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Isabela Crestan

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Sob o olhar grego


Copyright ©2016 Isabela Crestan. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, mesmo que parcial, por qualquer meio e processo, sem a prévia autorização escrita do autor. Editor: Neto Bach Editoração: Alternativa Books Revisão: Alternativa Books Capa: Neto Bach Imagem: Freepik Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) _________________________________________________________________________ Crestan, Isabela Sob o olhar grego / Isabela Crestan. -- São Paulo : Alternativa Books, 2016. ISBN: 978-85-68125-08-3

1. Ficção brasileira I. Título. II. III. Série

16-08539 CDD – 869.3 _________________________________________________________________________ Índice para catálogo sistemático:

1. Ficção : Literatura brasileira

869.3

Impresso no Brasil em dezembro de 2016 Nenhuma similaridade entre nomes, personagens, pessoas e/ou instituições presentes nesta publicação são intencionais. Qualquer semelhança que possa existir é mera coincidência.

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Dedicatória Para os meus queridos pais e amigos. E todos que de certa forma contribuiram para a realização deste sonho.


Prólogo

O inverno naquele ano estava forte, bem forte para os padrões latino-americanos. O vento percorria as ruas beijando agressivamente as pessoas. Naquele dia a vida de Be parecia normal. O despertador tocou às 5h45min, ela o desligou e ficou na cama por mais cinco minutos, fazia isso religiosamente. Be preparou o café da manhã com maestria, como quem rege uma sinfonia. Logo seus pais e seu irmão acordariam e ela precisava ter tudo pronto. Há muito tempo não pensava que assumir as tarefas de casa era apenas mais uma obrigação. Para qualquer mulher depois dos vinte anos, não existe mais o questionamento, só existe os atos quase mecanizados. Depois de coar o café, ela sempre ficava animada só de sentir o maravilhoso aroma invadindo a casa; poucas coisas na vida eram tão boas quanto o cheirinho de café pela manhã, era como se com isso ela de fato despertasse. Nada como um bom cafezinho com leite e pão com manteiga para iniciar mais uma jornada de trabalho. Após o desjejum, Be entrou no banheiro e enquanto abria a torneira para escovar os dentes olhou fundo em seus olhos no espelho, como há tempos não fazia. Evitava sempre que possível ver a solidão por trás deles. Após terminar a escovação, fechou a torneira e passou uma maquiagem rápida


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no rosto, apenas para cobrir as imperfeições. Ela sempre foi muito discreta. Saiu do banheiro em direção ao quarto, onde ela se vestiu rapidamente para sair de casa em direção ao ponto de ônibus. Quando se trabalha muitos anos em um mesmo local, é usual conhecer as pessoas que pegam a mesma condução contigo, porém, Be só dizia um singelo “bom-dia”. Sua timidez a impedia de fazer muitos amigos. Na realidade, a vida de Be era a mais pacata possível. Os poucos amigos que tinha eram fruto de anos de convivência na única escola que estudou do primário ao ensino médio. Durante a faculdade, ela não se preocupou em fazer amigos, apenas em ser a melhor aluna que podia. Mas no final, ser a melhor não trouxe o emprego dos sonhos, apenas frustrações. Depois de quarenta minutos dentro do ônibus e mais vinte minutos de metrô, Be podia avistar o velho prédio com janelas espelhadas e poucos andares onde ficava o jornal. O elevador era muito antigo, só faltava ter manivela. “Bom dia” — desejou discretamente ao porteiro, que, entretido com o celular, não notou a presença da moça. Be não tinha paciência de esperar, ou talvez fosse medo mesmo de pegar o tal elevador, então subiu lentamente os cinco lances de escada. E ao entrar na redação, já cansada e esbaforida, tentou dizer um “bom-dia”, mas o ar sumia de seus pulmões e quase nada saia de sua voz. Era um pequeno departamento. As Anas sentavam próximas à porta, sim duas Anas. Uma era Ana Clara e a outra Ana Carolina. Be sempre dizia que uma Ana não era o suficiente para o departamento. Próximo a ela estava o Gabriel, com sua risada enrustida. Era um grande palhaço, e como todo bom palhaço que se preze, tinha um coração de ouro. 8


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Logo atrás de Be estava ‘Ela’, o desafeto do departamento. Ninguém nunca entendeu muito bem como aquela ‘criatura’ apareceu ali. Há pouco mais de um mês, esta figura antológica foi transferida, para o desespero de Be, que não conseguia olhar em sua cara sem sentir enjoo. — Nossa Be, você está bem? Cuidado para não ter um infarto. Você sabe que pessoas acima do peso tem que fazer atividade física com moderação. — Desculpa Marina, mas acho que isso é particular. — Ai, não precisa se ofender, eu só quero ajudar. Sei como é difícil ser gordinha! Quero dizer, eu imagino, porque sempre fui magra — disse rindo sarcasticamente. Be respirou fundo e tentou fingir que não ouviu o insulto, mas Gabriel era um grande sarrista e não perdeu tempo: — Mas também... você é um pau-de-sebo. A Olívia Palito pareceria um elefante ao seu lado. As Anas e Be caíram na gargalhada enquanto Gabriel se matava de rir silenciosamente, era um riso para dentro, como se ele se sufocasse no próprio riso. Algo que Be adorava nele. Ela olhou para ele e deu uma piscadinha em agradecimento por ser defendida. Be não suportava mais a Marina e não via a hora de sair de férias. Só pensava nisso. Ela precisava sair daquele local. Neste ano queria fazer algo novo, só não sabia ao certo o quê. O dia foi passando, Be finalmente estava pronta para o caminho de volta. Desde que entrou no jornal era a última a sair do departamento. Gostava de se arrumar com calma. Andava lentamente até o metrô pensando em mil coisas. Em textos que escreveria quando chegasse em casa, em cenas malucas para seu livro. Em todo o trajeto de volta imaginava um mundo de coisas e pessoas. À noite, após o jantar, ela ligou seu laptop e se entre9


