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memorial da vala


Pontíficia Universidade Católica de Campinas Trabalho Final de Graduação Memorial da Vala Felipe dos Santos Neres Orientador I Antônio Fabiano Junior Campinas, Dezembro de 2015.

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“na poça de lama como no divino céu também passa a lua” Afranio Peixoto O Memorial da Vala está entre o telúrico e o transcendente. Ele está entre. Entre o chão e o infinito, a vida e a morte, a dor da lembrança e a doce lembrança. É como um não ser, como um reflexo do céu em um chão esburacado cheio de poças. É um espelho forçado por restos de água. É de uma beleza desesperadora. Calma e desesperadora. A gente o ama mesmo querendo que ele não existisse. É símbolo do não querer. É símbolo do ciclo, da luta. Tudo nele é simbólico porque tudo é além da matéria, além da existência. É uma vala que voa, muito mais bonita do que a realidade, muito mais urgente do que a necessidade. Tentaram enterrar sonhos mas não sabiam que sonhos tem forma de sementes, que voam com o vento, que amam o céu feito de lama, resto da luta pelo outro e que brotam, nascem e florescem na cadência e no compasso da generosidade humana. O Felipe tem luta no sangue, na alma e no traço.

Antônio Fabiano Junior. MEMORIAL DA VALA | 5


[...]Quando chegar o momento Esse meu sofrimento Vou cobrar com juros. Juro! Todo esse amor reprimido, Esse grito contido, Esse samba no escuro Você que inventou a tristeza Ora tenha a fineza de “desinventar” Você vai pagar, e é dobrado, Cada lágrima rolada Nesse meu penar Apesar de você Amanhã há de ser outro dia. Ainda pago pra ver O jardim florescer Qual você não queria[...]

Apesar de Você - Chico Buarque 6 | MEMORIAL DA VALA


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A Deus.

Aos meus pais Célia e José pelo incentivo, paciência e amor. Ao meu irmão Guilherme Ao meu braço direito e companheiro Caique Ao Antônio, que me fez acreditar que arquitetura é poesia, que me incentivou desde o primeiro traço. Me ensinou que o desenho junta e pode sim mudar o mundo. Aos docentes Luiz Augusto Costa e Vera Luz, mestres que serão sempre inspiração. Ao grupo de TFG, Bruno, Eduardo, Fábio, Giovanna, Letícia e Mariana. Aos amigos e colegas bagaceiras que fiz nesses cinco anos de formação. Em especial, Diego Almeida, Gabriela Pinto e Paula Bianchi, amigos essenciais nessa caminhada.

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Eles eram pessoas, e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperanças... juntai com paciência as testemunhas daqueles que tombaram por eles e por vós. Julio Fuchik (1980). 10 | MEMORIAL DA VALA

Dedico as famílias que anseiam por respostas, por justiça.


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ÍNDICE 1. A DITADURA I 14 2. A VALA CLANDESTINA I 18 3. O ATO I 22 4. O CHÃO I 29 5. A MEMÓRIA I 32 6. O CASULO I 36 7. O CONSTRUCTO I 38 8. AS REFERÊNCIAS I 44 9. BIBLIOGRAFIA I 49

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1. A DITADURA A ditadura militar no brasil, foi implantada por meio do golpe militar de abril de 1964, por militares das forças armadas que depôs o governo civil, do presidente João Goulart, legitimamente eleito pelo voto popular. João Goulart tinha como principais atos de seu governo, reformas e medidas de caráter social, necessárias a efetivação da diminuição das desigualdades sociais do país, esperados pelos setores progressistas de nossa sociedade, mas a elite conservadora não aceitou. Empregou-se a violência, para dispersar os movimentos populares, articulados com representantes do imperialismo norte-americano, o golpe militar contou com o apoio da elite brasileira, empresários, latifundiários, e Estados Unidos.

