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FACULDADE PAULUS DE TECNOLOGIA E COMUNICAÇÃO – FAPCOM NEUBER DE LIMA FISCHER

O MEIO MAIS UTILIZADO PARA A COBERTURA JORNALÍSTICA INTERNACIONAL DO CASO TSUNAMI NO JAPÃO: UM ESTUDO DE CASO DO CADERNO “MUNDO” DA FOLHA DE S.PAULO

SÃO PAULO – SP 2011


NEUBER DE LIMA FISCHER

O MEIO MAIS UTILIZADO PARA A COBERTURA JORNALÍSTICA INTERNACIONAL DO CASO TSUNAMI NO JAPÃO: UM ESTUDO DE CASO DO CADERNO “MUNDO” DA FOLHA DE S.PAULO

Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Jornalismo

da

com

habilitação

Faculdade

Paulus

em de

Tecnologia e Comunicação. Professor Orientador: Dr. Ary José Rocco

SÃO PAULO – SP 2011


NEUBER DE LIMA FISCHER

O MEIO MAIS UTILIZADO PARA A COBERTURA JORNALÍSTICA INTERNACIONAL DO CASO TSUNAMI NO JAPÃO: UM ESTUDO DE CASO DO CADERNO “MUNDO” DA FOLHA DE S.PAULO

Monografia apresentada como pré-requisito para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, submetida à aprovação da banca examinadora composta pelos seguintes membros: ______________________________________________________ Prof. Dr. Orientador: Ary José Rocco BANCA EXAMINADORA ______________________________________________________ Prof. ______________________________________________________ Prof.

APROVADO EM ___ / ___ / ______ CONCEITO FINAL: ______________________

São Paulo,

de

de 2011.


RESUMO

FISCHER, Neuber de L.. O meio mais utilizado para a cobertura jornalística internacional do caso tsunami no Japão: um estudo de caso do caderno “Mundo” da Folha de S.Paulo. São Paulo, 2011. 65 f. (Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social).

Os modos de produção do noticiário internacional brasileiro e sua configuração no mercado de comunicação atual são o alvo dessa monografia. Buscaremos atingí-lo por meio da revisão dos conceitos de notícia e jornalismo internacional, a verificação do meio mais utilizado para a cobertura e a compreensão do papel das agências internacionais, dos correspondentes, enviados especiais, da redação e dos colaboradores na construção dos cadernos da editoria internacional no Brasil, mais especificamente em grandes coberturas especiais como no caso do tsunami no Japão.

PALAVRAS-CHAVE: Jornalismo Internacional. Agências de Notícias. Correspondentes. Enviados Especiais. Tsunami no Japão. Folha de S.Paulo.


ABSTRACT

FISCHER, L. Neuber. The most widely used means for the international media coverage of the case tsunami in Japan: a case study of the book "World" of the Folha de S. Paulo. São Paulo, 2011. 65 p. (End of Course Work submitted to the Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, to obtain a bachelor's degree in Social Communication).

The modes of production of the Brazilian international news and its configuration in the communication market today are the target of this monograph. We seek to achieve it by reviewing the concepts of news and international journalism, checking the most widely used means for coverage and understanding of the role of international agencies, correspondents, special envoys, and the editorial staff of the construction of publishing international books in Brazil, specifically in large special coverage as in the case of the tsunami in Japan.

KEY-WORDS: International Journalism. News Agencies. Correspondents. Special Envoys. Tsunami in Japan. Folha de S. Paulo.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO................................................................................................................ 6 1 HISTÓRIAS E CONCEITOS........................................................................................ 9 1.1 Notícia......................................................................................................................... 9 1.2 Valores-Notícia............................................................................................................ 11 1.3 Jornalismo Internacional............................................................................................. 12 1.4 Correspondentes e Enviados Especiais....................................................................... 15 1.5 Agências de Notícias................................................................................................... 19 2 A FOLHA DE S.PAULO................................................................................................. 26 2.1 O caderno “Mundo”.................................................................................................... 27 3 O TSUNAMI.................................................................................................................. 30 3.1 O Tsunami no Japão..................................................................................................... 32 4 A COBERTURA DA FOLHA DE S.PAULO NO CASO TSUNAMI NO JAPÃO........ 34 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................ 45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................................. 47 APÊNDICE....................................................................................................................... 51 ANEXOS.......................................................................................................................... 58


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INTRODUÇÃO

A cobertura jornalística internacional, agências de notícias, correspondentes e enviados especiais. O meio mais utilizado pelo jornal impresso Folha de S.Paulo para a cobertura jornalística internacional do caso tsunami no Japão. A presente monografia apresenta as formas de produção do noticiário internacional brasileiro e algumas de suas implicações atuais. A crise financeira dos veículos de comunicação e o avanço das tecnologias levaram as empresas jornalísticas a preferirem não enviar ou enviar com menos frequência e em menor número, equipes de correspondentes ao exterior. Na maioria das vezes elas optam por trabalhar em parceria com agências de notícias na cobertura dos acontecimentos pelo mundo. Os editores de internacional, da redação monitoram e recebem as notícias de outros países, traduzem e editam segundo seus critérios e do veículo e empresa onde atuam. Mas e nos casos de coberturas de acontecimentos inesperados e de grande repercussão mundial como desastres naturais. Qual é o meio mais utilizado em coberturas jornalísticas especiais como no caso tsunami no Japão? Esta é a pergunta a ser respondida por este trabalho monográfico. Duas hipóteses são prováveis como resposta para esta pergunta. As informações repassadas pelas agências de notícias são o meio mais utilizado pelo jornal impresso Folha de S.Paulo para a cobertura jornalística internacional, em casos de desastres naturais como o tsunami no Japão, pelo fato de serem mais baratas, possuírem equipe numerosa e grande volume de material produzido. O que contribui para um trabalho mais ágil, fácil, abrangente e completo. Ou, os trabalhos dos correspondentes e enviados especiais são a forma mais utilizada pelo jornal impresso Folha de S. Paulo para a cobertura jornalística internacional, em casos de desastres naturais como o tsunami no Japão, por produzirem material com foco e linguagem próximos do leitor, conteúdo exclusivo e de qualidade. A pesquisa aponta exatamente isso, se são as agências de notícias ou os correspondentes e enviados especiais o meio mais utilizado, pela Folha de S.Paulo, para a cobertura jornalística internacional em casos especiais como o tsunami no Japão. O trabalho discorre sobre alguns aspectos dessa questão divididos em quatro partes. Na primeira expõe as formas de produção do noticiário internacional e procura destacar as vantagens e desvantagens de cada uma delas. Desse modo pretende-se situar o leitor no âmbito da editoria de internacional e de suas possibilidades nas coberturas via correspondente,


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enviado especial e agências de notícias. Em seguida, apresenta uma breve análise sobre a editoria internacional do jornal Folha de S.Paulo. Na sequência são apresentadas informações sobre tsunami e a tragédia ocorrida no Japão no início de 2011. Por fim mostra alguns dados recolhidos durante a observação de um mês do caderno “Mundo” do jornal impresso Folha de São Paulo. O mês em questão compreende o período transcorrido entre os dias 12 de março e 11 de abril de 2011 e o método de análise utilizado é a Análise de Contéudo, de Laurence Bardin. Dessa maneira pretende-se abordar algumas das características relacionadas com a editoria de internacional no intuito de compreender melhor como se processam as rotinas dentro dessa área específica. A pesquisa conta brevemente a história do jornalismo internacional, dos correspondentes e das agências, descreve a rotina produtiva da editoria internacional e as características do texto da notícia internacional. O trabalho traça o perfil da cobertura jornalística internacional da Folha de S.Paulo, neste caso em específico, e faz uma análise das matérias, fotos e infográficos publicados. Por fim, as considerações finais. O trabalho propõe algumas reflexões sobre o assunto apresentado. É realmente necessário o uso de correspondente ou enviado especial, em casos especiais de cobertura internacional, ou o conteúdo produzido pelas agências é tão bom e tão completo que dispensa o trabalho de tais profissionais. O tema atrai o interesse por traçar, não somente, o perfil do conteúdo produzido, na atualidade, pelo jornalismo internacional, nas grandes coberturas. Mas também por apontar uma tendência no estilo de trabalho dos jornalistas nas redações. Para quem pretende trabalhar com jornalismo internacional, a pesquisa aponta quais funções estão sendo mais exploradas. Caracteriza o trabalho desta editoria, colabora para mostrar como é fazer jornalismo internacional. Os temas ligados ao jornalismo internacional são pouco pesquisados, falta na academia estudos sobre essa área do jornalismo. Até mesmo a bibliografia é escassa, a maioria das obras existentes contam experiências pessoais de jornalistas e correspondentes, mas não aprofundam na discussão do fazer jornalismo internacional. A editoria internacional é uma das mais importantes do jornalismo, é uma área ampla que trabalha com diversos temas como política, economia, cultura, esporte, cotidiano e todos os assuntos que aconteçam fora país onde atua o veículo. A carência de estudos que aponte para novos rumos, sem prejuízos para a credibilidade da notícia, a qualidade do texto e o interesse público é enorme. Com as


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novas tecnologias e as dificuldades financeiras, as empresas jornalísticas têm reduzido o número de correspondentes e optado por adquirir o conteúdo produzido por agências. Saber o que isso tem significado para a editoria internacional é de relevante importância, tendo em vista a diferença entre a cobertura feita por agências da feita por correspondentes. Com base nas teorias do que é jornalismo e o que é notícia tais questionamentos podem ser respondidos. Por meio de pesquisa quali-quantitativa, é feita a análise de conteúdo do caderno “Mundo” da Folha de S.Paulo, mais precisamente o conteúdo publicado sobre o caso Tsunami no Japão entre os dias 12 de março e 11 de abril. Foram feitas entrevistas com profissionais da área envolvidos na cobertura como Sabine Righetti, Fabiano Maisonnave e João Batista Natali para ouvir a opinião destes sobre a produção jornalística internacional em casos como o ocorrido no Japão.


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HISTÓRIAS, CONCEITOS E DEFINIÇÕES

Notícia

A palavra notícia vem do latim “nova”, ela pode ser definida como a informação atual dos acontecimentos, levada ao alcance do público. As notícias são o resultado de um processo de produção que inclui percepção, seleção e a transformação de uma matéria-prima em um produto. Segundo Alfredo Vizeu, “A notícia é simultaneamente um registro da realidade social e ao mesmo tempo um produto dela.” (2005, p. 91) A notícia é um material jornalístico, normalmente reconhecido como algum acontecimento de relevância que merece publicação. Fatos políticos, sociais, econômicos, culturais, naturais e outros podem ser notícia se forem de interesse público. Geralmente, mas nem sempre, a notícia tem conotação negativa, justamente por ser excepcional, anormal, ou de grande impacto social, como acidentes, tragédias, guerras e golpes de estado. Notícias têm valor jornalístico apenas quando são atuais, ou quando não foram noticiadas previamente por nenhum veículo. A "arte" do Jornalismo é escolher os assuntos que mais interessam ao público e apresentá-los de modo atraente. Nem todo texto jornalístico é noticioso, mas toda notícia é potencialmente objeto de apuração jornalística. A notícia é o gênero jornalístico básico. A sua razão de ser é a informação dos fatos. Ela pode se desdobrar em uma reportagem, artigos, inquéritos ou subdivide-se em várias peças. São os meios de comunicação que transformam os fatos em notícias levando-as ao público. Clóvis Rossi esclarece com propriedade o que é jornalismo: Jornalismo, independentemente de qualquer definição acadêmica, é uma fascinante batalha pela conquista das mentes e corações de seus alvos: leitores, telespectadores ou ouvintes. Uma batalha geralmente sutil e que usa uma arma de aparência extremamente inofensiva: a palavra, acrescida, no caso da televisão, de imagens. Mas uma batalha nem por isso menos importante do ponto de vista político e social, o que justifica e explica as imensas verbas canalizadas por governos, partidos, empresários e entidades diversas para o que se convencionou chamar veículos de comunicação de massa. (2005, p. 7)

A notícia pode ser definida também como um registro da realidade social e um produto


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dela. A notícia define e redefine, permanentemente, os fenômenos sociais. A notícia é um produto de uma instituição social e está ligada em suas relações com outras instituições. É um produto de profissionais que interpretam o que ocorre no mundo para levar ao conhecimento dos cidadãos e outros profissionais. Ciro Marcondes Filho complementa: Notícia é a informação transformada em mercadoria com todos os seus apelos estéticos, emocionais e sensacionais; para isso a informação sofre um tratamento que a adapta às normas mercadológicas de generalização, padronização, simplificação e negação do subjetivismo. Além do mais, ela é um meio de manipulação ideológica de grupos de poder social e uma forma de poder político. (1986, p. 149)

Nilson Lage define notícia, no jornalismo moderno, como “o relato de uma série de fatos a partir do fato mais importante ou interessante; e de cada fato, a partir do aspecto mais importante ou interessante”. (1993, p. 16) Juarez Bahia diz que “notícia é tudo que o jornal publica”. Ele destaca que notícia “é o modo pelo qual o jornalismo registra e leva os fatos ao conhecimento do público”. E complementa que toda notícia é uma informação, mas nem toda informação é uma notícia. A notícia é a base do jornalismo, seu objeto e seu fim. Através dos meios do jornalismo ou dos meios da comunicação direta ou indireta, a notícia adquire conteúdo e forma, expressão e movimento, significado e dinâmica para fixar ou perenizar um acontecimento, ou para torná-lo acessível a qualquer pessoa. A notícia tem no jornalismo o seu instrumento mais organizado, mais competente, mais ágil e mais eficiente de difusão. O fato de que o jornalismo tem por finalidade primária informar tão amplamente quanto possível dá à notícia uma função tão social quanto a da mídia. (1990, p. 69)

Nem todas as informações que são apuradas e investigadas acabam sendo publicadas. A notícia passa por um processo natural de seleção com a finalidade clara de ajustá-la à hierarquia da difusão. A notícia jornalística é condicionada pelos valores estabelecidos pelo mercado. Mantém relações de consumo entre a empresa de comunicação e o leitor, o anunciante e, em alguns casos, com o poder público vigente. Ela é um recorte da realidade, elaborado a partir de critérios culturais, políticos, sociais, de mercado etc. Toda vez que a notícia chega ao leitor, telespectador ou ouvinte, ela passou por


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diversas avaliações. Desde a forma de abordagem sugerida pela pauta, à maneira como o assunto é conduzido pelo repórter até o acabamento final dado pelo editor. A ideia é que o selecionador das notícias edita o mundo a partir dos seus valores, crenças, interesses, formação cultural.