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gou à sua grande paixão: a escrita. Talvez todos nós tenhamos algo assim, um momento só nosso no dia. Algo que nos faça esperar o dia inteirinho para realizar. A garota escreveu vários parágrafos até que o sono a pegou de jeito. Mesmo assim, antes de dormir, decidiu checar seus e-mails. — Nossa! Não acredito! — disse boquiaberta. — Uma viagem para a ilha de Creta na Grécia está custando só isso? Não é possível! Este site de viagens deve ter mandado o e-mail errado — disse em voz alta. Então, por um breve momento, Be parou e pensou como seria incrível uma viagem para a Grécia. A Grécia de tantos deuses e deusas. De monstros e mitos. Como ela iria se divertir em suas praias, como seria o lugar ideal para escrever seu livro sem a Marina ‘Só Tripa’ para atormentá-la. Então pensou que precisava arrumar os armários nas férias, e tinha que lavar as cortinas, e que provavelmente precisaria pintar as paredes externas da casa, e de todas as coisas que ela só conseguia limpar e fazer durante as férias, já que sua mãe não fazia muito mais coisas, devido a sua saúde delicada. Com a cabeça a mil, apenas desligou o notebook e foi dormir, afinal amanhã era um novo dia. Be acordou atrasada e não teve tempo de tomar café, mesmo seu pai tendo preparado assim que se levantou. Ela apenas se vestiu e saiu de casa, tentando colocar o casaco enquanto passava pela porta, o que não deu muito certo e fez com que ela batesse o braço no batente da porta. Ao trancar o portão, se lembrou que não disse bom-dia à ninguém na casa, mas não tinha tempo para isso agora, o ônibus já estava passando e ela correu. Felizmente o motorista parou ao vê-la correndo, o que gerou um doce sorriso de agradecimento. Quando desceu no ponto em frente ao metrô, Be se desequilibrou e quase caiu na calçada. “Hoje não é um bom dia”, pensou. 10


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“Mas quem sabe melhora!”. Ao passar pela catraca, bateu a perna e sentiu tanta dor que soltou um grito: “Ai, mas que saco!”, o que fez uma senhorinha ao seu lado olhar torto para ela. Apesar dos pequenos acidentes, a viagem transcorreu bem, porém, ao sair do vagão do metrô um homem alto a empurrou fazendo com ela fosse ejetada do vagão. Parecendo um foguete. Be respirou fundo e seguiu andando até a saída. Lá ajeitou o casaco e caminhou até o jornal. “Existem dias que parecem noites”, ela pensa. “E este poderia ser a noite do terror”. E ri sozinha de sua condição. Ao chegar à redação percebe uma movimentação diferente do normal. Ela se senta, respira fundo e tenta ligar o computador para começar a trabalhar, sem se preocupar, afinal, o trajeto até ali foi no mínimo intenso. Estava calma, até que ouviu seu nome. — Mas espera aí Marina, este mês é da Be — disse Ana Carolina irritada. — Eu tenho certeza que ela não se importa em trocar, afinal ela é solteira, não tem nada para fazer — declarou com uma voz de desdém. — Afinal, do que vocês estão falando? O que tem o fato de eu ser solteira? O que eu tenho a ver com a história? — Nossa! Quantas perguntas, eu hein. Chegou agora e quer sentar na janelinha, meu bem. — Eu sei que vocês disseram meu nome, se me envolve, quero saber Marina. — Nossa que humor é esse? Aconteceu algo? Brigou com o namorado? Ah já sei, você não tem um, né? Coitadinha! — Be, a Marina trocou o seu mês de férias com o dela — disse Ana Clara já indignada. — Como é que é, Marina? Quem te deu o direito de mudar as minhas férias? 11


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— Até parece que você vai fazer algo de útil. Eu quero este mês porque vou viajar com meu namorado, vamos esquiar em Barriloche. — Não me interessa se você pensa em ir a China, não tem esse direito! — Até parece que você vai viajar, solteirona do jeito que é! — Mas eu vou. — Vai? Vai para onde? E com quem? — perguntou Gabriel ávido de curiosidade. Por um minuto todos pararam para ouvir a resposta da Be. Ela não gosta de mentir, e nem sabe fazê-lo direito, mas precisava falar algo rápido. Ela estava tão cansada desta tábua de passar roupas querer tomar posse de tudo que era seu. Então sem pensar muito disse: — Vou para a Grécia, a Ilha de Creta. Vou sozinha mesmo, já comprei as passagens e tudo. Desculpa queridinha, mas vai ter que se contentar com o mês que tem, eu não vou mudar minha viagem por você! Nervosa, Marina saiu da sala com o celular na mão, para comunicar ao namorado a mudança de planos. Claro que se Be já havia comprado as passagens, Marina não conseguiria o apoio do chefe para mudar suas férias. Um tanto orgulhosa de sua atitude, Be se sentou tranquilamente e continuou a trabalhar. O dia passou e a noite chegou. Be voltou para casa, entrou em seu quarto e ligou o notebook. E pensou, “por que não?” Afinal ela já havia dito a todos que iria, precisava mostrar as fotos na volta. Ela abriu o e-mail, e para sua grande surpresa, ao clicar nele o preço continuava igual. Então comprou as passagens e, no mesmo site, agendou o hotel que possuía ótimas recomendações. Sua vida jamais seria a mesma. 12


