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NEPP - NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICANÁLISE

Curso de Pós-graduação Lato-sensu em Formação Psicanalítica

e-mail: nepp@nepp.com.br Site: www.nepp.com.br


SEMINÁRIO TEMA: CONCEITO DE OBJETO EM PSICANÁLISE

Profº Sérgio Costa.


CONCEITO DE OBJETO Considerações Iniciais Uma teoria sobre o objeto constitui-se no ponto de convergência obrigatório das dificuldades primordiais da teoria psicanalítica.


Não é paradoxal que um esclarecimen-to sobre o papel do objeto seja imperativo para definir o sujeito na psicanálise. Trata-se, portanto, de uma área teórica chave para fundamentar um esquema referencial ou para conceituar diferenças e semelhanças entre vários esquemas referenciais teóricos e técnicos.


O OBJETO FREUDIANO Existe certa quantidade de conceitos interligados, e que são, absolutamente imprescindíveis para a compreensão do conceito de objeto na teoria freudiana, mas cuja revisão exaustiva seria incompatível, por sua extensão, com o propósito do presente seminário.


Na teoria freudiana, a relação de objeto, tem uma interelação, com os conceitos de a: pulsão; representação; traço mnêmico; identificação;


organização do ego; instâncias e aparelho psíquico narcisismo; afeto; sujeito; relação ego/não-ego; percepção; conhecimento.


À medida que se faz a análise dos textos freudianos surge a impressão de que em toda relação com o objeto coexistem simultaneamente dois níveis: em um, o sujeito vincu-la-se com o objeto por um propósito particular; no outro, a relação implica uma função estruturante. A primeira é uma relação de objeto e a outra uma relação intersubjetiva. Em muitos casos os dois tipos de relação ocorrem simultaneamente


Primeiro Exemplo A nível da pulsão, o objeto satisfaz uma necessidade de conservação do sujeito mediante uma ação específica e, por apoio, cria-se um desejo de pulsão sexual que já transcende a percepção externa do objeto e ainda sua representação interna. O primeiro é uma relação de objeto. O segundo acontece simultaneamente com a identificação primária e o complexo do semelhante, e é uma relação intersubjetiva.


As pulsões vão "em apoio" uma da outra, mas o objeto e o sujeito vinculam-se por identificação e diferenciação.


Segundo Exemplo No momento-estrutura do narcisismo, o objeto produz um intercâmbio libidinoso (econômico). Isto seria uma relação de objeto. Porém simultaneamente presta-se aos jogos estruturantes, que logo intervêm na escolha de objeto e que pertencem ao âmbito da sexualidade. Neste sentido, é uma relação intersubjetiva.


Terceiro Exemplo O momento-estrutura da identificação é o ponto máximo de intrincamento entre a relação de objeto e a relação intersubjetiva, ou talvez o ponto em que esta última recobre totalmente a primeira. Devemos manter uma diferença, pois existem identificações que auxiliam a funções próprias do sujeito (p. ex., a identidade sexual por identificação com o progenitor do mesmo sexo),


e identificações que representam uma maior e mais complicada relação intersubjetiva (como o superego ou a identidade sexual por identificação com o progenitor do sexo oposto).


Quarto Exemplo O momento-estrutura da diferenciação é o do sujeito quando pode examinar o real com e identificações que representam uma maior independência de suas identificações (mas e mais complicada relação intersubjetiva o superego ou a identidade sexual por levando-as(como em conta), constituídas em identificação com o progenitor do sexo oposto). relações intersubjetivas, e portanto pode construir um espaço mental próprio, mantendo apesar disto sua pertinência à cultura e à sua transmissão através do complexo de Édipo.


Como verificamos, esta dinâmica dupla entre o objeto e o sujeito corresponde-se com a existência de dois egos: o ego das funções psicológicas (que inclui também a preser-vação do biológico do sujeito) e o que é o produto das identificações, um ego "psicanalítico". A partir desta perspectiva, haveria, então, na obra de Freud dois grandes tipos de objetos: os que se relacionam com o ego das funções através de relações de objeto "em apoio" com o sujeito e os que constituem o ego das


Identificações mediante relações intersubjetivas.