Valores-Notícia

A noticiabilidade é constituída pelo complexo de requisitos que se exigem para os eventos, do ponto de vista da estrutura do trabalho nos aparatos informativos e do ponto de vista do profissionalismo dos jornalistas, para adquirir a existência pública de notícia. (Wolf 2003, p. 195) Os valores-notícia são critérios para selecionar o que vai ou não ser publicado pela mídia. Eles funcionam como guia, sugerindo o que deve ser enfatizado, o que deve ser omitido, onde dar prioridade na preparação das notícias a serem apresentadas ao público. Os valores-notícia são qualidades presentes no fato que indicam se ele merece ou não ser levado a público. Quanto mais dessas qualidades tem o acontecimento, maiores são as chances de ele ser notícia. Para Wolf, “valores-notícia são critérios de relevância difundidos ao longo de todo o processo de produção e estão presentes tanto na seleção das notícias como também permeiam os procedimentos posteriores, porém com importância diferente” (2003, p.202). Gislene Silva (2005) lista os valores-notícia segundo alguns autores: Kaspar Stieler: novidade, proximidade geográfica, proeminência e negativismo. Walter Lippman: clareza, surpresa, proximidade geográfica, impacto e conflito pessoal. Fraser Bond: referente à pessoa de destaque ou personagem público (proeminência); incomum (raridade); referente ao governo (interesse nacional); que afeta o bolso (interesse pessoal/econômico); injustiça que provoca indignação (injustiça); grandes perdas de vida ou bens (catástrofe); consequências universais (interesse universal); que provoca emoção (drama); de interesse de grande número de pessoas (número de pessoas afetadas); grandes somas (grande quantia de dinheiro); descoberta de qualquer setor (descobertas/invenções) e assassinato (crime/violência). Galtung e Ruge: frequência, amplitude, clareza ou falta de ambiguidade, relevância, conformidade, imprevisão, continuidade, referência a pessoas e nações de elite, composição, personificação e


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negativismo.

Golding-Elliot:

drama,

visual

atrativo,

entretenimento,

importância,

proximidade, brevidade, negativismo, atualidade, elites, famosos. Herbert Gans: importância, interesse, novidade, qualidade, equilíbrio. Warren Breed: atualidade, proximidade, proeminência, curiosidade, conflito, suspense, emoção e consequências. Tim Hetherington: importância, drama, surpresa, famosos, escândalo sexual, crime, número de pessoas envolvidas, proximidade, visual bonito, atrativo. Pamela Shoemaker et all: oportunidade, proximidade, importância, impacto, consequência, interesse, conflito, polêmica, controvérsia, sensacionalismo, proeminência, novidade, curiosidade / raro. Mauro Wolf: importância do indivíduo (nível hierárquico), influência sobre o interesse nacional, número de pessoas envolvidas, relevância quanto à evolução futura. Mário Erbolato: proximidade, marco geográfico, impacto, proeminência, aventura, conflito, consequências, humor, raridade, progresso, sexo e idade, interesse pessoal, interesse humano, importância, rivalidade, utilidade, política editorial, oportunidade, dinheiro, expectativa, suspense, originalidade, culto de heróis, descobertas, invenções, repercussão, confidências. Manuel Carlos Chaparro: atualidade, proximidade, notoriedade, conflito, conhecimento, consequências, curiosidade, dramaticidade, surpresa. Nilson Lage: proximidade, atualidade, identificação social, intensidade, ineditismo, identificação humana.

Jornalismo Internacional

A editoria internacional é uma das especializações do jornalismo. É o segmento que atua colhendo, apurando informações e produzindo notícias de fatos que acontecem em outros países, fora da nação onde está sediado o veículo de imprensa em que o jornalista trabalha. O que é assunto interno de um determinado país será internacional em todos os demais. Este fato faz com que o jornalismo internacional seja uma das áreas do jornalismo com maior abrangência de temas entre todas, já que deve dar conta de política, economia, cultura, esporte e todos os assuntos que aconteçam fora de seu país de origem e que são de interesse do público compatriota. O noticiário internacional encontra sempre bastante destaque, por motivos diversos (…) É fornecido pelas diversas agências que mandam despachos de tudo quanto de mais importante ocorre no mundo (...) Material chega do exterior 24 horas por dia,


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ininterruptamente (...) Existem notícias do exterior que podem ter repercussão no Brasil. Entre os leitores há sempre estrangeiros, que procuram saber o que se passa em suas terras de origem. (ERBOLATO, 2003, p. 230)

Em um primeiro momento pode-se afirmar que o jornalismo teria nascido voltado para a informação interna, e só depois, a partir de recursos provenientes da Revolução Industrial como maquinas de impressão mais potentes, telégrafos e meios de transporte, o jornalismo teria se tornado externo. Esta afirmação marca a origem do noticiário internacional em uma fase secundária do desenvolvimento da imprensa, como consequência do processo de industrialização capitalista. De acordo com esta visão, “o jornalismo internacional é um fenômeno da atividade intelectual e econômica que data do segundo quartel do século XIX”, porque sua história estaria “ligada ao desenvolvimento da escrita, à imprensa, à indústria editorial, às tecnologias de comunicação e ao transporte.” (AGUIAR, 2008, p. 02) Os

acontecimentos

sobre

o

exterior

entraram

nas

páginas

dos

jornais

tardiamente, porque não havia formas de compilação de fatos ou porque o interesse não transcendia fronteiras. Assim foi, em geral, a história da imprensa

no

mundo.

O

jornalismo

nasceu

como

uma

atividade

de

comunicação local, com uma vocação comunitária. A primeira agência de notícias internacionais é organizada no segundo quartel do século XIX. As notícias sobre o exterior ganham seu espaço na imprensa diária quase um século depois da Revolução Industrial. (AGUIAR, 2008, p. 02)

Por outro lado estudiosos afirmam que o jornalismo já teria nascido internacional, pois os primeiros veículos de imprensa, surgidos na Europa burguesa dos séculos XVII e XVIII, foram criados principalmente para informar os leitores locais, comerciantes e banqueiros, sobre fatos acontecidos no exterior. Os primeiros indícios de jornalismo internacional eram as cartas e boletins noticiosos sobre o comércio da burguesia neerlandesa com outras nações. Assim, das informações distribuídas internamente entre os comerciantes, que queriam saber o que se passava além das fronteiras, surgiram os primeiros sinais da internacionalização da notícia, que passou a circular, via mensageiros, entre o público com informações de fatos ocorridos no exterior. Poderíamos supor que o jornalismo surgiu como atividade que fizesse circular informações de interesse local ou paroquial, já que o campo de interesse comum dos mortais, em comunidades compartimentadas, sofria os efeitos de


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uma infraestrutura precária de comunicações. Pois suporíamos errado. O jornalismo nasceu, isto sim, sob a forma de jornalismo internacional, com o formato de coleta e difusão de notícias produzidas em terras distantes. (NATALI, 2004, p. 23)

Segundo Natali (2004), os primeiros periódicos foram criados durante a ascensão burguesa da Europa nos séculos XVII e XVIII, que tinha a necessidade de obter notícias sobre o estrangeiro, a fim de gerenciar os negócios internos. O jornalismo, afirma, nasce com o newsletter de circulação interna da Casa Függer (do banqueiro Jacob Függer, 1459-1525), com informações externas relevantes para orientar seus negócios. Estes boletins noticiosos, produzidos por uma “rede de agentes da casa bancária” de Függer, informavam sobre “a cotação de determinadas mercadorias nas feiras” comerciais urbanas, bem como “conflitos regionais” e seus efeitos sobre “o risco de tráfego pelas estradas, as cotações dos pedágios nas alfândegas senhoriais ou o preço das apólices de seguro”. Segundo Natali, “ali estava o embrião do jornalismo econômico e político, voltado para assuntos internacionais”. (IDEM, 2004, p. 21) No século XIX os jornais já eram amplamente difundidos na Europa, nos Estados Unidos e em determinados países, como o Brasil, e com o avanço de tecnologias, as notícias do mundo todo ganharam aliados na propagação das informações. Começaram a serem formadas as primeiras agências de notícias, inicialmente como associações entre jornais para cobrir eventos de grande relevância, como guerras e revoluções. Os primeiros conflitos a receber amplas coberturas jornalísticas foram a Guerra da Criméia e a Guerra Civil dos EUA. Portanto, afirmar que o Jornalismo Internacional teria nascido apenas no século XIX, quando “em Londres os periódicos impressos ampliavam sua área geográfica de interesse e de cobertura em razão da expansão do império colonial britânico” e, nos EUA, o noticiário internacional se ampliava porque “imigrantes enriquecidos tinham uma visão mais metropolitana do mundo e criavam uma demanda específica por informações, sobretudo as que tinham origem na Europa” é no mínimo impreciso. (NATALI, 2004, p. 19) (...) O jornalismo impresso – e o jornalismo internacional, que nos primórdios do jornalismo era o único tipo de jornalismo conhecido – não nasceu com o capitalismo. O mercantilismo já precisava dele e foi por isso que o criou. Ocorreu, na época mercantil, o florescimento rápido dessas folhas de notícias impressas que eram vendidas a quem quisesse comprar e não mais circulavam dentro de um mesmo conglomerado comercial e financeiro (…). (NATALI, 2004, p.


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No Brasil a imprensa é jovem em comparação com outras nações, em 2011 completouse 203 anos de história. Mas o jornalismo internacional por aqui, também surge desde os primórdios. A Gazeta do Rio de Janeiro tinha a missão de dar voz à corte portuguesa recéminstalada no país tanto para os brasileiros, quanto para outros países, era a imprensa oficial. O Correio Braziliense, primeiro órgão de imprensa publicado por um brasileiro e inteiramente produzido no exterior, se dedicava a informar os compatriotas sobre fatos ocorridos no exterior. Na época da criação destes dois veículos, a Europa passava por conflitos internos, a Gazeta, jornal oficioso da elite, se preocupava em acompanhar o desenrolar da guerra, para que assim que o conflito terminasse a corte pudesse retornar para Portugal. O Correio, por ser editado na Europa, buscava informações sobre situações vividas no velho mundo que pudessem ser aplicadas no Brasil – constitucionalismo, parlamentarismo, liberalismo econômico, entre outros. Portanto, tomando como base, os dois primeiros veículos de imprensa brasileiros, podemos afirmar que o jornalismo nacional nasceu internacional com a chegada de Dom João VI e com o foco voltado para o exterior, mais precisamente a Europa. Tal constatação não traz grandes novidades. Durante o período colonial e mesmo com a instalação da corte no país, os fatos importantes e de interesse local não aconteciam internamente, mas sim nos países colonizadores do velho mundo e nos EUA. Por sinal, esta atitude marcou profundamente a cobertura internacional da imprensa brasileira, desde os primórdios até os dias atuais, o noticiário internacional no Brasil é caracterizado eminentemente por notícias dos países desenvolvidos: EUA, Europa, Japão e como exceção o Oriente Médio, este por viver em eterno conflito e exigir da imprensa atenção ininterrupta.