Capítulo 1 A ida

Era um dia frio de julho, e nesses dias o Sol fica mais preguiçoso e não aparece rapidamente pela janela, prefere ir aos poucos, quase como se cortejasse a paisagem. Perto das sete da manhã, ela abriu os olhos, respirou fundo e lentamente se espreguiçou. Sentada na cama, recapitulou mentalmente como seria seu dia. Caminhou no escuro até a porta e girou a maçaneta tentando não fazer barulho. Passo a passo se dirigiu à cozinha, onde preparou o café. Sentada à mesa, sentiu um vazio, como se parte dela faltasse. Não entendia bem o que acontecia, como se fosse uma onda de tristeza que lavasse todo seu interior, até chegar a sua alma. Mas quando ela menos esperava, o Sol apareceu e aos poucos começou a se sentir melhor. Da cozinha, caminhou lentamente em direção ao quarto. E ao entrar e abrir o armário, ficou estática olhando, analisando as cores, as opções... queria estar especialmente linda, então escolheu uma blusa azul estampada, que realçavam seus lindos olhos. No espelho ela conseguia ver seus lindos cabelos dourados, seu sorriso medroso, sua pele branca, mas não reparava no olhar perdido refletido. Como Be era muito atrapalhada fez uma lista de coisas para levar na viagem, e pouco antes de sair estava checando tudo.


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Escova de dente, creme dental, perfume, desodorante, xampu, condicionador, camisola, chinelos, maiôs, dezesseis blusas, cinco bermudas e um vestido. Esta peça era seu ponto fraco. Se tem uma coisa que a deixava desconfortável, era usar vestido, por mais lindo que fosse. Sentia que suas coxas pareciam ainda maiores, que explodiriam dentro do vestido ao andar. Uma cena medonha para ela, mas muito exagerada é claro. Depois de refletir por alguns minutos, desistiu de levá-lo. Uma coisa básica na vida de qualquer mulher é levar um kit de sobrevivência bem generoso para todos os locais. Be levava repelente, protetor, uma bolsinha de remédios, que de ‘inha’ não tinha absolutamente nada, além de outros apetrechos que julgava serem necessários. Ela provavelmente se preparou para a terceira guerra mundial, ou quem sabe uma invasão alienígena. Assim que terminou os preparativos, solicitou o táxi por telefone. Porém, como ela era muito ansiosa, cinco minutos depois estava no portão com as malas, e cronometrou os 17 minutos que o táxi levou para chegar olhando o relógio de minuto a minuto. Passou quase uma hora dentro do carro. Ela tinha tanta vergonha, que quase não se mexia lá dentro, evitando ao máximo cruzar o olhar com o motorista. E ao chegar ao aeroporto, respirou fundo e pagou o motorista. Depois seguiu para despachar as malas, pensando em como estas coisas são inconvenientes. Caminhou rapidamente ao guichê de atendimento e chegou ao balcão esbaforida, felizmente a fila estava pequena e pôde ser atendida rapidamente. Ao se aproximar do guichê precisou deitar a mala na esteira. Tentou uma vez, mas não conseguiu levantá-la. Tentou a segunda, e a mala tombou no pé de um senhor que passava por detrás dela, o que a fez ficar vermelha como um pimentão e pedir desculpas com muita vergonha, mas mesmo assim, o homem saiu xingando-a. Na terceira vez 14


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conseguiu deitá-la com dificuldade, e sorriu de nervoso para a atendente, que pediu seus documentos e em poucos minutos deixou tudo pronto. Ao sair, percebeu as bochechas rosadas e olhou ao redor para ver se alguém mais notava. Resolveu passar logo pela alfândega e esperar na sala de embarque. Não faltava muito para o voo, então abriu seu livro, pois assim dificilmente alguém tentaria algum tipo de interação com ela. Pouco depois, a companhia chamou os passageiros, e lá foi ela levantando com a bolsa enganchada no assento, o que a fez cair sentada e gritar “ai” chamando a atenção de todos, que espalharam risos pelo saguão. Apesar do embarque constrangedor, as onze horas de voo foram tranquilas, com o mínimo de conversa possível. Chegando ao aeroporto de Heathrow, em Londres, ela logo procurou o local de conexão, buscou o lugar mais vazio do terminal e se sentou. “Ainda bem que foi uma viagem tranquila”, pensou aliviada. “Mais um pouquinho estarei na Grécia, e poderei desfrutar das praias maravilhosas que tanto sonho! Vou conseguir ter a tranquilidade que tanto preciso para escrever meu livro e planejar minha vida daqui para frente. Como é bom ficar um tempinho só, longe do trabalho, dos problemas, de tudo.” Nestes momentos de falsos confortos é que o destino gosta de ser irônico, em seu jeito peculiar de ser. E de repente, ela vê um vulto e percebe alguém caindo no seu colo com um café bem quente: — Ai! Você está louco? Isso é café quente? Café! — disse ela desesperadamente enquanto sua mente se enchia de adjetivos não muito agradáveis de se ouvir. — Sinto muito, me perdoe, eu tropecei! — Tudo bem, estas coisas acontecem. — O ódio em seu coração estava estampado em sua voz. 15