É necessário um estudo à parte sobre as diferentes concepções do ego para aprofundar a índole de suas relações com os objetos.


Outra linha de considerações gira em torno do conceito de objetividade do sujeito. A existência de uma porção do ego que se mantém invariável como coisa em si, unido a um pensamento auto-observador, realizando um exame da realidade; a existência de um juízo incerto baseado na busca das diferenças (mais que das semelhanças) entre os objetos, com o caráter de uma curiosidade "científica" já desligada de uma necessidade primária; a seletividade dos processos de identificação, somada ao fato de


que se produzem em circunstâncias psíquicas e temporais de conflito; as características da escolha de objeto, onde só o fato de ser outro objeto já afeta a ilusão narcisista de uma total subjetividade (ainda que seja uma subjetividade totalmente alienada); a consideração da força da pulsão e da bissexualidade constitucional como componentes inegáveis na determinação do sujeito, além (ou aquém) das influências das identificações: todos estes elementos


apontam, que se para Freud não existe o "livre arbítrio" do sujeito (Freud foi justamente quem mais contribuiu para a destruição deste mito), tampouco haveria uma "alteridade radical" do sujeito, apenas haveria no próprio sujeito aspectos ou funções capazes (pelo menos, potencialmente) de mostrar certa objetividade ou autonomia ainda dentro da intersubjetividade em que se acha imerso.


Por fim, algumas pontuações de ordem metodológica e epistemológica. Freud não parece se preocupar o mínimo por desenvolver uma teoria unificada nem monolítica do objeto (nem, como sabemos, de quase nenhuma outra coisa). Basta, para fundamentar esta última observação, o seguinte levantamento incompleto: existe em sua obra pelo menos duas teorias do aparelho psíquico (que não se superpõem); duas teorias dos impulsos (que se imbricam); vários sentidos diferentes de


conceitos como o de objeto; usos diferentes do termo "transferência" (na teoria e na prática, por exemplo); diversas concepções sobre o recalcamento; duas teorias sobre a angústia (que não se superpõem); termos empíricos (v. "resistência") coexistentes com outros de alto status teórico (v. "recalcamento primário") sem que se sinta a obrigação de se estender pontes estritas entre eles; várias concepções radicalmente diferentes do ego etc.


O motivo principal do caráter duradouro da obra de Freud parece residir, mais que em razões de tipo histórico ou psicológico, ou vinculadas a filiações pessoais, em sua fundamental insaturabilidade, que se devem a duas razões específicas: O uso das teorias como um elemento imprescindível e, contudo, eventualmente cambiável (concebidas, neste aspecto, como as relações com o objeto).


Em nenhum momento se convertem em um objeto fetiche nem em um emblema de pertinência a uma causa. A atitude de Freud frente ao conhecimento dos objetos é aberta; não existe para ele verdades últimas, nem métodos que, por aperfeiçoados que sejam, nos dêem uma imagem exata de um “suposto estado real


O semelhante, o outro, sempre será objeto privilegiado pelo sujeito para o conhecimento, assim como o foi para a sua constituição; e tanto nas relações iniciais de constituição como de conhecimento posteriores estarão implicados aspectos objetivos do sujeito e outros subjetivos. Talvez esta combinação seja a que determine que "o real sempre sendo incognoscível" [loc.cit.],


e também o motivo do sofrimento permanente nas relações interhumanas, que Freud nos assinala como uma das três fontes de nosso mal-estar na cultura.


A relação objetal em Freud e o Narcisismo O conceito de narcisismo tem na teorização psicanalítica uma situação semelhante a do conceito de identificação: ambos levaram a uma reestruturação profunda da teoria psicanalítica. A identificação dá origem a um conceito radicalmente distinto da estrutura psíqui-ca ao descobrir-se que esta provém, em grande


parte, das vicissitudes da relação objetal mediante o papel estruturante da identificação. O narcisismo, uma vez "introduzido", transforma por completo a teoria das pulsões, até situar a raiz última do conflito psicológico na luta entre libido e destrutividade, Eros e Tanatos. Mas, o conceito de narcisismo tem outra face que interessa vivamente ao nosso objetivo atual.