Correspondentes e Enviados Especiais

O correspondente é um repórter residente em uma cidade estrangeira, ele cobre uma região, um país ou às vezes até um continente inteiro. Ele tem como missão enviar matérias regularmente para a redação do veículo para o qual trabalha. Para isso, ele acompanha toda a imprensa local, mantém contatos frequentes com jornalistas e colegas correspondentes e identifica fontes estratégicas como entidades, governos, diplomatas, militares e outras que


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possam fornecer informações importantes. Na maior parte das vezes, o correspondente mesmo define sobre o que irá escrever, o que irá apurar, que assuntos vai selecionar. O correspondente deve ter conhecimento profundo da realidade e cultura local e talento para identificar e descrever os fatos mais relevantes sobre o país onde trabalha e ao mesmo tempo interessantes para seu país de origem. Seu compromisso maior é fornecer o maior número de conteúdo possível para que os editores, que trabalham na empresa sede em seu país de origem, escolham o que será divulgado. A figura do correspondente identifica um tipo de jornalista profissional que se apresenta em agências de notícias, jornais, revistas, e emissoras de rádio e de televisão; trabalha para qualquer uma dessas organizações, de maneira permanente, fora da sede central de sua redação, seja dentro ou fora do país. Envia informações, comenta acontecimentos e representa sua redação perante organizações de todo o tipo. Pode pertencer ao quadro funcional de sua empresa ou atuar como um simples colaborador que cobra por trabalho. Entendido nesses termos, o correspondente é o típico habitante da diáspora jornalística, destinado a trabalhar em um dos lugares onde o jornal concentra esforços informativos. (SOARES, 2007, p. 6)

A justificativa de se ter um profissional alocado em outro país deve se ao diferencial do material produzido pelo correspondente em comparação com as agências. Roberto Kovalick (2007)1 explica esse papel do correspondente: É exatamente dar a visão do seu país de origem. Somos os olhos dos brasileiros aqui fora. As notícias divulgadas pelas agências não têm essa dimensão. Se você assistir reportagens sobre o mesmo assunto, uma feita por um correspondente e outra amarrada com imagens de agências, verá a diferença. A feita com material de agência sempre será fria e distante. A feita por um correspondente – mesmo que use, em parte, material de agência – será mais quente, terá a preocupação de mostrar o que ela significa e o que importa para o telespectador. (SOARES, 2007, p. 6)

Um olhar pessoal, específico, esta é a missão do correspondente. Encontrar na informação aquilo que interessa para o seu país que atende ao interesse do público nacional. Obviamente esse olhar vai estar sempre atrelado a capacidade do profissional, seus conhecimentos e cultura e mais ainda à linha editorial da empresa onde trabalha. Um exemplo 1 Roberto Kovalick, correspondente da Rede Globo de Televisão no Japão. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. Disponível em: <http://www2.faac.unesp.br/pesquisa/lecotec/eventos/ulepicc2008/anais/2008_Ulepicc_1179-1193.pdf>


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é dado por Sérgio D’Ávila (2007)2: Cito sempre como exemplo, desse olhar local, minha cobertura da Guerra do Iraque. Eu e o fotógrafo Juca Varella éramos os únicos jornalistas brasileiros, mas havia em Bagdá então entre 100 e 200 jornalistas do mundo inteiro, cobrindo todos os ângulos possíveis da guerra, das estratégias militares ao armamento utilizado. Só um jornalista brasileiro, no entanto, perceberia que havia milhares de carros Passat brasileiros rodando pelas ruas. E só um jornalista brasileiro descobriria que o apelido dos carros entre o povo era “brasili”, que significa brasileiro em árabe. (SOARES, 2007, p. 7)

Ao tornar a matéria com a cara do seu país, o correspondente passa uma informação individualizada, exclusiva, de um jeito que só ele pode fazer. Foge da homogeneidade das agências, do material enviado em massa e divulgadas por veículos em todo o mundo. Ariel Palácios (2007)3 defende essa ideia: Os correspondentes dão o toque especial, que pode colocar sabor no texto sobre o mesmo assunto que é tratado pelas agências. Melhor, digo, não só sabor, mas também uma análise interessante, que proporcione uma visão mais além dos detalhes factuais que as agências tratam. (SOARES, 2007, p. 7)

Ao fugir do lugar comum, o correspondente leva ao público uma informação contextualizada. Se ele considera determinado assunto importante pode ir atrás, investigar, levantar documentos e fazer entrevistas. Atitude que uma agência dificilmente terá devido a sua obrigação de passar muitas informações rapidamente. Reali Jr. (2007)4 explica: Por estar no local, o correspondente deve priorizar as informações coletadas por ele mesmo. A sua análise e a sua percepção do que está acontecendo diante de seus olhos serão o sabor do artigo e o destacarão entre as informações pasteurizadas de agência. O jornalista deve estar consciente de que o leitor já teve acesso à informação factual na internet ou na televisão, e por isso mesmo ele tem que buscar detalhes e ângulos de análise oriundos de sua observação pessoal. (SOARES, 2007, p. 7) 2 Sérgio D'Avila, editor de internacional da Folha de S.Paulo. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. Disponível em: <http://www2.faac.unesp.br/pesquisa/lecotec/eventos/ulepicc2008/anais/2008_Ulepicc_11791193.pdf> 3 Ariel Palácios, correspondente do jornal O Estado de S.Paulo na Argentina. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. Disponível em: <http://www2.faac.unesp.br/pesquisa/lecotec/eventos/ulepicc2008/anais/2008_Ulepicc_1179-1193.pdf> 4 Reali Junior, jornalista e correspondente brasileiro falecido em 2011. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. Disponível em: <http://www2.faac.unesp.br/pesquisa/lecotec/eventos/ulepicc2008/anais/2008_Ulepicc_1179-1193.pdf>


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Outro fator que determina a presença de um correspondente em outro país é a existência de brasileiros envolvidos em um determinado acontecimento. Nesse caso, as agências não farão um trabalho exclusivo para cada país que possui um cidadão envolvido. Destaca-se, portanto, o repórter in loco. Ele vai fazer um trabalho focado no seu país de origem, vai atrás do personagem ou da família para construir a matéria, como conta Moisés Rabinovici (2007)5: É muito difícil você pôr uma agência atrás de um brasileiro, ou contratar um jornalista local para fazer uma matéria sobre o brasileiro morto, o enterro do brasileiro, ou o brasileiro ferido, a família chegando pra vê-lo; eles não fazem isso. Então você tem que ter um brasileiro que vá ao hospital, que vá ao hotel da família e mande tudo isso a noite para o seu jornal, aí o correspondente tem valor. (SOARES, 2007, p. 8)

O trabalho feito pelo correspondente tem muitas qualidades como diferencial, exclusividade, contextualização, humanização. Sobretudo pela investigação e contato com outros brasileiros no exterior, mas podemos dizer que os correspondentes internacionais estão cada vez mais raros no mercado jornalístico brasileiro. “A notícia jornalística é uma elaboração da realidade do ponto de vista do repórter, ele seleciona os aspectos da notícia que por ele são percebidos.” (BORDENAVE, 1991, p. 23). O Enviado Especial é um repórter que viaja com um tema previamente definido para cobrir ou investigar (uma guerra, uma crise, uma epidemia, premiações como o Oscar e o Grammy, as Olimpíadas e a Copa, ou conferências, eleições e viagens de governantes, etc.). Diferente do correspondente, o enviado especial pode produzir uma única matéria, se for o caso, ou uma série, sem necessidade de envio regular de produção. Normalmente, o enviado especial é selecionado entre os profissionais da redação por ter maiores conhecimentos sobre o tema ou o lugar dos fatos. Muitas vezes, o enviado passa poucos dias no local e retorna à sede logo em seguida. O enviado especial difere do correspondente por ser um repórter escolhido para conseguir informações ou reportagens em um lugar em que o veículo de comunicação não tem ninguém na área ou, quando há, são inexperientes, sendo que nesse lugar existem assuntos de grande valor jornalístico. (CUNHA, 1990, p. 68) 5 Moisés Rabinovici, jornalista. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. Disponível em: <http://www2.faac.unesp.br/pesquisa/lecotec/eventos/ulepicc2008/anais/2008_Ulepicc_1179-1193.pdf>


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Quando jornalistas trabalham no exterior sem vínculos fixos com veículos de imprensa ou em regime de prestação de serviço, são chamados de colaboradores ou Stringers. Estes são mais comuns em locais onde a mídia não acha tão interessante ou compensatório manter um correspondente fixo, como em países do terceiro mundo. Stringers geralmente produzem matérias para várias empresas diferentes ao mesmo tempo. O correspondente de guerra propriamente dito surgiu na segunda metade do século XIX, com o envio de repórteres europeus e norte-americanos para conflitos como a Guerra da Criméia, do México, do Ópio, Guerra Civil Americana, do Paraguai e Hispano-Americana. Segundo registros, o primeiro correspondente de guerra da história da imprensa foi o irlandês Willian Howard Russel. Entretanto, antes mesmo já havia os chamados "cronistas de guerra", que produziam relatos sobre os conflitos, sem que houvesse, na época, técnicas de produção jornalística. O general romano Júlio Cézar, por exemplo, escreveu crônicas de guerra em seu diário De Bello Galico. A diferença para os correspondentes modernos é que estes são enviados especificamente para cobrir conflitos para um veículo determinado (jornal, TV, rádio, revista etc.). O correspondente de guerra pode ficar baseado numa cidade perto da zona de conflito (por haver mais infraestrutura e acesso a comunicação com a redação da sede) ou ir direto para o front de combate, se as condições e os militares permitirem. Tecnologias de comunicação recentes, como a internet, permitiram maior mobilidade ao correspondente de guerra, já que ele agora pode enviar textos, sons e imagens de praticamente qualquer ponto do mapa, incluindo o campo de batalha. O trabalho é de altíssimo risco, mas cada informação obtida tem valor igualmente alto. Correspondentes de guerra estão entre as maiores vítimas de casualidades (mortes por assassinatos ou acidentes) entre jornalistas.

Agências de Notícias

As Agências de notícias são empresas especializadas em difundir informações e notícias para os veículos de comunicação, jornais, revistas, rádios, tvs e sites assinantes em todo o mundo. São compostas por equipe de repórteres, cinegrafistas, fotógrafos, além de


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outros profissionais. São meios de informação indireta, as notícias divulgadas por elas não vão diretamente para o público, mas sim aos veículos, que repassam as notícias aos receptores. São os jornais dos jornais, do rádio e da televisão, e de outros assinantes, a quem fornecem informações de todos os tipos, por atacado e a baixo preço. Dispõem para tanto, de amplo sistema de comunicações e de sucursais e correspondentes que recolhem, elaboram e difundem o material. (AMARAL, 1982, p. 159)

As agências surgiram em meados do século XIX, por volta dos anos trinta. Inicialmente divulgavam informações de economia. A primeira agência, de que se tem notícia é a Havas, criada por Charles-Louis Havas em 1835. Com sede em Paris, a Havas enviava as principais informações e notícias do exterior por telegramas para as empresas jornalísticas que pagavam pelo serviço. Em 1851, um sócio de Havas, o alemão naturalizado britânico Julius Reuter, deixou a empresa para fundar uma nova agência em Londres, a Reuters. Em 1849, outro empresário, Bernard Wolff, fundou a Wolff, que se tornaria a principal agência da Alemanha. A Reuters existe até hoje, enquanto a Havas acabou se tornando a atual Agence France-Presse (AFP) e a Wolff deu origem à atual Deutsche Presse-Agentur (DPA). Em 1853, Guglielmo Stefani fundou a Agenzia Stefani, em Turim. “As agências de imprensa nasceram diante da impossibilidade de cada jornal manter correspondentes em todo mundo e ainda de ter meios para, de cada um deles, receber as notícias com a suficiente rapidez.” (ERBOLATO, 2003, p. 206) Nos EUA, os principais jornais de Nova Iorque se juntaram durante a Guerra Civil Americana e enviaram um pool de correspondentes para o campo de batalha, foi assim que surgiu a Associated Press. Esta manteve um monopólio nos EUA por mais de meio século, até que em 1907 foi fundada a agência United Press. Dois anos depois, criou-se a International News Service. Estas duas se fundiram em 1958 para criar a United Press International (UPI), também existente até hoje. A origem das agências de notícias está ligada a expansão do capitalismo, o auge dos estados-nação na Europa, o consumo crescente da imprensa e a inclusão das então novas tecnologias de comunicação. Não por acaso, as primeiras agências apareceram em países com interesses coloniais. A sociedade do século XIX começava a ter a necessidade de conhecer o que acontecia além das fronteiras e a cada dia buscava meios para conseguir acesso às informações. Com o


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tempo notícias eram produzidas com maior rapidez em lugares cada vez mais distantes. Assim como hoje, na época os meios de comunicação eram incapazes de cobrir tantos fatos em lugares tão distantes por motivos econômicos. Ainda não existia a mídia eletrônica (rádio, TV e internet), e não havia então nenhum jornal ou revista que dispusesse dos recursos humanos e técnicos para estar presente em todos os focos mundiais que produziam informação. Por este motivo, se fazia necessária a criação de entidades que compilassem as notícias que ocorriam em sua área mais próxima. O jornalismo e as agências internacionais, como atividades econômicas do capitalismo, satisfizeram no início a necessidade de comunicação dos comerciantes e dos banqueiros que precisavam se informar sobre preços de mercadorias. Nesse sentido podem ser consideradas como instrumento de viabilização econômica de determinadas classes sociais. (SOARES, 2007, p. 2)