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Neste momento ela já estava vermelha, não se sabia se era por nervoso, ou apenas pelo reflexo dos cabelos ruivos do rapaz. Ela correu para o banheiro e tentou se limpar. Só conseguia pensar em como aquele cara era desastrado. “Tinha que cair em cima de mim? Justo em cima de mim? Não podia ser na cadeira vazia ao lado, ou no cara à sua frente com um ar de lutador de MMA?” Apesar do grande esforço, não conseguiu limpar muito bem a mancha, o que a deixou levemente frustrada. Ao voltar já estavam chamando para o embarque. Imagine sua surpresa ao sentar e perceber que o ruivinho distraído estava ao seu lado. — Você está bem? Te machuquei com o café quente? — Estou sim, e de forma alguma me machucou! — ‘“De forma alguma, ninguém mais fala assim”, pensou, tentando entender o motivo deste ruivo estranho estar falando com ela. — Que bom! Meu nome é Ed, e o seu? — Be. — Be? — Isso. B E, todo mundo me chama assim, E D. — Ah, que diferente! — Não tanto quanto o seu. —“Que carinha mais chato, por que só ele pode ser chamado por duas letras?” — Quanto tempo vai ficar por lá? — Cinco dias. — Eu também! Vai ficar só em Creta? — Sim, no Hotel Teodophila. — Não acredito, eu também. Que coincidência! — Poxa, que legal. — Abriu seu típico sorrisinho amarelado e pensou que provavelmente o chato ficaria colado nela feito um chiclete, então resolveu por educação perguntar algo, demonstrar o mínimo interesse possível. — E o que você faz? 16


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— Sou músico, canto e componho. Na realidade estou indo para lá em busca de inspiração. E você? — Eu vou pelas praias mesmo! — E o que você faz? — Sou escritora, escrevo para um jornal local. Não é muito, mas eu gosto. — Nossa que legal. De repente podemos escrever algo juntos. — Quem sabe!? Nesta hora ela percebeu algo familiar no ruivo. Não sabia bem dizer o quê, mas ele parecia um cara legal, conversava sobre as coisas bobas da vida. Até que ela estava gostando de falar com ele. Tinha um jeito tão humilde e peculiar... Quando percebeu, já tinha passado quatro horas conversando e rindo sem parar. Sentia-se muito confortável com ele.

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Capítulo 2 Creta

Os momentos finais do voo eles passaram admirando a linda vista da ilha pela janela do avião e comentando sobre como a vegetação é seca, mas as praias parecem promissoras. Neste momento ele se aproximou dela, para ver melhor, e ela no mesmo instante ficou ruborizada, mas se manteve calma, afinal não era nada demais, só um desconhecido que a tocou. Ao pousarem em Creta, ele, como um verdadeiro cavalheiro, a ajudou com as malas. O que foi um grande alívio, já que não precisaria pagar um novo mico. Enquanto isso ele perguntou se ela queria dividir um táxi, e ela sem jeito, sabendo que iriam para o mesmo lugar, aceitou. E na mesma hora pensou como era louca, não o conhecia! Ele poderia ser o novo Jack Estripador, ou um traficante mafioso, ou pior, um palhaço de circo! “Ai Meu Deus, imagina se ele for um palhaço disfarçado, terei que sair correndo, sem rumo. Nada na vida me dá mais medo que palhaços!” Mesmo assim, sentia algo positivo vindo dele, e resolveu arriscar. Nos vinte minutos até o hotel ele contou sobre sua família, como são unidos, como sempre estão em contato, e que provavelmente sua mãe ficaria feliz em saber que ele havia feito uma amiga, assim não ficaria só. Neste exato momento uma luzinha dentro da mente de Be se acendeu, advertindo que pro-


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vavelmente ele grudaria nela pelos próximos cinco dias, e isto a deixou em um controlado pânico. “Como assim? Não ficaria tão só? Tão?” Ela não pretendia prolongar este encontro, além de poucos e casuais cumprimentos pela manhã. Be então começou a planejar em como iria despistá-lo nos próximos dias. Poderia comprar uma peruca vermelha e óculos de sol. Ou talvez uma burca, assim ninguém a reconheceria. Afinal esta viagem é o momento dela, que ela escolheu para se ver livre e independente. Para se arrumar sozinha e assim perceber se está preparada para os próximos passos de sua vida. Sua intenção sempre foi se conectar com ela mesma, e ter alguém por perto será um desafio para sua meta. Antes de chegar ao hotel eles passaram por uma praia, não muito larga, como ela está acostumada a ver, mas perto de uns rochedos, linda... Então ela entendeu que este seria o lugar perfeito, que tudo ficaria bem. — Nossa que lugar lindo! Precisamos visitá-lo assim que deixarmos as coisas no Hotel — ele diz se virando para ela. — Veremos. — Mas em sua mente só conseguia imaginar um grande letreiro dizendo: NÃO. E então o taxista se vira e pergunta: — Há quanto tempo vocês estão juntos? Ele ficou vermelho na hora e achou aquilo um tanto quanto estranho, por que um completo estranho pensaria isso? — Nós não estamos juntos, nos conhecemos no voo e descobrimos que vamos nos hospedar no mesmo hotel — ela respondeu em um tom de desânimo. — Você é muito corajosa, moça, mas tome cuidado, viu? — Muito obrigada por sua preocupação — ela respondeu sem jeito, se sentindo uma completa idiota. — Hei! Eu sou um cara legal, jamais a tratarei de forma inapropriada! — Ed disse com um tom de indignação em sua voz. 19


