa de Petit e foi publicado porque eu, que fizera sucesso escrevendo um livro sobre a ascensão de Collor, topei a proposta do jornalista, escritor e editor para descrever o processo de sua derrubada.

A república na lama: Uma tragédia brasileira. São Paulo: Geração Editorial, 1992.

Relato do folclore da República de Alagoas e história de sua queda. À época, eu era assessor do banqueiro e presidente nacional do PTB, senador José Eduardo de Andrade Vieira, no Senado. Ele me incentivou muito para que eu aproveitasse o ponto de vista privilegiado para descrever a queda do “carcará sanguinolento” da Presidência da República. Escrevi o livro no calor da hora, acompanhando os acontecimentos, tal como o fizera antes com Atrás do Palanque. Como aquele, é um livro feito às pressas, mas o resultado final me agrada muito. Fez muito sucesso de vendas e teve três edições.


Veneno na veia. São Paulo: Siciliano, 1994, romance policial. Romance policial sobre o episódio dos “anões do Orçamento”, publicado pela Editora Siciliano. O ator e escritor Juca de Oliveira me propôs que escrevêssemos uma comédia a quatro mãos sobre a rede de intrigas de Brasília, inserindo-a nos sete pecados capitais. Chegamos a trabalhar juntos três meses no esboço da comédia, mas ela não decolou. Juca abandonou o projeto para escrever seu grande sucesso, Caixa 2, e eu aceitei a proposta de Pedro Paulo de Sena Madureira, da Siciliano, para tentar realizar um best-seller programado. Li um livro que ele me deu do agente literário do best seller americano Ken Follet e fiz o que mandava a receita: planejei o livro, capítulo a capítulo, aproveitando o motivo dos sete pecados capitais da comédia que não escrevemos Juca e eu. Resolvi contar a incrível história do burocrata (José Carlos dos Santos) que matou a mulher para queimar arquivo e aproveitar para falar de Brasília, da mesma forma como havia aproveitado do episódio da vitória eleitoral de Erundina para falar de meu sertão natal. Um livro, Brasília, uma cidade modernista, do antropólogo americano James Holstein, me serviu de guia para traçar o perfil da cidade. Escrevi um roman-à-clef, como se diz em linguagem teórica. Ao me referir a ele num seminário de literatura no Teatro Municipal de Campina Grande, disse: “Este não é um romance de aventuras, mas um romance sobre nossa desventura”. Ariano Suassuna me telefonou pedindo para usar a frase como epígrafe do romance que ele estava escrevendo. Ah, e tem mais: fui à estréia de Caixa 2, no Teatro Cultura Artística, fiquei na primeira fila, ri para valer, gostei muito e, depois de aplaudir muito, fui à coxia cumprimentar Juca. E lhe disse: “Juca, esta é a melhor contribuição que eu poderia dar ao teatro brasileiro”. Juca estranhou: “Mas a peça não tem nada seu”. E eu concluí: “Exatamente por isso”.

Solos do silêncio. São Paulo: Geração Editorial, 1996. Poesia reunida, editada por Luiz Fernando Emediato na Geração Editorial. Ele mesmo cuidou do projeto da capa e eu reuni tudo o que tinha produzido até então: As tábuas do Sol, Barcelona, Borborema, poemas inéditos e algumas traduções. A respeito das traduções, meu amigo Alexandre Daunt vivia me citando uma frase de Millôr Fernandes que, segundo ele, dizia que o importante para o tradutor era dominar bem a língua para a qual traduzia, não tanto a língua da qual traduzia. Fiz um teste e, além de traduzir o magnífico soneto “Les voyelles”, de Artur Rimbaud, passei para o português poemas do catalão, que não falo e não leio, para provar que Millôr estava certo. Contrariando minhas expectativas e do editor, o livro chegou à segunda edição.


As fugas do sol. São Paulo: CPC-UMES, 1998, cd, diretor-artístico, Marcus Vinícius de Andrade.

CD em que leio poemas de minha autoria com trilha sonora original do maestro Marcus Vinicius de Andrade, lançado pelo selo CPC/Umes. Certo dia, a convite de minha amiga Maria Elisa Porchat, li meu poema “Seara de Saramago” (de As Tábuas do Sol) em seu programa na rádio Trianon, de outro querido amigo, Fernando Vieira de Mello. Tereza Rachel, a mais maravilhosa voz do teatro e da televisão e ex-mulher de meu amigo cineasta Ipojuca Pontes, me telefonou para dizer: “Nunca mais leia seus poemas. Eles são lindos demais e você os lê muito mal”. Citei essa frase da atriz ao maestro, meu amigo de infância, quando ele me convidou para fazer o segundo título da coleção “Poesia Viva”, que tinha sido aberta por Mário Chamie, com Caravana Contrária. Mas Marcus insistiu e lembrou que a experiência de dois comentários diários na Rádio Jovem Pan me havia ensinado a colocar melhor a voz. Ele tinha razão: orgulho-me do resultado final. Digamos que seja um livro de poemas, só que para ser ouvido, e não lido.