No início, as agências eram empresas familiares com poucos funcionários e uma atividade limitada. Produziam informações traduzindo notícias dos jornais estrangeiros. Logo se definiram em dois grupos distintos: as que trabalhavam em nível nacional e as mais interessadas no mercado estrangeiro. Com o auge do capitalismo, chegou às agências a produção em larga escala, o que promoveu alta rentabilidade, assim criou-se uma estrutura empresarial capaz de obter lucros máximos. Com o desenvolvimento tecnológico, que trouxe a internet, fax, satélites, telefone, fibra ótica e os computadores a capacidade de colher e repassar informações alcançou volumes nunca vistos antes. Isto se deve à presença das agências nos diferentes pontos de interesse informativo. Se não fosse assim, muitos fatos noticiosos de magnitude poderiam passar despercebidos. Hoje, graças a elas, qualquer cidadão conhece quase no mesmo instante, através do rádio, da televisão, dos jornais, revistas e da internet fatos que acontecem em diversos pontos do planeta. Para cobrir todo o globo, as agências possuem escritórios locais, em diferentes cidades e países, que transmitem sua apuração para as centrais, que em geral ficam no país de origem da agência e estas por sua vez redistribuem o material para os clientes. Todo o processo de facção da notícia é na velocidade mais rápida possível. Os clientes podem pagar em função dos serviços recebidos, que podem ser de naturezas muito distintas: texto, áudio, imagem e foto, ou uma assinatura mensal pelos serviços prestados: informação nacional, internacional e serviço fotográfico. Deste modo, as agências de notícias são


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consideradas vendedoras atacadistas de informação. Certas agências nacionais alimentam igualmente os organismos oficiais de seus respectivos países. As agências trouxeram para os veículos de imprensa a possibilidade de fornecer prontamente informações sobre países onde eles não têm correspondentes, ou sobre fatos que não têm meios de apurar por si mesmos. As empresas jornalísticas sempre procuraram mais informação com o menor custo possível, a maneira mais econômica para produzir notícias. Com isso, ao oferecer conteúdo de todo o mundo por baixo custo, as agências conquistaram o sucesso no mercado. A produção de despachos de agências toca todos os domínios da atualidade nacional e internacional. É assim que, tipicamente, a cobertura internacional dos jornais locais é formada com despachos de agências de notícias. Ao longo da história as agências disputaram a posição de fonte de informação mais importante do planeta. A predominância de uma agência no mercado de informações oscilava conforme a época; e seu auge, geralmente, relacionava-se a situação do país onde sua sede estava instalada e à condição de liderança deste perante as demais regiões do globo. Na história do jornalismo, a ascensão da bandeira de determinada agência esteve estreitamente atrelada à bandeira do país em que ela instalou sua sede e no qual fincou seus interesses. A França, o Reino Unido e os Estados Unidos foram países em ascensão no momento em que a industrialização os projetava por suas ambições expansionistas e por seu poderio industrial e mercantil. E, também, pelo poderio de sua imprensa. Em outras palavras, a história do jornalismo internacional é de algum modo a história dos vencedores. (NATALI, 2004, p.32)

São agências mundialmente conhecidas a Reuters (Reino Unido), Associated Press (EUA), United Press Internacional (EUA), France Presse (França) e EFE (Espanha). No Brasil temos como exemplo a Agência Estado (ligada ao Grupo Estado que edita os jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, além da Rádio Eldorado, Estadao.com e outros) e a Folhapress (ligada ao Grupo Folha que edita os jornais Folha de S. Paulo, Agora, Valor Econômico, Folha.com e o portal UOL, entre outros). Traçando um panorama da circulação mundial de informações fica clara a grande participação das agências no mercado mundial de notícias que também aponta a predominância da produção vinda dos países desenvolvidos. Os países desenvolvidos controlam praticamente o circuito mundial de notícias, através de cinco agências, editam 83% dos livros publicados no mundo, controlam as maiores agências de publicidade do mundo (sete são norte-americanas e três têm


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participação majoritária de capital norte-americano), produzem e exportam 77% de filmes para cinema – e assim por diante. As cinco agências que ditam o rumo do noticiário internacional são a francesa Agence France Presse (AFP), as norteamericanas United Press Internacional (UPI) e Associated Press (AP), a inglesa Reuters, a italiana ANSA e a alemã DPA, às quais se poderia acrescentar a espanhola EFE, além de algumas menores, mas igualmente baseadas nos países desenvolvidos. (SOARES, 2007, p. 3)

Vale ressaltar algumas diferenças no processo de produção e tratamento das informações produzidas por agências. De uma maneira geral a agência distribui a mesma notícia para todas as empresas assinantes. Por isso, as informações geradas por agências são consideradas objetivas e imparciais. O material remetido pelas agências, partindo do pressuposto de neutralidade, não devem conter nenhum tipo de opinião e nem devem seguir nenhuma tendência editorial. Segundo (ERBOLATO, 2003 p. 206) o processo de produção da notícia pelas agências segue a seguinte rotina: O acontecimento; A obtenção de dados pelo repórter; Transmissão dos informes à agência; Redação do telegrama, na agência, onde o texto passa pelo seu primeiro tratamento quanto à forma e ao enfoque; Distribuição da matéria aos assinantes; Recepção do texto pelos jornais onde o mesmo passa pelo segundo tratamento, recebendo cortes, alterações, supressão de palavras e, eventualmente, alguns acréscimos; Difusão do jornal para o público; Repercussão entre o público. Segundo (ERBOLATO, 2003 p. 209) os despachos das agências em geral são assim classificados: O Flash, ou primeiro anúncio de um acontecimento, difundindo imediatamente, tem poucas informações, é como um lead. O Boletim é um informe de algumas linhas que dá sequência a elementos importantes de uma notícia já divulgada. O Desenvolvimento reconstitui uma série de boletins de forma correta e ampliada. As críticas às agências noticiosas existem praticamente desde a criação dessas empresas. O primeiro a criticar a pobreza de notícias e a uniformidade de interpretações do material de agência foi Balzac, em 1840. Todos os jornais (de Paris), dispensados de traduzir, como antes, os jornais estrangeiros e de manter representantes pagam ao sr. Havas uma soma mensal para receber, em horário fixo, informações estrangeiras. Sem saber, ou sabendo, estes jornais têm, apenas, o material que o Primeiro-Ministro deixa publicar. Além do mais,


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o sr. Havas os trata segundo o valor da assinatura. Se Débats dá 100 escudos por mês, terá tal ou qual notícia antes dos outros. Partindo do princípio de que existem vinte jornais e que a média de assinatura é de 200 francos, o sr. Havas recebe 4 mil francos por mês (...) Imaginem, agora, a pobre uniformidade do noticiário estrangeiro em todos os jornais! Cada um deles pinta de branco, verde, vermelho ou azul a informação que lhe envia o sr. Havas, o Maître Jacques da imprensa. Tomando-se isso por base, só existe, na realidade, um jornal, que é feito por ele e no qual todos saciam a sede. (SOARES, 2007, p. 4)

Além de Balzac, diversos teóricos, jornalistas, empresas e clientes criticam as agências. Honenberg relata: Todas as críticas que se pode imaginar sobre as agências de notícias já foram feitas pelos diretores de jornais. Em certa ocasião queixaram-se de que as agências enviavam muitos boletins, diversas versões de uma matéria em desenvolvimento, muito material sobre política local, às vezes muito pouco sobre notícias importantes. Na pressa de elaborar a matéria, a sacrificada equipe da agência é frequentemente acusada de dar muita importância ao último fato acontecido, quando não é realmente importante. Ou é acusada do crime pavoroso de glorificar o trivial. (SOARES, 2007, p.4)

As principais críticas que se fazem sobre as informações repassadas por agências são: A homogeneização das informações: poucas agências distribuem a maior parte da informação mundial e fazem isso diariamente para milhares de meios de comunicação. Portanto, é inviável a produção de um texto diferente para cada veículo. Dessa forma, torna-se inevitável que as notícias selecionadas para publicação sejam as mesmas em diversos países e que seus textos sejam muito parecidos, senão, iguais. A predominância de notícias de agências no noticiário internacional: a credibilidade conferida a essas empresas, devido ao seu trabalho de mais de um século e o alto custo da manutenção de sucursais ou mesmo de correspondentes, faz com que a maior parte do noticiário internacional dos jornais seja preenchida por notícias produzidas por agências. É a perda de foco. Grande parte das agências tem vínculos, diretos ou indiretos, com os governos de seus países e refletem na maioria das vezes, posições ou interesses deles. Além disso, as agências estão preocupadas com as grandes pautas, em especial as de interesse norte-americano e europeu. Portanto, as agências reproduzem, mesmo que involuntariamente, os pontos de vista e os interesses das nações desenvolvidas, que, obviamente, não são os mesmos dos países em vias de desenvolvimento, denominados emergentes. No entanto, esses últimos continuam a se


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pautar pelos temas disseminados pelas agências. (SOARES, 2007, p. 5)

Segundo (ERBOLATO, 2003 p.205 e 206), as agências podem ser classificadas em: Particulares – Surgidas por iniciativa de empresa privada; Cooperativas – São consórcios de vários jornais que contribuem para mantê-las; Estatais – Criadas e mantidas pelos governos; Gerais – Divulgam praticamente toda e qualquer notícia que possa interessar ao público; Especializadas – Dedicam-se exclusivamente a difundir um determinado tipo de notícia: econômica, política, cultural ou esportiva, etc.; Fotográficas – Distribuem apenas fotografias, com legendas, de fatos ocorridos no mundo; Artigos – Contratam matérias assinadas e interpretadas por nomes de destaque no jornalismo; Nacionais – Fornecem notícias do país de origem para outros países; Internacionais – Fornecem notícias de e para todo mundo. Uma mesma agência pode se enquadrar em mais de uma categoria.


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A FOLHA DE S.PAULO

O jornal que hoje conhecemos como Folha de S.Paulo é, na verdade, a fusão de outros três diários: Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite. A fusão ocorreu em 1960, pouco antes de a Folha ser vendida para a família que é sua atual proprietária. A partir de 1962, o novo dono, Octavio Frias de Oliveira começou a operar a revitalização da infraestrutura do jornal. “Essa fase viria a ser classificada como a da ‘revolução tecnológica’, durante a qual se reformulou o sistema de distribuição, se introduziram o off-set, a fotocomposição, novas unidades impressoras” (SILVA, 2005, p.74). Em seguida, na década de 1970, Frias concentrou-se nas reformas editoriais que viriam a fazer da Folha de S.Paulo um dos jornais de maior prestígio no país. A Folha abriu espaço para que lideranças da sociedade civil pudessem comentar a economia, os problemas sociais e a política. O objetivo era o pluralismo. A nova linha editorial agradou o público, aumentando a tiragem de 200 mil para 300 mil exemplares por dia. Contudo, a partir de 1978, quando foi criado o Conselho Editorial6 , a postura do jornal alterou-se. Entre 1978 e 1986, o Conselho produziu seis documentos que constituíram o que ficou conhecido como Projeto Folha (e culminaria com a publicação do Manual Geral da Redação) definindo o conceito de informação para o jornal, os temas sobre os quais se poderiam opinar, as matérias que deveriam ser assinadas, como a empresa geraria recursos e como o jornal deveria ser editado. Apontavam para um rigoroso controle de tudo que era publicado, criando metas para a redução dos erros de informação e de ortografia na Folha, além de primar pelo desengajamento político dos jornalistas. Arbex Junior (2001) aponta contradições entre os documentos e as atitudes do jornal, já que a própria Folha foi beneficiada, durante a Ditadura Militar, pelo elevado grau de politização da Redação, uma vez que grande parte de seu prestígio adveio da abertura de suas páginas para artigos de intelectuais identificados com a oposição ao regime. Muitos jornalistas que trabalhavam na FSP e apoiavam com entusiasmo a postura política do jornal desiludiram-se ao constatar o óbvio: a Folha jamais deixou de ser uma empresa capitalista. Aliás, a direção do jornal não ocultava esse fato, como fazia 6 Trata-se de um colegiado composto por jornalistas e não-jornalistas que se reúnem mensalmente em caráter consultivo para analisar a conjuntura política e econômica do país, criticar o desempenho jornalístico da Folha e recomendar linhas de ação editorial futura. Seus membros são indicados pela direção da Empresa Folha da Manhã S/ª Os integrantes da direção e da Redação têm direito a lugar e voz nas reuniões. (SILVA, 2005, p.96)


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questão de explicitar em todos os documentos e discussões internas que o objetivo das reformas então em curso era ‘modernizar’ o jornal, no sentido de transformá-lo em uma empresa eficaz e profissionalizada, nos moldes do jornalismo praticado nos Estados Unidos. (ARBEX JUNIOR, 2001, p.143)

Os moldes norte-americanos de jornalismo consistiam na introdução de critérios industriais de eficiência nas empresas jornalísticas, na qual a organização empresarial influencia diretamente o trabalho da redação para garantir mais lucros aos proprietários. Essa política adotada pela Folha de S.Paulo, baseada na Teoria Organizacional, foi contestada também por autores como Medina (1981) e Marcondes Filho (1989) Mesmo assim, os proprietários da Folha eram a favor da instituição de manuais e padrões para nortear a atividade jornalística - visão de empresários, portanto, adeptos da Teoria Organizacional. Para eles, “jornalismo é linha de produção” (FRIAS FILHO in 20 TEXTOS que fizeram história, 1991, p. 269) e deve ser feito dentro de critérios rígidos que garantam a sobrevivência da empresa jornalística. Dessa forma, o Manual Geral da Redação, que teve sua primeira edição publicada em 1985, se consolidou. Hoje, a atual versão é largamente utilizada na Redação e estudada nas faculdades de Jornalismo.