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Ele pensou: “como um estranho diz algo assim sobre mim? Por que se interessa com a minha vida?” Felizmente, em cinco minutos eles chegaram ao hotel e ela se sentiu mais aliviada do que nunca. Até que o taxista a chamou de canto e disse que esperaria a dona do hotel aparecer, ela muda só consentiu com a cabeça. Enquanto isso Ed tentava tirar as malas do carro, mas a mala de Be pesava muito, e ele ficou vermelho de tanta força que fez para tirá-la, tanto que até mesmo chacoalhou o táxi. Então uma moça simples de camiseta e bermudas apareceu para ajudá-los, com seus cabelos encaracolados presos e seus óculos de armação preta. Tinha um sorriso doce, que logo fez Be pensar em como ela parecia uma pessoa de bem. Sentiu-se mais confortável com isso. O taxista disse algo em grego para a moça que sorriu e respondeu a ele enquanto Ed e Be se entreolhavam sem entender muito bem o que acontecia. Daí resolveram subir a rampa até a recepção. Após fazerem o check in no Hotel, Be se dirigiu ao quarto número um, era um sobradinho com uma escada e uma cama de casal na parte de cima, na parte de baixo tinha uma TV, outra cama, um sofá, a cozinha e um modesto banheiro. Para Be aquilo era um paraíso. A vista da sacada dava para a praia e ela pensou: “Acertei! É este o lugar!” Mas para sua preocupação, quando ela olha, o seu novo amigo está no sobradinho ao lado. — Nossa que legal, vamos ser vizinhos! — De fato! Que legal, né? — responde sem nenhum entusiasmo pela novidade. — Que tal se dividirmos as refeições? Podemos sair juntos para os restaurantes? — Eu prefiro comer aqui, eu gosto de cozinhar. 20


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— Por mim tudo bem! Espero que seja uma boa cozinheira, pois eu só sei fazer um prato. Ela ficou em um profundo choque e tentou pensar em alguma resposta educada, mas nada vinha a sua mente! “Como assim queridinho, boa cozinheira? Ah, você deve ter algum probleminha na cabeça, só pode! Pede para a sua vovozinha cozinhar para você!” — Nos veremos mais tarde Be, vou arrumar as minhas coisas. Enquanto ele se virava Be percebeu a dona do hotel subindo as escadas. — Olá! Eu adorei o quarto, a vista é linda! — Que bom! Você precisa de algo? — Você pode, por favor, me trazer um café da manhã? Viajei durante a madrugada e estou faminta. — Claro! Olha, se precisar de qualquer coisa me avise! Meus pais moram no quarto número cinco. O taxista me contou que vocês se conheceram a pouco, fiquei preocupada. Desculpe-me, como chegavam no mesmo horário, decidi colocá-los em quartos próximos para facilitar a limpeza, mas se preferir, posso providenciar outro quarto para você? — Este quarto é perfeito! E muito obrigada por tudo, especialmente por sua preocupação! Fico tranquila em saber que você é uma boa pessoa, e se precisar irei chamá-los. Mas acho que ele não é má pessoa. Em todo caso, tentarei evitá-lo. — Já trarei seu café! — Muito obrigada, por tudo! Assim que conseguiu a senha do Wi-fi mandou mensagem para seus pais e um e-mail para as amigas. Para: Ana Clara; Ana Carolina; Flora; Laís; Lia; Mariana Assunto: Chegada 21


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Olá meninas, Cheguei em Creta, a vista do avião é linda. E a dona da pousada é superlegal. Conheci um dos hospedes do hotel, parece um cara maneiro. Beijos. Ela finalmente ficou só! “Que alívio! Que confusão!”

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Capítulo 3 O café

Com muita dificuldade, Be subiu as escadas com a mala e foi de fato a primeira vez em que refletia sobre todas as roupas que estavam em seu interior, já deveria ter aprendido a ser mais básica, e com certeza levar menos coisas para viagens. Chegando ao topo da escada, respirou fundo, deu mais alguns passos e largou a mala próxima à porta, depois se jogou na cama com os braços abertos, estava exausta! Conseguiu relaxar os músculos lentamente, os braços, as pernas, as costas, a cabeça, os olhos foram se fechando lentamente e com um pouco de resistência. E então, quando finalmente começou a cochilar, alguém bate à porta. Com o susto desceu a escada cambaleando. O café finalmente chegou. Ela estava faminta. Abriu a porta e agradeceu a gentil dona do hotel. Torradas, bolo, ovos mexidos, um suco de laranja, um aroma tão delicioso que trouxe um amigo, um gatinho malhado lindo. Na realidade, dois amigos. — Olá! Eu ia te chamar para dar uma volta, mas vejo que está comendo. — Pois é, você aceita um pedaço? — Claro! — Acho que tem pratos na cozinha, se não se importar em pegar. — Eu já volto.