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A partir do golpe, instala-se um clima de terror ditatorial e repressivo no país, contra parlamentares, funcionários públicos, sindicalistas e estudantes. Institucionalizou-se a tortura, violência, censura, sequestros, prisões, assassinatos e desaparecimentos de ativistas contra o regime político imposto. A política do estado pautou-se na Doutrina da segurança nacional que estabeleceu que o principal inimigo estava dentro do país (a ameaça comunista), assim, todos que eram contra o regime, mulheres, homens, velhos e crianças, foram sequestrados torturados, assassinados e desaparecidos. Em São Paulo é criada a Operação Bandeirante – OBAN, que contava com integrantes das forças armadas e polícias civil, militar e federal, todos sob o comando do exército. Assim é constituído um dos maiores centros de tortura do país, eficientes na aplicação de métodos de tortura, estupros e assassinatos que foram implantados em escala nacional sob a sigla de DOI-CODI, vinculado ao exército brasileiro. Esse organismo, visava eliminar a oposição política no país.

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No Brasil, em 1974 temos o maior número de casos de desaparecimentos de militantes políticos, o que chama atenção é que não há caso de morte reconhecida oficialmente pela repressão, o ditador, general Ernesto Geisel (1974-1979), tomou como política obrigatória que fez com que houvessem mudanças nas formas de repressão, que passou a atuar em espaços clandestinos. Até então as mortes que ocorriam eram geralmente exibidas nas mídias, num tom sensacionalista como “terrorista morto em tiroteio” e “terrorista suicida na prisão”, davam uma versão oficial falsa a militantes mortos em sessões de tortura, os opositores são sequestrados, torturados e assassinados e seus corpos são ocultados. A ordem era matar.

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2. A VALA CLANDESTINA [...] eu cruzei com o administrador do cemitério (de Perus) que me convidou para me afastar e ir ao fundo do prédio da administração. Fomos até às covas porque ele me queria contar uma história que pretendia contar já há bastante tempo. Ele contou-me que havia sido testemunha da abertura de uma grande vala nos anos 70, onde teria sido colocada uma grande quantidade de ossadas. Ele calculava alguma coisa por volta de 1500 ossadas. Isto teria sido feito por parte de homens da repressão política daqueles anos e ele guardava aquele segredo há muito tempo (Caco Barcellos in TELES, 2001, p. 208).

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No dia 04 de setembro de 1990, data em que se registra a abertura da vala clandestina, localizada no cemitério Dom Bosco no Distrito de Perus, zona norte da cidade de São Paulo. As dimensões da vala eram de 30m de comprimento, por 2m de largura e 2,70 de profundidade, vala que trazia ossadas de presos políticos e indigentes da cidade de São Paulo, vala essa, que escondia tudo que o período militar queria esconder da sociedade. 1500 ossadas de indigentes, mendigos, negros, jovens, vítimas da repressão, dos esquadrões da morte, e crianças, todos, vítimas das mazelas e preconceitos sociais. Presos políticos, sequestrados, torturados, e assassinados no DOI-CODI e no DEOPS-SP(Departamento de Ordem Política e Social), órgãos de repressão política.

A abertura da vala, trouxe impactos e repercussões que se estendem até hoje. Sua abertura ocorreu por meio de investigação do repórter Caco Barcelos, onde investigava onde foram parar os corpos que a ditadura militar omitiu. Após a sua descoberta, com o apoio da prefeita Luiza Erundina, os familiares juntamente com legistas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, identificaram alguns desaparecidos políticos, 14 até o momento.

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A descoberta da vala faz parte da incansável busca dos familiares por seus parentes, nas idas aos cemitérios, ouviram de funcionários, notícias que presos políticos assassinados eram enterrados com nomes falsos. Os policiais que traziam seus corpos referiam-se a eles como terroristas, estratégia para encobrir as suspeitas sobre cadáveres com marcas de tortura. Souberam qu, as ossadas foram exumadas e colocadas de forma clandestina numa vala comum entre 1975-1977. O ocorrido, fez com que a sociedade conhecesse de forma mais íntima a dor afetiva, moral e social, causados pelo terrorismo de estado empregado no período militar. Começam a ser revelados os horrores do período, o povo que sofreu suas perdas em silêncio, pela primeira vez apareceu junta à vala em busca de seus mortos, para manifestar, chorar, ascender velas, colocar flores e prestar homenagens. A Vala Clandestina de Perus retomou a mobilização social perante as atrocidades da ditadura, ainda que não fossem identificados grande parte dos corpos das vítimas assassinadas. .