O caderno “Mundo”

A editoria internacional é aquela que se destina a noticiar fatos ocorridos em outros países, mas que interessam ou influenciam o público leitor do país de origem do jornal. Uma vez que as fontes estão geograficamente distantes da sede do jornal, a editoria costuma produzir suas matérias através de correspondentes internacionais, enviados com o apoio de jornalistas que ficam na própria Redação. Na Folha de S.Paulo, a editoria internacional chama-se Mundo e vive à mercê da situação financeira da empresa jornalística, sofrendo cortes sempre que os lucros diminuem. Com a crise financeira da década de 1980, a rede de correspondentes da Folha passou de sete para três jornalistas e só voltou a se fortalecer nos anos 90 por causa dos lucros gerados no período de euforia do Plano Real. A partir de 1997, nova crise se instaurou. Primeiro, a moeda brasileira entrou em desvalorização. Depois, o estabelecimento da Internet levou a migração de muitos patrocinadores dos jornais impressos para a mídia online. Diante dessa situação, a Folha, no


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mesmo ano, anunciava em seu Projeto Editorial7. A reiterada pergunta sobre se os jornais vão sobreviver possivelmente comporta as duas respostas - sim e não. Há uma grande massa de informações, para não mencionar o trabalho analítico em torno delas, que o consumidor não precisa receber em ritmo mais frequente do que o diário. (...) Em meio à balbúrdia informativa, a utilidade dos jornais crescerá se eles conseguirem não apenas organizar a informação inespecífica, aquela que potencialmente interessa a toda pessoa alfabetizada, como também torná-la mais compreensível em seus nexos e articulações, exatamente para garantir seu trânsito em meio à heterogeneidade de um público fragmentário e dispersivo. Em outras palavras, o jornalismo terá de fazer frente a uma exigência qualitativa muito superior à do passado, refinando sua capacidade de selecionar, didatizar e analisar. É recomendável que a gama de assuntos a ser cobertos até mesmo se reduza em alguma medida, desde que em contrapartida sua seleção seja mais pertinente, e o tratamento que receberem mais compreensivo. (FOLHA DE S.PAULO 2007)

A Folha Mundo é o caderno da editoria internacional do jornal Folha de S.Paulo. A Folha Mundo publica diariamente as principais notícias internacionais, sempre acompanhadas de análises e enfoque para o público brasileiro. Pela Folha Mundo o leitor tem acesso a tudo que acontece no exterior. O caderno Mundo da Folha de S.Paulo ocupa, em média, 7 páginas em cada edição diária A Folha é hoje o jornal brasileiro de maior tiragem e circulação entre os diários nacionais de interesse geral. Os números auditados pelo IVC (Instituto Verificador de Circulação) mostram uma média diária de 294 mil 498 exemplares. A Folha estabelece como premissa de sua linha editorial a busca por um jornalismo crítico, apartidário e pluralista. Essas características, que norteiam o trabalho dos profissionais do Grupo Folha, foram detalhadas a partir de 1981 em diferentes projetos editoriais. A editoria internacional da Folha tem um pauteiro, que pela manhã participa de uma reunião às 9h e depois outra ao meio-dia, em companhia do editor ou do editor-adjunto. O pauteiro reúne as sugestões dos correspondentes aos assuntos tratados pelas agências. Nas duas reuniões a Secretaria de Redação sugere enfoques, entrevistas, análises, etc. Por volta das 13h há uma reunião do editor, pauteiro, adjunto e mais os redatores. Os assuntos são distribuídos. Antigamente o redator era aquele que juntava o material das agências e redigia um texto. Hoje em dia o redator é também repórter, tem suas fontes. Dispara e-mails, dá telefonemas para centros de estudos nos Estados Unidos, no Oriente Médio, na Europa. Por 7 Projeto editorial da Folha de S.Paulo disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/institucional/conheca_a_folha.shtml>


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volta das 18h começa a ser fechada a Edição Nacional, ela fica pronta às 20h. Depois a equipe refaz e atualiza o que for necessário para a edição São Paulo/DF, que fecha às 22h. Depois disso, há sempre um redator que permanece de plantão até meia-noite, um pouquinho mais, atualizando o que for necessário, recebendo e diagramando material dos correspondentes que atualizem textos anteriores, etc. Em São Paulo há ao todo oito pessoas. E, no exterior, os bolsistas e correspondentes. Bolsistas são os jornalistas com menos de 30 anos que concorrem a uma bolsa de nove meses em determinado país. Eles crescem profissionalmente bastante durante esse curto período. Ocupam postos em Nova York, Madri, etc. Os correspondentes estão baseados hoje em Buenos Aires, Caracas, Washington, Londres, Pequim e Jerusalém. “A editoria internacional tem uma rotina diferente, as notícias simplesmente acontecem e o jornalista precisa correr contra o tempo para escrever os textos. é breaking news o tempo inteiro”. (RIGHETTI, 2011)8. Ao dividirmos a editoria internacional da Folha de S.Paulo por continentes, podemos perceber que do total das matérias publicadas no período analisado, pode-se dizer que 25% estão relacionadas ao continente africano, com enfoque nos conflitos na Líbia e nos ataques da ONU ao governo de Costa do Marfim. Outros 20% dos textos são sobre assuntos relacionados ao continente asiático, em especial a repercussão do tsunami no Japão e a visita da presidente Dilma à China. A América Latina, neste período, ocupou o terceiro maior espaço com 15% das matérias, a maioria delas sobre o desentendimento entre a imprensa e o governo Argentino e a eleição para presidente no Peru, mas há ainda notícias sobre Hugo Chaves da Venezuela, sobre Itaipu e as negociações entre Brasil e Paraguai, Uma pequena nota sobre o México e uma do Equador. Os EUA sozinhos ocuparam 13% das notícias publicadas. A Europa teve espaço de 12%. O Oriente Médio também teve destaque com 15%, a maioria delas sobre o conflito no Afeganistão e as revoltas na Síria.

8 Sabine Righetti, repórter da Folha de S.Paulo. Autora da maioria das matérias sobre o tsunami no Japão produzidas pela redação no Brasil. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011.


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O TSUNAMI

Um tsunami ou maremoto o é uma série de ondas de água causada pelo deslocamento de um grande volume de um corpo de água, como um oceano ou um grande lago. Tsunamis são frequentes no Oceano Pacífico. Devido aos imensos volumes de água e energia envolvidos, tsunamis podem devastar regiões costeiras. Terremotos, erupções vulcânicas, explosões submarinas e outros movimentos de massa têm o potencial para gerar um tsunami. O historiador grego Tucídides foi o primeiro a relacionar tsunami a terremotos submarinos, mas a compreensão da natureza do tsunami permaneceu escassa até o século XX e ainda é objeto de pesquisa. Muitos textos antigos geológicos, geográficos e oceanográficos referem-se a tsunamis como ondas sísmicas do mar. Tsunamis são muitas vezes referidos como ondas de maré. Nos últimos anos, este termo caiu em desuso, especialmente na comunidade científica, porque tsunamis realmente nada têm a ver com as marés. O termo outrora popular deriva de sua aparência mais comum, que é a de um macaréu extraordinariamente alto. Tsunamis e marés produzem ondas de água que se movem em terra, mas no caso do tsunami o movimento da água em terra é muito maior e dura por um longo período, dando a impressão de uma maré extremamente alta. Um tsunami pode ser gerado quando os limites de placas tectônicas convergentes ou destrutivas movem-se abruptamente e deslocam verticalmente a água sobrejacente. É muito improvável que esses movimentos podem formar-se em limites divergentes (construtivo) ou conservativos das placas tectônicas. Isso ocorre porque os limites construtivos ou conservadores em geral não perturbam o deslocamento vertical da coluna de água. Terremotos relacionados à zona de subducção geram a maioria dos tsunamis. Tsunamis têm uma pequena amplitude (altura da onda) em alto mar e um comprimento de onda muito longo (muitas vezes centenas de quilômetros de comprimento), sendo por isso que geralmente passam despercebidos no mar, formando apenas uma ligeira ondulação de normalmente cerca de 300 milímetros acima do normal na superfície do mar. Eles crescem em altura quando atingem águas mais rasas, em um processo de empolamento da onda. Um tsunami pode ocorrer em qualquer estado de maré e até mesmo na maré baixa ainda pode inundar áreas costeiras. Em 1950, foi colocada a hipótese de que tsunamis maiores do que anteriormente se acreditava possível podem ser causados por deslizamentos de terra, erupções vulcânicas


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explosivas e eventos de impacto quando em contato com a água. Esses fenômenos deslocam rapidamente grandes volumes de água, como a energia da queda de detritos ou expansão das transferências para a água a uma taxa mais rápida do que a água pode absorver. A mídia costuma chamar esses eventos de megatsunamis. Tsunamis causados por esses mecanismos, ao contrário do tsunami transoceânico, podem se dissipar rapidamente e raramente afetam costas distantes, devido à pequena área de mar afetada. Estes acontecimentos podem dar origem a ondas de choque locais muito maiores. No entanto, um deslizamento de terra muito grande pode gerar um megatsunami que pode percorrer distâncias transoceânicas, embora não haja evidências geológicas para apoiar esta hipótese. As ondas geradas por ventos corriqueiros e ondas de gravidade têm um comprimento de onda de cerca de 100 metros e uma altura de alguns centímetros. Entretanto, um tsunami em alto mar tem um comprimento de onda de cerca de 200 km. Essa onda pode viajar a mais de 800 km/h, mas devido ao seu grande comprimento de onda, seu período pode durar de 20 a 30 minutos, e a amplitude de onda pode não passar de um metro. Isso torna difícil a detecção de tsunamis em águas profundas. Navios raramente notam a sua passagem. À medida que o tsunami se aproxima da costa e as águas se tornam rasas, o empolamento da onda comprime a própria onda e sua velocidade diminui para menos de 80 km/h. Seu comprimento de onda diminui para menos de 20 km e sua amplitude cresce significativamente, produzindo uma onda claramente visível. Com o advento do tsunami sobre águas cada vez mais rasas, a velocidade da onda diminui gradativamente, podendo desacelerar para menos de 20 km/h. Seu comprimento de onda pode diminuir para apenas alguns metros e sua amplitude pode alcançar mais de 10 metros; a altura da onda pode variar dependendo da intensidade do tsunami e do relevo da plataforma continental. Exceto para os tsunamis muito grandes, a onda, ao se aproximar, não quebra, mas assemelha-se a um macaréu de grande velocidade. A variação da profundidade da plataforma continental pode alterar a altura da onda. Nas baías abertas e zonas costeiras adjacentes às águas profundas, onde há uma plataforma continental relativamente estreita, a altura do tsunami pode aumentar consideravelmente. O aumento do nível das águas causado pelo tsunami é medido em metros acima do nível do mar. Um grande tsunami pode apresentar uma sequência de várias ondas que chegam durante um período de minutos a horas, sendo que o tempo entre uma onda e outra pode variar significativamente. A primeira onda a chegar à praia pode não trazer um significativo


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aumento do nível das águas, pois esta perde energia ao encontrar com águas mais rasas. As ondas subsequentes são beneficiadas pelo aumento do nível do mar, podendo alcançar com mais impacto as regiões costeiras. Cerca de 80% dos tsunamis ocorrem no Oceano Pacífico.