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Ele trouxe os pratos e se sentou à sua frente, Be dividiu os ovos e as torradas enquanto ele se distraía com a presença do simpático gatinho. Ed sugeriu darem um nome a ele, mas ela achou a ideia um tanto quanto esquisita, afinal, era um gato de rua. Refutou a ideia veementemente, não queria um gato rondando sua porta. Depois da negativa, ofereceu um pedaço de bolo ao visitante, mas ele optou por dar o pedaço ao bichinho. Neste instante ela se arrependeu em convidá-lo para se sentar. Quando notou a dona do hotel varrendo o corredor próximo a vaga dos carros, achou por bem em lhe acenar, para deixar claro que estava tudo bem. — Eu vou alugar um carro e gostaria muito que fosse comigo, tem uma locadora aqui perto. — Mas você é inglês, vai conseguir dirigir no outro lado do carro, da via? — Claro que vou! Não deve ser difícil. — Realmente é melhor eu ir com você, pois não quero que você se mate. Ficarei com remorso. Ele olhou para ela franzindo a testa e tentando entender o porquê daquele comentário. Na realidade ele ficava intrigado com ela, despertava algo totalmente novo nele, uma mistura de curiosidade e atração. Certamente a ida à locadora foi o momento mais quieto entre os dois. Existia certa tensão entre eles. Do tipo que denota o mútuo interesse e a total falta de jeito em traduzi-lo. Silêncio, ela olhava a janela do táxi, e ele olhava fixamente para uma pulseira, virava para um lado e para outro, sem parar. Eles tinham medo de se encarar, não sabiam como perguntar, o que perguntar. Tanto a conhecer sobre o outro, mas pouca habilidade verbal. Ao chegar à locadora, eles se dirigiram ao guichê e a recepcionista fez diversas perguntas. Quando questionou sobre 24


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quem seria o motorista ele logo se prontificou, mas na mesma hora Be interferiu na conversa e persuadiu a recepcionista a deixar o carro sobre seus cuidados, já que ela sim dirige do lado esquerdo. A recepcionista sorriu dizendo como eles pareciam o casal mais fofo que ela já viu. O que deixou Be levemente irritada e fez Ed tentar explicar que eram só amigos. Enquanto esperavam o carro, ele a questionou: — Não entendo, por que fez isso? Não deveria interferir no meu aluguel! — Sinto muito, muito mesmo, mas eu achei que seria mais prudente eu dirigir, você não está acostumado, as estradas são estreitas e sinuosas. Fico preocupada. — Você se preocupa comigo? Nesta hora ela olhou no fundo de seus olhos azuis e disse apenas: sim. E foi a primeira vez que ela realmente olhava dentro de seus olhos, a primeira vez em muito tempo que olhava assim para alguém. De forma decidida e honesta, sem precisar esconder o que realmente sentia. E ele em vez de sentir raiva por sua falta de educação, apenas sorriu sentindo uma mistura de alegria e intriga. — E então, para aonde vamos? — ela pergunta. — Conhecer as melhores praias deste lado da ilha! — Hum! Gostei da ideia! Antes de seguirem para o carro, Be verifica o celular e vê que tem um e-mail para ela. De: Flora; Para: Be; Assunto: Re: Chegada Oi Be, Que bom que chegou bem. Nossa, queria eu ir até aí. 25


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Mas quem é que vc conheceu? Hum, explica essa história. Bjs De: Be; Para: Flora; Laís, Lia; Ana Clara; Ana Carolina; Mariana; Assunto: O tal carinha Olá meninas, Então conheci um carinha no voo, chama Ed. Engraçado que ele se hospedou no mesmo hotel. Mas, sei lá, parece meio folgado, sabe? Bjs De: Mariana; Para: Flora; Laís, Lia; Ana Clara; Ana Carolina; Be; Assunto: Oi? Olá meninas, Be você está louca? Pelo amor de Deus, cuidado com o que fará. Não dê muita abertura para ele não. Nunca se sabe o que pode acontecer. Juízo viu? Beijos. De: Laís; Para: Flora; Lia; Ana Clara; Ana Carolina; Be; Mariana; Assunto: Q legal! Oi gente! Nossa eu estou correndo tanto com a faculdade. Be um conselho, se divirta! Acho bom você aproveitar essas praias. E se der me traz um pouco de areia. kkkk Acho muito dá hora você estar fazendo amizades. Isso aê! Bjo

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Capítulo 4 As praias

A primeira delas foi a prainha próxima ao hotel, descendo a estrada. Logo abaixo de um grande rochedo, onde os carros aproveitavam cada brechinha para estacionar. A areia era grossa e branca, algo diferente para Be. Não havia muita gente, a água cristalina encantava os olhos, e o brilho forte do sol fazia o tom da água mudar de azul para verde, como se fosse de turquesa para esmeralda. A dupla sentou-se próximo de uma árvore com poucas flores vermelhas e muitas folhas. Be estava admirada, deslumbrada, com a beleza do local. As ondas batiam sobre as rochas de uma pequena ilha próxima à praia, as crianças brincavam na água acariciadas por uma suave brisa. Tudo parecia tão bom. Ela ficou extasiada por estar em um lugar tão magnífico, por ter coragem de fazer esta viagem e por perceber que não importa de onde você venha, ou que idioma fale, todos nós somos únicos, e mesmo assim temos os mesmos sentimentos, só queremos ser felizes. Ficou pensando na vida, nas pessoas ali, em suas histórias. Perdeu-se completamente em seus pensamentos e sorria genuinamente, queria apenas ficar ali sentada absorvendo a essência de cada pessoa que estava ao seu redor. — Em que está pensando tanto? Não vai tomar banho de mar? — Eu estava observando as pessoas, como são bonitas.