A teoria do narcisismo influi de maneira muito direta tanto no conceito de objeto como no de instâncias psíquicas (ego e inclusive superego).

Poderíamos definir o termo “narcisismo” em três usos mais comuns: Usado como termo essencialmente como uma das formas ou vicissitudes da libido. Usado como termo, onde recai sobre o objeto nos estados narcisistas, e os problemas do narcisismo se juntam com os da identificação em sua forma introjetiva.


3. Usado como termo onde este é utilizado de forma mais frouxa, referindo-se a atitudes, sentimentos, traços caracterológicos que apontam para valorização, desvalorização, e supervalorização deste ou daquele aspecto da pessoa. O conceito de narcisismo tem na obra de Freud uma história das mais complicadas, e não segue uma linha de desenvolvimento reta, mas oscilante e cheia de idas e voltas, e ainda de mudanças de sentido. Originariamente, o que depois se decantará como narcisismo se encontra misturado com o conceito de auto-erotismo (1899).


A decantação se produz progressivamente entre 1900 e 1914, pela necessidade de dar conta de vários fenômenos, entre eles a escolha de objeto homossexual e a megalo-mania. Auto-erotismo e narcisismo tendem então a discriminar-se um do outro; o primei-ro significa um estado anobjetal prévio à formação de um ego e um modo de satisfação da libido com o próprio corpo do sujeito. O segundo significa primitivamente uma relação da libido com o objeto exterior na qual aquela se desprende deste e retorna ao próprio ego, o qual recupera um estado anterior em que era o protótipo de todo o objeto futuro.


Temos assim presentes cinco termos: o auto-erotismo como estádio da libido, o auto-erotismo como modo de satisfação libidinal, o narcisismo secundário, o narcisismo primário e as pulsões do ego, que não são capazes de satisfação autoerótica nem suscep-tíveis de se diferenciar em fases ou estádios como faz a libido. Entre esses cinco termos Freud oscila adotando às vezes uma configuração parcial, às vezes outra (por exemplo, há duas fases, uma auto-erótica, a outra narcisista, que correm ao mesmo tempo que as pulsões do ego etc). Em 1923, com “O Ego e o ID", parece chegar a uma concepção sistemática: existe um narcisismo primário, no qual toda a libido se concentra no id, enquanto o ego está em formação.


O id investe os objetos, e a identificação ulterior do ego com estes objetos exteriores (junto com a correspondente orientação do investimento do id para o ego) constitui o narcisismo secundário; o que se chamava antes narcisismo secundário é o que se chama agora narcisismo primário. O auto-erotismo é somente um modo de satisfação de um estado estruturalmente definido, que é o narcisismo. Ao mesmo tempo, vai-se enriquecendo o conceito de narcisismo, já que a satisfação narcisista pode provir, seja do id que ama ao ego como amou aos objetos exteriores, seja através do sentimento do ego de ser querido pelo superego, seja da aprovação do superego que felicita o ego pelo cumprimento de seus mandados. O id ama ao ego; o superego ama ao ego; o ego ama ao id e o superego: o narcisismo seria então a harmonia paradisíaca reencontrada entre as instâncias.


Um Deus pai bondoso bendizendo os amores de Adão e Eva em um paraíso repleto de comestíveis, desprovido de ódios e onde todas as frutas são permitidas. Freud não pode manter a formulação de “O Ego e o ID" sobre narcisismo primá-rio e secundário nem essa definição de auto-erotismo. Em virtude seja do esquema referencial teórico e da evolução da teoria das pulsões, todo o problema do narcisismo se recoloca: é que todas as pulsões, as do ego, já não são fundamentalmente distintas da libido, e por outro lado ambas se opõem radicalmente a outro grupo de pulsões, as pulsões de morte, que vêm perturbar a ordem de cabo a rabo.


Desde então, o problema está sem solução e Freud volta a definições anteriores de auto-erotismo, de narcisismo, e chega a incluir uma organização narcisista primitiva do sadismo (absolutamente lógica, mas que se opõe a uma quantidade de outros conceitos). Do exame histórico temos: o conceito de narcisismo é imprescindível; Freud nunca conseguiu harmonizá-lo totalmente com o resto da teoria psicanalítica (em mu-dança contínua, além do mais); nunca saberemos se para Freud o grande reservatório da libido foi o ego ou o id.