O tsunami no Japão

No dia 11 de março de 2011, o nordeste do Japão foi atingido por um grande terremoto de magnitude de 9.0 graus na escala Richter. O terremoto ocorreu a uma profundidade de 24,4 quilômetros no fundo do mar. O tremor gerou fortes ondas conhecidas como tsunami. O evento ocorreu às 14h46min hora do Japão e teve o epicentro 130 km a leste de Sendai, no mar e ao longo da costa oriental na região de Tohoku, na ilha de Honshu e a 700 km da capital, Tóquio. Este foi o mais forte sismo a atingir o Japão nos últimos 140 anos. Depois do tremor inicial, várias cidades ao longo dos 2.100 quilômetros da costa leste japonesa receberam mais de 50 réplicas de tremores. Sendai foi a região mais atingida, tendo frota de carros e navios, casas e plantações levadas pelas ondas. O impacto das ondas sobre os objetos urbanos causou incêndios. Minutos depois, foram emitidos alertas de perigo em todo o oceano Pacífico, principalmente em países como Canadá, EUA e nas áreas do Havaí. Os fortes impactos e tremores moveram barcos de pescas para as áreas urbanas contra viadutos e casas. Veículos ficaram revirados, casas se desmancharam em meio das águas sobrecarregadas de entulhos que espalharam lama para todos os lados, a invasão do mar ocorreu também no aeroporto de Sendai. Foi uma tragédia atípica. Terremotos (escala Richter 9,0) seguidos por tsunamis (com ondas de 30 metros) não são nada comuns. Mas o que mais me impressionou foi a organização dos japoneses para sair da área afetada, para seguir o que as autoridades falavam e para fazer a vida voltar ao normal. Morreram cerca de 10 mil pessoas naquela tragédia e foi uma tragédia com proporções talvez nunca antes vistas. No Brasil, perdemos cerca de mil pessoas na serra do Rio de Janeiro, no começo do ano, "só" por causa de chuvas fortes. Se nós tivéssemos a organização japonesa para lidar com desastres naturais, como sistemas de alerta à população e população treinada para agir em situações de risco, talvez ninguém tivesse morrido por aqui. (RIGHETTI, 2011)9 9 Sabine Righetti, repórter da Folha de S.Paulo. Autora da maioria das matérias sobre o tsunami no Japão


33

A cada hora, o número de mortos aumentava, sendo estimado cerca de 10.000 mortos. Dentre as perdas materiais, o mais preocupante foi o incêndio ocorrido na usina nuclear de Onagawa, situada na região de Miyagi, o fogo se alastrou depois dos tremores sísmicos. Para diminuir a pressão interna dos reatores, o governo isolou a área e autorizou a emissão de vapor radioativo para evitar uma explosão atômica. Além de Onagawa, a usina nuclear de Fukushima e outras três centrais de energia atômica foram fechadas e isoladas. Cerca de 2.000 pessoas foram evacuadas da proximidade. A liberação de radioatividade pelas usinas provocou grande repercussão no mundo, que temeu uma nova Chernobyl. Segundo o enviado especial da Folha de S.Paulo, Fabiano Maisonnave (2011) 10, as cidades atingidas pelo tsunami pareciam fantasmas, “as ruas ficaram vazias porque o governo orientou a população a não deixarem suas casas, somente em caso de extrema necessidade, por causa da então incerteza das réplicas e pelo perigo de estarem expostos a radioatividade.” O que impressionou no Japão é que depois da tragédia, apesar do desabastecimento e da falta de itens básicos, não houve saques, violência ou descontentamento. As pessoas estavam mais preocupadas em limpar suas casas e ajudar os vizinhos do que desesperadas pela falta de água e alimentos. As pessoas são extremamente organizadas e pacíficas. (MAISONNAVE, 2011)11

produzidas pela redação no Brasil. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 10 Fabiano Maisonnave, correspondente da Folha de S.Paulo. Enviado especial para a cobertura do tsunami no Japão. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 11 Fabiano Maisonnave, correspondente da Folha de S.Paulo. Enviado especial para a cobertura do tsunami no Japão. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011.


34

A COBERTURA DA FOLHA DE S. PAULO NO CASO TSUNAMI NO JAPÃO

Com base no resultado da análise das notícias veiculadas pelo caderno “Mundo” do jornal Folha de S.Paulo durante 31 dias, de 12 de março a 11 de abril de 2011, aqui discorreremos sobre o meio predominante na cobertura internacional, feita pelo veículo, no caso tsunami no Japão. Para maior clareza na exposição das informações, utilizaremos tabelas, gráficos e dados com o resultado da pesquisa12. A Folha de S.Paulo dedica amplo espaço ao caderno internacional intitulado “Mundo”. Inclusive foi criado um espaço exclusivo para o caso tsunami no Japão, nomeado como “Tragédia no Japão”.

“Episódios como o tsunami no Japão são fatos altamente

mobilizadores. Exigem a participação de uma parcela imensa da equipe, todos os redatores participam da cobertura. Um fato maior exige mobilização maior. E é para ele que seguirá o grosso do espaço da editoria” (NATALI, 2011)13. As coberturas especiais são bem diferentes das tradicionais. Na maioria das vezes, cria-se uma equipe exclusiva para cuidar do assunto (desastre natural, crise econômica e por aí vai), as pessoas saem de suas editorias para formar uma nova equipe. E o trabalho costuma aumentar bastante. No caso de fukushimna, fui deslocada de “Ciência” para "Mundo", contei com alguns repórteres da "Agência Folha" me ajudando na cobertura, acabei produzindo dois vídeos para tv folha e participei de um chat com leitores. Também fiz dois plantões de final de semana seguidos. É um trabalho non stop. Mas vale muito a pena: isso é viver, de fato, o jornalismo. (RIGHETTI, 2011)14

Mas apesar de todo esse destaque, pôde-se constatar que a cobertura internacional é feita em sua maior parte a “toque de caixa” como afirma Natali: “As empresas de mídia enfrentam problemas financeiros. Estão excessivamente endividadas. O problema é crônico. Há com isso uma tendência ao corte de despesas. É previsível que nenhuma dessas empresas se disponha a enviar ao exterior uma equipe de correspondentes” (NATALI, 2004, p. 56). Com isso falta à notícia um maior grau de qualidade em termos de informação 12 No apêndice gráfico 1 com a divisão dos meios utilizados, pela Folha de S.Paulo, para a cobertura do caso tsunami no Japão 13 João Batista Natali, jornalista e consultor da Folha de S.Paulo. Autor de textos analíticos e opinativos sobre o tsunami no Japão. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 14 Sabine Righetti, repórter da Folha de S.Paulo. Autora da maioria das matérias sobre o tsunami no Japão produzidas pela redação no Brasil. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011.


35

contextualizada. A utilização de conteúdos repassados por agências de notícias, colaboradores, funcionários de outros veículos, que fazem com muita boa vontade uma espécie de freelancer e, a cópia de matérias feitas por jornais estrangeiros é o modo que predomina na cobertura internacional. Tal rotina produtiva responde por mais de 60% do conteúdo publicado. Poderíamos pensar que o que importa é informar, de qualquer maneira a notícia da agência é sobre o fato, mas devemos lembrar que noticiar não é apenas narrar. “Na pressa de elaborar a matéria, a sacrificada equipe da agência é frequentemente acusada de dar muita importância ao último fato acontecido, quando não é realmente importante. Ou é acusada do crime pavoroso de glorificar o trivial.” (SOARES, 2007, p.5). Por isso a importância do repórter in loco. O trabalho dele tem muitas qualidades como diferencial, exclusividade, contextualização e humanização. “A notícia jornalística é uma elaboração da realidade do ponto de vista do repórter, ele seleciona os aspectos da notícia que por ele são percebidos.” (BORDENAVE, 1991, p. 23). Podemos dizer que os correspondentes internacionais estão cada vez mais raros no mercado jornalístico brasileiro. Segundo a FENAJ, para minimizar custos, as empresas têm enxugado o número de profissionais que chega a ser de 20% a 40% menor do que existia cinco anos atrás. Além da redução da oferta de vagas de trabalho para jornalistas especializados em

internacional, fica evidente que a função dos profissionais que passam horas na redação sofre uma grave distorção, afinal fazer jornalismo é pautar, levantar dados, selecionar fontes, entrevistar, construir o texto e não apenas traduzir e reescrever com base no número de caracteres suficientes para o espaço reservado na página do jornal. Porém, para o jornalista, especializado em internacional, João Batista Natali (2011), o correspondente ou enviado especial não são uma espécie em extinção. A questão é que hoje, por meio da internet, é mais fácil, a partir de São Paulo ou outra cidade brasileira, contatar fontes de outros lugares do mundo. A editoria internacional é uma das mais importantes para um jornal. “Ela continuará a ser importante, e crescerá na proporção direta do crescimento do interesse da classe média brasileira por assuntos que ocorram no exterior” (NATALI, 2011)15. O trabalho das agências não pode ser desconsiderado ou menosprezado, apenas é preciso saber quando e onde utilizá-lo. Elas podem ser muito bem aceitas como fonte primária. Servem também como complemento as notícias apuradas pelos profissionais, e em casos de menor repercussão podem ser utilizados como fonte principal, mas não em situações de extrema relevância jornalística como um desastre natural, que causa milhares de mortes e 15 João Batista Natali, jornalista e consultor da Folha de S.Paulo. Autor de textos analíticos e opinativos sobre o tsunami no Japão. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011.


36

traz desdobramentos políticos, econômicos e sociais que afetam toda uma população. Nesses casos a presença de um repórter do jornal é essencial. A Folha enviou ao Japão seu correspondente na China, Fabiano Maisonnave, que garantiu bom conteúdo, ele fez um trabalho focado no seu país de origem. Assim como deve ser e conta Moises Rabinovici (2007)16: É muito difícil você pôr uma agência atrás de um brasileiro, ou contratar um jornalista local para fazer uma matéria sobre o brasileiro morto, o enterro do brasileiro, ou o brasileiro ferido, a família chegando pra vê-lo; eles não fazem isso. Então você tem que ter um brasileiro que vá ao hospital, que vá ao hotel da família e mande tudo isso a noite para o seu jornal, aí o correspondente tem valor. (SOARES, 2007, p. 6)

Outro dado importante é sobre as fotos publicadas, praticamente todas são imagens clicadas por fotógrafos de agências17. Com exceção de 4 fotos feitas pelo enviado especial 18. Fotografar é algo subjetivo, o ângulo que você enxerga não é o mesmo que eu enxergo então, a foto enviada pela agência, a mesma para todos os assinantes, mostra apenas a visão daquele fotógrafo estrangeiro, que possivelmente pela cultura e visão de mundo clicou uma situação que poderia ter sido clicada de outra forma por um fotógrafo brasileiro. Sem contar que a mesma imagem se replica por vários jornais, como se aquela fosse a única visão do ocorrido. Por outro lado há um trabalho bastante interessante da equipe de designers dos jornais. Todos os infográficos, que são importantes para explicar o fato e suas implicações e são complementos aos textos e fotos, são desenvolvidos pelos profissionais da Folha. Isso demonstra que enquanto para os jornalistas o mercado está restrito, para os designers existe um espaço em expansão19. Quanto às colunas de opinião e análise, algo curioso foi percebido. Os colunistas da Folha de S.Paulo quase ignoraram o assunto. Houve 4 momentos em que profissionais brasileiros comentaram o ocorrido. Helio Schwartsman, João Batista Natali, José Goldemberg e Leonam dos Santos Guimarães foram os autores das análises 20. Ao longo dos 31 dias, os especialistas brasileiros preferiram discorrer sobre os conflitos na Líbia e Bahrein, que também são fatos importantes, mas o grave acidente natural e seus desdobramentos mereceriam maiores apontamentos. Por outro lado em 5 momentos, as análises e comentários 16 17 18 19 20

Moisés Rabinovici, jornalista. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. Em anexo fotos 1 e 2 disponibilizadas por agência de notícias. Em anexo foto 3 clicada pelo enviado especial Fabiano Maisonnave. Em anexo infográfico 1 desenvolvido pela equipe da Folha de S.Paulo. Em anexo um dos textos de opinião e análise feito por especialista brasileiro.


37

foram feitos por colunistas e especialistas de outros países, análises publicadas em outros jornais do Mundo como New York Times e Guardian21. A Folha compra esse conteúdo, traduz e publica na íntegra. No Brasil temos especialistas que poderiam muito bem tratar do assunto com muita propriedade e muita proximidade com o público brasileiro, mas o jornal opta por priorizar a compra de conteúdo externo. Segundo João Batista Natali (2011), isso acontece porque nem sempre os profissionais brasileiros têm contato com fontes que possam abastecer apropriadamente de informações um determinado assunto. Mas as análises e comentários são também feitos por aqui, não necessariamente no caso do Japão, por pessoas com experiência internacional como Clóvis Rossi, Cláudia Antunes, Patrícia de Melo, entre outros. Manter uma equipe de correspondentes em vários países realmente demandaria um alto investimento, afinal a empresa é quem arca com todo o custo de vida do profissional. Mas em casos especiais como tragédias naturais, que não acontecem todo dia e em todos os lugares mereceria uma atenção mais especial dos jornais. Afinal eles precisariam enviar uma equipe reduzida e que ficaria por tempo determinado. Em compensação o material produzido seria de melhor qualidade e muito mais atrativo para o leitor que compra ou assina o jornal. Apesar de tudo, o que realmente não pode faltar em coberturas internacionais é o conhecimento histórico de quem produz o material, independente de ser agência, correspondente, enviado ou redação. Não é possível escrever uma única linha sobre o Japão sem saber da história do país, os acontecimentos anteriores, como as bombas atômicas na 2º Guerra Mundial e mesmo a tecnologia do país no combate e prevenção a acidentes naturais, a cultura do povo, a política e economia da nação. “No mundo ideal, os veículos de comunicação teriam muitos correspondentes em vários lugares do mundo. Mas isso é muito caro e inviável. A Folha nunca teve tantos correspondentes fixos como hoje, e também trabalha com freelas. Mas o material de agências acaba sendo essencial”. (RIGHETTI, 2011)22 O caderno Mundo da Folha de S.Paulo ocupa, em média, 7 páginas em cada edição diária23. No período pesquisado, de 12 de março a 11 de abril, o assunto Tsunami no Japão ocupou, em média, 4 páginas em cada edição. Ao todo foram 38 páginas dedicadas à cobertura do caso, em um total de 275 da editoria 24. O dia em que o assunto teve mais destaque foi na terça-feira dia 15, quando 6 páginas foram utilizadas para cobrir o desastre natural. A Folha criou um espaço intitulado “Tragédia no Japão” exclusivo ao tema25. 21 Em anexo texto 2 de análise e opinião comprado de outros jornais do mundo. 22 Sabine Righetti, repórter da Folha de S.Paulo. Autora da maioria das matérias sobre o tsunami no Japão produzidas pela redação no Brasil. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 23 Em anexo capa do caderno “Mundo”. 24 No apêndice gráfico 5 sobre a distribuição das matérias no caderno “Mundo”. 25 Em anexo o título Tragédia no Japão.