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Não sente vontade de conhecer a todos? O que eles fazem? Seus sonhos? — Por enquanto eu estou mais interessado em descobrir os seus sonhos. Vamos, você quase não me disse nada sobre você. — Eu sou escritora e vim aqui para me inspirar. Não sou de falar muito sobre mim. — Você veio do outro lado do mundo para se inspirar? Achei que era pelas praias apenas. — A beleza das praias é a melhor inspiração possível. Parece estranho, mas eu queria vivenciar um lugar diferente, que quase ninguém procura. Tenho um livro em mente e acho que aqui será o cenário perfeito. Por isso vim do outro lado do mundo para buscar inspiração. Algo que ninguém da minha família entenderia. — Eu te entendo, quero criar algo diferente e vim para cá para isso. Compor coisas novas. Ela só sorriu e se sentiu tão feliz por ter alguém que não a censurou ou a julgou, que estava ali pelo mesmo motivo. Percebeu que iria se dar muito bem com ele, e o fato dele ser um artista a deixava mais confortável. Então ela resolveu se levantar, ele seguiu seus passos até a água, onde passaram um bom tempo nadando e brincando como duas crianças. Ed jogava água em Be que se virava e tentava jogar água de volta, mas sempre acertava uma senhorinha que estava próxima. A total falta de coordenação de Be era notada por quase todos na praia, mas a felicidade que sentia a fazia ignorar este fato. Mal podia esperar o que viria a seguir. Ao cair da tarde, algumas pessoas se juntaram e uma estrutura foi montada na praia. Um DJ começou a tocar música eletrônica e Ed, como um bom músico, resolveu aproveitar um pouco. Be, acanhada, seguiu o rapaz. Até que gostava de eletrônico, mas morria de vergonha de dançar na frente dos outros. Ela achou bem inusitada aquela balada na praia. “Nossa, espero que 28


Sob o olhar grego

ninguém fique reparando em mim, acho que sou a única gordinha daqui. Bom, tirando o Ed que não é tão magrinho assim”. — Vem Be, vamos dançar! Estou adorando esta praia! — É bem legal mesmo! Uma, duas, três músicas se passaram e Be começou a tomar gosto e se soltar mais. Há muito tempo não tinha um dia tão divertido assim, mas o problema foi o que aconteceu logo em seguida. Enquanto pulava e se mexia, algo muito estranho aconteceu. A costura da alça de seu maiô foi se soltando lentamente, talvez se ela não estivesse dançando ou se a música alta não a distraísse, ela conseguiria notar a tempo. Mas foi com uma sacola de plástico ao vento, a linha dançava lindamente no ar, tão imperceptível, que quando terminou seu propósito os lados da alça se soltaram, deixando à mostra a delicadeza de seu ser. Enquanto pulava, Be sentiu um arzinho diferente em seu seio esquerdo, e quando notou, algumas pessoas já olhavam para seu mamilo exposto. Be não demorou a reagir, puxou rapidamente o maiô e saiu correndo para o carro, ela estava vermelha de vergonha. Ed correu atrás da amiga. — O que aconteceu? — Meu maiô soltou a costura. Ai que vergonha, todo mundo viu! Eu não volto mais nesta praia. Nunca mais na vida toda! — E eu perdi? Como eu não vi isso? Be parou e olhou fundo nos olhos de Ed, com uma raiva imensa, mas neste segundo ele caiu na gargalhada. Ele não tinha visto nada. “Será que esse cara tá me zoando, ou ele não viu nada mesmo? E agora? O que eu faço? Bom, pelo tanto que ele está rindo, acho que é verdade. Se bem que foi engraçado mesmo. Ai, espera eu contar para minhas amigas que fiz topless sem querer, vão rolar de rir. Nota mental: deixar de pagar micos na frente deste cara.” 29


Capítulo 5 A descoberta

A noite caia lindamente na sacada do apartamento enquanto Be tentava esquecer o ocorrido naquela tarde. Tentou se concentrar em seu livro, pensava nos nomes dos personagens e como eles seriam altos, baixos, morenos, ruivos. Tantas opções. E então como de costume ela resolveu ouvir música, para estimular os sentimentos dos personagens. Deixou que as músicas tocassem aleatoriamente, pois a tela em branco angustiava seu coração, algo estava fora de contexto. Então os primeiros acordes do violão despertaram sua atenção, foi quando ela finalmente entendeu. Tudo fez sentido, seu comportamento até então. Ela conhecia intimamente aquela doce voz, e esta passava a segurança que ela precisava. Daí Be o percebeu em pé à sua frente, o que a fez levar um susto e saltar da cadeira mais rápido que um trem-bala. — Não sabia que você é minha fã. — Na realidade eu só percebi quem você realmente é agora, escutando sua música — comentou já pálida do susto. — Sinto muito, mas sim, apesar de não ter te reconhecido, sou sua fã. Admiro muito suas músicas, seu jeito único de tocar, de cantar... — O coração batia rápido do susto e a voz estava trêmula de vergonha. — Não acredito que não te reconheci. Sou uma boba mesmo.