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Os ossos falam... [...] surgiram os desaparecidos: não mais havia a notícia da morte, um corpo, atestados de óbito – essas pessoas perderam seus nomes, perderam a possibilidade de ligação com seu passado, tornando penosa a inscrição dessa experiência na memória coletiva. (TELES, 2001, p. 11-2) MEMORIAL DA VALA | 21


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o ato


O memorial da vala é um lugar dedicado à preservação da memória, da resistência e repressão. Um tributo a todos que, imbuídos do ideal de justiça e democracia, lutaram contra a opressão no período da ditadura militar no Brasil (1964-1985). O memorial, tem como compromisso a construção da memória e da história política recente do Brasil. Está localizado na Estrada do Pinheirinho, s/n no distrito de Perus, São Paulo/ SP. Divisa com o município de Caieiras. Ao lado do Cemitério Dom Bosco.

O primeiro ato, é a penitência, é o corte no território, uma cicatriz. É criado um percurso com 1500 placas de aço corten, são 1500 placas, 1500 mortos.

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[...] quando minha mãe e minhas irmãs foram libertadas após um ano e meio de prisão, passaram a visitar o cemitério. Elas eram acompanhadas e ameaçadas por policiais desde o trajeto da estação de trem de Perus até o cemitério, dois ou três quilômetros adiante. Muitas vezes as ameaças aconteciam nas proximidades do túmulo. (SÃO PAULO, 1992.)

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O Memorial portando não começa no terreno ao lado do Cemitério Dom Bosco, o Memorial da Vala, parte da estação de Trem de Perus, marco de ameaças e de repressão policial. A penitência em placas, é a materialização dessas em pessoas, a escolha do aço corten é devido a sua aparência envelhecida, essas pessoas materializadas em placas, agora podem envelhecer. As placas guardam um rasgo, um vazio, ausência, e tem o tamanho da escala humana, pois são pessoas, onde eu posso abraçar, interagir e toma-la como ente querido.

as placas

vista superior

vista superior

vista lateral

vista lateral

vista lateral

vista superior MEMORIAL DA VALA | 25


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implantação


A penitência termina na praça de acesso do memorial (cota 815), continua-se o percurso em rampa, essa, em alguns trechos embaixo da terra. Aqui, é a experiência de entrar na “vala”, da busca da luz no fim do túnel. o percurso está no meio da natureza, e seu fim está na cota 750. Aqui está a Vala Clandestina, no meio da mata, junto a natureza. Como último ato, a última pedra extraida das pedreiras da Cantareira, ela marca o fim da extração de pedra na serra, e é sepultada no acolhimento do Memorial da Vala. A implantação é o T, o T de terrorista, como eles eram identificados, e como eles foram achadados. o T não é para nós nos reconhecermos, mas para eles, já mortos se reconhecerem do céu.

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o ch達o


No chão (cota 750), está o final do percurso, antes do seu fim, o primeiro mirante. Lugar de contemplação da nascente do rio, o nascer do homem, o nascer do memorial. No chão está o Teatro da Terra, lugar de acolhimento, lugar de troca de experiências, de dor, de luta, de reunião, de assembleia, é o educativo do Memorial da Vala, de forma primitiva, na terra, no chão. No fim da linha que marca a rampa, temos o segundo mirante, aqui se vê a luz no fim do túnel, o horizonte e 14 placas de aço corten, os 14 reconhecidos da Vala de Perus, junto ao rio, junto a natureza. Três estúdios, de gravação, de depoimentos. É a sala de vozes, sala da dor, da perda, sala que se escuta a voz do pedido de justiça, de reconhecimento, do prestar de contas, do grito, do choro.

1- MIRANTE, 2- TEATRO DA TERRA, 3- ESTÚDIOS, 4- ACERVO, 5-MEMORIAL ÁREA TÉCNICA, DA VALA6-| MIRANTE 29


No chão se visualiza a vala, lugar de silêncio, luto e memória, lugar onde os ditadores tentaram esconder os desaparecidos políticos e as vítimas das mazelas sociais.