38

Tabela 1 - Páginas da editoria internacional dedicadas ao caso tsunami no Japão26

Dias

Japão

Sábado (12-03-11)

5 páginas de um total de 7

Domingo (13-0311)

5 páginas de um total de 7

Segunda (14-03-11)

5 páginas de um total de 9

Terça (15-03-11)

6 páginas de um total de 8

Quarta (16-03-11)

4 páginas de um total de 6

Quinta (17-03-11)

5 páginas de um total de 7

Sexta (18-03-11)

3 páginas de um total de 7

Sábado (19-03-11)

2 páginas de um total de 7

Domingo (20-03-11)

3 páginas de um total de 8

Segunda (21-03-11)

1 página de um total de 5

Terça (22-03-11)

1 página de um total de 8

Quarta (23-03-11)

1 páginas de um total de 9

Quinta (24-03-11)

1 página de um total de 11

Sexta (25-03-11)

1 página de um total de 7

Sábado (26-03-11)

1 página de um total de 11

Domingo (27-03-11)

1 página de um total de 9

Segunda (28-03-11)

1 página de um total de 6

Terça (29-03-11)

½ página de um total de 7

Quarta (30-03-11)

¼ de página de um total de 7

Quinta (31-03-11)

½ página de um total de 12

Sexta (01-04-11)

½ página de um total de 7

Sábado (02-04-11)

½ página de um total de 11

Domingo (03-04-11)

¼ de página de um total de 13

Segunda (04-04-11)

¼ de página de um total de 5

Terça (05-04-11)

½ página de um total de 5

Quarta (06-04-11)

½ página de um total de 5

Quinta (07-04-11)

¼ de página de um total de 7

Sexta (08-04-11)

½ página de um total de 6

Sábado (09-04-11)

Não há menção do caso

26 Tabela 1 – Número de páginas dedicadas, pelo caderno “Mundo” da Folha de S.Paulo, à cobertura do caso tsunami no Japão, de 12 de março a 11 de abril de 2011.


39

Domingo (10-04-11)

Não há menção do caso

Segunda (11-04-11)

Não há menção do caso

As notícias analisadas foram separadas em 6 categorias segundo sua autoria: feita por correspondentes C, pela redação R (redação com agências internacionais e/ou jornais internacionais e fontes nacionais), por agências internacionais A, por colaboradores CL, por enviados especiais E, por outros jornais OJ (matérias de jornais internacionais traduzidas e utilizados na íntegra) e colunas de opinião O.

Tabela 2 - Distribuição das matérias nos dias analisados27

Dia da semana

C

R

A

E

CL

O

OJ

Total

1

6

1

1

3

1

1

14

Domingo (13-0311)

7

2

2

2

13

Segunda (14-03-11)

2

1

4

2

1

1

11

1

1

11

1

10

1

12

Sábado (12-03-11)

Terça (15-03-11)

1

3

2

3

Quarta (16-03-11)

1

4

3

1

Quinta (17-03-11)

1

4

4

1

Sexta (18-03-11)

1

2

3

1

7

Sábado (19-03-11)

3

1

2

6

Domingo (20-03-11)

1

2

Segunda (21-03-11)

1

1

2 1

4 1

1

3

Terça (22-03-11)

1

Quarta (23-03-11)

1

Quinta (24-03-11)

1

1

Sexta (25-03-11)

3

3

Sábado (26-03-11)

1

1

3 1

3

1

1

3

Domingo (27-03-11)

2

1

3

Segunda (28-03-11)

3

3

Terça (29-03-11)

1

1

27 Tabela 2 – Distribuição das matérias por origem e meios utilizados para a cobertura do caso tsunami no Japão, pelo caderno “Mundo” da Folha de S.Paulo, de 12 de março a 11 de abril.


40

Quarta (30-03-11)

1

Quinta (31-03-11)

1 1

1

Sexta (01-04-11)

1

1

Sábado (02-04-11)

1

1

Domingo (03-04-11)

1

1

Segunda (04-04-11)

1

1

Terça (05-04-11)

1

1

Quarta (06-04-11)

1

1

Quinta (07-04-11)

1

1

Sexta (08-04-11)

1

1

Sábado (09-04-11)

0

Domingo (10-04-11)

0

Segunda (11-04-11)

0

TOTAL

5

43

31

21

7

9

5

121

Nos 31 dias analisados pode-se constatar que o caso tsunami no Japão ocupou grande parte do caderno “Mundo”28, em especial dos dias 12 a 17 de março, quando o Japão foi o maior destaque, já dos dias 18 de março a 11 de abril, o caso dos conflitos na Líbia e a intervenção da ONU na Costa do Marfim passou a ocupar o maior espaço. A tragédia natural, terremoto seguido de tsunami, a devastação causada nas cidades, os mortos e feridos tiveram destaque, mas perdeu espaço quando a notícia do vazamento de radioatividade nas usinas nucleares ganhou maior espaço. Nos primeiros dois dias o terremoto e o tsunami foram priorizados. Quando a questão nuclear subiu para o primeiro plano ela deixou de ser apenas japonesa. Não se sabia o tamanho da catástrofe. “A mídia já está vacinada com Three Mille Island e Chermobil. E o Japão ainda mais com Hiroxima, etc. A gravidade da situação fez com que a imprensa mundial se mobilizasse com o assunto. É preciso pensar no pior, ficar muito atento” (RIGHETTI, 2011)29. Outro dado interessante é que as notícias do Japão ocuparam a capa30 do jornal, com a manchete principal e foto, em 11 dos 31 dias de análise 31. O caso tsunami no Japão e seus desdobramentos foi assunto abordado pelos colunistas de opinião em 9 dos dias analisados. 28 No apêndice gráfico 7 sobre o destaque do caso tsunami no Japão na capa do caderno “Mundo”. 29 Sabine Righetti, repórter da Folha de S.Paulo. Autora da maioria das matérias sobre o tsunami no Japão produzidas pela redação no Brasil. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 30 Em anexo capa do jornal Folha de S.Paulo quando o tsunami no Japão foi o maior destaque. 31 No apêndice gráfico 6 sobre o destaque do caso tsunami no Japão na capa do jornal Folha de S.Paulo.


41

Ao analisarmos, na Folha de S.Paulo, as formas de produção separadamente, percebese que a maioria das matérias (43)32 são produzidas pelos repórteres e editores de internacional em São Paulo e espalhados pelo Brasil, 35,5% dos textos são provenientes da redação brasileira que de seus computadores ou via telefone recebem as informações de agências e outros jornais do mundo, contextualizam o fato, entrevistam fontes brasileiras e constroem um texto que tem a cara do jornal e que atende ao público leitor 33. “As matérias de repórteres da casa podem ser melhores porque o repórter conhece o veículo, o leitor, o padrão de texto, as prioridades do jornal. E o texto fica exclusivo. quando o material é de agência, muitos veículos acabam publicando quase a mesma informação, porque recebem a mesma informação”. (RIGHETTI, 2011)34 Para o jornalista e consultor da Folha de S.Paulo, João Batista Natali, produzir parte do material internacional no Brasil não é uma deficiência: Creio que a Folha foi bem com relação a esse caso, inclusive com a presença de um enviado especial (deslocamento do correspondente em Pequim). O fato de se produzir parte do material no Brasil não é uma deficiência. Há inúmeros especialistas na área acadêmica em geologia, em sismologia, etc. Essas pessoas têm informações altamente qualificadas. O erro seria desprezá-las e se limitar às informações das agências, que, por sua vez, também foram bem na cobertura. Embora, no caso do vazamento de material radioativo, tenham demorado para fornecer um quadro sobre o perigo da situação. Prevaleceu de início o preconceito positivo que cerca o Japão. (NATALI, 2011)35

Já 3136 matérias são de conteúdo recebido exclusivamente das agências de notícias, o que representa 25,5% do total. Ou seja, a redação recebe traduz e publica na integra o material enviado pelas agências, vale mencionar aqui que muitas vezes os editores misturam o conteúdo de várias agências para construir um único texto. Isso ajuda a diferenciar o texto dos demais jornais que receberam o mesmo material das mesmas agências 37. Ao levar em conta que a redação no Brasil utiliza as informações de agências e fontes locais para produzir o 32 Vide tabela com base em levantamento feito no carderno “Mundo” da Folha de S.Paulo de 12 de março a 11 de abril de 2011. 33 Em anexo texto 3 produzido pela redação no Brasil. 34 Sabine Righetti, repórter da Folha de S.Paulo. Autora da maioria das matérias sobre o tsunami no Japão produzidas pela redação no Brasil. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 35 João Batista Natali, jornalista e consultor da Folha de S.Paulo. Autor de textos analíticos e opinativos sobre o tsunami no Japão. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 36 Vide tabela com base em levantamento feito no carderno “Mundo” da Folha de S.Paulo de 12 de março a 11 de abril de 2011. 37 Em anexo texto 4 produzido por agências de notícias.


42

texto, pode-se dizer que as agências de notícias colaboram com 61% do total do conteúdo dos textos sobre o tsunami no Japão, do caderno “Mundo”. Ainda segundo Natali (2011), é natural que as agências ocupem grande parte da editoria internacional. E isso acontece com todos os jornais do Mundo. Nem o Guardian, nem o New York Times publicaram exclusivamente material dos enviados especiais. Eles não dispensam as agências. E todos eles buscaram informações junto a especialistas locais. As agências não se contentaram em cobrir o episódio a partir de Tóquio, onde estão localizados os seus escritórios japoneses. As equipes receberam imensos reforços. Elas trabalharam com enviados especiais que produziam pautas muito diversificadas. Fizeram um bom trabalho. Não há desonra em trabalhar com o material das agências, cujas assinaturas, aliás, custam uma fortuna por mês. (NATALI, 2011)38

Mas qual a diferença entre um texto produzido pelo correspondente ou enviado e a agência de notícias? Natali (2011) afirma que, nesse caso da tragédia no Japão, o enviado especial, Fabiano Maisonnave, procurou, entre outras coisas, saber se entre as vítimas havia brasileiros ou se existiam empresas brasileiras que tiveram instalações destruídas ou danificadas. Esse trabalho a agência não faz. Mas o correspondente e o enviado especial são tão competentes quanto os repórteres das agências para apurar e redigir reportagens sobre informações que podem ser chamadas de "commodities", ou seja, que estejam disponíveis para todos. No caso, entrevistas com sobreviventes, com os responsáveis pela empresa proprietária dos reatores, com as autoridades regionais e locais. Em seguida, o modo mais utilizado na cobertura internacional do caso tsunami no Japão pela Folha de S.Paulo é o enviado especial. No caso, Fabiano Maisonnave, que foi deslocado de Pequim, na China, para cobrir o caso. Os textos enviados por ele são no total 21 39

, o que representa 17,5% das matérias. Em casos como este, é comum o jornal deslocar um

repórter experiente, que esteja em outro país como correspondente, ou mesmo que atue na redação no Brasil, para cobrir um fato de tamanha importância e repercussão no mundo. Ele vai poder oferecer ao veículo conteúdo exclusivo e contextualizado40. O enviado especial tem o mesmo papel que o correspondente, mas é algo emergencial. 38 João Batista Natali, jornalista e consultor da Folha de S.Paulo. Autor de textos analíticos e opinativos sobre o tsunami no Japão. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 39 Vide tabela com base em levantamento feito no carderno “Mundo” da Folha de S.Paulo de 12 de março a 11 de abril de 2011. 40 Em anexo texto 5 produzido pelo enviado especial Fabiano Maisonnave.