Os cem melhores poetas brasileiros do século. São Paulo: Geração Editorial, 2001. Antologia preparada por encomenda de Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial. Emediato estava impressionado com o sucesso da antologia que Ítalo Moriconi fez dos melhores contistas e resolveu sair antes com a dos poetas. Entreguei-me ao trabalho com a competente ajuda do professor maranhense da Universidade Federal da Paraíba Rinaldo de Fernandes. Tentei fazer um trabalho de editor de jornal e o resultado, com trabalho gráfico magnífico de Tide Hellmeister, que eu sugeri ao editor, foi pra lá de satisfatório. Apesar do bafafá causado entre os poetas preteridos. Uma cisterna até aqui de mágoa... Ainda assim, valeu.

O silêncio do delator. São Paulo: A Girafa, 2004, Prêmio José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras. Romance editado por A Girafa Editora em 2004. Em 1984, imaginei escrever um romance sobre um triângulo amoroso formado por passado, presente e futuro, sob o título de O enigma do vôo 160. Escrito a máquina, o texto, muito complexo formalmente, foi submetido


ao poeta Álvaro Mendes, que o considerou de má feitura. Projetei, depois, encaixar nesse projeto outro, no qual homenagearia os 20 anos do lançamento do LP dos Beatles Sergeant Pepper’s lonely hearts club band, em 1986, mas não levei o projeto adiante. Anos mais tarde, imaginei adaptar o samba de Paulinho da Viola O velório de Heitor ao filme Rashomon, de Akira Kurosawa, mas também não o realizei. Em fins de 2003, ao ver o filme As invasões bárbaras, de Denys Arcand, tive a impressão de que o cineasta adaptou o romance que não havia escrito sobre o fracasso da geração que viveu a fervura dos anos 60 e malogrou na revolução política, que terminou nas ditaduras de direita e de esquerda, e na dos costumes, pois o amor livre desembocou na “galinhagem” generalizada. O filme sugeria uma forma simples (“texto zero”) e o desfecho mais “natural” que o do texto inicial (em que o protagonista jogava o carro embaixo de uma carreta na Via Dutra). Ao longo de dez meses, escrevendo um capítulo por semana, travei uma batalha com o texto. Segui o conselho de meu amigo de infância Bráulio Tavares de escrever sem olhar para trás e terminei não virando mesmo uma estátua de sal, como a mulher de Lot: só parei para reler depois de ter escrito a palavra Fim. Mas meu projeto de “texto zero” sucumbiu e mais uma vez predominou em mim o “James Joyce de Bodocongó” sobre o “Machado de Assis do Rio do Peixe”. Radicalizei na verossimilhança ao substituir a agonia do filme pelo velório no livro, mas recorri a uma estrutura polifônica (sete vozes, baseadas me versos do samba A voz do morto, de Caetano Veloso), dando ao cadáver a parte do corifeu. Escrevendo o livro, ocorreu-me que a vitoriosa da geração dos anos 60 foi a mulher e que o português Lobo Antunes tinha razão quando escreveu que um bom livro se faz, não é feito. Tomara que ele não tenha tido razão quando disse que não há cenas de sexo bem realizadas literariamente: neste meu livro, o sexo é importante e foi narrado da forma mais poética possível


LANÇAMENTO 2011


O que sei de Lula. Rio de Janeiro: Topbooks, 2011. “Sinopse: Esta obra relata episódios na vida do ex-presidente, como a reunião de Lula com um emissário do Planalto no governo Figueiredo, o major Gilberto Zenkner. E acompanha a trajetória do menino retirante do sertão de Pernambuco à Praça dos Três Poderes.”

RESUMO DA CRÍTICA Nêumanne escreve porque esteve lá, diante do evento que estava sendo gerado. É irretorquível, portanto, o caráter conservador de Lula e de sua turma. Não dá, depois das páginas deste livro, para tagarelar em ‘esquerdês’ no caso do gárrulo presidente. Roberto Romano

Neste livro, Nêumanne nos dá uma contribuição extraordinária para entendermos as idas e vindas de quem se definiu como metamorfose ambulante. Leôncio Martins Rodrigues

Para conhecer as mazelas e as involuntárias virtudes de Lula é preciso conhecê-lo. O livro de Nêumanne pode ser a chave para decifrar o enigma. O inconsciente é um oceano de verdades recalcadas. Ronald de Carvalho

Eu jamais poderia dizer de Lula o que digo aqui sobre o autor deste livro: José Nêumanne, excelente profissional, é antes de tudo homem confiável. Moacir Japiassu

Fascinante na forma de narrar, no conteúdo sólido e na construção precisa e detalhada do personagem. Transcende ao Lula. É uma aula de política brasileira. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni)

É nitroglicerina pura. E com o tempero de um gourmet da palavra. Alexandre Garcia


O que se esconde por trás do mito? O que faz o líder da resistência democrática utilizar a democracia para dar vazão a seus arroubos autoritários? Qual a verdadeira trajetória de Lula? Este livro de José Nêumanne se parece com o José Nêumanne: corajoso, vibrante e verdadeiro. Rubens Figueiredo


Estação Nêumanne, ANO VI  

Artigos, crônicas, sueltos e discurso sobre diversos tema publicados no site oficial do escritor José Nêumanne Pinto. entre novembro de 2005...

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