Sob o olhar grego

— Muito obrigado. Não precisa se desculpar, eu fico até envergonhado. — Sou apenas sincera. Nunca conheci nenhum dos meus ídolos assim, poxa eu fico feliz em saber que você é uma pessoa tão legal. — E agora pode dizer a todo mundo que é minha amiga também, tirando o fato que eu ainda nem faço sucesso no Brasil. — Vou guardar isso para quando eu for uma escritora famosa! — E como vai o livro? — Praticamente em branco. — Conte-me sobre o que é, talvez isso ajude. Então ela contou sobre os personagens, como os via em sua mente, sobre o lugar, e a história que vivenciariam. Falou também sobre como ouvir música a ajuda na escrita, em especial em seu trabalho no jornal. Sobre a vida particular, compartilhou seu sonho de se tornar uma escritora reconhecida e falou um pouco sobre sua família e seus poucos amigos. Era a primeira vez em muito tempo que se abria assim com alguém, e por mais que ela se sentisse encabulada, a princípio, relaxou e esqueceu por completo o lado tiete e se sentiu apenas como uma amiga. Ele contou sobre o que estava pensando em fazer em seu novo projeto, sobre a opinião de alguns amigos e correu para pegar o violão. Citou algumas músicas e artistas que gosta de ouvir e os dois passaram a cantar suas músicas favoritas. Ela timidamente, nunca considerou cantar com um profissional antes, sua voz quase não saía, e quando o fazia eram agudos descoordenados, parecia um gato miando na janela à meia-noite, um terror. Mas Ed deixava Be tão à vontade que ela não se importava com isso. A noite foi passando, e quando eles perceberem, precisavam jantar, então foram até a venda mais próxima comprar comida, 31


Isabela Crestan

afinal ali eles não tinham muitas opções de restaurantes e muito menos aqueles famosos fast foods. Be é filha de um italiano, então optou por pegar massas, molhos e alguns ovos, esses ela passou para Ed segurar, seu histórico com ovos não é dos melhores. Também pegou um pouco de alface, alguns temperos, além de pão, leite e café para a manhã seguinte. Voltando ao hotel, o grande desafio foi convencer Ed a entrar na cozinha para ajudá-la a cozinhar, o que se tornou uma experiência divertida, afinal, ele conseguia ser mais atrapalhado do que ela. Ele abriu o armário e tentou pegar a panela, que escorregou de seus dedos e foi parar no chão. Logo em seguida pegou a faca, que quase acertou a mão de Be, foi aí que ela pensou que seria mais prudente ele ficar longe do preparo do jantar. O resultado foi uma saladinha, um espaguete ao sugo e algumas linguiças fritas. Para sobremesa, optaram por um sorvete de uma produtora local. Acharam que tudo estava delicioso, mas não tinham certeza, já que a fome poderia ter afetado o julgamento deles. A noite foi uma grande surpresa, inesquecível. Ed sentia que existia mesmo algo incrível entre eles, que não conseguiria explicar a ninguém. Naqueles minutos ele se sentiu mais em casa do que nunca. E entendeu o que ela estava explicando na praia, sobre como todos somos um, que as distâncias são barreiras imaginárias. Percebeu que talvez o conceito de seu próximo álbum começava a mudar. Ed estava descobrindo Be e seu mundinho incrível. Suas origens, suas influências, sua essência... De: Be; Para: Flora; Laís, Lia; Ana Clara; Ana Carolina; Mariana; Assunto: Só micos :( 32


Sob o olhar grego

Para tudo! Caos total gente! Algum mané resolveu fazer meio que uma rave na praia. E eu toda espertona estava empolgada dançando quando a alça do meu maiô arrebentou! Sim, isso mesmo! Meio peito ficou exposto para toda a praia, a Grécia inteira viu! Ain, quero sumir! kkkk E além disso, um mega babadooooo. O Ed não é um maníaco, é um cantor famoso. Aquele que eu curto, lembram? Aff, nem tinha reparado. Sou péssima. Mas ele é mto legal, jamais iria imaginar o qto. Beijos mil! Be De: Flora; Para: Be; Laís, Lia; Ana Clara; Ana Carolina; Mariana; Assunto: Re: Só micos :( Ai Be, só você para fazer isso! Kkkkk Eu morreria de vergonha se algo assim acontecesse comigo. Mas como você não percebeu que ele era o cantor? Bjs De: Mariana; Para: Be; Laís, Lia; Ana Clara; Ana Carolina; Assunto: Só você! Meninas estou me matando de rir sozinha, não é possível a Be ser tão atrapalhada. Cuidado para não revelar mais nada, Be. rs bjos

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Sob o olhar grego  

Be é uma garota insegura que sonha ser escritora. Ela viaja a Grécia em busca de inspiração para seu livro e lá conhece Ed, um músico famoso...

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