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Ele tem data certa de chegada e data certa de saída. Não conseguirá captar toda a complexidade da burocracia estatal com a qual estará lidando. Mas saberá, mesmo assim, umas três ou quatro vezes mais do que poderá, mesmo em textos grandes, informar seu leitor. (NATALI, 2011)41

A Folha tinha um enviado especial no Japão, o Fabiano Maisonnave, que é correspondente em Pequim e foi enviado para lá por causa do tsunami. Ele conseguia conversar com as famílias japonesas e coletar informações mais voltadas para o dia a dia no Japão depois do tsunami. Da redação, pude fazer um trabalho mais técnico, a partir de informações das agências de notícias, do governo do Japão, da Agência Internacional de Energia Atômica e de outras fontes. Por exemplo, se o prédio de um reator explodia, eu analisava daqui o que estava acontecendo, falava com físicos, levantava possibilidades. Também conseguia estudar o que estava acontecendo para pensar em pautas. Sabia, por exemplo, que neve ou chuva piorariam a situação no Japão porque fariam com que as partículas radioativas caíssem no solo. Então, um dia resolvi consultar a previsão do tempo, vi que nevaria no dia seguinte e fiz uma matéria. Esse é apenas um exemplo do que dá para fazer de longe numa cobertura técnica internacional. (RIGHETTI, 2011)42

Durante a cobertura do caso tsunami no Japão, o enviado especial Fabiano Maisonnave, conta que a maior preocupação da Folha foi resguardar a saúde dos profissionais da equipe que corriam risco ao se exporem a radiação, Nós faziamos testes períodicos para medir o nível de radioatividade no corpo, em centros montados pelo governos em diversos pontos do país. Mas em nenhum momento foi detectado traços de radiação na equipe. E o mesmo acontecia com a população que morava perto dos locais atingidos. (MAISONNAVE, 2011)43

Outros meios menos utilizados são os colaboradores com 7 textos, o que representa 5,5% do total. Os colaboradores são repórteres de jornais locais, ou até mesmo jornalistas brasileiros residentes no Japão e contratados como freelancers44. Os textos provenientes de

41 João Batista Natali, jornalista e consultor da Folha de S.Paulo. Autor de textos analíticos e opinativos sobre o tsunami no Japão. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 42 Sabine Righetti, repórter da Folha de S.Paulo. Autora da maioria das matérias sobre o tsunami no Japão produzidas pela redação no Brasil. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 43 Fabiano Maisonnave, correspondente da Folha de S.Paulo. Enviado especial para a cobertura do tsunami no Japão. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 44 Em anexo texto 6 produzido por colaboradores.


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outros jornais internacionais como Guardian e New York Times45 também compõem o caderno Mundo e são no total 546 o que corresponde a 4,5%. Os correspondentes também ocupam o mesmo espaço com 5 textos. 4,5% das matérias são feitas por eles 47. Em geral os correspondentes só cobrem eventos do tipo, quando estes acontecem no país onde ele reside. O que é comum de acontecer e aconteceu no caso do tsunami no Japão, é o correspondente de outro país repercutir o caso48. Exemplo: o correspondente de Nova York aborda o assunto sobre o prisma do governo americano, a ajuda humanitária que o país pode oferecer aos parentes das vítimas, entre outras situações. O correspondente é capaz de fornecer um olhar diferenciado que as agências ou a compra de material de outros jornais estrangeiros não fornecem. Entenda por olhar diferenciado algo que leve em conta o "estoque" de parâmetros essencialmente brasileiros: cultura, economia, problemas sociais, etc. O correspondente pode ter um olhar sempre comparativo, e utilizar as comparações - mesmo implicitamente - no momento de coletar e redigir seu material. Ele tem uma maneira diferenciada. Ele pode também saber quais os temas que estão na agenda política, econômica e social do Brasil, direcionando as pautas para enriquecer essa agenda com exemplos externos. (NATALI, 2011)49

No caso das fotos e infográficos ocorre um fato interessante. A maior parte das 69 fotos publicadas nos dias analisados são provenientes de agências de notícias (Reuters, France Presse, Associated Press e EFE)50. Mas do total, 4 fotos foram clicadas pelo enviado especial da Folha, 1 é de arquivo pessoal, 1 de divulgação e 3 de colaboradores 51. Já os 26 infográficos publicados nos 31 dias são todos desenvolvidos pela equipe da Folha de S.Paulo com base em informações de institutos nacionais e internacionais52.

45 Em anexo textos 7 produzidos por outros jornais do Mundo, traduzidos e publicados na íntegra. 46 Vide tabela com base em levantamento feito no caderno “Mundo” da Folha de S.Paulo de 12 de março a 11 de abril de 2011. 47 Vide tabela com base em levantamento feito no caderno “Mundo” da Folha de S.Paulo de 12 de março a 11 de abril de 2011. 48 Em anexo texto 8 produzido por correspondente. 49 João Batista Natali, jornalista e consultor da Folha de S.Paulo. Autor de textos analíticos e opinativos sobre o tsunami no Japão. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. 50 No apêndice gráficos 2 e 3 com a divisão da origem das fotos. 51 Em anexo foto cedida por colaborador. 52 No apêndice gráfico 4 sobre a origem dos infográficos.


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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Percebe-se, mais especificamente no contexto brasileiro, a desvalorização da editoria internacional. Apesar do número de páginas a ela dedicado não ser insuficiente, a forma de produção do conteúdo deixa a desejar. Os jornalistas da área praticamente atuam como editores de matérias enviadas por agências de notícias e publicadas em jornais estrangeiros. Eles selecionam, traduzem e alteram minimamente os textos enviados por essas empresas. De certa forma, pode-se dizer que o jornalista perde sua função. Ele não apura mais o fato, não faz entrevistas, não vai ao local. É inegável o empobrecimento acarretado ao noticiário por essa “ausência” do profissional e da essência do jornalismo. Afinal, basicamente qual é o processo de confecção da notícia: pauta, fontes, entrevistas, redação, edição e publicação. Além disso, corre-se um risco real na medida em que as informações venham padronizadas ou mesmo que defendam interesses ou pontos de vista de quem elabora as matérias. Verifica-se também a predominância das agências no mercado internacional de notícias e algumas razões disso, sendo a principal delas os baixos custos. Não há como negar que os jornais, emissoras de rádio e de televisão não têm como manter jornalistas em diversos países fazendo cobertura, contudo não podemos deixar de compreender as implicações disso: a desvalorização do profissional, a homogeneização do noticiário e a consequente diminuição da visão crítica da sociedade sobre o mundo. Quanto ao papel do correspondente na editoria de internacional, pode-se começar explicitando um dado numérico muito expressivo levantado durante a execução da pesquisa. A participação desse profissional na cobertura do caso tsunami no Japão, no jornal diário Folha de S.Paulo é muito pequena, 4,5%, e estes profissionais se quer estavam no local do acidente. Eram correspondentes baseados na Europa e nos Estado Unidos, repercutindo o caso. Enquanto isso, as notícias exclusivas de agências ocupam 25,5% do mesmo noticiário; se contarmos o “mix” de matérias feitas a partir de informações de agências mais a repercussão junto a fontes nacionais elaboradas pela redação no Brasil, esse número aumenta significativamente para 61% do caderno. Mas nesse caso em específico não se pode deixar de falar do enviado especial. A Folha não possui um correspondente no Japão, mas para cobrir o caso, deslocou o correspondente da China, Fabiano Maisonnave, que se tornou o enviado especial no caso e foi


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o responsável por 17,5% das matérias. Apesar da acanhada participação dos correspondente e mesmo do enviado especial, pudemos constatar ao longo da pesquisa que esses jornalistas ainda têm uma função essencial dentro da imprensa. Seu papel consiste na apresentação de um olhar brasileiro dos acontecimentos no exterior, ou seja, na busca do atendimento dos anseios específicos de sua audiência nacional. Fugindo do factual, o correspondente proporciona ao público uma informação contextualizada, de maior qualidade. No entanto, é interessante perceber que esse olhar estará sempre limitado à formação pessoal e de classe do profissional e à linha editorial do seu veículo de trabalho. A escolha do tema; a busca de uma relação entre o contexto brasileiro e o assunto tratado; e o olhar mais crítico, mesmo que implícito e inconsciente do jornalista sediado no exterior são diferenciais qualitativos para qualquer veículo de comunicação. Impossibilitadas de abrir mão das agências e incapazes de manter uma rede numerosa de profissionais sediados no exterior, as empresas de comunicação nacionais se veem em um impasse entre qualidade e custo. Não se trata de uma questão simples de ser resolvida, ainda mais no atual mundo globalizado. Por isso, o momento talvez seja de busca de alternativas econômicas para obter um noticiário internacional mais contextualizado e direcionado ao publico brasileiro.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LIVROS

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49

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ENTREVISTAS

D'AVILA, Sérgio. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. JUNIOR, Reali. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. KOVALICK, Roberto. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. NATALI, João Batista. Entevista concedida à Neuber Fischer em 2011. MAISONNAVE, Fabiano. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011. PALÁCIOS, Ariel. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. RABINOVICI, Moisés. Entrevista concedida à Maíra Soares em 2007. RIGHETTI, Sabine. Entrevista concedida à Neuber Fischer em 2011.


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APÊNDICE

Gráfico 1

Cobertura Caderno Mundo - Tsunami no Japão - Matérias

Agências de Notícias Redação Correspondentes Enviados Especiais Colaboradores Opinião

Ilustração 1: Os meios utilizados pela Folha de S.Paulo para a cobertura jornalística internacional do caso tsunami no Japão


52

Gráfico 2

Cobertura Caderno Mundo - Tsunami no Japão - Fotos

Folhapress Arquivo Pessoal Divulgação Colaborador Agências

Ilustração 2: A origem das fotos na cobertura internacional feita pela Folha de S.Paulo no caso tsunami no Japão


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Gráfico 3

Cobertura Caderno Mundo - Tsunami no Japão - Fotos - Agências

Reuters Associated Press France Press EFE

Ilustração 3: As agências que mais forneceram fotos para a Folha de S.Paulo na cobertura do caso tsunami no Japão


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Gráfico 4

Cobertura Caderno Mundo - Tsunami no Japão - Infográficos

Folhapress

Ilustração 4: A produção de infográficos é totalmente feita pela equipe da Folhapress


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Gráfico 5

Cobertura Caderno Mundo - Tsunami no Japão - Páginas

Caderno Mundo Tragédia no Japão

Ilustração 5: O espaço dado pela Folha de S.Paulo à cobertura do caso tsunami no Japão


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Gráfico 6

Cobertura Caderno Mundo - Tsunami no Japão - Capa Folha de S.Paulo

Foi destaque principal Foi destaque secundário Não foi destaque

Ilustração 6: O espaço dado ao caso tsunami no Japão na capa da Folha de S.Paulo


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Gráfico 7

Cobertura Caderno Mundo - Tsunami no Japão - Capa Mundo

Foi destaque Não foi destaque

Ilustração 7: O espaço dado ao caso tsunami no Japão na capa do caderno "Mundo"


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ANEXOS

Foto 1

Ilustração 8: Foto da agência Associated Press.

Foto 2

Ilustração 9: Foto da agência Associated Press.


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Foto 3

Ilustração 10: Foto disponibilizada pelo enviado especial Fabiano Maisonnave.

Foto 4

Ilustração 11: Foto disponibilizada pelo colaborador Aiuri Rebello


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Infográfico 1

Ilustração 12: Infográfico produzido pela equipe de designers da Folhapress.


61

Texto 1

Ilustração 13: Texto de análise produzido pelo consultor da Folha de S.Paulo João Batista Natali


62

Texto 2

Ilustração 14: Texto de análise do jornal inglês Guardian.

Texto 3

Ilustração 15: Texto produzido pela redação no Brasil.


63

Texto 4

Ilustração 16: Texto produzido por agências de notícias.

Texto 5

Ilustração 17: Texto produzido pelo enviado especial Fabiano Maisonnave.


64

Texto 6

Ilustração 18: Texto produzido por colaborador.

Texto 7

Ilustração 19: Texto produzido pelo jornal Guardian.


65

Texto 8

Ilustração 20: Texto produzido pelo correspondente em Londres.


66

Capa “Mundo”

Ilustração 21: Destaque na capa da editoria internacional para o caso tsunami no Japão


67

Título Especial

Ilustração 22: Título criado especialmente para a cobertura do caso tsunami no Japão


68

Capa Folha

Ilustração 23: Destaque na capa da Folha de S.Paulo para o caso tsunami no Japão

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O MEIO MAIS UTILIZADO PARA A COBERTURA JORNALÍSTICA INTERNACIONAL DO CASO TSUNAMI NO JAPÃO  

Os modos de produção do noticiário internacional brasileiro e sua configuração no mercado de comunicação atual são o alvo dessa monografia....

O MEIO MAIS UTILIZADO PARA A COBERTURA JORNALÍSTICA INTERNACIONAL DO CASO TSUNAMI NO JAPÃO  

Os modos de produção do noticiário internacional brasileiro e sua configuração no mercado de comunicação atual são o alvo dessa monografia....

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