Como resultado de todo este arcabouço teórico podemos concluir que:

Paradoxalmente, o estudo do narcisismo dá uma alavancada fundamental no estudo do vínculo objetal e da estrutura do objeto. Abre-se um novo capítulo da "objetologia" freudiana, em particular no que concerne às perversões, aos estados de apaixonamento, aos grupos, à psicose, à evolução ou desenvolvimento normal. Inicia-se a compreensão das relações entre a estrutura do objeto e as características (especulares ou fantásticas) do próprio sujeito e de suas instâncias. O narcisismo é estruturante.


Elimina-se de antemão todo o esquema simplista das fases da evolução da libido (Abraham). Nem o auto-erotismo nem o narcisismo podem ser considerados tão so-mente como fases relativamente simples de uma evolução linear: porque Freud não resolveu o problema de se o auto-erotismo devia definir-se como uma fase evolutiva ou como modo de satisfação; porque desde 1920 aparece um poderoso opositor da libido, Tanatos, e a ideia ineludível de uma "organização sádiconarcisista". A consi-deração devida deste ponto teria poupado o pensamento psicanalítico ulterior de alguns erros e becos sem saída (digo isto com plena estima do esforço sintetizador de Abraham, que teve seu valor, ainda que tenha


se convertido depois em obstáculo para a investigação, por causa da decisão empedernida de muitos analistas de não mais pensar sobre ele). Fica patente o progressivo desuso do auto-erotismo (com excessão de seu significado como modo masturbatório de satisfação) nas últimas obras de Freud.


O OBJETO NA OBRA DE MELANIE KLEIN

Supomos que Melanie Klein, por razões de coerência, nunca houvesse retomado por conta própria a afirmação de Freud de que o objeto é o aspecto menos essencial da pulsão (já que pode facilmente ser substituído por outro). A passagem de Freud a Klein manifesta-se primeiro em uma mudança de ênfase, esta se desloca da pulsão ao objeto. Outro ponto levanos a perceber esta diferença: Freud nunca adotou totalmente o conceito de introjeção, ainda que tenha usado o termo em várias ocasiões desde sua introdução por Ferenczi. Pelo contrário, para Melanie Klein o objeto é inseparável das operações que se realizam a propósito dele (antes de mais nada, o splitting, a introjeção e a projeção).


Provavelmente a insistência de Freud em utilizar o conceito de introjeção, provinha de que previa as modificações que tal uso viria a exigir em sua construção teórica sobre as pulsões. Por isto, em "Duelo y melancolia" abre uma nova linha de teorização sem explorá-la profundamente; não o faz nem nas obras ulteriores, como "El yo y el ello", onde percebe que os fenômenos descritos em "Duelo y melancolia" ultrapassam amplamente o campo do luto e incidem em todo desenvolvimento psíquico.

Quando M. Klein fala do objeto, não designa com isto exatamente o mesmo que Freud, nem mesmo nas obras deste que lhe serviram de ponto de partida.


Por isto, em "Duelo y melancolia" abre uma nova linha de teorização sem explorá-la profundamente; não o faz nem nas obras ulteriores, como "El yo y el ello", onde percebe que os fenômenos descritos em "Duelo y melancolia" ultrapassam amplamente o campo do luto e incidem em todo desenvolvimento psíquico. Quando M. Klein fala do objeto, não designa com isto exatamente o mesmo que Freud, nem mesmo nas obras deste que lhe serviram de ponto de partida.


Mas também em M. Klein o conceito de objeto não é unívoco. Sem buscar discriminações muito minuciosas em suas obras, podemos distinguir um uso metapsicológico e um uso fenomênico, descritivo, do conceito; diferença que não é, salvo exceções, marcante. Esta ambigüidade tem seu aspecto positivo: permite a M. Klein uma maior riqueza e plasticidade na compreensão dos fenômenos clínicos, o que, no entanto, como pólo negativo, acarreta paralelamente umcerto número de dificuldades teóricas. O objeto que é algo absolutamente privilegiado na metapsicologia kleiniana — o seio — é um dos pontos a ser bem estudado. Isto levar-me-á ao problema essencial desta classe de substancialidade do objeto que constitui, talvez, a contribuição mais imprescindível de M. Klein ao enriquecimento do conceito.