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A vala é contemplada a todo momento, desde o chão ao piso das memórias, a rampa de acesso ao memorial se volta a vala, tem bancos para sentar e contemplar, é na rampa que eu acesso as memórias destes 1500 anônimos

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a mem贸ria


Na cota+ 3.40, está a área expositiva com duas salas de exposição, a exposição temporária na extremidade norte do Memorial, junto a Vala Clandestina, e a exposição permanente na extremidade sul. Nesse piso localiza-se também a administração.

1- EXPOSIÇÃO PERMANENTE, 2- ADMINISTRAÇÃO, 3- EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA

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As placas de aço corten materializadas no homem, marcam o território e fazem penitência até o Memorial da Vala, elas possuem um vazio, ausência. Esse vazio, é pedaço de placa de aço corten, dentro do memorial, na parede do memorial, essa plaquinha contém o nome do ente querido e suas características. Ao ser reconhecido o corpo, a plaquinha se junta a placa de aço corten, como peça que falta no quebra-cabeça, como parte do corpo que se encontra ao corpo, a placa reconhecida ganha nome, ganha identidade e é sepultada no memorial junto as 14 placas que estão no chão, próximos da natureza, a placa que é homem, tem como fim morar junto do rio, no meio da natureza.

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o casulo


No piso +6.40, esta o conhecimento, a biblioteca do Memorial da Vala. Biblioteca com acervo sobre a ditadura. A biblioteca funciona como arquivo, sua área de estudo é lugar de reclusão, de isolamento e estudo.

1-BIBLIOTECA, 2- CASULOS

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o constructo


O barro como principal matéria, o memorial da vala é de tijolo de barro, é a metáfora do homem, que nasce do barro e renasce como memorial. A pedra é o último ato. O vidro reveste o prisma da rampa de acesso ao memorial. MEMORIAL DA VALA | 39


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1. alvenaria de pedra 2. viga metálica perfil I .40x.40cm 3. piso vinílico reciclável 4. alvenaria de tijolo maçico de barro 5. fechamento de viga metálica em tijolo maciço 6. perfil tubular .60cm de diâmetro 7. platibanda em tijolo maciço 8. teto verde sob. módulo laminar médio 9. energia solar: painél fotovoltáico 10. laje em tijolo maciço 11. massa de ligação entre viga e tijolo 12. guarda corpo em aço 13. palco de pedra 14. sistema de ar condicionado 15. velame translúcido em nylon trançado reciclável 16. claraboia i:4% 17. vidro de fechamento de prisma 8mm 18. cantoneira metálica 19. olhal suspenso

detalhe do casulo

detalhe construtivo

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Encontrar um desaparecido é honrá-lo, dar-lhe um lugar na memória. A palavra ‘desaparecido’ esconde quatro atos – o sequestro, a tortura, o assassinato e o desaparecimento. Porque sabemos que não estão desaparecidos, sabemos que estão mortos. (Juan Gelman) MEMORIAL DA VALA | 43


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as referências


Parque da Pedra Tosca RCR Arquitectos Espanha

Memorial Walther Benjamin Daniel Kharavan Portbou-Espanha

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Memorial das vĂ­timas do massacre em Oslo Jonas Dalhberg Noruega

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Memorial do Voo MH17 ATP Arquitectos Holanda.

Adegas Bell -lloc RCR Arquitectes Girona, Espanha

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BIBLIOGRAFIA I Desaparecidos Políticos um capítulo não encerrado da História Brasileira / Instituto Macuco — São Paulo: Ed. do Autor, 2012. — (Desaparecidos Políticos um capítulo não encerrado da História Brasileira; v. 1) I Vala de Perús (São Paulo, SP) - Bairro - Descrição 2. Vala de Perús (São Paulo, SP) Bairro - História I. Instítuto Macuco. II. Série. I Careri, Francesco Walkscapes. O caminhar como prática estética.

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TFG I Memorial da Vala