Algumas questões do Seio para M. Klein Para M. Klein, o objeto pode formar núcleos no ego, em que estes núcleos — funcional e objetal — chegam a combinar-se em uma estrutura única, dada sua natureza profundamente heterogênea, suscita um problema teórico de difícil solução, mas não fundamentalmente distinto do problema que apresenta a dualidade do ego na metapsicologia freudiana: o ego como "resíduo de sucessivas identificações" e o ego como conjunto de funções (percepção, memória etc.) apresentam a mesma dificuldade a quem quiser dar conta da forma em que se realiza sua integração em uma unidade. Nem Freud nem M. Klein parecem poder escapar a um conceito híbrido da formação do ego.


A visão kleiniana da formação da estrutura do superego a partir do objeto introjetado escapa a esta dificuldade (como também o fez a descrição de Freud, muito diferente no resto). Um exame dos textos pertinentes de M. Klein mostra que o superego constitui-se por aproximação de dois núcleos objetais, extremamente contraditórios no princípio, mas semelhantes em sua natureza objetal: o seio persecutório e o seio idealizado.

Do objeto persecutório o superego conserva a crueldade, a periculosidade, a onipotência dominadora. Do objeto idealizado que contribuiu à sua constituição herda sua grandeza, seu direito a castigar ou recompensar, seu poder de


determinar o que está certo ou o que está errado. Sua dualidade de origem dá conta de sua natureza violentamente contraditória e de sua relativa fragilidade: os estados regressivos tendem a romper com sua unidade, restituindo suas partes constitutivas à sua fisionomia original, um perseguidor e um ser ideal.

Poder-se-ia dizer, levando em conta os objetos que povoam o ego e o superego, que o objeto como estrutura endopsíquica constitui o conceito chave da metapsicologia Kleiniana. Esta seria, no entanto, uma visão parcial do pensamento de M. Klein.


Dentro da multiplicidade dos "cidadãos do mundo interno" destaca-se um objeto particular, ao qual M. Klein atribui características prototípicas e cujas vicissitudes vão determinar a qualidade de toda a série objetal: o seio interiorizado. Por isto, um exame mais detalhado deste objeto pode ser esclarecedor no que diz respeito aos problemas do objeto em geral. No léxico comum, "seio" designa um objeto natural, uma parte do corpo, especialmente do corpo feminino (em geral, os seios dos homens não suscitam maior interesse), essencial na função de amamentação e dotado de um intenso valor erótico. O conceito de seio em M. Klein, se bem que não está totalmente desligado deste objeto, possui características que não condizem com um objeto natural ou com


sua representação interna. Isto se percebe até na própria linguagem: M. Klein diz "o seio" da mãe e não "os seios", como se dá normalmente na natureza. O seio pré-existe à experiência. Na fantasmática transcedental, é o centro de uma quantidade de fantasias originárias que condicionam a possibilidade de amamentação e, inclusive, podem impedi-la em certos casos de recém-nascidos aparentemente normais e que alcançaram o grau de maturação necessário para a lactância. Do mesmo modo, a ativação circunstancial destas fantasias pode interromper uma lactância já iniciada e obrigar a substituir a amamentação natural pela artificial.


O seio da mãe pode ser substituído também por um objeto artificial — a mamadeira — sem perder sua função essencial na vida do lactente e sem que esta substituição afete fundamentalmente a relação ulterior do indivíduo com o seio interiorizado. Tudo se dá como se, neste caso, a cota de dados empíricos necessários para preencher as fantasias originárias e constituir o objeto da fantasia fosse muito pouco importante com relação ao universo fantasmático; isto não implica que a relação efetiva com a mãe na experiência de amamentação não tenha uma importância decisiva, mas sim que a percepção real do seio como órgão natural não é determinante para conferir sua forma ao seio interiorizado.


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